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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Fui eleito, e agora? (Convenção Batista Baiana)



“No essencial, unidade. No não essencial, liberdade. Em tudo, o Amor.” 

                                                                              (Agostinho)

Não almejava a presidência, mas decidi não dizer não, em caso de indicação. Não almejava, porque não sou de ocupar cargo pelo cargo.  Não tenho vocação para “rainha Elizabeth” e sei o que ela – a presidência - significaria diante da agenda pastoral na Igreja Batista da Graça. Mas, não disse não porque acompanho com olhos clínicos a caminhada da CBBA e sei, por experiência e formação, que poderia contribuir para potencializar suas estruturas.

Fui eleito, e agora? Agora vamos caminhar norteados pelos seguintes princípios e metas iniciais:

1)      Respeito à liberdade. Em termos de princípios, sou batista à moda antiga. No Novo Testamento, a liberdade é colocada como sinônimo de salvação. Ela fez parte da visão estratégica de Jesus (Lc. 4.19); é uma vocação (Gal 5.13); é indicação da presença do Espírito do Senhor na igreja (II Cor. 3:17) e deve ser exercida visando o serviço amoroso ao próximo (Gal. 5:13).

Além disso, documentos disponíveis, por exemplo, em “ 4 frágeis liberdades” de Walter B. Shurden, comprovam o respeito dos batistas à liberdade: a) de reconhecimento da autoridade e interpretação da Bíblia; b) do indivíduo, seus pensamentos e crenças; c) da igreja local, seu vínculo com Jesus, sua autonomia e espírito de cooperação; d) de religião para todos;

2)      Defesa da cooperação. Não menos presente no Novo Testamento e na história dos batistas, a cooperação é essencial à vida humana e, portanto, à vida da Igreja. Os princípios, doutrinas, eclesiologia, patrimônio e qualificação da liderança, são resultado de cooperação. Não existe cooperação entre membros de uma igreja local que não esteja vinculada à cooperação com membros de outras igrejas. Uma igreja que quebra este princípio está colocando uma corda em seu próprio pescoço.

Cada batista coopera livremente com sua igreja e cada igreja, livremente com as demais partes da denominação e do reino de Deus.  Isso se dá de 3 formas: a) através da oração; b) através do know-how, do que cada um conhece e sabe fazer, e c) através do suporte financeiro.  Uma igreja que não se norteia por essas três possibilidades está ensinando a seus membros, com seu exemplo, que elas não são essenciais. Por isso, os membros poderão fazer o mesmo em relação a ela, sem que tenha autoridade para reprová-los.

3)       Incentivo à transparência – Quando oramos e dividimos conhecimentos, ambos – oração e conhecimento – continuam sob nosso controle.  O dinheiro, entretanto, ao ser entregue, sai do nosso controle e passa a ser controlado por outrem. Daí esperarmos que seja administrado de maneira democrática, transparente, disciplinada e austera.

Quem administra recursos financeiros de igreja ou outras instituições denominacionais deve fazê-lo de forma transparente. É direito do administrador, ser fiscalizado e um dever seu, ser transparente. Quem administra dinheiro alheio, além de ser honesto precisa parecer honesto.

Tudo que uma instituição denominacional faz com o dinheiro que recebe deve ser publicado com tal transparência que qualquer pessoa possa olhar e enxergar, com facilidade, como as coisas estão do outro lado. Todo investimento feito em funcionamento organizacional, construção, manutenção ou conservação patrimonial e em pessoal deve tornar-se público. Transparência deve ser regra geral. Sigilo, exceção baseada em critérios transparentes. Se nos envergonhamos de algo, que o “algo” seja corrigido e não escondido.

Com base nesses princípios, nos primeiros seis meses trabalharemos em torno de 3 metas:
a)      Saneamento financeiro. Levantaremos detalhadamente a situação nesta área, especialmente dívidas. Definiremos um orçamento de custeio para 12 meses baseado nas obrigações legais, contratuais e acordos denominacionais, separado do de investimento. Adotaremos o necessário para que, na medida da urgência possível, deixemos de usar empréstimos bancários e paguemos em dia nossos credores;
b)      Plano de Transparência. Usaremos a página da CBBA na internet para possibilitar a qualquer pessoa acesso à vida de todas as instituições da Convenção. Se não for conveniente a publicação de algo, isso será  exceção criteriosa e publicamente definida. Nesse caso, a informação deverá estar disponível à diretoria, aos líderes oficialmente reconhecidos pela convenção e aos membros de igreja devidamente autorizados por ela. Não deverá haver sigilo absoluto em hipótese alguma. Na democracia, a transparência é a mais eficaz arma contra a malversação dos recursos e corrupção;
c)      Reestruturação organizacional – Considerando já existir um GT de avaliação das estruturas e um processo em andamento de reforma estatutário-regimental, defenderemos estruturas bem definidas em termos estratégicos, táticos e operacionais, com atribuições claras e sem superposições; que possibilitem a agilidade dos processos sem risco à integridade doutrinária e patrimonial e com descentralização e alternância no poder. Entenda-se poder como fruto das atribuições delegadas pela Assembléia aos ocupantes de cargos ou funções e não propriedade intrínseca de seus ocupantes por critérios contrários à vida e ensinos de Jesus (Mc 10.44; Jo 13:14).

Essas intenções serão perseguidas, sem prejuízo às atividades essências da Convenção e mais caras ao povo batista. Por estarem amparadas em princípios da Palavra de Deus, as desejaremos com ardor.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Decisão = de-cisão

Como muito bem lembrou um amigo, no facebook, toda de-cisão implica em cisão. 
Não há como fugir.
 Podemos até, por insegurança, covardia ou outro motivo qualquer, adiar ou colocar a "bomba" no colo alheio, mas que gerará cisão, gerará. 
 Não por acaso, mesmo sendo o Príncipe da Paz, Jesus afirmou: " "Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois eu vim para fazer que " 'o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família' " (Mt. 10.34-36). 
Isso em face da inevitável necessidade de tomarmos de-cisões. 
Veja o caso: "Outro discípulo lhe disse: "Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai". Mas Jesus lhe disse: "Siga-me, e deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos"." (Mt. 8.21-22). 
 Seria, então, exagerado dizer que quem não tem coragem para tomar de-cisões, não está apto para seguir a Jesus? 
M I S E R I C Ó R D I A !!!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Lideranças das igrejas - 11.05.12 - 19/100 dias de oração pelo Brasil

Tenho dito e repito. Não há igreja problemática. Há líderes despreparados espiritual, emocional e tecnicamente.

