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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Amor à Palavra - 13.07.12 -82/100 dias de oração pelo Brasil

A palavra é essencial à vida. No sentido de informação, ela é a materia prima da existência. Porém, quando se fala em "Amor à Palavra", tema da oração proposta no livro "100 dias que impactarão o Brasil", ela ganha sentido técnico. Portanto, não se refere a qualquer palavra, mas à Bíblia, sinônimo de Palavra de Deus na tradição cristã.

Todos sabemos que a palavra de Deus não se resume à Bíblia. A própria Bíblia nos informa que Deus falou a Abraão, 430 anos antes de Moisés (Gal. 3:17), quando não havia um único texto das Escrituras Hebraicas. Fala também de outras formas de comunicação usadas por Deus, quando declara:   "Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas,
mas nesses últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo." (Heb. 1:1-2)

Deus não se calou. Ele continua falando e usa as maneiras que julga necessárias. Deus é soberano.

Porém, não somente porque Paulo afirma
que as Escrituras foram inspiradas (ao escrever a Timóteo por volta de 65-67 depois de Cristo, portanto em torno de 25 anos antes do fechamento oficial do canon do, por nós chamado, "Velho Testamento"), mas também porque a história tem comprovado o impacto positivo dos textos bíblicos, tanto em indivíduos, quanto em coletividades e até mesmo na cultura humana, acreditamos que a Bíblia é uma coleção de textos inspirados por Deus.

Contra fatos, argumentos contrários se enfraquecem.

Os cristão podem se dividir quanto a forma de interpretar a Bíblia, mas há quase unanimidade em sua inspiração e autoridade.

Não sou bibliólatra, mas pertenço ao grupo que crê na inspiração e reconhece a autoridade da Bíblia.

Independente de questões teológicas, não poderia deixar de declarar meu amor às Escrituras. Elas trouxeram até mim a vida e os ensinos de Jesus. O meu caráter foi todo moldado a partir da vida deste homem. Ele foi a referência usada por meus pais para me ensinarem os melhores caminhos da vida. Poderia até negar a Jesus, mas, mesmo que eu quisesse, jamais poderia deixar de reconhecer o impacto dele na construção da minha personalidade.

Até aqui não o neguei e me empenho em ser cristão, não no sentido político-doutrinário da palavra, mas na busca por identificar-me com a vida e ensino de Jesus, disponíveis nos evangelhos.

Não consigo ser pastor sem a Bíblia. Os membros das igrejas por onde passei podem testificar que ela sempre foi o livro texto de minhas mensagens e estudos.

Também não consigo viver sem estudá-la. Ela é o ponto de partida em minhas buscas por respostas a questões existenciais presentes em minha alma.

Por isso, sem fazer coro ao discurso e à política fundamentalista em torno da Bíblia, seria desonesto comigo mesmo se não declarasse a relação amorosa que mantenho com ela, desde que ouvi as primeiras referencias a ela pelos lábios de meus pais.

Reconheço que amadureci, palavras ganharam significados alternativos e construi novos referenciais de interpretação. Mas ela continua sendo o centro de minhas reflexões teológicas e o ponto de partida para as escolhas que tenho feito na vida.

Sobretudo, amo a "Palavra" por ser o único documento existente que revela a vida e ensinos de Jesus.

Amo a "Palavra", porque amo a Jesus. Porque ele é a palavra que se fez carne e habitou entre nós. Ele é a chave que uso para abrir fendas que me ajudam a enxergar, quando me deparo com pontos escuros, cheios de mofo até, deste livro.


Embora seja o mais criticado, mais combatido em toda a história da humanidade e até abusado por ignorância ou falta de escrúpulo, é o mais lido e que maior impacto tem causada à vida humana.

Por isso amo a Palavra.

Abraços do seu pastor,


sábado, 7 de julho de 2012

Santidade no Relacionamento Conjugal - 07.07.12 - 76/100 dias de oração pelo Brasil

Santidade, muito mais do que um conceito moral, é uma palavra que faz parte da linguagem sacerdotal, uma manifestação da graça divina. É sinônimo, portanto, de salvação. Daí os protestantismos, diferentemente dos catolicismos, acreditarem que santo não é somente quem tem feitos extraordinários em seu histórico ou aquele cuja vida é submetida a critérios de avaliação estabelecidos pela igreja romana e que, primeiramente, é intitulado beato, para depois ser reconhecido como santo. Predomina nos protestantismos, a doutrina que defende que todas as pessoas que depositam a fé no ato extraordinário de Deus em Cristo Jesus, são santas.

Santidade, então, não é algo que nos tornamos gradualmente, mas uma experiência inicial, segundo o Novo Testamento, marcada pela fé na graciosa mensagem libertadora, salvadora, de Jesus. Repetindo, em linguagem sacerdotal, nossa santidade foi definida no ato sacrificial de Jesus na cruz do Calvário, pois o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado, portanto, pecados do passado, do presente e do futuro.

O que popularmente chamamos de santidade é, de fato, crescimento na graça de Deus. Em outras palavras, a santidade alcançada pela fé em Jesus nos motiva a querermos crescer na graça divina, vivendo de maneira eticamente saudável e não a querermos viver eticamente saudável para sermos considerados santos.

A leitura atenta de Levíticos me convenceu de que ser santo é ser saudável. A pessoa alcançada pela santidade divina empenha-se, sob a graça de Deus, a ser saudável em todas as dimensões de sua vida.

A vida conjugal não é uma excessão.

Cultivar um casamento santo, saudável, não é, portanto, dar atenção especial somente às questões relacionadas a sexo. Desenvolver uma vida sexual saudável é um dos elementos. Ser fiel ao compromisso de amar o cônjuge como a si mesmo e, portanto, encarar todos os desdobramentos daí decorrentes, é a maior manifestação de santidade no casamento. A forma como um casal manifesta santidade nas questões sexuais é um problema de foro íntimo, definida através de diálogo sincero e respeito mútuo, entre as quatro paredes do seu quarto.

Santidade no casamento, portanto, é investir na saúde da relação com Deus, dos sentimentos, dos pensamentos e do corpo.


Da mesma forma que saúde física não significa ausência absoluta de enfermidade, mas capacidade de resistir e superar doenças que surgem até por fatores alheios ao nosso controle, santidade no relacionamento conjugal também não significa ausência de problemas, dores ou erros, mas capacidade de superá-los em face da presença graciosa de Deus agindo nos corações do casal.

Santidade no relacionamento conjugal significa, enfim, investir para evitar enfermidades, mas também, disposição para curá-las quando, por razões alheias ao querer dos dois, a relação precisa ficar acamada e, até, hospitalizada.

