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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Frutos do Espírito Santo na Vida de cada Crente - 11.06.12 - 50/100 dias de oração pelo Brasil

Achei bom ter constatado que o roteiro do livro "100 dias que impactarão o Brasil" não traz nenhuma vez o assunto "dons", enquanto traz, diretamente, duas vezes  o assunto "fruto" do Espirito Santo.

Se isso se deu por acaso ou conscientemente, não importa. O fato é que, conquanto o uso dos dons seja essencial à edificação do corpo de Cristo, sua presença na vida da igreja decorre, primeiro, de uma decisão de Deus de presentear-nos - dom, no grego, significa presente -, de equipar-nos, com ferramentas espirituais úteis à edificação do povo; depois, decorre da decisão tomada por nós de, em vez de nos dividirmos em função da importãncia ou não deste ou daquele dom, focarmos nossas mentes e corações no amor. O amor faz toda a diferença no reconhecimento e uso dos dons de maneira favorável, benéfica.

Daí a última frase que faz ligação entre o capítulo 12 (de 1ª aos Corintios) -  o das discussões e brigas na igreja - com o 13 - o do diálogo e harmonia - ser: "Passo agora a mostrar-lhes um caminho mais excelente" (I Cor. 12.31). Paulo não se expressou, mas certamente sabia que, mesmo que o conceito "dom" nunca fosse destacado ou definido nas páginas do Novo Testamento, o fenômeno "dons" seria uma realidade na vida da igreja, pela simples presença do Espírito Santo, produzindo fruto que se manifesta, dentre outros, através do amor.

A presença de dons na igreja, não é determinada pelo fato do assunto ter sido abordado por Paulo. É determinada pela presença do fruto do Espírito Santo em nossas vida.

Se a igreja não brigasse por causa dos dons, nem os teólogos pensassem sobre os dons, nem ainda se os doutrinadores ensinassem sobre os dons, ainda assim eles seriam uma realidade na vida da igreja pela simples presença do fruto do Espírito Santo em nós. É que, quem deixa o fruto do Espírito manifestar-se em sua vida, naturalmente sente o desejo e adota a atitude de viver procurando meios para construir relacionamentos saudáveis e para agir, usando toda ferramenta disponível, visando o bem comum, não apenas os próprios interesses.

Portanto, uma das causas da importância da ênfase no fruto é que, com a presença dele, a igreja não investirá tempo e energia, discutindo, brigando por causa dos dons. Ela simplesmente os reconhecerá e os usará para a edificação e não para destruição mútua.

A presença do Espírito Santo, também chamado de "Espirito de Cristo", "Espírito de Deus", "Espirito do Senhor", significa Deus se manifestando dentro de nós (como de maneira extraordinária escreveu Christrian A. Schwars em "Nós diante da trindade"). Tal presença resulta no brotar de um conjunto de qualidades espírituais que redirecionam nossas vidas, como igrejas ou indivíduos.

Conquanto Paulo tenha exemplificado tal manifestação, em Gálatas 5.22-23, como sendo "
amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade,
Gálatas 5:22
mansidão e domínio próprio", o fruto da presença do Espírito de Deus em nós se manifesta também através de outras qualidades, como por exemplo a liberdade: "Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade." (I cor. 3.17).

Fruto, portanto, é tudo aquilo que resulta do  domínio da presença do Espírito de Deus sobre nós, da nossa disposição em permitir sua atuação em nós. A oração - ouvir e falar com Deus - é o melhor caminho para que tal manifestação aconteça. A Bíblia é a fonte mais completa e, portanto, o melhor caminho para compreendermos como isso se deu ao longo dos primeiros anos de história da igreja e como pode fazer parte de nossas vidas hoje.  

Oremos a Deus, então, e estudemos as Escrituras visando permitir que o Espirito produza em nós as qualidades necessárias ao nosso bom desenvolvimento.
Abraços do seu pastor,

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Para que a Graça não perca a graça


A denominação IGREJA BATISTA DA GRAÇA é, como se vê, formada de três palavras: igreja, batista e graça. A compreensão do que isso significa é de grande relevância para nossa caminhada. Cada uma dessas palavras – como todas as palavras – se retirada do seu contexto sócio-cultural, poderia tornar-se apenas um ajuntamento de grafia de sons.
Quando, porém, cada uma delas é situada num contexto sócio-cultural, não apenas será a expressão de uma dada realidade, mas, a partir daí, elas mesmas passam a ser definidoras de como desejamos que tal realidade deva ser.
A palavra igreja, 
por exemplo, é uma tradução da palavra grega “ekklesia”. Na cultura grega dos dias de Jesus, referia-se a uma reunião público-política de cidadãos gregos. Jesus partiu desse sentido para referir-se a uma reunião de pessoas, não mais subordinadas às leis de determinada cidade ou país, mas espontaneamente vivendo em comunhão com ele, pelo sentido que suas vidas ganharam à luz das atitudes, palavras e ações dele.
Como é natural, ao longo desses mais de 2000 anos, em cada tempo e lugar, esta palavra continuou ganhando novos significados, uns mais distantes, outros mais próximos, uns mais profundos, outros mais superficiais, mas sempre mantendo algum tipo de vínculo com sua origem em Jesus.
A palavra batista
também tradução de palavra grega, baptistés, refere-se em sua origem àquele que batiza. Em documentos históricos, entretanto, vemos que denominava um grupo que surgiu na Inglaterra do século XVII, cuja marca litúrgica que mais chamou a atenção foi o batismo de adultos por imersão, contrariando o de crianças por aspersão.
Este aspecto chamou a atenção nem tanto pela forma de batismo – imersão – mas por ser ministrado a adultos. A ideologia disso representava não somente uma obediência aos ensinos de Jesus, mas também era expressão de respeito à liberdade e responsabilidade do indivíduo de escolher o percurso religioso que gostaria de dar à sua vida, sem imposição da família, do Estado ou de quem quer que seja.
Entretanto, tal grupo fazia muito mais do que batizar adultos por imersão. Defendia, por exemplo, uma igreja livre, num estado livre, cujo referencial de conduta deveria ser a vida de Jesus, conforme registros nas Escrituras Sagradas judaico-cristãs; defendia a liberdade de se reunirem em igrejas locais e autônomas para expressarem sua fé, construírem e expressarem livremente seus pensamentos e, definirem, democraticamente, a forma e conteúdo que serviriam de norte para caminharem juntos; defendia inclusive, a liberdade de cada um poder interpretar as Escrituras Sagradas, contrapondo-se ao então privilégio reservado à hierarquia eclesiástica subordinada ao Estado.
Com o passar do tempo, tais “pequenos grupos” se uniram em convenções, mantendo suas autonomias, e definindo, conjuntamente, princípios norteadores que os caracterizariam como “batistas”. Desses princípios, 6 ou 7 tem se mantido presentes na maioria absoluta das igrejas que se chamam “batistas”, em todas as épocas e lugares.
A palavra graça, 
charis em sua origem grega, foi associada ao nome desta Igreja Batista, não, primeiramente, por seu significado teológico, mas pela localização geográfica – o bairro da Graça, em Salvador – onde um pequeno grupo começou a reunir-se em 1966.
Já devidamente registrado em cartório, o nome foi mantido, apesar da mudança de localização para o Largo da Garibaldi, no vizinho bairro da Federação.
A manutenção do nome não se deu, certamente, apenas porque assim fora registrado, mas também por seu significado teológico. Tal significado faz parte do legado da primeira igreja chamada batista, formada na colônia inglesa na Holanda, em 1609.
Fruto de uma terceira geração de reformadores e herdeiros de conceitos que ganharam evidência nas reformas iniciadas no século XVI, cujo expoente foi Martinho Lutero, os batistas sempre defenderam que a salvação é fruto da graça divina, se contrapondo à tese católica que definia a salvação como resultante do esforço humano.
Graça, portanto, indica a possibilidade de vivermos em comunhão com Deus, sentido último de nossa existência, como fruto do seu desejo de nos amar, conjugado à nossa livre vontade de corresponder.
Por isso, para que a Igreja Batista da Graça não perca a graça, é fundamental sempre retornarmos ao significado do seu nome, aprofundando-o e nos empenhando a viver coerentemente com ele.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Meu primeiro batismo por aspersão


