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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Juventude Brasileira - Temos Timóteos, Faltam Paulos como o Apóstolo Paulo - 13.06.12 - 52/100 dias de oração pelo Brasil

Se quisermos entender a cabeça da juventude, prestemos atenção às músicas que ela  canta, populares ou evangélicas. No caso das evangélicas, percebemos, por exemplo, que na década de 60 eram bastante cristocêntricas; na de 70, bibliocêntricas;  no final da de 90, começam a ser mais antropocêntricas e hoje emite alguns sinais de estarem se tornando excêntricas. Genericamente falando, claro!

Observe dois exemplos de letras cantadas na década de 60.
I
“Combate”

Moços, declarai guerra contra o mal,
Exaltai a cruz do Salvador!
Firmes empunhai armas não carnais,
Sempre confiai em seu amor!

Todos juntos ao redor da cruz,
Prontos, firmes estejamos nós!
Sim, avante, alegres, corajosos,
Sempre ouvindo de Jesus a voz.

Mocos, avançai! Fortes vos tornais,
Se o valor da Causa conheceis.
Tremulante em luz, erguei o pendão,
Garantia de que vencereis!

Nosso Deus e Pai, ouve com favor!
Vem nos ajudar a combater!
E vencida, enfim, a luta final,
A coroa vem nos conceder.

 II
“Um Novo Mundo”

Jovens fortes chama-nos Jesus,
Para um mundo novo construir.
Trevas, que hoje tentam destruir,
Hão de ser clara luz,
Alvo resplendor!

Levantemos sobre a terra
Nossos braços libertados,
Ao serviço convocados
Por Jesus;
Pelos que são oprimidos,
Pelos que são perseguidos!
Eia! Que nós venceremos
No poder da cruz!

Ao combate, enquanto não soou
O momento em que há de raiar
Novo mundo, com Jesus, Senhor,
Onde a paz e o amor
Sempre hão de reinar.


Há uma variação na ideologia, mas o conteúdo geral, além de cristocêntrico, era mais combativo.

Se no passado houve quem lutasse contra o comunismo, o militarismo, o capitalismo, contra guerras, quantos, mais recentemente, se uniram pra lutar contra o neo-liberalismo (cujos danos vimos nos Estados Unidos e, como num efeito dominó, estamos vendo na Europa, sem falar dos danos que não ganharam espaço na mídia por serem desfavoráveis aos interesses dos grande conglomerados econômicos) ou contra o empobrecimento ou a corrupção, por exemplo. Em alguns segmentos evangélicos da juventude, se fala na luta contra o pecado (termo abrangente em seu sentido ético, de interpretação múltipla em termos morais, que acaba significando uma luta quase sem foco, de tão espiritualizada).

Houve um ensaio de uma luta organizada em favor do sexo somente após o casamento, inspirado numa iniciativa de batistas norte-americanos (nossa inspiração e regra de fé e prática (?) ), mas pouco ou nada se tem falado sobre o assunto, desde que as primeiras pesquisas sobre a eficácia do movimento começaram a ser publicadas nos Estados Unidos.

O combate ao uso de drogas, à exploração e abuso sexual  da criança ou ao mal trato ao meio ambiente ganharam espaço em alguns meios evangélicos, mas não sei se já podemos dizer que ganhou ou ganhará uma dimensão de causa coletiva objetiva.


Perdendo o sentido de luta por causas mais objetivas, a grande motivação parece ser cada um por si. Os ajuntamentos (pelo ajuntamento) de jovens, parecem pouco enfatizar a luta coletiva em favor de alguma manifestação objetiva do pecado na vida humana como violência, preconceito, discriminação, exclusão social, enfraquecimento dos relacionamentos, competição sem ética, etc.

Lutamos pela causa de Jesus, dizem alguns, como se ele nos inspirasse a somente uma causa ou como se houvesse só um tipo de Jesus em nossa cultura. Às vezes nem nos damos conta de que parecemos estar simplesmente lutando por um discurso religioso, um produto de mercado, cujo símbolo/marca é Jesus.

Percebo mais a luta pra se conseguir um bom emprego, um bom salário, um minuto de fama ... e ter. E muitos que conseguem isso em algum momento têm uma recaída a la Raul Seixas: "Eu que lutei tanto pra conseguir, agora me pergunto: e daí?"

Ao orar pela juventude, peçamos a Deus que nos ajude a ajudá-la a desejar conhecer mais a fundo a pessoa de Jesus não somente como o Salvador de suas almas do inferno escatológico, mas como inspiração, motivo maior, sentido do existir, razão de ser do nosso amor a Deus, ao semelhante, à vida. E que esse amor nos inspire a pensar, refletir, agir pelas causas divinas que produzem vida em abundância, razão da vinda de Jesus (Jo. 10.10).

