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sábado, 7 de julho de 2012

Santidade no Relacionamento Conjugal - 07.07.12 - 76/100 dias de oração pelo Brasil

Santidade, muito mais do que um conceito moral, é uma palavra que faz parte da linguagem sacerdotal, uma manifestação da graça divina. É sinônimo, portanto, de salvação. Daí os protestantismos, diferentemente dos catolicismos, acreditarem que santo não é somente quem tem feitos extraordinários em seu histórico ou aquele cuja vida é submetida a critérios de avaliação estabelecidos pela igreja romana e que, primeiramente, é intitulado beato, para depois ser reconhecido como santo. Predomina nos protestantismos, a doutrina que defende que todas as pessoas que depositam a fé no ato extraordinário de Deus em Cristo Jesus, são santas.

Santidade, então, não é algo que nos tornamos gradualmente, mas uma experiência inicial, segundo o Novo Testamento, marcada pela fé na graciosa mensagem libertadora, salvadora, de Jesus. Repetindo, em linguagem sacerdotal, nossa santidade foi definida no ato sacrificial de Jesus na cruz do Calvário, pois o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado, portanto, pecados do passado, do presente e do futuro.

O que popularmente chamamos de santidade é, de fato, crescimento na graça de Deus. Em outras palavras, a santidade alcançada pela fé em Jesus nos motiva a querermos crescer na graça divina, vivendo de maneira eticamente saudável e não a querermos viver eticamente saudável para sermos considerados santos.

A leitura atenta de Levíticos me convenceu de que ser santo é ser saudável. A pessoa alcançada pela santidade divina empenha-se, sob a graça de Deus, a ser saudável em todas as dimensões de sua vida.

A vida conjugal não é uma excessão.

Cultivar um casamento santo, saudável, não é, portanto, dar atenção especial somente às questões relacionadas a sexo. Desenvolver uma vida sexual saudável é um dos elementos. Ser fiel ao compromisso de amar o cônjuge como a si mesmo e, portanto, encarar todos os desdobramentos daí decorrentes, é a maior manifestação de santidade no casamento. A forma como um casal manifesta santidade nas questões sexuais é um problema de foro íntimo, definida através de diálogo sincero e respeito mútuo, entre as quatro paredes do seu quarto.

Santidade no casamento, portanto, é investir na saúde da relação com Deus, dos sentimentos, dos pensamentos e do corpo.


Da mesma forma que saúde física não significa ausência absoluta de enfermidade, mas capacidade de resistir e superar doenças que surgem até por fatores alheios ao nosso controle, santidade no relacionamento conjugal também não significa ausência de problemas, dores ou erros, mas capacidade de superá-los em face da presença graciosa de Deus agindo nos corações do casal.

Santidade no relacionamento conjugal significa, enfim, investir para evitar enfermidades, mas também, disposição para curá-las quando, por razões alheias ao querer dos dois, a relação precisa ficar acamada e, até, hospitalizada.

Abraços do seu pastor,

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Fidelidade Conjugal - 30.06.12 - 69/100 dias de oração pelo Brasil

Adultério não é crime. A Lei nº 11.106, de 28 de março de 2005, em seu art. 5, revogou o art. 240 do Código Penal. Mas crescem as ações por dano moral causado por quem adultera, com resultados favoráveis à vítima da infidelidade conjugal.

O fato, porém, de não ser crime ou a possibilidade de indenização financeira por danos morais, não deve favorecer nossa mudança de conduta. Ser alcançado pela graça divina e ter Jesus Cristo como luz para não andarmos em trevas são a razão mais forte para continuarmos sendo fiéis ao compromisso assumido com o cônjuge.

Ninguém -  logo, inclusive aqueles que se declaram cristãos - está livre de adulterar. Conhecemos casos emblemáticos de grandes combatentes pró fidelidade conjugal que sucumbiram causando grande escândalo. As possibilidades de causa para adultério são tantas que, se não estivermos atentos, a probabilidade de cairmos é grande.

Destaco, porém, que adultério não é a única nem a mais importante manifestação de infidelidade conjugal. Embora assim seja visto, arrisco-me a declarar que adultério é apenas a ponta de um iceberg. A causa, portanto, é mais embaixo. A montanha que sustenta sua ponta chama-se infidelidade amorosa.

Há um princípio bíblico, para maridos e esposas que é o maior e mais conhecido compromisso público assumido pelos cônjuges no ato da formalização do casamento, seja no  cerimonial religioso ou jurídico, cuja falta de atenção é, a meu ver, a principal causa de infidelidade conjugal. Ele pode ser encontrado nos seguintes textos do Novo Testamento:

1)
"Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela" (Ef. 5.25)
2) "Da mesma forma, os maridos devem amar cada um a sua mulher como a seu próprio corpo. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo." (Ef. 5.28)
3) "Maridos, ame cada um a sua mulher e não a tratem com amargura." (Col 3.19)
4
) "Semelhantemente, ensine as mulheres mais velhas a serem reverentes na sua maneira de viver...a serem capazes de ensinar o que é bom. Assim, poderão orientar as mulheres mais jovens a amarem seus maridos ..." (Tt 2.3-4)

Amar, não somente é uma orientação especifica para cônjuges, mas orientação de vida para todos os relacionamentos. E todos, ao iniciar um relacionamento com vistas ao casamento, assumimos o compromisso de amar e respeitar. Porém, o desamor tem sido o maior ato de infidelidade conjugal. Ele acontece quase que diariamente na maioria dos casamentos. Só não ganha destaque porque a cultura moralista nos tornou sensíveis à ponta do iceberg - o ato sexual adúltero -  e insensíveis à montanha mais embaixo - o desamor.

Motivos e motivações para desejarmos a grama mais verde do vizinho não faltam. O que falta é uma valorização maior do respeito decorrente do amor. A questão é que absolutizamos o prazer orgásmico a ponto de matar o compromisso de amar.

Não sou defensor  da manutenção do casamento a qualquer preço, nem da separação por qualquer motivo. Compreendo a possibilidade de confundirmos nossos sentimentos em relação ao outro. Acredito, porém, na necessidade de maior valorização do amor na relação, na necessidade de investirmos nele diariamente e, em nome do não menos prazeroso compromisso assumido de amar, não tratarmos a relação conjugal como algo que deve sustentar-se somente enquanto os "hormônios da paixão" estiverem acesos. Sejamos honestos: se formos agir baseados nas reações hormonais em detrimento de princípios éticos, nos tornaremos como animais no cio e a vida em sociedade voltará ao tempo das cavernas.

Portanto, é um equívoco atacar a infidelidade sexual apenas em termos de ato sexual, sem enxergar o essencial no compromisso conjugal que é o amor.

Repito: todos estamos sujeitos a "cair em tentação". Se assim não fosse Jesus não teria incluído tal expressão em sua oração modelo. Porém, o reconhecimento disso deve servir de motivação para estarmos atentos, investirmos mais no amor mútuo e não como justificativa para sermos infiéis ao compromisso de amar, em seu sentido mais amplo e profundo, até que a morte nos separe.

Abraços do seu pastor,
Edvar

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O início de um novo ciclo - parte 1

A vida é feita de ciclos, não somente em seus aspectos biológicos (infância, juventude, idade adulta e terceira idade ou nascimento, desenvolvimento, envelhecimento e morte, por exemplo), mas também em seus aspectos psicológicos, religiosos, sociais, enfim.

A identificação dos ciclos se dá a partir de referenciais por nós escolhidos. Podem ser, por exemplo, cronológicos (o período de atuação em uma atividade); humanos (um pastorado numa igreja); materiais (casa onde moramos) ou acadêmicos (escolas onde estudamos, curso realizado).

