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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Reunião do Conselho Geral da CBB - Área teológica

A educação teológica ocupou mais tempo – uma manhã inteira – devido ao fato de estarem nesta área os únicos problemas de natureza financeira da Convenção. Somente o STBSB e STBNB estão apresentando Índice de Liquidez negativo.

Os seminários são, a meu ver, as áreas mais difíceis de serem administradas das organizações denominacionais, pelas seguintes razões:

1. Não contam com a ajuda das igrejas através de ofertas, exceto um percentual designado do Plano Cooperativo;

2. Seus executivos não contam com dia especial de oferta, nem têm a abertura, nas igrejas, que os executivos da área missionária, por exemplo, têm;

3. Não dispõem de receitas de venda de livros ou revistas;

4. Não contam com legislação que os proteja dos alunos inadimplentes;

5. Não contam com o empenho das igrejas, em termos de ética, junto aos alunos que elas enviam e que não cumprem com seus deveres;

6. Não podem fazer um trabalho agressivo de marketing;
7. Enfrentam uma concorrência predadora dentro da própria Convenção;
8. Funcionam em imensas propriedades e em prédios antigos cujos custos de manutenção são elevados;
9. Estão sempre no centro de discussões, por razões de natureza política, em função da diversidade de pensamentos teológicos e de expectativas dentro da CBB;
10. Não são - os seminários - devidamente valorizados por parcela significativa dos batistas que entendem que educação teológica é desnecessária;
11. Pela natureza de sua atividade, é um laboratório crítico, um espaço de reflexão. Isso faz com que a relação administrador, funcionários, professores e alunos torne-se uma tarefa desafiadora;
12. Não contam com noite especial nas assembléias anuais da CBB para sensibilizar lideranças.

Um GT administrando o STBSB e STBNB

Visando equacionar as finanças do STBNB e STBSB, o conselho elegeu um GT, formado pela diretoria + Pr. Fernando Brandão (JMN), Pr. Davidson (JMN), Pr. Sócrates (CG), irmãos Almir (Juerp) e Luis de Barros (JMM).

No meu não modesto ponto de vista, esse GT não poderia fazer mais do que os atuais dirigentes estão fazendo, pois o problema dos Seminários hoje não é de gestão, mas sistêmico. A gestão pode minimizar os efeitos predadores do sistema de educação teológica dos batistas brasileiros, mas não pode solucioná-lo, pois isso não depende da decisão isolada de uma pessoa, mas de coragem política da liderança, para adotar medidas de mudança radical no atual paradigma.

A vantagem que o GT tem sobre os atuais dirigentes é que a ele foi dado poderes que os atuais dirigentes não têm. Estou destacando isso porque como nossa cultura religiosa gira em torno de um salvador – Jesus – projetamos isso para nossas relações em geral. Assim, temos muita facilidade para eleger salvadores. Uma instituição está mal, então mudamos o técnico e, se ela melhorar, passamos rápida e irrefletidamente a louvá-lo. Sequer paramos para pensar nas diferentes condições que, nessas transições, são oferecidas aos que assumem.

É o caso do GT.

Creio, entretanto, que com os poderes dados ao GT, uma solução de curto prazo poderá ser dada. Essa solução será pelo caminho da transformação de patrimônio em dinheiro ou da transferência de dinheiro de outras áreas – sob a denominação de empréstimo – para os seminários. Como, entretanto, o problema é muito mais sistêmico do que de gestão, se apenas injetarmos dinheiro, estaremos empurrando o problema da explosão para frente.

Proposta para os seminários da CBB

O documento preparado pelo Comitê de Educação Teológica, cujo relator é o Pr. Ágabo Borges, apresentou parecer contendo 8 páginas, tratando dos seguintes pontos:

I. A importância e o papel dos Seminários da denominação;

II. Análise conjuntural da “crise” dos seminários administrados pela CBB

2.1. Modelo de difícil sustentabilidade;
2.2. Concorrência interna;
2.3. Deficiência na gestão, falta de qualificação;

III. Proposta de solução

3.1. Redefinir o conceito de “Seminário da denominação batista”
3.2. Definir a vocação dos seminários administrados pela CBB;
3.3. Determinar a adoção de um modelo de gestão sustentável
3.3.1. Valor mínimo operacional;
3.3.2. Gestão responsável;
3.3.3. Política de subsídios com capacitação de bolsas de estudo;
3.3.4. Reengenharia adminitrativa;

