segunda-feira, 6 de julho de 2015

Convenção Batista Baiana - Carta de Ipiaú

CARTA DE IPIAÚ

As Igrejas Batistas da Bahia, reunidas em sua 92ª Assembleia da Convenção Batista Baiana, na cidade de Ipiaú, nos dias, 30/06 a 04/07, fazem uma declaração pública em resposta ao cenário de intolerância vivido em nosso país.

SOBRE O CENÁRIO CONTEMPORÂNEO

O Brasil está vivenciando um período crítico extremamente preocupante: crise econômica e política, falta de um projeto político nacional, falta de estadistas, lideranças políticas medianas, falta do senso de bem comum e a prevalência dos interesses pessoais e privados sobre o interesse comum.

Há tensões de toda ordem: gênero, gerações, étnicas, regionais e religiosas que tem produzido toda forma de violência, inclusive homicídios. Há violências, conflitos sociais, étnicos, abusos de drogas. O medo parece comum e a resposta violenta que imponha mais medo parece a resposta mais óbvia e a única solução. Exemplo mais visível dessa cultura de imposição de uma força mais bruta e de mais violência é a proposição da redução da maioridade penal no Congresso Nacional.

Lideranças, inclusive religiosas, incitam a agressão, o fundamentalismo, o fanatismo, o ódio, a demonização do outro. As religiões muitas vezes são utilizadas para obtenção de poder econômico ou político, desviando-se completamente do seu propósito original.

Vivemos, no Brasil, numa jovem democracia. A redemocratização política tem menos de 30 anos.  Ainda há necessidade de políticas públicas de gênero e etnia num claro reconhecimento de que há ainda desigualdades entre pessoas de gênero e etnias diferentes, ou seja, ainda não vivemos uma democracia plena, madura.

Num Estado democrático religião é assunto do indivíduo e seu Deus e não do Estado. A jovem democracia brasileira só passa a experimentar essa realidade a partir da década de 50 do século XX e só chega às religiões mais excluídas na metade da década de 70, quando deixa-se de exigir das religiões de matriz africana a obrigatoriedade de licença junto às autoridades policiais para realização dos seus cultos. Portanto, também no campo da tolerância religiosa ainda somos aprendizes e por certo temos grandes desafios, mas temos que ter a firme convicção de que não queremos retroceder ao tempo da religião oficial onde os desafetos eram apedrejados e aprisionados.

Todavia, apesar do avanço democrático, há claramente um retrocesso que se revela preocupante.  Há um ressurgimento de preconceitos que julgávamos mortos e sepultados.  A famosa “cordialidade brasileira” parece dar lugar a um espírito beligerante.  Há guerras e intolerância num nível que julgávamos superados.

É bom lembrar que por trás de toda intolerância há sempre disputa de poder. A intolerância é ainda uma das formas de opressão contra os mais fragilizados por sua condição econômica, religiosa, étnica e sexual. A intolerância via de regra, produz um imperialismo social onde o diferente não é tolerado estabelecendo-se uma ditadura.

Diante desse cenário, agravado pela fala de supostos representantes do segmento evangélico, nós os batistas baianos decidimos manifestar publicamente e oficialmente sobre este tema.

CONSIDERANDOS
Os princípios batistas consideram que “cada indivíduo foi criado à imagem de Deus e, portanto, merece respeito e consideração como uma pessoa de valor e dignidade infinita”; que “cada pessoa é competente e responsável perante Deus nas suas próprias decisões e questões morais e religiosas”; que “cada pessoa é livre perante Deus em todas as questões de consciência e tem o direito de abraçar ou rejeitar a religião, bem como testemunhar sua fé religiosa, respeitando os direitos dos outros”.

Diante disso é correto afirmar que cremos que o indivíduo pode se relacionar com Deus sem a imposição de credos, interferência de mediadores ou intervenção do governo civil.

Tendo sido, nós, batistas, vítimas da intolerância e perseguição religiosas ao longo da nossa história de 400 anos, desenvolvemos uma paixão pelo tema da liberdade religiosa.  Já em 1612 foi escrito por Thomás Hellwys o primeiro apelo em língua inglesa em favor da completa liberdade religiosa. Neste documento ele reafirma sua lealdade ao Estado, mas declara o que acredita ser a delimitação do poder do Estado e o princípio da liberdade religiosa para todos os indivíduos: “quer sejam eles heréticos, turcos, judeus ou o que quer que sejam, não compete a qualquer poder terreno puni-los...”.

Os Batistas fundamentaram sua crença na liberdade religiosa em verdades extraídas da própria Bíblia Sagrada. O Deus soberano criou seres livres.  Impedir o uso da liberdade de seres criados à imagem e semelhança de Deus é aviltar a criação de Deus e intentar contra a sua mais sagrada criação. Impor uma religião ou impedir o exercício da fé de alguém é impedir o exercício de uma fé autêntica, visto que esta só é fé se for livre.

Aquele que é o nosso Senhor é Mestre conviveu num mundo semelhante ao atual, permeado por cosmovisões diferentes da sua, tais como gregos, cananeus, discípulos de João e até pseudodiscipulos seus e em diversas ocasiões, mesmo incitado a exterminá-los ou impedir de exercerem a sua fé, recusou-se a fazê-lo: “não sabeis de que espírito sois?” E “não os impeçais”.

Os batistas ensinam que a salvação é pessoal, a fé individual e relacional, não ritual e que a conversão se dá mediante convicção dos próprios pecados, arrependimento e confiança na graça salvadora de Deus, na pessoa bendita de Jesus. Portanto não convém ao Estado, nem mesmo a qualquer religião impor a sua verdade como única.

DECLARAÇÕES

O ser humano deve ser considerado o valor mais elevado da vida (Salmo 8) e disto decorrem quatro declarações:

SOMOS VEEMENTEMENTE CONTRÁRIOS À CULTURA DA VIOLÊNCIA E ADEPTOS DO RESPEITO À VIDA E A CULTURA DA PAZ
Toda forma de violência cometida ou ensejada, mesmo e principalmente, em nome de Deus não apenas é repudiada, mas negada como procedente de Deus que é o autor da vida, reconciliador, que para pacificar a relação com o ser humano foi capaz de realizar o sacrifício supremo de entregar o seu próprio Filho (João 3:16). Dentre as formas de violência descritas genericamente acima podem ser incluídas: ódio, egoísmos, inveja, rancor, discriminações, opressão, indiferença e desrespeito à liberdade do outro.