Abraços do seu pastor,

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Juventude Evangélica - 13.05.12 - 21/100 dias de oração pelo Brasil


Hoje vamos orar pela juventude evangélica, seguindo o roteiro de oração publicado no livro “100 dias que impactarão o Brasil”.

Não é importante aqui se a palavra “evangélico”  tem relação com seu significado histórico. Isso seria assunto para outra reflexão. O que interessa  é uma juventude que, seja por quais motivos ou motivações forem, optou por abrigar-se sob esta nomenclatura.

Há algo especial no coração de jovens que se interessam por participar de uma igreja e, mais ainda, por se declararem seguidores de Jesus.

Se o que lhes está sendo repassado não retrata adequadamente  os ensinos de Jesus, o problema não é primeiramente deles. Não se pode exigir de pessoas, cujo foco de estudos excepcionalmente inclui algo sobre hermenêutica bíblica ou história do pensamento da igreja, por exemplo, sejam capazes de discernir se o que lhes está sendo ensinado é ou não o melhor, em termos das palavras de Jesus.

Nos congressos dos quais participam, por exemplo, raramente passará  pela cabeça de algum deles, quais teriam sido os critérios usados pelos dirigentes para que estes e não aqueles palestrantes fossem convidados para falar-lhes. Por que isso ocorreria, se são poucos , inclusive dos que já estão em universidade,  que se interessam por entender sobre o que é ideologia ou política religiosa?

Quando se pensa em “juventude evangélica”, levando-se em conta todas as igrejas que adotam esta adjetivo (que para algumas é marca), reconhecemos que o sentimento religioso fala muito mais do que o pensamento. Senso crítico? Que escola acredita ser isso importante? Que igreja colocaria isso em sua lista de interesses, se é justamente na falta dele que algumas se apegam para aliciár jovens? Mas, a despeito disso, valorizamos seu desejo de envolver-se numa igreja e, mais do que isso, de acertar na caminhada com Deus.

Valorizamos essa devoção, pois ela é ponto de partida para qualquer processo de amadurecimento espiritual, de engajamento nas causas de Deus. Ou não foi assim que a maioria dos que hoje se consideram “maduros”, inclusive no pensamento, começaram? Se existe distância muito grande entre o conteúdo e forma da fé da juventude evangélica e a da que os “maduros” alcançaram,  que se use os meios disponíveis para alertá-los e ajudá-los.

 Se alguém merece uma palavra de repreensão, esse alguém não seria a “juventude evangélica”, mas as igrejas, especialmente nós,  sua liderança.  É que, como igreja, nos conformamos ao espírito do tempo no qual o que vale é o resultado quantitativo do que se alcança (número de membros ou voluntários, alvos financeiros,  pontos de pregação (ou de captação de recursos...) e não o valor do ser humano e suas múltiplas necessidades, inclusive e especialmente as espirituais.

Peço a Deus misericórdia por minha vida como pastor, pelas igrejas e pela juventude evangélica deste tempo.  Que ele abra nossos olhos para não fazermos da igreja uma extensão do que se valoriza fora dela, mas que a vida fora dela seja uma extensão do que deve ser valorizado numa igreja: o amor e a graça divinos.

sábado, 20 de março de 2010

Juventude missionária


Neste sábado, 27 de março, a IBG terá o privilégio de hospedar o congresso da Juventude Batista Baiana. Será mais uma oportunidade de abençoarmos e sermos abençoados graças aos investimentos feitos em estrutura física e à generosidade, hospitalidade, disposição e disponibilidade que cada membro tem demonstrado.



Penso que a realização deste evento em nossa sede chega em boa hora. Primeiro, porque estamos enfatizando os desafios missionários, especialmente os da América Latina, nestes tempos de terremotos que ressalta nossa pobreza em diversas dimensões. Depois, porque é visivelmente crescente a presença jovem em nossos cultos.





Penso que os desafios dos tempos em que vivemos estão exigindo um olhar especial para a juventude. O mundo está passando por um processo profundo nas relações de poder. O poder norte-americano está enfraquecido, o da comunidade européia não se consolidou, os emergentes (Bric) se destacam na economia e aproveitam para ocupar espaços políticos, os tigres asiáticos começam a dialogar entre si, o radicalismo do oriente médio não arrefece e a África continua sendo campeã de miserabilidade social.





Diante deste quadro amedrontador, é fundamental que nossos olhares estejam voltados para a juventude, pois, a qualidade de vida, das relações interpessoais que reinará em nosso planeta, depende do investimento que nela fizermos.