IV. Proposta de implementação da gestão da dívida

4.1. Levantar o endividamento;
4.2. Plano de liquidação;

V. Realizar gestão patrimonial com qualificação e destinação de uso

VI. Construir e aplicar um programa de marketing de relacionamento

sábado, 1 de agosto de 2009

A paixão de Cristo (2004)

Depois de dez dias da estréia, fui aumentar a conta bancária de Gibson em 7,75 dólares, além dos impostos de 0,44 cents para o governo americano. Ninguém é de ferro! A estratégia de marketing foi tão boa que nem ateus – que não é o meu caso - resistiram. Por isso, fala-se em faturamento cinco vezes maior do que os 25 milhões de dólares investidos.

Não estou dizendo que ele fez o filme visando lucro. Isso não precisa ser dito num pais em que se respira dinheiro e lucro não é sinônimo de pecado. Aqui ninguém é criticado por ganhar dinheiro. Pelo contrário, quanto mais acumular, mais prestígio terá.

O filme inicia com Jesus esmagando a cabeça de uma serpente no Getsêmani. Com isso, deixa claro, de cara, que nEle se cumpriu a promessa registrada em Gênesis 3:15. Sob esse pressuposto, prossegue enfatizando aquilo que tem sido anunciado historicamente nas igrejas cristãs: o contraste entre as extremas maldade humana e bondade divina.

Senti-me emocionado na cena em que Pedro nega a Jesus. As reações emocionais de Maria, porém, me desapontaram. Talvez, no afã de apresentá-la como uma mulher forte, sua atuação ficou aquém da que seria comum em mães diante do sofrimento do filho.

Judas foi premiado. Tendo sua crise de consciência demonstrada em pelo menos 4 ou 5 cenas fortíssimas, parece pagar ali seu pecado da traição. Doravante, quem sabe, será menos surrado no sábado de aleluia.

Pilatos, criticado historicamente por “lavar as mãos”, ganhou uma oportunidade de defender-se, apresentando suas razões de forma um tanto comovente.

O “Santo Sudário”, mais conhecido como peça de museu e de controvérsias históricas, ganhou cores e vida. Teria surgido das mãos de uma bela e bondosa jovem.

Uma cena de conteúdo duvidoso é a que um corvo pica o ladrão crucificado que zombou de Jesus. Simbolizaria o diabo? Não, pois eram aliados. Simbolizaria Deus? Não, pois Aquele que perdoa os que “não sabem o que fazem”, não agrediria o infeliz, afinal, ladrões não são piores do que líderes religiosos sem escrúpulos.

O momento em que o carpinteiro Jesus brinca, jogando água no rosto de Maria, após inovar fabricando uma mesa, repassa uma idéia positiva, menos medieval do Cristo, infelizmente ausente dos púlpitos eclesiásticos e do imaginário popular.

Seria o filme, um incentivo ao anti-semitismo? Não! Talvez estimule o sentimento anti-religião institucionalizada, pois a postura dos líderes religiosos judeus é nojenta, como nojentos são todos aqueles que querem impor impiedosamente sua crenças. Seria capaz de motivar pessoas a serem cristãs? Não! Pode sim, suscitar debates e abrir espaços para o compartilhar da fé. Porém, não passaria disso, pois o que se vê é um festival de barbáries contra Jesus, desproporcional à acusação e incompatível com o bom senso, mesmo em tempos remotos.

A violência pode gerar pena de Jesus, mas jamais serviria de ponte, para uma reflexão existencial ou revisão de valores e crenças. Violência produz revolta contra os violentos, e não amor pelo violentado ou compromisso com valores e causas defendidos por ele. O confronto entre os ensinos do Mestre e o sofrimento imposto, isso sim, poderia surtir efeito, mas recebeu pouca ênfase.

Num pais em que o fundamentalismo é politicamente ativo e ativamente político, Gibson acertou na fórmula. Aproximou sua versão dos textos canonizados pelo catolicismo e defendidos com unhas e dentes pelo protestantismo; incluiu poucos conceitos apócrifos; declarou-se inspirado pelo Espírito Santo na produção e imbuido de uma missão evangelizadora; respondeu, antes que alguém perguntasse, que não era anti-semita e anunciou que era sua, a mão que aparece segurando o braço de Jesus na cena em que é cravado na cruz, incluindo-se assim, disse, como culpado pela crucificação.