A identificação de ciclos nos ajuda na avaliação de aspectos da vida, na renovação de metas e revigora as energias que nos movem.

Podemos identificar alguns ciclos em nossa caminhada como igreja, inclusive nesse período de sete anos incompletos que estamos andando juntos. Podemos falar em período de estruturação organizacional, jurídica, patrimonial, operacional ou política, por exemplo.

Tenho uma compreensão de que estamos chegando ao final de um ciclo ou iniciando um novo ciclo e as razões que me levam a crer nisso são diversas, ainda que, prefira não publicá-las aqui e agora.

O fato é que, à luz de diversos indicadores, tenho a sensação e uma forte convicção de que estamos em processo de transição para um novo ciclo na vida de nossa igreja, no qual a atividade fim poderá, finalmente, ocupar maior espaço em nossas reflexões e ocupações.

Alguém perguntará: porque isso não aconteceu até agora? Gostaria de responder iniciando com uma analogia.

A relação de um casal pode ser dividida em duas fases. A primeira é a fase do namoro; a segunda, do casamento. Na fase de namoro, cada um mora em sua casa, onde não tem a responsabilidade de gerenciá-la (cuidar do abastecimento, preparo da alimentação, preocupação com limpeza e manutenção, cuidados com as roupas, administração do orçamento, enfim), uma vez que isso é responsabilidade dos pais.

Nesta fase, o casal geralmente se encontra em horários específicos, previamente acertados, com o objetivo de vivenciarem atividades lúdicas. O tempo é investido em atividades afetivas e não institucionais.

No casamento ambos passam a viver sob o mesmo teto e assumem a responsabilidade de administrar todos os aspectos estruturais da vida a dois. São responsáveis pela definição e administração do orçamento, divisão e execução dos deveres de casa, organização do tempo e cuidado dos filhos, elementos que não faziam parte de suas preocupações anteriores.

Casais em crise não percebem que muitos dos seus conflitos ocorrem não porque um deles mudou depois do casamento, mas por não perceberem que as circunstâncias mudam totalmente depois do casamento. Não percebem que é justamente a inabilidade para administrarem juntos os deveres e direitos da convivência sob o mesmo teto, uma das principais causas de conflitos. A questão, portanto, não seria somente falta de investimento na afetividade, mas também despreparo para gerenciamento das responsabilidades.

Para que um casal construa uma caminhada feliz, é preciso ser competente para equilibrar questões relacionadas à afetividade e questões ligadas à institucionalidade. Se alguma coisa não anda bem, o primeiro passo é fazer uma relação daquilo com o que ambos estão satisfeitos e outra do que gera insatisfação, a fim de buscar uma solução.

Na caminhada espiritual ocorre o mesmo. Não percebemos que viver em comunhão com Deus e viver em comunhão com a família de Deus tem implicações e exigências diferentes. A primeira geralmente nos agrada, especialmente quando se vive num clima de contemplação, de apenas ouvir Deus dizendo-nos sobre os caminhos pelos quais seguir ou de somente receber as boas oportunidades, as bênçãos que ele nos dá.

A segunda – fazer parte da família de Deus -, entretanto, tem a ver com equação de pensamentos diferentes referentes a crenças, uso de tempo, dinheiro, espaço, valores e prioridades numa convivência democrática constituída por uma população plural.

Nesse caso, ainda que a dimensão espiritual da fé precise ser enfatizada, não há como desenvolver uma caminhada saudável se os elementos institucionais que norteiam a convivência não forem adequadamente equacionados. Por maior que seja o investimento em oração e estudo da Palavra, sem ações concretas em relação aos elementos institucionais, a convivência se caracterizará pelo círculo vicioso “orar - ler a Bíblia - apagar fogo”. Pior: sem dar atenção aos problemas da organização, o cupim vai se instalando e, mesmo que tudo pareça bem diante de belos discursos, em dado momento a casa cai, literal e figuradamente.

No primeiro mês do meu ministério na IBG fiz uma pesquisa por escrito, perguntando duas coisas: 1) o que te atraiu à IBG; 2) o que você modificaria na IBG. Com base nela elaborei uma trilha pela qual tenho caminhado até aqui.

Nesses anos trabalhamos sim a dimensão teológica, mas em nossa percepção o "cupim" era tanto na dimensão organizacional e patrimonial que, ou priorizávamos a dedetização eclesiológica ou ficaríamos sem espaço (organizacional e físico) e gente para trabalhar a teologia.

Agora, parece-nos que os macros problemas de natureza política, organizacional, jurídica, patrimonial e operacional estão saneados e, assim, acreditamos poder, doravante, investir ainda mais tempo e recursos no que é central: a comunhão de cada membro com Deus e com o semelhante, visando o compromisso com uma vida saudável – santa na linguagem sacerdotal – para todos, em todas as dimensões.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

As chamas - ou a grande chama - do amor

Raya, Ahava e Dod

sábado, 1 de agosto de 2009

Santidade no casamento

1 Coríntios 7.12-17
“Porque o marido incrédulo é santificado pela mulher e a mulher incrédula é santificada pelo marido crente; de outro modo, os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos” (v.14).

Mais do que fusão de corpos, casamento é fusão de vidas. Costumes, valores, sentimentos e pensamentos vivem em permanente intercâmbio possibilitando um continuo ato de influência mútua.

De ambas as parte provém elementos que fortalecem e que enfraquecem a relação. Obviamente, o desejável é que as influências que tornam a vida a dois mais saudável prevaleçam sobre as que tornam a caminhada doentia.

Paulo ensina que a parte cristã da relação santifica a não cristã. Mas isso, sabemos nós, não é resultado do compromisso jurídico, seja este assinado perante um juiz ou mesmo pactuado numa cerimônia religiosa com efeito civil. A dica bíblica para que tal influência aconteça vem de Pedro (I Pd 3.7).

Para ele uma mulher pode ajudar seu marido a tornar-se obediente à palavra, colocando o cuidado com suas atitudes acima da preocupação com a aparência física. Observe-se que ele não ensina que um – o cuidado com atitudes – anula o outro – o cuidado com o corpo. A prioridade é que deve ser observada.

Já ao marido, a recomendação é que a sabedoria no trato com a esposa seja a preocupação primeira. Além disso, a orientação é que ela seja tratada com honra. Numa sociedade em que mulher não tinha os direitos conhecidos hoje, tal conselho é algo extraordinário.

A santificação experimentada pelo cônjuge, portanto, não é automática. Ela resulta da prática cuidadosa de princípios da palavra de Deus. Sobretudo, para alcançar-se a santificação, são essenciais a predisposição e a determinação da parte cristã. Estes dois elementos colocados nas mãos de Deus resultarão em santificação que beneficia a todos na família.

(Texto produzido para a Revista Manancial, da UFMBB e publicado na 1ª quinzena de maio)

Visão estratégica do casamento (2005)

“Prometo amar-te e respeitar-te, na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza, na alegria ou na tristeza, até que a morte nos separe”.

Visão Estratégica é linguagem da administração moderna. Expressa aquilo que se deseja ser. Significa que os envolvidos num projeto não somente usarão todas as armas possíveis para tornar realidade o que se pretende, mas também que estarão vigilantes para evitar tudo que impede sua concretização.

Em relação ao casamento, geralmente os noivos tomam conhecimento da frase na hora da cerimônia. Por isso, ainda que carregada de emoção, eles a repetem de maneira mecânica. Ali não há espaço para reflexão. Nem mesmo depois, quando se reúnem para assistir a gravação do evento, o clima estimula reflexão. A compreensão, porém, do que nela é dito, poderia ajudar a enfrentar de maneira diferente a vida a dois.