Os membros em geral da igreja estão em busca de uma vida feliz, de um relacionamento com Deus e de fazer algo em prol do Reino.

Os líderes da igreja podem ajudá-los com sua disposição, disponibilidade, suas atitudes, visões e ações a atingirem seus objetivos ou não. Depende da inclinação do seu coração.

Lideres guiados por valores e sentimentos do Reino de Deus ajudam a igreja no cumprimento de sua missão. Quando, porém, o coração de pessoas com capacidade de liderança é guiado por motivos inapropriados e suas motivações não coincidem com as do Reino de Deus, a igreja sofre impactos negativos em sua comunhão, seja com Deus ou com o semelhante, e no cumprimento de sua missão.

Quem busca construir uma igreja saudável deve se interessar em preparar pessoas cujo desejo essencial da vida seja, de fato, servir a Deus de todo coração e entendimento.

Muitas vezes nos enganamos acreditando que pessoas são líderes pelo simples fato de ocuparem cargos ou funções (da mesma forma que nos enganamos acreditando que o fazer religioso seja sinônimo de espiritualidade). Equívoco. Cargo e função não transformam alguém em líder, apenas amplia, dá visibilidade e fortalece suas ações. Uma pessoa em cargo ou função de liderança multiplica sua influência. Se não for líder, isto é, se não tem clareza de objetivos, se não é guiado por bons motivos e se não se prepara espiritual, emocional e tecnicamente para estar à frente, o cargo apenas acentuará suas deficiências. E todo o  grupo sofrerá as consequências.

Quando, porém, um líder preparado nas diversas dimensões da vida ocupa cargos e funções de liderança, a igreja caminha feliz, fazendo e fazendo bem, o que é agradável aos olhos de Deus.

Quer entender a razão de um grupo feliz e vitorioso? Quer entender as razões de um grupo conflitante e com baixa autoestima? Comece olhando para sua liderança. Descobriu qualidades positivas no grupo? Descobriu qualidades negativas no grupo? Analise a liderança e nela encontrará as mesmas qualidades. O grupo está amargo, desmotivado, desarrumado? Analise a liderança...

É a liderança que faz a diferença pra melhor ou pra pior na caminhada de um grupo. Repito: não se define pessoa de liderança pelo cargo ou função que ocupa, mas pela capacidade que tem de influenciar semelhantes a realizar de determinado objetivo.

Seu grupo apresenta um problema? Não tenha dúvida: procure quem o está influenciando com sua liderança negativa. Encontrada a pessoa, de duas uma: ou investimos nela pra que se enxergue e se proponha a trabalhar para anular os efeitos negativos de sua personalidade ou trabalhemos para que sua capacidade de influenciar negativamente o grupo seja minimizada ou até, em último caso, anulada. Sem um dessas de-cisões a caminhada será de eterno conflito e sofrimento.

Oremos, então, pra que Deus nos de não somente discernimento, isto é, capacidade de perceber, de distinguir, mas também coragem para de-cidir, pois sem ação visando mudanças, mudanças não acontecem.

Abraços do seu pastor,

quarta-feira, 14 de março de 2012

O interpessoal, o político e o técnico no exercício da liderança

Aberto ao exercício de cargos e funções de liderança eclesiástica desde o início da adolescência, não apenas cultivo alguma disposição e disponibilidade para tal, mas também tenho me empenhado em observar exemplos de líderes bem sucedidos, conhecer suas qualidades e ler o que estiver ao alcance sobre o assunto. Ultimamente tenho refletido sobre 3 competências pessoais que influenciam nosso modo de liderar e de nos relacionarmos com os que conosco trabalham.

As três fazem parte da nossa estrutura de personalidade, mas não se manifestam necessariamente em proporções iguais. Em geral uma se sobrepõe de forma mais espontânea, trazendo benefícios ou prejuízos a depender das exigências da função ou cargo, das pessoas com quem trabalhamos e do nível de consciência que temos a respeito delas.

A maneira como lidamos com elas pode influenciar, por exemplo, na decisão de aceitar ou não certos desafios de liderança, no sucesso em determinadas “missões” e até na maneira como desenvolvemos relacionamentos interpessoais. São elas: a interpessoal, a política e a técnica.

A descrição de algumas das manifestações de cada uma delas de maneira isolada e até um pouco “caricaturizada”, visa tão somente ajudar-nos a refletir, até porque a maneira como nossas qualidades se apresentam tem um elevado nível de particularidades próprias de cada indivíduo com sua herança genética, história de vida e contexto no qual está inserido.

Na interpessoal, o indivíduo sempre é mais importante do que instituições, tarefas ou grupos. O sentimento predomina sobre a razão e dizer não, especialmente em situações de comoção, é difícil. A exposição a riscos e sacrifícios em favor do outro é comum, mesmo que isso provoque desgastes.

Pessoas movem a vida. Tarefas importantes ou repercussões dos atos sobre instituições ou grupos têm importância secundária. Tudo pode ser parado se há uma demanda individual.

Na política, razão e emoção transparecem conforme as circunstâncias. A eficiência e eficácia discursiva podem ser diametralmente opostas à executiva. Dialogar, portanto, interessa mais do que desenvolver tarefas.
A habilidade de articulação é notória e dizer não ou sim depende mais da repercussão disso num segmento do que no interlocutor.  Um grupo desperta mais interesse do que um indivíduo. O indivíduo ganha importância se isso afetar o grupo.

A tomada de decisão não leva em conta, prioritariamente, valores éticos ou a importância individual, mas os efeitos, especialmente em favor dos interesses defendidos. Os interesses geralmente se sobrepõem aos valores e a flexibilidade à dogmática, exceto quando a defesa do inverso apresenta vantagens perante o grupo.

