sexta-feira, 30 de março de 2012

Eles - os mentirosos - serão lançados no fogo do inferno!


“Mas, quanto  ...  a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte.” (Apocalipse 21.8)

Sim, eles serão lançados no fogo do inferno, declara João sem meias palavras. Fogo no qual todos eles, sem exceção, arderão. Por isso, eles não deveriam ser aceitos como membros de nossas igrejas, não ter proteção social e, até, ser banidos da vida em sociedade, através de apedrejamento, diriam os mais radicais.

O problema é que “eles” somos “nós”. Inclusive nós que pregamos ou ensinamos o evangelho e somos atuantes na vida eclesiástico-denominacional.

Alguém dirá com ares intelectuais e voz impostada: sua hermenêutica está equivocada. João não está condenando os que mentem eventualmente com objetivos nobres. Ele se refere aos mentirosos sem Jesus. Ou: o texto trata daqueles que fazem da mentira um estilo de vida. Ou: ele está falando de pessoas que, conscientemente, fazem uso da mentira visando o mal do outro. Cada um, como bons advogados que somos, puxará a brasa pra sua sardinha.

O fato é que ninguém pode dizer com segurança absoluta qual seria a idéia ou o sentimento correto que o escritor quis expressar. O máximo que pode conseguir é que sua hipótese interpretativa faça sentido para alguém em dado momento ou conquiste apoio político para sua crença, seja pelos títulos acadêmicos que possui, pelo prestigio social alcançado, pelo poder político-econômico que representa em sua esfera de atuação ou ainda pelos benefícios que tal interpretação produz em favor dos envolvidos no contexto do qual faz parte.

Eu, porém, vos digo: todos quer dizer todos e mentirosos quer dizer mentirosos. Qualquer abertura interpretativa de exceção geralmente será feita por quem, curiosamente, pretende se auto-enquadrar - ou enquadrar alguém do seu mundo significativo - na exceção e não na regra.
Se levarmos ao pé da letra as palavras de João, não sobrará um membro ou um pastor em nossas igrejas. Todos mentimos, talvez todos os dias, em algum momento, por alguma razão. E radicalizo: não mentimos apenas através de palavras e ações geradas pelo inconsciente; mentimos, também, pelas produzidas pelo consciente. Se alguém dúvida dessa - reconheço – forte e indigesta afirmação que permita ser filmado 100% do seu dia e depois assista ao filme, sem edição, fazendo uma avaliação honesta.

É o riso e o abraço “carinhoso” que damos em alguém por quem nosso sentimento é de forte aversão. É o tom de voz suave e feliz que usamos ao atender aquele telefonema importuno dado por alguém com que não gostaríamos de conversar. É o elogio público que fazemos para conquistar apoio político. É a reação “simpática” diante de situações geradoras de sentimentos negativos, mas que exigem postura “adequada” à função ou cargo que exercemos. É o uso de palavras como “querido”, "santo", "amado" ou “irmão” dirigidas a alguém que não engolimos. É o uso de eufemismos ou de mil justificativas suaves, quando a expressão do sentimento verdadeiro seria geradora de desgaste.

Quantas vezes nos colocamos contra ou em defesa de algo, mas nosso interesse real não é com o “algo” discursado, mas com a afinação do discurso político com o de alguém ou segmento que pode nos beneficiar ou prejudicar? Quantas vezes, como no jogo de sinuca, atingimos uma bola com o objetivo de acertar outra?

Uma das mais famosas jogadas de Ronaldinho Gaúcho, craque do futebol brasileiro, é aquela que ele olha para um lado e toca na bola em direção diferente. Craques na arte de jogar com as palavras e habilidosos na capacidade de driblar idéias divergentes, no parlamento podemos superar o “adversário” e explicitar, com facilidade, mil possibilidades de sentido para a palavra mentir.  