Se as intenções de Gibson foram espirituais, não cabe a nós julgar. Mas que ficou muito mais rico, isso ninguém pode negar!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Meu problema com livros (2005)

Eis meu problema: sempre que estou diante de um livro, não consigo abrí-lo sem primeiro saber qual é a editora.

Até já me disseram que, primeiramente, deveria ler a orelha, se tiver. Nela deveriam estar informações essenciais sobre a obra e seu autor. Depois, deveria dar uma passada de olhos pelo índice para verificar melhor os tópicos e assim ter uma idéia de como o assunto seria abordado. Porém, parece instintivo: basta estar diante de um para os olhos procurarem quem o editou.

Isso virou uma espécie de fixação. Se a editora for desconhecida, tento imediatamente saber quem são seus dirigentes. Se for conhecida e dependendo de qual seja, começo a me arrepiar só de imaginar aquele objeto nas mãos. Pode dizer que isto é preconceito ou até paranóia. Já tenho pensando muito nisso. Mas algumas razões geraram em mim tal reação.

A convivência com gente estudiosa foi me mostrando que hoje, especialmente no mundo religioso, lançamento de livro acontece ou visando lucro ou veiculação política de determinada corrente de pensamento. Obras que tentam contribuir para clarear algum tipo de assunto, publicada por editora evangélica, é uma raridade. Afinal clarear mais o que? Tudo já está claro. Basta reproduzir o que já está definido pelas denominações ou seus representantes!

Antigamente, veicular pensamento viria em primeiro lugar. Hoje, idéias estão em segundo plano, exceto aquelas que favorecem o enriquecimento através da “proclamação da palavra” ou combatem os que combatem a má distribuição de renda do sistema sócio-econômico vigente. Mas isso é outra história.

Quem procura literatura pelo simples prazer de ler, raramente vai encontrar em editora religiosa. É que, mesmo livros aparentemente interessantes, apenas a história e os personagens mudam. Basta conhecer a editora e já se sabe que a ideologia do sistema doutrinário e moral ao qual o autor se deixou pertencer vai transparecer. Assim, se o que se espera é relaxar, esqueça: o tempo todo sua cabeça terá que decidir se concorda ou não com o autor.

Costumo dar atenção para livros de produção editorial independente. São independentes porque ou o autor escreve muito mal ou seus pensamentos incomodam tanto que não há quem queira divulgá-los. Portanto, basta uma rápida olhada para definir se vale a pena ou não comprá-lo. Editoras cujas marcas são desconhecidas também produzem coisas interessantes para clarear assuntos.

Pior, porém, é quando o livro é publicação de editora que, por pertencer à instituição denominacional democrática, necessita acariciar politicamente pessoas a fim de que seus dirigentes trabalhem em paz. Em geral, respeitadas as devidas exceções, o perfil dos autores, em termos de influência denominacional, indica claramente que critério foi adotado na definição da publicação.

Diante disso, o mito de que ler é muito importante torna-se claramente relativo. Depende da editora que o publicou. Dependendo da editora, ler pode ser o caminho mais curto para “emburrecer-se”.

Solidariedade (2004)

Viajava certa vez do Recife para Fortaleza quando, por volta das 7 pm, o carro apresentou problemas. Faltavam 40 quilómetros para chegarmos à capital cearense e já estava escurecendo. Depois de alguns minutos na pista, pára um caminhão e o motorista nos oferece ajuda. Rebocou nosso carro até um eletrecista que fez os reparos necessários para continuarmos a viagem. Ao perguntar ao caminhoneiro quanto lhe devíamos ele respondeu: “não é nada. Basta fazer como eu fiz, quando vir alguém na mesma situação”.

Assim que chegamos à Flórida, nossa filha voltava pra casa pela Powerline e teve a infelicidade de bater numa pedra, baixando dois pneus do carro. Encostou o veículo num mall, pediu a um senhor que lhe emprestasse o celular e, ao falar comigo, começou a chorar. O dono do celular que inicialmente conversou com ela em inglês, era brasileiro. Ouvindo-a falar comigo em português, não só procurou acalmá-la, mas também consertou as rodas do carro. Quando ela falou em pagamento ele rejeitou e justificou: “já fui ajudado por muita gente nesta vida”.