Hoje é aniversário de Gláucia, meu dia de folga, numa semana em que completo 27 anos de ministério pastoral. O céu está claro e o sol maravilhoso, depois de um domingo extraordinariamente abençoador.


Ontem  16 pessoas adultas foram batizadas pela manhã, num culto em que todos os espaços do auditório foram ocupados e muita gente ficou do lado de fora. Pr. Amauri Munguba Cardoso trouxe-nos a mensagem. À noite celebramos a Ceia do Senhor, num ambiente não menos acolhedor, com pessoas afirmando publicamente seu desejo de viverem uma vida norteada pelos valores do Reino de Deus.


A novidade, entretanto, foi o batismo de Dona Pomposa, o primeiro por aspersão, por mim realizado.


Dona Pomposa tem 93 anos de idade. Já não ouve tão bem, está encurvada e anda sempre com o apoio de alguém. Frequenta assiduamente as reuniões da 3ª idade promovidas pelo Cecom/IBG e é avó de Marcela, competente líder do ministério com surdos da Igreja.


Passou a ler regularmente sua Bíblia e, há algum tempo, fez sua decisão de seguir a Jesus. Uma das primeiras manifestações de desejo, neste novo momento de sua fé, foi pedir que os símbolos religiosos antigos, fossem  retirados das paredes de sua casa. Diante da resistência de filhos, de atender seu desejo, ameaçou ela mesma subir numa cadeira e retirá-los. Segundo testemunho, o desejo foi atendido, por conhecerem sua determinação e temerem uma operação tão arriscada na idade dela.


Com a mesma determinação decidiu que queria ser batizada. Foi dando cada passo do processo, até passar pelo Conselho Diretor e ser aprovada pela Assembléia de Membros da Igreja. Nesse processo eu ficava indagando com meus botões: como realizarei este batismo? Ela é muito idosa e pode haver complicações em termos de saúde. Poderia ocorrer problemas ortopédicos, pulmonares, enfim. Pensando nisso, decidi que ela seria batizada por aspersão.


Já sei - dirá um fundamentalista - não existe “batismo por aspersão”, pois, etmologicamente, a palavra batismo quer dizer mergulho. E Paulo, quando se refere ao batismo, usa a imagem do sepultamento (Rom. 6.4; Col.2.12).


Sei muito bem tudo isso. Meu pai converteu-se no presbiterianismo, mas tornou-se batista por entender que a forma neotestamentária do batismo seria a imersão. Então, esse dado foi muito forte em minha trajetória de vida. 
Se não bastasse isso, minha formação cristã se deu numa igreja batista influenciada por missionários batistas do sul dos Estados Unidos, cujo discurso trazia fortes traços do anticatolicismo.  Portanto, forma de batismo era dado extremamente relevante. Chegava a ser argumento para distinguir uma igreja "bíblica" de outra não "bíblica", claro, pra mostrar a superioridade "bíblica" da que fazíamos parte.


Mas cresci, ganhei asas, desenvolvi meu senso crítico, ampliei meu universo de diálogos e leituras e tornei-me um pouco mais autônomo e honesto comigo mesmo. Assim, conquanto mantenha a compreensão da forma mais evidente de batismo no Novo Testamento, entendi que o mundo dos símbolos não é regido por etmologias ou figuras de linguagem; que suas razões têm vida própria; que símbolos podem fazer parte da cultura de uma coletividade, mas  só é efetivamente relevante quando está integrado ao mundo significativo da individualidade.


Por ter aprendido, desde a minha Profissão de Fé para o batismo, em fevereiro de 1968, que batismo não salva; que batismo é símbolo; que o verdadeiro batismo é o efetuado pelo Espírito Santo no ato da entrega da vida a Cristo, decidi que dona Pomposa seria batizada por aspersão.


Foi emocionamente vê-la sendo conduzida para dentro do batistério, bem maquiada, com um largo sorriso no rosto, declarando sua fé em Jesus, ouvindo: “como ministro do evangelho, devidamente autorizado por esta igreja, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém” e, em vez de ser mergulhada, receber um punhado de água sobre a cabeça e ouvir a igreja inteira aplaudir, ratificando tão belo testemunho de fé.


Foi o primeiro em centenas de batismos já realizados. Continuarei seguindo a compreensão da imersão. Não tenho nenhuma inclinação para ser apologeta da aspersão, nem, muito menos, intenção de dar ao assunto relevância além do que efetivamente merece, pois, parafraseando Paulo: De nada vale ser batizado ou não. O que importa é ser uma nova criação.(Gal. 6.15)

sábado, 5 de junho de 2010

Espiritualidade (Parte 1)

por Rubem Alves
Li, no Journal for Advanced Practical Research sobre dois fascinantes projetos que estão sendo desenvolvidos por cientistas do M.I.T. Em decorrência dos problemas ambientais provocados pelo uso da energia os cientistas têm estado à procura daquilo a que deram o nome de "tecnologias suaves", por oposição às "tecnologias duras". Tecnologias suaves são aquelas que tem por objetivo produzir energia sem poluir e com um gasto mínimo ou nulo dos combustíveis. Por exemplo: a produção de energia por meio de moinhos de vento ou de energia solar é macia porque nem polui e nem esgota recursos naturais. Já a produção de energia em usinas movidas a carvão é dura: esgota as reservas de carvão e polui.