SOMOS DEFENSORES DA SOLIDARIEDADE E COOPERAÇÃO ENTRE AS PESSOAS
Denunciamos como antidivinas a cultura do egoísmo e toda ordem econômica que destrói os recursos naturais e explora o indivíduo, que alimenta a corrosão social e aumenta o fosso que separa os ricos, cada vez mais ricos, dos pobres, cada vez mais pobres (Isaias 58). Valorizar a pessoa humana como idealizada por Deus implica em construir uma sociedade mais justa e fraterna com uso racional dos recursos naturais, onde os que governam o façam para todos, onde instituições sirvam as pessoas, onde os direitos prevaleçam independentemente do poder econômico dos envolvidos e onde a resistência seja sempre pacífica.  Para isso defendemos em nosso país as grandes reformas estruturais iniciando com uma ampla reforma política, que independentemente do modelo se paute pelos valores acima descritos.

SOMOS FAVORÁVEIS À CULTURA DE PARCERIA E DIREITOS IGUAIS ENTRE OS SERES HUMANOS INDEPENDENTEMENTE DO GÊNERO
Criados à imagem de Deus, homem e mulher são iguais em valor e dignidade. Todavia temos experimentado milhares de anos de exclusão, opressão e dominação injustificáveis e condenáveis de um sexo sobre o outro. Defendemos que a espiritualidade bíblica conduz a uma relação de respeito mútuo, de tolerância, de reconciliação e de amor entre os gêneros.

SOMOS DEFENSORES DA CULTURA DO DIÁLOGO, DA TOLERÂNCIA E DO RESPEITO A DIVERSIDADE
Estamos comprometidos historicamente com a plena liberdade, não apenas a mera tolerância. Queremos e lutamos pela liberdade de todos os indivíduos ou  instituições/religiões, mesmo para aqueles com os quais temos posicionamentos diametralmente opostos. Como disse o pensador: “posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”. O diálogo é a via humana desejável para o entendimento, mesmo entre opositores ferrenhos.  Dialogar é fundamental para evitar ou resolver conflitos que ameacem a vida em qualquer das suas dimensões e onde a solução não seja possível com a decisão de apenas uma das partes. “Se não conversarmos uns com os outros agora, iremos atirar uns nos outros amanhã”.

O diálogo não produzirá um pensamento uniforme, nem uma religião única, mas possibilitará a coexistência, a convivência e por fim a “diversidade reconciliada” e a diferença suportada.

Bibliografia utilizada direta ou indiretamente

Shurden, Walter B. As Quatro Frágeis Liberdades: resgatando a identidade e os princípios batistas. Recife: MLK-B, 2005. 137p
Moltmann, Jürgen. EXPERIÊNCIAS DE REFLEXÃO TEOLÓGICA: caminhos e formas da teologia cristã. São Leopoldo/RS: UNISINOS, 2004. 295p
Kung, Hans. Declaração do Parlamento das Religiões do Mundo.


Salvador, BA, 4 de julho de 2015

Comissão de redação:
Pr. José Roberto Amorim – relator
Pr. Francicláudio Gomes da Silva
Ivone Santana
Marília Ceo Porto
Pr. Petrônio A. Borges Jr.

Diretoria da Convenção:
Pr. Edvar Gimenes de Oliveira, presidente
Pr. Carlos Cesar Januário, 1º vice
Pr. Edson Carmo da Silveira, 2º vice
Pr. Matheus Guimarães Guerra Gama, 3º vice
Margareth Gerbase Gramacho Fadigas, secretária
Pr. Daniel Costa Pereira, 1º vice
Pr. César Santos de Brito, 2º vice




sábado, 20 de junho de 2015

Sou Batista

Sou batista.

Isso entrou no sangue.

São 44 anos ininterruptos ocupando cargos em igreja. 

Na denominação, fora da igreja, são 40 anos de cargos de liderança. De presidente de jovens em associação a presidente de convenção, passando pela presidência de Ordem de Pastores, de Associação Nacional de Escolas Batistas, sem pedir pra entrar, nem pra ficar. Quando fui indicado aceitei concorrer. Quando fui eleito me empenhei pra dar o meu melhor. Quando entendi que não devia concorrer disse não. Quando concorri e não fui eleito, isso não afetou meus compromissos vitais.

Acertei e errei. Uns diriam que acertei mais do que errei; outros, que errei mais do que acertei. Eu mesmo não digo nada, pois seria suspeito. Ou minhas palavras poderiam ser usadas contra mim.

Sempre lutei pra manter a integridade psicológica. Os papéis são diferentes, mas esforço-me para que o eixo em torno do qual eles giram mantenham-se dentro de uma variação razoável. Se assim não agisse, as horas de terapia psicodramáticas e psicanalíticas não teriam dado conta. E os remédios seriam em quantidade e dosagem muito maiores.

Uso a razão, mas não para abafar a emoção.

Já esperneei muito, intelectualmente falando, até encontrar o próprio eixo. É que, com tantos e tão intensos anos, da pra ver quase tudo. E pra mostrar também. Conheço diversas das histórias dos batistas e de batistas. Tanto as que são contadas em livros, quanto as dos corredores e bastidores denominacionais. As que li, ouvi e as que presenciei.

Do jogo político nem se fala. O pior deles é o dos que condenam a política e se escondem atrás de linguagem espiritual. O segundo pior é o dos que evidenciam tanto a política que não da pra saber se existe espiritualidade. Pior ainda é resistir a tentação dos dois tipos.

Nunca desisti porque interiormente me encontrei e quando a gente se encontra interiormente, o ambiente no qual se está passa a ser um detalhe.  Encontrei o significado de ser salvo por Jesus que não depende de compêndios doutrinários ou de marabalismos de gênios teológico; muito menos se incomoda com óculos de intelectuais ou batas de cientistas ou professores que se acham. Entendi que dependo da graça pra viver e isso há muito deixou de ser preocupação doutrinária. Apenas vivo nela e por ela.

Gosto de ser batista, mas não gosto de tudo que dizem ser batista. Gosto do povo batista. Gosto muito. Talvez porque é feito de gente como eu que tem banda A e banda B, cara e coroa, o avesso do avesso do avesso e assume, com temor, mas assume. E tem os que não assumem, nem temem.

Nessas alturas da vida, depois de ter caminhado mais de 2/3 da média prevista, ouvindo cada dia mais intensamente da partida de amigos da juventude e ciente, por isso, de já estar com a senha nas mãos esperando o número da vez aparecer na tela, depois disso, repito, nada mais há para fazer que não seja pelo prazer.

As vezes ainda aparecem situações difíceis de se levar na esportiva, mas a cada dia elas se tornam mais escassas. A 'única' coisa ruim é que o cansaço parece ser mais real. Ah! e a impaciência com bobagens que exigem paciência.

Por que estou escrevendo isso? Sei lá. Esqueci. Disse a Gláucia que estava sem sono e com vontade de escrever. Ela, então, dormiu. O gato se aquietou. O som da chuva aumentou...