Provavelmente, quem elaborou a tal frase era experiente em casamento. Diferentemente daqueles que estão iniciando a caminhada, tinha autoridade para afirmar que casamento é feito, também, de doenças, pobreza e tristezas. Os que estão em início de caminhada, conquanto conheçam a famosa expressão de compromisso, raramente visualizam as diversas implicações possíveis - especialmente as desagradáveis - no futuro que se descortina.

Imagine aquele casal que sempre é visto junto e sorrindo. Aquele que, talvez, já tenha até vencido a barreira do Jubileu de Ouro. Aquele que, imagina-se, seria um modelo para novos casais. Pois bem, tenha certeza de que ele teria muito a contar de problemas vividos na relação.

Pobreza? Se nem todos podem dizer que já passaram por momentos de pobreza, na acepção econômica da palavra, a maioria certamente já passou por aperto financeiro, seja por imprevisto, erro de cálculo orçamentário, necessidade de ousar diante de alguma circunstância que exigiu arriscar-se em algum investimento ou até por irresponsabilidade mesmo. Nessas horas de aperto financeiro, se a família, sobretudo o casal, não estiver unida em torno da situação, frustrações ou lamentações corroem o relacionamento.

Enfermidades? Uma coisa é encontrar-se com o outro com alguma dor, na fase de namoro; outra é encontrá-lo freqüentemente reclamando de dor na convivência cotidiana do casamento. Diante de momentos de enfermidade do outro ou, principalmente, quando o outro tem algum tipo permanente de enfermidade, o mau humor exerce pressão e provoca desejo de alívio, não somente para a dor do cônjuge, mas também para a dor que a exposição constante ao desconforto afetivo produz em ambos. Isso pode enfraquecer a relação.

Tristezas? Todos experimentamos ainda que em graus diferentes. Não me refiro a tristezas por problemas alheios. Falo das provocadas pela pessoa com que decidimos dividir “cama, mesa e banho”. São palavras que dizemos na hora e lugar errado. Frustrações por atitudes indesejadas. Lágrimas por ações inesperadas. Enfim, uma lista infinita de possibilidades.

Uma dica é não “absolutizarmos” quaisquer momentos da relação. Tanto os bons, quanto os maus passam. Usando a expressão popularizada por Lulu Santos, eles vão e vem “como uma onda no mar”. Administrá-los com paciência, buscando orientação e força em Deus e, se necessário, em amigos ou pessoas qualificadas, nos primeiros sinais de crise, faz profunda diferença.

É fácil amar e respeitar na riqueza, na alegria e na saúde. Desafio é manter o compromisso e o desejo expressos na hora da formalização do casamento, quando a situação é oposta. Se na adversidade estivermos atentos à promessa e ao desejo de amar e respeitar, dificilmente a relação naufragará.

Ninho vazio (2005)

Educamos nossos filhos discursando que eles não eram nossos, mas da vida. Evitamos, baseados nessa filosofia, super protegê-los. Possibilitamos, através de diálogo e exposição à literatura de diversas correntes, que desenvolvessem senso crítico. Propositalmente os deixamos expostos a situações nas quais pudessem decidir sem nossa interferência, apenas monitorando-os, sutilmente, à distância. Tudo em nome da autonomia pessoal. O tempo passou e, mais cedo do que imaginávamos, eles nos deixaram.

Primeiro foi Mônica. Ainda estávamos na Flórida quando ela voltou ao Brasil para dar seqüência aos estudos de Administração, na Federal de Pernambuco. Quando decidíamos voltar ao Brasil, trancou o curso, começou a repensar se queria prosseguir nele e voltou aos Estados Unidos. Aproveitando o Visto, resolveu permanecer por lá usufruindo ao máximo de tudo que uma experiência internacional proporciona.

Recentemente foi Raphael. Almejando ser lingüista, dias antes de completar 18 anos, nesse julho, “embarcou” para concluir o ensino médio na Dinamarca. Se depender da disposição de hoje e das oportunidades, dificilmente voltará a morar no Brasil, disse ele.

Ao entrarmos em nosso apartamento, na volta do aeroporto, Gláucia e eu nos demos conta de que o ninho esvaziou. Não há mais volume alto de músicas, acordes de piano ou violão e cantorias no banheiro. Linha telefônica e computadores não são mais alvo de “disputa”. Reclamações da comida não existem mais. Acabou-se o “problema” com quartos bagunçados. Encerrou-se o tempo das negociações por horários para voltar pra casa ou permissão para dormir fora. Chegou ao fim o papel de motorista particular para levar e buscar na casa de amigos, shopping, cinema, lanchonete, escola, igreja... Findou-se a necessidade de circular de loja em loja à procura de sapatos, calça, CD, livros, enfim.

Então, começamos a nos pegar olhando álbuns de fotografia e tarefas escolares da infância. As visitas aos seus fotologs (bendita internet!) se tornaram mais intensas e, para diminuir a saudade, até levamos para nossa cama, objetos de estimação deles que, “por acaso”, ficaram em casa.

Nesses dias começamos a descobrir que ninho vazio não é apenas uma experiência físico-ambiental; nem é fruto da saudade provocada pela ausência físico-emocional daqueles com quem trocamos afetos e desafetos durante tantos anos debaixo do mesmo teto. Estamos aprendendo que ninho vazio seria um profundo sentimento de tristeza, que teria como pano de fundo a sensação de inutilidade, experimentada pelos pais quando os filhos deixam a casa.

Ainda que física e emocionalmente o ninho tenha sofrido esvaziamento, nos conscientizamos de que cabe a nós não permitirmos que, existencialmente, ele se torne vazio. Para isso, apostamos, primeiro, no sentido de autonomia e independência vivenciadas durante o período de educação e, segundo, na anulação da tal sensação de inutilidade aproveitando a oportunidade de estarmos “enfim sós”, para redefinirmos projetos individuais e a dois, ocupando, criativamente, as lacunas deixadas em nossas vidas pela saída deles.

Se não podemos impedir que o ninho se esvazie, pelo menos podemos evitar que se torne Ninho Vazio!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Divórcio (2005)

Sob o título “evento para ajudar católicos a redescobrirem sua fé”, o jornal West Boca Times, que circula no Sul da Flórida, destacou a desinformação dos fiéis, em torno da possibilidade de retornarem à Igreja Católica, depois do divórcio e novo casamento, como uma das causas de afastamento da igreja.

Como divórcio é assunto que incomoda muita gente, gostaria de pensar sobre ele, dizendo inicialmente que, se divórcio fosse bom, faríamos propaganda para que todos se divorciassem. Divulgaríamos seus benefícios por todos os meios. Não fazemos isso porque sabemos que separação é precedida ou seguida de processo doloroso. Geralmente, uma ou mais das partes – marido, esposa ou filhos - sofre desconfortáveis conseqüências. Assim sendo, não há porque estimulá-lo.

O fato, porém, de acreditarmos que ele não seja, via-de-regra, uma coisa boa, não significa que não seja justo ou, até, necessário. Tanto é assim que Moisés, Jesus e Paulo, cada um em seu contexto histórico, o admitiram.

Moisés percebeu que separação era uma realidade da qual, muita vez, não se poderia fugir. Diferente do profeta ou filósofo que discursa em prol do ideal e raramente testa a praticidade de seu discurso em situações concretas, o administrador e legislador cuida do mundo real. Por isso, creio, Moisés optou pela regulamentação do divórcio.

Regulamentação do divórcio não é causa de divórcio. Apenas possibilita minimizar os efeitos maléficos de relacionamentos inadequados e separações injustas para as mulheres, como no caso dos tempos de Moisés. ( Dt. 24.1-4).

