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sexta-feira, 27 de maio de 2011

A educação sexual dos pastores (2009)

Se abordar o assunto sexo em igreja ainda deixa muita gente vermelha - umas de vergonha, outras de raiva - relacioná-lo a pastores, para alguns, é motivo de pânico, afinal, no imaginário evangélico popular, pastor seria um ser angelical, portanto destituído de gênero. Temos, entretanto, pelo menos dois bons motivos para tratar o assunto com mais seriedade.

Primeiro, porque o número de pastores envolvidos em problemas de natureza sexual é maior do que imaginamos. Ouvimos muito dos problemas de padres americanos acusados de abuso sexual, mas poucos sabem que nos Estados Unidos é tão grande a quantidade de pastores acusados, inclusive batistas, que já existe uma organização de vítimas de abuso praticado por pastores, a “Survivors Networks of those Abused by Priests” – SNAP.

O segundo motivo tem a ver com a maneira como líderes religiosos pensam e ensinam assuntos relacionados à sexualidade, como, por exemplo, questões de gênero, homossexualidade, abstinência ou masturbação. Nesse sentido, a organização “Religious Institute on Sexual Morality, Justice, and Healing”, também nos Estados Unidos, defende proposta de educação sexual voltada para pastores e sacerdotes. Há reações desfavoráveis de dirigentes conservadores de seminários batistas, alegando discordância da ideologia “não bíblica” da proposta.

Seja por qual motivo for, é importante tratarmos o assunto em nossas escolas de maneira diferente daquela que apenas “ensina” candidatos a pastor, o que seria certo ou errado  em termos de sexualidade, a partir de interpretação popular (ou como preferem outros, interpretação literal) de versículos isolados e descontextualizados da Bíblia, sem estudar a fundo a forma como lidamos com a própria sexualidade, o conteúdo e pressupostos dos nossos ensinos e as motivações dos posicionamentos político-sexuais que adotamos.

Depois de ler a Bíblia de capa a capa, pesquisando atentamente a questão da sexualidade, e de refletir sobre a forma passional como alguns pastores reagem à ordenação feminina ou aos direitos civis dos homossexuais, concluí que, para entendermos tais reações, mais do que prestar atenção em seus discursos “bíblicos” ou na corrente teológica do seminário onde estudou, é fundamental compreender a cultura na qual sua educação sexual foi construída.

Sendo assim, se desejo entender o porquê do meu pastor reagir como reage a temas da sexualidade, devo esquecer seu título e lembrar de que nem sempre ele se escondeu atrás de um belo paletó e gravata ou de um bonito discurso previamente elaborado. Como qualquer garoto, ele cresceu entre meninos que, como a maioria absoluta, não recebeu adequada educação sexual – no sentido técnico do termo - seja em casa, na escola e muito menos na igreja.

Como todo menino, quase 100% do que aprendeu e sentiu a respeito do assunto, é fruto da convivência com seus pares de infância. Ele não só teve seus colegas como “facilitadores” para aprender como poderia lidar com o próprio sexo, como deveria lidar com o sexo oposto e outras questões sexuais, mas sentiu na pele toda a pressão vinda do grupo para provar um tipo patriarcal de masculinidade.

Nesse sentido, a leitura do livro “Corpos, prazeres e paixões. A cultura sexual no Brasil contemporâneo”, (Richard G. Parker, Editora Best Seller, 1991), especialmente as páginas 89 a 97, levou-me a fazer conexões e clareou um pouco mais as dificuldades pastorais no trato do assunto sexo e sexualidade. Segundo o autor, a estruturação da experiência na vida sexual no Brasil contemporâneo foi influenciada pela tradição patriarcal, pela linguagem do corpo e pelo sistema de classificação sexual, tópicos devidamente esclarecidos por ele.

Tal estruturação não seria aprendida imediata e completamente. É resultado de interiorização gradual, “através de um complexo processo de socialização que se inicia nos primeiros momentos da infância”.

Reconhecendo que a responsabilidade pelo cuidado e educação das crianças é, inicialmente e em grande parte, de responsabilidade feminina, o autor demonstra como, até certa idade, a criança é influenciada pela mulher, que domina o lar, e, depois, pelos homens, que dominam o mundo fora do lar.

