sábado, 27 de junho de 2015

A Suprema Corte Americana, a causa homossexual e a hermenêutica bíblica


1. Da repercussão da decisão da Suprema Corte Americana

De início acho bom dizer: os Estados Unidos são a utopia de milhões de pessoas de outros países. Milhões dos que negam isso são apenas o avesso da mesma moeda, isto é, o negam em função dele. 

Conheço críticos ferrenhos que, na primeira oportunidade, pra lá foram e sonharam com a possibilidade de lá permanecerem. Não são muitos, os Arianos Suassunas e muitos dos que, como Ariano, nunca pisaram os pés lá, não o fizeram pelos mesmos motivos. Poucos são capazes de viver fora desta rota de referência.

Muitos são os pastores que usam os Estados Unidos sempre que precisam de uma referência positiva para todo tipo de assunto e argumento.

Grande parte das instituições teológicas brasileiras é uma verdadeira Zona Franca de Manaus. A matéria prima vem dos Estados Unidos, os seminários são apenas linha de montagem e seus dirigentes, o equivalente religioso dos lobistas políticos de multinacionais. Isso sem falar em alguns que, de tão radicais em favor do produto doutrinário americano, parecem até espiões da "CIA".

Coloco isso puramente como constatação. Já morei lá, moraria novamente sem problemas, trago em minha vida a contribuição de americanos que me marcaram positivamente e fazem parte da minha história, aos quais sou muito grato. Admiro o país e sua competência para oferecer a sua população condições de vida acima da média e o critico com a mesma tranquilidade que me critico ou critico o Brasil.

Faço essas ponderações iniciais apenas pra dizer que é bobagem minimizar a decisão da conservadora Suprema Corte Americana em relação ao casamento homossexual.

(Também nem adianta politizar crucificando ou glorificando Obama, pois a decisão não foi dele). 

Sim, esta decisão nos Estados Unidos é diferente da tomada em todos os países do mundo porque, quer esperneemos ou não, precisaríamos usar um telescópio Hubble - olha eu usando um produto americano -  para encontrar um indivíduo neste planeta que possa dizer que não usa nenhum produto ou tecnologia americana em sua vida e, portanto, é imune às suas influências.

Dentre os benefícios da decisão de reconhecer a legalidade do casamento homossexual, o melhor é que o tema deixará de ser do interesse midiático americano. Poderá continuar sendo de interesse interno de grupos, especialmente religiosos, mas perderão espaço em debates públicos.

Saindo da agenda pública, os formadores de opinião religiosos no Brasil, que fazem sua a agenda dos assuntos prioritários de igrejas dos Estados Unidos, perderão o ímpeto. Ainda que continuem, por incapacidade ou conveniência, não tratando dos reais problemas prioritários das famílias brasileiras, pelo menos deixarão de ser um obstáculo grande aos que deles querem tratar para, realmente, melhorar a qualidade de vida das famílias. 

Destaque-se: melhorar a qualidade de vida não só das famílias de classe média (no sentido sociológico, não financeiro - renda inferior a 1 SM - como o atual governo equivocadamente classifica), alvo dos discursos da maioria absoluta dos preletores evangélicos da área, em reuniões inacessíveis realizadas em espaços caros, mas sobretudo de muito, muito mais da metade das famílias brasileiras que se deterioram por falta de habitação, alimentação, educação, segurança, transporte, lazer, saúde, enfim, dignos.

2. Da questão homossexual

Já nos tempos em que meus textos não eram recusados pelo órgão oficial de divulgação dos batistas brasileiros, nele defendi os direitos civis homossexuais. Fiz isso nesse Jornal, levantei minha voz na última Assembléia em São Luis (quando, com instituições endividadas, queria-se gastar dinheiro em jornal de circulação nacional para entrar nesta briga política) e também em reunião do Conselho da CBB, no Rio de Janeiro. Também fiz palestra sugerindo a busca do diálogo e não do enfrentamento como caminho para solução do conflito, em palestra na OPB.SSA.

Minhas opiniões, portanto, quanto ao direito civil, sempre foram explicitas e podem ser lidas no meu Blog, bastando ir ao Google e digitar, por exemplo, homossexual + Blog do Edvar e você as encontrará.