Preocupados com a crescente demanda de energia, a escassez de recursos e a poluição, os ditos pesquisadores estão trabalhando no sentido de produzir artefatos técnicos que não façam uso nem de energia elétrica comum, nem de pilhas e nem de energia nuclear.

O primeiro projeto contempla a construção de um pequeno objeto produtor de luz, com essas características econômicas. Trata-se de um vaso de metal ou vidro, com boca afunilada como numa garrafa, cheio com querosene, do qual sai um barbante grosso e que produz luz quando uma faísca é produzida na ponta do pavio – nome técnico que se deu ao tal barbante grosso. A faísca, para ser produzida, dispensa o uso de fósforos. Basta que se batam duas peças de metal na proximidade da ponta do pavio. Do choque das duas peças de metal salta uma faísca que incendeia o pavio, produzindo uma chama amarelada suave.

No momento o pesquisador está lutando com um problema para o qual ainda não encontrou solução: um cheiro característico desagradável, resultante da combustão do querosene. Mas, com os recursos da química, ele espera poder produzir chamas com os mais variados perfumes – o que permitirá que o dito artefato venha a ter o efeito espiritual dos incensos. Esse artefato dispensa o uso de pilhas e de energia elétrica tradicional, podendo ser usado em qualquer lugar.

O outro projeto procura produzir um aparelho de som que funcione sem pilhas e sem eletricidade, bastando, para isso, o emprego da energia humana e do efeito armazenador das molas: gira-se uma manivela que aperta uma mola que faz girar o disco que, tocado por uma agulha, produz som através de uma corneta metálica. Com esse artefato é possível ouvir música até no alto do Himalaia.

Nesse momento espero que o leitor já se tenha dado conta de que tudo o que eu disse é pura brincadeira. Cortázar fez coisa semelhante com a história invertida das invenções. Partindo do avião supersônico em que as pessoas nada vêem e ficam tolamente assentadas para chegar mais depressa, Cortázar passa por inumeráveis avanços intermediários, até chegar ao meio mais humano, mais saudável e mais ecológico de locomoção, ainda não descoberto: andar a pé. Claro, isso é pura brincadeira... Brincadeira, porque nenhum cientista iria gastar tempo criando o que já foi criado e abandonado, seja lamparina ou gramofone...

Criar! A criatividade é manifestação de um impulso que mora na alma humana. É isso que nos distingue dos animais. Os animais estão felizes no mundo, do jeito como ele é. Há milhares de anos as abelhas fazem colmeias do mesmo jeito, os pintassilgos cantam o mesmo canto, as aranhas fazem teias idênticas, os caramujos produzem as mesmas conchas espiraladas. Não criam nada de novo. Não precisam. Estão felizes com o que são. O que não acontece conosco. Somos essencialmente insatisfeitos e curiosos. 

Albert Camus disse que somos os únicos animais que se recusam a ser o que são. A gente quer mudar tudo. Inventamos jardins, inventamos casas, inventamos culinária, inventamos música, inventamos brinquedos, inventamos ferramentas e máquinas. Michelangelo inventou a Pietà, Rodin inventou o Beijo, Beethoven inventou a 9ª Sinfonia.

Espiritualidade (Parte 2)


Por Rubem Alves
Como é que a criatividade acontece? É preciso, em primeiro lugar, que haja algo que nos incomoda. Por que é que a ostra faz pérola? Porque, por acidente, um grão de areia entrou dentro de sua carne mole. O grão de areia incomoda. Aí, para acabar com o sofrimento, ela faz uma bolinha bem lisa em torno do grão de areia áspero. Desta forma ela deixa de sofrer. Aprenda isso: "Ostra feliz não faz pérola". Isso vale para nós. As pessoas felizes nunca criaram nada. Elas não precisam criar. Elas simplesmente gozam a sua felicidade. Bem disse Octávio Paz: "Coisas e palavras sangram pela mesma ferida". Toda criatividade é um sangramento.


Como é que a criatividade se inicia? Já disse: inicia-se com um sofrimento. O sofrimento nos faz pensar. Pensamento não é uma coisa. O pensamento se faz com algo que não existe: idéias. Idéias são entidades espirituais. O espiritual é um espaço dentro do corpo onde coisas que não existem, existem. A Pietà, antes de existir como escultura, existiu como pensamento, espírito, dentro do corpo do Michelangelo. O Beijo, antes de existir como objeto de arte, existiu como espírito, dentro do corpo de Rodin. A 9ª Sinfonia, antes de existir como peça musical que se pode ouvir, existiu como espírito, dentro da cabeça de Beethoven.


O espírito não se conforma em ser sempre espírito. Que mulher ficaria feliz com a idéia de um filho? Ela não quer a idéia de um filho, coisa linda. É linda - mas enquanto espírito, só dá infelicidade. A mulher quer que a idéia de um filho - sentida por ela como desejo e nostalgia - se transforme num filho de verdade. Por isso ela quer ficar grávida. Quando o filho nasce, aí ela experimenta a felicidade. Uma idéia que deseja se transformar em coisa tem o nome de "sonho". O sonho deseja transformar-se em matéria.


A "espiritualidade" do espírito está precisamente nisso: o desejo e o trabalho para fazer com que aquilo que existe apenas dentro da gente (e que, portanto, só pode ser conhecido pela gente), se transforme numa coisa, que pode então ser gozada por muitos. A espiritualidade busca comunhão. Hegel dava a esses objetos, produtos da criatividade, o nome de "objetivações do espírito". O caminho do espírito é esse: da espiritualidade pura e individual, para a coisa, objeto que existe no mundo, para deleite e uso de muitos. Os objetos, assim, são o espírito tornado sensível, audível, visível, usável, gozável. Uma canção só existe quando cantada. Um quadro só existe quando visto. Uma comida só existe quando comida. Um brinquedo só existe quando brincado. Um filho só existe quando parido. O espírito tem nostalgia pela matéria. Ele deseja fazer amor com a matéria. E quando espírito e matéria fazem amor, nasce a beleza.


Deus não se contentou um sonhar o Paraíso. Se o sonho do Paraiso lhe tivesse dado felicidade ele teria continuado apenas sonhando o Paraíso. Deus não se contentou em sonhar o homem. Se o sonho do homem lhe tivesse dado felicidade ele teria continuado sonhando o homem. Mas ele (ou ela) só se deu por completo quando se transformou em homem: "... e o Verbo (sonho) se fez carne (corpo)". O espírito quer descer, mergulhar...


Tão diferente daqueles que pensam que espiritualidade é o espírito se despegando da matéria, o corpo morrendo para ser só espírito, sem carne e sem sentidos, como se o material fosse doença, coisa inferior. Beethoven por acaso acharia que os instrumentos da orquestra são coisa inferior? Mas como? Sem eles a 9ª sinfonia nunca seria ouvida! Nesse caso ele ficaria feliz com a sua surdez, porque então a 9ª sinfonia permaneceria para sempre espírito puro! Michelangelo por acaso pensaria que o mármore é coisa inferior? Mas como? Sem o mármore a Pietà nunca seria vista e amada! E ele ficaria feliz se não tivesse mãos, porque assim a Pietà permaneceria para sempre espírito puro! Deus por acaso acharia que o corpo é coisa inferior? Mas como? Sem o corpo o Verbo nunca viveria como carne e ele, Deus, amaria a morte. Porque com a morte o homem permaneceria para sempre espírito puro...


