quarta-feira, 13 de abril de 2016

Dilema na Convenção Batista Brasileira: homoafetividade, a ponta de um iceberg que divide o pensamento evangélico

Dilema na Convenção Batista Brasileira
Homoafetividade: a ponta de um iceberg que divide o pensamento evangélico

A Convenção Batista Brasileira, maior instituição de representação dos batistas no Brasil, está diante de uma situação que a enquadra no ditado popular: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

Sendo sua política de governo democrática e defendendo em seus documentos a competência do indivíduo, a liberdade de pensamento e de crença, bem como a autonomia das igrejas que com ela cooperam, está sendo desafiada agora a posicionar-se em relação a uma de suas igrejas que, no exercício de sua autonomia, decidiu receber em seu rol de membros, pessoas homoafetivas assumidas.

O dilema é que a questão homoafetiva é apenas a ponta de um iceberg, pois de fato, o que está em discussão são os critérios hermenêuticos que devem ser adotados na leitura e interpretação da Bíblia. (A hemenêutica,  não a autoridade da Bíblia, é o que divide os evangélicos). O resultado da decisão terá desdobramentos em questões para além da homoafetiva.

Existem pelos menos duas organizações de posições diametralmente opostas, quanto a hermenêutica, formadas por igrejas ou membros de igrejas filiadas à Convenção, em relação à interpretação da Bíblia:
1. Aliança de Batistas do Brasil (http://www.aliancadebatistasdobrasil.com/ )
2. Coalisão de Batistas Conservadores (http://batistastradicionais.blogspot.com.br/)

As duas declaram reconhecer a Bíblia como regra de fé e prática, mas adotam posturas opostas na hermenêutica – critérios de interpretação -  adotada na leitura dos textos sagrados e, consequentemente, na elaboração ético-doutrinária que norteia a prática. Esse aspecto hermenêutico é exatamente, como disse, o principal divisor do mundo evangélico em nossos dias.

Diante disso, doravante não farei esta exposição tendo como base as  organizações citadas, mas as linhas de pensamento e ação que caracterizam, no universo protestante, grupos com essas diferentes maneiras de interpretar os textos bíblicos.

Politicamente, o espectro de posicionamentos bíblico-teológicos podem ser classificados em quatro: fundamentalista, conservador, progressista e liberal. 

Quando um grupo refere-se a  si mesmo, autodenomina-se progressista ou conservador; quando ao outro, liberal ou fundamentalista.

Isso ocorre porque liberal e fundamentalista são termos que ganharam significado pejorativo no universo evangélico, portanto, é uma forma de desvalorização, depreciação e até, em alguns casos, agressão.

Usando a linguagem da política partidária, progressistas e liberais situariam-se à esquerda; conservadores e fundamentalistas, à direita.

Como toda classificação, essas não representam a totalidade dos atores presentes no universo evangélico. Seu uso aqui é de natureza estritamente didática, pois todos nós somos conservadores ou progressistas em algo na vida. Entretanto, usarei, repito, como didática, as expressões liberais e fundamentalistas, extremos do espectro, mesmo sabendo que elas não abarcam, nem representam a realidade de todos.

I. Em relação à Bíblia

Os liberais entendem que os textos sagrados foram inspirados por Deus, mas isso não eliminou a influência do contexto sócio-cultural dos autores, portanto, a interpretação deve levar em conta a cultura da época, com erros e acertos julgados à luz de análise que considera fatores externos aos textos. O parâmetro final é uma pessoa: a vida de Jesus Cristo.

Os fundamentalistas entendem a inspiração como ato mecânico, no qual Deus ditou e os autores registraram (semelhante a psicografia), sem interferência cultural. Portanto, a leitura e interpretação devem ser “literais”. O parâmetro final é uma equação:  a Bíblia interpreta a própria Bíblia.

Os liberais reconhecem a autoridade das Escrituras, mas entendem que elas estão sempre abertas à interpretação, de acordo com o contexto sócio-cultural no qual o leitor está inserido.