Como até certa idade a relação de meninas e meninos é fortemente influenciada pela presença feminina, faz-se necessário, por uma questão de definição de identidade, que a distinção de gêneros seja feita muito precocemente. Assim, a identidade das meninas, especialmente em termos de passividade e submissão, é assegurada pela continuidade da relação com a mãe, em casa, bem como pelas visíveis alterações pela qual passam seus corpos, enquanto a dos meninos é mais complicada pela descontinuidade do processo.

Segundo o autor, “ameaçado desde o princípio por uma associação muito íntima com o domínio feminino, a virilidade e atividade que são marcas principais da masculinidade na vida brasileira precisam ser construídas, erigidas a partir do grupo e atravessar um processo de masculinização capaz de quebrar os laços iniciais do menino com as mulheres e transformá-lo em homem”.

Enquanto as meninas experimentam um processo de orientação mais forte dentro de casa, exceto a partir da menstruação, “existe um forte sentido (embora nem sempre explicitamente afirmado) da parte dos pais, de que o caminho mais adequado para seus filhos tomarem é o de se afastarem cada vez mais desse domínio feminino”.  Isso lança luzes sobre a luta de alguns pastores no sentido de defender tão fervorosamente o domínio “bíblico” masculino sobre as mulheres na igreja e de resistir à atuação delas em funções de autoridade.

Pelo mesmo pressuposto entendemos a reação passional de alguns pastores às questões de direitos civis homossexuais. Observe que me refiro aqui à reação emocional que toma conta de alguns no trato do assunto, sem emitir juízo de valor, por qualquer ângulo, sobre a questão homossexual.

Isso reforça a importância de incluirmos, na educação ministerial dos pastores, uma profunda reflexão sobre o processo informal, eficaz, porém nocivo, de educação sexual a que foi submetido em sua infância. Tal reflexão o ajudará a entender o sentido de sua masculinidade, o trato do próprio sexo, sua relação com o sexo oposto, sua reação a questões civis relacionadas a homossexuais e também a influência daquilo que nele foi introjetado culturalmente, na leitura que faz dos textos bíblicos.

A superação dos paradigmas estabelecidos em sua mente e coração dificilmente será alcançada em seus estudos teológicos, nos quais a condução do pensamento está nas mãos de professores – homem em sua maioria - que, como os candidatos a pastores, também tiveram “educação sexual” eficazmente construída “nas ruas” e não em sala de jantar ou de aula.

Portanto, se quisermos entender a posição dos pastores em relação a questões de gênero, reprodução ou erotismo, mais importante do que prestar atenção às escolas onde estudaram teologia, aos livros que leu sobre o assunto ou títulos acadêmicos que ostentam, seria descobrir como se deu sua transição de saída do domínio do mundo feminino para o domínio do mundo masculino, através de suas relações sociais a partir do quinto ano de vida, aproximadamente.

Isso talvez devesse ocorrer sob a facilitação de um profissional de psicologia, não de ética, porque a insegurança para falar do assunto, especialmente dessa fase de nossa infância, não é um privilégio de alguns, mas de todos que fomos criados numa cultura religiosa em que sexo e diabo são sinônimos. O problema é que a psicologia tem sido “demonizada” pelo fundamentalismo que “anda ao redor rugindo e procurando a quem possa devorar” e prejudicada por idéias como: “enquanto Freud explica, o diabo da um toque” cantada por Raul Seixas.

Estou convencido de que, no processo de construção do conhecimento do assunto em pauta, seria muito importante que a visão de sexo e sexualidade presente na cultura brasileira e na cultura dominante nos tempos bíblicos fosse estudada criticamente à luz de princípios universais. Isso ajudaria os novos pastores a tratarem o assunto de maneira menos passional, injusta e preconceituosa, como aprendemos entre “coleguinhas” mais velhos, na infância. 
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Disponibilizo agora aos leitores deste blog, texto que produzi e publiquei n'O Jornal Batista da Convenção Batista Brasileira, em 2009

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mãe é mais do que mãe!

Mãe é filha que, por razões biológicas e culturais, geralmente usufrui de maior tempo ao lado da genitora e nela se inspira, afirmando ou negando o modelo, para construir seu modo próprio de ser-no-mundo; que foi amada, acolhida nos braços, amamentada, protegida, ensinada e também disciplinada ou, quem sabe até, excepcionalmente, experimentou rejeição, maltratos, abandono ou marginalização.