Jesus não era legislador, legalista, nem expôs detalhadamente seu pensamento sobre o divórcio, mas, segundo Mateus, expressou-se sobre o assunto. Ao ser desafiado a posicionar-se diante das alternativas discutidas em seu tempo, seu parecer foi que qualquer motivo não seria motivo para separação. “Pornéia”, porém, seria um justo motivo, uma justa exceção. (O termo grego “pornéia”, traduzido, por exemplo, como imoralidade sexual, adultério ou infidelidade, merece aprofundamento por seus vínculos culturais). (Mt. 5.31).

Ao reconhecer tal exceção, ele não o fez indicando a separação como obrigatória, muito menos emitiu juízo de valor, dizendo ser, o divórcio, a melhor ou pior saída. Seus ensinos nos levam a crer que ele sabia que, até mesmo diante de “pornéia”, o reinício seria possível. Bastava haver sinais de arrependimento, de um lado, e capacidade para perdão, do outro. Porém, se as circunstâncias fossem desfavoráveis a isso, a separação, por “pornéia”, seria justa.

Paulo reconhece uma outra exceção: diferença religiosa. Para ele, o fato do cônjuge incrédulo rejeitar o cristão, legitimaria o divórcio. Conquanto não tenha recomendado a separação por incompatibilidade religiosa, ele reconheceu sua legitimidade. (I Cor. 7.10-15)

Se Moisés, Jesus e Paulo reconheceram exceções, à luz de seus contextos, e se novos contextos geram novas situações que exigem novas respostas, certamente nossa postura não deveria ser diferente. O problema é que as leitoras bíblicas, por falta de aprofundamento hermenêutico, transformam textos isolados em lei, que não admitem exceção. Esse tipo de hermenêutica literalista, legalista e farisaica, porém, seria tema para outra conversa.

Diria, ainda, que, o fato de acreditarmos que divórcio não seja uma boa coisa, não significa que o divorciado deva ser discriminado. Divorciado não é cidadão, muito menos seria cristão, de segunda classe. Os obstáculos que enfrentou em sua vida não são piores do que os que enfrentamos em nossas.

A solução encontrada para seus problemas não são piores, nem melhores, do que as que encontraríamos para os nossos. São soluções diferentes, porém adequadas às possibilidades que seu contexto de vida permitiram. Por isso, o divorciado deve ser acolhido, amado, auxiliado, restaurado e reconduzido à direção de vida que anunciamos, caracterizada por uma relação sincera com Deus, apesar das limitações que a vida nos impõe.

Quanto ao novo casamento, é óbvio que a graça de Deus nunca seria parcial. Se a separação for único remédio, saída menos ruim, não haveria porque permitir o divórcio e impedir novo casamento. A não ser para aqueles que, por ignorância, maldade ou preguiça intelectual, se guiam por um literalismo bíblico cruel. Esses seriam capazes de recomendar a execução de adúlteros (Lev. 20.10), mas, jamais, o divórcio!

domingo, 10 de maio de 2009

Casamento e divórcio

Sob o título "evento para ajudar católicos a redescobrirem sua fé", o jornal West Boca Times, que circula no Sul da Flórida, destacou a desinformação dos fiéis, em torno da possibilidade de retornarem à igreja, depois do divórcio e novo casamento, como uma das causas de afastamento da igreja.

Como divórcio é assunto que incomoda muita gente, gostaria de pensar sobre ele, dizendo inicialmente que, se divórcio fosse bom, faríamos propaganda para que todos se divorciassem. Divulgaríamos seus benefícios por todos os meios. Não fazemos isso porque sabemos que separação é precedida ou seguida de processo doloroso. Geralmente, uma ou mais das partes ¿ marido, esposa ou filhos - sofre desconfortáveis consequências. Assim sendo, não há porque estimulá-lo.

O fato, porém, de acreditarmos que ele não seja, via-de-regra, uma coisa boa, não significa que não seja justo ou, até, necessário. Tanto é assim que Moisés, Jesus e Paulo, cada um em seu contexto histórico, o admitiram.

Moisés percebeu que separação era uma realidade da qual, muita vez, não se poderia fugir. Diferente do profeta ou filósofo que discursa em prol do ideal e raramente testa a praticidade de seu discurso em situações concretas, o administrador e legislador cuida do mundo real. Por isso, creio, Moisés optou pela regulamentação do divórcio.

Regulamentação do divórcio não é causa de divórcio. Apenas possibilita minimizar os efeitos maléficos de relacionamentos inadequados e separações injustas para as mulheres, como no caso dos tempos de Moisés. ( Dt. 24.1-4).

Jesus não era legislador, legalista, nem expôs detalhadamente seu pensamento sobre o divórcio, mas, segundo Mateus, expressou-se sobre o assunto. Ao ser desafiado a posicionar-se diante das alternativas discutidas em seu tempo, seu parecer foi que qualquer motivo não seria motivo para separação. ¿Pornéia¿, porém, seria um justo motivo, uma justa exceção. (O termo grego ¿pornéia¿, traduzido, por exemplo, como imoralidade sexual, adultério ou infidelidade, merece aprofundamento por seus vínculos culturais). (Mt. 5.31).

Ao reconhecer tal exceção, ele não o fez indicando a separação como obrigatória, muito menos emitiu juízo de valor, dizendo ser, o divórcio, a melhor ou pior saída. Seus ensinos nos levam a crer que ele sabia que, até mesmo diante de ¿pornéia¿, o reinício seria possível. Bastava haver sinais de arrependimento, de um lado, e capacidade para perdão, do outro. Porém, se as circunstâncias fossem desfavoráveis a isso, a separação, por ¿pornéia¿, seria justa.

Paulo reconhece uma outra exceção: diferença religiosa. Para ele, o fato do cônjuge incrédulo rejeitar o cristão, legitimaria o divórcio. Conquanto não tenha recomendado a separação por incompatibilidade religiosa, ele reconheceu sua legitimidade. (I Cor. 7.10-15)

Se Moisés, Jesus e Paulo reconheceram exceções, à luz de seus contextos, e se novos contextos geram novas situações que exigem novas respostas, certamente nossa postura não deveria ser diferente. O problema é que as leitoras bíblicas, por falta de aprofundamento hermenêutico, transformam textos isolados em lei, que não admitem exceção. Esse tipo de hermenêutica literalista, legalista e farisaica, porém, seria tema para outra conversa.

Diria, ainda, que, o fato de acreditarmos que divórcio não seja uma boa coisa, não significa que o divorciado deva ser discriminado. Divorciado não é cidadão, muito menos seria cristão, de segunda classe. Os obstáculos que enfrentou em sua vida não são piores do que os que enfrentamos em nossas.

A solução encontrada para seus problemas não são piores, nem melhores, do que as que encontraríamos para os nossos. São soluções diferentes, porém adequadas às possibilidades que seu contexto de vida permitiram. Por isso, o divorciado deve ser acolhido, amado, auxiliado, restaurado e reconduzido à direção de vida que anunciamos, caracterizada por uma relação sincera com Deus, apesar das limitações que a vida nos impõe.

Quanto ao novo casamento, é óbvio que a graça de Deus nunca seria parcial. Se a separação for único remédio, saída menos ruim, não haveria porque permitir o divórcio e impedir novo casamento. A não ser para aqueles que, por ignorância, maldade ou preguiça intelectual, se guiam por um literalismo bíblico cruel. Esses seriam capazes de recomendar a execução de adúlteros (Lev. 20.10), mas, jamais, o divórcio!