Espiritual é o jardineiro que planta o jardim, o pintor que pinta o quadro, o cozinheiro que faz a comida, o arquiteto que faz a casa, o casal que gera um filho, o poeta que escreve o poema, o marceneiro que faz a cadeira. A criatividade deseja tornar-se sensível. E quando isso acontece, eis a beleza!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O carnaval de Salvador


Não há como não refletir sobre o carnaval. Estou no olho do furacão, a 200 metros de um dos circuitos do maior carnaval de rua do planeta, que é o de Salvador, Bahia. 
 Não fui até o local, mas não posso evitar de saber tudo que está acontecendo na Praça do Campo Grande e Corredor da Vitória, pois daqui ouço tudo o que ali se diz e se canta, pelos potentes equipamentos de som usados nos trios elétricos.
(A Praça do Campo Grande, na qual caminho, em dias normais)
Gláucia está em Manaus assistindo ao pai que está enfermo e, conquanto tenha recebido diversos convites para estar com famílias da Igreja em lugares certamente maravilhosos, a necessidade de colocar em dia algumas leituras e trabalhos acadêmicos não permitiram que eu desfrutasse da companhia de gente que tem me dado carinho e tenho me empenhado para corresponder. Espero, em pelo menos um destes dias de carnaval, poder usufruir da companhia de alguém em uma dessas ofertas.

Por enquanto vou cumprindo meu dever, lendo pela manhã, tarde e noite, com intervalos para cuidar de outras necessidades, incluindo o gato que, quando não está dormindo, me cerca o tempo todo, e o computador que me faz sentir menos isolado.

 As mudanças no cotidiano do bairro

Do alto do 7º andar do meu apartamento, cercado de janelas de vidro por todos os lados, vejo o movimento  de gente que vai e vem.
Na ida ao supermercado que fica a 100 metros da praça, percebi que o perfil do público ali, bem como o produto mais procurado, não é o predominante no cotidiano.

Desde o estacionamento até a parte de dentro da loja, toda uma estrutura de venda de cerveja, no atacado, está montada. Assim, há uma quantidade imensa de moças bonitas atraindo clientes para a marca de cerveja que representa. Todo o acesso imediatamente do lado de dento da loja está abarrotado de pilhas de cerveja e água. A clientela, em sua maioria, são os vendedores de rua reabastecendo seus estoques. No estacionamento, dezenas de pessoas, geralmente grupos de rapazes e moças, ocupam os espaços bebendo, rindo e falando em voz alta para competir com o barulho dos trios.

As pessoas vão e vem. Geralmente em pequenos grupos ou casais de mãos dadas. A música rola o dia todo. Na maior parte, músicas mais agitadas e, vez por outra, músicas mais lentas. Até um "Ave Maria" de Schubert, já rolou, além de discursos de responsáveis pela segurança pública.
(A Praça do Campo Grande, na qual ninguém "caminha" em dias de carnaval)

Motivos para participação e tipos de pessoas

No meio disso tudo, há pessoas olhando o movimento, outras querendo ver de perto alguma celebridade, outras a fim de brincar,  pulando juntamente com a massa ao som das músicas e outras, ainda, com uma infinidade de intenções que vão das comerciais, passando pelas eróticas, chegando a furtos e assim por diante.

É óbvio, portanto, que nem só de gente má intencionada ou interiormente vazia é formada a multidão dos que estão nas ruas. Encaixar todos os que vão às ruas nesse perfil parece-me simplismo. Muitas das pessoas que lá estão, são as mesmas que encontro quase que diariamente pelas ruas do bairro. Pessoas que trabalham, estudam, se alegram e choram como todo ser humano. Algumas já equacionaram o sentido de suas existências, outras ainda não. Umas têm uma compreensão de religiosidade que inclui a diversão e são pessoas vivendo suas vidas segundo os ditames de sua fé e consciência.

Discursar que todos os que ali estão são pessoas desesperadas em busca de alívio e que, depois da folia, cairão numa realidade depressiva, parece não condizer com a realidade toda. Ainda que, como em todo ajuntamento de pessoas, inclusive em reuniões religiosas, haja pessoas buscando uma razão para viver, creio ser necessário distinguir o discurso ideológico religioso que define, a priori, o carnaval como atividade 100% diabólica e as reuniões religiosas como atividade 100% divina. Quem vive e estuda há décadas a realidade das igrejas sabe que também existe muito de diabólico em atividades religiosas.

Referencial para avaliação do evento

Talvez, um referencia que pode nos ajudar em nossa reflexão sobre o carnaval seja uma avaliação do ambiente em termos de riscos. Nesse sentido, o julgamento partiria não de um pressuposto preconceituoso, mas de uma análise de dados mais profunda. Isso significa avaliar o ajuntamento, as finalidades - de lazer, de economia - e a probabilidade de efeitos maléficos.

Ninguém condena ajuntamento de pessoas pelo ajuntamento. Condena-se ajuntamento que, em vez de contribuir para uma vida mais justa, amorosa, feliz ou solidária, leva as pessoas em sentido contrário. É o caso, por exemplo, da condenação ao ajuntamento de pessoas más, declarada por Davi (Sal 6.5) e ao de pessoas religiosas, denunciado por Amós (Am 5.21).

Ninguém condena, também, ajuntamento com a finalidade de diversão. Fui vítima de um período em que evangélico era proibido de ir a estádio de futebol. Hoje, é comum até pastores presentes em ajuntamentos de milhares de pessoas em estádios de futebol.

Quanto ao aspecto econômico, ele é inerente a toda atividade humana. Porque a igreja se reúne, prédios precisam ser construídos, equipados e mantidos, e pessoas constroem, oferecem serviços de manutenção e venda de equipamentos, tirando disso seu sustento. Porque as igrejas cantam, há pessoas que produzem e vendem músicas, partituras, instrumentos musicais, equipamentos de som e vídeo, tirando disso seu sustento. Porque as igrejas ensinam, pessoas produzem livros e revistas, materiais didáticos e promovem cursos de capacitação de professores, tirando disso seu sustento.

Porque pessoas vendem produtos e serviços às igrejas, elas - as igrejas - precisam de recursos financeiros para sua manutenção, cabendo aos fiéis prover tais recursos.

O mesmo raciocínio se aplica ao carnaval e toda atividade humana. Apenas a motivação, finalidade, produtos envolvidos e fontes de financiamento são geralmente diferentes.

