sábado, 16 de outubro de 2010

Posicionamento do Pr. Paschoal Piragine Jr. sobre as eleições 2010 - Requerimento à OPBB

Ao Presidente da
Ordem dos Pastores Batistas do Brasil
CC: Diretor Executivo da OPBB, Diretoria e Diretor-Executivo da CBB

Na qualidade de associado à ordem dos Pastores Batistas do Brasil, sob o número 5196, venho solicitar a retirada da carta de apoio ao discurso do Pr. Paschoal Piragine da home page da instituição, por entender que o discurso objeto de apoio é destituído de fundamentos básicos, sejam eles bíblico-teológicos, estatísticos, jurídicos e éticos, para representar o pensamento de uma organização que, em sua história, foi capaz de produzir documento tão qualificado como o pronunciamento de 1963.

O fundamento de tal solicitação encontra-se exposto a seguir, que é uma análise detalhada e atenta do conteúdo do vídeo que originou tal apoio do presidente e diretor-executivo da OPBB.

O discurso do Pr. Piragine

O discurso do Pr. Piragine, proferido no púlpito da PIB de Curitiba, divulgado na internet e acessado em torno de 3 milhões de vezes, provocou um forte impacto negativo na sociedade, a ponto da Revista Carta Capital, de circulação nacional, defini-lo como “um  libelo contra a livre opção dos eleitores” (Carta Capital de 13.10.2010)

Iniciado de maneira suave, como quem nada queria, define iniqüidade como o estado de quem não sente vergonha de pecar e cujo coração está tão endurecido que a pessoa não é capaz de reconhecer o pecado. Quando se chega a este ponto, declara, Deus é obrigado a julgar a terra, a nação, o povo.

Com essa breve introdução, ele lembra que nunca, em 30 anos de pastorado, fez o que faria, criando uma sensação de que o que seria dito era extremamente grave e relevante.

A primeira parte de sua fala é totalmente correta. Destaca a importância das eleições, então por vir, lembrando o papel de deputados, senadores e presidente da República na elaboração, sanção e aplicação de leis que teriam desdobramentos nas casas legislativas, administrações estaduais e sociedade em geral. Diante disso, pessoas com valores cristãos precisariam trabalhar “nestes contextos”.  Anuncia, então, que “evangélicos” e “católicos” estariam unidos no sentido de não permitir que a iniquidade fosse institucionalizada “na forma da lei”. Percebe-se aqui que o interesse político fez o que valores do Reino de Deus não foi capaz de fazer nesses 500 anos: aproximar algumas lideranças evangélicas e católicas conservadoras.

Nesse momento ele pede às ovelhas que assistam a um vídeo que fala das iniqüidades que seriam institucionalizadas “na forma da lei”. Aqui começa o pecado do Pr. Piragine. Reafirma que tudo que passaria no vídeo seria iniqüidade institucionalizada, por isso, desafia as ovelhas a dizer que não querem isto para a nossa nação. Desafia, também, as ovelhas a procurarem candidatos que as representassem, declarando-se contra estas coisas, a fim de que a iniqüidade não fosse institucionalizada, caso contrário Deus não teria outra coisa a fazer senão julgar a terra.
         
Sem citar um único versículo bíblico, declara que é isto que a Bíblia diz.
         
        O vídeo

O vídeo trata de temas relevantes para a vida em sociedade que, de fato, merecem atenção. Inicia falando das terríveis crises vividas pelo mundo, mostrando imagens fortes de placentas, além de crianças em situação de abandono e indaga se a igreja sabe o que está acontecendo. A partir daí trata dos seguintes temas:

“Lei da mordaça” – fala dos riscos que a igreja corre de ser incriminada por discordar do homossexualismo. Apresenta uma imagem de uma passeata gay, na qual os participantes são desafiados a não votarem em fundamentalistas e uma crítica à Bíblia é feita por um travesti;
Pornografia – Apresentando imagens sensuais, destaca o crescimento da pornografia e da imunidade da indústria pornográfica que faz dois filmes por dia;
Pedofilia – Destaca a presença deste mal em todas as classes sociais e que o DISQUE 100 recebe 30 mil denúncias anuais de abuso contra crianças e adolescentes;
Enfraquecimento da família – Critica, como situações que enfraqueceriam a família por reconhecer como entidade familiar: a) as uniões estáveis entre duas pessoas e b) o divórcio, como se isso já não fizesse parte da legislação brasileira. Afirma também, sem citar fontes, que a taxa de divórcio no Brasil está em 45%, que o Brasil é o país que melhor aceita o divórcio num universo de 35 países (sem citar quais) e que apenas 12% dos brasileiros são favoráveis à manutenção do casamento (sem citar fonte). Ora, se os evangélicos são 25% da população, então, nem metade deles defende o casamento;
Violência familiar – Narra que a violência contra a mulher ocorre mais da porta pra dentro do que da porta pra fora e destaca que pais matam filhos e filhos matam pais;
Infanticídio – Sem citar fonte, informa que milhares de crianças indigenas são enterradas em tribos do Brasil por ordem do Pagé e passam horas embaixo da terra até morrerem sufocadas. Percebe-se que a linguagem é totalmente emocional e ideologizada. Faz referência a uma lei chamada Muwaji (PL 1057) que, sem ela, as crianças estariam desprotegidas e crianças seriam mortas em nome da cultura;
Aborto - Depois de dizer que estamos matando nossas crianças de todas as formas, declara que há uma emenda (sem explicitar) que descriminaliza e autoriza a prática de aborto até o 9º mês de gestação (mostrando imagens fortes de crianças estraçalhadas) declarando que serão mutiladas e arrancadas do útero com métodos cruéis. Fala de um cano de sucção penetrando no útero e de um feto desesperado, ao som do bater de um coração, dizendo que o feto sabe que algo errado está acontecendo, grita silenciosamente, mas nós não sabemos.