Os fundamentalistas entendem que a interpretação está definida em declarações doutrinárias das denominações, sem abertura para revisão do que está posto, devendo o contexto sócio-cultural adequar-se às declarações.

(Nesse sentido, a Declaração Doutrinária das denominações é canonizada, pois a interpretação do texto bíblico que ela representa, ganha autoridade em si mesma. Ela assume, de fato, a condição de regra de fé e prática. Por isso, os professores dos seminários, por esse ponto de vista, são controlados por instâncias superioras no ensino da Bíblia, não podendo ultrapassar os limites da compreensão estabelecida pela Declaração).

II. Em relação à liberdade


Os liberais valorizam e têm um forte apego à liberdade; os  fundamentalistas, ao controle.

Os liberais fazem do diálogo sua ferramenta de influência; os fundamentalistas, da imposição.

III. Em relação aos conceitos ética e moral


Os liberais fazem uma separação entre ética e moral, entendendo que tudo que é ético influencia a moral, mas nem tudo que é moral decorre de uma reflexão ética.

Os fundamentalistas  apegam-se  à moral, independente da reflexão ética.

IV. Em relação à evangelização


Os Liberais entendem evangelização como toda ação que traga os valores do Reino de Deus encarnados em Jesus para a realidade humana e estruturas nas quais a vida se desenvolve.

Os fundamentalistas entendem a evangelização como uma ação que visa libertar pessoas do inferno para o céu no futuro, pois o mundo presente está perdido, sem futuro favorável.

V. Em relação à política partidária


Os liberais tendem a posicionar-se ao lado de partidos que propõem mudanças nas estruturas sociais em benefício de todos.

Os  fundamentalistas, por focarem na vida pós-túmulo, focam suas ações em mudanças individuais, aliando-se, quando se aliam, a partidos que conservam o status quo.

VI. Em relação ao pastorado feminino

Os liberais são favoráveis à consagração de mulheres ao pastorado por entenderem que a posição, os papéis e o tratamento dado a elas na Bíblia retratam a cultura de uma época e não determinação divino. Por isso, são acusados pelos fundamentalistas de abrirem, com essa posição,  caminho para aceitação da homoafetividade.

Os fundamentalistas,, contrários à consagração feminina, são acusados pelos liberais de machismo, pois, por seu posicionamento,  impedem que as mulheres sejam tratadas de maneira justa, e abrem caminhos para o retrocesso nas conquistas femininas.

VII. Em relação à homoafetividade

Os Liberais fazem uma distinção entre homoafetividade e promiscuidade. Entendem que, assim como as manifestações físicas de um casal héteroafetivo, em sua vida íntima, é decisão que tem como regra única o  diálogo pautaro em respeito mútuo,  assim também devem ser com os homoafetivos, cabendo-lhes, em público, as mesmas regras de conduta dos héteroafetivos.

Os fundamentalistas, ao contrário, associam a homoafetividade em si mesma à promiscuidade como algo inseparável. Entendem que manifestações físicas de casais héteroafetivos, na intimidade, devem ter limites externamente estabelecidos e não ficar a critério da livre negociação fundamentada em respeito mútuo do casal)

Qual seria o dilema da Convenção Batista Brasileira?

Se a hermenêutica liberal em relação ao papel da mulher favorecem a aceitação da homoafetividade como algo passível de aceitação, a fundamentalista favorece o retrocesso nas conquistas femininas, pois a leitura bíblica que desconsidera a cultura é obrigada, por força de lógica, a impedir as mulheres de ocuparem cargos que representam liderança ou autoridade sobre homens e a colocar mordaças em suas bocas e véu em suas cabeças.

Isso porque é tão explicito na cultura bíblica que relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo seria pecado, quanto é explicito que a mulher deveria ficar calada na igreja,  não exercer liderança sobre homem e usar véu.

Portanto, a decisão a ser tomada sobre a Igreja cooperadora que aceitou homoafetivos em seu rol de membros é, na verdade, apenas uma ponta do iceberg.

Inicialmente a decisão apontará um caminho hermenêutico que fortalecerá o machismo ou o feminismo e todas as implicações decorrentes.