O que considerar na hora de decidir

O carnaval coloca pessoas numa encruzilhada na qual precisam decidir entre duas coisas essenciais à vida humana: o princípio do prazer e a aspiração de segurança.

Assim, uma questão que merece reflexão é a probabilidade de efeitos maléficos. A decisão de cada um, nesse caso, depende de fatores objetivos e subjetivos.

Fatores objetivos

Por fatores objetivos considero os dados referentes a elementos disponíveis à observação e crítica comum. Por exemplo: é notório, aos olhos de todos, a quantidade de bebida alcoólica utilizada no ajuntamento de carnaval. Qual seria a consequência disso? Quais os efeitos do álcool no comportamento das pessoas? 

Sabemos que o álcool tem o poder de levar seus usuários a perderem o controle de seus pensamentos e comportamentos e a liberarem seus sentimentos. Assim, em ambiente com elevado índice de pessoas alcoolizadas, aumenta a probabilidade de sentimentos nocivos serem expressos gerando comportamentos que podem expor os presentes a riscos.

Andando  pelo bairro, lembrei-me do meu tempo de Flórida, quando enfrentei quatro furacões. Para minimizar os efeitos dos furacões, tapumes eram colocados em portas e janelas dos prédios comerciais e residenciais. Perguntei-me: o que quer dizer a colocação de tapumes nas portas das lojas e dos condomínios dos bairros onde há um circuito carnavalesco ? De que tipo de furacão se está protegendo?

Outro dado interessante é o elevadíssimo investimento em iluminação das ruas; tecnologia de ponta com câmeras que permitem o acompanhamento, pela segurança, do que está acontecendo nos locais, em tempo real,via internet; uso de helicópteros como reforço policial, além da instalação de postos policiais e de saúde. Qual o significado disso? Que preocupações ocupam a mente dos que exercem o poder público?

Os investimentos em proteção do patrimônio, em segurança e saúde pública indicam os riscos do evento, confirmados pelos dados noticiados pela imprensa, em termos de brigas, roubos e atendimentos nos postos policiais e de saúde. Isso é um fator objetivo que deve ser considerado ao avaliarmos o ajuntamento.

Fatores subjetivos

Quantos aos fatores subjetivos, refiro-me àqueles que não podem ser observados, pois fazem parte do universo interior de cada um. 

Cada pessoa tem uma percepção da realidade e a julga não somente com base em valores e crenças, mas também em termos de sentimentos, de intuição. Assim, a predisposição para arriscar-se não é igual em todas as pessoas. O perfil de cada um varia entre os de pessoas excessivamente inseguras que, portanto, se expõem menos a riscos e, de outras, extremamente seguras que, por isso, muita vez não consegue perceber perigos.

Há também pessoas que não desenvolveram plenamente a capacidade de julgamento próprio e, portanto, no seu agir, dependem da aprovação daqueles que exercem algum tipo de autoridade sobre suas vidas. É o caso de crianças e adolescentes que, inexperientes, não somente dependem emocionalmente de seus pais, mas também estão sob a responsabilidade civil deles. 

Aqui também se inclui religiosos neófitos que, por razões diversas, submetem-se, irrefletida e, às vezes, cegamente, à orientação de instituições e dirigentes religiosos.
Nesse caso, a dependência não se dá só e predominantemente em termos de uma palavra objetiva do líder religioso, dizendo sim ou não a uma consulta sobre ir ou não a ajuntamento carnavalesco, mas também de toda uma construção de crenças desenvolvidas ao longo da caminhada que leva o crente a sentir-se inseguro, sobre se participar de ajuntamento de carnaval seria adequado ou compatível com as crenças abraçadas.

No meio protestante, a Bíblia - tida como única regra de fé e prática -, é usada de acordo com a personalidade de cada pessoa. Umas buscam textos bíblicos que reforcem a represália, outras, a liberação de desejos. Em outras palavras, os textos bíblicos são objetivamente os mesmos, mas o uso deles, a interpretação que se dá, tem a ver com as idiossincrasias de cada um.

Como sou pastor batista, daqueles que acreditam na competência do indivíduo, na liberdade de pensamento e de crença e são vigilantes na preservação de tais princípios históricos, não somente procuro desenvolver um ministério que facilite às pessoas serem capazes de alcançar a autonomia, mas oriento os que buscam minha ajuda a refletirem nisso que escrevi e assim decidir.

Se o sentimento for de insegurança, melhor é refletir um pouco mais, em vez de ferir a consciência, encher-se de sentimento de culpa e, até, adoecer (Rom 14.23; I cor 11.30).

E você, o que pensa disso?


PS.:  
1. Recomendo, também, a leitura do texto "Todas as coisa me são lícitas"

2. Escrevi esta reflexão ao som de Ivete Sangalo, que exatamente agora, 14h30, começa a despedir-se cantando “vai buscar Dalila” e de helicópteros que não param de sobrevoar meu telhado, acredita?

sábado, 8 de agosto de 2009

Dúvidas Bíblicas

From: xxxxx@xxx.com.br
To: xxxxxxx@hotmail.com
Subject: Preciso contar tambem com a sua ajuda.
Date: Mon, 3 Aug 2009 09:21:28 -0300


Pr. Edvar,

Constantemente encontramos pessoas querendo fazer provocações e graças a DEUS tenho conseguido superar estes obstáculos.


Hoje mais uma vez recebi este tipo de provocação.

É um colega de trabalho que sempre que recebe algum material deste tipo acaba repassando.


O pessoal se prende a costumes e hábitos de uma determinada época para tentar distorcer os registros de toda a Bíblia.


Gostaria da sua colaboração para poder responder com mais conhecimento.

Grata, xxxxx

DÚVIDAS BÍBLICAS

"Laura Schlessinger é conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos e tem um programa interativo que dá respostas e conselhos aos ouvintes que a chamam ao telefone.

Recentemente, perguntada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se trata de uma abominação, pois assim a Bíblia o afirma no livro de Levítico 18:22.

Um ouvinte então escreveu-lhe uma carta, cuja tradução vai a seguir.

"Querida Dra. Laura:

Muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segundo a Lei de Deus.

Eu mesmo tenho aprendido muito no seu programa de rádio e desejo compartilhar meus conhecimentos com o maior número de pessoas possível.

Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida eu me limito a lembrar-lhe que o livro de Levítico, no capítulo 18, verso 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma abominação. E ponto final.

Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente e sobre a forma de cumpri-las:

1) Gostaria de vender minha filha como serva, tal como indica o livro de Êxodo, 21:7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?

2) O livro de Levítico 25:44 estabelece que posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que a senhora poderia esclarecer esse ponto? Por que não posso possuir escravos canadenses?

3) Sei que não estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual ( Lev. 18:19, 20:18 etc. ). O problema que se coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas.

4) Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sábado. O livro de Êxodo 35:2 claramente estabelece que quem trabalha nos sábados deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?

