Mostrando postagens com marcador Missão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Missão. Mostrar todas as postagens

sábado, 14 de julho de 2012

Avivamento Missionário - 14.07.12 - 83/100 dias de oração pelo Brasil

Avivar é recuperar, restaurar a vida. Avivamento missionário deveria ser a capacidade de recuperar, de restaurar a missão. Digo deveria, pois a história recente indica que resumimos missão ao trabalho da proclamação de uma mensagem com efeitos sobre uma palavra - a palavra alma - e não sobre uma pessoa - o ser humano e sua vida multidimensional - com repercussões somente em outro tempo e local, o futuro, o céu.

A lógica do paradigma predominante de avivamento é um individuo "ganhando" mais um indivíduo, que "ganha" mais um indivíduo, que "ganha" outro indivíduo", que "ganha" mais um indíviduo ...

Além disso, a missão que pretendemos avivar, não é a missão dos atos de Jesus. O paradigma que se busca recuperar é o dos atos dos apóstolos. Uma coisa é estudar a vida de Jesus, seu caráter e ensinos e orar e trabalhar para que isso seja restaurado em nós; outra, tomar a vida dos apóstolos para avivá-la em nós. 


A diferença é que, os atos dos apóstolos, conquanto estejam relacionados à missão de Jesus, são uma manifestação inicial e incompleta do que a convivência de Jesus fez nos discípulos. Em Jesus vemos a manifestação completa da missão a ser avivada. Daí os primeiros discípulos terem investido tempo no registro da vida de Jesus e na reflexão teológica sobre ela, registros conhecidos hoje como Novo Testamento.

A questão é que o paradigma "atos dos apóstolos" é mais facilmente adaptável ao mundo em que vivemos do que o paradigma "Jesus". Os atos dos apóstolos evidenciam ação com resultados imediatos em termos de números de decididos e de igrejas. Os atos de Jesus evidenciam trabalho artesanal, de burilamento de vidas, com efeitos mais demorados, porém profundos, extensos e duradouros.

Somos a sociedade da velocidade, do descartável. Nos empenhamos na pressa para obter resultados na proclamação e "descartarmos" pessoas tão logo elas declarem crer. Crendo, basta que os novos declarantes memorizem que a missão deles é levar outros a declararem que crêem. Alcançado esse objetivo, seu único trabalho com o declarante é que ele memorize que deve reproduzir uma única ação: levar outro a declarar o mesmo.

 Nesse estágio a missão com o novo declarante, novo decidido ou crente novo, terminou e ele já pode ser "descartado", ou seja, ser deixado só, na missão de conquistar novos declarantes. O importante é que o resultado - pessoas declarando que crêem - se multiplique.

Os apóstolos conviveram pelo menos 3 anos com Jesus, aprendendo com seus exemplos e palavras, o sentido do viver, os valores com os quais deveriam estar comprometidos e as ações que deveriam ser desenvolvidas em favor do próximo.

  No avivamento missionário em evidência, investir tempo conhecendo a vida e ensinos de Jesus é desnecessário e até prejudicial ao modelo reprodutivo em série. Evidência disso é que, no processo de identificação de avivamento raramente se inclui o verbo preparar. Preparar é apenas um detalhe que se resume em aprender técnicas que nos ajudem a levar mais e mais pessoas a "declararem" a fé em Jesus.

Investimento pesado, portanto, é feito na mobilização para envolvimento de pessoas e levantamento de recursos e capacitação para a reprodução, visando resultados imediatos. Não há tempo, nem dinheiro a perder com estudo, exceto se for de técnicas de resultados imediatos. 

Investimos em Coentro, não em Carvalho.

Sonho com um avivamento missionário. Ele gira em torno do conhecimento e vivência da vida de Jesus. Se desdobra em pessoas apaixonadas e comprometidas com Jesus, agindo segundo seus dons onde estão inseridas no cotidiano. Sua ação é, primeiramente testemunhal e, como teria dito São Francisco de Assis, se necessário, usando palavras.

Testemunho de vida em primeiro lugar.

No testemunho dos 72, ao retornarem do estágio missionário, não foi evidenciada a quantidade de decididos. Diante da manifestação empolgada com o poder do nome de Jesus ("Senhor, até os demônios se submetem a nós, em teu nome".(Lc. 10:17)), eles ouviram de Jesus: "alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus". O fato a ser enfatizado é a alegria de pertencerem e serem norteados por Deus.

 Gosto de movimentos, eles me empolgam e coopero da forma que tenho aprendido e crido. Gosto mais ainda, quando estão a serviço do testemunho e não somente do anúncio da vida de Jesus. Por isso, o avivamento missionário para o qual me convido e te convido-o a orar é o que visa restaurar, recuperar a vida amorosa de Jesus em nós e sua presença iluminadora em indivíduos e estruturas de sustentação da vida.