O filmete termina questionando a igreja que fechou-se em seus problemas internos e a desafia a reagir.

Percebe-se, portanto, que, conquanto os temas abordados sejam relevantes, o seu conteúdo é destituído de qualquer tipo de fundamentação ou fonte de referência para os dados fornecidos, falando de leis existentes como se não existissem e dando a entender, juntamente com o discurso preliminar do pastor, que todos esses males – pedofilia, violência contra a família, infanticídio, aborto indiscriminado e sem qualquer critério - serão institucionalizados “na forma da lei”.

Reflexão final

Ao reassumir a palavra, o Pr. Piragine diz que tudo isso – todos os males apresentados no vídeo - está acontecendo em termos de projetos de lei que, sendo aprovados, permitirão que essas coisas que pra nós são iniqüidade, se transformem em coisas completamente legais e normais em nossa nação.

Isso não é uma calúnia somente contra o Congresso Nacional. É um atentado contra a inteligência de todos os brasileiros.

Usando tom de voz e discurso piedoso, pede que todos orem e se posicionem, votando em pessoas que se posicionem claramente contra essas coisas e assumam o compromisso de lutar no congresso nacional e na máquina estatal contra a legalização da iniqüidade.

A demonização do PT

Passa a falar que sabe que há pessoas contra e a favor de todos esses temas em todos os partidos, mas há um partido político que fechou questão sobre esse assunto. É o PT. A pergunta é: que assunto? Claro que a ovelha desprevenida está com a mente ligada nos assuntos do vídeo.

Discursa que o PT, no congresso deste ano, fechou questão sobre essas questões do vídeo. Então, se um deputado ou senador do PT votar contra essas leis – legalização da iniqüidade apresentada no vídeo - seriam expulsos do partido. Afirma que dois já foram expulsos por se manifestarem contra o aborto e que isso teria feito com que a Igreja Católica se manifestasse publicamente, pois eles eram ligados à Igreja. Por isso a igreja católica teria emitido nota publica dizendo: não vote em ninguém do PT. E arremata: eu diria a mesma coisa (que a igreja católica). Se um congressista não pode votar pela consciência, então não adianta votar em pessoas.

Chegando ao cúmulo, passa a falar do PNDH3, que está no site do governo federal e retrata todos os projetos que o governo colocou no Congresso para ser votado na próxima legislatura. Todas são questões fechadas pro PT. Todas elas estão aqui nesse vídeo.

Explica que a máquina do governo está mobilizada, com os responsáveis pela mobilização já definidos e queministros que não trabalharem assim perderiam o cargo.

Conclui o discurso político pedindo que as pessoas levem o assunto a sério; reafirma que, como pastor nunca fez isso e esclarece que não está dizendo às ovelhas para votarem em A ou B, mas para não votarem em pessoas que estejam trabalhando em favor da iniqüidade em nossa terra – no caso em candidatos do PT - senão Deus vai julgar a nossa terra e o julgamento de Deus atingirá sua vida e minha vida, pois Deus não tolera iniqüidade.

Termina dizendo amém, é aplaudido. Reafirmando a imagem de piedade, pede que as palmas se transformem em oração.

O curioso é que, mesmo depois de ter sido submetido a centenas de críticas, inclusive de pessoas do seu círculo de relacionamento, nenhuma vírgula do discurso foi reconsiderada e o vídeo passou a ter legenda em inglês para ser entendido em todo o planeta, para vergonha daqueles que acreditam na verdade e justiça e que não concordam que igreja batista seja vista como curral, formada por pessoas amedrontadas por discursos políticos tão explicitamente partidário e ideologizado.