Mãe é ser humano que constrói seu presente, alimenta o passado e projeta o futuro; que procura sentidos para viver; se equipa para sobreviver; disputa melhores condições de vida; que chora, ri, sente fome, dor, tristeza, prazer, solidão, alegria, medo, raiva e amor.

Mãe é mulher que experimenta o fogo da paixão, a necessidade de afeto, a busca por um companheiro, o desejo de compreensão; que precisa lutar para superar a discriminação e, de forma justa e amorosa, forte e terna, ter reconhecida sua condição.

Mãe é esposa que, no encontro com o homem amado, quer caminhar numa via de mão dupla, na qual transita a troca de amor, paixão, aconchego, cuidado e atenção.

Mãe é administradora que, mesmo muita vez desenvolvendo atividades profissionais fora do lar, administra a casa, cuidando ela mesma, na maioria dos casos, ou gerenciando quando conta com auxiliar, da organização da vida em família; do abastecimento, limpeza e arrumação da casa; do cuidado com a alimentação; da higiene física, mental e espiritual dos filhos, além de participar ativamente da realização de desgastantes tarefas externas.

Mãe é serva de Deus, serva da vida, por isso amorosa e espontaneamente se empenha para ajustar-se às diversas e muitas vezes conflitantes exigências que as realidades impõem, buscando, de forma harmoniosa, cumprir seus papéis sociais e satisfazer suas necessidades pessoais.

Por isso, mãe é mais do que mãe!

domingo, 31 de janeiro de 2010

90ª Assembléia da Convenção Batista Brasileira

Para quem ainda não sabe, a Igreja Batista da Graça, SSA, faz parte do rol cooperativo da Convenção Batista Brasileira. Isso significa que nos unimos em comunhão a outras igrejas batistas para fins de cooperação em todas as áreas ministeriais das igrejas.

Anualmente tais igrejas se reúnem, representadas por parcela de seus membros, a fim de examinar e aprovar os relatórios das organizações da Convenção, serem inspiradas e desafiadas a aprofundarem a fidelidade espiritual e experimentarem a comunhão cristã.

A última assembléia aconteceu em Cuiabá com mais de 1000 mensageiros e transcorreu num clima de harmonia. As reuniões noturnas e parte das sessões matutinas foram inspirativas, com diversas mensagens desafiadoras e expressões de adoração através da música.

Em relação aos relatórios das organizações, por definição regimental foram examinados através de câmaras setoriais. As câmaras de educação ministerial, educação religiosa, missionária e ação social, aconteceram no sábado, 23, à tarde.

De uma maneira geral destaco a ascensão da Junta de Missões Nacionais. Quanto as demais, percebo a JMM caminhando, a Jumoc dando sinais de vida, outras se movimentando sem clareza de objetivos e os seminários do Sul e do Norte em situação de crise administrativo-financeira.

Particularmente me senti muito feliz vendo funcionar, pela primeira vez, a Câmara de Ação Social, inclusive com relatório do departamento de Ação Social do Conselho que agora conta com um diretor de tempo integral. Isso fez reascender a esperança de maior estímulo às igrejas no cumprimento do seu papel social.

Fui a Cuiabá com dois assuntos em mente: a filosofia e formato dos relatórios e a constituição do Conselho Editorial d’O jornal Batista. Entretanto, um novo assunto surgiu ao chegar lá, relacionado às pastoras batistas o que me fez deixar o assunto OJB para outra ocasião.

Em relação aos relatórios, foi aprovada a criação de um GT da Transparência Batista para estudar filosofia e formato de relatório que os torne mais tecnicamente transparente. Farei parte deste GT juntamente com outros quatro líderes, representando cada uma das cinco regiões geo-políticas do país.

Quanto às pastoras, creio que se fez justiça àquelas que já haviam sido aceitas pelas ordens estaduais, antes de 2007, quando ficou definido que pastoras não seriam aceitas. 

 
A próxima assembléia acontecerá em Niterói, em janeiro de 2011.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Ainda sobre OPBB versus Pastoras


"Segundo o presidente da OPBB, pastor Orivaldo Pimentel, não houve uma decisão para a aceitação pela OPBB de qualquer pastora, mas apenas daquelas que atendam aos pré-requisitos da entidade e que tenham se filiado à mesma através das sessões estaduais antes da Assembleia de 2007"

Pastores, pastoras e povo batista em geral, de todo o Brasil, estão atentos e prontos a denunciar eventuais lucubrações que possam vir a ocorrer, no sentido de se tentar interpretar a decisão tomada pela assembléia de Cuiabá 2010, da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, de maneira desfavorável às pastoras, dificultando o reconhecimento do direito que nunca deveria ter sido negado a todas elas e muito menos agora, a algumas delas, diante da decisão da tomada.