Já imagino passando por nossas cabeças, a possibilidade de buscarmos o significado da palavra mentira no grego, no hebraico, no latim; já pensamos nas possibilidades dos sentidos teológico, filosófico, científico, enfim. Tudo pra nos livrarmos de tão desconfortável interpretação do texto que a todos lança no fogo do inferno.

Você me dirá: ninguém é “super sincero”. Ou: Abraão, o pai da fé mentiu e Pedro, além de ter mentido para negar a Jesus, ainda agiu de modo dissimulado e foi alvo da repreensão de Paulo. Ou: se não administrarmos as “informações” e os sentimentos, eles poderão ser armas contra nós mesmos. Ou: pela sobrevivência e também por amor, a forma de dizer ou não dizer verdade e mentira precisa ser administrada.

Justifique-se como quiser, mas a honestidade nos leva a admitir que, antes de entregar a vida a Jesus fomos mentirosos e, depois de tê-la entregue, seja por imposição das circunstâncias, por sentimentos desfavoráveis contra alguém ou por qualquer outro motivo, o fato é que todos continuamos mentindo, de alguma forma, em algum grau, por alguma razão. Mesmo depois de “aceitar a Jesus como Salvador”.

Não digo isso para defender o uso da mentira. Longe de mim tal insanidade. Digo isso pra estimular a humildade e a graciosidade para com o outro em suas fraquezas, especialmente nas diferentes das nossas, pois, se levarmos a Bíblia ao pé da letra, nenhum de nós escapará do fogo do inferno. “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós.” (1 João 1:8) 

Se nos consideramos salvos e somos membros de uma igreja local que se considera de Jesus Cristo, isso não se dá porque não mentimos ou não pequemos, mas porque  cremos que Jesus morreu por nossos pecados do passado, do presente e do futuro ou, em outras palavras, por nos entregarmos à graça divina. Movidos por ela, nos empenhamos em ser verdadeiros, em ser pessoas melhores. “...Mas , se pecarmos, temos um advogado”! (I Jo. 2.1).

quarta-feira, 14 de março de 2012

Dialogando e refletindo para sermos melhores


Há quem acredite que a história seja linear, isto é, que ela acontece de maneira lógica, progressiva, com início, meio e fim. Fim feliz, de preferência, claro. Entretanto, a própria história nos mostra que as coisas não são bem assim. Pelo contrário, vemos que ela se caracteriza por avanços e retrocessos, altos e baixos, rupturas e reatamentos, afirmações e negações, amor, alegria, raiva, tristeza, medo...

A história de cada um e das igrejas não é diferente. O “eu quero dizer agora, o oposto do que eu disse antes...” de Raul Seixas; ou o “esqueça o que escrevi; isso foi há muitos anos, tudo se renova, esqueça”, atribuído a FHC; ou o “quando a gente está na oposição, faz muita bravata”, atribuído a Lula; ou o “nossa cabeça pensa onde pisam nossos pés”, atribuído a Frei Beto, conquanto criticado por alguns como sendo sintoma de instabilidade, incoerência, incongruência, falta de integridade, até de esquizofrenia, está presente nas histórias de todos nós muito mais do que imaginamos ou admitimos. Parafraseando Paulo, o adulto não pensa, sente, fala ou age como quando era menino (I Cor. 13.11).

Há três anos resolvi colocar em ordem cronológica, em pastas plastificadas, todos os esboços de sermões que fiz desde 2 ou 3 anos antes da minha chegada ao Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em 1979, quando não existiam micro-computadores. Enquanto arrumava, perguntei-me muitas vezes: como conseguia pregar com essa estrutura de esboço?  Era assim que eu pensava há 35 anos? Percebi que acontece com o pensamento e sentimento o mesmo que ocorre com o corpo: percebemos as mudanças quando olhamos nossas fotografias.

