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quarta-feira, 14 de março de 2012

Dialogando e refletindo para sermos melhores


Há quem acredite que a história seja linear, isto é, que ela acontece de maneira lógica, progressiva, com início, meio e fim. Fim feliz, de preferência, claro. Entretanto, a própria história nos mostra que as coisas não são bem assim. Pelo contrário, vemos que ela se caracteriza por avanços e retrocessos, altos e baixos, rupturas e reatamentos, afirmações e negações, amor, alegria, raiva, tristeza, medo...

A história de cada um e das igrejas não é diferente. O “eu quero dizer agora, o oposto do que eu disse antes...” de Raul Seixas; ou o “esqueça o que escrevi; isso foi há muitos anos, tudo se renova, esqueça”, atribuído a FHC; ou o quando a gente está na oposição, faz muita bravata”, atribuído a Lula; ou o “nossa cabeça pensa onde pisam nossos pés”, atribuído a Frei Beto, conquanto criticado por alguns como sendo sintoma de instabilidade, incoerência, incongruência, falta de integridade, até de esquizofrenia, está presente nas histórias de todos nós muito mais do que imaginamos ou admitimos. Parafraseando Paulo, o adulto não pensa, sente, fala ou age como quando era menino (I Cor. 13.11).

Há três anos resolvi colocar em ordem cronológica, em pastas plastificadas, todos os esboços de sermões que fiz desde 2 ou 3 anos antes da minha chegada ao Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em 1979, quando não existiam micro-computadores. Enquanto arrumava, perguntei-me muitas vezes: como conseguia pregar com essa estrutura de esboço?  Era assim que eu pensava há 35 anos? Percebi que acontece com o pensamento e sentimento o mesmo que ocorre com o corpo: percebemos as mudanças quando olhamos nossas fotografias.

Quanto mais vivemos, lemos, interagimos e refletimos, com honestidade e humildade, mais aprendemos que também a linearidade de pensamento, sentimento ou condições de vida, em qualquer de suas dimensões, é um mito. A vida é uma tensão saudável e permanente. Se a ausência de tensão, como escreveu Rollo May, é sinônimo de morte, a indisposição para reflexão e dificuldade de adaptação são o aperitivo do fim, a ante-sala do cemitério.

Mudamos, portanto, porque somos seres vivos. Mudamos para melhor e para pior e só nos damos conta disso muito mais pelos desdobramentos, pelo desenrolar da história, do que por uma suposta capacidade superior de avaliar o passado, diagnosticar o presente, planejar, projetar e controlar o futuro.

O importante, então, é não perdermos a disposição para refletir sobre a própria história e a história alheia, retificando ou ratificando referenciais de pensamento e conduta visando tornar nossa caminhada mais agradável (ou, numa ideologia mais pessimista, menos desconfortável). Se errarmos, que aprendamos com o erro e, em vez de ficar lamentando, prossigamos. Se alguém “mexeu no meu queijo”, como diria  Spencer Johnson, ficar amargamente paralisado elegendo bodes expiatórios, não modifica o fato.

Essa compreensão faz com que estudar, refletir comunitária e continuamente, seja algo que “não sai de moda”. Nossos patamares de pensamento e qualidade de vida podem ser diferentes, mas a interação é fundamental, inclusive com divergentes.

Em uma de suas mensagens no programa “Um olhar sobre a cidade”, no Recife, Dom Helder Câmara afirmou: “Se és sincero e buscas a verdade e tentas encontrá-la como podes, ganharás tendo a honestidade e a modéstia de completar teu pensamento com o pensamento, mesmo de pessoas, que te pareçam muito menos inteligentes e cultas do que tu.” E conclui: “Atenção, amigos, nós todos precisamos de matricular-nos na escola do diálogo e começar aprendendo de verdade a ouvir. E fiquemos alertas para a tentação de achar formidáveis, geniais, os que falam de acordo com o que nós pensamos. E de queimar como quadrados, caretas, os que têm a ousadia de discordar de nós. Adotemos como um de nossos lemas, queridos, “se discordas de mim, tu me enriqueces".”

Se acharmos que não mais precisamos disso, lembremo-nos de que o alerta paulino continua vigendo: “aquele, pois, que cuida estar em pé, que julga estar firme, cuide-se para que não caia” (I Cor. 10.12).