Na técnica, o “como fazer” é o eixo dos interesses, a lógica é evidente nas palavras e ações, o desejo de organizar se sobressai e a realização de tarefas, inclusive solitárias, é prazerosa.

O interesse por análises colabora para que a reação a imprevistos não seja imediata. O tempo para tomada de decisões ou de adaptação ao inesperado é maior. O “não” é dito mais facilmente, o cuidado com os sentimentos alheios é menor e ser ou não carismático é irrelevante.

Para o exercício de nossa missão no mundo, enganam-se os que acreditam que uma das três é preferida por Deus ou que uma delas proporciona maior probabilidade de sucesso ministerial. As três são necessárias à caminhada humana, mas não precisam aparecer – e raramente aparecem - de forma equitativa num mesmo indivíduo. O importante é que, cientes da existência e necessidade delas, aprofundemos o autoconhecimento e o conhecimento mútuo trabalhando cooperativamente, empenhados em usar os característicos favoráveis das diferenças em favor de todos.

Ter consciência dessas três competências, saber qual delas se manifesta mais espontaneamente em nossas atitudes, palavras e ações, quais são os aspectos construtivos ou destrutivos de cada uma em dada situação e com qual lidamos com maior dificuldade, tem sido de grande utilidade para mim no exercício da liderança.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A responsabilidade dos membros da Igreja


A propósito da eleição de novos dirigentes, conselheiros e ministros da IBG

...

Pelo sétimo ano consecutivo, declaro antes das eleições na IBG e Cecom que, na qualidade de pastor, opto por não fazer defesa de qualquer nome para compor diretorias ou conselhos. Acredito que  a responsabilidade pela construção da história da igreja é coletiva, no bônus ou no ônus.

É claro que, por adotar tal postura, não concordaria com qualquer movimentação de quem dá sinais de querer direcionar a igreja rumo a  interesses estritamente particulares ou de uma minoria.

Sendo a membrezia responsável, cada pessoa precisa ter consciência de que, ao indicar-se ou indicar alguém para um cargo e, depois, votando, sua ação funciona como o semeador que planta uma semente. A pessoa na qual votamos é uma semente que vai germinar durante os próximos 3 anos, no caso dos conselhos e dois, nos das diretorias.

Ninguém tem bola de cristal para prever as ações de quem quer que seja, no exercício de um cargo. Entretanto, utilizando o conhecimento que temos da pessoa, podemos projetar com maior probabilidade de acerto, a forma como atuará.

É fundamental, para isso, que, primeiro definamos a qualidade do fruto que almejamos e, depois verifiquemos se a pessoa por nós escolhida reúne as melhores condições para tal. Nesse sentido, algumas perguntas precisam ser feitas a respeito da pessoa. 

Em relação às qualidades pessoais:

1.       A maneira como se comporta evidencia comunhão com Deus?

2.       Ela dá sinais de ser comprometida com valores espirituais do Reino de Deus?

3.       Ela é comprometida com o funcionamento da igreja, através da freqüência regular aos cultos e da contribuição financeira regular para o sustento das causas?

4.       Ela evidencia ser leal e sincera na maneira como se relaciona com os demais membros da igreja?

5.       Ela demonstra conseguir enxergar o ser humano como imagem e semelhança de Deus acima das diferenças sócio-culturais?

6.       Ela demonstra ser capaz de liderar seus sentimentos e sua língua?

7.       Ela revela capacidade de escutar pacientemente o outro para entender seu modo de pensar, para, somente depois, contra argumentar, se for o caso?

8.       Ela evidencia disciplina e honestidade na administração do seu tempo e dinheiro?

9.       Ela evidencia respeito à membrezia, aos líderes e ao pastor, principalmente na forma de administrar inevitáveis divergências? 

Em relação às qualidades técnicas:

1.    Ela evidencia conhecer e estar comprometida com a missão, visão estratégica e valores oficializados pela igreja?

2.    Ela revela conhecimento da macro-estrutura organizacional da igreja?

3.    Suas ações revelam desejo de ver todas as áreas se desenvolverem de maneira saudável e equilibrada ou é partidária e individualista?

4.    Ela conhece a finalidade e atribuições da área na qual pretende atuar?

5.    Ela conhece a importância da área a que concorre para o desenvolvimento do Reino de Deus?

6.    Ela tem consciência do tempo que terá para investir durante o período de mandato?

7.    Ela manifesta disposição e disponibilidade?

8.    Ela tem consciência dos recursos de humanos, financeiros e patrimoniais disponíveis para o exercício de suas funções?

9.    No caso da Diretoria e Conselho Diretor, ela apresenta sinais de conhecimento e maturidade para participar da liderança da Igreja numa eventual ausência permanente do atual presidente?

Tais perguntas não têm por objetivo encontrarmos uma pessoa perfeita, pois ela não existe. Porém, servem de referencial para que nossa escolha seja refletida, aumentando a probabilidade de elegermos pessoas que manterão a igreja no caminho de um desenvolvimento saudável, glorificando com isso o nome de Jesus Cristo e servindo para restaurar a comunhão de muitos com Deus, consigo, com os semelhantes e com o meio ambiente que nos cerca.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Despertando o líder que há em nós

A propósito da eleição de novos dirigentes, conselheiros e ministros da IBG

Uma idéia elementar de liderança é dispor-se a fazer algo acontecer.  Isso se manifesta inicialmente na vida da própria pessoa a respeito de si mesma. A partir do momento em que começa a ter consciência de si em relação ao mundo que o cerca e começa a construir sua própria história, o ser humano dá os primeiros sinais de liderança: liderança sobre si mesmo.

Na medida em que se dá conta de suas necessidades (físicas, emocionais, sociais, políticas, econômicas, etc), descobre que pode agir para supri-las e começa a mover-se visando alcançar seus objetivos, ele demonstra ter – como todo humano – potencial para liderar a construção de sua vida.

A ampliação deste, digamos, estado de espírito, vai depender, por exemplo, de suas necessidades pessoais, da qualidade de sua saúde, das circunstâncias que o cercam, dos valores sociais que nele foram introjetados e por ele cultivados ou da cosmovisão de vida desenvolvida.