Abraços do seu pastor,

domingo, 17 de junho de 2012

Plenitude de Deus - Vida cheia do Espírito Santo - 17.06.12 - 56/100 dias de oração pelo Brasil

Pode parecer paradoxal, mas acredito que quanto mais cheios do Espirito de Deus, mas plenamente humanos nos tornamos.

É simples: Deus não nos criou para nos tornarmos deuses como ele, mas para sermos humanos.

Tanto é assim que, depois de ter esclarecido que a distribuição de dons à igreja visava "o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo", Paulo completa:
"Até que todos cheguemos a unidade da fé, , e ao conhecimento do filho de Deus, a homem perfeito, a medida da estatura completa de Cristo"(Ef. 4.13)

Homem perfeito não é homem sem defeitos, mas que cumpre a finalidade para o qual foi criado.

Se não fomos criados para evoluirmos até nos tornarmos anjos, como muito bem disse Robb Bell em SEX GOD, muito menos o fomos para nos tornarmos deuses.

Daí, também, ser Cristo nossa "medida de estatura". Justamente ele que, "
embora sendo Deus não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se;   mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo tornando-se semelhante aos homens". (Fp 2.6-7)

Não é demais nos lembrarmos, também, que na narrativa poética da criação, o que atraiu Eva a ceder à proposta da serpente, foi justamente a oferta tentadora da possibilidade dela tornar-se igual a Deus no conhecimento do bem e do mal.
   "Disse a serpente à mulher: "Certamente não morrerão!   Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês, como Deus serão conhecedores do bem e do mal"." (Gen. 3.4-5) 

A idéia, portanto, de que quanto mais cheios da presença de Deus, mas nos alienamos desta vida, de nossa humanidade, não se sustenta. É equívoco acreditar que a plenitude de Deus se torna realidade quando nos isolamos do "mundo", como monges ou eremitas. Jesus orou com muita clareza: "Não peço que os tires do mundo, mas que os livre do mal" (Jo. 17.15) .

Aceitemos, então, nossa condição e abramos o coração para sermos cheios Espírito Santo de Deus, a fim de vivermos de maneira saudável, glorificando a Deus através da plena humanidade.

Abraços do seu pastor,

terça-feira, 29 de maio de 2012

Arrependimento e Conversão no Senhor Jesus Cristo - 29.05.12 -37/100 dias de oração pelo Brasil

A decisão de Judas de devolver aos sacerdotes as 30 moedas de prata que recebeu como pagamento por sua traição é motivo de divergência entre os estudiosos do Novo Testamento. É que, embora a palavra grega que aparece no texto (Mt. 27.3), expressando a reação de Judas diante da condenação de Jesus, seja "metameletheis" e não "metanóias", há divergência nas traduções. Umas a traduzem por "arrependimento", outras por "remorso" e outras, ainda, por "compungiu-se".

É claro que, se um dos princípios de interpretação bíblica mais conhecidos é o que diz que não se pode construir uma doutrina usando somente um versículo, muito menos poderíamos julgar uma vida usando somente uma palavra.

Porém, o que leva grande número de estudiosos a defenderem que, no caso de Judas, não houve arrependimento, mas apenas uma mudança de sentimentos, foi o fato de que, 1) embora Judas tenha percebido a bobagem que fez -
"Quando Judas, que o havia traído, viu que Jesus fora condenado..."   (Mt 27.3) - ; 2) embora,
Então Judas, o que o traíra, vendo que fora condenado
Mateus 27:3......"  essa percepção o tenha levado a
 tenha devolvido o dinheiro recebido pela traição - "devolveu aos chefes dos sacerdotes e aos líderes religiosos as trinta moedas de prata..." (Mt 27.3) - ; e, 3) embora, ainda, tenha reconhecido o seu pecado - "E disse: "Pequei, pois traí sangue inocente"."(MT 27.4) - a consequência disso, em vez de produzir nele a decisão de iniciar uma nova vida, levou-o ao suicídio - "Então Judas jogou o dinheiro dentro do templo e, saindo, foi e enforcou-se". (Mt. 27.5).

O peso do erro reconhecido por Judas foi agravado com as palavras dos líderes religiosos: "E eles retrucaram: "Que nos importa? A responsabilidade é sua"." (Mt. 27.4).  Porém, ainda que eles tenham colocado a responsabilidade pela morte de Jesus sobre Judas; ainda que tal responsabilidade também tenha sido colocada sobre o povo israelita (At. 3.15) e sobre os líderes judeus (At. 5.30;), diferentemente disso, a teologia da morte de Jesus, como a vemos no Novo Testamento, em vez de colocar a responsabilidade pela morte de Jesus sobre os ombros de uma pessoa ou de um grupo, a coloca sobre os ombros de todos nós.

Emitir, então, juizo de valor sobre a salvação de Judas é fácil para aqueles que entendem salvação como uma equação matemática, na qual "a soma da palavra bíblica tal + a palavra bíblica qual + a reação da pessoa "Y" é = a...".  Porém, salvação é uma manifestação graciosa de Deus, que conhece as intenções, os motivos, dos corações. Para ele, o que é impossível aos homens torna-se possível (Mt. 19.26). Assim, prefiro  não entrar no julgamento de Judas.

O que posso dizer, à luz das consequências da  "metameletheis" em Judas e das consquências de "metanóia" em "N" casos registrados no Novo Testamento é que "metanóia" produz vida enquanto "metameleteheis" produziu suicídio.

Sim, arrependimento é uma reação que ocorre no interior da vida humana, através da qual tem início um processo de mudança de mentalidade a respeito de nós mesmos e da nossa relação com Deus, com as pessoas e com o mundo que nos cerca. Essa nova mentalidade é geradora de vida, por isso afeta todas as dimensões, levando o arrependido a não conformar-se com condutas, leis, estruturas de pensamento ou de organização social geradoras de morte.

Essa  inconformação movida pela mudança de mentalidade, não nos torna juizes arrogantes, prepotentes, do mundo, nem vendedores de um produto religioso, muito menos profetas do pessimismo, mas cooperadores humildes de Deus no sentido de
"pregar boas novas aos pobres", "proclamar liberdade aos presos", "recuperação da vista aos cegos", "libertar os oprimidos" e de estar sempre atentos, por saber que "aquele que julga-se firme, cuide-se para que não caia" (I cor. 10.12).