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Chamados para transformar

A natureza humana tem uma forte tendência conservadora e isso, em si mesmo, é bom. Conservar saudáveis, por exemplo, a saúde do corpo, dos relacionamentos interpessoais, do meio ambiente e da relação com Deus é altamente positivo. O problema é que tudo nesta vida é passível de deterioração e, pior, há quem ganhe com a deterioração, embora, em algum momento, todos – portanto, até quem aparenta estar ganhando - comecem a sentir os prejuízos. Dai a necessidade de inconformação, reformação e transformação.
 
Quando estamos atentos aos sinais de deterioração de determinada realidade que nos afeta e agimos imediatamente, fazendo as devidas manutenções, impedimos que o problema atinja um nível que somente uma reforma seria a solução. Isso ocorre com casamentos, finanças, estruturas patrimoniais ou de outra natureza, enfim.
 
Indivíduos com vidas deterioradas, organizações e sistemas apresentando enfermidades é o que mais temos, especialmente em nossa realidade brasileira. Assim sendo, além de estarmos atentos àquilo que clama por manutenção, a começar em nossa própria vida, estamos frequentemente expostos a situações que clamam por reforma, restauração, recuperação. Daí a pertinência do slogan: “Chamados para transformar”.
 

Todos são chamados. O chamado divino não exclui qualquer um de nós dessa responsabilidade. Todos podem contribuir, em algum grau ou situação, à saúde de nossas vidas, em suas múltiplas manifestações.
 
Algumas vezes somos chamados para uma missão específica, com início, meio e fim definidos (Ananias, por exemplo, em Atos 9); outras, para missão cujo resultado final pode ser desejado, mas nem sempre visualizado, especialmente quando se trata de trabalhar com pessoas (Paulo, no mesmo episódio de Atos  9).
 
Há chamados que envolvem elementos profundamente místicos, como foi o caso de Paulo já mencionado e há outros que acontecem em clima de aparente “normalidade”, como seria o caso de Mateus (Lc. 5:27).
 
Há chamados nos quais a voz de Deus soa de maneira contundente (At. 9:3-6) e há  outros cuja presença de Deus nem é mencionada, mas as ações e seus resultados são evidências de que Ele esteve por detrás do chamado, como ocorreu nos casos de Mardoqueu e Ester (Livro de Ester).
 
Há, entretanto, um último aspecto que considero da maior relevância: Deus não nos chama somente para serviços religiosos. Há uma cultura religiosa estabelecida em nosso meio que reconhece apenas o chamado de pessoas que se dispõe a dedicar-se estritamente à dimensão religiosa da vida. Chamado, nessa compreensão, é aquele que deixa todas as atividades cotidianas, vai para uma escola de educação teológico-ministerial e, depois, dedica-se a atividades relacionadas à vida de uma instituição religiosa, no caso batista, como pastor, missionário, ministro de música, educação cristã ou ministério social cristão.
 
Porém, embora casos de chamado que não se caracterizam por envolvimento em atividades tipificadas com religiosas sejam uma minoria – Mardoqueu, José do Egito,  por exemplo, cujo chamado foi para atuar no campo da política e administração pública – a verdade é que, pelo fato de Deus ter criado a vida e ter interesse pelo desenvolvimento integral dela, nossa ação, como cristãos, em qualquer área da vida, deve ser encarada como um chamado. Fomos nós, não Deus, que fizemos distinção entre profano e sagrado, entre mundano e religioso. A vida, porém, não pode ser encarada desta maneira, sem que isso provoque sérias deteriorações, como a experiência tem mostrado.
 
Encare sua vida, sua profissão, como um chamado, seja qualquer for a atividade na qual estiver envolvido. Encare seu espaço de atuação como um espaço sagrado. Aja de maneira que sua ação não permita a deterioração ou enfermidade da vida e trabalhe para curar, salvar, transformar aquilo que se evidencie como necessitando.
 
 
 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Com qual dos sistemas da sociedade você colabora mais?


O corpo humano pode ser dividido em oito sistemas principais: cardiovascular, respiratório, digestório, nervoso, sensorial, endócrino, excretor, urinário. Cada um tem seus próprios órgãos e, no bom funcionamento deles, a vida do corpo é mantida. Se um órgão funciona mal, o sistema é prejudicado e o corpo todo sofre. Com a sociedade não é diferente.

 

A exemplo do corpo, a sociedade – conjunto de pessoas que em tese vivem em torno de interesses básicos comuns e objetivos que lhes garantam viver com melhor qualidade de vida – também se divide em sistemas. São múltiplos e podemos citar alguns exemplos como: sistema familiar, educacional, religioso, de saúde, de lazer, político e econômico. Cada um desses gira em torno de subsistemas (habitacional, previdenciário, bancário, hospitalar, rodo-ferroviário, comunicação, etc) cuja importância pode variar em cada tempo e lugar.

 

Os sistemas não foram determinados por Deus, pelo menos não no sentido como determinamos as coisas. Eles surgem da necessidade dos seres humanos. A Bíblia – livro que norteia a vida do sistema religioso de origem judaico-cristã – não apresenta um único modelo de sistema. Ela não é um manual de funcionamento de sistemas, como alguns afirmam. Ela nem mesmo faz análise e recomendações para o bom funcionamento de um modelo de sistema, na forma como um trabalho acadêmico produzido para tal finalidade faria.

 

A Bíblia descreve como os relacionamentos humanos se deram no emaranhado de sistemas das sociedades de então, com ênfase no sistema religioso. Ela mostra como os valores espirituais cultivados determinaram a qualidade de vida individual e social, seja na dimensão horizontal, seja na vertical, e como os sistemas, especialmente, repito, o religioso, sofreram alteração ao longo da história nela contida, trazendo benefícios ou prejuízos aos seus cidadãos.

 

A Bíblia aponta o caminho a ser seguido por cada indivíduo, caminho personificado em Jesus Cristo, que, levado a sério, influencia não somente o próprio indivíduo, mas os sistemas nos quais está inserido. Na linguagem bíblica, esse caminho produz salvação. Fora dele, caminhamos à perdição.

 

A salvação, então, não está na repetição de modelos encontrados em determinado tempo e local descritos na Bíblia, mas no comprometimento com a vida e ensinos de Jesus que têm se demonstrado universais. Daí sua oferta de “salvação” para “todos”.

 

Ninguém é capaz de conhecer e operar em todos os sistemas da sociedade, mas todos somos capazes de contribuir para o funcionamento de pelo menos um. Ainda que todos afetem nossas vidas e possamos nos envolver com mais de um deles, é essencial que sejamos capazes de enumerar, por ordem de prioridade, quais deles são alvo não somente de nosso interesse, mas também de nossas ações.