Mais do que nunca precisamos ter clareza do perfil de jovens que estamos precisando e investir pesadamente nele. Pessoalmente estou convencido de que precisamos de jovens que apresentem, primeiramente, confiança, intimidade e compromisso com o doador da vida. Da qualidade da relação mantida com Deus depende a qualidade de vida intrapessoal, interpessoal e extrapessoal.





Depois, precisamos de jovens com boa educação. Por boa educação refiro-me não somente à capacidade de dominar conteúdos produzidos por terceiros, mas sobretudo, à competência para analisar de forma crítico-criativa os conteúdos disponíveis e reelaborar a compreensão que se tem da realidade, oferecendo alternativas de saída para situações desafiadoras da vida.





Assim, se queremos construir dias melhores, precisamos entender que uma juventude missionária não é somente aquela que se envolve com a dimensão religiosa da vida. É claro que precisamos de jovens que se dediquem exclusivamente a atividades religiosas. Entretanto, precisamos muito de jovens que se envolvem com todas as dimensões da vida sem perder o referencial de comunhão com o sagrado.





Meu desafio, então, para os mais jovens é que mantenham a “cabeça no vento e os pés no chão”. Invistam na comunhão com Deus sem perder de vista a realidade que os cerca. Pensem nas coisas que são de cima não no sentido de alienação, mas no sentido de busca de respostas para a caminhada que tem diante de si, no aqui e agora. Fortaleçam a perspectiva de missão, pois o mundo está precisando muito que a juventude recupere a dimensão missionária do viver.

sábado, 1 de agosto de 2009

Masturbação (2004)

Se voce é daqueles que ficam vermelhos só de ouvir falar naquilo, minhas desculpas! Não poderia, porém, deixar de tocar no assunto. Ele tem pouca repercussão pública exatamente porque acontece estritamente na (vida) privada. Mas, é motivo de dilema para milhares de adolescentes, jovens e adultos separados por um "visto" de seus cônjuges.

A masturbação - busca solitária de prazer através da manipulação do órgao sexual - e outros assuntos relacionados à sexualidade, ganharam ênfase nos currículos de escolas brasileiras somente a partir da década passada. A inclusão se deu em reação a abusos cometidos, especialmente via televisão, e seus efeitos sociais. Conversas educativas sobre o tema continuam tabu. Pais tomam conhecimento da primeira mestruação da filha, mas ignoram a primeira ejaculação e seu significado para o filho. Existem muitos mitos em torno da masturbação, desde os mais jocosos - faria crescer cabelos nas mãos - até os sem fundamentação científica - causaria espinhas no rosto ou conduziria ao homossexualismo. A masturbação, porém, em si, não é problema. Problema é o sentimento de culpa decorrente. Como lidar com sexo ainda é transitar no proibido, quem se masturba fica com a sensação de desobediência, culpa, medo, tristeza... A Bíblia silencia sobre o tema. Dois textos, entretanto, são distorcidos para "comprovar" que masturbação seria pecado. O primeiro refere-se ao coito interrompido de Onãn. (Gênesis 38.8-10). Porém, os minimamente alfabetizados sabem a diferença entre coito interrompido e masturbação. Além disso, pecado ali não foi o coito interrompido, mas o desrespeito à lei do levirato.
O segundo, refere-se às palavras de Jesus: "Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela". (Mt. 5.28). Aqui, também, o tema não é masturbação, nem posicionamento sobre pensamentos eróticos, mas adultério.

Os que condenam a masturbação, porém, alegam que ela é acompanhada de pensamentos eróticos e isso seria pecado, com base nesse texto. Isso beira à neurose! Porém, se exegese ajudar na cura, vale a pena conhecer uma. Veja o que diz o Dr. David Hocking em "Love and Marriage":
"Primeiro, a palavra olhar está no presente, no grego, indicando um hábito vivencial contínuo. Não cremos que esteja dizendo que olhar com desejo sexual em um dado momento é errado. Deus nos fez com desejo sexual. Os homens gostam de olhar para a mulheres e as mulheres gostam de olhar para os homens. Cremos que esta passagem está condenando a prática de centralizar a sua atenção em uma dada pessoa, com a motivação de cometer adultério com ela. Em segundo lugar, a palavra "mulher" está no singular, quanto ao número e não no plural. O texto não está condenando o ato de se olhar para mulheres em geral, mas a concentração em uma mulher em particular. Uma pessoa determinada começa a dominar nossos desejos.
Em terceiro lugar, as palavras "para cobiçar" têm referência óbvia à perpetração do adultério. Isto não é a mesma coisa que experimentar o desejo de olhar para a aparência física de uma mulher e gostar do que se viu. O problema pode acontecer quando você se concentra em uma pessoa em particular e mentalmente vai pra cama com ela". (O mito da grama mais verde, JUERP, RJ, 1985, pg. 82, 83).
Precisamos ser honestos, de cara, repito, pra dizer que a Bíblia não trata do tema masturbação. Dizer também que, assim como autores bíblicos combatem a glutonaria e embriaguez, sem nunca apontarem o jejum absoluto e abstinência total como alternativa, também combatem a imoralidade sexual sem apontar a "castração" como solução. Eles não seriam tão insensatos! A repressão sexual é tão nociva ao indivíduo e à sociedade quanto a liberação. O diálogo honesto sobre sexualidade, solidão, frustração, relacionamentos e outros, é a saída recomendada. No caso da masturbação, uma avaliação das circuntâncias pessoais, da frequência do ato e sentimentos posteriores, feita por pessoa qualificada, pode identificar as causas, se a prática seria doentia e que soluções saudáveis existem. Por isso, no trato do tema, em lugar do literalismo bíblico legalista, a confiança na graça de Deus deve ser enfatizada. Se pela graça não formos edificados, estamos perdidos, pois resta-nos a letra que mata.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Meu amor pelo nordeste (2003)