Arrependimento, portanto, é uma reação contínua. Sob o domínio da confiança na graça de Deus, cada vez que o arrependido depara-se com situação que pode produzir morte, sua reação o move em sentido contrário, no sentido de caminhar para e com Jesus, pois, como ele mesmo disse, "quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva". (Jo. 7.38).

Ao orar por arrependimento e conversão no senhor Jesus Cristo, comecemos por nossas próprias vidas, verificando se nossas atitudes, palavras e ações são geradoras de vida ou de morte; se nossos posicionamentos diante da realidade são produtores  de vida ou de morte. Feito isso, oremos então para que cada pessoa ao nosso redor seja contagiada por esta nova mentalidade que pode ser alcançada na relação graciosa com Jesus, o Cristo.

Abraços do seu pastor,

sábado, 28 de janeiro de 2012

Oração ao Deus desconhecido - Friedrich Nietzsche

"pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio." (Paulo, em At. 17.23)
 xxxxxxxxx
A Oração ao Deus Desconhecido
 Friedrich Nietzsche
(Original em Alemão. Tradutor: Leonardo Boff)
"Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para frente uma vez mais, elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares
festivos para que, em Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
"Ao Deus desconhecido”.
Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos
sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero Te conhecer,
quero servir só a Ti."
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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Processo de elaboração de estatuto para igrejas batistas

Sabemos que um estatuto é muito mais do que uma peça jurídica. Antes de tudo é um pacto político através do qual, pessoas que formam uma instituição definem diversos elementos que nortearão sua caminhada. Nas igrejas batistas, cujo sistema de governo é democrático e, portanto, a assembléia de membros é soberana, essa compreensão é essencial. Por isso, pelo menos dois elementos devem ser considerados antes da elaboração de estatuto: 1) que áreas de conhecimento devem estar representadas numa comissão responsável pela elaboração; 2) que princípios devem nortear a definição dos regulamentos. Pensemos nesses dois elementos:

1)   Que áreas de conhecimento devem estar representadas numa comissão responsável pela elaboração?

1.1.      Teologia
Coloco a representação teológica em primeiro lugar porque é a teologia o diferencial das igrejas. Embora haja semelhanças no funcionamento de um empreendimento batista, quando comparado com outros empreendimentos, há diferenças que não podem ser desprezadas.

Além disso, a eclesiologia batista é construída a partir de uma teologia neo-testamentária. Portanto, não há como dissociar eclesiologia de teologia.

Nesse sentido, é fundamental que pessoas com conhecimento teológico e, preferencialmente, bom trânsito nas demais áreas de representação, se façam presentes, a fim de que não se perca de vista a natureza da instituição e a prioridade das finalidades espirituais do empreendimento.

1.2.      Administração

A definição da(s) finalidade(s) da organização como um todo e de cada órgão (conselho, ministério ou departamento) em particular é um dos elementos que precisam ser profundamente clareados. Se não sabemos previamente quais são as finalidades, atribuições, composição e forma de eleição, como regularemos o funcionamento? Como criaremos órgãos e cargos que farão com que os objetivos sejam alcançados?

A existência de um organograma da instituição é essencial à elaboração. Através dele sabe-se quais são os órgãos da igreja e como se relacionam entre si.

Também é essencial que se acredite na importância da agilidade nos processos decisórios antes de redigir-se o documento. Igrejas burocráticas e lentas não são sinônimo de bem controladas e produtivas. Pelo contrário, geralmente emperram o funcionamento causando ineficácia e diversos outros tipos de prejuízos tais como de relacionamento e financeiro.

O custo, financeiro, político ou relacional do funcionamento e manutenção da estrutura é outro elemento que deve ser considerado preliminarmente. É um problema quando, para satisfazer interesses particulares nem sempre compatíveis com os interesses do empreendimento, uma série de órgãos e cargos é criada para, depois, não terem do que sobreviver, gerando pulverização de recursos, insatisfações e ineficácia.

Como o sistema será fiscalizado e quem fará a fiscalização é essencial em qualquer organização, especialmente das igrejas batistas, pela natureza democrática que as caracteriza. Instituição democrática sem forte fiscalização se torna meio de corrupção. A quantidade de prejuízos decorrentes de ineficácia na fiscalização e até mesmo de acordos pouco virtuosos é suficiente para priorizarmos a fiscalização, definindo claramente a finalidade, atribuições, composição, tempo de mandato e forma de eleição dos componentes.

1.3.      Política
A democracia batista fundamenta-se essencialmente na compreensão teológica de que todos os seres humanos foram igualmente criados à imagem e semelhança de Deus e exercem individualmente o sacerdócio, sem necessidade de intermediários, além de Jesus Cristo. Sendo assim, acreditamos que a democracia é a melhor expressão desses pressupostos teológicos num governo eclesiástico. Como a política é elemento central numa organização que se define como democrática, não seria diferente nas igrejas batistas.

Geralmente esse elemento político não é publicamente discutido, como se não existisse, mas, na verdade, aqueles que estão conduzindo o processo geralmente agem a partir de uma compreensão não declarada de que precisa ser definido que cargo terá mais ou menos poder decisório.

O poder decisório na organização deve ser estabelecido através das atribuições conferidas a cada órgão ou cargo e não necessariamente pela posição hierárquica num organograma. O poder, portanto, deve ser entendido como pertencente ao cargo ocupado e não à pessoa que o ocupa.

Percebe-se o nível de democratização que norteia uma igreja, já a partir da forma de escolha da comissão responsável pela elaboração. Uma comissão nomeada é menos representativa do que uma eleita, mesmo quando a nomeação é submetida a referendo da Assembléia. Quem nomeia geralmente escolhe componentes que, de maneira geral, representam seus pontos de vista e vão garantir a manutenção do status quo que lhe (s) interessa. É contraditório quando um indivíduo ou grupo declara nomear pensando no interesse da instituição, negando aos membros, a priori, o direito de eleição.

Para entrar em vigor, um estatuto de igreja batista precisa ser aprovado por uma Assembléia. Assim, o desejável é que antes do material ser submetido à Assembléia, ele passe por fóruns nos quais, de maneira sincera, se esclareça o poder de cada órgão e cargos nele contidos.

Quando a criação ou reforma de um estatuto vai direto pra Assembléia sem a realização preliminar de fóruns ou não há respeito às regras democráticas da igreja, corre-se o risco de viver um clima de tensão, durante e depois.


1.4.      Jurídica

Um dos equívocos cometidos na elaboração de estatutos nas igrejas batistas é acreditar que a presença de grande quantidade de profissionais da área jurídica significa garantia de qualidade. Essa quantidade, em vez de ajudar pode atrapalhar uma vez que o jurídico é totalmente privilegiado em detrimento do teológico e administrativo, além de se tornar uma ferramenta política de imposição de pontos de vista, sob a alegação da legalidade.