 

Quando cada um decide viver em harmonia com a vida e ensinos de Jesus, seja qual for o sistema social com o qual ele mais contribua, sua vida fará diferença positiva em favor desse sistema. Quando, porém, idolatramos um sistema, abdicando de criticá-lo, contribuímos para o seu definhamento. A crítica puramente emocional aos sistemas pouco ajuda. É preciso que haja racionalidade, que haja intencionalidade de oferecer contribuição para que sejam aperfeiçoados e cumpram melhor suas finalidades.

 

Às vezes idolatramos um sistema simplesmente porque o funcionamento dele alimenta nossas necessidades individuais relacionadas, por exemplo, a sustento financeiro, prestígio e poder. Isso faz com que transformemos a manutenção desse sistema não em função do benefício que produz à coletividade, mas do benefício que dele advém apenas para nós, individualmente. Nesse caso, a manutenção do sistema passa a ocorrer em função de interesses particulares ou corporativos e não da coletividade.

 

A tese que defendo é que a qualidade de relação mantida com Jesus Cristo é determinante naquilo que nos motiva a manter um sistema. Foi ele que nos ensinou, por exemplo, que “quem quiser salvar a própria vida, perdê-la-á”. Contribuir para o bom funcionamento de um sistema, seja em termos operacionais, seja em termos dos valores espirituais que regem nossas operações, torna-se benéfico para todos. Se for para todos, será para o indivíduo, mas se for só para o indivíduo, em algum momento esse mesmo indivíduo começará ser prejudicado.

 

Com qual sistema da sociedade você tem contribuído? Que valores espirituais norteiam sua ação nele? Que influência a pessoa de Jesus de Nazaré exerce sobre suas atitudes, palavras e ações relacionadas aos sistemas da sociedade?

terça-feira, 2 de junho de 2015

O “Som de Graça”, a música e a teologia das letras que cantamos

“Som de Graça” é o nome de um evento promovido pela Igreja Batista da Graça, coordenado pelo Ministério de Adoração. Tem sido realizado em nossa quadra com a participação predominante de jovens, inclusive vindos da vizinhança e de outras igrejas. O próximo será no sábado, 13 de junho, e, além do aspecto musical, proporcionará uma reflexão sobre a teologia das letras que não cantamos nos cultos.
Uma das capacidades humanas é a de classificação. É por volta dos 7 anos de idade que nossa mente começa a apresentar sua capacidade de classificar objetos com base no que eles possuem em comum. Essa competência é essencial e seu adequado desenvolvimento influenciará as escolhas que faremos pelo resto da vida. Quanto melhor aprendermos a classificar, melhor será nosso relacionamento com a realidade que nos cerca e com as pessoas com as quais nos relacionarmos.
Tomemos por exemplo a questão da música na igreja. Que critérios usamos para diferenciar uma música “sacra” de outra “profana”? São as notas usadas? As pausas? O ritmo? A harmonia? Seriam as crenças de seus compositores? Seria a finalidade definida por quem as compôs? Seria o ambiente nos quais elas são executas ou a motivação e finalidade de quem participa? Seria o resultado imediato que produz no sentimento e no corpo do ouvinte?
Em relação às letras que as músicas veiculam que critério usamos para definir se são sacras? Seria pelo vocabulário usado? Seria pelo fato de incluir palavras como “Deus”, “Jesus”, “Espirito Santo” ou repetir expressões bíblicas?  Seria por enfatizarem conceitos mais abstratos como amor, justiça, alegria ou mais concretos como corpo, dinheiro, templo? Seria a declaração da motivação de quem escreveu? Que elementos, presentes na letra das músicas, as tornam sagradas ou profanas? Seria saudável e teologicamente correto fazer essa dicotomia na vida?
Na história do protestantismo brasileiro, definiu-se como sacras, as músicas e letras contidas em hinários produzidos para cultos como, por exemplo, “Cantor Cristão”, “Melodias de Vitória’, “Harpa Cristã”, etc. Para toda uma geração, música sacra era a desses hinários. Somente elas poderiam ser executadas nos cultos e mais: crente verdadeiro cantava somente tais hinos. Qualquer música afora essas, eram classificadas como mundanas, do diabo, etc.
Com o desenvolvimento cultural, educacional, tecnológico e comercial, tais hinos saíram dos hinários, foram para os LPs (Long Plays, de vinil), conquistaram prateleiras, passaram a ser tocados em emissoras de rádio e inauguraram visivelmente a era comercial das “músicas e letras sacras”. Digo visivelmente porque os hinários já não eram gratuitos. Havia uma reserva de mercado em torno deles, uma forma discreta de comercialização, com a diferença de que, até onde se sabia, o lucro de suas vendas eram reinvestidos na “causa”. Não se falava em lucros para indivíduos ou empresas comerciais privadas.
Até esse momento, música sacra seria a produzida por pessoas do círculo de relacionamento religioso denominacional dos que se classificavam como os “verdadeiros cristãos”, portanto, sacros genuínos, originais; a finalidade, exclusivamente divulgar a mensagem do evangelho sem lucro financeiro aos produtores.
A confusão na cabeça evangélica começa a ocorrer quando tais músicas passam a ser executadas em cultos católicos ou em ambientes fora de igreja, como programas radiofônicos e depois televisivos. Gerou sentimento de culpa em muitos, cantar no culto aquela música que foi executada no dia anterior no “Xou da Xuxa”. Mais estranho foi começar a conviver com músicas que veiculavam letras de CDs produzidos por evangélicos conhecidos, nas quais as necessidades humanas passaram a ocupar o status antes pertencente a Deus, a Jesus Cristo ou ao Espírito Santo.
O golpe fatal ocorreu quando “cantores sacros” começaram a cobrar cachês para se apresentarem nos cultos e “cantores mundanos”, especialmente em declínio, passaram a gravar “músicas sacras”. Esse movimento de mão dupla tem produzido o efeito colateral positivo de forçar-nos a rever nossos conceitos e preconceitos relacionados às músicas e letras executadas em ambientes cúlticos, forçando-nos a valorizar a análise e a usar a competência de classificação.
É nesse contexto que o “som de Graça” abre espaço para destacarmos e refletirmos sobre a teologia presente em músicas “profanas” e como a qualidade delas pode ser igual ou superior a presente em músicas ditas “evangélicas”. Participe conosco deste momento de amadurecimento na maneira como lidamos com a música e suas letras, na igreja e em nossa vida cotidiana.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Escândalo, escândalo e mais escândalo e as igrejas em silêncio



“Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.” (I Tim 6:9-10)


Os olhos do mundo estavam focados na Suiça. Quando falo “do mundo”, não se trata de força de expressão. Não há país cujo jornalismo não estava atento às eleições do novo presidente da FIFA, organização que responde pelo esporte mais popular do planeta. De repente, de maneira surpreendente, portanto inesperada, a polícia Suíça age e 7 dos dirigentes globais desta empresa privada são presos a pedido da polícia americana.