5) No livro de Levítico 21:18-21 está estabelecido que uma pessoa não pode se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que eu preciso de óculos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% para que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?

6) A maioria dos meus amigos homens tem o cabelo bem cortado, muito embora isto esteja claramente proibido em Levítico 19:27. Como é que eles devem morrer?

7) Eu sei, graças a Levítico 11:6-8, que quem tocar a pele de um porco morto fica impuro.Acontece que eu jogo futebol americano, cujas bolas são feitas com pele de porco. Será que me será permitido continuar a jogar futebol americano se eu usar luvas?

8) Meu tio tem uma granja. Ele deixa de cumprir o que diz Levítico 19:19, pois planta dois tipos diferentes de sementes no mesmo campo, e também deixa de cumprir a sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes, a saber, algodão e poliéster. Além disso, ele passa o dia proferindo blasfêmias e se maldizendo. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-lo? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, qual se ja o de queimá-lo numa reunião privada, como se faz com um homem que dorme com a sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levítico 20:14)?

Sei que a senhora estudou estes assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda.

Obrigado novamente por recordar-nos que a Palavra de Deus é eterna e imutável."

Minha resposta


Em relação ao texto enviado, já o conhecia.
De fato, para quem adota uma postura literalista, diante da Bíblia, tal texto é um grande nó.
Entretanto, a postura literalista não é a única possível.
A tradição batista predominante defende que o objetivo da Bíblia é revelar que:
1. Deus criou a humanidade;
2. A humanidade rejeitou os caminhos de Deus;
3. Deus preparou um meio para reconciliar a humanidade consigo em Cristo;
4. Para isso Deus preparou um povo através do qual o Cristo viria.

A história deste povo se mistura com o projeto de Deus para a humanidade, daí também confundirmos a cultura judaica com o projeto de Deus.
Entretanto, o objetivo da Bíblia não é definir uma cultura e exigir que toda a humanidade a siga. Antes, o objetivo é revelar a história do amor de Deus pela humanidade revelada em Cristo.
A Bíblia revela este projeto, mas a cultura no qual ele se desenvolve apresenta virtudes e defeitos, como todas as culturas humanas.
Assim sendo, a leitura que fazemos da Bíblia deve ser, sobretudo, visando reconhecer o plano de Deus em Cristo e não reproduzir a cultura judaica.
Quanto a cultura judaica, presente na Bíblia, ela deve ser objeto de reflexão, pois tem muita coisa boa a nos dizer, mas também, pela mesma reflexão, devemos ser capazes de dizer não à parte que já foi superada pela própria revelação progressiva, nas Escrituras.
Assim, o texto enviado por seu amigo pode ser entendido não como um combate à Bíblia, mas a um certo tipo de hermenêutica (interpretação) que se caracteriza pelo literalismo que, infelizmente é muito forte hoje, pela influência do fundamentalismo de origem americana em nosso meio, mas não é a hermenêutica que historicamente predominou no protestantismo."

XXXXXX

Esta resposta não contempla em detalhes tudo o que penso sobre o assunto Bíblia, hermenêutica ou sexualidade, nem foi elaborada na forma de um texto, mas de uma conversa. Ela foi dada pensando no que seria, a meu ver, suficiente para ajudar a erigir uma construção teológica da caminhada de alguém que conheço. Para uma pessoa poderá ser "leite" demais; para outra, "carne" demais; para outra, ainda, "palha pura", como se dizia sob as mangueiras do seminário.



E você, qual seria a sua resposta? Pode publicá-la ou fazer suas críticas!

sábado, 1 de agosto de 2009

Rei Vitorioso

2 Samuel 8.1-15
“Reinou, pois, Davi sobre todo o Israel, e administrava a justiça e a eqüidade a todo o seu povo” (v.15).

Ninguém entra num empreendimento planejando ser derrotado. As definições do que seja vida vitoriosa podem ser diferentes, mas vencer é o que todos sempre desejam.

Pelos critérios materialistas de nosso dias, Jesus seria um derrotado. Não tinha onde reclinar a cabeça e ainda jovem foi vencido e crucificado numa cruz entre dois marginais. O fato, porém, é que ele foi vitorioso e não temos registro de alguém, como ele, que tenha sido tão bem sucedido naquilo que se propôs.

Davi experimentou derrotas pontuais em sua trajetória. Entretanto, no balanço final de sua vida foi considerado vitorioso, tornou-se referência para o povo de Israel e muitas outras nações e, o que é mais importante, foi considerado um homem segundo o coração de Deus.

Estudando sua história percebemos que ele foi um bom administrador. Em seu governo consolidou-se a conquista da terra prometida e ainda lançou-se bases para o progresso alcançado no reinado de Salomão. Sua vitória, porém, não se deveu apenas à sua competência técnico-política como administrador, mas aos valores espirituais que cultivava. Um deles era a justiça.

Sem que um senso de justiça norteie nossa vida não há como sermos bem sucedido. Alguém pode até sentir-se vitorioso agindo injustamente, mas colherá os resultados maléficos de tal postura.

Um desses resultados nocivos acaba sendo sentido na cama. Quem não age com justiça, não consegue dormir em paz. No mínimo tem um injustiçado com que se preocupar. E nada evidencia mais uma derrota na vida do que colocar a cabeça no travesseiro e não poder desfrutar um sono tranquilo por estar em falta com Deus.

(Texto produzido para a Revista Manancial, da UFMBB e publicado na 1ª quinzena de maio)

Mexendo com seu boldo (2004)

Quando você entra num templo ou numa sala de um mall, onde pessoas se reúnem para fins religiosos, seja para meditação espiritual, cerimônia fúnebre, casamento, formatura ou mesmo uma celebração cotidiana – culto, missa ou sei lá o que - tenha certeza absoluta de que, para que aquele espaço estivesse à sua disposição, alguém tirou dinheiro do bolso e investiu ali; alguém pagou a aquisição ou o aluguel, sua limpeza e conservação, energia elétrica, água, etc. etc. etc. E mais: pagou não somente as despesas patrimoniais, mas também as organizacionais. Tempo e conhecimento foram investidos para que as coisas acontecessem. Quanto maior for a exigência de tempo e conhecimento dos organizadores, maiores são os investimentos. Portanto, afirmar que a entrada é gratuita, sempre é relativo. Pode ser gratuita para o convidado, mas alguém pagou as despesas.

Há muito trabalho voluntário nas instituições religiosas, verdadeiras manifestações de amor daqueles que acreditam na importância do que realizam, mas há, também, trabalhos que exigem tamanha dedicação de tempo, conhecimento e ação específicos que, sem investir em algúem para fazê-lo, não aconteceria. Assim, a diferença entre o trabalho religioso voluntário e o remunerado, não está no amor de quem o faz, mas nas exigências de tempo requeridas. Portanto, gostando ou não, também as atividades religiosas têm um custo financeiro. Se nada se faz sem dinheiro, em qualquer lugar do planeta, que diremos em sociedades capitalistas nas quais “time” - e tudo mais – “is money”?