Na verdade, um bom profissional do direito é suficiente para orientar as questões de legalidade. A razão de ser de sua participação no grupo é ajudar a minimizar equívocos de natureza jurídica e não engessar o funcionamento da instituição pelo predomínio de uma cosmovisão legalista da organização.

Quando há divergências jurídicas, a Assembléia deve estar ciente das alternativas de interpretação de cada caso e, soberanamente, responsabilizar-se pela decisão entre uma e outra. Divergência de interpretação legal sempre haverá. Se assim não fosse, tribunais de arbitragem não precisariam existir. O inconcebível é uma assembléia de pessoas adultas ficar subordinada à palavra interpretativa de uma ou outra pessoa quando por detrás da defesa jurídica, outros interesses e motivações podem ser identificados.

2)   Que princípios devem nortear a definição dos regulamentos?

2.1.      Soberania da Assembléia
Soberania da Assembléia não é sinônimo de democratismo. A Assembléia deve ser poupada de reunir-se para discutir cor da porta do sanitário ou tamanho do papel usado no Boletim Dominical.

 A soberania de uma assembléia manifesta-se no seu poder exclusivo de reformar o estatuto e regimento interno; de eleger ou destituir sua diretoria; de aprovar seu orçamento e fiscalizar sua vida financeira; de aprovar o plano geral da organização; de arbitrar quando conflitos se estabelecem entre órgãos ou membros da igreja; de receber ou desligar membros.

Assim, a administração do cotidiano da igreja será conferida a órgãos internos cuja finalidade, atribuições, composição e forma de eleição de seus dirigentes são claramente estabelecidas no Estatuto e Regimento interno.

2.2.       Distribuição do poder
A palavra poder não tem aqui natureza pejorativa. Ela significa a quantidade e qualidade de atribuições dadas a um cargo ou órgão, fazendo com que o nível de dependência do sistema em relação a ele seja desequilibrado, desproporcional.

Uma vez definidos órgãos e cargos, é fundamental que dispositivos sejam incluídos visando impedir que uma mesma pessoa ocupe mais de um cargo simultaneamente. A simultaneidade de ocupação de cargos por uma mesma pessoa aponta a pobreza de visão de uma organização formada por tantas pessoas qualificadas ou o nível de subserviência e até de exploração política de uns pelos outros. A exceção só se justifica como algo transitório e na ausência comprovadamente reconhecida de alternativas.

2.3.       Alternância no poder
A alternância no exercício do poder é essencial a uma organização que pretende não se deixar dominar por vícios inevitáveis ao continuísmo. Além disso, a alternância propícia o arejamento dos órgãos pela presença de pensamentos diferentes dos estabelecidos de maneira contínua e ininterrupta.

Por isso, é fundamental que haja dispositivos claros quanto ao tempo de permanência e forma de eleição para os cargos, visando forçar a alternância. O fato de uma pessoa ser querida e, portanto, sempre ser eleita pelo povo, não significa, necessariamente que sua presença continuada seja saudável para a organização. O agir político de cada pessoa, os mecanismos usados para manipular os “eleitores”, os interesses envolvidos, muita vez camuflados, faz com que desejos pessoais falem mais alto do que o desenvolvimento institucional em casos de continuísmo.

2.4.      Transparência
Geralmente órgãos e cargos são criados para servir a instituição, mas é comum  ocupantes se servirem deles. Isso pode se dar em termos psicológicos, financeiros e políticos. O uso da estrutura eclesiástica de maneira promíscua, em diversos casos, é fácil de ser demonstrado.

Há pessoas cujo objetivo principal na ocupação de cargos parece ser o de alimentar o prestígio pessoal e até de usar a instituição como moeda de troca político-eleitoral. Entre os membros das igrejas batistas tal postura é ínfima, mas, como a cosmovisão clientielista da política é um cancro que destrói qualquer organização cuja natureza política é democrática, se elementos que forcem a transparência não forem incluídos nos estatutos as conseqüências podem ser nefastas.

Em face disso, é fundamental que o próprio sistema disponha de mecanismos que tornem transparentes os processos que envolvam suas caminhadas, a fim de minimizar a possibilidade de desvio de finalidade das organizações, dos cargos, dos recursos financeiros, enfim.

Considerações finais: Claro que outros princípios podem ser levados em conta na elaboração de um Estatuto, mas acredito que esses são essenciais. Se forem levados a sério, no que depender desta ferramenta chamada estatuto, as relações internas têm maiores chances de serem saudáveis e isso é tudo que desejamos numa igreja batista.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Experiência com Deus


Foi sob as mangueiras do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, no Recife, onde ouvi com maior freqüência um pensamento que pode ser expresso da seguinte maneira: o exercício da leitura é semelhante à degustação de um peixe: separam-se as espinhas, delicia-se com a carne. Tal pensamento nos alerta para pelo menos duas coisas importantes: 1) todo livro contém carne e espinhas; 2) devemos, portanto, ler com senso crítico a fim de que, empolgados com o paladar, não nos engasguemos com as espinhas.

Isso deve nos nortear em todas as leituras que fazemos, inclusive nas leituras da Bíblia.  É que, conquanto creiamos em sua inspiração, isso não significa que ela tenha sido psicografada ou verbalmente inspirada como querem alguns, mas que é produto de seres humanos movidos por experiências profundas com o divino.

Ela é Palavra de Deus, pois de capa a capa enfatiza como Deus agiu na vida de povos e indivíduos, visando manifestar seu amor cujo ápice se deu na humanização em Cristo Jesus. Nossa leitura dela deve visar o entendimento de como povos e indivíduos se relacionaram com Deus e como a ação de Deus em suas vidas mudou o curso de suas histórias. Em outras palavras, sua leitura visa enfatizar como é essencial, para a vida como um todo e para a humanidade em particular, que Deus seja o norteador de nossa caminhada, que vivamos em comunhão com ele.

As espinhas são, principalmente, os elementos culturais que permeiam tais registros, pois, se tais elementos não forem identificados e separados, em vez da leitura nos inspirar a vivermos de maneira profundamente prazerosa com Deus, ela poderá nos conduzir a sermos profundamente nocivos, opressores até, a nós mesmos e aos que nos cercam.

Exemplo disso é a insensatez de se querer transpor para os nossos dias, leis civis e normas de instituições religiosas judaicas, vigentes no início da formação do povo de Israel, descritas no pentateuco (5 primeiros livros do Velho Testamento). Ou, ainda, querer transpor todos os costumes culturais do início da era cristã para 2 milênios depois, na era do avanço científico-tecnológico e da informação.