Quanto mais vivemos, lemos, interagimos e refletimos, com honestidade e humildade, mais aprendemos que também a linearidade de pensamento, sentimento ou condições de vida, em qualquer de suas dimensões, é um mito. A vida é uma tensão saudável e permanente. Se a ausência de tensão, como escreveu Rollo May, é sinônimo de morte, a indisposição para reflexão e dificuldade de adaptação são o aperitivo do fim, a ante-sala do cemitério.

Mudamos, portanto, porque somos seres vivos. Mudamos para melhor e para pior e só nos damos conta disso muito mais pelos desdobramentos, pelo desenrolar da história, do que por uma suposta capacidade superior de avaliar o passado, diagnosticar o presente, planejar, projetar e controlar o futuro.

O importante, então, é não perdermos a disposição para refletir sobre a própria história e a história alheia, retificando ou ratificando referenciais de pensamento e conduta visando tornar nossa caminhada mais agradável (ou, numa ideologia mais pessimista, menos desconfortável). Se errarmos, que aprendamos com o erro e, em vez de ficar lamentando, prossigamos. Se alguém “mexeu no meu queijo”, como diria  Spencer Johnson, ficar amargamente paralisado elegendo bodes expiatórios, não modifica o fato.

Essa compreensão faz com que estudar, refletir comunitária e continuamente, seja algo que “não sai de moda”. Nossos patamares de pensamento e qualidade de vida podem ser diferentes, mas a interação é fundamental, inclusive com divergentes.

Em uma de suas mensagens no programa “Um olhar sobre a cidade”, no Recife, Dom Helder Câmara afirmou: “Se és sincero e buscas a verdade e tentas encontrá-la como podes, ganharás tendo a honestidade e a modéstia de completar teu pensamento com o pensamento, mesmo de pessoas, que te pareçam muito menos inteligentes e cultas do que tu.” E conclui: “Atenção, amigos, nós todos precisamos de matricular-nos na escola do diálogo e começar aprendendo de verdade a ouvir. E fiquemos alertas para a tentação de achar formidáveis, geniais, os que falam de acordo com o que nós pensamos. E de queimar como quadrados, caretas, os que têm a ousadia de discordar de nós. Adotemos como um de nossos lemas, queridos, “se discordas de mim, tu me enriqueces".”

Se acharmos que não mais precisamos disso, lembremo-nos de que o alerta paulino continua vigendo: “aquele, pois, que cuida estar em pé, que julga estar firme, cuide-se para que não caia” (I Cor. 10.12).

O interpessoal, o político e o técnico no exercício da liderança

Aberto ao exercício de cargos e funções de liderança eclesiástica desde o início da adolescência, não apenas cultivo alguma disposição e disponibilidade para tal, mas também tenho me empenhado em observar exemplos de líderes bem sucedidos, conhecer suas qualidades e ler o que estiver ao alcance sobre o assunto. Ultimamente tenho refletido sobre 3 competências pessoais que influenciam nosso modo de liderar e de nos relacionarmos com os que conosco trabalham.

As três fazem parte da nossa estrutura de personalidade, mas não se manifestam necessariamente em proporções iguais. Em geral uma se sobrepõe de forma mais espontânea, trazendo benefícios ou prejuízos a depender das exigências da função ou cargo, das pessoas com quem trabalhamos e do nível de consciência que temos a respeito delas.

A maneira como lidamos com elas pode influenciar, por exemplo, na decisão de aceitar ou não certos desafios de liderança, no sucesso em determinadas “missões” e até na maneira como desenvolvemos relacionamentos interpessoais. São elas: a interpessoal, a política e a técnica.

A descrição de algumas das manifestações de cada uma delas de maneira isolada e até um pouco “caricaturizada”, visa tão somente ajudar-nos a refletir, até porque a maneira como nossas qualidades se apresentam tem um elevado nível de particularidades próprias de cada indivíduo com sua herança genética, história de vida e contexto no qual está inserido.