O que esperamos dos dirigentes da OPBB, agora sob a presidência de Lécio Dornas:

1. que as pastoras beneficiadas pela decisão de Cuiabá, não tenham privilégios que os pastores não têm;
2. que às pastoras, não sejam feitas exigências que não eram feitas aos pastores à epóca da filiação, na seção que as recebeu;
3. que a direção nacional, portanto, não se envolva no processo de filiação das pastoras, se não se envolve na dos pastores; 
4. que a aplicação das normas seja feita em espírito de amor e justiça e não de acordo com a filosofia: "para os amigos as facilidades da lei; para os inimigos, os rigores da lei", pois as pastoras não são nossas inimigas. São seres humanos, criadas igualmente à imagem e semelhança de Deus, resgatadas igualmente pelo sacrifício do Cristo, comissionadas igualmente para ir por todo o mundo, fazer discípulos e batizá-los "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho mandado".


Quando penso no lugar onde trabalho como pastor e nas condições que me são oferecidas e comparo com o lugar onde a maioria das pastoras está trabalhando e as condições que a elas têm sido oferecidas, sinto vergonha só de pensar na humilhação a que têm sido submetidas, sendo tratadas como "vocacionadas de segunda classe" que não estão à altura de compartilhar a mesma organização.


A Associação dos Diáconos Batistas do Brasil não só aceita diaconizas, mas é presidida por uma delas.
A Ordem dos Advogados do Brasil é composta também de Advogadas.
Entre os pastores batistas, entretanto, há quem justifique que a Ordem é dos "pastores" e não das "pastoras". 

Para alguns colegas, dividir a Ordem com mulheres parece ser vergonhoso, ainda que a maioria de nós pastores divida teto, mesa e cama diariamente com uma delas.



Não estou aqui semeando conflitos.
Não confunda paz com ausência de tensão. Ausência de tensão é sinônimo de morte não de paz. 
Paz que não é construida em bases amorosas e justas não é paz, é ausência de vida.

Nem estou aqui semeando divisão.
Unidade que não é contruída em bases amorosas e justas não é unidade, é opressão. 

Muito menos estou aqui defendendo posições antibíblicas.
Posições bíblicas saudáveis são aquelas cuja fundamentação se dá em bases hermenêuticas sólidas e não incoerentes.

Se sou contrário à liderança da mulher por "razões bíblicas", deveria ser, também, contrário à liderança delas em todas as áreas da vida e não somente no ministério.

Se defendo o silêncio da mulher na igreja (igreja gente, não templo), por "razões bíblicas", deveria ser, também, contrário a que se manifestassem em todas as atividades da igreja.

Se aplico literalmente textos bíblicos para manter a mulher na condição de cidadã de segunda categoria, assim deveria agir, também, em relação a roupas, cabelo, uso de bijuterias, maquiagem, diálogo em público, ocupação de assento no templo, só pra exemplificar.


Que Deus nos ajude a sermos misericordiosos em nossas dificuldades naturais de enxergamos e interpretarmos as realidades de maneira compatível com o espírito do evangelho que produz vida e que haja em nós o firme propósito de nos guiarmos pelo espírito que vivifica e não pela letra fria que produz morte.

sábado, 1 de agosto de 2009

Violência conrtra a mulher no meio evangélico (2007)

O trabalho que está em suas mãos pode ser considerado uma raridade. Não me refiro ao fato de descrever a violência contra a mulher. Isso é notório ao longo da história da humanidade e milhares de livros já foram escritos sobre o assunto. Sua raridade se deve ao fato de tratar da violência promovida dentro de família que se considera evangélica, numa abordagem feita por um homem que faz parte do mundo evangélico.

A violência contra a mulher é praticada desde quando se tem registro da história humana. Não me refiro somente à violência de natureza física, mas principalmente a de natureza política, religiosa e psicológica. Estes tipos de violência, praticados inclusive através da restrição de espaços de atuação social feminina, por puro preconceito, ainda é bastante tolerado em nossa sociedade e também precisa continuar sendo vigorosamente repudiado.