Não só na leitura da Bíblia, a maior e mais concentrada fonte de registros de experiências humanas com Deus, mas também na leitura que fazemos das Igrejas, o princípio “saborear a carne, separando as espinhas” deve ser observado. É que a vida em Igreja também pode ser uma rica fonte de experiências com Deus.

As igrejas são – pelo menos deveriam ser - uma espécie de laboratório no qual experiências de pessoas com Deus devem – ou deveriam - visar à produção de qualidade de vida saudável – santa na linguagem sacerdotal – para todos. Laboratórios, entretanto, podem produzir drogas-remédio para serem utilizados sob recomendação médica, visando saúde, mas também podem produzir drogas-veneno que nos tornam dependentes de traficantes, nos desumanizam e nos destroem.

Assim, também na vivência em igreja, devemos estar atentos para separar “carne de espinhas”. Ou, numa linguagem joanina: “não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (I Jo. 4.1). Cabe a cada um, portanto, desenvolver senso crítico e capacidade espiritual – fruto de experiência genuína com Deus - para discernir o que, na igreja, provém de Deus e o que provém do “tráfico da fé”.

Nossas experiências com Deus, portanto, devem ser “nossas” experiências com Deus e não as manipuladas, injetadas, desejadas ou impostas por terceiros. Devem ser fruto de busca, reconhecimento e desejo sinceros de viver em comunhão com o criador, visando à construção de relacionamentos e estruturas que possibilitem um desenvolvimento saudável da vida para todos. 

Isso é possível porque “Deus tanto amou o mundo que deu o seu filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). É possível porque “nisso conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos” (I João 3.16). Então, é para que nossa vida gire em torno do amor que devemos aprofundar nossa experiência com Deus.

domingo, 22 de maio de 2011

Ricardo Gondim despede-se da revista ULTIMATO

"Após quase vinte anos, fui convidado a “des-continuar” minha coluna na revista Ultimato. Nesta semana, recebi a visita de Elben Lenz Cesar, Marcos Bomtempo e Klênia Fassoni em meu escritório, que me deram a notícia de que não mais escreverei para a Ultimato. Nessa tarde, encerrou-se um relacionamento que, ao longo de todos esses anos, me estimulou a dividir o coração com os leitores desta boa revista. Cada texto que redigi nasceu de minhas entranhas apaixonadas.

Fui devidamente alertado pelo rev. Elben de que meus posicionamentos expostos para a revista Carta Capital trariam ainda maior tensão para a Ultimato. Respeito o corpo editorial da Ultimato por não se sentir confortável com a minha posição sobre os direitos civis dos homossexuais. Todavia, reafirmo minhas palavras: em um estado laico, a lei não pode marginalizar, excluir ou distinguir como devassos, promíscuos ou pecadores, homens e mulheres que se declaram homoafetivos e buscam constituir relacionamentos estáveis. Minhas convicções teológicas ou pessoais não podem intervir no ordenamento das leis.


O reverendo Elben Lenz Cesar, por quem tenho a maior estima, profundo respeito e eterna gratidão, acrescentou que discordava também sobre minha afirmação ao jornalista de que “Deus não está no controle”. Ressalto, jamais escondi minha fé no Deus que é amor e nos corolários que faço: amor e controle se contradizem. De fato, nunca aceitei a doutrina da providência como explicitada pelo calvinismo e não consigo encaixar no decreto divino: Auschwitz, Ruanda ou Realengo. Não há espaço em minhas reflexões para uma “vontade permissiva” de Deus que torne necessário o orgasmo do pedófilo ou a crueldade do genocida.


Por último, a Klênia Fassoni advertiu-me de que meus Tweets, somados a outros textos que postei em meu site, deixam a ideia de que sou tempestivo e inconsequente no que comunico. Falou que a minha resposta à Carta Capital sobre a condição das igrejas na Europa passa a sensação de que sou “humanista”. Sobre meu “humanismo”, sequer desejo reagir. Acolho, porém, a recomendação da Klênia sobre minha inconsequência. Peço perdão a todos os que me leram ao longo dos anos. Quaisquer desvarios e irresponsabilidades que tenham brotado de minha pena não foram intencionais. Meu único desejo ao escrever, repito, foi enriquecer, exortar e desafiar possíveis leitores.


Resta-me agradecer à revista Ultimato por todos os anos em que caminhamos juntos. Um pedaço de minha história está amputada. Mas a própria Bíblia avisa que há tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Meu amor e meu respeito pela família do rev. Elben, que compõe o corpo editorial da Ultimato, não diminuíram em nada.


Continuarei a escrever em outros veículos e a pastorear minha igreja com a mesma paixão que me motivou há 34 anos.
"

Ricardo Gondim
Soli Deo Gloria

Fonte: www.ricardogondim.com.br

sábado, 2 de janeiro de 2010

Deus não existe


“É provável que Deus não exista. Então, pare de preocupar-se e curta sua vida”


Sabe aquele seu filhinho, pirralho de 5 anos com quem você adora brincar, que quando você chega ele abre um sorriso imenso e corre te abraçar? Pois é, foi estuprado por um pedófilo, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe sua mãezinha adorável, sorridente, cheia de vida? O cara entrou em sua casa, violentou-a brutalmente e deixou-a sofrendo, solitária e toda ensangüentada, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe seu avô que sempre te acolheu, te abraçou quando você chorava frustrado, te carregou nos braços fazendo cócegas e te levou pra comer pipoca? Pois é, depois de trabalhar a vida toda pagando a previdência pelo valor máximo, hoje passa o maior sufoco, recebendo menos do que 3 salários mínimos pra viver, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe aquele político que te inspirou confiança e você o elegeu, acreditando que ele usaria o poder de governo pra melhorar a vida de todos? Então, ele está embolsando milhões através de propinas enquanto milhões de pessoas estão sem acesso à saúde, educação de qualidade ou saneamento básico e andam inseguras pelas ruas das cidades, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Sabe aquele pastor que você admira, destacado líder denominacional, aquele que sempre que te encontra te abençoa com palavras bonitas e te desafia a uma vida melhor? Pois é, ontem, ciente de que não estava sob holofotes e ninguém estava vendo, tratou histericamente aquela ex-missionária que deu metade dos anos de sua vida anunciando o evangelho, tão somente porque ela estava trabalhando numa sala que ele não queria, e, ao determinar que ela se retirasse, ela resistiu querendo saber a razão. Ela saiu aos prantos e ele continua feliz no exercício de sua função, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe aquele presidente neurótico que determinou que um país inteiro fosse destruído, matando milhares de pessoas, inclusive crianças, mulheres e idosos indefesos, deixando outras tantas psicologicamente semimortas? Pois bem, ele vive feliz numa mansão cercado de toda mordomia, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe aquele senhor brincalhão que vende paçoquinha de amendoim na porta do colégio? Descobriram que também vende drogas pra crianças e adolescentes, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Sabe aquele pessoal que faz as leis nas assembléias legislativas, que nos obriga a agir da maneira como quer ou aquele, dos judiciários, que tem poder pra julgar e determinar penas aos que não obedecem tais leis? Está comprometido até o último fio de cabelo com um sistema mafioso de corrupção, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Sim, curta sua vida. Não há com que se preocupar. A vida é isto: entre setenta e cem anos sobrevivendo neste planeta giratório e solto no espaço, cada um fazendo o que der na telha ou fazendo o que um grupo mais poderoso determina que se faça, na certeza de que não haverá prestação de contas a ninguém superior.