Quando pastoreava em Boa Viagem, Recife, fui procurado por uma jovem que sofria de hidrose. Suas mãos eram desconfortavelmente úmidas e frias. Ela descobriu um médico em Belo Horizonte que poderia curá-la, mas não dispunha de todo dinheiro necessário para viagem e despesas médico-hospitalares. A igreja levantou uma oferta, completando o que faltava. A cirurgia foi feita com sucesso e o problema resolvido. Meses depois ela se casou. Em seu último domingo em nossoa igreja, antes de mudar-se, deixou uma oferta destinada à solidariedade, em valor igual ao que havia recebido, quando de sua cirurgia. Ela recebeu ajuda e, quando pôde, fez a mesma coisa.

Acho interessante a profissionalização do bem ao próximo. De maneira inteligente e organizada, existem muitas instituições ajudando pessoas necessitadas. Elas devem ser bem-vindas num mundo em que o verbo acumular fala mais alto do que o dividir. Merece reflexão, entretanto, a motivação. Há igrejas que usam a solidariedade como isca para atrair pessoas. Há empresas que fazem o bem somente como estratégia de marketing. Há empresários que investem em causas sociais apenas para descomprimir a pressão de um sistema cuja lógica conduz, inevitavelmente, à disparidades sociais.

Na solidariedade, porém, o foco da ação não gira em torno dos benefícios para quem dá, mas para quem recebe.

Reconheço o papel de qualquer iniciativa profissional, eticamente fundamentada, que visa ajudar ao próximo, mas valorizo muito iniciativas domésticas, de pessoas que simplesmente contribuem com um quilo disso ou daquilo para se formar cestas básicas em prol de empobrecidos. Parecem mais humanizantes pelo calor humano que transmitem.

Nem sempre podemos dizer sim aos pedidos de ajuda. Por muitos anos diretor do Colégio Americano Batista, no Recife, pude acompanhar o drama vivido por famílias que queriam oferecer ensino de qualidade aos filhos, mas as condições econômicas não permitiam. As solicitações de bolsa ou perdão de dívidas eram infinitas numa escola com milhares de alunos. Quando podia dizer sim, dizia sim; quando não, não. Para aqueles fui anjo, para estes, também, mas mal.

No desejo de ser solidários corremos riscos de ser enganados por aproveitadores. Por isso, ao nos propormos a ajudar pessoas, devemos usar cérebro e coração. Conversava com um diretor da cúpula nacional de um grande banco privado brasileiro que disse ter chegado onde chegou, porque adotou a seguinte filosofia: “sempre que uma pessoa estava do outro lado da mesa pedindo dinheiro emprestado, para mim ela queria me roubar até que provasse o contrário”. Não precisamos chegar a tanto, mas perspicácia e “canja de galinha” não fazem mal a ninguém.

Pastores ou executivos? (2004)

Um reflexão sobre o conflito entre economia e espiritualidade na igreja


O pastorado está sendo contaminado e engolido pela economia da religião. Evidência disso é a centralização da atenção ministerial em números, estatísticas e megalomania patrimonial. Aumentar a qualquer preço a quantidade de clientes nos cultos é a meta prioritária, sendo secundário se, no dia-a-dia, tais pessoas continuam vivendo na UTI da existência.

Diante disso um novo perfil de pastor está sendo exigido: o de especialista em propaganda e venda de promessas vãs. Pastores preparados para apascentar, que usa cajado e vara, com inteligência, conhecimento e amor, em favor da libertação das pessoas têm poucas chances de serem requisitados neste novo mercado eclesiástico.

Nos templos deste novo mercado, os discursos e celebrações são aparentemente libertadores, pela catarse emocional proporcionada, mas, de fato, são verdadeiros “afeganistões” de ópio. O discurso pseudo-missionário de “povoar o céu” é nocivo, na medida em que é desprovido de métodos e motivações espirituais. (Por favor, não venham com jargões, dizendo que o que importa é que o evangelho seja pregado, descontextualizando as palavras paulinas!)

Quando necessitam de pastor, igrejas do neoliberalismo religioso usam “critérios claramente empresariais”, como escreveu Rubem Alves (Dogmatismo e Tolerância, Ed. Paulinas, SP, 1982). Tais critérios visam selecionar, no mercado, aqueles que demonstram ser mais capazes na condução dos negócios da igreja.