Casamento: o princípio do prazer

Antes de qualquer coisa é preciso que fique claro que ninguém entra num relacionamento visando uma experiência de dor. Na verdade é o prazer, não a dor, que nos atrai ao casamento. Mas não podemos falar de prazer como princípio sem antes declarar que a dor, ou, numa hipótese melhor, experiências desagradáveis, também faz parte do pacote.

Assim, aqueles que pretendem se casar e não estão considerando a possibilidade de experiências no mínimo desconfortáveis, precisam rever suas crenças. É que a dor, em maior ou menor grau, sempre aparece como figurante, quando não como personagem principal, em nossa história de amor.

O que se pode fazer numa relação é investir no sentido de que os índices de prazer predominem sobre os da dor; é trabalhar para que as experiências prazerosas se mantenham disparadamente à frente dos desconfortos; é evitar que o desprazer cresça a ponto de causar-nos desânimo ou de ativar, em nossas fantasias, o mito da grama mais verde.

Se a dor, não o prazer, dominar a relação, tal casamento está fadado à destruição.

O prazer não deve ser buscado, num casamento, como um fim em si mesmo. Isso seria hedonismo. Quem se casa pensando somente no prazer não vê o outro como pessoa, mas como máquina lúdica. O outro deve ser alvo do nosso amor, principalmente em situações em que algo em sua vida não seja do nosso agrado. Se assim for, até mesmo em situações desconfortáveis experimentaremos o prazer de estar ao lado, de ajudar a pessoa amada.

São múltiplas as possibilidades de prazer no casamento. Para uns ouvir a voz da pessoa amada é extremamente prazeroso; para outros é a beleza vista que faz o coração pulsar de satisfação; para outros ainda, é o compartilhar de idéias, a troca de conhecimentos que faz com que horas de diálogo passem tão rapidamente quanto segundos; para outros são os gestos de gentileza, tais como o puxar de uma cadeira, o abrir de uma porta, o estender da mão, o servir uma refeição, o providenciar uma sandália, uma toalha, enfim...

E o toque físico? Quem não se sente bem com um cafuné depois de um dia intenso de trabalho? Com um forte e carinhoso abraço no momento do reencontro? Com aquele beijo na hora da despedida de cada dia? Todos gostamos! Porém, é no contato físico que reside boa parte dos problemas no casamento.

A dificuldade que muitos enfrentam no casamento, em relação ao contato físico, tem origem numa deformação educacional a que parcela significativa das pessoas (ou quase todas!) foi submetida, sobretudo sob influência de conceitos religiosos teologicamente mal construídos ou preconceitos morais não reavaliados.

Não são poucas as pessoas que, mesmo em nossos dias, mantém uma relação pouco amistosa com o próprio corpo. É acentuado o número de indivíduos que se sentem envergonhados com a reação de seus corpos num momento de carícia. É incrível o número de casais com problemas porque um dos cônjuges se sente culpado diante do prazer sexual ou que não consegue coadunar a fé que professa com o prazer que deseja.

Há cônjuges que sofrem calados numa relação sexual ou finge gostar do que está acontecendo simplesmente por acreditar ser vulgar dialogar com o parceiro a respeito das áreas de seu corpo que, sendo tocadas, causa maior ou menor prazer.

Nada, porém, é comparável aos conflitos em torno do que seria ou não permitido em termos físicos, no ato sexual. Nesse caso, respeitando os que pensam diferentes em função dos valores culturais e religiosos nos quais cada personalidade se desenvolveu, costumo dizer que, dentro das paredes do quarto do casal tudo é permitido, desde que seja fruto de diálogo honesto e sincero, de respeito mútuo e manifestação de interesse pelo bem estar alheio.

Casamento não existe somente para manutenção e reprodução da espécie. É essencial também à manutenção da saúde, do equilíbrio emocional do casal. Por isso, todo esforço deve ser envidado no sentido de que seja uma experiência prazerosa em vez de estressante, desconfortável ou dolorosa.

Casamento: o princípio da negociação

O princípio da negociação no casamento deveria ser encarado como caminho óbvio, natural numa relação conjugal. Porém, o tradicional discurso masculino, introjetado culturalmente inclusive em mentes femininas, aponta a submissão unilateral da mulher como elemento necessário à preservação da família. Para isso versículos são isolados de seus contextos e olhos são fechados para fartos indicadores neotestamentários de igualdade na relação.

A ideologia política do tal discurso é que, num processo de divergência decisória na vida conjugal, a posição do marido deve prevalecer, independente da razoabilidade dos argumentos da esposa, pelo simples fato de que haveria uma recomendação ¿bíblica¿ para que a esposa submeta-se unilateralmente ao marido.

Presenciei um exemplo contundente desse discurso contrário ao princípio da negociação. Participando como ouvinte de um encontro de casais num hotel no agreste pernambucano, engoli a seco, para não gerar um mal estar maior, a afirmação da esposa do preletor ¿ de São Paulo, com sobrenome europeu, pra que fique claro que machismo não é privilégio nordestino - que orientava: se seu marido decidir vender aquecedor de ar em Manaus, vá com ele sem discutir.

Com um pouco mais de aplicação e autonomia no estudo da Bíblia ela poderia orientar os homens presentes a serem também humildes e a darem mais ouvido às suas esposas, pois elas, sendo também portadoras de massa cinzenta de boa qualidade e tão interessadas no bem estar da família quanto eles, merecem ser ouvidas com muito mais respeito, especialmente quando a decisão pode afetar negativamente a vida de todos do lar.

O problema é que, justamente pela cultura machista na qual somos criados, a maior parte de nós homens, dentre os quais me incluo, demora para aprender esta verdade ou morrem (às vezes matando antes a alegria do casamento) sem aplicá-la.

E pior: a igreja, que deveria ser agente de libertação de valores preconceituosos, acaba ela mesma tornando-se instrumento de alimentação da escravidão ao estimular a submissão unilateral como modelo ideal de ¿Deus¿ para a vida conjugal.

Ouvi o caso de certo rapaz evangélico, pasmem, que desrespeitava sua mãe e justificava-se ¿em bases bíblicas¿, declarando que homem não deve sujeitar-se à liderança de mulher, portanto, nem mesmo à de sua mãe.

O princípio da negociação faz parte de uma liderança familiar na qual cada cônjuge deve ser humilde pra reconhecer pontos fortes e fracos um do outro e permitir que cada um exerça a liderança nas áreas ou situações em que está mais bem preparado.

A negociação deve estar presente não somente quando o assunto é relação sexual (¿Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento...¿ (I cor. 7.5)), mas em todas as áreas de relacionamentos amorosos, fundamentados no respeito e sujeição mútuos (Ef. 5.21).

Cultivemos e fortaleçamos o principio da negociação no casamento. Ele é a semente que evita que, num processo mais avançado de dominação, as mulheres sejam tratadas como na sociedade afegã. Lá, ¿primeiro elas pertencem ao pai, depois são vendidas ao futuro marido¿ e se os talibãs permanecessem no poder ¿mais um pouco... estariam carregando etiquetas com a indicação de quanto valem: uma jóia, uma vaca ou uma quantia em dinheiro¿. (Asne Seierstad, Revista Veja, Ed. 1973, 13.09.2006). Tudo isso solidamente fundamentado em estruturas sagradas, digo, escrituras sagradas.

Casamento: o princípio da humildade

Eis outro princípio essencial à boa convivência conjugal. Se recebesse a devida atenção em nossas vidas, o tema submissão unilateral da mulher desapareceria dos debates. Homens humildes não defenderiam com unhas e dentes a manutenção da submissão de suas esposas. Esposas humildes de homens humildes, não necessitariam clamar por justiça na relação por se sentirem subjugadas.

Mas não somente nisso o casamento seria beneficiado.