Portanto, siga seus instintos. O máximo que pode acontecer é você sofrer as conseqüências de leis naturais, existentes por acaso, fruto de casuais conexões construídas em milhares de anos entre seres que surgiram do nada e que, casualmente, se uniram, em torno de ideais nobres absurdos, sem sentido, ideais que brotaram casualmente em seus “cérebros”, cérebros que também são frutos do acaso, do interesse pela sobrevivência em torno de algo maluco.

Sim, de vazão ao seu sentir. Se tiver muito dinheiro, nem as penalidades previstas em lei incomodarão sua trajetória. Além do mais, as leis são resultado puramente de interesses políticos para manter esta espécie de passatempo que chamamos vida e não fruto de um imperativo criado por um ser superior. Portanto, se alguém te forçar a obedecê-las, reaja, enfrente usando força bruta, faça terrorismo, imponha-se, afinal, tudo não passa de um jogo de forças, de interesses. Talvez você se machuque ou machuque alguém, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Or exist?

"Disse o louco no seu coração: Não há Deus.
Têm-se corrompido e cometido abominável iniqüidade; não há ninguém que faça o bem."
(Salmos 53.1)

sábado, 1 de agosto de 2009

Adminitração, Missões e Teologia (2009)

Percebo um fenômeno curioso no coração de alguns líderes denominacionais: um discurso de amor incondicional por missões. Ocorre, entretanto, que o referido amor veiculado nesses discursos parece-me, em alguns casos, idêntico ao de adolescentes no auge da ebulição hormonal: destituído de reflexão.

Nos amores da adolescência, o que importava era estar ao lado da pessoa amada, trocando beijos e abraços, fazendo juras de amor e sonhando com um futuro “numa ilha de fantasias”. Não era o momento para considerações sobre implicações econômicas do casamento, orçamento familiar, filosofia de educação dos filhos, escala de valores e prioridades, divisão do tempo com outras necessidades individuais e conjugais, enfrentamento de adversidades físicas, emocionais, relacionais, enfim, não havia lugar para o mundo real.

Quando ouço alguém falar que dinheiro de missões é intocável, penso duas coisas: ou a pessoa está jogando pra platéia, usando aquelas frases de efeito que disparam instintivos améns quase unânimes ou demonstra ignorância a respeito da inter-relação existente entre diversos elementos no desenvolvimento da missão da igreja. Não me refiro ao desvio de finalidade de ofertas designadas. Falo da incapacidade de enxergarem que as convenções serão ineficientes e ineficazes em seus propósitos se não valorizarem, inclusive financeiramente, os aspectos da formação teológica e de administração de seus líderes.

Penso ser importante deixar claro que missões, no sentido usado entre nós batistas, faz parte da missão, mas missões, nem é nossa única missão, nem pode existir isolada da administração e da teologia.

Sou um admirador do Pr. Fernando Brandão. Louvo a Deus por sua chegada à direção da Junta de Missões Nacionais e, observando elementos que conheço para “ouvir clinicamente” uma pessoa, não percebi até agora evidências de que não se trate de pessoa sincera e honesta. Dos lábios dele tenho ouvido uma expressão, referente à saúde financeira de Missões Nacionais, que, para não ser distorcida, merece reflexão: “Não é coisa de administração nem gestão humana, é de Deus”.

Compreendo seu espírito humilde, "joãobatistiano" do "convém que ele cresça...", mas é inegável que Deus está usando sua experiência e conhecimentos em gestão financeira, bem como sua ética, amor ao Reino e carisma, no processo de recuperação da saúde de Missões Nacionais. Se assim não fosse, não precisaríamos incluir qualidades de administrador dentre os critérios de seleção de nossos dirigentes. Bastaria descobrir quanto tempo eles passam orando e lendo a Bíblia. Mas todos sabemos que não é assim.

Ao fazer essa consideração, meu objetivo é esclarecer que administração, definida na linguagem religiosa paulina como dom, não é algo menos espiritual ou necessário do que "amor por missões". Muito menos, reconhecer a participação humana no sucesso da missão, falta de honra a Deus. Afinal, não somos seus cooperadores? Assim, vejo como equívoco comum em nossas igrejas, o discurso de que administração não faz parte da espiritualidade cristã. Não por acaso, o principal motivo de queda de pastores não são desvios éticos ou doutrinários, mas esgotamento administrativo.

A administração é a estrada sobre a qual a missão da igreja viaja e a teologia, seu combustível. Se enfatizarmos missões e nos descuidarmos da administração e da teologia, o cumprimento da missão "desacelera". Quando, por exemplo, declaramos a ação de Deus em nossos empreendimentos, estamos fazendo uma afirmação teológica, portanto, passível de análise. É a ausência de estímulo à reflexão teológica uma das principais causas do surgimento de líderes nocivos à saúde da igreja e da sociedade e a principal causa dos membros de nossas igrejas serem presas fáceis de seus discursos biblicamente diabólicos, como na tentação de Jesus.

Lamentavelmente missões parece estar para os batistas, assim como o futebol para os brasileiros. O investimento previsto para hospedar a Copa do Mundo de 2014 é 230% maior (ou numa linguagem mais correta, duas vezes mais 30% superior) do que o orçamento anual de educação do país. Se compararmos nossos investimentos em missões com os em educação encontraremos proporção semelhante ou ainda pior.