Entrei no Nordeste pela porta de Maceió, em setembro de 1978, antes da passagem dos furacões Collor e PC Farias. A cidade era destaque nacional por suas lindas praias, as mais belas do país. Foi, entretanto, a visão cristã comprometida e inteligente da liderança da Juventude Batista Alagoana que me motivou a voltar àquela cidade, em setembro de 1983, como pastor da Igreja Batista do Pinheiro.

A experiência de pastorear em Maceió foi muito rica. O período era de efervescência política pelo final da ditadura militar. Enquanto parte significativa dos pastores apoiava o então governador Divaldo Suruagy, ex-aluno do Colégio Batista e alinhado aos militares, pelo menos cinco dos principais sindicatos do Estado eram presididos por jovens batistas, com destaque para Joaquim Brito.

Conheci Joaquim em fevereiro de 1978, no Congresso da Juventude Batista Brasileira, em Porto Alegre e ali iniciamos a aproximação. Daí surgiu uma amizade que produziu bons frutos. Entre 1980 e 1982, Joaquim, presidente da JUBAL e eu, Secretário da JUBAPE, atuaríamos juntos trabalhando pelo CON-NORDESTE.

Paralelamente à liderança denominacional, Joaquim se destacou como líder político chegando à presidência da CUT alagoana e, mais recentemente, como Deputado Federal pelo PT e Secretário de Estado em Alagoas. Curiosamente, tendo iniciado sua carreira profissional como estagiário da CEAL (Centrais Elétricas de Alagoas ?) em 1975, hoje é presidente da Empresa. Por isso, qualquer trabalho acadêmico sobre a atuação de batistas brasileiros na política que não considere a ação deste líder e da Juventude Batista Alagoana, precisa ser revisto. (O mesmo deve ser dito em relação à família do Pr. Israel Dourado Guerra, em Pernambuco). Foram pessoas como ele, comprometidas com um evangelho de ação e não somente de contemplação, inclusive as de posição ideológica diferente, que fortaleceram meu amor pelo Nordeste.

No Recife, cheguei em fevereiro de 1979. Depois de mais de dois dias dentro de um ônibus, desci na antiga Rodoviária do Cais de Santa Rita, ansioso por conhecer a Rua do Padre Inglês e o Seminário do Norte onde me graduaria e me especializaria em teologia, seria membro de sua Junta Administrativa e teria uma passagem rápida por seu magistério, devido a outras prioridades. (Além do STBNB, também construí mais alguns conhecimentos estudando na UFPE e ensinando no SEC). Como seminarista, trabalhei com os pastores José Deusarte, na Igreja Batista de Bairro Novo, em Olinda; Eli Fernandes, na Igreja Batista da Rua Imperial; Livingstone Cunha, na então JUNTIVA-PE e Amauri Munguba, na Igreja Batista do Cordeiro. Nas igrejas citadas me senti amado por muita gente, verdadeiros pais, mães, irmãos e amigos. Diga-se de passagem, o papel das famílias das igrejas na vida dos seminaristas deveria receber atenção dos seminários e até ser objeto de estudos.