Ao permitir que a função ministerial seja transformada na de um empresário da fé, o pastor se desqualifica para excercer sua vocação espiritual e minimiza sua capacidade de oferecer respostas adequadas para problemas das demais dimensões da vida. Então, diante dos crescentes e complicados problemas humanos, o uso de respostas superficiais - ação demoníaca para tudo, por exemplo – torna-se cada vez mais comum.

Alguns pastores entram nessa “roda viva” sem perceber que suas ações são mais econômicas do que espirituais. Cedendo à pressão no sentido de apresentarem resultados relativos a aumento de adeptos, templos, congregações ou dinheiro, deixam em segundo plano a missão de ajudar pessoas à administrarem suas vidas de tal forma que priorizem o cultivo da espiritualidade e manifestações de solidariedade.

Não defendo que pastores devem virar eremitas ou se trancarem num mosteiro. A idéia é que tenhamos clareza das diferenças entre Pastor e Executivo, a fim de que não nos deixemos pisotear pelo rolo compressor da economia. Devemos nos capacitar para interagir com todas as dimensões da vida, sem perder de vista o eixo em torno do qual gira nossa atividade.

Pastores precisam de mais tempo para oração, meditação bíblica e reflexão. Para oração, porque temos muito a dizer a Deus a respeito do que se passa em nossas vidas, famílias, igrejas e comunidades. Meditação bíblica, porque não há na face da terra coletânia inspirada e tão rica de textos que registrem tantas e tão diferenciadas experiêncais humanas com Deus. Reflexão, porque na avaliação crítica do que praticamos, dizemos e lemos está a chave para modificarmos a realidade interna e externa de nossas vidas.

Esse tempo, aos olhos dos economistas da religião é improdutivo. Imaginem: enquanto os membros da igreja ganham o pão de cada dia através da produção de bens e serviços, o pastor trabalha no campo da espiritualidade, isolando-se num escritório, usando parte do tempo para ler, orar e meditar. Isso, para supervisores da linha de produção da fé é vagabundagem, é vida fácil! Trabalho mesmo, dizem, é o deles que resulta em produção material ou aumento de capital.

Levantar a voz em defesa de igrejas caracterizadas por espiritualidade não empresarial é um imperativo se quizermos ajudar a reduzir a massa de infelizes, sufocados dentro das paredes da religião. Do contrário, em vez de libertação, seremos agentes de enganação, exploração e opressão. Por isso, é fundamental diferenciarmos atividades espirituais de econômicas em nossa ação pastoral.

Sucesso sem vida (2003)

Só há uma alternativa à vida sem fracasso: é o sucesso sem vida” (Paul Tillich)

O professor Merval Rosa, muito digno reitor interino do STBNB (vinte anos depois do desejo dominante na comunidade seminarial), disse certa vez, seriamente, sorrindo, que sabia o caminho do sucesso na denominação, mas preferia não trilhar por ele. Ele não nos revelou o caminho, por isso perguntávamos: que caminho seria esse? Hoje, depois de algumas décadas de participação ativa em todos os níveis de decisão, na estrutura denominacional, penso ter descoberto algumas pistas e passo a “recomendá-las” àqueles que almejam sucesso, em detrimento de preciosos valores do Reino de Deus.


1. Abuse da expressão “é/não é bíblico”. Fale de música bíblica, ainda que não existam partituras delas; fale de culto bíblico, ainda que não existam esboços de liturgia na Bíblia; fale de estrutura eclesiástica bíblica, ainda que a igreja de então, em fase embrionária, era mais um movimento. Sempre que precisar combater pensamentos divergentes, especialmente diante de um público evangélico, diga que o pensamento do outro não é – abracadabra! – bíblico. Exagere! Diante dessa expressão, a razão, o senso crítico, dá lugar ao respeito místico por sua pessoa. Assim, além de dominar facilmente os incautos, você passa a imagem de que é espiritual e seu “Ibope” sobe;


2. Nunca dê sinais de que está em dúvida ou de que não sabe. “O diabo é o pai da dúvida” e você, logicamente, não deve ser identificado como filho dele. Além disso, dúvida é sinal de insegurança, fraqueza e pastores, especialmente, devem sempre fazer de conta que são seguros, fortes e imbatíveis;


3. Nos plenários de Assembléias Convencionais, evite aproximar-se do microfone, exceto para manifestar-se sobre o óbvio, sobre temas que não são polêmicos. Se tiver que usar da palavra, perceba primeiro a tendência da maioria e siga com ela! Se não acredita nessa “dica”, passe a observar a postura de alguns “presidenciáveis” bons de urna;