Da mesma forma, se compararmos o "amor" que manifestamos por missões (não com a missão) com o que manifestamos pela administração das organizações batistas, o resultado será o mesmo. Estamos tão neurótica e medievalmente condicionados a livrar indivíduos de um inferno futuro que não percebemos o "inferno" que muitas igrejas vivem por ineficiência administrativa ou influencia de teologias construídas nos e não de joelhos.

Todos ficamos encantados com os momentos devocionais das assembléias da CBB. Duas coisas, porém me preocupam: a primeira, é que a supervalorização de tais momentos pode indicar a pobreza deles no cotidiano de nossas igrejas. A carência pode ser tal que precisamos encontrar alguma fonte para suprí-la. Assim, acreditamos que o que nos falta o ano todo em nossas igrejas deve ser suprido em doses cavalares durante uma assembléia.

A segunda é com a negação da importância das sessões administrativas. Já fui, por oito anos, executivo de instituição denominacional. Sei o quanto se sofre durante os dias das assembléias por termos que ouvir alguns discursos destituídos de fundamentos sólidos a respeito do trabalho que desenvolvemos. Mas não podemos, por isso, desestimular a participação democrática daqueles que representam os interesses das igrejas locais, que são a razão de ser da existência das convenções batistas.

Fui a Brasília com o pensamento focado na defesa de dois temas. Um deles, decidi aguardar mais este ano e, a depender de como as coisas caminharem, levantarei na próxima assembléia. Durante toda a assembléia fiz uso do microfone três vezes. Duas em defesa da criação da Câmara de Ação Social (um dos meus temas-foco) que foi aprovada. O outro uso do microfone, foi em favor dos direitos de participação nos conselhos da CBB, dos membros das igrejas fiéis ao Plano Cooperativo, oriundos de convenções estaduais cujos administradores retiveram indevidamente o repasse do Plano Cooperativo nacional. Sobre isso escreverei oportunamente.

Pois bem, reconheço que há oradores que alugam os microfones e cujas intervenções nos debates, tanto em quantidade quanto em qualidade, seriam dispensáveis. Devemos cuidar, entretanto, de não usar isso para inibir aqueles que têm somente aquele espaço para fiscalizar as instituições financiadas por suas igrejas e se calam por receio de serem estigmatizados como falastrões. Diga-se de passagem, alguns não falam nas assembléias, mas manifestam suas insatisfações, inclusive retendo o Plano Cooperativo ou não enfatizando ofertas especiais.

Todos sabemos o pensamento que diz que, se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. Portanto, é, também, visando evitar brechas para corrupção, malversação dos recursos financeiros enviados mensalmente às convenções, bem como garantir a finalidade da nossa "filiação" que devemos estimular a participação consciente de cada representante das igrejas nas sessões administrativas das assembléias.

Penso que estamos num momento crucial em relação aos investimentos que as convenções estaduais e nacionais fazem com o dinheiro dos dízimos, devolvidos até com sacrifício às igrejas. Chegou a hora de aprofundarmos a administração da coisa batista, a partir de dados objetivos, transparentes, sem receios ou amarguras, amando não só missões, mas também a educação e a administração, a fim de cumprirmos nossa missão integral, ajudando o ser humano em todas as dimensões de sua vida, a partir da comunhão com Deus.

Graça em arte e adoração (2008)

Arte e adoração sempre andaram juntas. Mesmo reconhecendo que adoração, antes de tudo, é um sentimento de encantamento diante do esplendor da vida que nos leva a uma atitude de prostração, de humildade diante do absoluto, a força de tal sentimento é tão extraordinária que há um incontido desejo de materializá-lo.

Assim, ao longo da história da humanidade, em todas as épocas e lugares, seres humanos têm interagido com a realidade e tentado, digamos, “copiar” o Criador, no que se refere à capacidade de criar. Numa inequívoca manifestação de que somos sua imagem e semelhança, transformamos a criação em objetos, imagens, sons que retratam a beleza e a complexidade da vida.

A busca pelo aperfeiçoamento de nossas criações em todas as áreas, tem como referência a natureza que está ao nosso alcance e, num certo sentido, a arte é uma forma de nos sentirmos em harmonia com aquele que a criou. Assim, podemos dizer que, mesmo inconscientemente, cada vez que nos envolvemos no labor artístico estamos indicando um anseio espiritual de afinidade com o ser que é autor da vida.

É fato que, por maior e mais aperfeiçoada que seja a genialidade criativa humana, a arte é insuficiente para estabelecer de maneira plena e satisfatória nossa comunhão com o Eterno. Daí a iniciativa divina que, numa manifestação de graça, vem até nós em Cristo Jesus, preenchendo tal lacuna. E nós, agraciados, respondemos com mais adoração, através da arte do viver.

“Graça em Arte e Adoração” é uma oportunidade de nos capacitarmos um pouco mais na arte do viver e do expressar sentimentos espirituais. Neste espírito, registramos em nome da Igreja Batista da Graça, nossa alegria por sua participação.

Violência conrtra a mulher no meio evangélico (2007)

O trabalho que está em suas mãos pode ser considerado uma raridade. Não me refiro ao fato de descrever a violência contra a mulher. Isso é notório ao longo da história da humanidade e milhares de livros já foram escritos sobre o assunto. Sua raridade se deve ao fato de tratar da violência promovida dentro de família que se considera evangélica, numa abordagem feita por um homem que faz parte do mundo evangélico.

A violência contra a mulher é praticada desde quando se tem registro da história humana. Não me refiro somente à violência de natureza física, mas principalmente a de natureza política, religiosa e psicológica. Estes tipos de violência, praticados inclusive através da restrição de espaços de atuação social feminina, por puro preconceito, ainda é bastante tolerado em nossa sociedade e também precisa continuar sendo vigorosamente repudiado.

A reação, entretanto, à violência física, merece atenção especial pelos prejuízos imediatos e chocantes que produz, em todas as dimensões do ser humano.

A novidade que este livro traz à tona é o fato da violência estar ocorrendo em índices preocupantes dentro de lares classificados como evangélicos. Explicar o motivo disso deve ser também objeto de preocupação, pois até um passado relativamente recente, famílias evangélicas eram tidas como referência em termos de respeito.

O que estaria acontecendo? Algumas trilhas podem ser apontadas. Primeiro, a elasticidade do termo evangélico. No Brasil, a partir da década de 70 teve início uma espécie de estelionato da marca “evangélico”, que passou a ser usada por qualquer grupo que não comungasse com a fé católica.

Em segundo lugar, o reconhecido crescimento numérico, tanto de igrejas, quanto de indivíduos que se dizem evangélicos, provocado pelo crescente acesso de líderes que se auto-intitulam evangélicos à mídia falada e televisada.