Ao deixar São Paulo para viver no Nordeste, fiz o caminho inverso da história da migração brasileira. O último empurrão para que isso ocorresse foi dado por Wagner, em outubro de 1978, no então Instituto Bíblico Batista do Estado de São Paulo, em Bauru. Na ocasião, eu presidia o congresso do Departamento de Mocidade da Associação Centro e ele participava na condição de Presidente da Mocidade da Associação Vale do Paraíba. Ele planejava prestar vestibular de medicina no Estado da Paraíba e a idéia era trabalharmos juntos com juventude, no Nordeste. Esses planos não deram certo para ele e nunca mais nos vimos; para mim, entretanto, se concretizaram. Durante quase 25 anos exerci muitas funções denominacionais; cruzei o sertão de diversos Estados; estive em quase duas centenas de igrejas; falei em congressos e acampamentos de adolescentes, jovens, pastores, famílias...; batizei centenas de pessoas, aconselhei, fui aconselhado... e meu amor pelo Nordeste se tornou realidade.

Meu amor pelo Nordeste se tornou realidade porque não foquei a visão na sua propalada condição de relativa pobreza; porque aprendi, a tempo, a não fazer das estruturas denominacionais ou do status e prestígio que elas efemeramente conferem, meu propósito ministerial; porque descobri, a tempo, que as pessoas, os relacionamentos, deveriam ser priorizados, pois as funções exercidas ficam esquecidas nas páginas dos livros de atas ou de relatórios, mas as pessoas que amamos nos carregam consigo, num testemunho vivo, ambulante, daquilo que dá sentido à existência humana, verdadeiro combustível da vida: o amor.

Seria aconselhável participar do carnaval? (2002)

Gostaria de desvincular a participação no carnaval da idéia de certo ou errado e associá-la à idéia de bom ou ruim, de saudável ou doentio. Isso porque pecado, antes de ser a quebra de normas socialmente estabelecidas, é o erro em relação ao propósito de Deus para a vida. Deus nos criou para que vivamos de maneira saudável, agradável, boa. Qualquer ato, atitude ou palavra que prejudica, desvaloriza, desqualifica a vida, pode ser compreendido como pecado.

O carnaval é um evento desaconselhável porque, na prática, é nocivo à vida, ainda que seus organizadores digam o contrário. Por terem interesses políticos e comerciais, jamais mostram o outro lado do evento. Sendo a meta, engordar suas contas bancárias ou aumentar seu eleitorado, os malefícios do evento ficam em segundo plano.

O carnaval é um evento desaconselhável por aquilo que valoriza. O que valorizamos, como pessoas comprometidas com Jesus, não é a mesma coisa que o evento valoriza. Por exemplo: um dos apetrechos mais vendidos no carnaval se chama MORTALHA. O dicionário Aurélio diz que mortalha, "do latim mortualia, ' veste de luto', é uma "vestidura em que se envolve o cadáver que vai ser sepultado". Sua ideologia, portanto, é de morte e não de vida.

Essa ideologia se torna real pelo acentuado uso de álcool, a droga que mais mata no Brasil; pela disseminação de outros tipos de drogas de efeitos nocivos imediatos; pelo conseqüente descontrole das faculdades racionais, produzido por essas drogas que, além de prejudicar seus usuários, coloca em risco a integridade daqueles que estão ao seu redor; pela conseqüente banalização do corpo humano, tratado como simples objeto descartável de prazer, exposto à prostituição.

Desaconselhável, portanto, não é o ajuntamento social em busca do divertimento, do lazer, da descontração e da construção de novos relacionamentos. Desaconselháveis são: a ideologia do evento, as práticas que ali predominam e a falta de escrúpulo dos organizadores, para quem os fins justificam os meios.

Encontramos, no carnaval, pessoas bem intencionadas que não se alcoolizam, não usam drogas, nem se prostituem. Nem isso, porém, faz dele um bom ambiente para pessoas comprometidas com valores espirituais, cujo propósito é a alegria, a amizade e o respeito à vida. Quem não teve uma experiência com Jesus, como Senhor e Salvador, não pode pensar como pensamos porque os valores que regem suas vidas não são os mesmos que regem as nossas.

Por isso, ao escrever esta reflexão, o propósito não é condenar ninguém, nem colocar uma viseira no rosto de quem quer que seja. Somos livres para fazer escolhas e responsáveis por suas conseqüências. O propósito é apresentar referenciais compatíveis com os valores do Reino de Deus, de tal forma que, aqueles que já se decidiram por colocar o Reino de Deus como valor máximo de suas vidas, mas estão em dúvida, se posicionem. No mais, como nos disse Paulo, "seja a paz de Cristo, o árbitro em vossos corações..." (Col. 3.15)

Sexualidade, a terceira alternativa (2001)

“A liberação não é a única, nem a melhor alternativa à repressão”.
(Examinai tudo, OJB, nº 29 de 16 a 22 de julho de 2001 )


São raras as pessoas que tratam com desenvoltura o tema sexualidade e eu não sou uma delas. Sou de uma geração que pouco ouvia sobre o assunto, exceto para se inculcar como pecado o simples "pensar naquilo". E do pouco que se ouvia, o discurso era que as inclinações da carne - entendidas, para boa parte dos pastores, como sinônimo exclusivo de desejos sexuais - eram pecaminosas.