Depois, a decisão a ser tomada refletirá o caminho escolhido em relação ao papel da mulher na igreja, denominação e sociedade (elas serão as próximas vítimas como ocorreu em igrejas da Convenção do Sul dos Estados Unidos)  e, também, ampliará os limites de  seu controle sobre à autonomia das igrejas locais.

Como a sede de liberdade dos liberais e a de controle dos fundamentalistas são incontroláveis, os concientes disso sabem o dilema que representa esta decisão sobre a manutenção ou desligamento da referida igreja que decidiu pelo recebimento de homoafetivos publicamente assumidos em seu rol de membros.

Além disso,, a Declaração Doutrinária, documento reconhecido pelo critério político do voto da maioria e não por revelação especial divina, se consolidará não como um instrumento facilitador da cooperação, mas como ferramenta de caça aos divergentes, como faziam os fariseus com o pentatêuco. Abrir-se-á, com isso, a temporada de caça às bruxas e todos que se desviarem de qaisquer de seus pontos será passível de desligamento. Preparem-se amilenistas, os que gostam de se distrair aos domingos...



22 comentários:

IVAN LUNA 13 de abril de 2016 12:15  

Valeu a coerência no pensamento.

Pr. José Miguel Aguilera 13 de abril de 2016 13:22  

Muito boa a reflexao. Tambem devo apontar, como pastor batista e evangelico, que a maioria das nossas refelxoes evangelicas no Brasil e no chile, onde eu estive os últimos 5 anos, se da exclusivamente a exegeses na procura da condenaçao ou castigo. Nao tenho observado uma reflexao a respeito do acolher a estas pessoas com esta caracteristica da homoafetividade
Fico preocupado que nossas igreja se tornem palco de um inquisiçao sem fogueira sem pelo menos tratar estas questoes de forma pastoral. Entendo que a igreja evangelica e nós batistas temos primado pelo estudo da palavra em descobrir o que " nao devemos fazer ou permitir" e pouco pelo que temos "que fazer", o que acolher" pois se pensarmos isso teremos que fechar as portas a intolerancia e rejeicao; acolhendo a aceitaçao, o relacionamento, o dialogo, a tolerancia, e nisso talvez vamos ter que lavar os pés de muita gente: Pedros, Judas, Simoes o zelote, etc. 2008josemiguel@gmail.com

Gislaynne Brito 13 de abril de 2016 19:13  

Boníssima a visão e esclarecedora.

Ricardo Aguiar 13 de abril de 2016 19:47  

Ficou em cima do muro.
Tudo de ruim nas nossas igrejas vem por conta dos liberais, progressistas ou contemporaneos, escolham a palavra que melhor soa aos seus ouvidos.

A música em nossas Igrejas está uma porcaria, abandonaram-se os hinos e corais para entrada de baterias, guitarras e bandas.

Rasga-se a SolaScriptura e aceita-se mulheres pastoras.

Pastores frouxos que tem medo de ter controle e de disciplinarem seus membros (eliminação em assembleia).

Ai agora vem os homossexuais. A CBB precisa desligar esta igreja dos seus quadros, assim como desligou os renovados com o parecer da saudosa comissão dos 13.

Recife/PE. Membro da Igreja Batista da Capunga

CARLOS FILHO 13 de abril de 2016 22:10  

Em João 8:7 Jesus fiz: "Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra". Quem sou eu para atirar aqui alguma pedra. Bela e sensata reflexão Pastor, mas que o senhor mexeu numa casa de maribondos dessa vez, isto mexeu! Manda logo Romanos 3 e encerra o assunto!