Nós brasileiros não aprendemos a contribuir generosa e regularmente para igrejas porque nossa cultura religiosa não é democrática. O sistema de governo da religião dominante no Brasil excluiu, durante séculos, a participação decisória dos fiéis a ela agregados. Suas decisões, tomadas de cima para baixo, e suas finanças administradas sem participação comunitária, criaram uma religiosidade paternalista na qual as pessoas se acostumaram a usufruir dos serviços, sem tomar conhecimento do custo e origem dos recursos. Essa ausência de participação nas instäncias administrativas, gerou religiosos depreocupados e, pior, contrários até, ao levantamento de sustento, comum à cultura das igrejas evangélicas. (Durante séculos, essa religião dominante beneficiou-se, legal mas incorretamente, da condição de “Igreja Oficial”, mantendo-se, também, com dinheiro de cidadãos protestantes, de outras religiões ou sem religião, sob o nome de dinheiro público).

O triste é que, na contramão e negando a história, cresce o número de igrejas com a marca indevida de “Evangélica” que excluem os fiéis da administração financeira, deixando todo o dinheiro nas mãos do pastor, bispo, apóstolo, vice-deus... Isso ocorre, em parte, porque há pessoas que devolvem seus dízimos ou dão suas ofertas, mas preferem não tomar conhecimento de como são aplicados, deixando isso por conta da “igreja”. A questão é: quem é essa “igreja”? Aqui entra, outra vez, um problema da cultura religiosa brasileira. Nela, a palavra igreja é associada a templo ou uma cúpula. Originalmente, porém, igreja é povo e não templo ou cúpula. Portanto, sua administração deve ser, democratica, como têm feito, ao longo de séculos, igrejas batistas, presbiterianas ou congregacionais, por exemplo.

Os líderes das igrejas deveriam ser os maiores interessados na administração transparente e democrática das finanças, primeiro, porque isso reflete melhor a concepção bíblico-teológica do sacerdócio individual do cristão e, depois, porque é um meio de protegerem-se de qualquer difamação,afinal, onde as coisas não são claras, a fumaça pode intoxicar.

Ninguém deve financiar uma instituição religiosa movido por chantagem, medo de penalidades espirituais ou como investimento particular à espera de retorno. Nem deve pensar que todas as igrejas agem como empresa visando lucro financeiro. Ainda há muitas igrejas que não se contaminaram com a paranóia do ter; ainda há pessoas que cultivam o altruismo e o senso de coletividade.

Não deixe de participar de uma igreja se estiver em crise financeira. Pastores que nos olham com um cifrão nos olhos são exceção. Lembre-se de que o melhor investimento é o que fazemos na vida espiritual, pois, como disse Jesus, “ a traça e a ferrugem não destroem e os ladrões não arrombam nem furtam” (Mt. 6.19-21). Seus efeitos, portanto, são eternos!

Vale lembrar, pra terminar, que, nos Estados Unidos, dinheiro dado às igrejas pode ser descontado na declaração de Impostos. Sendo assim, no início do ano, exerça seu direito de solicitar à Instituição para a qual fez doações, uma declaração do total contribuído, para apresentar ao “leão” norte-americano.

A identidade batista: quatro frágeis liberdades (2005)

A publicação, em português, do livro “The baptist Indentity: four Fragile Freedoms”, de Walter B. Shurden, pelo MLK-B Centro Martin Luther King, foi uma das boas coisas que aconteceu neste Mês da Denominação. Soa como bálsamo saber que os batistas brasileiros poderão ter acesso a um material que nos remete a um dos princípios mais caros de sua história que é o da liberdade.


Escrito de maneira simples e em linguagem acessível a pessoas de formação mediana, o livro tem o mérito de, além das reflexões em si feitas pelo autor, trazer como anexos, oito documentos que apontam para nossa identidade histórica, destacando suas quatro frágeis liberdades.


A primeira seria a liberdade da Bíblia. Partindo do reconhecimento da autoridade dos textos bíblicos, o autor demonstra o gene ecumênico de nossa denominação, destacando que os batistas não foram os primeiros a crerem, por exemplo, na autoridade das Escrituras, na salvação somente pela graça, no sacerdócio dos crentes, na igreja formada pelos que crêem ou mesmo na liberdade religiosa. Essas são crenças foram herdadas de outros segmentos cristãos.


Após isso, caracteriza a liberdade da bíblia: liberdade “sob” (relação com o Senhorio de Jesus), “para” (referente ao “propósito de viver em contínua obediência à Palavra de Deus”), “perante” (a supremacia da Bíblia perante outras autoridades) e “de” (referente a questão da interpretação).


A segunda liberdade seria a individual. Neste aspecto, reafirma a liberdade da escolha individual e oferece suas bases teológicas. Mostra como, na teologia medieval do Catolicismo Romano, a graça estava centrada na igreja e como Lutero disse não a isso, centralizando-a no indivíduo. Trabalha os temas conversão por convicção e batismo para crentes, mostrando, em relação a este, como a preocupação inicial dos batistas não era com o modo do batismo, mas com a pessoa que seria batizada.


A terceira liberdade seria a da Igreja. Aqui, o autor trabalha, primeiro, a liberdade para seguir voluntariamente a Cristo. Num contexto em que o individuo fazia parte da igreja por herança, reafirma que a igreja deve lutar para que sua membrezia seja composta de pessoas que escolheram livremente seguir a Jesus. Depois, trabalha a liberdade da igreja de se autogovernar. Os membros têm a responsabilidade de participar e proteger o direito democrático. Em terceiro lugar, fala da liberdade da igreja para cultuar criativamente, de acordo com sua consciência. Finalmente, expõe a idéia de liberdade para ministrar responsavelmente. Diz o autor que “nenhum pastor tem autoridade oficial ou constituída para ‘governar’ a vida de ninguém numa congregação batista”, uma vez que todos os membros são sacerdotes diante de Deus.


Para terminar, se refere à liberdade religiosa. No contexto americano em que há proeminentes líderes batistas defendendo o estabelecimento de um Estado legal e “fundamentalistamente” cristão, dizendo que “a idéia da separação entre Igreja e Estado foi invenção da cabeça de algum ímpio”, a bandeira da liberdade religiosa precisa voltar a ser hasteada, defende o autor.
Concluindo o texto, afirma que “a identidade batista histórica, portanto, tem se delineado primeiramente a partir da liberdade ao invés do controle; do voluntarismo ao invés da coerção; da individualidade ao invés de uma ‘mentalidade pacote’; da religião pessoal ao invés da religião por procuração e da diversidade ao invés da uniformidade”.