Abraços do seu pastor,

terça-feira, 10 de julho de 2012

Missões, missão e nossa cooperação

Nos acostumamos ao longo das décadas com a palavra missões. Nunca pesquisei sobre a razão da palavra no plural. Não sei se quem a cunhou tinha em mente a idéia da diversidade da missão, pois missão inclui adorar, viver em comunhão, ensinar sobre a vida e ensinos de Jesus, anunciar Jesus às pessoas e servir como manifestação da presença de Jesus em nossos corações.

O fato é que, históricamente, sempre que ouvi a palavra missões, ela não foi associada aos 5 componentes da missão da igreja, tal qual encontramos abundantemente no Novo Testamento. Antes, enfatizava somente o elemento do anúncio e, pior, um anúncio com efeitos somente no pós-morte. Assim, fazer missões tornou-se sinônimo de ir para algum lugar distante, onde nenhum templo ou organização da denominação se fazia presente para, alí, ser plantanda uma igreja.

A partir de determinada época associou-se a esta ação, o trabalho de assistência social. Essa associação era entendida de duas maneiras: 1) o trabalho social seria uma isca para atrair necessitados e assim fisgá-lo para a fé; 2) o trabalho social seria uma manifestação de amor e, portanto, não deveria ser reduzido à isca. Ainda hoje, alguns apresentam conflito em torno de qual seria a posição mais adequada.

Mesmo tendo incluido as demais áreas da missão, citadas inicialmente, ainda cometemos um sério pecado. Se imaginarmos a missão como tendo 5 pernas, a do anúncio da mensagem é maior em tamanho diametralmente oposto ao das demais. A consequência é que fazemos missões mancando.

A Convenção Batista Baiana, por exemplo, mantem um Colégio em Jaguaquara, uma escola de cursos de curta duração em Salvador, um seminário de teologia em Feira de Santana, com uma extensão em Salvador, alguns programas voltados para jovens e mulheres (com ênfase em evangelização e sensibilização para o sustento missionário), além de organizações voltadas para o ensino voltado para o funcionamento religioso das igrejas e desenvolvimento musical. Entretanto, a atenção e recursos investidos, oriundos das igrejas, tem uma concentração no sustento de missionários.

Claro que o missionário é figura estratégica e dificilmente deixaria de ser o alvo principal dos investimentos das igrejas. Porém, se não ajustarmos o tamanho das pernas da missão, não somente no discurso, mas sobretudo na prática, andaremos com a mesma dificuldade que alguém, com deficiência física nas ou em uma das pernas, apresenta.

É muito bom sabermos que a oferta que estamos levantando neste mes de julho se somará à oferta de centenas de outras igrejas de todo o Estado da Bahia. É com ela que poderemos continuar fazendo tanta coisa boa que até aqui tem sido feito em favor da salvação, restauação e edificação de vidas. Melhor ainda será contribuirmos com a visão integral do ser humano e, portanto, enfatizando todas as áreas necessárias ao pleno desenvolvimento das vidas por nós alcançadas.

Desafio, então, cada pessoa, a não somente orar e oferecer seus conhecimentos para serem usados em favor do desenvolvimento do Reino de Deus, mas também a contribuir financeiramente para que a falta de recursos financeiros não seja obstáculo ao pleno cumprimento da missão.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Região Centro-Oeste: Clame Pelo Coração do Brasil - 02.07.12 - 71/100 dias de oração pelo Brasil

Ao parar neste dia para orar pela região Centro-Oeste do Brasil, 3 motivos vêm à minha mente:1) O centro da formalização dos rumos político-econômicos do país; 2) O problema ecológico; 3) O problema agrário.

Em relação ao primeiro, destaco a expressão "formalização", pois, se é lá que, através de leis, a vida econômica e política do Brasil é direcionada, sabemos bem que as decisões reais são tomadas nos círculos de poder econômico espalhados (nem tanto espalhados, devido ao fato de sermos uma das piores concentrações de renda do mundo) pelo território nacional.


Embora no Brasil a profissão de "lobista" não seja legalizada (e isso alimenta ainda mais a corrupção), os políticos eleitos em geral cedem aos interesses daqueles que detém o poder econômico. Os interesses do povo ganham relevância somente se, de quebra, produzirem benefícios aos que manobram a massa do capital.


Ao orar pela região Centro-Oeste, oro também por nós, pra que levantemos nossos olhos para enxergarmos, nossa voz para protestarmos, nossas pernas e braços para reagirmos.