Shalon Lages 13 de abril de 2016 23:21  

O desafio dos FUNDAMENTALISTAS / CONSERVADORES está diante da coerência dessa AMPLA HERMENÊUTICA de literalidade (de A a Z) e estagnação X a dinâmica social/cultural e científicas (visíveis na própria Bíblia). Mas fica claro pra o observador externo o DIÁLOGO X BELICISMO. O compromisso com o social X o compromisso com o status cuo (como por exemplo o regime militar brasileiro e a "permissão divina" da escravidão do homem pelo homem. Aos oportunistas de plantão, vale salientar três coisas que considero mais importantes:
1) Suas ideias (e a coerência delas) estão sempre sendo checadas pelo seus filhos e netos.
2) Os cofres cheios de Richmond e derivados no Brasil tem fim. Apesar da desigualdade de recursos ora evidente.
3) É covarde ovacionar Bonhoefer e Martin Luther King Jr quando abdicamos de, nosso tempo, ser preso com eles.

Deus nos abençoe,

Shalon Riker Lages

Anônimo 13 de abril de 2016 23:24  

Querido irmão, meu coração transborda de alegria ao ler uma declaração como a sua. Qualquer ser humano, qualquer um que seja, deve ser objeto do amor de Deus. Nós, qualquer que seja a denominação, somos apenas instrumentos. Amor, tolerância, paciência, dentre outros são frutos do Espírito e devem ser exercitados por todos nós.
Assim espero que continues firme neste propósito de levar às pessoas o amor incondicional de Deus.
Grande abraço!
Alexandre Klem - Belo Horizonte, MG

wfazolato 14 de abril de 2016 07:50  

Fico com a Bíblia. "Interpretações" tendem a seduzir e conduzir para caminhos confusos.

rodrigo.anselmo 14 de abril de 2016 09:45  

Não sou teólogo, nem pastor mas não acho que a hermenêutica tenha nada haver com a questão, nem acredito que existem quatro tipos de evangélicos, aprendi na Bíblia, desde as primeiras letra na EBD que a postura do crente é "sim" "sim" e "não" "não" o que passa disso vem do maligno, o mundo está cada vez mais entrando na igreja e causando males e a culpa é justamente nossa, que flertando com os referenciais mundanos, queremos agradar a "gregos ' e "troianos" e unir a luz com as trevas, algo incompatível com o ensino de Jesus, devemos sim amar e tentar resgatar o pecador mas não podemos apresentar a eles uma igreja semelhante com o mundo em que vivem.

- Benilton Ferreira da Silva.

Hugo Zica 14 de abril de 2016 10:13  

Quem ler este texto vai achar que o autor é tendencioso a uma dessas visões. Isso porque não economizou denegrir a imagem dos conservadores, ou fundamentalistas, bem como não economizou em elogios ao liberalismo. O conceito de liberdade é vago, e não estou entrando em pormenores teológicos.
Mas há a coerência com aquilo que as vozes conservadoras têm falado ao longo dos anos nas assembleias da CBB e da OPBB: não podemos servir duas hermenêuticas. Ou lemos os textos de uma forma, ou lemos de outra. Chesterton escreveu um fabuloso texto, uma parábola, chamada "A desvantagem de ter duas cabeças"... E a CBB caiu exatamente no mesmo dilema. De onde isso? De anos e anos de meticuloso trabalho das duas frentes. Tentamos manter uma postura forte com relação à homoafetividade, mas essa posição, que, me recordo, foi votada com toda a assembleia em pé, com gesto de orgulho e postura quase de altivez... Na mesma sessão que se contradisse e elegeu uma senhora para a mesa da diretoria. Obrigado, colega Edvar, por pronunciar esta conclusão que a lógica reclama. Porque ao falar isso, eu era tido como uma voz clamando no deserto. O gigante tem duas cabeças, não sabe para onde olhar, não sabe para onde ir.

Pr. Jefferson 14 de abril de 2016 10:18  

Pecado nunca vai deixar de ser pecado.Sabemos que a homossexualidade é aborrecida pelo criador em diversos textos da Sagrada Escritura e isso não vai mudar porque nossa cultura vê isso como normal e não o é.

Alex 14 de abril de 2016 10:33  

Boa aula de teologia.
Muito boa descrição.

Fernando Oliveira 14 de abril de 2016 13:27  

Exatamente! Pecado não deixará de ser pecado por nada. Nem mesmo por subjetividade.