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

História e narrativas da história

A propósito dos 45 anos da Igreja Batista da Graça

Há diferença entre história e narrativas da história. História seriam fenômenos, de diversas naturezas, que se sucedem no tempo e espaço. Narrativas históricas têm a ver com aquilo que os sentidos humanos perceberam, julgaram relevantes, memorizaram e, de forma oral ou escrita, nos foi repassado.
Isso significa que as narrativas de histórias devem ser vistas como a percepção do narrador a partir do ponto de vista de onde se encontrava. Tal ponto de vista não deve ser entendido somente em sentido geográfico, mas, sobretudo, social, político, econômico, religioso, psicológico, cultural enfim.   
Sendo verdade que “cada ponto de vista é a vista de um ponto”, como cunhou Leonardo Boff, podemos afirmar que toda narrativa de história sempre será parcial e contaminada pelo olhar de quem a narra.
A interpretação das narrativas depende muito mais de significados previamente introjetados na mente do interprete do que da intenção de quem escreveu. Por isso, podemos afirmar que o leitor de um texto precisa ser ainda mais cuidadoso do que uma testemunha dos acontecimentos, pois está lendo algo que é fruto da percepção de outrem.
O mesmo ocorre numa narrativa oral.
Faço essa elucubração pra dizer que os 45 anos de história da Igreja Batista da Graça poderiam ser narrados a partir de milhares de percepções, cada uma retratando aquilo que o perceptor julgou relevante em face dos seus sentimentos, crenças e valores, bem como dos objetivos que pretende atingir através da narrativa delas - as percepções.
Um narrador magoado, por exemplo, poderia omitir fatos ou destacar apenas aspectos ruins que caracterizaram um período; outro, não tendo de que reclamar daria ênfase às coisas boas. Daí, quanto mais distantes no tempo e menor envolvimento com os acontecimentos, maior a probabilidade de avaliarmos as narrativas com mais neutralidade.
Se quisermos formar uma opinião que retrate a maior proximidade possível dos fatos, é essencial procurarmos a maior e mais diversificada quantidade de testemunhas ou narrativas.
Estudar história não é memorizar datas, nomes e feitos tidos como extraordinários, mas compreender o significado sócio-cultural dos acontecimentos, visando corrigir rotas equivocadas e construir caminhadas mais saudáveis para todos. Portanto, estudamos também para não repetir os mesmos erros.
Ao iniciar o 46º ano da Igreja Batista da Graça, nos é dada a oportunidade de gerar novos fatos e relacionamentos. Avaliemos, portanto, os 45 anos passados empenhados em repetir o menor número possível de erros e a maior quantidade de acertos, visando vivenciar “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”, pois isso caracteriza o reino de Deus que almejamos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Para que a Graça não perca a graça


A denominação IGREJA BATISTA DA GRAÇA é, como se vê, formada de três palavras: igreja, batista e graça. A compreensão do que isso significa é de grande relevância para nossa caminhada. Cada uma dessas palavras – como todas as palavras – se retirada do seu contexto sócio-cultural, poderia tornar-se apenas um ajuntamento de grafia de sons.
Quando, porém, cada uma delas é situada num contexto sócio-cultural, não apenas será a expressão de uma dada realidade, mas, a partir daí, elas mesmas passam a ser definidoras de como desejamos que tal realidade deva ser.
A palavra igreja, 
por exemplo, é uma tradução da palavra grega “ekklesia”. Na cultura grega dos dias de Jesus, referia-se a uma reunião público-política de cidadãos gregos. Jesus partiu desse sentido para referir-se a uma reunião de pessoas, não mais subordinadas às leis de determinada cidade ou país, mas espontaneamente vivendo em comunhão com ele, pelo sentido que suas vidas ganharam à luz das atitudes, palavras e ações dele.
Como é natural, ao longo desses mais de 2000 anos, em cada tempo e lugar, esta palavra continuou ganhando novos significados, uns mais distantes, outros mais próximos, uns mais profundos, outros mais superficiais, mas sempre mantendo algum tipo de vínculo com sua origem em Jesus.
A palavra batista
também tradução de palavra grega, baptistés, refere-se em sua origem àquele que batiza. Em documentos históricos, entretanto, vemos que denominava um grupo que surgiu na Inglaterra do século XVII, cuja marca litúrgica que mais chamou a atenção foi o batismo de adultos por imersão, contrariando o de crianças por aspersão.
Este aspecto chamou a atenção nem tanto pela forma de batismo – imersão – mas por ser ministrado a adultos. A ideologia disso representava não somente uma obediência aos ensinos de Jesus, mas também era expressão de respeito à liberdade e responsabilidade do indivíduo de escolher o percurso religioso que gostaria de dar à sua vida, sem imposição da família, do Estado ou de quem quer que seja.
Entretanto, tal grupo fazia muito mais do que batizar adultos por imersão. Defendia, por exemplo, uma igreja livre, num estado livre, cujo referencial de conduta deveria ser a vida de Jesus, conforme registros nas Escrituras Sagradas judaico-cristãs; defendia a liberdade de se reunirem em igrejas locais e autônomas para expressarem sua fé, construírem e expressarem livremente seus pensamentos e, definirem, democraticamente, a forma e conteúdo que serviriam de norte para caminharem juntos; defendia inclusive, a liberdade de cada um poder interpretar as Escrituras Sagradas, contrapondo-se ao então privilégio reservado à hierarquia eclesiástica subordinada ao Estado.
Com o passar do tempo, tais “pequenos grupos” se uniram em convenções, mantendo suas autonomias, e definindo, conjuntamente, princípios norteadores que os caracterizariam como “batistas”. Desses princípios, 6 ou 7 tem se mantido presentes na maioria absoluta das igrejas que se chamam “batistas”, em todas as épocas e lugares.
A palavra graça, 
charis em sua origem grega, foi associada ao nome desta Igreja Batista, não, primeiramente, por seu significado teológico, mas pela localização geográfica – o bairro da Graça, em Salvador – onde um pequeno grupo começou a reunir-se em 1966.
Já devidamente registrado em cartório, o nome foi mantido, apesar da mudança de localização para o Largo da Garibaldi, no vizinho bairro da Federação.
A manutenção do nome não se deu, certamente, apenas porque assim fora registrado, mas também por seu significado teológico. Tal significado faz parte do legado da primeira igreja chamada batista, formada na colônia inglesa na Holanda, em 1609.
Fruto de uma terceira geração de reformadores e herdeiros de conceitos que ganharam evidência nas reformas iniciadas no século XVI, cujo expoente foi Martinho Lutero, os batistas sempre defenderam que a salvação é fruto da graça divina, se contrapondo à tese católica que definia a salvação como resultante do esforço humano.
Graça, portanto, indica a possibilidade de vivermos em comunhão com Deus, sentido último de nossa existência, como fruto do seu desejo de nos amar, conjugado à nossa livre vontade de corresponder.
Por isso, para que a Igreja Batista da Graça não perca a graça, é fundamental sempre retornarmos ao significado do seu nome, aprofundando-o e nos empenhando a viver coerentemente com ele.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Marcos marca