4. Sempre que surgir oportunidade pública, reafirme posturas tradicionais (oriundas de Deus se manifestando como Jesus). Evite sinais de carismatismo (oriundos de Deus se manifestando como Espírito Santo) ou de liberalismo (oriundos de Deus se manifestando como criador);


5. Descubra o que os líderes estão combatendo ou apoiando e entre na luta... ao lado deles. Descubra o que eles pensam, em que crêem e afine-se a eles ou então, faça exatamente o oposto para destacar-se no outro extremo, na esperança de que, um dia, talvez, o povo se canse da situação e resolva dar uma oportunidade à oposição - como ao Presidente Lula - e você chegará ao topo;


6. Não torne público seus pensamentos. Isso cria oposição. Guarde seus pensamentos para si. Ninguém será contra você enquanto não souber o que você pensa;


7. Não inove, exceto no superficial. O senso de conservadorismo é forte e mudanças sempre geram resistências, conflitos e oposições;


8. Não ande sem paletó e gravata, pois eles representam, também, riqueza e poder; é um significativo diferencial em relação à maioria absoluta da população empobrecida, impotente e carente de referenciais “elevados”, “sagrados”, para seguir e perseguir;


9. Passe a impressão de que você é uma pessoa muito ocupada e requisitada. Não perca oportunidade para falar de como sua agenda é cheia; fale de suas viagens, especialmente ao exterior, afinal, se você é muito convidado, você é muito bom! Acumule muitas funções de destaque e não se esqueça de fundamentar essa política pessoal – abracadabra! - biblicamente: “Quem tem, mais será dado...” (Mt. 25.29);


10. Fale de seus feitos. Aproveite todas as oportunidades, públicas ou privadas, para falar das obras grandiosas de suas mãos, fruto de sua brilhante inteligência, perspicácia e capacidade de articulação e mobilização. Alguns lhe escutarão com ouvidos clínicos, percebendo as doenças de sua alma e as incoerências – abracadabra! – bíblicas de suas posturas, mas não se incomode, serão minoria; a maioria fica tão literalmente encantada que sempre aplaudirá, cega, emocionada;


11. Fortaleça seu nome; ele é sua marca; ela é seu maior patrimônio. Repita-o insistentemente. Publique-o dezenas de vezes no Boletim de sua igreja, em jornais... Refira-se a si mesmo como se fosse outra pessoa em sinal de auto-reverência, como o Edson trata o Pelé. Assim você estará criando e alimentando um mito. Se o povo precisa de mitos, por que não, você?;


12. Mesmo que não seja necessário, mesmo que haja vocabulário suficiente, na língua portuguesa, para explicitar seus pensamentos e sentimentos, abuse do vocabulário de outras línguas. Cite o latim, o grego, o hebraico e, sobretudo, o inglês. Isso causa impressão de riqueza cultural;


13. Esqueça que a avaliação de Deus não é como a do homem; que Ele vê o coração; que a Ele prestaremos contas de tudo. Cauterize sua consciência. O importante é ser visto pelos homens, afinal, são eles que decidem tudo, na maioria das vezes, à revelia de Deus. Deus não existe; é apenas uma criação dos poderosos para dominar o povo. Convença-se de que você é Deus!

Escolas teológicas e o preparo ministerial (2002)

Foi-se o tempo em que decidir onde preparar-se para o exercício ministerial era tarefa fácil. As opções de graduação eram poucas e, geralmente, a escolha era feita pelo critério geográfico, entre um dos poucos seminários ligados à Convenção Batista Brasileira. Salvo poucas exceções, os candidatos optavam por estudar no seminário mais próximo de suas residências, geralmente por indicação do seu pastor.

Hoje, uma infinidade de escolas teológicas estão competindo, na maioria dos casos com ética, mas cada vez mais agressivamente, tentando seduzir os interessados através das mais variadas estratégias de marketing, passando informações que julgam relevantes para agregar valor à sua marca.