Dizem que humildade vem do Latim "humus" cujo significado seria "filhos da terra". A narrativa poética do Gênesis declara: "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra...". (Gen. 2.7). O pregador declara: "...todos são pó, e todos ao pó tornarão" (Ecl. 3.20). Ser humilde, então, seria encarar a mais pura realidade: somos pó.

Em outras palavras, podemos dizer que ser humilde é ter os pés no chão, encarando a realidade tal como ela é, em vez de viver num mundo de mentiras e fantasias. Ser humilde é ter noção exata do que somos, nem mais, nem menos.

Isso aplicado ao casamento faz com que compreendamos melhor possíveis fraquezas da pessoa que está ao nosso lado pela consciência que temos de que também estamos sujeitos a elas. "Aquele, pois, que pensa estar em pé, olhe não caia".(I cor. 10.12).

Também não exigiríamos do cônjuge aquilo que não gostaríamos que fosse exigido de nós.

A vida financeira do casal, uma das causas principais de conflitos na relação, tem outros contornos quando administrada com humildade. É que a noção exata das possibilidades evita que gastemos além do que a renda familiar permite.

Infelizmente há casais que gastam no que desejam ou naquilo que acreditam que merecem e não no que seu rendimento permite. Depois, quando a relação receita-despesa começa a apresentar-se deficitária e as dívidas a crescerem como bola de neve, a relação entra em crise e vão-se a alegria e a paz.

É diferente o diálogo do casal que cultiva a humildade. Quando acreditamos que não somente nós temos coisas importantes, certas e boas a dizer; que não somos detentores da verdade; que também o outro tem percepções da realidade e, portanto, o que dizer, desenvolvemos muito mais nossa capacidade de ouvir. "Todo homem (e mulher também, digo eu!) seja pronto para ouvir, tardio para falar..." (Tg. 1.19). Não é a incapacidade de ouvir, um dos problemas mais sérios de conflitos conjugais?

Com humildade o orgulho não tem espaço. A capacidade de reconhecer os próprios erros é maximizada, a de perdoar multiplicada e a disposição para servir, sem ser servil, torna-se marca da relação.

Quando o centro da questão é o desejo de servir mais e melhor e a não a disputa sobre quem deve sujeitar-se mais a quem, evidenciamos que a graça de Jesus - não a cultura machista e o legalismo judaico de milhares de anos atrás - está, de fato, introjetada em nós.

Sem orgulho fica mais fácil admitir e procurar a ajuda de terceiros quando se percebe que os dois não estão conseguindo equacionar diferenças de modo saudável. Muitos casais sofreriam menos se os maridos aceitassem de pronto a sugestão das esposas de procurar ajuda externa.

Perseguir a humildade, não faz parte dos valores da nossa sociedade. Há, inclusive, uma confusão sobre seu significado. Confunde-se humildade com pobreza material ou ausência de prestígio social e poder político. Além disso, há um fator de natureza emocional que pressiona o orgulho pra cima. É que, geralmente, na história de um adulto orgulhoso, prepotente, quase sempre há uma criança que foi vítima de forte sentimento de humilhação.

Enfatizemos a importância da humildade, semeando-a e cultivando o desejo de vê-la crescer em nós. Fazendo isso com carinho, oração e até, se necessário for, com ajuda terapêutica, nos beneficiaremos do ensino de Jesus: "Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas". (Mt. 11.29). E para o casamento também!

Casamento: o princípio da harmonia

Dois textos bíblicos são usados pelos que são radicalmente contrários ao "jugo desigual": o de Amós (3.3) que pergunta se andarão dois juntos se não estiverem de acordo e o de Paulo (II Cor. 6.14) que fala da incompatibilidade de comunhão entre luz e trevas.

Ambos, conquanto no contexto em que são mencionados não se refiram especificamente à questão do casamento, são os que fornecem mais claramente o princípio a ser buscado por aqueles que almejam casar-se: a harmonia.

Os líderes religiosos judeus sempre foram exclusivistas e consideravam o casamento misto - judeu com não judeu - como condenado por Deus (Esdras 10.10-11). Porém, na prática isso sempre foi uma tremenda dor de cabeça, pois, dos reis até o mais ilustre desconhecido, geralmente a orientação não era seguida.

No inicio do cristianismo, quando o movimento era pequeno, os contornos doutrinários da fé mais nítidos e tornar-se cristão resultava em fortes atritos políticos, identificar quem era cristão era mais fácil. Porém, com o crescimento do movimento, a institucionalização da igreja, a diversificação de correntes doutrinárias, teológicas e ideológicas dentro do cristianismo e o fortalecimento cultural da individualidade em detrimento da comunidade, torna-se cada dia mais difícil definir quem é ou não cristão.

Assim, o reconhecimento da presença de "luz e trevas" dentro de uma mesma igreja local, bem ao estilo do que Jesus alertou sobre trigo e joio (Mt. 13.24-30) é crescente em nossos dias. Isso implica que, haver casamento misto entre dois batistas, dois pentecostais, dois presbiterianos, dois "sem nome", enfim, é uma probabilidade indiscutível.

Diante disso, nem mesmo o fato de duas pessoas serem da mesma igreja, denominação, corrente teológica ou segmento cristão seria, por si só, garantia de sucesso na relação.

Creio que o princípio que os dois textos ¿ de Amós e Paulo - apontam é o da harmonia. Quanto maior harmonia de sentimentos, pensamentos, ideais, enfim, houver entre um casal, maiores as probabilidades de serem felizes.

A questão é que ninguém, antes de se apaixonar, faz análise "matemática" do outro. Se fosse assim a vida seria chata. Por razões ainda não esclarecidas adequadamente, a gente simplesmente se apaixona. Daí opostos se atraírem.

A Editora Mundo Cristão, se não me engano, lançou um livrinho na década de 80 intitulado "Os opostos se atraem". Na verdade a tradução literal do título em inglês, "Quando os opostos se atraem", expressaria melhor a intenção do autor. Conforme se percebe no texto, a intenção foi apontar caminhos para uma convivência saudável, quando opostos se atraem.

Penso que a questão religiosa, por se tratar de algo essencial à vida humana, é uma das áreas que precisam de melhor atenção na busca da harmonia. Defendo que quanto maior harmonia houver nesta área, maiores as chances de sucesso.

Esclareço, entretanto, que por harmonia espiritual quero dizer muito, mas infinitamente muito mais, do que pertencer a uma mesma denominação religiosa.

Penso que, como em todas as áreas da vida, na construção de um relacionamento o casal deve ser honesto para não esconder as diferenças e também sincero para discutí-las, a fim de tentar visualizar como seria a relação depois que o ímpeto da paixão sofrer a inevitável redução.

Toda relação traz consigo um risco. O que se pode fazer é avaliar as igualdades e as diferenças conhecidas e decidir se está a fim de construir a vida com aquela pessoa. Até porque diferenças que percebemos hoje podem ser equacionadas e novas diferenças certamente podem surgir.

Assim, quem entra numa relação não deve faze-lo pensando que tudo se resolve com ¿beijinho, beijinho¿. Relacionamento é uma construção diária, até à morte.

Defendo, portanto, que, como ponto de partida, se deve buscar o máximo de harmonia, especialmente na vida espiritual, mas lembrar-se de que surpresas aparecerão e sempre existirão arestas para serem aparadas nas diversas dimensões que caracterizam uma relação. Alma gêmea, como regra, é coisa de novela!

Casamento: O princípio da fidelidade

Infidelidade Conjugal é importante tema no campo do relacionamento humano. Ela afeta as dimensões emocional e espiritual do indivíduo, desestabiliza a família, afeta a convivência social, prejudica o desempenho profissional e pode até culminar em criminalidade.