Claro que, ao falar da polícia americana, o leitor desatento pensaria que estou falando de mais um filme de Hollywood. Melhor que fosse, mas não era. Tratava-se de uma operação visando prender envolvidos em corrupção financeira, dentre eles um brasileiro, ex governador do estado mais rico do pais e atual vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol. Eles deverão ser extraditados para os Estados Unidos e poderão ser condenados a até 20 anos de prisão.


Na entrevista concedida pelos responsáveis pela investigação, chamou-me a atenção o uso da palavra “ganância”. Ela expressa o perfil dos envolvidos, pois não se trata de ato praticado por alguém desesperado em busca de sobrevivência, mas de milhões de dólares acumulados com base em um sistema de corrupção executado por décadas.

Quando estourou a operação “Lava jato”  e envolvidos se dispuseram a devolver mais de uma centena de milhões de reais, também ali ficou evidente que o problema dos envolvidos chama-se “ganância”, pois ninguém precisa de tal quantidade de dinheiro para viver a vida toda, exceto por profundos problemas de natureza emocional, ética e espiritual.

O que estamos vendo no Congresso Nacional, nesses dias, também é um verdadeiro escândalo. Sob olhares atônitos de quem está atento e sob a alienação de quem vive na igreja pedindo ajuda a Deus pra resolver seus problemas, seja por ignorância, conformação ou indisposição para agir, dirigentes políticos reformam um péssimo sistema político-eleitoral que corrobora o aumento da corrupção e do sofrimento da população, mas, em vez de reformarem para melhorar em favor do país, reformam para facilitar seus maus feitos visando alimentar suas ganâncias.
 


Aumenta a minha angústia quando me lembro que o presidente da Câmara, que comanda o processo naquela casa, é classificado como “evangélico” e suas preocupações são com temas que envolvem a moralidade sexual individual, aparentando defender posições  “bíblicas”, enquanto defende a manutenção de sistemas que, estes sim, corroem as estruturas da vida, sejam da família, da educação, da saúde, da segurança, do transporte, enfim, e causam malefícios indescritíveis.
 


Minha angústia transborda quando percebo a passividade das igrejas e seus dirigentes; quando não percebo muitas vozes se  levantando perante suas comunidades para alertar que “se nós nos calarmos, as pedras clamarão”, mas não sem antes soterrarem a vida em suas diversas manifestações.


Quero, por isso, desafiá-lo a erguer sua voz. Use a internet, use e-mails e as redes sociais. Levante o assunto ao se encontrar com amigos e irmãos na fé. Expresse seus sentimentos, suas discordâncias e insatisfação. Declare sua revolta aos candidatos que receberam seu voto. As andorinhas só fazem verão quando cada uma decide voar.


domingo, 24 de maio de 2015

Umas e outras (Férias, igreja, Convenção, Lula, Malafaia, ovos, mortadela, VEJA, cientistas...)

Gláucia perguntou-me o que iria fazer. Respondi que iria escrever, como terapia. É assim: uns pescam, outros ficam na rede, outros escrevem... Cada um faz o que lhe dá prazer com seu tempo livre.
Férias, igreja e Convenção
Hoje, posso dizer, é meu último dia de férias. Amanhã volto à rotina: aula no seminário, palestra para missionários em seu retiro anual, texto para boletim, estudo bíblico para quarta-feira, mensagens para o domingo, agenda de aconselhamento, reunião com ministros e, enfim, o que ocorrer na família, igreja, Convenção...
Férias é um tempo bom. A igreja merece. Eu também.
 Fazia tempo que não tirava 30 dias corridos. A última vez que fiz isso foi para dedicar-me integralmente à Convenção Batista. Tempos difíceis, mas superados. Diga-se de passagem, em 3 anos, pela primeira vez fiquei 21 dias sem acessar as contas bancárias da Convenção. Com a situação sob controle e mais de uma pessoa controlando, não me arrependi.
 Estamos terminando maio, período historicamente difícil pras finanças da CBBA, sem dever nada a ninguém, com os salários dos missionários que vencerão dia 30 já pagos e com perspectivas que trarão muita alegria ao povo batista baiano. Isso, claro, graças à fidelidade das igrejas e a uma equipe de funcionários nas diversas áreas com o coração e a cabeça na obra.
Voltando à igreja, cheguei de viagem e já dei uma passada por lá. Coisas boas estão acontecendo e desafios também.
Lula e Malafaia
 Acompanhei nesse final de semana, o debate Lula x Malafaia. Lula precisa conversar um pouco com Pelé, com Xuxa, especialmente se pretende concorrer novamente à presidência. Se não fizer isso, visando administrar melhor a imagem, as coisas ficarão mais difíceis.
Dessa vez, segundo se noticiou tanto na mídia do alto, quanto do baixo clero, na de chapa branca e na marrom,  ou, se preferirem, na da Casagrande e da Senzala, ele fez comentários jocosos com pastores neopentecostais que mexeu com os brios da população dita evangélica. De repente esqueceu-se de que a maioria do povo chamado evangélico é feita de empobrecidos, seu nicho eleitoral.
Malafaia, em seu papel de comentarista político de religião  mandou ver. (Não estranhe. Não é demérito ser comentarista de religião. Há comentaristas de economia, de futebol, de gatos e cachorros, enfim, nada demais nem de mal, um comentarista de religião). Com sua capacidade indiscutível de comunicar-se, de articular as palavras, de defender seu nicho, como Lula defende o seu, Malafaia  mostrou com quantos paus se faz uma canoa.
 Negando a acusação que Lula teria feito, de que pastores neopentecostais atribuem tudo ao diabo, não só discursou contra essa idéia como denunciou um monte de maracutaias que o PT, não o diabo, teria feito. Disse que a única paternidade do diabo declarada na Bíblia seria a mentira e, portanto, diante da mentirosa campanha eleitoral do PT e das negações de Lula de nada saber em relação à corrupção, classificou-os como filhos do Dito Cujo. Finalizou, com um apelo que pode ser chamado, no contexto, de “tiro de misericórdia”: declarou que não odeia Lula e que Jesus tem poder para libertar da cachaça quem o aceita.  Pronto, em nome de Jesus xingou Lula de pinguço, como se dizia lá em Garrça, na minha longínqua infância.
Lula deixou de representar minhas expectativas políticas por reformas estruturais há algum tempo; Malafaia nunca me representou. Acompanhando esta discussão, choro mais do que rio. Choro pelos de esquerda que Lula declara defender, choro pelos pobres dos pastores evangélicos que Malafaia auto declara-se representar. Choro pelos dois lados: por ter sido rotulado ao longo de minha vida como evangélico e de esquerda.
Ovos, mortadela, VEJA e cientistas
 Nessa semana senti vontade de comer mortadela. São as lembranças do meu lado paulista. Comprei meia dúzia de fatias, passei um pouco de manteiga num pão francês, coloquei uma fatia de mortadela dentro e curti  lembranças de padarias e botecos da minha adolescência em Garrrça.
Comprei também meia dúzia de ovos, caros, no Bom Preço. Cresci comendo ovos. Ovos fritos, batidos, cozidos na água e no feijão, na salada. Gosto de bater um ovo com cebola e Orégano e comer como omelete. Delicioso. Naquele tempo não se questionava a “saudabilidade” dos ovos, até porque havia dias em que eram a única “mistura” do almoço, graças às galinhas criadas no quintal.
Depois veio a conversa de que a ciência destacava seus malefícios. Continuei comendo.
Não costumo dar ouvido a discursos só porque estão embalados em batas brancas e óculos de grau. Já pensava assim antes de ler “Filosofia da Ciência” e “Entre a ciência e a sapiência”, ambos de Rubem Alves. Lê-los ajudou-me a organizar melhor meus pensamentos nessa área.
Nada contra a ciência. Tudo contra a absolutização dela, como linguagem única para se entender e se relacionar com a vida.
Voltando aos ovos. A chamada de capa da VEJA (sim, minha insegurança política não é tal, a ponto de não ler Veja).  diz: “OVO. Depois de muito vai e vem, a ciência finalmente dá o diagnóstico: ele faz bem”. Ri. Eu já sabia. Sinto muito pelos teleguiados que deixaram de comer ovos, só porque a “ciência”, irmã gêmea do “mercado”, disse ou deixou de dizer.
Abro as páginas amarelas da revista e lá está uma entrevista publicitária com Richard Dawkins. Ele está lançando mais um livro no Brasil e se VEJA prepara o caminho do lançamento com a presença dele, é sucesso de vendas num segmento. Dawkins, professor de Oxford, decidiu construir um caminho literário num nicho pouco explorado comercialmente: a defesa do ateísmo. Se deu bem comercialmente.
O problema da teoria de Dawkins é igual a dos ovos. Tem um monte de gente que só acredita no que a ciência diz, por isso para de comer ovos. Se um cientista diz que Deus não existe, serei ateu. Não importa as diferenciações filosóficas muito bem feitas por Paul Tillich entre ser e existir. Não importa a reflexão de Carl Jung sobre a incapacidade da parte explicar o todo. Muito menos importa se, por razões que não vem ao caso, Dawkins decidiu dar um corte epistemológico em seu trabalho, decidindo não entrar no terreno dos “fatores desconhecidos e aleatórios” como ele diz. Ora, se optou por não entrar neste terreno, por que abraçou o discurso do ateísmo? Discursar-se como ateu é apenas o outro lado da moeda da reflexão sobre “fatores desconhecidos e aleatórios”, repito, como ele diz. É uma forma de encarar e se relacionar com o mistério.
Agora, o fato dele ter optado por desconsiderar Deus em seus estudos, de ser cientista de Oxford, de defender o ateísmo, de ser entrevistado nas páginas amarelas de VEJA, não me impedirá de comer ovos. Ele faz a escolha dele com os critérios que escolheu, eu faço as minhas com os meus. Ele responde por ele. Por mim respondo eu. Sem crise.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Cadê o dinheiro da aposentadoria? O Fator Previdenciário