Claro que isso fez com que alguns fechassem suas portas para mim, mas por que eu precisaria entrar por portas cujos controladores são autoritários e os controlados se submetem calados a isso? Por que insistiria em conviver com pessoas cujas vidas giram em torno da genitália alheia? Um dia escolhi ser fiel a Deus e a minha consciência e arcar com as consequências. 

Agradeço a Deus por ter encontrado pessoas, em igreja local e em espaços denominacionais, capazes de conviver respeitosamente em torno do que é essencial: o amor fraternal.

Se isso é bom ou ruim, cada futuro diz e a mim cabe administrá-lo seguindo o ensino de Jesus: basta para cada dia o seu próprio mal. 

Não apoio a promiscuidade homo ou hétero, tanto quanto não apoio a promiscuidade política, religiosa, denominacional, etc, etc, etc. O que não serve pra mim, não faço. Se não serve para todos, que isso seja resolvido à luz de critérios universais e não particulares desta ou daquela agremiação, seja ela política, religiosa, empresarial, etc.

A questão homossexual é complexa por envolver elementos biopsíquicos e ambientais que exigem aprofundamento honesto e não preconceituoso, em busca de entendimento. Até mesmo em termos bíblicos, o assunto não é tão simples assim. Interpretação bíblica não é matéria simples. Uma coisa é a leitura devocional, outra é a leitura em busca de regras para convivência social. 

Simples é a fé em Jesus, porque é fé, e se nos dedicássemos somente em conhecer sua vida e ensinos e nos empenhássemos em colocá-los em prática em nossa vida, todo o resto da Bíblia seria dispensável, nossa alma, em todos os sentidos, seria salva e o mundo seria muito melhor.

3. Da hermenêutica bíblica

Já hermenêutica é tema complexo.

1) Há pessoas que nunca leram um livro de hermenêutica;
2. há aquelas que passaram por esta disciplina apenas para cumprir currículo;
3. há aquelas que engoliram acriticamente uma única compreensão de hermenêutica;
4. há aquelas que estudaram com professores que apontaram diversas alternativas existentes de hermenêutica;
5. há aquelas que insatisfeitas com o que seus professores trabalharam em sala de aula foram em busca de outros conhecimentos sobre o assunto;
6. há aquelas que, de tanto se debruçarem sobre o assunto, construíram suas próprias maneiras de fazer hermenêutica;
7. há aquelas que, por perfil de personalidade se fecham em suas próprias conclusões hermenêuticas;
8. há aquelas que estão sempre abertas ao diálogo, ouvindo e expondo pontos-de-vista por entenderem que nenhum conhecimento é conclusivo, por isso estão sempre abertas a novas considerações;
9. há aquelas que fogem do diálogo hermenêutico como o diabo, dizem, foge da cruz e
10. Há aquelas cuja interpretação dos textos se restringe a dar às palavras o significado popular, introjetado culturalmente em suas mentes, o que chamo de interpretação literal e que, portanto, se desqualifica como referência para normatização de comportamento coletivo.

Cada um tem direito de se guiar por aquilo em que crê. O que não pode é considerar-se detentor da revelação suprema e final sobre qualquer assunto e querer impô-la sobre todos os demais, mandando pra fogueira quem não se submete à sua cosmovisão.

Uma lei que assegura o direito ao casamento homossexual não determina que o seu ou o meu casamento seja homossexual. Assegura que, respeitadas as regras de convivência social, aqueles que por razões que só cabe a Deus julgar, decidirem por caminho diverso terão seus direitos assegurados e suas vidas protegidas das fobias nossas de cada dia.

Quanto a continuidade da reprodução humana e da família, com a primeira não há com que se preocupar, por muitas razões que não vêm ao caso; quanto a segunda - a família - estude-se sua história, inclusive nas páginas da Bíblia, e verá que ela sofreu ajustes ao longo das histórias, mas é tão necessária à vida humana que não será o reconhecimento dos direitos de uma minoria - que quer construir família diferente da predominante em nossa cultura - que ela estará sob risco.
O que de fato coloca em risco a família, nem de longe é tratado no púlpito da maioria das igrejas ou nos programas de profissionais televisivos da religião.

Com todo respeito aos que pensam diferente.

2 comentários:

Anônimo 28 de junho de 2015 21:40  

Meus Parabéns, Pastor. É um excelente posicionamento. Deus continue te abençoando.

David Curty 29 de junho de 2015 07:24  

E o que de fato coloca essa caixinha familiar em risco, Edvar?