Mas não podemos tapar o sol com a peneira. Basta olhar para o passado para constatar que a forma como o assunto foi tratado ao longo da história não foi eficaz em seus propósitos. A quantidade de casamentos desfeitos, de casais infelizes e de crentes, inclusive pastores e esposas, com neuroses oriundas da maneira como lidam com a sua sexualidade é incalculável e persistem a despeito dos nossos discursos romanticamente moralistas. Isso sem contar os efeitos nocivos que alguns deslizes sexuais provocam na vida de terceiros e da sociedade. Exemplos? as preocupações mundiais que o batista Bill Clinton, ex-presidente da mais rica potência do planeta, provocou com suas aventuras sexuais na Casablanca ou os prejuízos que as aventuras sexuais do pastor fulano de tal (você certamente tem pelo menos um nome em mente para substituir o “fulano de tal”!) trouxeram à família, à igreja e à denominação que servia com tanta sinceridade e dedicação.

A repressão ao desejo tem sido o caminho mais indicado nas poucas vezes em que o assunto é tratado, sendo a demonização do sexo, sua expressão maior. Para alguns, o desejo sexual deve ser encarado como de origem demoníaca e, por isso, deve ser exorcizado com jejum e oração. Em vez de encararem os sentimentos sexuais como inerentes à constituição bio-psíquica humana para, a partir daí, canalizá-los construtivamente, bloqueia-se o canal do diálogo, mais por insegurança emocional do que cognitiva. O alerta para os perigos do sexo é tão extremista que, mesmo sabendo tratar-se de obra divina, o melhor é ficar bem longe dele. Reprimir sexualmente parece ser o caminho mais curto quando o pregador quer jogar o ouvinte na lama da culpa para depois convocá-lo a uma mudança, geralmente ineficaz, por mais sincero que seja o "Arrependido".

Em posição oposta estão os que defendem a liberação. Existem em minoria e poucos mostram a cara por, digamos, conveniência política. Para estes, a necessidade sexual deve ser encarada da mesma forma como a necessidade de beber água. Se você está a fim, basta encontrar alguém que satisfaça suas necessidades e pronto. É só não esquecer a camisinha. Mas as coisas não são tão simples assim. Sexo não é água, nem corpos, copos descartáveis. Pessoas sentem, pensam, se apegam, se amam, reagem e interagem; têm passado, presente e futuro; têm história; têm família, amigos e colegas; sonham em ser amadas, detestam ser usadas. Além disso, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada causam transtornos e mudam o rumo da vida dos envolvidos e dos que os cercam.

Se a repressão e a liberação são igualmente prejudiciais, qual seria a terceira alternativa? A alternativa é abrir-se ao diálogo franco e conscientizador, começando na própria família. Abrir-se ao diálogo é procurar sentir e entender os dilemas do interlocutor; é admitir, honestamente, que todos estamos sujeitos a enfrentar situações cuja dificuldade de lidar com a sexualidade é real; é não apresentar-se com um anjo que, por ser assexuado, não enfrenta dificuldades na área; é não Ter medo de admitir as próprias fragilidades. Para nós pastores, essa é uma alternativa indecorosa, afinal, não pecamos nem estamos sujeitos a conflitos no campo da sexualidade... Isso é problema de adolescentes, jovens e uma meia dúzia de adultos mal resolvidos...

Esta na hora de revermos nossas posições, de pararmos de ditar normas, como se fôssemos deuses, para dialogar, para ouvir e se deixar ouvir sem um púlpito e uma gravata entre nós e o povo. Está na hora de reavaliarmos algumas questões. Por exemplo: a eficácia da repressão ou da liberação sexual a partir de dados; a função sexual, em termos de reprodução, intercâmbio de afeto e de prazer; a questão cultural e sua influência no trato do assunto; o uso da Bíblia como ponto de partida para uma orientação saudável e não ferramenta de manutenção de costumes sociais oriundos de contextos diferentes ou ponto de chegada fundamentalista; a avaliação crítica do pensamento daqueles que fazem da sexualidade seu nicho de atuação ministerial em face de interesses e motivações questionáveis; o convencimento de que conversar abertamente sobre sentimentos sexuais é tão saudável e necessário para os casais quanto a própria pratica sexual; o interesse dos pais pelo desenvolvimento sexual de seus filhos especialmente quando em fase de namoro, muito mais com ajudadores do que como legisladores ou juizes; o mito de que casar-se é solução para todos os casos de abrasamento sexual e que pessoas casadas estão livres de se sentirem atraídas por terceiros; o mito de que o conhecimento acadêmico do assunto torna a pessoa mais preparada para lidar com a sexualidade, desconsiderando as emoções, a matriz da personalidade e sua história de vida; o papel do afeto nos relacionamentos familiares e na construção de uma sexualidade saudável.