A reação, entretanto, à violência física, merece atenção especial pelos prejuízos imediatos e chocantes que produz, em todas as dimensões do ser humano.

A novidade que este livro traz à tona é o fato da violência estar ocorrendo em índices preocupantes dentro de lares classificados como evangélicos. Explicar o motivo disso deve ser também objeto de preocupação, pois até um passado relativamente recente, famílias evangélicas eram tidas como referência em termos de respeito.

O que estaria acontecendo? Algumas trilhas podem ser apontadas. Primeiro, a elasticidade do termo evangélico. No Brasil, a partir da década de 70 teve início uma espécie de estelionato da marca “evangélico”, que passou a ser usada por qualquer grupo que não comungasse com a fé católica.

Em segundo lugar, o reconhecido crescimento numérico, tanto de igrejas, quanto de indivíduos que se dizem evangélicos, provocado pelo crescente acesso de líderes que se auto-intitulam evangélicos à mídia falada e televisada.

Em terceiro lugar, devemos reconhecer a influência do fenômeno da “sentimentalização da fé”, próprio da cultura pós-moderna, disseminado especialmente através de igrejas de origem carismático-pentecostal, cujo discurso enfatiza quase que exclusivamente o sentir e experimentar, em detrimento do pensar e confiar.

Em quarto lugar, vale salientar o papel do paradigma religioso presente no discurso de muitos pastores, que, na prática, é a troca do Deus conforme revelado nas Escrituras Sagradas - a Bíblia – pelo deus riqueza, elemento central da chamada teologia da prosperidade. Essa troca de Iavé por Mamon eliminou o elemento ética dos sermões, “coisificando” os relacionamentos interpessoais.

Em quinto lugar, não poderia deixar de destacar a influência de uma teologia que coloca o Velho Testamento no mesmo pé de igualdade do Novo Testamento. Enfatizando mais a lei do que a graça e transformando o específico de uma cultura primitiva em regra universal, ela reascendeu a crença da submissão incondicional da mulher ao homem, gerando ainda mais conflitos conjugais, em face da falta de sintonia entre a cultura dos tempos bíblicos com os papéis da mulher no mundo atual.

Finalmente, não poderia deixar de destacar a humanidade daqueles que se dizem evangélicos, também influenciáveis pela cultura da violência, em índices alarmantes, presente em cada espaço e situação da sociedade brasileira, como elemento que merece reflexão.

Deixando de lado as possíveis causas do aumento da violência contra a mulher em lares evangélicos, o fato é que este livro apresenta de maneira clara, não somente como a violência se dá, mas também como os envolvidos reagem e o que podemos fazer para modificar esta situação.

O texto é um sinal de alerta e deve ser lido com atenção por todos que, comprometidos com valores do Reino de Deus, desejam ver a vida a dois como um sinal da presença do Cristo.

Maria, cheia de graça (2004)

Admiro as mulheres. Mais do que admiração puramente erótica. Admiro-as como pessoas. Fui criado entre meia duzia delas. Talvez, por desejar o bem para suas filhas, ouvi meu pai repetir “n” vezes que não deveria fazer com as filhas dos outros aquilo que não gostaria que fizessem com minhas irmãs. Continuo desobediente, mas o ensino sempre acende a luz amarela. Além disso, cresci vendo em minha mãe um exemplo muito legal de mulher.

Ouvi de uma psiquiatra, em tom humorado, enquanto a assistia pastoralmente em momento de perda dramática, que homens e mulheres não são da mesma raça. Talvez ela tenha razão. Mulheres, como alguém já disse, são flores de aço. Homens, digo eu, fingem que são de aço, têm horror a se identificarem como flores e acabam não sendo nem uma coisa, nem outra.

Como pastor, conto mais com a cooperação de mulheres do que de homens. Antigamente isso era justificado sob alegação de que eles trabalhavam fora de casa e elas dentro. (Na verdade se dizia, desrespeitosamente, que elas não trabalhavam). Por isso teriam mais tempo para as coisas do espírito. Isso não é verdade. Algumas trabalham em jornada dupla, portanto mais do que seus maridos, mas, ainda assim, encontram meios de se dedicar às coisas espirituais. É mais um indicativo de que elas, de fato, têm mais força.