O que leva uma pessoa a não somente assumir a liderança de sua própria vida, mas também ampliar sua disposição para liderar mais do que a própria vida, tem a ver com elementos estritamente subjetivos, relacionados aos seus sentimentos e pensamentos. Dependendo dos valores que norteiam tais sentimentos e pensamentos, o desenvolvimento da liderança para além da própria vida acontecerá, podendo ser benéfico ou prejudicial à coletividade.

Isso significa que, independente do histórico de cada um em liderança de grupo, até mesmo uma pessoa que nunca exerceu tal papel pode, por múltiplos fatores, revelar-se líder, se uma determinada circunstância exigir.

De acordo com as experiências vividas, há pessoas que não somente assumem o papel de líder, mas trazem pra si a responsabilidade de exercê-lo e passa a investir no necessário aperfeiçoamento para desenvolvê-lo e ampliá-lo sempre dentro da melhor qualidade possível. Esse aperfeiçoamento deve acontecer tanto em relação ao autoconhecimento quanto em relação ao conhecimento de quem estará sob sua liderança e da realidade sobre a qual atuará.

Uma pessoa amadurecida pelas experiências de vida é capaz de avaliar determinada realidade e decidir se precisa ou não, se quer ou não, exercer o papel de líder para ajudar a aprimorá-la. Em termos de grupo, portanto, uma pessoa é líder quando decide e efetivamente age visando ajudar na construção de um rumo que mantenha ou altere uma dada situação. Isso independe dela estar ou não investida formalmente em um cargo ou função.

Se a instituição religiosa pode inibir anseios de ver a vida alcançar sua plenitude, a experiência genuinamente espiritual, pelo contrário, é o maior estímulo para que assumamos o papel de líderes, em prol da vida, que nos foi conferido segundo a linguagem poética do autor do livro bíblico Gênesis:

"Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra". Disse Deus: "Eis que lhes dou todas as plantas que nascem em toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com sementes. Elas servirão de alimento para vocês. E dou todos os vegetais como alimento a tudo o que tem em si fôlego de vida: a todos os grandes animais da terra a todas as aves do céu e a todas as criaturas que se movem rente ao chão".” (1.28-30)

Uma das marcas da pessoa que toma a decisão de viver em comunhão com Deus, levando a sério os ensinos de Jesus é desenvolver sentimentos e pensamentos que priorizam os semelhantes em sua relação de interesses. Por isso, o altruísmo se amplia sobre o egoísmo e o servir predomina sobre o ser servido.

A predisposição para colocar seus olhos à disposição de Deus para enxergar o mundo aumenta consideravelmente seu desejo de ver a vida florescer em todas as dimensões. Isso faz com que seu desejo de liderar movimentos que favorecem o reluzir da vida, seja contínuo e crescente.

Daí ser importante que cada pessoa seja fiel em sua comunhão com Deus e libere-se para exercer liderança (e até deixar-se liderar, quando julgar necessário e oportuno) na área que salta aos seus olhos como sendo relevante para a construção e manutenção de elementos favoráveis à vida..

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O processo de liderança numa igreja batista


A propósito da eleição de novos dirigentes, conselheiros e ministros da IBG
  
Liderar é um processo de interação entre perfis de quem lidera e de quem é liderado. Não é algo que depende somente de suposta capacidade de alguém tido como líder, mas também das qualidades de quem é liderado. Os resultados da ação de um grupo dependem, portanto, da afinidade entre duas partes – líderes e liderados - em quesitos como caráter, valores, motivação, conhecimento e finalidades.

Um líder, então, pode ser extremamente bem sucedido num contexto e não em outro. Pode ver resultados do seu trabalho florescendo rapidamente num lugar e lentamente, ou até não vê-los, em outro. Os fatores de cada circunstância determinam o sucesso do empreendimento.

Isso significa que quem ocupa cargos ou funções de liderança precisa conhecer não somente a missão, visão estratégica, valores, cultura, enfim, da organização, mas também o caráter e a motivação dos liderados.

Claro que, numa situação concreta, os elementos que compõem o palco no qual a história vai desenrolar-se nem sempre são claros. Geralmente, pelo contrário, são um emaranhado que exige muito tempo de observação e reflexão da parte de quem tem a responsabilidade de liderar.

No caso de uma igreja batista, quando um processo de caminhada entre líderes e liderados tem inicio, isso não acontece a partir do nada. O próprio nome IGREJA BATISTA serve de indicador prévio. Ele aponta dois pressupostos: 1) somos igrejas; 2) somos batistas. É a partir desses dois elementos que tudo se desenvolverá.

Tanto a palavra igreja quanto a batista tem uma história. Daí, uma condição essencial para o sucesso na caminhada entre líderes e liderados na igreja é conhecer história. Não somente a história, a etmologia, dessas palavras, mas o significado dado a elas a partir do contexto primitivo de seu uso.

Uma vez que organizações e palavras não são elementos estáticos, congelados, é importante que se saiba o que  se tornaram e o porque do significado que ganharam, no máximo de contextos possíveis.

Se houver conhecimento de ambas as partes do que vem a ser igreja e batista, encontraremos elementos comuns à busca de afinidade, para, a partir daí, afinar caráter, valores e motivação, bem como eleger prioridades, objetivos e metas específicas.

Sem conhecimento da natureza do empreendimento, clareza das finalidades e disposição para subordinar-se a eles, o sucesso da trajetória torna-se mais incerto.

Portanto, diria que um primeiro passo para quem se propõe a liderar numa igreja batista é certificar-se de que líderes e liderados sabem e aceitam o que é ser igreja batista e suas finalidades. Se houver entendimento em torno disso, as probabilidades de acerto nos demais elementos aumentam significativamente.

Em setembro a Igreja Batista da Graça poderá renovar 100% de sua diretoria e de seus ministros de áreas (exceto os cargos ocupados por pessoas contratadas - Pastor-presidente e Ministro de Adoração - que podem ser substituídos a qualquer momento, na forma do estatuto), além de 1/3 do Conselho Diretor, Fiscal e de áreas ministeriais. Além disso, os sócios do Cecom poderão renovar 100% da diretoria e Conselho Fiscal da instituição.