Por ocasião do 60º aniversário de Marcos Monteiro

É impossível conviver qualquer quantidade de tempo com MarcosAdoniram Lemos Monteiro e ficar indiferente. Marcos Marca.

Uma pessoa pode divergir de outra em relação aos sonhos acalentados, mas, jamais, na importância de sonhar; pode discordar dos pensamentos desenvolvidos, mas, nunca, da necessidade de pensar; pode se diferenciar na forma de expressar sentimentos, mas não reprimir o que sente. Marcos marca não somente porque, como todo ser humano, sonha, pensa e sente, mas também porque socializa, com muita espontaneidade, essas experiências.

Marcos já era uma marca quando cheguei ao Recife, em 1979. Ainda calouro, saindo cronologicamente da adolescência, dependente e em busca de referenciais ministeriais, o nome de Marcos chegou aos meus ouvidos associado aos “Voluntários de Cristo”, um movimento jovem na capital pernambucana.

Falado sob as mangueiras do STBNB por sua inteligência, por ter trocado uma carreira socialmente cobiçada, pelo ministério pastoral; por sua participação no projeto missionário Trans-amazônica, da Junta de Missões Nacionais da CBB e, porque não, por sua habilidade, como jogador de dama, reconhecida nas praças da Veneza Brasileira, o nome Marcos Monteiro já era uma marca e, muito mais do que isso, uma possibilidade de forte referencial ministerial.
(Em 1986, no Acampamento Palavra da Vida, em Paudalho, PE, em encontro promovido pela Visão Mundial. Marcos, o do meio dos que estão de cócoras, era um dos líderes e eu, na segunda fila, em pé, na ponta direita, iniciante)
Por volta de 1983, Marcos passou a despontar para mim por seu envolvimento com as questões sociais começando a ser associado à Visão Mundial, organização que fomentava a difusão da missão integral da igreja, à época. Para quem buscava referenciais, saber de alguém que conciliava “missões”, questões sociais e ainda jogava dama, despertava claro, muito interesse.

Por essas e outras, no processo da minha saída do pastorado da Igreja Batista do Pinheiro, fiquei feliz quando seu nome foi lembrado, pois, pelo que dele conhecia, sabia que sua participação na construção da história dessa igreja seria relevante. E foi.

Hoje, depois de algumas décadas e por ocasião do seu sexagésimo aniversário temos muito a agradecer a Deus pelas marcas que ele deixa em nossas vidas.

Marcos marca pela humanidade numa sociedade em que papéis circunstanciais são muito mais valorizados do que a própria condição humana. Ele parece empenhar-se em administrar sua vida sem permitir que papéis sociais predominem em detrimento de sua humanidade.

Se, como se diz, ser pouco sincero é perigoso e ser sincero demais é fatal, Marcos parece não temer a fatalidade na maneira como expõe e se expõe. Essa sinceridade nos marca, pois faz dele uma pessoa simples, sem ser simplista.

Marcos marca pela humildade, mantendo os pés no chão e algumas vezes, literalmente, na estrada, construindo sua história, interagindo, sem querer controlar ou deixar-se controlar.

Sobretudo, porém, Marcos marca por levar a sério sua condição de discípulo de Jesus. Num contexto religioso no qual discipulado tem sido entendido como um programa educacional eclesiástico no qual pessoas são transformadas em objetos programados para reproduzir conceitos e preconceitos, Marcos marca por manifestar interesse em conhecer, reconhecer, identificar-se e relacionar-se com uma pessoa, a pessoa de Jesus de Nazaré.