Está na hora de abandonarmos o simplismo, de sermos mais realistas e de dobrarmos mais nossos joelhos em oração, não para fugir do assunto ou mistificá-lo, mas para buscar sabedoria divina e preparo mais adequado aos clamores dos nossos dias.

Filhos adolescentes (2001)

Não são poucos os pais que procuram ajuda pastoral por dificuldades enfrentadas com filhos adolescentes. Na maioria dos casos o problema são eles e não os filhos. É que, ou não se lembram que um dia foram adolescentes ou desconhecem o perfil das pessoas nesta fase da vida e como lidar com elas. O que eles descrevem como problema, muitas vezes é evidência de saúde e de que o processo de desenvolvimento dos filhos está ocorrendo como deveria.

Sou pai de dois adolescentes: Mônica, com 17 anos e Raphael, com 15. Até aqui agradeço a Deus a experiência e tiro o máximo proveito da convivência com eles. Através do diálogo e da observação eu mesmo reavalio meus ideais e renovo a mente. Além disso, tenho aproveitado para compreender melhor o que sou hoje, comparando os conflitos que eles vivem com os que vivi.

A forma como as fases anteriores foram vividas, especialmente o tipo de relação mantida com os pais, influencia a adolescência. A clareza dos pais no exercício dos papéis que desenvolvem é referencial importante para os filhos na definição de suas identidades. Mônica tinha oito anos quando decidiu batizar-se. Na época eu estava fora do ministério pastoral, dirigindo um colégio batista. Lembro-me perfeitamente que, no domingo de seu batismo, o Pr. Josias Bezerra telefonou-me para acertar minha participação no batismo dela. Ela atendeu o telefone e ele comentou o que falaria comigo. Prontamente ela respondeu com um bom "nordestinês": "ôxe, pastor! meu pai é meu pai; meu pastor é você"! E ele a batizou!

Penso que a construção da identidade deles é facilitada pela forma como nos relacionamos. Nunca orientei que se comportassem bem por serem filhos de pastor. Protesto quando alguém, diante de uma atitude inadequada para adultos, mas compreensível para criança ou adolescente, os corrige, mesmo em tom de brincadeira, lembrando-os do papel social do pai. Quando diretor da escola em que estudam, orientei coordenadores e professores a tratá-los com os mesmos direitos e deveres de qualquer aluno. Minhas intervenções em todos os momentos de suas vidas têm sido na condição de pai, sem evocar outros papéis sociais.

Essa postura tem um custo. Imagine o filho de um pastor usando brinco, calças rasgadas, com cabelos compridos e fã do Nirvana! Raphael experimentou, separadamente, essas situações. Quando pediu para usar brinco, conversamos muito, analisamos os motivos, a cultura, os prós e contras e permitimos. A fase passou. No início da adolescência, muitas vezes acompanhei-o à loja de produtos de Rock para comprar fitas de vídeo e camisetas. Nas idas e vindas, trocávamos idéias sobre os produtos, visando o desenvolvimento do senso crítico e a rejeição do que poderia ser nocivo. A febre passou e hoje ele lida com o tema de forma tranqüila, estuda guitarra e até está aprendendo a apreciar música clássica. Já está deixando de lado as calças rasgadas. Obviamente, continua usando calças que, em mim que já estou na casa dos "enta" ficariam ridículas, mas nele estão ótimas! Recentemente resolveu cortar os cabelos! E o melhor é que já fez sua decisão ao lado de Cristo e foi batizado por mim.

Algo mexeu fortemente comigo, no semestre passado. Raphael, discordando de um colega que defendia a interpretação literal das narrativas bíblicas da criação, resolveu conhecer meu ponto de vista. Expus meu pensamento com toda honestidade, o qual reforçava suas idéias. Ao final, disse-lhe de forma enfática que a posição que eu adotava não era a única e que ele deveria conhecer, também, os argumentos dos que pensam diferente para formar seu próprio pensamento de forma sólida. Ele não hesitou em responder, com um sorriso meio maroto: "estou entendendo, mas você é o meu pai e o meu referencial"! Para um adolescente, quem argumenta pode influenciar e ser mais importante do que os argumentos. Que responsabilidade!