Neste período do ano, as propagandas aumentam, uma vez que muitos estão em processo de decisão quanto à melhor opção para seu preparo ministerial. Decidir aspectos financeiros ou geográficos é fácil. Quantos, porém, estão habilitados a decidir tomando por base a filosofia de ensino adotada, a linha teológica predominante ou a qualidade de ensino da instituição? Quantos sabem o que significa ensino teológico de qualidade? Quantos sabem que qualidade de ensino é influenciada por um conjunto de fatores tais como: formação acadêmica e experiência do quadro docente; estrutura física dos ambientes de estudo; estabilidade política entre os agentes envolvidos; organização administrativa; quantidade e qualidade de livros disponíveis na biblioteca; visão geral e interação que os dirigentes mantém com a sociedade; nível de informação que os alunos trazem consigo para a sala de aula e clareza, da parte dos mestres, do objetivo do conteúdo ministrado e sua correlação com a finalidade do Curso? Poucos se preocupam com isso até porque a maioria dos candidatos é adolescente de nível escolar médio, geralmente imersos numa mistura de crise existencial e um grau significativo de misticismo relacionado à "vontade de Deus". E, nesse caso, a emoção fala mais alto do que a razão pois, mesmo entre adultos, são poucos os que conseguem conciliar razão e "vontade de Deus".

Alguns pastores orientam os candidatos a procurarem um seminário em que se estude mais a Bíblia do que SOBRE a Bíblia. Para se estudar devocionalmente a Bíblia não há necessidade de se matricular num curso superior de teologia. Quem quer se preparar para o ministério precisa conhecer a Bíblia mas, mais do que isso, conhecer muito SOBRE a Bíblia. A ignorância SOBRE a Bíblia, ainda que se domine as línguas originais, se saiba de cor a seqüência de seus livros, nomes de personagens, localização de assuntos e se tenha em memória centenas de seus versículos, tem sido uma das principais causas de baixa qualidade ministerial e, sobretudo, do fundamentalismo sectário (perdoem-me a redundância) presente inclusive em nosso meio. Os defensores de seminários mais devocionais e menos teológicos não percebem que, por essa postura, muitos pastores têm sido facilmente manipulados e arrastados por qualquer brisa doutrinária. Nem mesmo a constatação de que boa parte dos que se aprofundam em teologia se tornam acanhados na manifestação da piedade cristã, justifica tal desvalorização do aprofundamento histórico-teológico da Bíblia.

Fazendo uma avaliação com Dr. David Mein, em 1983, sobre minha passagem pelo seminário, lembro-me de trocarmos idéias sobre o conflito que vivi entre priorizar o estudo no seminário ou o trabalho nas igrejas em que atuei como seminarista. Até hoje não sei se a prioridade adotada foi a melhor. Porém, no exercício pastoral há 19 anos, percebo com clareza a importância de se conhecer melhor, por exemplo, a história do cristianismo, a formação do cânon bíblico ou a hermenêutica bíblica.

Creio que não conseguimos dialogar com certos segmentos da sociedade, nem conviver com diferença de pensamentos em níveis civilizados, porque somos ótimos na citação de textos bíblicos e péssimos no discernimento de seus significados no contexto em que foram escritos. Pela multiplicação de escolas formadoras de técnicos em teologia que não estimulam ou até impedem os alunos de acessarem à diversidade de pensamentos e pensadores, a construção do conhecimento é sufocada pela simples, opressora e escravizante reprodução. Por isso, por despreparo, nos tornamos incapazes de rechaçar o que deve ser rechaçado, de reafirmar o que deve ser reafirmado e prisioneiros daqueles que dominam politicamente as estruturas e o pensamento eclesiásticos.

Não sou professor de seminário, nem exerço função relevante na estrutura denominacional; sou um militante da possibilidade de uma nova vida em Cristo e de valores que creio serem do Reino de Deus, atuando à frente de uma igreja local. Porém, cada vez que alguém manifesta desejo de preparar-se para o ministério, ressalto o privilégio que tive de estudar numa escola teológica cuja maioria de seus professores levavam a sério o princípio batista de liberdade de consciência, possibilitando ou estimulando-nos a conhecer a variedade de pensamentos, garantido-nos o direito inerente de busca da verdade e de construção do próprio conhecimento. Numa escola cujo reitor defendia que "a biblioteca são os pulmões do seminário"

A triste trapalhada do Didi (10.1999)

Sob os holofotes de câmeras de televisão e com uma imagem da Senhora Aparecida nas Costas, Renato Aragão - o Didi - saiu à pé, de São Paulo para Aparecida do Norte, num "sacrifício de gratidão".