Escrevendo sobre isso, me vem à mente, imagens de uma infinidade de mulheres, solteiras e casadas, que foram ou são uma bênção em minha vida. Mas gostaria de falar de uma delas pelo impacto que provocou recentemente em mim. Trata-se de minha amiga Maria das Graças Corte de Alencar, esposa de um dos cristãos mais “gaiatos” (no bom sentido!) e amigos que já pastoreei.

Conheci Graça em 1992, na Igreja Batista Emanuel em Boa Viagem. Tempos depois, após exposição da palavra num culto, ela manifestou publicamente seu desejo de permitir que Jesus se tornasse Senhor de sua vida. Funcionária Publica, mulher de personalidade forte (Adiel, seu marido, que o diga!), faz parte da familia Alencar, de Exu, PE. Isso mesmo, uma das duas famílias que se tornaram nacionalmente conhecidas por conflitos na pequena cidade do sertão pernambucano, onde viveu o saudoso Luiz Gonzaga.

Pois bem. Vejam só um trecho da mensagem que recebi dela, por e-mail, cuja publicação faço com autorização:

“Quanto a mim estou bem, continuo fazendo quimioterapia, mas estou reagindo bem apesar das reações já esperadas. Já estou sem cabelos, mas não tive problemas com isso, estou administrando bem esta nova fase da minha vida com meu novo visual. Estou lançando a moda de chapéus e lenços. Adiel comprou de todas as cores e diz que é para combinar com as roupas, imagine! Não aderi à peruca. Me senti péssima quandoprovei, não tem nada a ver comigo. Preferi assumir a careca, sem problemas. O importante é que com o tratamento eu fique curada. Sei que vou dar boas risadas lembrando desta fase. Tenho sentido a todo momento a presença de Deus em minha vida e da minha família. Até nos aproximamos mais, o que faz valer a pena todo sofrimento”.

Não é mesmo, uma Maria, cheia de Graça?

Cada pessoa reage de forma diferente à adversidade. Porém, é claro que aquelas que reagem de forma positiva têm maiores chances de se sairem vitoriosas. Essa, aliás, é a tese que mais me marcou no best-seller “Who movies my cheese” (Quem mexeu no meu queijo, de Spencer Johnson, M.D.) uma das leituras que mais fortemente influenciaram minhas ações nos últimos dois anos.

Maria das Graças permitiu que “graça” fosse mais do que um nome. Permitiu-se experimentar a graça e ser uma graça ambulante, ao decidir investir na comunhão com Deus. Ao abrir-se à graça de Deus, foi invadida por ela, tornando-se capaz de reagir como está reagindo em situação tão dolorosa.

Grande beijo Graça. Você já venceu sua enfermidade ao não se deixar abater por ela.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Paulo, machista e conservador? (2004)

Paulo tem sido identificado por muitos, como um machista conservador. Essa acusação se deve ao fato de afirmar que as mulheres deveriam ser submissas a seus maridos e que deveriam permanecer em silêncio na igreja. Porém, uma análise do contexto sócio-cultural em que ele estava inserido e do papel da mulher naquela sociedade nos surpreende, tornando a acusação pouco justa.

Em “Jesus e as Estruturas de seu tempo” (E. Morin, Edições Paulinas, 1984) vemos que as mulheres deveriam obedecer aos homens porque a crença era de que Deus deu poder a eles. Geralmente elas eram associadas aos escravos pagãos e crianças. As filhas podiam ser vendidas, como se fazia com escravos. Aos homens era recomendado que orassem agradecendo a Deus por não os terem sido criados como mulheres.

Em termos de educação, a lei não lhes eram ensinada, pois isso seria o mesmo que ensinar-lhes a devassidão. Alguns mestres julgavam preferível queimar a Torá (lei) a ensiná-la à mulher. Nas sinagogas elas ocupavam lugares separados dos homens por uma barreira. Em nenhuma hipótese elas tinham acesso aos lugares reservados aos escribas.

No casamento, ainda que não fossem escravas do marido, eram posse sua. Cabia a elas não somente prepararem a alimentação dele, mas também lavar suas mãos, pés e rosto, coisas não exigidas de escravos judeus. Em termos de divórcio o direito ao repúdio era quase que exclusivamente do marido.