Em algumas abordagens jornalísticas o assunto é tratado de forma jocosa ou simplesmente como algo corriqueiro que não merece maiores preocupações. Tais abordagens passam a impressão de que (in) experiências particulares ou desejos latentes dos escritores prevalecem sobre a análise crítica e norteadora.

O princípio da fidelidade foi construído culturalmente ao longo da história, com base em experiências e suas conseqüências nos grupos sociais. Sistematizado detalhadamente, geralmente através de uma tradição religiosa, é repassado de forma oral ou escrita, através dos que dominam o universo religioso. Porém, a cultura do povo e as idiossincrasias individuais determinam maior ou menor submissão ao princípio.

Os cristãos que crêem na autoridade normativa do Segundo Testamento (coleção de textos canonizados pela Igreja Católica, dentre os diversos produzidos pelos primeiros seguidores de Jesus, visando nortear posicionamentos ético-doutrinários da igreja) são mais ou menos radicais em relação ao assunto, de acordo com a formação acadêmica ou estrutura de personalidade de seus líderes.

Teorias ou posicionamentos políticos à parte, todos concordam, porém, com os danos provocados pela infidelidade. Independente, portanto, das questões teológicas, filosóficas, antropológicas, sociológicas, psicológicas, biológicas, enfim, que envolvem o assunto, é inegável a dor que caracteriza a vida dos envolvidos na infidelidade conjugal.

Se as pessoas tivessem noção prévia das conseqüências dolorosas da infidelidade, provavelmente pensariam melhor antes de, irracionalmente, darem vazão aos sentimentos motivadores. Digo irracionalmente porque, via-de-regra, a infidelidade é impulsionada por uma força interior aparentemente incontrolável, capaz de fazer com que o candidato a infiel ou não enxergue as conseqüências ou, simplesmente decida arriscar-se a pagar o preço das possíveis conseqüências. Sem ajuda externa, de pessoa qualificada técnica, emocional e espiritualmente, dificilmente se consegue alterar o propósito do coração.

O triste é que, consumado o objetivo, verifica-se, primeiro, que um ato é insuficiente para satisfazer o desejo e, mais tarde, que todo o prazer alcançado é infinitamente menor do que os efeitos colaterais dolorosos que produz. Diante dos sentimentos destrutivos que assediam o coração, alguns tentam abafá-los envolvendo-se em ativismo doentio, excesso de álcool ou uso de drogas, legalizadas ou não. O corpo fragiliza-se e enfermidades aparecem, como no caso de Davi (Salmo 32.2). A dor é tal, pelo menos nos mais sensíveis a valores espirituais, que o fantasma da morte ronda em forma de desejo. Somente a graça divina, manifesta através de pessoa qualificada pode restaurar o equilíbrio na alma.

Quem se envolve em infidelidade é incapaz de mensurar as conseqüências na vida do cônjuge. Este, independente das explicações teóricas, parece ser o que sofre mais. O fato de sentir-se vítima de traição, a perda da confiança em alguém que faz parte de seus pilares de sustentação emocional, a tristeza de saber que o afeto antes tido como somente seu ter sido canalizado para outrem, os efeitos humilhantes da repercussão social, a tomada de consciência da falta de controle na situação em que o fato se deu, a própria indignação da cruel invasão de terceiros na intimidade daquele que lhe era sagrado, enfim, podem culminar em reações drásticas, irracionais e irreversíveis. O pensamento dominante é que, eliminando-se os traidores, elimina-se a dor. Crimes passionais, portanto, não ocorrem por amor ou ódio, mas pelo desejo de eliminar a própria dor.

O resultado final de um ato de infidelidade é imprevisível. Pode haver restauração da relação, uma simples separação ou até, em casos extremos, ações criminosas. Por isso, é essencial que se busque a imediata restauração do equilíbrio emocional, seguida de reflexão sobre possíveis causas, sob monitoramento de pessoa qualificada.

A restauração da relação é possível, conquanto longa e dolorosa. A transparência e a verdade como meios de resgate da confiança, são essenciais. A abertura para reconhecimento de necessidades não supridas na relação, surgidas antes ou durante o casamento, bem como de possíveis erros cometidos por ambos nos processos que antecederam ao fato, são indispensáveis. A busca de ajuda espiritual, visando restaurar a graça, a misericórdia, o respeito, o afeto, o amor mútuo, enfim, são fundamentais. Somente quando nos abrimos, ainda que através de uma pequena brecha, para o agir divino, algo novo e bom pode acontecer.

Casamento: O princípio da cumplicidade

"Eu quero uma mulher que seja diferente de todas que eu já tive, de todas tão iguais; que seja minha amiga, amante, confidente, a cúmplice de tudo que eu fizer a mais".
(A cúmplice, de Juca Chaves)

Cumplicidade é uma palavra do mundo criminal. Refere-se à participação num crime, seja de forma direta, seja como testemunha que silencia visando não prejudicar o criminoso.

Duas outras importantes palavras estão associadas a ela: conivente e cooperante. A primeira é mais popularmente utilizada num sentido reprovável e significa fingir não ver o mal que o outro pratica. A segunda, ao contrário, é mais usada positivamente e tem a ver com colaboração num projeto ou processo do qual mais de uma pessoa estão envolvidas.

Aplicada ao casamento, ela pode tornar-se fonte de sucesso na vida a dois. Entretanto, para que isso ocorra é fundamental que se tenha profunda clareza de seu significado.

Cada cônjuge traz consigo uma bagagem cultural que inclui crenças e valores. No dia-a-dia do casamento as situações fazem eclodir diferenças existentes entre os dois. Quando tais diferenças acontecem num momento de diálogo que não envolve decisões, a troca de opiniões pode culminar com mudanças ou manutenção no conteúdo do pensamento. O problema é quando uma situação concreta exige posicionamento, definição.

Tomemos, por exemplo, uma situação em que um filho age de maneira errada. A mãe, com suas crenças e valores, dialoga com o filho mostrando-lhe o que ele fez e compara com o que ele deveria ter feito. O parâmetro que define o certo, no caso, seria o que a mãe crê ser o certo. Portanto, a postura correta do filho seria aquela que está em acordo com o que ela compreende ser o modo correto de agir.

Digamos que o pai tenha uma crença diferente da mãe. Como ele deveria agir diante do filho corrigido? Aqui está uma causa comum de conflito no casamento.

Se o princípio da cumplicidade for o norte da relação, a divergência seria primeiramente equacionada entre o casal para depois ser comunicada ao filho. Porém, não havendo cumplicidade o pai contraria a mãe perante o filho causando tanto o enfraquecimento da autoridade dela, quanto uma confusão na cabeça da criança.

O mesmo problema pode ocorrer perante parentes, amigos, colegas de trabalho ou irmãos na fé. Quando há divergência de atitudes, palavras ou ações, em vez de expor o cônjuge ao descrédito, a cumplicidade se manifesta na ação de procurar-se primeiramente ouvi-lo e, equacionada a diferença, formalizar a posição.

Escrever isso é fácil, porém, geralmente a equação de tais diferenças vem carregada de emoção, cegando nossa capacidade de refletir e agir.

A postura de corregedor adotada por um dos cônjuges dificulta o desenvolvimento da cumplicidade. Por acreditar que suas crenças e valores são as melhores ou mais certas, o corregedor sempre tenta corrigir ou outro em caso de divergência. A ausência de diálogo visando afinar posturas e de humildade para rever valores anula a cumplicidade.