Se não só a igreja é a cara de seus líderes, mas também os líderes são a cara da igreja é fundamental que conheçamos bem nossa história, missão, visão e valores, a fim de que os eleitos representem o que de melhor desejamos para o nosso futuro próximo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Em terra de cego

por Stephen Kanitz

Nenhum ditado popular explica tão bem os
problemas do Brasil e do mundo como "Em terra de
cego quem tem um olho é rei". Ele mostra por que existe tanta gente incompetente dirigindo nossas empresas e nossas instituições. Mostra também por
que é tão fácil chegar ao topo da pirâmide social sem muita visão ou competência. Basta ter um mínimo de conhecimento para sair pontificando soluções.



Todo mundo palpita em economia e futebol como se fosse Ph.D. no assunto. Se o técnico Luiz Felipe Scolari tivesse ouvido os palpiteiros, jamais seríamos pentacampeões mundiais de futebol. Por isso temos tantos intelectuais para lá de arrogantes, que se acham predestinados a dirigir nossa vida com muita teoria e pouca informação.



Existe um corolário desse ditado que me preocupa por suas conseqüências. "Em terra de cego, quem tem um olho é rei, e quem tem dois olhos é muito malvisto." Indivíduos inteligentes e capazes são encarados como uma enorme ameaça e precisam ser rapidamente eliminados pelos que estão no poder.



Por essa razão, pessoas com mérito e competência dificilmente são promovidas no Brasil. Promovidos são os bajuladores e puxa-sacos. Quando aparece alguém com dois olhos, os reizinhos tratam de eliminá-lo, quanto antes melhor. 



Já cansei de ver gente competente que, de um momento para o outro, deixou de ser ouvida pela diretoria. Já vi muito jornalista que, de repente, caiu em desgraça. Já vi muito jovem comentar algo brilhante na aula e ser duramente criticado pelo professor, sem saber o motivo. Todos cometeram o erro fatal de mostrar que tinham dois olhos. Por favor, não deixe que isso aconteça com você.


Se você é dos milhares de brasileiros que possuem dois olhos, tome cuidado. Em terra de cego, você corre perigo. Nunca mostre a seu chefe, professor ou colega de trabalho os olhos que tem. Lamento não poder dar nenhum bom conselho, eu sou dos que têm um olho só.



A maioria dos dois-olhos que conheço já desistiu de lutar e optou pelo anonimato. Quando eles têm uma idéia brilhante, colocam a solução na mesa de seus chefes e deixam que a idéia seja descaradamente roubada. Eles se fingem de mortos, pois sabem que, se agirem de modo diferente, poderão tornar-se vítimas. Mas há saídas melhores.



Se seu chefe tem um olho só, mude de emprego e procure companhias que valorizem o talento, que tenham critérios de avaliação claros e baseados em meritocracia. São poucas, mas elas existem e precisam ser prestigiadas.



Ou, então, procure um chefe que tenha dois olhos e grude nele. Ele é o único que irá entendê-lo. Ajude-o a formar uma grande equipe. Se ele mudar de empresa, mude com ele. Seja diferente, procure os melhores chefes para trabalhar, não as melhores companhias. Normalmente, as grandes empresas já são dominadas por reizinhos de um olho só.



Por isso, considere criar um negócio com outros como você. Vocês terão sucesso garantido, pois vão concorrer com milhares de executivos e empresários de um olho só. Nosso erro como nação é justamente não identificar aqueles que enxergam com dois olhos, para poder segui-los pelos caminhos que trilham. Eles deveriam ser valorizados, e não perseguidos, como o são. O Brasil precisa desesperadamente de gente que pense de forma clara e coerente, gente que observe com os próprios olhos aquilo que está a sua volta, em vez de ler em livros que nem foram escritos neste país.



Se você for um desses, tenha mais coragem e lute. Junte-se a eles para combater essa mediocridade mundial que está por aí. Vocês não se encontram sozinhos. Nosso povo tem dois olhos, sim, e é muito mais esperto do que se imagina. Ele está é sendo enganado há tempos, enganado por gente com um olho só.



Foi-se o tempo de uma elite pensante comandar a massa ignara. Hoje, a maioria do povo tem acesso à internet e a home pages com mais informação do que essa intelligentsia tinha quando fez seu doutorado. Se informação é poder, ela não é mais restrita a um pequeno grupo de bem formados. Nosso povo só precisa acreditar mais em si mesmo e perceber que cegos são os outros, aqueles com um olho só.
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)


Artigo Publicado na Revista Veja, edição 1796, ano 36, nº 13, 2 de abril de 2003, página 20.

domingo, 18 de julho de 2010

A “advocracia” batista


Há uns dois anos, durante uma reunião do Conselho Geral da Convenção Batista Brasileira, no Rio de Janeiro, diante de uma situação jurídica, comentei rindo com dois advogados, líderes destacados da denominação, sentados à minha frente, que escreveria um texto sobre a “advocracia batista”. Um deles, brincando, respondeu: “não mexe com a gente”. Demorou, mas escrevi!


A “advocracia” batista


A democracia batista, nesses 400 anos, já venceu a “patriarcracia”, a “sacerdotecracia”, a “apostolocracia”, a “gerontocracia”, a “episcocracia”, a “poimencracia”, a "diaconocracia" e agora, ao que algumas evidências indicam, terá que lutar contra a “advocracia". Não por causa da legítima e saudável necessidade de orientação técnico-jurídica, em face da complexidade da relação entre nossas decisões políticas e suas possíveis implicações jurídicas, mas pelo oportunismo político inerente a todos nós, porém exagerado e antiético em alguns.


É que alguns, quando não querem cumprir a vontade soberana do povo batista reunido em Assembléia, usam do artifício do parecer jurídico, geralmente fornecido por advogados por eles nomeados, para advogar causas do seu interesse em vez de esclarecer, imparcialmente, pontos duvidosos.


Como as atas das reuniões de alguns órgãos, para serem aprovadas, precisam de parecer de comissão jurídica, até quando um assunto contrário aos seus interesses é aprovado, eis que uma nova oportunidade de debate surge, com pareceres que deturpam o deliberado.