Se me perguntarem sobre os pecados que marcam Marcos, não haveria razões para publicá-los, especialmente porque o que glorifica o Cristo que ele tão bem anuncia com sua vida, são suas boas obras. Por isso Marcos nos marca de maneira tão profunda.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Mensagem à Assembleia de Fundação da Aliança Evangélica

 por Bispo Robinson Cavalcanti (*)

 
– Não Se Faz História Sem História –
 
Amados irmãos e irmãs presentes a esse histórico momento:

O renomado pensador anglicano C. S. Lewis, em seus escritos, sempre chamou a atenção para os riscos daquelas gerações que se acham “refundadoras” do mundo, ignorando e desprezando tudo o que a civilização construiu antes dela. Alguns dizem que as mesmas “querem descobrir a roda, ou a pólvora outra vez”. Desde a Reforma Radical que uma expressão do anabatismo como ideologia tem se manifestado nessa visão de uma “apostasia” da Igreja antes da sua geração, com o Espírito Santo “tirando férias” entre a morte do apóstolo João e o nascimento de Lutero, ou o surgimento de algum grupo ou movimento posterior. O “restauracionismo” sempre tem rondado – e tentado – o Cristianismo. Hoje, mais na Igreja do que no próprio século, vive-se a síndrome de uma “geração sem umbigo”, individualista, imediatista, iconoclasta, antinômica e presentista.

Já se afirmou que um povo sem passado é um povo sem futuro e que um povo sem história é um povo sem identidade. Essa manhã, gostaria de reafirmar o caráter uno, santo, católico e apostólico da Igreja de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Gostaria de reverenciar a memória dos santos e mártires de todas as épocas e lugares. Gostaria de reafirmar a “comunhão dos santos”, e, ao mesmo tempo, denunciar como pecado e tragédia esse anti-historicismo, anti-institucional, irracional, irresponsá-vel, de previsíveis trágicas consequências. A honestidade intelectual forçará a nossa consciência reconhecer que “nunca antes na Igreja Evangélica desse País” o seu povo foi tão ignorante e tão preconceituoso em relação à sua história e ao legado dos seus antepassados. Esse é um dos aspectos centrais da crise do protestantismo brasileiro, e não haverá saída sem uma mudança, em que possamos construir o presente, com alvos para o futuro, a partir do passado.

Sabemos que a Guerra dos Trinta Anos, entre Estados Protestantes e Estados Católicos, conduziu a um cansaço cultural que gerou, por um lado, a reação iluminista, o agnosticismo e o materialismo, e, por outro lado, um “congelamento” nos embates apologéticos e nos esforços missionários mútuos, com uma territorialidade confessional oficial ou oficiosamente estabelecida, e um olhar evangelístico voltado apenas para os povos ditos “pagãos”, fossem eles primitivos ou seguidores de antigas religiões não-monoteístas ou não-trinitárias. Daí o protestantismo na América Latina ter sido, desde os seus primórdios, incompreendido, não apoiado, censurado, desvalorizado, por amplos círculos internacionais, até os nossos dias. Foi nesse contexto que a hoje festejada e centenária “Conferência Missionária” de Edimburgo, de 1910, nos excluiu como terra de missão.

Somos vistos, ou tolerados, como os exóticos bem sucedidos, a exceção que deu certo.

Essa manhã, devemos homenagear os pioneiros do protestantismo de missão, tanto estrangeiros quanto nacionais, que, movidos por uma visão, uma paixão e uma doação, aportaram no Brasil na segunda metade do século XIX, pretendendo nos trazer uma fé superior, a democracia e o progresso, em clima de respeito mútuo e cooperação, enquanto procuravam impactar a Sociedade e o Estado, primeiro sob as draconianas restrições legais do Império, depois sob violentas perseguições sociais no período republicano. Aqueles pioneiros – escatologicamente pós-milenistas ou amilenistas – se tornaram abolicionistas, republicanos, defensores da separação entre Igreja e Estado, criadores de uma rede notável de educandários, que marcou vidas e forjou lideranças em todo o território nacional: congregacionais, presbiterianos, metodistas, batistas, episcopais, cristãos evangélicos. Colhemos hoje com alegria o que eles um dia semearam, parafraseando Churchill, com “sangue, suor e lágrimas”.

Nossa homenagem aos “derrotados” na Conferência de Edimburgo, que, inconformados e convictos, organizaram o Congresso de Ação Cristã na América Latina, do Panamá, em 1916, reafirmando esse continente, nominal e sincrético, como terra de missão, e que a missão deveria se fazer em unidade. Nossa homenagem, também, aos brasileiros, como Erasmo Braga, em 1920, a Comissão Brasileira de Cooperação, o Conselho Nacional de Educação Religiosa e a Federação de Igrejas Evangélicas do Brasil, embriões de um movimento pela unidade protestante em terras brasileiras.

Nossa homenagem, ainda, aos visionários, que transformaram aquelas entidades em um dos primeiros organismos nacionais aglutinadores e representativos do protestantismo em todo o mundo: a Confederação Evangélica do Brasil, criada em 1934, com seus vários departamentos, tendo à frente notáveis líderes e pensadores, que escreveram uma epopeia, até a crise que levou ao seu encerramento, no turbilhão de controvérsias ideológicas e teológicas que marcaram o período da chamada “Guerra Fria”, bem como o Golpe Militar de 1964, e o período discricionário que a seguir infelicitou a nossa nação.