Joversi 14 de abril de 2016 21:08  

Só quem não quer, não percebe o tom jocoso quando trata dos "fundamentalistas" e a ausência dele quando trata dos "liberais".
"Doutrina velha é que faz igreja boa", já disse um amigo meu. A doutrina liberal, neo-ortodoxa, progressiva (e sua hermenêutica) é uma menina. Uma garotinha diante da anciã oposta. Fico com o entendimento milenar (mais que isso, na verdade).
Apenas a possibilidade de se enxergar dois homens transando como algo que era errado a Paulo apenas porque ele foi influenciado negativamente pelo seu tempo já é ridícula e dá ao liberalismo esse adjetivo. Homossexualidade era rampante no Império Romano. Paulo, mesmo judeu, não conseguiria convencer os cristãos gentios do seu "preconceito". Fora que a ideia de que isso mudou ao longo do "avanço" da sociedade coloca o deus liberal parecendo um fracote sem soberania, sem poder e sem majestade.
Bem, se queres usar termos... que a CBB encontre o caminho conservador e fundamentalista dos nossos pais batistas. Que paremos de hipocrisia com uma "casa" onde elogiamos as cortinas, enquanto as paredes pegam fogo e os fundamentos estão corroídos.

Coalizão Batista Conservadora 15 de abril de 2016 00:10  

O site correto da Coalizão Batista Conservadora é www.coalizaoconservadora.com.br. Sola Scriptura!!!

Anônimo 15 de abril de 2016 23:50  

Gostei muito da forma clara e objetiva que os augumentos foram esclarecidos.Na quase totalidade me entendi como liberal.Principalmente quanto ao pastoreio feminino.Quanto a homoafetividade penso não ser possível ignorar que Jesus veio para os perdidos edoentes espieitualmente e a igreja deveria ser um hospital de terapia intensiva.Contudo,entretanto e todavia não dá para formalizar algo que é abominável aos olhos de Deus.E discordo que o pastoreio feminino abra precedentes para a homoafetividade ser aceita.Tenho amigos em relacionamentos homoafetividade, respeitô sua escolha,mas as coisas referente a Deus estão em um plano diferenciado oficializar o arrolamento sem intenção de transformação é demais.

Éldman de Oliveira Nunes 16 de abril de 2016 12:48  

Considero o tema muito relevante e oportuno.
O autor procura dar um tratamento pedagógico em sua abordagem, mas me parece fazê-lo de forma reducionista.
A questão é apresentada de maneira dual e parcial. Em um extremo está o grupo dos que realizam uma hermenêutica progressista (liberal), no outro dos que realizam uma hermenêutica conservadora (fundamentalista).
Todas as características da hermenêutica realizada pelo primeiro grupo são surpreendentemente positivas, enquanto todas as do último são curiosamente negativas.
Portanto, em meu entendimento, o autor não tem o propósito de apresentar uma análise isenta e desapaixonada da posições existentes, mas antes, apresentar, mesmo que de maneira implícita, qual o seu posicionamento particular sobre a questão.
Em que pese tudo isto, pelo menos concordo plenamente com o autor quando este afirma que o dilema (o corpo imerso do iceberg) é a forma como a hermenêutica é aplicada.
Sobre isto, os crentes, as igrejas e a denominação deveriam estar mais atentos. Este é um assunto crucial e direcionador de rumos. Por isso, deveriam ser promovidos mais estudos e debates sobre o tema à luz das Escrituras.
Enfatizo que isto não deve ser feito com o propósito de criar partidos ou divisões antagônicas, mas antes, o de buscar a unidade citada por Jesus para sua Igreja. Para isto é fundamental a busca por uma compreensão sincera e verdadeira da vontade de Deus. Tudo com o único propósito de agradá-lo antes que aos homens, com suas jeitosas conveniências.

Auri Macena 18 de abril de 2016 17:13  

Cultura é uma coisa, pecado é outra totalmente diferente. Não podemos colocar o 2º maior mandamento que é o de amar ao próximo à frente do que é o 1º Amar a Deus acima de todas as coisas.