O testemunho de uma mulher não era válido. As casadas não podiam ser olhadas e nem sequer cumprimentadas pelos homens. Elas não participavam da vida pública e, na cidade ou diante de pessoas importantes, somente poderiam aparecer com véu na cabeça.

Em “Vida Cotidiana nos Tempos Bíblicos” (Merryl C. Tenney, J.I. Packer e William White Jr., Editora Vida, 1984) os autores descrevem a condição da mulher de maneira romântica. Eles não se manifestam sobre a justiça das relações homem-mulher. Pelo contrário, enaltecem as mulheres como virtuosas por agirem como agiam em contexto tão adverso.

A postura desses autores é de simplesmente reproduzir acriticamente o que os registros bíblicos apontam, sem nenhuma reflexão sócio-política. Ao tratar do papel da mulher de forma enaltecedora, seus escritos trazem imbutidos uma ideologia que legitima e alimenta relacionamentos injustos. Suas descrições, entretanto, confirmam a condição inferior das mulheres, mesmo que não tenha sido este o propósito dos escritores.

Agora me responda: se, num contexto como o descrito, em que mulher, escravo e objeto quase se confundem, alguém aparece ensinando que elas deveriam ser amadas, essa postura seria machista e conservadora? Claro que não!

Creio que as palavras de Paulo foram as “palavras possíveis” para seu tempo e espaço, uma vez que, enquanto o novo – a restauração da graça - estava sendo estabelecido, os efeitos da ruptura com o velho – o legalismo – precisava ser politicamente administrado. Desafiar homens a amarem – e não somente usarem - suas mulheres significava defender uma nova forma de relacionamento. Podia parecer pouco explícito, acanhado até, mas no desenrolar do processo os efeitos seriam revolucionários.

Imagino os conflitos interiores de Paulo, na formulação, apresentação e defesa desse novo comportamento. Compreendendo as perdas que a mudança representaria para os homens, entendo porque ele parece dar dois passos à frente e um para trás. Entendo, também, porque os homens-interpretes de hoje se apegam mais aos “passos para trás” do que aos “para frente” que Paulo deu.

Dois problemas posteriores a Paulo determinam a lentidão nos avanços das relações sociais homem-mulher. O primeiro, de natureza teológica, tem a ver com a canonização e absolutização dos escritos de Paulo. No momento em que a igreja decidiu fechar o Cânon, os avanços nas mudanças foram dificultados pois, aos teólogos, restaram duas alternativas: ou rompiam com a decisão da Igreja se expondo ao risco de serem marginalizados pejorativamente como modernistas, liberais, ou faziam marabalismos linguístico-teológicos com tais textos visando encontrar saídas que desatassem o nó. A maioria absoluta, compreensivamente, continua escolhendo a segunda opção.

O segundo problema é de natureza política. Na agenda de discussões político-doutrinárias da igreja, o tema submissão da mulher aos homens ocupou muito mais espaço nos debates do que o tema amor dos homens por elas. Essa ênfase na submissão e não no amor, retrata a resistência dos homens em aceitar as perdas políticas resultantes da proposta de Paulo.

Vale salientar que quem sempre definiu a agenda de temas a serem debatidos na igreja foram os homens. Quem sempre interpretou e escreveu sobre textos bíblicos foram os homens. Essa condição fez com que eles não somente pudessem escolher o que deveria ser discutido ou não, mas também possibilitou que o que eles pensavam se estabelecesse como verdade. Quantos livros de hermenêutica escritos por mulheres você conhece? Como elas poderiam fazer isso se não podiam, por decisão política dos homens, sequer se matricular numa escola teológica para estudar técnicas de interpretação, linguas originas e temas afins? Como as mulheres poderiam difundir o que pensavam ou sentiam se os púlpitos, por decisão política dos homens, eram espaços masculinos?

Estudando a natureza das relações sociais e como os sistemas são montados, entendemos porque tantas rupturas surgem no seio eclesiástico. É que, quando pessoas que têm uma visão diferente da dominante, perdem a esperança de ver avanços acontecerem, resta-lhes a alternativa do rompimento. Nas rupturas, brechas se abrem e raios de sol penetram nas estruturas escuras e mofadas que sufocam a beleza da vida.

Paulo não foi tão conservador e machista como é acusado. Nós é que somos ao nos calarmos diante de pressupostos teológicos e agendas de debates que nos favorecem e de relações humanas tão injustas.