Em terceiro lugar, devemos reconhecer a influência do fenômeno da “sentimentalização da fé”, próprio da cultura pós-moderna, disseminado especialmente através de igrejas de origem carismático-pentecostal, cujo discurso enfatiza quase que exclusivamente o sentir e experimentar, em detrimento do pensar e confiar.

Em quarto lugar, vale salientar o papel do paradigma religioso presente no discurso de muitos pastores, que, na prática, é a troca do Deus conforme revelado nas Escrituras Sagradas - a Bíblia – pelo deus riqueza, elemento central da chamada teologia da prosperidade. Essa troca de Iavé por Mamon eliminou o elemento ética dos sermões, “coisificando” os relacionamentos interpessoais.

Em quinto lugar, não poderia deixar de destacar a influência de uma teologia que coloca o Velho Testamento no mesmo pé de igualdade do Novo Testamento. Enfatizando mais a lei do que a graça e transformando o específico de uma cultura primitiva em regra universal, ela reascendeu a crença da submissão incondicional da mulher ao homem, gerando ainda mais conflitos conjugais, em face da falta de sintonia entre a cultura dos tempos bíblicos com os papéis da mulher no mundo atual.

Finalmente, não poderia deixar de destacar a humanidade daqueles que se dizem evangélicos, também influenciáveis pela cultura da violência, em índices alarmantes, presente em cada espaço e situação da sociedade brasileira, como elemento que merece reflexão.

Deixando de lado as possíveis causas do aumento da violência contra a mulher em lares evangélicos, o fato é que este livro apresenta de maneira clara, não somente como a violência se dá, mas também como os envolvidos reagem e o que podemos fazer para modificar esta situação.

O texto é um sinal de alerta e deve ser lido com atenção por todos que, comprometidos com valores do Reino de Deus, desejam ver a vida a dois como um sinal da presença do Cristo.

Tristeza 2003

Quem nunca sentiu, que atire o primeiro lenço

Há quem pense que pastor não sente tristeza. Sim, há quem pense que, pelo fato de trabalhar com coisas espirituais e, em tese, viver sob a orientação divina, ele tenha “mais crédito” no céu, o que lhe permitiria viver livre de sentimentos comuns aos mortais. Pensam assim porque alguns pastores criam em torno de si uma aura de espiritualidade que nem sempre corresponde à realidade. Por isso, por falta de senso crítico, insegurança ou qualquer outro motivo, ainda há quem alimente idéias fantasiosas em torno dessa personalidade, as vezes e infelizmente controvertida, chamada pastor.

Mas não vou escrever sobre pastor e sim sobre tristeza. É que experimentei-a recentemente quando minha filha, aos 18 anos, deixou-nos para voltar ao Brasil onde inicia seus estudos de Administração de Empresas na Universidade Federal de Pernambuco. Então, cada vez que entro em seu quarto, choro a saudade da separação, confirmando o que sempre soube, mas nem sempre admiti: sou muito mole!

Me consola saber que não estou sozinho pois a maioria dos brasileiros nos Estados Unidos sentiu ou sente este tipo de tristeza. Alguns ainda estão na fase do choro, outros já superaram, mas todos a experimentam, vez por outra, por ter deixado pra trás, pessoas, lugares, bichinhos de estimação que fazem parte do seu mundo significativo.

Há tristezas que resultam de problemas nossos e há as que são fruto de solidariedade. Acontecem, por exemplo, quando perdemos um(a) namorado(a), um ente querido por morte, quando somos reprovados num exame vestibular ou na tentativa de um novo emprego, quando vemos uma criança que cresceu nos Estados Unidos não poder entrar na faculdade por causa da ilegalidade, quando presenciamos o sofrimento de pessoas que amamos ou pensamos nas gritantes desigualdades sociais brasileiras e suas consequências funestas...

É interessante que a tristeza nem sempre está vinculada ao que se vive no presente. Mesmo que o presente esteja próximo do desejado, ela invade nossas vidas inesperadamente usando como chave a lembrança de uma experiência dolorosa e, se não fossem as lágrimas – “bem-aventurado os que choram porque serão consolados” – o coração explodiria, pois a dor seria insuportável. Tais lembranças produzem um sentimento de incompletude, de lacuna no coração, uma sensação de que algo está faltando.

Essa sensação deve ser curtida e não abafada. Digo isso porque há quem acredite ser vergonhoso expressá-la, afinal, se “homem que é homem não chora”, chorar seria coisa de fraco. Fruto de séculos de cultura machista, essa compreensão faz com que alguns escondam suas tristezas ou a camuflem num copo de cerveja numa roda de “amigos”, num “shopping”, torrando desnecessariamente alguns trocados ou ainda em catarses coletivas praticadas em algumas reuniões religiosas. Outros, por ignorância, chegam a se envolver com drogas ilegais, caindo nas mãos de traficantes, transformando a vida - a sua e a dos que os cercam - num inferno. Não podem escondê-la, porém, de si mesmos, nem mesmo embalando-a em roupas de marca, maquiagens caras ou carros maravilhosos... Na hora em que se despem destas coisas e a cabeça se encontra com o travesseiro, a noite é perturbadora.

Dependendo da filiação religiosa da pessoa, há um agravante. É que algumas igrejas ensinam que “crente” não fica triste. Então, para não dar “mal exemplo” - marketing religioso de péssima qualidade, verdadeira propaganda enganosa da “fé” causadora de profundas neuroses - há pessoas se remoendo que insitem num riso hipócrita para preservar a imagem da instituição. Diferentemente das instituições religiosas, Deus não precisa de marqueteiros, de gerenciadores de sua imagem. Ele pede somente que o amemos, bem como a nós mesmos e aos nossos semelhantes e que confiemos na incondicionalidade do seu amor. Por isso, ser verdadeiro na tristeza é a postura mais adequada, ponto de partida para quem pretende vencê-la e viver de forma saudável.

Anima-nos saber que Jesus não escondeu sua tristeza. Ele disse: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal...”(Mateus 26.38). Anima-nos sua honestidade: “neste mundo vocês terão aflições; contudo tenham ânimo! Eu venci o mundo”. (João16.33). Anima-nos o registro poético da experiência de Davi, rei Judeu, com Deus: “Pode a tristeza durar, todo o anoitecer, mas a alegria vem ao amanhecer (Salmos ). Portanto, enfrente sua tristeza na perspectiva de que ela é transitória. Cultive sempre amizades sinceras. E se for preciso, procure ajuda de profissionais. Eles também são sinais da graça de Deus.