Edvar de Oliveira 18 de abril de 2016 22:07  

1. Eldman, vc acertou qto ao objetivo do texto: a questão hermenêutica;

2. Vc acertou qto ao reducionismo, mas não informou que foi consciente e me antecipei chamando a atenção do leitor para o fato quando escrevi: "Como toda classificação, essas não representam a totalidade dos atores presentes no universo evangélico. Seu uso aqui é de natureza estritamente didática, pois todos nós somos conservadores ou progressistas em algo na vida. Entretanto, usarei, repito, como didática, as expressões liberais e fundamentalistas, extremos do espectro, mesmo sabendo que elas não abarcam, nem representam a realidade de todos".

3. Creio que vc se equivocou ao emitir juízo de valor sobre a publicação de uma visão positiva de um e negativa do outro. Contudo, gostaria de conhecer, sobre os mesmos tópicos, qual seria sua visão invertida que colocaria o negativo do liberal e o positivo do fundamentalista.


4. Aguardo.

Anônimo 26 de abril de 2016 14:50  

Sou apenas um cristão desconhecido, procurando de todas as formas combater o bom combate, mas como batista brasileiro, senti-me na obrigação de deixar aqui neste espaço, o meu humilde e pequeno comentário.
Diante de um dilema, que não deveria ser dilema e nem tão pouco dividir o pensamento evangélico, isso por que entendo ser algo muito bem resolvido nas escrituras e pelos líderes da chamada Igreja Primitiva.
A questão a ser tratada, se é que entendi bem, não seria a recepção dos homo-afetivos, homossexuais (nem sei mais que termo usar, não quero ser chamado de homofóbico), em nossas igrejas como qualquer outro pecador, mas o fato de recebê-los no rol de membros, como pessoas que passaram pelo arrependimento, pelo novo nascimento, pela profissão de fé e foram batizados.
A questão não é a violência física, verbal ou o bullying que porventura estas pessoas venham a receber em nosso meio, eu particularmente penso que todos devem ser recebidos em nosso meio, ops assassinos, os mentirosos, os ladrões e os demais doentes que precisam de médico, com o amor que é peculiar a Cristo, mas, batizar alguém que declaradamente não se arrependeu e continua na prática de seu pecado (ou será que a relação sexual entre dois homens ou duas mulheres deixou de ser pecado?) é correto? Existe base bíblica para isso?
Eu fico a pensar, se um casal (macho e fêmea) vivem maritalmente, receberam Jesus em suas vidas, e desejam ser batizados, então, a ordem das coisas é casar primeiro, depois o batismo, assim sendo se o mesmo ocorrer com uma dupla de homens que vivem maritalmente, pelo que entendi, primeiro a igreja em questão deveria pensar em permitir o casamento gay entre os seus membros, já pensou?
Se formos pensar em quantos outros grupos que se acham excluídos pela igreja, e adaptar o Santo Evangelho a isso, logo, logo teremos também aqueles que sentem atração por criancinhas e aí por diante.
Desde logo após a minha conversão entendi que o homem deve se submeter a Deus e seus critérios, e nunca, jamais o contrário.
Finalizando, e para nossa reflexão pergunto o seguinte: "Será que João Batista batizaria alguém que declaradamente não se arrependeu, confessou o seu pecado a Deus, ou abandonou a prática do seu pecado?"