Comecei a trabalhar aos 15 anos. À época, a promessa era que com 35 anos de trabalho me aposentaria. Além disso, o cálculo do valor a ser recebido era simples: baseava-se no Salário Mínimo.

Funcionava assim: o governo tinha uma tabela de valores mensais a serem pagos. Se seu desejo era aposentar-se recebendo 2 SM, pagava o valor correspondente da tabela; se quisesse 10 SM, bastava pagar o correspondente da tabela.

Com menos de 30 anos, comecei a pagar como autônomo sobre o máximo da tabela. Procurei ser disciplinado por duas razões: 1) sabia que quanto mais cedo iniciasse o pagamento, mais cedo teria direito à aposentadoria; 2) se viesse a falecer antes, a família não ficaria desamparada.

Ocorre que, tendo ultrapassado mais da metade do tempo de trabalho, o governo do PSDB, sob protestos do PT (diga-se de passagem, protesto que posteriormente confirmou-se ser tão somente político-eleitoreiro, pois não ocorreu em função do trabalhador, mas da mentira, do jogo de cena para conseguir voto), repito, o governo mudou as regras do jogo, desconsiderando a expectativa daqueles que há décadas pagavam rigorosamente na forma da lei.

A mudança se deveu ao argumento de que a quantidade de pessoas com perspectiva de aposentadoria era maior, desproporcional, em relação aos trabalhadores na ativa, o que criaria um rombo a longo prazo que prejudicaria a todos.

Nada se falou do que foi feito com a dinheirama recebida dos trabalhadores nas décadas passadas. Não se falou dos bilhões desviados do INSS em corrupção pela incompetência, inclusive na punição de quem roubava e da recuperação de bens. Nada se falou dos milhões gastos com aposentadoria para pessoas que nunca contribuíram com um centavo.

(Diga-se de passagem, não sou contrário a benefícios sociais a agricultores ou pessoas com mais de 65 anos, por exemplo, que passaram a receber benefícios sem terem contribuído. O que não concordo é o benefício ser pago com dinheiro de nossas contribuições e sermos penalizados por isso, quando se poderia recorrer a outras fontes, como por exemplo, impostos sobre grandes fortunas).

O problema é que, os políticos que decidem não dependem da aposentadoria do INSS, além de terem salários diametralmente opostos ao da média dos trabalhadores que dependem do INSS, isso sem falar nas falcatruas nas quais alguns deles se envolvem enriquecendo-se ilicitamente.

Outro problema é que os técnicos do governo que elaboram os dados fazem parte de uma casta, cuja aposentadoria não segue os mesmos critérios de quem paga seus salários com mil impostos, muitos desses impostos com alíquotas injustas.

Daí, sem considerar o passado, esquecendo-se de quem pagou direitinho, na forma da lei e, claro, visando garantir dinheiro para aqueles que os beneficiam de maneira corrupta, os políticos, da situação e da oposição, optam por arrebentar a corda do lado mais fraco.

Pior ainda, e isso me enoja ainda mais, é ter que ouvir jornalistas muito bem pagos, que vivem financeiramente no mundo dos sonhos, pagos pra fazer política de oposição/situação pelos donos das empresas a que servem, irem às mídias defender apenas os supostos interesses do equilíbrio das contas futuras, sem considerar o passado e as pessoas que pagaram honesta e legalmente, contando com o recebimento.

Desonestamente, não oferecem alternativa. Digo desonestamente porque, se não é papel do jornalista dar solução, mas noticiar os fatos, então, que noticiem os fatos como são e não como fazem, ou seja, para defender os interesses de seus patrões ou correligionários políticos, noticiando apenas a parte que lhes interessa.