Diante do exposto, requeiro ao presidente e diretor-executivo da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil que retirem da página desta organização sua declaração particular de apoio a este discurso, tanto pela qualidade do discurso, quanto por não representar a compreensão dos associados desta Ordem.

10 comentários:

MARCOS LIMA 16 de outubro de 2010 18:04  

Olha, vou ser radical.
Não é esse evangelho que eu aprendi na Igreja Batista Imperial ou na Batista Emanuel em Recife. Aprendi o que é democracia, liberdade e justiça...mas sem mentiras ou jogadas infames. Sem querer passar a perna nos outros, ludibriar.
Esse "tipo" de evangelho neo-liberal que cria rebanhos pessoais não está na bíblia. ESTOU FORA.

DANILO 16 de outubro de 2010 21:59  

Edvar,

Quanto mais você "reza", mas assombração te aparece, héim? rsrsrs. Como a OPBB se arvora em colocar essa nota de apoio, sendo que seus associados tem posicionamentos políticos tão diversos? Se queriam se pronunciar oficialmente sobre o assunto, não deveriam ter consultado os seus associados primeiro? Vamos ver se ainda existe democracia nas instituições batistas (utopia?)e se vão publicar seu pertinente (como sempre) requerimento. Ah, parece que pelo menos está acontecendo uma coisa boa entre os batistas nessa situação, estão se abrindo para relações ecumênicas com os irmãos católicos! (é claro que estou sendo irônico).
Mas uma vez, parabéns, Edvar!

Oseias Ansay 17 de outubro de 2010 01:33  

Pastor, admiro o seu posicionameto corajoso. Infelizmente estamos assistindo a um espetáculo vergonhoso no qual o mais importante tem sido combater o PT, mesmo que isso signifique atropelar todos os princípios pelos quais os batistas sempre lutaram.

A propósito, gostaria de perguntar: Hipocrisia não é pecado? O Movimento Nacional Cristãos Contra a Iniquidade tem combatido o PT. Alegam que o partido quer institucionalizar a iniquidade. Escrevi um e-mail para eles e não obtive resposta. Perguntei:

Se o MNCCI combate o PL 122/2006 por considerá-lo um projeto que insitucionaliza a iniquidade, por que o movimento calou-se quando o então governador José Serra sancionou a lei estadual 55589/2010 que regulamenta a lei estadual 10948/2001? Ambas as leis estaduais de São Paulo, aprovadas por governadores do PSDB tem o mesmo objeto da PL 122. Por que apenas o Projeto apresentado por uma deputada do PT é iniquidade? A Lei estadual aprovada pelo PSDB COM O MESMO TEOR não é iniquidade? Trata-se de uma lei aprovada em 2001. Quantos pastores foram punidos? Quantas Igrejas paulistas foram fechadas?

Sobre o aborto, tenho a impressão que o assunto está murchando a medida que estão se tornando evidentes atos de representantes do PSDB voltados ao aborto.

Por que esta condenação "seletiva" para as iniquidades? Se for um projeto do PT é iniquidade. Se o mesmo projeto for proposto por algum político ligado ao governador José Serra, releva-se.

Cristo dispensou mais tempo condenando os hipócritas do que as mulheres que abortaram e os homossexuais.

Oséias Ansay
Curitiba
oseias.ansay@uol.com.br

FcoAraújo,pr - Recife. 17 de outubro de 2010 14:48  

Pr. Edvar
Parabéns pelo teor do seu requerimento. Tem o meu apoio. Fiquei deveras enojado com a manifestação tendenciosa e partidária do Pr. Piragine. Nesse episódio o ilustre pastor foi maquiavélico, mentiroso e injusto, ao afirmar que os males expostos no vídeo serão apoiados pelo PT e, em especial o aborto generalizado.
O mal dos Batistas, é que politicamente poucos tem coragem de dizer o que pensam e, quando surge um que fala o que pensa, comete a besteira de não tomar cuidado no que diz.
A contra-reação é normal e o sujeito que disse o que pensou sem medir as palavras é veementemente criticado e para subjetivamente se defender se faz de vítima.
E como em toda organização há os bajuladores e oportunistas, estes sem nenhum senso crítico e político, emitem a sua opinião em nome de uma coletividade. Repudio a nota de apoio da ORDEM DOS PASTORES BATISTAS DO BRASIL-OPBB às palavras e ao vídeo apresentado pelo Pr. Piragine, por entender que o mesmo foi incorreto e que sem qualquer prova ou fundamentação legal e bíblica fez acusações generalizadas e que a sua atitude trouxe inquietações e dúvidas ao povo de Deus, alimentou o disse-me-disse, a calunia, a difamação,etc.. A meu ver o único objetivo do pronunciamento e do vídeo foi o de tentar beneficiar uma facção política em detrimento da outra. O que é uma vergonha!!!