Em Cristo,

Ricardino de Oliveira Lacerda
1ªIgreja Batista em Mapele

Éldman de Oliveira Nunes 27 de abril de 2016 12:18  

Nos termos que estão colocados, não me identifico com nenhuma das posições extremas. Tão pouco me vejo oscilando entre uma posição liberal ou fundamentalista. Posições extremas costumam apresentar mais defeitos que virtudes. Me parece que isto não ficou claro em seu texto.
Em relação aos tópicos: Bíblia, liberdade, conceitos ética e moral, evangelização, política partidária, pastorado feminino e homoafetividade, além de tantas outras questões atuais, entendo que os diferentes posicionamentos decorrem do tipo de hermenêutica adotada. E os tipos são muitos para serem reduzidos a apenas dois grupos antagônicos.
Como sabemos, uma hermenêutica bíblica consiste de um conjunto de princípios aplicados para interpretação da Bíblia. A necessidade da hermenêutica ocorre sempre que temos dificuldade para compreender espontaneamente a mensagem bíblica, isto por causa das diferenças históricas, culturais, linguísticas e filosóficas que nos separam dos escritores e seus primitivos leitores.
Dois pontos tem implicações diretas para hermenêutica: a questão da inspiração e a questão da inerrância das Escrituras.
Quanto a inspiração das Escrituras:
- Existem os que alegam que a inspiração das Escrituras não é diferente das de outras obras renomadas;
- Existem os que alegam uma inspiração seletiva de partes das Escrituras, cuja verdade teológica se chega pela desmitologização;
- Existem os que alegam a inspiração de toda a Escritura (2 Tm 3:16; 2 Pe 1:20,21).
Quanto a inerrância das Escrituras:
- Existem os que defendem que as Escrituras não contem erros;
- Existem os que defendem que as Escrituras podem conter erros quando trata de assuntos não essenciais à salvação;
A história da Hermenêutica vem de longa data: a hermenêutica judaica antiga, a hermenêutica Patrística (100 a 600 dC), a Hermenêutica Medieval (600 a 1500 dC), a Hermenêutica da Reforma (Sec XVI), a Hermenêutica de Pós-Reforma (1550 a 1800 dC) e a Hermenêutica Moderna (1800 até hoje). Ao longo do tempo muitos princípios benéficos e prejudiciais foram empregados por estes tipos de hermenêuticas e de algum modo estão presentes na forma como as pessoas hoje interpretam as Escrituras.
A partir do século XX, com a influência do liberalismo e do racionalismo, surgiram também diferenças quanto ao emprego da razão na interpretação:
- Antes havia o emprego da razão para compreender a revelação;
- Agora surge o emprego da razão para determinar que partes da revelação devem ser aceitas como verdadeiras.
Além das diferenças hermenêuticas envolvidas no processo de interpretação das Escrituras, existem também as diferenças na forma como os ensinos interpretados devem ser aplicados:
- Existem os que defendem que tanto o princípio bíblico como o mandamento comportamental que expressa esse princípio deveriam ser modificados à luz das transformações históricas e culturais.
- Existem os que defendem que os princípios bíblicos e os mandamentos comportamentais que os acompanham sempre deveriam ser aplicados literalmente na igreja hoje.
Muitas igrejas contemporâneas não aplicam alguns mandamentos bíblicos diretamente em nosso tempo e cultura. Alguns exemplos são: os mandamentos para as mulheres usarem o véu, a prática do lava-pés, a proibição das mulheres pregarem ou ensinarem, às mulheres exercerem autoridade sobre os maridos, e diversas outras questões semelhantes que têm sido levantadas...
(CONTINUA...)

Éldman de Oliveira Nunes 27 de abril de 2016 12:18  

(...CONTINUAÇÃO)
A questão crucial penso que deva ser o da coerência. Caso assumamos a opinião de que alguns mandamentos bíblicos são limitados culturalmente enquanto outros não são, então teremos que adotar critérios para diferenciar entre os mandamentos que se aplicam literalmente e os que não se aplicam. Tais critérios não devem ser arbitrários, baseado apenas em conveniências pessoais, que descartam os mandamentos e os princípios que desagradam e mantem os que agradam. O maior desafio, no meu entendimento, está em adotar critérios que sejam coerentes com as Escrituras e que possam ser aplicados de forma uniforme a uma gama de questões. Quanto a isto, creio que muitos ainda não possuem tais critérios definidos...razão do porquê de diversos dilemas atuais.
Assim, prezado irmão, percebo que existe um campo amplo de discussão que necessita ser tratado adequadamente pela igreja em momento e local oportunos. Diante dos enormes desafios que se apresentam à Igreja atual, inserida como está em uma sociedade pós-moderna, com todas as suas implicações, faremos bem se atentarmos para o que disse Paulo: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo”. Cl 2:8