Ora, se houve erros na administração passada da previdência, que se busque solução, mas não a mais fácil que é colocar a dívida toda nas costas dos aposentados ou que estão em fase de aposentadoria. 

Que se busque soluções intermediárias, afinal, governos que pagam bilhões em juros para banqueiros; que silenciam diante de desvios bilionários em favor de seus partidos, aliados políticos e de "consultores de elite"; que oferecem milhões de reais de incentivo cultural a quem não tem necessidade; que transformam ministérios em cabides de empregos para comprar a passividade de aliados, enfim, têm sim como encontrar saídas que não sejam tão absurdamente nocivas aos aposentados.

Quero conclamar àqueles que tiveram paciência de ler até aqui. Especialmente você que está longe da aposentadoria, em função de sua idade ou que este assunto não atinge por contar com boas condições financeiras:

Lembre-se de pessoas de sua família, de amigos que já estão sofrendo por isso;

Lembre-se de que trata-se de causa justa e de que amanhã você estará na mesma situação e poderá não ter com quem contar;

Lembre-se de que, neste universo decisório, não há análise econômica ou decisão administrativa sem consciência do componente político;

Lembre-se de que toda decisão beneficia ou prejudica alguém e, portanto, é essencial saber quem ganha e quem perde, visando buscar a decisão mais próxima do que é justo para todos ou, na pior das hipóteses para a maioria, com o máximo de respeito possível às minorias.

Então, peço-lhe que descubra o e-mail, o twitter, o facebook do senador e deputado de seu estado e manifeste em favor de solução urgente que resgate a justiça previdenciária, lembrando-o de que a decisão da Câmara nesses dias é menos ruim e que, se não há outra melhor, que ela seja mantida.






A nova vida comunitária em Cristo e a função social do trabalho

“O que furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo algo de útil com as mãos, para que tenha o que repartir com quem estiver em necessidade.” (‭Efésios‬ ‭4‬:‭28‬ NVI)‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬

Nossa leitura e prática dos ensinos bíblicos é seletiva. Desde a busca por palavras de conforto nas famosas caixinhas de promessa até a necessidade de rechear nossos sermōes para garantir que eles sejam percebido como bíblicos, a seleção faz parte de nossa relação com as Escrituras Sagradas.

Seletivo também é o destaque que damos aos textos que sustentam nossas crenças, valores e até mesmo a ideologia das ênfases ministeriais que abraçamos. Os textos que fortalecem, por exemplo, a ética corporal, conjugal ou familiar por nós defendidas, estão sempre na ponta da língua. Já os que tratam das relaçōes econômico-sociais não recebem qualquer atenção, quando não passam  totalmente despercebidos ou até “espiritualizados”.

Esse é o caso do versículo em epígrafe. Raramente se prega sobre ele, talvez porque não haja como aplicá-lo sem incomodar o “stablishment”. Como geralmente não queremos ter problemas políticos com aqueles que se beneficiam do modelo estabelecido de relacionamento sócio-econômico-financeiro, optamos por retirá-lo do nosso cardápio diário.

Mas ele está ali e o mesmo Espirito Santo que inspirou Paulo, continua livre, inclusive livre dos poderosos príncipes deste modelo cultural opressivo, e, vez por outra, quando abrimos a Palavra em busca de luz para os nossos caminhos ele nos brinda e faz nosso coração pulsar um pouco mais aceleradamente. Quando isso ocorre, até procuramos seguir a leitura devocional adiante, mas é como se ele travasse o sentimento e não o liberasse enquanto não dermos a atenção devida àquilo que ele quer nos dizer.

O que ele disse a mim, foi a mim. A você, leitora, cabe examinar os espíritos conforme I Jo 4:1 e decidir o que fazer com esta palavra.

A mim sinto que ele está dizendo que, na nova vida em Cristo roubar é um verbo que deve ser retirado não só do meu vocabulário, mas também do vocabulário de nossas comunidades. Ele está dizendo que, embora seja importante estarmos informados dos roubos praticados contra nosso dinheiro administrado pelos governos públicos e que, como cidadãos, devemos participar do combate a ele, está dizendo que o não roubar deve ser realidade primeiramente em minha vida,  família, igreja, trabalho, escola ou denominação religiosa, círculos enfim, que fazem parte do meu mundo significativo imediato.

Roubar, sob qualquer nomenclatura ou motivação, não deve pertencer ao nosso novo modelo de vida em Cristo.

Mas ele me diz mais através desse desconfortável texto. Diz que devemos nos conscientizar da finalidade de nossas mãos. Elas devem ser usadas de maneira útil, isto, de maneira que o resultado de seus movimentos seja benéfico e não maléfico, altruísta e não egoísta.

Nesse sentido, a palavra nos anima a entendermos que há uma evolução no desenvolvimento da nova vida em Cristo, nas relaçōes com as coisas. Inicialmente respeitamos o direito à propriedade; em seguida resignificamos o uso das mãos, depois passamos a trabalhar e, finalmente, passamos a incluir o outro no resultado do nosso trabalho. É uma mudança incrível. Partimos de uma situação pecaminosa na qual  tirávamos do outro e atingimos uma graciosa na qual compartilhamos o que é nosso com o outro.

Dividir com o outro é parte essencial da nova vida em Cristo. Como cada um administra isso deve ser fruto da própria comunhão com Deus, mas não há como negar que compartilhar o fruto do nosso trabalho seja evidência da nova vida em Cristo.

É claro que muitos detalhes precisam ser ponderados. Por exemplo: como agir com os aproveitadores, diante das palavras bíblicas que dizem: “aquele que não trabalha que não coma”? (II Tess. 3:4). Como encarar aqueles que acumulam dinheiro como resultado de relações trabalhistas ou comerciais injustas, exploradoras e aparentam generosidade fazendo doações financeiras generosas? Sim, esses são exemplos de pontos que merecem reflexão, mas não alteram o princípio que nos ensina que não há como viver sinceramente a vida em Cristo sem que haja alteração em nossa relação com as coisas do outro e na finalidade do nosso trabalho. O trabalho deixa de ser apenas para sobrevivência econômico-financeira individual e passa a ter também uma finalidade social. O que passar disso, parece-me, é de procedência maligna.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A colheita do PT

(Numa democracia, senhor é o povo, partidos devem ser servos)

"Mas suponham que esse servo diga a si mesmo: ‘Meu senhor se demora a voltar’, e então comece a bater nos servos e nas servas, a comer, a beber e a embriagar-se."

"O senhor daquele servo virá num dia em que ele não o espera e numa hora que não sabe e o punirá severamente e lhe dará um lugar com os infiéis."

“Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites."