Óbvio que neste espaço só é possível oferecer um aperitivo. Espero que cada batista brasileiro, especialmente os pastores, tenham acesso a este bom material. Interessados devem fazer contato com o Profº Raimundo Barreto, do STBNE (raimundob@yahoo.com) ou Profº Benedito Bezerra do STBNB (beneditobezerra@hotmail.com)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Quando o muito não é o melhor (2004)

“Afirmo-lhes que esta viúva pobre colocou na caixa de ofertas mais do que todos os outros. Todos deram do que lhes sobrava; mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que possuia para viver” (Mc. 12.43-44)

No sistema de valores do Reino de Deus, muito não é sinônimo de melhor. O exemplo mais claro disso é o da comparação feita por Jesus entre a oferta da viuva pobre e a dos fariseus. Ao observar que eles davam muito e ela quase nada, Jesus destacou que ela dava mais do que eles. Usando o sistema da proporcionalidade, ele esclareceu que enquanto eles davam das sobras, ela dava tudo que possuia.

O muito deles era suficiente para alcançar seus objetivos: serem vistos pelos homens. E como a maioria olha o que aparenta – o valor dado – e não o que representa – o esforço despreendido -, eles passavam a vida toda sendo elogiados pelas grandes ofertas que, na verdade, não representavam qualquer esforço, pois, para eles, eram tão somente sobras.

O pouco dela não era valorizado pelas pessoas, afinal, o que poderia ser comprado com o que ela dava? E se ela tinha tão pouco, nem mesmo interessava ser amigo dela afinal, “pobre é odiado até pelo seu vizinho; mas os amigos dos ricos são muitos” (Pv. 14.20). Com tão pouco ela não tinha prestígio e muito menos poder comunitário.

Imagino, portanto, que ao contribuir ela o fazia sem chamar atenção e, colocada a oferta no gasofilácio, recolhia-se a sua insignificância social. Os fariseus, provavelmente, não. Tiravam todo o proveito que a oportunidade de estar diante da plateia lhes proporcionava. Esse comportamento era tão comum entre eles que merecia destaque nas críticas de Jesus.

Apesar de usar o raciocinio matemático, penso que Jesus não estava pensando matematicamente, ao fazer a comparação. Na verdade ele quiz chamar a atenção dos discípulos para o esforço de cada um.

Os fariseus não faziam esforço porque seus propósitos não eram o engrandecimento do Reino. Eles não visualizavam as necessidades da imensa população que precisava ser alcançada pelo amor de Deus. Seus objetivos eram, tão somente, ser vistos pelos homens. O valor dedicado era calculado na proporção exata, necessária ao cumprimento dessa meta. Alcançada a meta, findavam-se as preocupações.

A viuva, provavelmente, não. Talvez ela enxergasse as necessidades do Reino, não as suas próprias, e as multidões que seriam alcançadas com sua cooperação. E, movida por esse sentimento, dar tudo o que possuia, pensava ela, era o mínimo que podia fazer, pois as necessidades da causa sempre são maiores do que a disponibilidade de recursos financeiros.

A virtude, portanto, aprendemos na história, não está no dar pouco ou muito, mas na visão que se tem e no esforço que se faz ao cooperar. Esse princípio pode ser aplicado não somente a valores financeiros, mas também ao tempo que investimos, às funções que ocupamos e às atividades que desenvolvemos na igreja. O muito, pode não ter valor algum se as motivações não forem apropriadas, simplesmente porque nem sempre muito é sinônimo de melhor.

Juizo final (2004)

Creio que um dia cada pessoa prestará contas de sua vida a Deus. Não creio assim somente porque está escrito na Bíblia. Creio também assim porque, além de uma necessidade, o Juízo Final faz parte de um sentimento geral, percebido em diversas religiões e textos filosóficos.

Não consigo entender a vida como um absurdo, como obra do acaso. São tão complexas suas estruturas – seja em termos químicos, físicos, biológicos, etc. - que se tivesse sido obra do acaso, certamente adorado seria o “acaso”! Por crer que a existência é fruto de elaboração divina, creio, também, que ela tem uma finalidade e que a participação humana nessa finalidade será julgada.

Não sou neurótico em relação ao Juízo. Não durmo e acordo pensando nele. Quase nunca falo sobre isso à igreja. É que desde que depositei minha fé em Jesus – expressão de Deus como Salvador – o fiz por compreender que salvação é resposta humana à graça divina e não medo de inferno. Enfatizo, então, a graça divina.

Viver sob a graça de Deus faz com que não me preocupe como céu ou inferno. Simplesmente curto, diariamente, minha comunhão interior com o criador, tentando viver em amor. Vivendo em amor, estou convencido de que estou dentro dos parâmetros divinos. Vivendo em amor, vislumbro o céu!

No Juízo, Deus não perguntará se entramos na briga pró ou contra aborto, casamento homosexual, oração em escola pública ou conceito teológico adotado em relação à Bíblia. A questão será: nossas ações ou omissões foram expressão de amor? Segundo Jesus, seremos indagados se demos de comer aos famintos ou de beber aos sedentos; se acolhemos estrangeiros com dignidade; se ajudamos a vestir despidos ou se fomos solidários com enfermos (Mt. 25.31-46).

Destesto pensar em Juízo Final de forma chantagista. Tenho horror à pedagogia do medo. O sentimento de medo tem seu papel na estrutura decisória humana, mas jamais deve ser usado para chantagear o agir das pessoas. João diz-nos que “todo aquele que permance no amor permancece em Deus e Deus nele. Dessa forma o amor está aperfeiçoaodo entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor” (I Jo. 4.17-18)

Então, usar o Juízo Final como chantagem é fazer com que pessoas ajam movidas pelo medo. Essa é uma pedagogia doentia. Pelo contrário, as pessoas devem agir por razões positivas. O amor é a razão positiva para nossa conduta.

As Escrituras dizem que “o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o Juizo” (Hebreus 9.27). Isso é um alerta para incrédulos e referencial doutrinário para a igreja. Sobretudo, porém, é indicativo de vida, pois precede a afirmação de que Jesus foi sacrificado para perdoar nossos pecados e oferecer-nos salvação.

Creio que no dia do Juizo haverá muita surpresa. Muito religioso metido, orgulhoso, que age como juíz da vida alheia, se surpreenderá com vereditos de Deus em relação à pessoas que ele condenava em seu dia-a-dia. Se surpreenderá, porque apesar de ser “religiosamente religioso”, não aprendeu que “toda a lei se resume num só mandamento: ‘ame o seu próximo como a si mesmo’”! (Gálatas 5.14).

Crer que cada um prestará contas de si mesmo a Deus, me faz preferir compartilhar, à tentar impor, a fé. Gosto de compartilhar a fé e entendo isso como meu dever. Se isso ajudar alguém a viver em comunhão com Deus e em amor com seu semelhante, terei cumprido minha missão.

E você, o que pensa do Juízo Final? Ele mexe com sua vida hoje?