Leões Na Ilha - Torcida Organizada SPORT no Maranhão! 20 de outubro de 2010 08:17  

"Uns choram porque apanham outros por que não lhe dão" - minha vó

rsrs

Robson Souza 22 de outubro de 2010 00:14  

Graça e paz,

Bem, em 1964 houve um grande movimento no Brasil pela "salvação da família" com a "união" de segmentos das igrejas cristãs (Católica e evangélicas históricas: batista, metodista, presbiteriana e outras), conhecido pelo nome “A Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Naquela época diziam que o Brasil seria um país comunista (regime ideológico político de satã) e que os comunistas iriam "comer as criancinhas" e "prender e matar os cristãos verdadeiros". Essa piedade "cristã" empurrou o país para pior ditadura em sua história republicana.

Quando ocorreu o golpe de 1964, as autoridades mais influentes dentro da Igreja católica no Brasil apoiaram a intervenção militar na política acreditando que o governo do presidente deposto, João Goulart, fosse uma séria ameaça à ordem social vigente devido a suas inclinações supostamente esquerdistas e revolucionárias.

A nobre igreja católica agradeceu a "Deus" e apoiou a ditadura militar: Ganhou com isso, o ensino religioso exclusivamente católico nas escolas públicas do país e "professores" (padres) com salários pagos (sem concurso público) pelos contribuintes brasileiros.

Reverendo João Dias relata corajosamente o que chamou “inquisitorialismo”. Durante um longo período a cúpula da liderança da igreja presbiteriana do Brasil (também batista e metodistas e outras igrejas evangélicas) apoiou o regime ditatorial dos militares, perseguindo severamente membros, seminaristas, presbíteros e pastores que se envolvessem com questões referentes à “justiça social e denúncia dos males estruturais da realidade brasileira.

Segundo os relatos, não poucos ministros foram despojados (expulsos do ministério), e outros acusados pela Igreja de serem subversivos; como, por exemplo, Rubem Alves, que durante alguns anos foi pastor presbiteriano na cidade de Lavras/MG, e também é considerado um dos maiores teólogos brasileiros.

As igrejas evangélicas históricas, também agradeceram a "Deus" e apoiaram a ditadura militar: Ganharam "respeito e reconhecimento" pelos ditadores militares; ampliação de vagas de capelão nas forças armadas e nas polícias militares, com salários pagos (sem concurso público) pelos contribuintes brasileiros. Além disso, praças e ruas públicas foram inauguradas com nomes em homenagens a essas igrejas e seus "pastores". E por último, aprovação da lei 1.051/1971 dando aos cursos de teologia dos seminários confessionais da igreja católica e evangélicas, “status” de curso "superior" universitário.

E o povo brasileiro e o Brasil? Só restou pagar a farra destes falsos "moralistas" com os nossos impostos.

Hiperinflação, o maior desemprego na história desde país, fome, 40% da população brasileira vivendo abaixo da linha da miséria, 40% de analfabetismo e o desenvolvimento de favelas nas grandes cidades do país. Além disso, e quase esquecendo: de milhares de brasileiros mortos e torturados pela "maravilhosa e abençoada" ditadura militar brasileira.

Penso que esta história de "moralidade cristã" com a política, o pobre Brasil já viu e pagou caro por isso.

Cordialmente,

Robson Souza
Psicólogo,
Sociólogo,
Teólogo batista e mestre em teologia/IEPG/EST.

Tércio 5 de novembro de 2010 10:40  

Assino embaixo Edvar, de cabo a rabo, aliás, já deve saber que no ponto de maior manifestação dos batistas (um blog dito batista), lancei-o antecipadamente como o novo presidente da CBB.
Por que? Porque suas idéias, tais quais as da Dilma Rousseff para o Brasil, já estão alinhavadas para o melhor alcance desenvolvimentista da denominação.

Tércio (Salto/SP)

Tércio 5 de novembro de 2010 10:50  

Assino embaixo Edvar, aliás, aproveitei sua exposição indiscreta do sonho acordado e lancei-o como o CANDIDATO OFICIAL à presidência da CBB, antes da hora(mas os candidatos não têm que dizer antes o que pensam? Muitos medalhões certamente nunca mais conseguiriam voltar...)
Bem, como não plataforma como a sua, tomei a liberdade de agitar a bandeira de correligionário para todo Brasil.
Inovei, não Edvar!

Alfrêdo Oliveira 22 de novembro de 2010 23:25  

E aí, alguma resposta ao requerimento?

Abração,

Tércio 23 de novembro de 2010 23:37  

Pelo jeito ganhei um apoio à idéia inusitada, não inusitada, não, inovadora, expõe as entranhas do líder para ser escolhido.

É semente, continuo firme na parada.
Está lançado: Edvar, presidente da Convenção Batista Brasileira.