Na interpessoal, o indivíduo sempre é mais importante do que instituições, tarefas ou grupos. O sentimento predomina sobre a razão e dizer não, especialmente em situações de comoção, é difícil. A exposição a riscos e sacrifícios em favor do outro é comum, mesmo que isso provoque desgastes.

Pessoas movem a vida. Tarefas importantes ou repercussões dos atos sobre instituições ou grupos têm importância secundária. Tudo pode ser parado se há uma demanda individual.

Na política, razão e emoção transparecem conforme as circunstâncias. A eficiência e eficácia discursiva podem ser diametralmente opostas à executiva. Dialogar, portanto, interessa mais do que desenvolver tarefas.
A habilidade de articulação é notória e dizer não ou sim depende mais da repercussão disso num segmento do que no interlocutor.  Um grupo desperta mais interesse do que um indivíduo. O indivíduo ganha importância se isso afetar o grupo.

A tomada de decisão não leva em conta, prioritariamente, valores éticos ou a importância individual, mas os efeitos, especialmente em favor dos interesses defendidos. Os interesses geralmente se sobrepõem aos valores e a flexibilidade à dogmática, exceto quando a defesa do inverso apresenta vantagens perante o grupo.

Na técnica, o “como fazer” é o eixo dos interesses, a lógica é evidente nas palavras e ações, o desejo de organizar se sobressai e a realização de tarefas, inclusive solitárias, é prazerosa.

O interesse por análises colabora para que a reação a imprevistos não seja imediata. O tempo para tomada de decisões ou de adaptação ao inesperado é maior. O “não” é dito mais facilmente, o cuidado com os sentimentos alheios é menor e ser ou não carismático é irrelevante.

Para o exercício de nossa missão no mundo, enganam-se os que acreditam que uma das três é preferida por Deus ou que uma delas proporciona maior probabilidade de sucesso ministerial. As três são necessárias à caminhada humana, mas não precisam aparecer – e raramente aparecem - de forma equitativa num mesmo indivíduo. O importante é que, cientes da existência e necessidade delas, aprofundemos o autoconhecimento e o conhecimento mútuo trabalhando cooperativamente, empenhados em usar os característicos favoráveis das diferenças em favor de todos.

Ter consciência dessas três competências, saber qual delas se manifesta mais espontaneamente em nossas atitudes, palavras e ações, quais são os aspectos construtivos ou destrutivos de cada uma em dada situação e com qual lidamos com maior dificuldade, tem sido de grande utilidade para mim no exercício da liderança.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Oração ao Deus desconhecido - Friedrich Nietzsche

"pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio." (Paulo, em At. 17.23)
 xxxxxxxxx
A Oração ao Deus Desconhecido
 Friedrich Nietzsche
(Original em Alemão. Tradutor: Leonardo Boff)
"Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para frente uma vez mais, elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares
festivos para que, em Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
"Ao Deus desconhecido”.
Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos
sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero Te conhecer,
quero servir só a Ti."
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domingo, 1 de janeiro de 2012

Nós venceremos!

Nesse final de ano tive a oportunidade de assistir novamente o filme “My name is Khan” (Meu nome é Khan) que aborda problemas vividos por mulçumanos nos Estados Unidos depois do “11 de setembro”.
Em dado momento, o personagem principal, um autista, testemunha seu drama numa igreja de afro-descendentes no interior da Geórgia. Ao terminar, um adolescente, seguido pela congregação, começa a cantar “We shall overcome” (Nós venceremos), um dos símbolo do movimento liderado por Martin Luther King Jr. na década de 60, cuja letra diz:
Nós venceremos, nós venceremos, nós venceremos um dia.

(refrão) No fundo do coração, sim eu realmente creio que nós venceremos um dia.

Andaremos de mãos dadas, andaremos de mãos dadas, andaremos de mãos dadas um dia.

Viveremos em paz, viveremos em paz, viveremos em paz um dia.

Não estamos com medo, não estamos com medo, nós vamos vencer um dia.