Nossa emocionada homenagem aos mortos, aos torturados, aos desaparecidos, aos exilados, aos marginalizados (incluindo nossos fiéis) em um momento de penitência por uma Igreja que pecou ao se deixar instrumentalizar pelos poderes desse mundo.

Nossa homenagem a cada homem e mulher, tantas vezes anônimos, que mantiveram firmes a chama da unidade na verdade, mesmo diante das adversidades e das polarizações, com suas pressões, tentações e riscos internos e externos.

Nossa homenagem àqueles que lutaram por transformar a outra expressão do protestantismo, o de migração, também em protestantismo de missão, em acercamento às igrejas morenas.

Nossa homenagem àqueles que lutaram por retirar o pentecostalismo – ator posterior - do seu isolacionismo, em grande parte consequência da sua escatologia, e dar passos corajosos na direção dos históricos, de missão ou de migração, em uma atitude de mútuo respeito e mútua aprendizagem, inclusive sarando as feridas das controvérsias da “renovação” dos anos 1960. Nossa homenagem particular ao saudoso estadista da Assembleia de Deus Alcebíades Vasconcelos.

Estamos convencidos de que é dessa convergência em torno da ética, da sã doutrina e da missão integral da Igreja, que históricos, migratórios, pentecostais e renovados, poderão reviver e retomar a epopeia interrompida e inacabada, sempre necessária, e sempre urgente, pois sempre no coração de Deus.

Nossa homenagem aos que compareceram ao Congresso de Berlim, em 1966; à fundação da Fraternidade Teológica Latinoamericana, em Cochabamba, em 1970; ao Congresso Lausanne I, em 1974, muitos deles já integrando a Igreja Triunfante.

Lamentamos o longo hiato à causa da unidade, depois do fechamento da Confederação Evangélica. Lamentamos o longo hiato que se seguiu ao Congresso de Lausanne I, por tantos anos incompreendido, por setores polarizados de nossas igrejas. Nossa homenagem ao missionário norte-americano Lawrence Olson, da Assembleia de Deus, responsável pela primeira publicação do Pacto de Lausanne em língua portuguesa.

Sem negar a memória e o legado mais antigo dos CELAs, registramos a importância mais recente dos Congressos Latinoamericanos de Evangelização, os CLADEs, a criação da Comissão Brasileira de Evangelização (CBE) e a realização dos Congressos Brasileiros e Nordestinos de Evangelização. Passos importantes, tijolos vivos, nessa penosa tarefa de reconstrução.

Nossa homenagem aos que tentaram, e deram o melhor de si para a experiência válida que foi, nos anos 1990, a Associação Evangélica Brasileira, a AEvB, cujas principais fragilidades foram a demora para o seu início e o modelo de sua gestão, mas que não podemos nem apagar a história, nem sermos ingratos ao que de positivo se fez, destacando-se o seu “Decálogo do Voto Ético”.

Que lições podemos extrair desse rico passado?

Para mim, após mais de meio século no protestantismo brasileiro, ficaria uma querida palavra da língua portuguesa: saudade. Saudade de quando éramos um número não escandaloso de “denominações”. Saudade quando todos confessavam a sã doutrina. Saudade do sonho comum da unidade. Saudade da seriedade, da reverência, da solenidade, da disciplina (inclusive intelectual). Saudade da ética. Saudade da imagem positiva e da boa reputação. Saudade de quando o termo “evangélico” significava a mesma coisa para todo o mundo. Saudade quanto tínhamos uma representatividade e uma voz ouvida e respeitada. Com diria minha avó, entre suspiros: “bons tempos aqueles...”. E espero que não me entendam nem como um idealista ou um saudosista, mas como quem presenciou e vivenciou experiências, e para elas foi atraído.

Os tempos são outros, os desafios são velhos e são novos, a História está para ser escrita por novos atores, por uma nova geração.

Por um lado, como missionários, estamos presentes em todos os continentes, e temos uma responsabilidade de estreitar relacionamentos tanto com a América Latina, quanto com os países de expressão portuguesa. Temos quadros, recursos e não sabemos o que fazer. Vejo com satisfação a nossa integração à crescente família da Aliança Evangélica Mundial. Com o caos que caracteriza a chamada “comunidade evangélica” brasileira, que nem é comunidade e nem sempre é evangélica, temos que ser modestos em nossa capacidade inicial para aglutinar e agregar. Mas, por outro lado, não podemos nos mover pelo excesso de timidez. Juntemos os que querem se juntar, e juntemos com coragem, vendo a audácia irmanada ao bom senso como virtudes irmãs e inseparáveis.

Necessitamos vencer essa marca maléfica do neo-platonismo com seu anti-institucionalismo. Organismo e organização são duas faces da mesma moeda, dentro do mandato cultural que o Senhor nos confiou. Queremos membros de carteirinha, sem preconceitos contra as carteirinhas...