Pastor e advogado


O problema se agrava quando dirigentes, além de pastor e bacharel em direito, são também narcisistas. Nessa condição,  proclamam sua lucidez superior, sua divina e inquestionável autoridade para interpretar “a lei maior”, a Bíblia, acima de qualquer outro simples mortal; usam toda a influência psico-política que a função pastoral exerce e maximiza sua portabilidade da carteira de filiado à OAB para proferir sentenças, sim, sentenças, não pareceres, em relação a tudo.


Diante desses, que enfiem o rabo entre as pernas todos os seus “interlocutores”, se não quiserem correr o risco de serem lançados na fogueira da marginalização (via difamação), bem ao estilo da Santa Inquisição, ou, no bom “advoguês”, se não quiserem “ser processados” – antiga ameaça usada por dominadores de cultura coronelista, para amedrontar gente empobrecida e ignorante.



A necessidade de assessoria jurídica


Não que seja errado contar com uma assessoria jurídica, nem que a colaboração dos irmãos da área do direito seja dispensável. Pelo contrário, a contribuição de bons advogados, especialmente honestos, verdadeiros, crentes sérios e não mero clientes de banco (de igreja) é essencial em nossas Assembléias. O que não podemos deixar continuar acontecendo é a absolutização de pareceres de indivíduos ou grupos de advogados, sob a alegação de que se trata de “parecer técnico” (leia-se sentença), como se isso significasse, necessariamente, neutralidade política.


Neutralidade política?


Neutralidade política é uma posição que não existe. Nem mesmo nas sentenças da magistratura existe neutralidade política. Todas as nossas palavras, sejam manifestas através de linguajar técnico ou popular, produzem efeitos e, portanto, a elas subjaz interesse político, mesmo que seja o de ficar omisso. Omissão e neutralidade são igualmente posicionamentos políticos.


O sentido verbal da advocacia


Advogar – em seu sentido verbal - não é prerrogativa de bacharéis da área do direito, sejam eles atuantes na iniciativa privada, sejam eles funcionários públicos pagos com dinheiro do nosso trabalho. Advogar é uma possibilidade inerente a todos os seres humanos. Todos nós fomos dotados da capacidade de defender nossos interesses. O que se pode discutir é se estamos devidamente qualificados para advogar todas as causas e se estamos socialmente autorizados, através das leis, para o seu exercício nos tribunais do Poder Judiciário.


Qualificação para advogar


Em relação à qualificação, claro é que isso depende do tempo investido por cada um no estudo das leis. Destaco no estudo, porque encontramos pessoas com diploma de Bacharel em Direito que, além de não terem sido estudiosas na faculdade, não mais investiram em leitura depois de receber o diploma, a carteira da OAB ou serem aprovadas num concurso para ser funcionário público do Poder Judiciário.


Por outro lado, há pessoas que nunca foram ao banco da faculdade de direito, mas, como autodidatas, estudam séria e profundamente os assuntos do seu interesse; nunca entraram numa faculdade de direito, não tem carteira da OAB, mas defendem seus direitos como ninguém. É o caso de Jesus em relação aos pecadores, na linguagem didatica usada por João (I Jo. 2.1).


Autorização para advogar


Quanto à autorização para advogar nos tribunais, esta é uma matéria definida pela lei de cada país. Há causas que não exigem presença de advogado e que o próprio interessado, se julgar-se capaz, pode preparar a defesa de seus interesses. Há outras em que o cidadão sequer pode comparecer à presença do juiz se não estiver acompanhado de um profissional do direito, devidamente habilitado na forma da lei.


Destaque-se ainda que a exigência de advogado definida em lei é fruto, como toda legislação, tanto de estudos sérios e profundos em defesa do interesse democrático da cidadania, quanto de lobbies profissionais em defesa de interesses corporativos e até casuísticos.


Fóruns do Poder Judiciário e Assembléias Batistas


Se há exigência da presença de advogados na maioria dos fóruns do Poder Judiciário, o mesmo não ocorre nas assembléias democráticas dos batistas. Nas assembléias, cada membro-mensageiro é advogado e a sentença é proferida pelo voto da maioria dos presentes. Assim, a razão para contarmos com o auxílio de advogados em nossas assembléias visa tão somente estarmos cientes do cumprimento ou não das leis do país e não para sermos subjugados por alguns, cuja desonestidade é visível, conquanto membros de igrejas.


Sentenças da Assembléia e Sentenças do Poder Judiciário


Parecer de assessoria jurídica sempre será parecer. Cabe ao plenário dar a sentença, pelo voto de aprovação ou rejeição ao parecer, podendo orientar-se ou não por ele. Se o assunto for controvertido e a sentença do plenário ao parecer provocar prejuízos claros de qualquer natureza – seja à instituição, seja aos interesses particulares dos integrantes -, que se busque recuperar o prejuízo através de sentença do Poder Judiciário, na forma da lei. Afinal, não pregamos, nós batistas, corroborando com Paulo, que a autoridade – inclusive a do Poder Judiciário – foi instituída por Deus (Rom. 13.1,5) e está a serviço de Deus (Rom. 13.6)?


O que não pode continuar acontecendo é a soberania das assembléias estar subordinada à interpretação que um advogado ou mesmo um grupo deles, dá aos textos da lei. Sim, falo de interpretação porque, na maioria dos casos, chama-se de “parecer jurídico” uma mera interpretação de texto. Não existe interpretação técnica desvinculada de algum tipo de posicionamento político, explicito ou implícito, objetivo ou subjetivo.


Prerrogativa de interpretação de textos


Interpretação de texto também não é prerrogativa de bacharéis em direito. Pressupõe-se que todos que passam pelos bancos de uma escola são ensinados a interpretar textos desde quando são ensinados a ler, até porque toda leitura, sem exceção, é uma interpretação. Além disso, diversas outras atividades profissionais – além das do Direito - exigem especialidade em interpretação de textos, inclusive o pastorado.


Precisamos, portanto, entender melhor o conceito “interpretação de texto” tanto quanto “parecer jurídico”, “parecer técnico”, “manipulação política”, pois todos estão relacionados ao exercício da advocacia e são direcionados para um objetivo que interessa ou, no mínimo, salta inconscientemente, como um ato falho, aos olhos de quem dá o parecer.