Nem sempre alcançamos o que almejamos na vida, porém, tudo o que alcançamos é precedido de um mínimo de crença na possibilidade de vitória. Começamos a ser derrotados quando deixamos de crer que a vitória seja possível.
Paulo, nos capítulos 7 e 8 da Carta aos Romanos, apresenta não somente lutas que caracterizam a vida, mas também diversas razões que devem alimentar nossa confiança na vitória.
Primeiro, diante dos conflitos interiores entre o bem que desejava fazer e o mal que efetivamente praticava, em vez de deixar-se dominar pelo sentimento de derrota, ele aponta a graça de Deus manifesta em Cristo, como a causa de não se deixar abater. (Rom. 7.25-8.1-2)
Segundo, frente à dor que nos fragiliza, ele ensina que o sofrimento é uma condição de toda a natureza e não somente uma experiência humana. Ele não é a finalidade da existência, mas é inerente à própria condição do ser. Por isso, a perspectiva da superação deve nos animar a enfrentá-lo. (Rom. 8.18)
A própria vida em Cristo, diz Paulo, traz consigo seus conflitos, (Rom. 8.23). Isso se dá, seja pela natural limitação humana, seja pelas escolhas equivocadas, rebeldes até, que fazemos no dia-a-dia.
Deixando claro que a ação de Deus jamais é deliberadamente contra nós, (Rom. 8.28), ele esclarece que o Espírito de Deus nos ajuda em nossas limitações, inclusive na de expressar nossas necessidades. (Rom. 8.26-27).

A ação de Deus, portanto, é sempre no sentido de nos ajudar não somente a superarmos os desafios da vida, mas também, de transformar em nosso favor, até mesmos as experiências negativas.
Dizendo objetivamente que Deus é por nós, (Rom. 8.31), ele cita o fato dEle ter dado o próprio filho Jesus como prova. (Rom. 8.32). Em função disso não devemos temer, pois nenhum indivíduo ou instituição tem poder para nos acusar e muito menos nos condenar diante do criador. (Rom. 8.33-35).
Usando uma série de imagens, ele termina de forma poética, recitando: “Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.” (Rom. 8.38-39).
Neste período do ano, fazendo balanço de nossa vida, seja na dimensão espiritual, emocional, intelectual, física, familiar, profissional ou financeira, nós identificamos sucessos, insucessos e até dolorosas derrotas.
Essas experiências, entretanto, devem ser encaradas como transitórias, passageiras. Permanente é o amor de Deus, norteador de nossas ações, em torno do qual nossa vida deve girar. Esse amor é a garantia de que não estamos sós, de que Deus não age deliberadamente contra nós, mas sempre age em nosso favor. Daí afirmarmos, confiantemente: nós venceremos!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Feliz 2012!

Essencial é não perder a capacidade de sonhar, 
é não enfraquecer a confiança, 
é não perder a esperança, 
é não se iludir com ilusões, 
é não se dobrar às forças do mal, 
é continuar lutando a despeito dos obstáculos.
Feliz 2012!


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Em busca do significado essencial do Natal


O Natal não tem significado único e pode até não ter significado algum. Tudo depende do indivíduo, do contexto sócio-cultural no qual construiu seus pensamentos e sentimentos, bem como do tipo de influência e de como reage a ela no tempo e espaço em que está vivendo.

Mesmo tendo se desenvolvido em sociedades cujos padrões culturais foram influenciados por uma cosmovisão cristã de mundo, seja ela via catolicismos, protestantismos ou pentecostalismos, o significado do Natal não é, necessariamente, igual para todos.
O que há em comum, a despeito do uso que cada um possa fazer da ocasião é o fato dele – o Natal - estar relacionado, primordialmente, ao nascimento de uma pessoa, a pessoa de Jesus de Nazaré.