E, por favor, vençam a marca maléfica do temor de que esse novo foro vá além do intercâmbio e de ações comuns, e assuma o seu papel irrecusável de ser representativo. Não somos a única voz, mas somos uma voz, uma voz respeitável, diante de tantas falsas vozes ou do silêncio culposo da ausência de vozes. Convictos, e sem sentimentos de inferioridade ou de vergonha, de portar o termo “evangélico”, em sua reafirmação da autoridade das Sagradas Escrituras, sua centralidade na cruz de Cristo, na experiência de conversão e no mandato missionário.

Nós, da “velha guarda”, não ficamos apenas nas homenagens ao passado, na saudade, no chamamento às lições vividas, no apontar para um rico legado, para a lembrança de nomes e de feitos – por mais importantes que sejam – mas gostaríamos de viver esse momento a partir de um outro sentimento: o sentimento da esperança. Esperança naquele que faz nova todas as coisas. Esperança na Providência. Esperança no Senhorio de Cristo sobre a História e sobre a Igreja. Esperança na resposta dos que são chamados a tornar o Evangelho relevante para sua geração, promovendo a unidade e a inculturação da Igreja, uma Igreja encarnada e verde-e-amarela, não dividida, não irrelevante, não mimética de modismos forâneos

E como as gerações têm respondido ao chamado de Deus e da História?

Algumas se notabilizaram pela obediência e pela relevância; outras pela desobediência e trágico legado, enquanto algumas, e com frequência, desobedeceram pela omissão.

Que a memória dos nossos maiores antepassados seja dignificada!

Que o Senhor confirme a obra de vossas mãos. E que a bênção do Deus de Abraão de Isaque e de Jacó; o Deus de Kalley, Simonton, Kinsolving e Berg; o Deus de Eduardo Carlos Pereira, de Munguba Sobrinho, de Jerônimo Gueiros, de Aurélio Viana e Lisâneas Maciel, vos abençoe e vos guarde nesse dia e para sempre. Amém.

Oremos:

“Recebe, ó Senhor, nós te rogamos, as orações da tua Igreja, hoje quando nos lembramos dos teus servos e servas, e de sua luta em nosso País em favor do Cristianismo Reformado. Concede a todos nós a coragem desses irmãos do passado, para que lutemos com fé e coragem pela fé uma vez dada aos Santos. Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém”.



* Robinson Cavalcanti, bispo da Diocese do Recife – Comunhão Anglicana, cientista político, escritor e bispo anglicano, ex-assessor da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), foi membro fundador e integrante da Comissão Executiva da Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), da Comissão de Convocação e da Comissão de Continuação (LCWE) do Congresso de Lausanne, da Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial (WEF) e da Comissão Executiva da Fraternidade Evangélica na Comunhão Anglicana (EFAC). Palavra à ACeB na manhã do dia 30/11/2010.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A construção da identidade batista

Há quem fale em identidade batista como algo imutável e único. O principal equívoco dos que assim pensam é olhar identidade como somente aquilo que está em nós desde o nascimento, independente das influências externas sobre nós exercidas à partir do momento que fomos trazidos à luz, independente, também, dos processos de reflexão por nós praticados, confrontando, racionalmente, aquilo que está em nós com aquilo que a realidade ao redor impõe.


A idéia de imutabilidade e unicidade é totalmente equivocada. Quem a defende demonstra não compreender o que é identidade, nem como ela se constrói.


Em princípio, identidade é o conjunto de característicos que qualificam nosso ser. Se pensarmos em termos de serem humanos, perceberemos que tais característicos podem ser originários de três fontes: a herança genética, a imposição cultural e a elaboração cognitiva individual.


Todos nós herdamos geneticamente um conjunto de elementos que definem nossa humanidade. São códigos – DNA - que determinam o funcionamento dos nossos corpos, impostos pela natureza ou, numa linguagem religiosa, por Deus, o criador. Podemos estudar seu funcionamento visando construir uma compreensão que nos ajude a interferir naquilo que julgamos ser nocivo ou contrário ao nosso desejo de preservação da vida por um maior período de tempo, com uma qualidade que nos seja satisfatória.


Claro que há um limite à nossa compreensão do seu funcionamento, imposto pela própria condição de sermos criatura e não criadores de nós mesmos. Esse limite pode ser definido como “ponto de mistério”, segundo Richard N. Wolman, docente da Faculdade de medicina de Harvard (Inteligência Espiritual, Ediouro Editora)


O segundo elemento que determina nossa identidade é a imposição cultural. A partir do momento que somos expelidos do útero materno, iniciamos um processo de interação com uma realidade sobre a qual, naquele momento, nosso controle é zero.


Nessa fase, continuamos a depender totalmente de elementos fornecidos pela natureza, para sobrevivermos e também e principalmente de semelhantes – nossos pais, por exemplo - cujos corpos já estão mais amadurecidos e estão em estágio avançado de relacionamento com a tal realidade.


Assim, a forma como a interação do nosso corpo se estabelece com a realidade, depende não somente dos cuidados dos genitores, mas também das informações que receberemos deles, que serão registradas em nossos cérebros e vão servindo como referencial para a maneira como lidaremos com o mundo ao redor, visando manter quantidade e qualidade de tempo de vida.