Consideração final


Já identifiquei 5 magistrados e uma infinidade de advogados na igreja à qual sirvo como pastor. Já trabalhei em mais de uma dezena de comissões de reforma de Estatuto ou Regimento Interno, de igrejas ou instituições batistas, ao lado de excelentes advogados. A alguns deles devoto uma admiração imensa, seja pela competência técnico-profissional, seja pelo caráter, pela maneira respeitosa, amorosa, sem empáfia, como tratam seus semelhantes. Esses compreenderão e certamente se aliarão ao espírito deste texto: o de coibir aqueles que estão transformando nossa democracia em “advocracia”; que, escondendo-se atrás de um título, um diploma ou carteira da OAB, semeiam a usurpação, tratam nossa gente como feudos de ignorantes, destruindo um dos principais pilares das instituições batistas que é a soberania democrática de suas assembléias.

domingo, 4 de julho de 2010

87ª Assembléia Anual da Convenção Batista Baiana realizada em 2010

Depois de 8 horas viajando de carro, chegamos a Vitória da Conquista, cidade próxima à divisa entre Bahia e Minas Gerais. A temperatura, como se esperava, estava muito baixa para quem está acostumado aos padrões do nordeste. A sensação térmica chegou a 9 graus. 

Curtindo o frio e instalados no centro da cidade, nos preparamos e fomos para a 1ª "sessão" da 87ª Assembléia Anual da Convenção Batista Baiana. Assim fizemos a cada dia, até sexta-feira, uma vez que, "afônico" em função de choque térmico, retornamos no sábado pela manhã, não participando da sessão de encerramento, no sábado à noite.

As reuniões aconteceram numa quadra coberta com muita abertura lateral, fato que fez com que sentíssemos o máximo de frio prossível. A Igreja hospedeira - Igreja Batista Bethelem - sob a liderança do Pr. Sérgio Costa, empenhou-se em fazer o melhor possível e agradecemos a Deus por isso.

As atividades de cada período do dia

Os períodos da manhã foram dedicados ao estudo bíblico. O Pr. Luis Sayão fez uma exposição do livro de Rute, procurando nos aproximar da realidade dos tempos em que o mesmo foi escrito, através do aprofundamento das informações contidas no texto e confrontando o tempo presente com princípios contidos num livro que geralmente é citado apenas em cerimônias de casamento.

Nas reuniões noturnas ouvimos diversos oradores que, dentro da proposta de cada programação, procuraram sensibilizar, alertar e desafiar o povo batista ao aprofundamento do compromisso em áreas diversas da vida.

As reuniões das tardes de quarta a sexta foram reservadas para assuntos deliberativos. Nelas, as organizações e instituições da Convenção apresentaram seus relatórios. 

A apresentação dos relatórios

Confesso meu incômodo com essa parte da programação. Parece-me que algo precisa ser feito com urgência em nossa denominação.  Não fica claro qual seria o objetivo de tais relatórios. Como nenhuma de nossas organizações tem um planejamento organizacional, não há como avaliar seu desenvolvimento. Trabalhamos com discurso e não com dados e as informações dadas representam aquilo que quem prepara o relatório deseja que saibamos e não o que de fato precisamos saber. 

O que de fato precisamos saber é se a organização piorou, estagnou ou melhorou em relação aos dados do relatório da assembléia anterior e como estariam em relação a metas estabelecidas. Mas como fazer isso se não temos metas nem dados ou se eles - os dados -  são publicados de maneira que não favorece uma análise profunda, comparativa e rápida? Como fazer isso se não temos um plano de metas? Assim, os relatórios não servem para avaliação, nem para marketing, muito embora essa segunda opção parece ser a motivação de alguns dos que apresentam relatórios.

Vale salientar que isso não é um problema apenas nosso, na Bahia. Parece ser um problema nacional. Até mesmo a CBB padece deste pecado.

Dados financeiros

Salvo melhor atenção, a área com algum dado apresentado de maneira adequada foi a financeira. 

O Indice de Liquidez Corrente (que relaciona bens e direitos das organizações com suas obrigações e indica a "capacidade de pagamento da empresa no curto prazo sem levar em conta os estoques") é calculado com base em unidade de real. Ele indica o quanto em dinheiro a organização dispõe para cada real de compromisso a ser saldado no curto prazo. Os nove gráficos, salvo melhor atenção, repito, apresentados pelas organizações apontam que aproximadamente 10% delas estão negativas e pioriando; 20% estão negativas e melhorando; 35% estão positivas e melhorando e 35% estão positivas e piorando.

Isso quer dizer que quase metade das organizações terminaram o ano apresentando resultados financeiros piores em relação ao final do ano anterior.

Claro que este não é o único indicador de avaliação, mas é o único que foi disponibilizado. Se fossem disponibilizados outros indicadores, poderíamos avaliar mais rapidamente os relatórios, os discursos dos apresentadores seriam mais agradáveis e nos sentiríamos mais atentos.

Momentos de tensão

Dois momentos de tensão (além do tradicional referente ao preenchimento das vagas nos conselhos) marcaram as sessões deliberativas. O primeiro foi  em relação ao Conselho Fiscal. Por razões que não vêm ao caso, o Conselho Fiscal preparou seu relatório, mas o Conselho da CBBA não tomou conhecimento prévio do mesmo, como determina o Regimento Interno. 

Além disso, o conteúdo do relatório extrapolou as atribuições regimentais do Conselho Fiscal, o que, se regimentalmente estava errado, na prática foi altamente positivo para o plenário que teve acesso a um retrato da realidade administrativa das organizações.

O problema é que não somente um tempo foi reservado no programa para apresentação do referido relatório, mas também seu conteúdo foi publicado no Livro do Mensageiro. O relatório não pode ser apreciado pelo plenário, implicando na não aprovação das contas de todas as organizações.

O segundo momento de tensão ficou para a sessão de eleição da diretoria, pela seguinte razão:

O artigo 14 do Regimento Interno diz: "A diretoria da Convenção será composta de presidente, 1º, 2º e 3º vice-presidentes; 1º,2º e 3º secretários eleitos para um período de dois (2) anos, VEDADA A REELEIÇÃO DOS MEMBROS DA DIRETORIA PARA TERCEIRO MANDATO CONSECUTIVO

O problema foi a divergência de interpretação.