Ainda que seja inevitável associarmos o Natal ao simbolismo do amor universal, oportunidade de confraternização e troca de presentes, estratégia de marketing e aquecimento da economia, ninguém deveria deixar de conhecer em profundidade àquele que é a causa original da comemoração.

As doutrinas cristãs como conhecidas hoje, nas diversas correntes que mantém algum tipo de vínculo com a história de Jesus, é fruto de uma construção teológica paulatina. Nenhuma delas, entretanto, prescindiu dos textos mais antigos e aceitos que falam a respeito do homem de Nazaré, produzidos por quem viveu mais próximo dele ou de pessoas que com ele conviveram.

Mesmo que os significados dados aos livros bíblicos – são ou não, contém ou se tornam “palavra de Deus” - ou as interpretações dadas aos seus textos sejam diferentes - umas mais populares, superficiais, outras mais acadêmicas, aprofundadas - eles são a fonte mais antiga e reconhecida de informação sobre a vida de Jesus.

Daí, qualquer pessoa que se interesse por descobrir o significado mais antigo do Natal, seja por razões espirituais, existenciais, culturais ou religiosas, não pode deixar de ler o que ficou registrado a respeito do menino que nasceu numa cocheira e seus ensinos, seja pela ótica de Mateus, Marcos, Lucas, João, Paulo, Tiago, Pedro ou Judas, no chamado Novo Testamento.

Se quisermos encontrar o sentido mais profundo do Natal - o bíblico-teológico - é essencial que invistamos tempo no conhecimento da pessoa de Jesus que, nos textos de João é a palavra que se tornou humana e habitou entre nós (Jo 1. 14) como manifestação do amor de Deus para salvação de todo aquele que nele – Jesus - crer (Jo. 3.16) e, nas palavras de Paulo, manifestação da graça divina (Tito 2.11) para libertação humana (Gal. 5.1).

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sofrimento e graça na vida de Maria


"O anjo, aproximando-se dela, disse: "Alegre-se, agraciada! O Senhor está com você!" Maria ficou perturbada com essas palavras, pensando no que poderia significar esta saudação. Mas o anjo lhe disse: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus!" (Lc. 1.28-30) 
 
Se tivesse que indicar o ser humano cujo nome esteja mais conhecidamente associado à graça divina, certamente o de Maria seria o primeiro. Isso porque, além de sua história em si, diariamente, em cada canto do planeta alcançado pela Igreja Católica, pelo menos uma vez por dia se veicula em emissoras, a prece:
“Ave Maria,
cheia de graça,
o Senhor é convosco,
bendita sois Vós entre as mulheres,
bendito é o fruto em Vosso ventre,
Jesus.” 

Em poucas das histórias publicadas na literatura cristã, graça e sofrimento se misturaram de maneira tão explicita quanto na de Maria.

Imagino não ter sido fácil, na condição de solteira, esclarecer sua gravidez, numa sociedade com característicos diametralmente opostos, em quase todas as dimensões, aos dos nossos dias. Creio mesmo que, diante da dolorosa experiência, ela se sustentava nas palavras: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus!” 

Em estado avançado de gravidez ela precisou viajar para atender uma exigência legal de recadastramento. O trecho era longo, as estradas de terra não eram feitas nem mantidas com as tecnologias hoje disponíveis, não havia estrutura sanitária como conhecemos, nem os meios de transportes podiam se equiparar até mesmo às carroças que poucos de nós conhecem “ao vivo”. Mas, certamente, diante do sofrimento ela lembrava-se: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus!” 

Distante de sua casa, num lugar onde conhecia poucas pessoas e ainda sem estruturas adequadas para hospedar-se, chegou o tempo de dar à luz. Isso se deu num espaço construído para abrigar animais e uma cocheira foi usada como berço para seu bebe. Certamente as dores provocadas eram aplacadas pela declaração: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus!” 