Herdamos linguagens utilizadas por aqueles que cuidam de nós no período em que nossa autonomia é próxima de zero, principalmente o código lingüístico convencionado entre os participantes do grupo ao qual pertencemos - no nosso caso, a língua portuguesa.


Através desse código, identificamos e nos identificamos com a nova realidade, agimos sobre ela, reagimos a ela, interagimos, enfim, com ela.


Paralelamente ao nosso amadurecimento biológico, ampliamos e aprofundamos nossa relação com o mundo extra-uterino, usando a linguagem que vamos herdando daqueles que há mais tempo convivem com a nova realidade. Não apenas aprendemos nomes dados pelos antecessores à realidade na qual vamos sendo lançados, mas também herdamos os significados por eles desenvolvidos, de cada elemento da tal realidade. A isso chamamos herança cultural.


Compreendidos os dois primeiros elementos que determinam nossa identidade – herança genética e herança cultural – trataremos do terceiro elemento que é a elaboração cognitiva individual.


A elaboração cognitiva individual é o confronto que acontece em nosso cérebro entre a herança genética imposta pela natureza ou, numa linguagem religiosa, por Deus e a herança cultural imposta pela sociedade onde nossos corpos foram lançados e se desenvolvem.


Através da elaboração cognitiva, desenvolvemos o poder não somente de afirmar ou negar as heranças recebidas, mas, sobretudo, de administrá-las de tal maneira que elas nos sejam favoráveis, individual e coletivamente.


A capacidade de elaboração cognitiva é fruto da interação entre amadurecimento biológico e aprofundamento cultural. Ao tempo em que o amadurecimento biológico segue um curso natural, a realidade - incluída aqui a herança cultural - pode beneficiá-lo ou prejudicá-lo.


Usando a capacidade que temos de pensar, podemos compreender tanto a herança biológica quanto a cultural, interferindo nelas com o objetivo de melhorar nossa qualidade de vida.


Uma analogia com a identidade batista


Façamos, então, uma analogia, para entendermos a questão da identidade batista.


Podemos afirmar, com as devidas limitações analógicas, que temos uma herança genética. Qual seria a nossa herança genética batista? Nossa herança genética seriam os dados institucionais – teologia, eclesiologia, ética, enfim - elaborados pelos primeiros batistas.


(Claro que, pensando em termos cristãos, diríamos que nossa “herança genética” seria a Bíblia, ainda que isso nos remetesse a ter que escolher um dos canons existentes. Diante do conflito entre dados institucionais dos primeiros batistas e Bíblia, apontamos duas questões: 1) as crenças dos primeiros batistas poderiam ser comparadas a uma espécie de mutação genética. Eles seriam uma adaptação resultante do conflito entre a cultura político-religiosa estabelecida na Inglaterra do séx. XVII – anglicanismo – e a percepção que tiveram de partes das Escrituras que, aos olhos deles, precisavam ser resgatadas; 2) os primeiros batistas já nasceram divididos. Uns, por exemplo, sustentavam suas pregações na crença da predestinação, outros na do livre-arbítrio. Isso sem falar em diferenças menores que não ganharam importância histórica. Portanto, não podemos falar num único modo de ser batista).


Digamos, entretanto, para fins de analogia, que os documentos existentes desde o século XVII representam nossa herança genética. Pois bem, se tais documentos seriam nossa herança genética, nosso DNA batista, na construção histórica de nossa identidade, um segundo ingrediente teria que ser admitido: a herança cultural.


A herança cultural seria a realidade sócio-econômico-político—moral-religiosa encontrada pelos batistas em cada lugar para onde a vida os expeliu. Partindo da Inglaterra (ou Holanda se quisermos pensar em termos da primeira igreja local de que se tem documento), batistas ganharam o mundo e se defrontaram com “N” realidades diferentes e, na interação com elas, influenciaram e se deixaram influenciar.


Por fazerem uso da linguagem do lugar onde se inseriam e por interagir com a realidade vivenciando seus modelos econômicos, políticos, sociais, morais, enfim, estabelecidos, é óbvio que não seria possível a manutenção de um modo puro de ser batista que, na verdade, nunca existiu. A crença em purismo, de qualquer natureza, é uma aberração, uma manifestação de deficiência ou enfermidade intelectual.


Nesse processo de interação com as múltiplas realidades, seis ou sete princípios (não confundir com Declarações doutrinárias) se mantiveram – segundo Justo C. Anderson, (História de los bautistas, Casa Bautista de Publicaciones) – que poderiam ser chamados de DNA, de herança genética e “N” elementos, provenientes das realidades onde foram se estabelecendo, foram incorporados.


Entra, então, o terceiro elemento que é a elaboração cognitiva individual. Não somente em termos individuais, mas também em termos de igrejas locais, os batistas são (pelo menos pretendem ser) seres pensantes, portanto capazes de reconhecer sua herança genética e cultural e, daí, serem competentes, autônomos, para fazer reelaborações visando melhorar a qualidade da relação com Deus, com os semelhantes e o meio ambiente onde se desenvolvem.


Assim sendo, podemos afirmar que identidade batista é o conjunto de heranças genéticas (documentais), culturais (interação) e cognitivas (capacidade de elaboração do pensamento).