Um parecer da Comissão Jurídica apresentado ao plenário, interpretava que a proibição de reeleição seria para o mesmo cargo. Uma outra tese foi levantada defendendo a proibição para qualquer cargo. A primeira tese permitia a permanência eterna de um convencional na diretoria, num sistema de rodíizio nos cargos; a segunda, defendia a proibição após dois mandatos, gerando alternância, como no caso da presidência da República do Brasil.

(Na Convenção Batista Brasileira a regra diz: "O mandato da diretoria eleita será de dois anos, sem direito à reeleição no período subsequente" (Art 8º, & 1º). A interpretação vigente é que nenhum mensageiro pode continuar na diretoria por mais de um mandato seguido, nem mesmo mudando o cargo).

Depois de muito debate, a questão foi submetida ao plenário e 2/3 dos presentes entenderam que a segunda tese - a de que uma pessoa não pode ficar indefinidamente na diretoria - prevaleceu. 


Apesar disso, o presidente, por razões que somente ele e Deus sabem, decidiu não obedecer a decisão do plenário, permitindo que um mensageiro que já estava na diretoria há pelo menos dois mandatos concorresse e fosse reeleito ilegalmente à luz da decisão interpretativa do plenário.

Pessoalmente pressenti, como parte do plenário, que, se insistíssimos, poderíamos provocar um acirramento tal, com consequências danosas imprevisíveis e irreparáveis. Optei pelo silêncio consciente, pelo mal menor.

(É importante que se destaque que a discussão não ocorreu motivada por um suposto desejo de mudança, muito menos porque qualquer pessoa eventualmente atingida pela regra não fosse qualificada para estar na diretoria. O debate se deu pelo cumprimento do espírito da regra que seria o princípio da alternância)

Candidato único a presidente

Como somente um candidato disponibilizou-se a concorrer à presidência, o escrutíneo foi dispensado na forma da alínea III, do & 1º, Art. 14º do Regimento e o candidato foi eleito, sem votação, totalmente dentro da legalidade.

Mês de Missões Estaduais

Acredito que tais tensões ainda que desagradáveis têm seu lado criativo e serão superadas na caminhada. Agora, como líderes, devemos pensar nos missionários que estão nos campos, nos desafios que temos diante de nós e fazermos o melhor neste mês de julho, dedicado ao levantamento de oferta para o sustento daqueles que estão em frentes pioneiras.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O terremoto no Haiti e a fala do seu consul no Brasil

Estava curtindo uma notícia feliz – minha filha acabava de informar por e-mail que sua transferência fora aceita pela Florida Atlantic University – quando o noticiário da televisão passa a mostrar imagens da tragédia ocorrida no Haiti. A vida é assim: enquanto uns riem, outros choram; enquanto uns corpos se abraçam pelo prazer, outros fazem o mesmo pela dor; a tecnologia que traz boas notícias é a mesma que nos mostra cenas de pavor.



É doloroso colocar-se emocionalmente no lugar das pessoas que estão vivas sob escombros enquanto não chega o socorro; no lugar do homem que chora a perda da esposa amada enquanto descansava; da mãe desesperada pela notícia do desaparecimento do filho; da filha brasileira, cuja comunicação com o pai militar, pela internet, cessou abruptamente e só depois tomou consciência de que a interrupção não era apenas o fim de um diálogo, mas o início de uma separação irreversível.


Nada, porém, suscitou sentimento mais desagradável do que ouvir o comentário feito pelo cônsul haitiano no Brasil. Primeiro, pela falta de sensibilidade; depois, pelo preconceito de raça e religião.




Enquanto seu povo chora a dor da destruição e morte, ele enxerga uma oportunidade de tornar-se mais conhecido. Claro, sabemos todos que na vida nada é absolutamente mal, nem absolutamente bom; que toda experiência humana traz consigo efeitos colaterais benéficos ou maléficos. O que doe é a aparente falta de sensibilidade frente à dor alheia – no caso, seu próprio povo – e, pior, o inoportuno senso de oportunismo.


Se não bastasse isso, sua fala revela algo que ceifa, silenciosamente, milhões de vidas: o preconceito. Primeiro, o preconceito de raça contra o já sofrido povo africano. Sua fala traz à baila o antigo discurso teológico do fundamentalista branco referente ao pecado de Caim. Por esta hermenêutica racista, ser negro seria o sinal de Caim descrito no livro de Gênesis (4.15), símbolo de desobediência e maldição.


Depois, revela o preconceito religioso. Para ele, a macumba – forma pejorativa de referir-se às religiões de matriz africana – seria causa da desgraça experimentada. Ao ouvir isso, lembrei-me de um missionário norte-americano, doutor e professor de exegese do Antigo Testamento com quem travei um debate caloroso em sala de aula, que tentava convencer-nos, baseando-se em determinado texto bíblico, de que a causa da pobreza e da seca do nordeste brasileiro seria a idolatria do povo.


Não suporto mais o (ab)uso do sofrimento alheio, a transformação da dor humana em meio de estimulo à "evangelização", em propaganda para levantamento de recursos financeiros para agências sociais e missionárias. Ainda assim, mesmo sendo terrível, é compreensível ouvir isso de empresários sem escrúpulo de “ONGs” ou religiões, afinal, para alguns marqueteiro os fins justificam os meios e tudo é válido desde que aumente a arrecadação financeira. Fere, entretanto, o âmago da alma, presenciar a fala de um cônsul, a respeito do próprio país, quando sabemos que abalos sísmicos são fenômenos naturais.


O Haiti, até hoje conhecido como o país mais pobre das Américas, envolvido em conflitos internos e muita corrupção, ocupa agora a mídia internacional como vítima de um desastre que ceifou dezenas de milhares de vidas. Mais triste do que isso, só mesmo a confirmação, através da fala do seu cônsul no Brasil, de que a pobreza de um povo não se mede somente pela quantidade de bens e serviços produzidos – o PIB -, mas também e sobretudo pela pobreza cultural, pela falta de sensibilidade emocional, espiritual e de visão de seus dirigentes, como demonstrou o consul em sua fala.