Ter que fugir para o Egito, diante da determinação de Herodes de tirar a vida de seu bebe, deve ter sido angustiante. Não somente em decorrência dos efeitos dolorosos de mais uma viagem nas condições de então, com uma criança nos braços, mas também porque sabia que todos os meninos de sua cidade e região seriam exterminados “por causa de seu filho”. À dor física, somou-se a experiência emocional tão bem descrita por Mateus: 

"Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque já não existem" (Mt. 2.18) 

Suponho que, em mais essa experiência de sofrimento, suas dores eram acalentadas pela mensagem: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus!” 

Quando seu filho, já adulto, sofreu as dores da crucificação, João escreveu: 

“Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe,...” (Jo 19.25) 

Penso que, enquanto sofria diante de tamanha tortura, sua vida era sustentada pela voz que não silenciava em seu coração: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus!” 

A graça divina não nos torna imunes ao sofrimento; antes, em meio a ele, revigora nossa esperança. Firmados nela compreendemos que, se no mundo teremos aflições, o ânimo não deve ser perdido, pois assim como Jesus foi vitorioso também poderemos ser. (Jo. 16.33).

A experiência da graça, esse sentimento misterioso que toma conta do nosso ser excedendo todo o entendimento é o elo que nos mantém unidos ao mistério da vida, ao “absolutamente outro”, àquele que se convencionou chamar de DEUS. Sua manifestação entre nós na pessoa do Cristo, relembrada no Natal, é consolo, força e “lâmpada para nossos pés, luz para nossos caminhos” em meio às trevas do sofrimento.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A lembrança de um dia triste

Uma releitura de *Mateus 2.1-18

Aquele dia ficou marcado como um dos mais tristes da história de um povo. Foi caracterizado como dia de muito choro e lamentação. Até mesmo o consolo foi recusado. A causa não é difícil de ser compreendida. Basta apenas relembrarmos os fatos.

Tudo começou com uma notícia que se tornou motivo de alegria para muitos, inclusive menos favorecidos. Porém, houve quem dela se desagradasse profundamente.

Inicialmente a manifestação do desagrado não foi clara. Pelo contrário, ele – o desagrado – recebeu uma roupagem diametralmente oposta à realidade dos sentimentos. O sentimento real era de profunda perturbação, começando no coração do chefe do povo e contagiando a população da cidade.

A cidade não era qualquer uma. Tinha uma história de religiosidade, mas, sobretudo, de poder político. E porque era a sede local do poder político, os sentimentos negativos que dominaram especialmente o chefe, foram transformados rapidamente em articulação.

O que motivava a articulação era impedir o surgimento de alguém que poderia alterar o status quo vigente. Mas isso não poderia ser dito, publicado, pois não pegaria bem. Esconder a real motivação atrás de uma linguagem religiosa, porém falsa, foi o caminho seguido.

Inicialmente precisavam resolver um problema. O chefe temia aquele que havia chegado e que poderia alterar o “establishment” - a ordem ideológica, política e econômica estabelecida -, mas não sabia exatamente onde ele estava.

Então, a liderança político-religiosa foi convocada e a grande pergunta foi lançada: onde está o recém-nascido? Seus súditos do primeiro escalão religioso, usando os conhecimentos que tinham, deram uma verdadeira, porém insuficiente informação. Faltavam detalhes. Foi aí que o monarca resolveu buscar a cooperação de terceiros para atingir o objetivo desejado.

Não podendo manifestar seus reais sentimentos, ética e politicamente incorretos, ele usou a mentira como arma para convencer alguns viajantes a o apoiarem, pedindo-lhes que descobrissem informações mais precisas a respeito de onde estava o menino prodígio (leia-se: “ameaça para o reino”), “para que eu também vá adorá-lo” (leia-se, exterminá-lo).

O Soberano, entretanto, não imaginava que, depois de descobrirem exatamente onde estava o suposto perigo, os tais homens teriam uma revelação indicando que deveriam mudar o caminho da volta para não o ajudarem na execução de plano tão maquiavelicamente elaborado.