Ora, se é verdade que estes três componentes não acontecem sequencialmente, isto é, não se desenvolvem historicamente de maneira linear, e se cada batista ou igreja local batista não têm o mesmo rítmo de construção da identidade, falar em identidade batista como sendo uma só e uniforme é uma grande bobagem, uma profunda ignorância ou até mesmo má-fé política.


O que podemos fazer é reconhecer que há uma base mínima de elementos que nos caracterizam como igreja (mas não nos torna iguais, da mesma forma que há uma base mínima de elementos biológicos que nos caracterizam como seres humanos, mas não somos iguais); reconhecer que há diferenças culturais em cada lugar onde surge uma igreja batista e que cada batista ou grupo de batistas deve amadurecer sua capacidade de administrar a interação entre a “herança genética” – documental, os princípios – e a herança cultural, visando viver de maneira saudável.


Se quisermos uma denominação com identidade forte, devemos investir na educação, especialmente a teológica, a fim de que sejamos capazes de gerenciar os elementos que determinam nossa identidade denominacional e sejamos saudáveis, respeitando as diferenças individuais.


Será que compliquei demais?

sábado, 1 de agosto de 2009

Relações de poder nas igrejas primitivas (2005)

Enganam-se aqueles que criticam os conflitos de interesses constatados nas estruturas das igrejas, convenções e juntas batistas, tanto quanto os que preferem fazer vistas grossas para o fato, ou mesmo escondê-lo, sob o argumento de que isso depõem contra a denominação. Assumir a realidade e estudá-la é o melhor caminho para minimizarmos eventuais efeitos colaterais maléficos.

Na verdade, se temos conflitos, isso apenas retrata nossa condição natural de seres que pensam, sentem, agem e interagem, de maneira individual e ativa, com a realidade. Ademais, o fato de adotarmos a democracia como forma de governo impede que diferenças permaneçam escondidas e possibilita que cheiros, às vezes desagradáveis, dos bastidores, atinjam nossas narinas.

Para aqueles que se sentem incomodados com a exposição de nossos conflitos ou que mistificam e mitificam o passado, defendendo um retorno aos “fundadores” como caminho para superar problemas do presente, eis uma notícia que preferiríamos não anunciar: entre os santos “fundadores” das igrejas cristãs primitivas, conflitos também se fizeram presentes, senão vejamos:

Em Jerusalém, os judeus de fala grega se sentiram discriminados pelos de fala hebraica, fato que exigiu a eleição da primeira CPSC - Comissão Para Solução de Conflitos - (At. 6.1-6); os cristãos do PC – Partido da Circuncisão – criticaram Pedro, fato que exigiu dele explicações sobre suas posturas (At. 11.1-3); esses mesmos cristãos geraram uma grande contenda com Paulo e Barnabé (At. 15.1-2), fato que forçou a realização de uma assembléia da igreja (At. 15.1-19) em que o PRF – Partido Religioso dos Fariseus – (At. 15.5) fez acusações que geraram muita discussão (At. 15.5-8); Paulo e Barnabé, quem diria, tiveram um desentendimento tão sério que culminou com uma separação temporária (At. 15.9);
Na Galácia, Paulo bateu de frente com Pedro porque este teria agido incoerentemente (Gal. 2.11-13);
Em Filipos, duas irmãs viveram um conflito que mereceu intervenção de Paulo (Fil. 4.2-3);
Em Corinto a coisa foi tão feia que o escancarado partidarismo em torno de líderes foi classificado por Paulo como mundanismo (I Cor. 1.11-12; 3.4);
O próprio “grupo de elite” de Jesus já discutia entre si, ainda na presença do mestre, em torno de qual deles seria o maior (Lc. 9.46) e até já havia candidatos às cadeiras mais próximas de Jesus na glória, fato gerador de indignação (Mc. 10.35-41).

Diga-se de passagem, os que defendem o passado como paradigma para a igreja de hoje deveriam estudar com mais profundidade a história da igreja, inclusive dos “reformadores”, para perceberem que em todas as épocas e lugares as relações de poder foram testadas e conflitos de diferentes naturezas e graus ficaram registrados.
Isso não significa que devamos nos acomodar diante dos atritos resultantes da convivência cooperativa e democrática da qual participamos. Muito menos, servir de modelo ou estímulo para alimentarmos ou justificarmos conflitos na denominação ou igreja. Antes, suas causas e soluções devem ser estudadas, postura que pode nos ajudar no aperfeiçoamento de nossas relações interpessoais e organizacionais.

Todos, em todas as épocas e lugares, experimentam relacionamentos conflituosos. Portanto, não permitamos que aumentem o peso de nossas culpas pela parte que nos toca, nem que oportunistas políticos, com discurso pseudo-espiritual, usem isso para justificar o afastamento da cooperação ou a criação de igrejas ou denominações de propriedade privada.

Continuemos lutando pela unidade, tanto na diversidade quanto na adversidade, alimentando a cultura do respeito mútuo e do diálogo e combatendo extremismos nocivos à caminhada cristã solidária.