"A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido." (‭Lucas‬ ‭12‬:‭45-48‬ NVI)

xxx

Lia esse texto nessa manhã. Pensei na minha vida e na prestação de contas das oportunidades de servir que cairam em minhas mãos. Tenho alguma consciência do que fiz de bom e do que não faria novamente em situação semelhante. Tenho uma opinião do resultado geral. 

Sim, ainda me enquadro dentre os que creem na prestação de contas a um ser superior. Nisso sou filosoficamente kantiano e teologicamente jesusiano. Crer e ensinar que não prestaremos contas a nada transcedental dos nossos atos, a não ser sofrer em sí as consequências das leis naturais e do Estado, me parece pouco quando penso no conjunto da ações maldosas da sociedade e nos aspectos negativos da natureza humana.

Mas, reconheço,  todo pensamento traz consigo suas fragilidades, por isso compartilho isso sem qualquer tipo de pretensão de impor a quem quer que seja esta minha intuição.

Seja no futuro, diante de um ser superior que denominamos DEUS, seja no presente, colhendo as consequências do que plantamos diante dos semelhantes, o fato é que sofremos as consequências positivas ou negativas de nossas escolhas.

Nesse sentido penso na colheita do PT. Por que no PT e não nos outros? Os outros seriam menos desviados do que o PT? Penso no PT porque se a ele mais foi dado, dele está sendo mais requerido.

Fico lendo o que chamaria, usando a linguagem popular da astrologia, o "inferno astral do PT" e pensando: ele recebeu um depósito elevado de confiança do povo brasileiro. Ele teve  o respaldo político e legal pra plantar um novo futuro. Mas escolheu fazer igual, apenas mudando a quantidade, seja do bem, seja do mal. No essencial - empenho para alterar as estruturas políticas ou tributárias, por exemplo, que são injustas e danosas à maioria - ele preferiu deixar pra depois. 

Se isso não bastasse, alguns dos seus principais líderes, optaram por se tornarem "consultores" dos não menos gananciosos detentores do capital  para encher seus próprios bolsos, a se manterem fiéis às razões que levaram o povo a lhes dar poder, que seria nos alegrar com uma sociedade menos injusta, com um povo mais feliz com suas "panelas" menos vasias.

Pareceu-me que seu empenho pela mudança de valores éticos controvertidos foi maior do que pela mudança daqueles em torno do qual há consenso na maioria.

Militei eleitoralmente pelo PT e, mesmo diante de todos os erros dos quais estou convencido de terem sido praticados por ele, ainda não me tornei um antipetista. Votei e votarei em petistas, mas não mais pelo partido, mas por eles e ideais com os quais comungo.

Partidariamente, mesmo não enxergando ainda para onde ir, politicamente falando, optei por romper com o ídolo de barro e iniciar uma nova busca de alternativa em direção à utopia. Prefiro a incerteza, os riscos desta busca à ilusão de que seria possível colocar remendo novo em panos velhos.

Hoje sinto-me triste com as derrotas do Partido. Cada uma ue chega ao meu conhecimento, sinto como uma punhalada. Mas fico mais tristes ainda quando me lembro de suas mentiras eleitorais - que não me enganaram - e de como se tornou refém de pessoas e modelos por ele combatidos. Tudo porque, quando podia ter avançado nas mudanças optou por usufruir da situação.

Até mesmo diante de possível recuperação da economia, por exemplo, ficará a lembrança de que o remédio usado foi o veneno que ele demonizou para reeleger-se. E essa mentira será lembrada, de novo, em 2016.

Sim PT: "A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido.". Prepare-se, portanto, pois ainda temos quase 4 anos pela frente. ARREPENDA-SE.  Esse é o caminho para, pelo menos, diminuir os efeitos do calote moral dado em seus eleitores. É o caminho para diminuir o trabalho daqueles que, atingidos pelo cupido, no estrito sentido freudiano, lutam desesperadamente em sua defesa, como que caiu no oceano "sem lenço e sem documento".


terça-feira, 21 de abril de 2015

Encontro de Casais com Cristo

A história comprova o impacto ocorrido na vida de milhões de pessoas que tiveram a oportunidade de um encontro com Jesus Cristo. É impossível conhecer a vida e ensinos de Jesus sem que algo positivo não ocorra. Suas palavras e, sobretudo, a força do amor que sua vida retrata são o que de melhor existe em favor da saúde humana, em todas as dimensões.

Ressalve-se, porém, que não devemos confundir encontro com Jesus com encontro com uma religião. A religião é a institucionalização da caminhada de um grupo de pessoas com Deus. Por isso, em que pese benefícios que possa produzir, a necessidade de estruturação e normatização das relações, bem como interesses interpessoais de natureza política, econômica ou social, acaba se sobrepondo e até se contrapondo à finalidade de contribuir para o império do amor divino no coração humano.

Isso não significa que dizer sim a Jesus signifique dizer não à religião. Significa que, a exemplo do que deve ocorrer em relação a todas as atividades humanas – família, política, educação, economia, saúde, lazer... - também deve ocorrer em relação à religião: vivermos em contínuo processo de avaliação e ajustes entre nossa realidade e o exemplo de vida de Jesus.

O Encontro de Casais com Cristo não é receita milagrosa para solucionar problemas conjugais. Ninguém participe deste evento com essa expectativa, a fim de que não venha a decepcionar-se. O ECC é um evento que visa proporcionar aos casais a oportunidade de confrontarem aquilo que vivem em seus casamentos com aquilo que Jesus propõe como princípio de vida para relacionamentos interpessoais saudáveis.

Assim sendo, é essencial que os participantes estejam com os corações abertos, especialmente cientes das áreas de convivência conjugal que apresentam fragilidade. E mais: é essencial que cada um vá para o Encontro aberto a conhecer ou reconhecer seus pontos fracos na relação e não os pontos fracos do outro.

Vivemos cercados por informações e exemplos de pessimismo, suspeita e deslealdade. A mídia descobriu que desgraça humana “da ibope” e aumenta o interesse do patrocinador por vender por qualquer meio, mas parece não se dar conta de que ibope de desgraça banaliza, realimenta, fortalece e amplia ainda mais a desgraça. Isso realça a importância do ECC, pois ele se torna alternativa para reabastecer a esperança, animar a confiança e reanimar a fidelidade.

O ECC não conta com o poder científico-tecnológico das comunicações, mas conta com o poder da dedicação daqueles que nele e por ele trabalham, visando, com muito amor, na maioria dos casos distante dos holofotes, proporcionar aos participantes uma oportunidade impar de superar obstáculos e construir relacionamentos conjugais saudáveis – santos na linguagem sacerdotal – de acordo com os propósitos da vida e ensinos de Jesus.


Como igreja, devemos orar por todos os envolvidos e contribuir para que não faltem recursos de qualquer natureza à realização deste importante evento.