Também não previa que os pais do menino receberiam uma revelação e resolveriam mudar-se de localidade, visando preservar a vida daquele que, na sua ótica, representava uma ameaça.

Ao descobrir que os visitantes, também conhecidos como magos, foram infiéis, ele ordenou, desesperada e furiosamente, a morte de todos os meninos com idade inferior a dois anos, da cidade (e região circunvizinha) apontada pelos “pelos chefes dos sacerdotes e mestres da lei”.

Esse dia ficou marcado pela profunda tristeza que provocou. Foi um verdadeiro infanticídio movido por interesses políticos. “Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque já não existem”. (Mt. 2.18).

E hoje, como temos reagido à morte de milhares de crianças em consequência da corrupção assustadora, presente nas diversas esferas da sociedade, especialmente na administração pública? Como nos sentimos diante do número assustador de crianças cujas vidas não seguem um curso saudável em face da profunda injustiça social? Lamentamos, reagimos, somos coniventes ou simplesmente nos omitimos silenciando?

* Em palavra-chave ou referência bíblica, escreva Mt 2 e de ok, no site indicado

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Sinais da generosidade de Deus com a I. B. da Graça.SSA

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

História e narrativas da história

A propósito dos 45 anos da Igreja Batista da Graça

Há diferença entre história e narrativas da história. História seriam fenômenos, de diversas naturezas, que se sucedem no tempo e espaço. Narrativas históricas têm a ver com aquilo que os sentidos humanos perceberam, julgaram relevantes, memorizaram e, de forma oral ou escrita, nos foi repassado.
Isso significa que as narrativas de histórias devem ser vistas como a percepção do narrador a partir do ponto de vista de onde se encontrava. Tal ponto de vista não deve ser entendido somente em sentido geográfico, mas, sobretudo, social, político, econômico, religioso, psicológico, cultural enfim.   
Sendo verdade que “cada ponto de vista é a vista de um ponto”, como cunhou Leonardo Boff, podemos afirmar que toda narrativa de história sempre será parcial e contaminada pelo olhar de quem a narra.
A interpretação das narrativas depende muito mais de significados previamente introjetados na mente do interprete do que da intenção de quem escreveu. Por isso, podemos afirmar que o leitor de um texto precisa ser ainda mais cuidadoso do que uma testemunha dos acontecimentos, pois está lendo algo que é fruto da percepção de outrem.
O mesmo ocorre numa narrativa oral.
Faço essa elucubração pra dizer que os 45 anos de história da Igreja Batista da Graça poderiam ser narrados a partir de milhares de percepções, cada uma retratando aquilo que o perceptor julgou relevante em face dos seus sentimentos, crenças e valores, bem como dos objetivos que pretende atingir através da narrativa delas - as percepções.
Um narrador magoado, por exemplo, poderia omitir fatos ou destacar apenas aspectos ruins que caracterizaram um período; outro, não tendo de que reclamar daria ênfase às coisas boas. Daí, quanto mais distantes no tempo e menor envolvimento com os acontecimentos, maior a probabilidade de avaliarmos as narrativas com mais neutralidade.
Se quisermos formar uma opinião que retrate a maior proximidade possível dos fatos, é essencial procurarmos a maior e mais diversificada quantidade de testemunhas ou narrativas.
Estudar história não é memorizar datas, nomes e feitos tidos como extraordinários, mas compreender o significado sócio-cultural dos acontecimentos, visando corrigir rotas equivocadas e construir caminhadas mais saudáveis para todos. Portanto, estudamos também para não repetir os mesmos erros.
Ao iniciar o 46º ano da Igreja Batista da Graça, nos é dada a oportunidade de gerar novos fatos e relacionamentos. Avaliemos, portanto, os 45 anos passados empenhados em repetir o menor número possível de erros e a maior quantidade de acertos, visando vivenciar “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”, pois isso caracteriza o reino de Deus que almejamos.