Ter filhos adolescentes exige habilidade. Eles também convivem com pessoas que cultivam valores e referenciais diferentes dos nossos. Não podem se sentir "Ets", nem serem liberados sem orientação. Com limites exagerados ou sem limites não os ajudaremos. A corda que os liga a nós não pode ser muito curta, nem muito longa. Encontrar a medida certa é um desafio a ser enfrentado através da troca de sentimentos e idéias com pais em situação semelhante; reflexão profunda nas Escrituras; leituras sobre o assunto; oração e, sobretudo, diálogo com eles, manifestando honestidade, coerência e amor. Penso que agindo assim eles serão melhor compreendidos em eventuais erros e nós nos sentiremos menos ansiosos e culpados diante de eventuais barbeiragens que cometermos. E as vias da comunicação sempre estarão desobstruídas para construirmos juntos nossas vidas em Cristo.

OBS.: Este é um registro de experiência e não um modelo educacional para adolescentes. Foi escrito em solidariedade aos pais que, como Gláucia e eu, vivem os dilemas de educar filhos adolescentes.

"Despertar" o que? (2001)

Durante esta semana, milhares de jovens batistas estão se encontrando em Niterói, para participar do Despertar 2001, congresso da Juventude Batista Brasileira. Se "Proclamai", nome do congresso missionário promovido pela Junta de Missões Mundiais, tem tudo a ver com Missões, o que "Despertar" tem a ver com a juventude? Estaria a juventude adormecida?

Creio que a juventude está por demais acordada; ela não dorme, está sempre ativa, criando, agindo, canalizando, enfim, suas energias para algum fim. Isso é inerente à sua idade, à sua condição biológica, mental, emocional. Nesse sentido, DESPERTAR deve significar ajuda à juventude, a fim de que canalize suas energias de forma construtiva, individual e coletivamente.

Ao longo dos últimos 30 anos, portanto desde o início da minha adolescência, tenho participado como ouvinte, dirigente ou preletor de mais de uma centena de congressos jovens. E em boa parte deles, a temática não tem sido de "despertamento" mas de "adormecimento". Sim, pois a preocupação dos organizadores é apagar o fogo dos jovens e até alguns dos seus sonhos e ideais.

Estando a juventude em idade de ebulição hormonal, com a temperatura erótica em crescente aquecimento sob o comando equivocado de parte da mídia, alguns congressos se vêem obrigados a funcionar muito mais como Corpo de Bombeiros do que Hidrelétrica espiritual. Alguns preletores, verdadeiros ministros do "apagão", são tão vigorosos no combate ao sexo que quase apagam a chama da libido, vital à existência humana. Colocam sobre os jovens, fardos cujo peso eles mesmos não carregaram em sua juventude, postura desonesta, responsável por sentimentos neuróticos de culpa, de vergonha e de inferioridade.

Não estou defendendo o ensino da liberação sexual em nossos congressos de jovens. Não, ainda não perdi o juízo! A liberação não é a única, nem a melhor alternativa à repressão. Na verdade, ao citar a questão da sexualidade estou usando um exemplo que denuncia a nossa falta de coragem na exposição e debate de um tema que continua sendo abordando da mesma forma que se fazia na era do rádio.

Alguns dos nossos congressos são cópias - com os defeitos das cópias - de congressos norte-americanos. Somos um importante mercado consumidor da economia evangélica norte-americana. Tudo o que se produz lá - livros, discos, campanha de virgindade, modelos de crescimento de igreja, evangelistas televisivos e até disputas político-teológicas - é vendido rapidamente por aqui. Não estou emitindo juízo de valor sobre o direito e a competência comercial norte-americana e, muito menos, o direito dos consumidores. Alerto apenas para o consumo, sem crítica, de tudo o que vem do exterior, movidos por um não superado complexo de colonos. Ainda somos da geração educada sob projetos político-pedagógicos que premiavam aqueles que sempre balançavam afirmativamente a cabeça; projetos que inibiam o pensar filosófico, a pesquisa, a análise de problemas em seus contextos e alternativas de soluções.

Espero que o DESPERTAR seja uma oportunidade para se DESPERTAR a capacidade de reflexão, a fim de que os jovens não fiquem à mercê de repostas geradas em outros contextos, sob a influencia de outros valores culturais; para se DESPERTAR o diálogo entre a cultura bíblica e a cultura brasileira do terceiro milênio; para se DESPERTAR não só a fé mas também a capacidade de não crer, como nos ensina João: "não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo" (I Jo. 4.1); para se DESPERTAR a perspicácia e um estilo de vida simples, no espírito do exemplo e ensino de Jesus: "eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas". (Mt. 10. 16); para se DESPERTAR o desejo de se conhecer mais profundamente o Jesus da nossa fé e com Ele se comprometer, não apenas acima de todas as coisas, mas também de idéias, tradições, costumes, estruturas e sistemas de qualquer natureza.