Sacrifícios como este são feitos diariamente por milhares de pessoas sem a cobertura de uma mídia tão poderosa. São feitos por pessoas comuns que, por não serem mitos, não tem o poder de induzir o comportamento ou inibir o pensamento. Por isso, tal caminhada, não se trata de fato corriqueiro mas de um acontecimento social, pelas repercussões na vida da população brasileira.

A caminhada, conquanto bem intencionada, foi equivocada, senão vejamos: Em relação aos atos filantrópicos, Jesus ensinou: "por isso, quando deres esmola, não te ponhas a trombetear em público, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, com o propósito de serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, para que a tua esmola fique em segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará"(Mt. 6.2).
Devemos ter clareza sobre os motivos do nosso envolvimento em causas sociais. Cresce no Brasil o chamado marketing social. Além de ajudar instituições de caridade, algumas empresas estão liberando, parcialmente, seus empregados para que se dediquem a trabalhos sociais. Aparentando avanço social, na verdade não se trata de ato de compaixão. O objetivo é vender mais. Passando uma imagem de bondade e solidariedade, busca-se conquistar a simpatia dos consumidores. Assim, dá-se um pouco com a mão esquerda para ganhar mais com a direita.
Cresce também o número de empresários e executivos que dedicam parte do seu tempo semanal realizando trabalhos sociais. O motivo de muitos, porém, são os benefícios psicológicos que tal ato produz a si mesmos. As razões, portanto, são tão pouco altruístas quanto os atos dos políticos que fazem o bem pensando nos votos. E, aos olhos de Jesus, perdem seu valor espiritual.
Em relação aos sacrifícios pessoais Jesus disse: "ide, pois, e aprendei o que significa: misericórdia quero e não sacrifício"(Mt. 9.13). Jesus concordou com o escriba que afirmou que amar a Deus "...de todo o coração, de toda a inteligência e com toda a força e amar o próximo com a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios"(Mc. 12.33). Somos dispensados de sacrifícios pessoais porque Jesus "já o fez uma vez por todas, oferecendo-se a si mesmo" (Hebreus 7.27). Se Didi está fazendo sacrifícios, é porque desconhece o ensino do Novo Testamento, de forma particular o texto da carta aos Hebreus, em seu capítulo 10, de 1 a 17. O ensino é claro: "não vos esqueçais da beneficência e da comunhão, porque são estes os sacrifícios que agradam a Deus" (Hebreus 13.16).
O terceiro equívoco é a quem está prestando sua gratidão. Quando Pedro curou um aleijado e o povo acorreu para junto dele, ele disse: "por que fixais os olhos em nós, como se por nosso próprio poder ou piedade tivéssemos feito este homem andar?"(Atos. 3.12). Em vez de deixar o povo na ignorância, Pedro ensina-o a se arrepender e a crer em Jesus Cristo(Atos 3). Quando Paulo curou um aleijado, o povo queria prestar-lhe sacrifícios mas ele lhe disse: "amigos, que estais fazendo? Nós também somos seres humanos...mas vos anunciamos as Boas Novas da conversão para o Deus vivo, deixando todas essas coisas vãs!"(Atos 14.8-18). Didi, em seu desconhecimento bíblico, está afastado e afastando o povo do centro da mensagem do evangelho - Jesus Cristo.

Para os que dizem que a caminhada se justifica como um ato simbólico, uma estratégia de Marketing, de uma campanha que visa levantar recursos para carentes, observamos que trata-se de mais um equívoco. Com certeza não foi este o sentimento do Didi mas, se fosse, seria duplamente imoral: imoral, por explorar a ignorância religiosa do povo para levantar recursos financeiros e imoral porque, usando a religião, aqueles que têm contribuído ideologicamente, durante décadas, para manter a estrutura social vigente, convida, este mesmo povo sofredor, para minimizar os efeitos do abismo social existente entre ricos e pobres. Sim, pois todos sabemos que a causa do empobrecimento absurdo de uma considerável parcela da população é efeito colateral do enriquecimento absurdo de uma minoria que, resistindo à mudanças de concepção de vida, continua a acumular, beneficiando-se do injusto sistema vigente.
Caminhando com o Didi, a população continuará no obscurantismo religioso, armadilha daqueles que se beneficiam da ignorância de um povo sofrido, empobrecido, crédulo, sem educação de qualidade, explorado pelo promissor comércio da religião e sem perspectivas futuras.