A expressão "uma só carne" como algo que acontece no ato da legalização da relação ou da consumação sexual é um mito. Seremos eternamente unidades autônomas. É um equívoco acreditar que no ato conjugal ocorre uma fundição de dois seres, transformando-os em um só. As diferenças sempre existirão e eclodirão na caminhada.

Nesse caso, a cumplicidade reconhece a individualidade do outro e a necessidade de abertura eterna para o diálogo, visando produzir harmonia. Não há harmonia nem cumplicidade, mas castração, quando, em vez de diálogo, um impõe e o outro silencia.

Cumplicidade não significa eliminar a possibilidade de cada um manter suas particularidades, nem nos obriga a sermos um livro aberto. A transparência é saudável na relação, mas o grau e o momento de sua aplicação deve ser bem calculado, a fim de não transformá-la numa arma contra o casamento.

Se Paulo defende que a verdade deve ser dita em amor (Ef. 4.15), isso significa que há outras motivações, inclusive maléficas, para dizê-la. Assim, compete a nós administrarmos a motivação, o tempo e a forma de torná-la pública.

O mesmo se dá com a cumplicidade. Seu desenvolvimento deve ser movido pelo respeito mútuo, pela confiança e amor. Sem isso, em vez de arma a favor do fortalecimento, ela "fragiliza" e destrói a relação.

Casamento: o princípio da igualdade

Ouvi de uma senhora que foi à delegacia da Mulher no Recife denunciar seu marido por violência. Ambos - esposa e esposo - foram primeiramente atendidos pela assistente social. A seguir, enquanto a esposa era atendida pela delegada, a assistente social perguntou ao marido sobre os motivos da agressão. A justificativa foi que, sendo ambos evangélicos, ele não admitia que ela não se sujeitasse a ele, como mandava a Bíblia.

O princípio da igualdade de direitos e deveres na relação marido-mulher é tão claro nas páginas do Novo Testamento que apenas mencionarei cada um deles, sem comentários, exceto o último - igualdade na sujeição mútua -, uma vez que é o único citado pelos que defendem a heresia da submissão da mulher no casamento.

I. Igualdade na condição de filhos de Deus

"Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus" (Gal. 3.26-28 NVI);

II. Igualdade na quantidade de parceiros

"...por causa da imoralidade, cada um deve ter sua própria esposa, e cada mulher seu próprio esposo" (I cor. 7.2 NVI);

III. Igualdade na autoridade sobre o corpo

"A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher" (I cor. 7.4-5 NVI);

IV. Igualdade no cumprimento dos deveres conjugais

"O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com sua mulher, e da mesma forma a mulher para com o seu marido" (I cor. 7.3 NVI);

V. Igualdade na interdependência

"No senhor, todavia, a mulher não é independente do homem, nem o homem independente da mulher. Pois assim como a mulher proveio do homem, também o homem nasce da mulher. Mas tudo provém de Deus". (I Cor. 11.11-12 NVI);

VI. Igualdade na manifestação de amor

"Maridos, ame cada um a sua mulher..." (Ef. 5.25 NVI);
"...assim, poderão orientar as mulheres mais jovens a amarem seus maridos..." (Tito 2.4 NVI);

VII. Igualdade na sujeição mútua
"Sujeitem-se uns aos outros, por temor a Cristo" (Ef. 5.21 NVI).

Na seqüência desse texto, quando a orientação é direcionada à mulher (Ef. 5.22-24), a palavra submissão não aparece no original grego. A explicação que deduzo para a inclusão dela em nossas bíblias é de natureza ideológica, visando reforçar a tradição cultural da submissão. (Se quer entender melhor a influência ideológico-doutrinária na tradução da Bíblia, leia o texto de Luiz Sayão sobre o "Perfil Teológico da Nova Versão Internacional" - NVI em: http://www.editoravida.com.br/biblias_nvi/perfil_teologico.asp ).

Além disso, a própria recomendação de submissão começa a clarear quando é justificada por conveniência, nas palavras de Paulo ("... como convém a quem está no Senhor" (Col. 3.18 NVI)) e ganha brilho total como estratégia de evangelização, nas palavras de Pedro ("... a fim de que, se ele não obedece à palavra, seja ganho sem palavras, pelo procedimento da mulher..." (I Pd. 3.1 NVI)).

Observe que, no contexto das palavras de Pedro, ele se dirigia aos escravos ensinando que deveriam sujeitar-se aos seus senhores e usa o exemplo da sujeição de Jesus diante de injustiças, em função de uma finalidade maior que era levar pessoas à salvação.

Deduz-se daí que tanto a sujeição de escravos quanto a das esposas, seriam tão injustas quanto os sofrimentos impostos a Jesus (I Pd. 2.21-24), mas sua aceitação deveria se dar porque havia algo maior em vista: a salvação de pessoas.

Portanto, a sujeição recomendada não tem por objetivo perpetuar um modelo de casamento no qual as mulheres devem sujeitar-se unilateralmente aos maridos, mas estimular uma atitude que poderia facilitar a conversão deles, numa cultura machista.

Logo, se marido e mulher forem cristãos, a finalidade da recomendação perde o sentido.

Se o marido não for cristão, a prática da sujeição deve ser fruto de uma iniciativa desejada pela mulher e não uma regra imposta doutrinariamente, por mais piedosa que a recomendação pareça ser ou por mais virtuosa que seja a intenção dos legisladores da vida alheia.

Portanto, não há como justificar a submissão unilateral da mulher, imposta como modelo permanente de relacionamento conjugal.

A pergunta que me faço é: se marido e mulher são iguais na condição de filhos de Deus; no cumprimento de deveres conjugais; na autoridade sobre o corpo; na interdependência; na manifestação de amor e na sujeição, o que pretendem os que apregoam a heresia da submissão da mulher? Será que poderiam mencionar exemplos práticos de áreas que restam ou em que desejam a submissão de suas mulheres?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Aumento nos divórcios


Circula a notícia de que o divórcio aumentou muito, ao completar 30 anos desde a sua legalização. No Brasil, 1,49 casais por mil se divorcia, o que representa um crescimento de 200% em relação a 1984, quando começou a ser pesquisado pelo IBGE.

São Paulo, Minas e Rio, por ordem, são os estados que apresentam maior número de divorciados. No nordeste, Bahia, Pernambuco e Ceará são os vencedores.

A aceitação do divórcio pela sociedade e a facilidade de acesso ao judiciário para formalizar separações são as causas apontadas pelo jornal A Tarde (5.12.2008), de Salvador. Aqui está o xis da questão. Parece-me que tais causas são superficiais. Há motivos mais profundos.

Gostaria de dizer algumas coisas sobre o assunto:

1. Conheço questões da antropologia, psicologia ou sociologia, por exemplo, referentes ao desenvolvimento histórico do casamento, bem como a posição paulina seguida pela igreja, mas penso que a luta pela manutenção do casamento, em termos institucionais, é importante para a vida humana;

2. Importante também é que, na Bíblia, há razões diferentes para o divórcio em Moisés, Jesus e Paulo e as palavras que sabemos de cada um deles sobre o assunto abre leques imensos de interpretação permitindo praticamente divórcio por uma infinidade de razões;

3. Também precisamos considerar as profundas mudanças experimentadas pela humanidade em nossos dias que influenciam na quantidade crescente de divórcios;

4. Preocupa-me também discursos vazios de segmentos evangélicos contrários ao divórcio, usando tom emocional, sem manifestação de compaixão, sem análise profunda das causas e sem oferecimento de alternativas para ajudar os casais de maneira efetiva a se prepararem para o casamento e a enfrentarem suas divergências.

Diante de nós, portanto, temos mais este desafio a ser enfrentado. Mas, até que a quantidade de divórcios afete algum aspecto da economia, pouco ou nada, certamente, será feito.