Quanto ao segundo, não há como orar pelo Centro-Oeste sem pensar na importância da região para o ecosistema do Planeta. Parte da floresta Amazônica, o serrado (com sua riqueza de biodiversidade e a nascente de importantes rios brasileiros) e o pantanal matogrossense são essenciais à vida de todos nós. Orar pelo Centro-Oeste é pedir que os que lá habitam tenham a compreensão de que "do Senhor é a terra" e nós somos seus administradores. Sem isso, o deus "mamon" destruirá a todos nós em nome do enriquecimento sem sustentabilidade.


Em relação ao terceiro, temos na região Centro-Oeste uma concentração do que há de mais especializado em pecuária e agronegócio, especialmente do milho, soja e algodão e, não por acaso, parte significativa da concentração de ocupação de terra por movimentos socioterritoriais camponeses. Trata-se de tema que afeta nossas vidas, mesmo morando à distância.


Orar por esta região, portanto, é orar para que os que levam o evangelho e os que por ele são alcançados tenham uma visão integral do ser humano e, movidos pelos valores do reino de Deus, ajam em favor da vida abundante, completa, razão da vinda do nosso Senhor Jesus Cristo.


Abraços do seu pastor,

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Vocacionados - Obreiros para a Seara - 28.06.12 - 67/100 dias de oração pelo Brasil

O que é exatamente vocação? Como ela se dá? Podemos dar diversas respostas para essas perguntas, mas a experiência é tão individual e subjetiva que dificilmente encontramos um padrão que enquadre todas as pessoas. O que sabemos é que as pessoas que se declaram vocacionadas, geralmente afirmam que são movidas por uma voz interior, por sentimentos interiores profundos que, se disserem não, se sentem como se estivessem sendo desobedientes. Mesmo sendo bem sucedidas em sua caminhada de vida, atuando fora da "vocação", sempre se lembrarão de que não fizeram o que acreditam que deveriam ter feito.

Vocação não é uma faca colocada no pescoço de alguém que, ou responde positivamente ou morre. Mas, certamente, quando se consegue unir vocação e sustento econômico a pessoa se sente muito mais feliz.


Honestamente falando, não creio que vocação seja experiência exclusiva do universo religioso. Entendo que vocação é uma experiência espiritual, que brota no coração humano, fruto não de uma determinação, de um destino, mas da coincidência de uma série de fatores que envolvem o desenvolvimento da vida de um ser humano, que acabam por levá-lo em determinada direção. Tal "coincidência" faz parte da projeto vida - obra divina - tal qual a vida é.


Não excluo, claro, situações excepcionais nas quais uma pessoa declara ter ouvido a voz de Deus, fato que a impulsionou a tomar determinada decisão atípica e a escolher determinado caminho. Quando isso ocorre, as consequências são tão notáveis que é muito difícil provar que não houve uma vocação "extra-ordinária". Tome-se como exemplo o caso de Abraão que, tendo ouvido a voz de Deus (e ninguém sabe como isso se deu), iniciou uma peregrinação que culminaria não só com o surgimento de uma das nações mais emblemáticas da história da humanidade, mas também da qual originaria o homem que mais influenciou e continua influenciando pessoas: nosso senhor Jesus Cristo.


Creio também na vocação de uma coletividade. Isso se dá quando um conjunto de pessoas têm sentimentos semelhantes em relação a determiniada situação e decidem agir cooperativamente no sentido de realizar a "chamada".


Porém, o mais importante aqui não é discutir o mérito da vocação, mas estimular pessoas a serem sensíveis à voz que vem do coração. Não de forma irresponsável, irrefletida, bruta, mas de forma tranquila, consciente, em espirito de oração, de comunhão com Deus. Além disso, ao ouvirmos esta voz interior, este chamado que brota da alma, entendamos que isso não significa que não precisemos nos preparar para concretizar o chamado. Jesus e Paulo, por exemplo, tiveram seu tempo de preparo. Os discípulos de Jesus tiveram seu tempo de preparo. Vocação, portanto, não indica que um preparo seja desnecessário. Pelo contrário, ela nos motiva ao aperfeiçoamento, a fim de que os resultados de nossa ação sejam eficientes e eficazes.


Precisamos muito que mais pessoas sejam sensíveis à voz de Deus no que se refere à ação no mundo. Não apenas para dirigir instituições religiosas ou executar programas de expansão da fé, mas sobretudo para agir como sal e luz do mundo. Assim podemos contribuir no sentido de construirmos uma vida onde reina o amor e todos os seus efeitos, seja em relação a Deus, em relação a si mesmo, em relação ao próximo ou ao meio ambiente onde a vida se desenvolve.


Abraços do seu pastor,

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Voluntários: Os 3 "T" que fazem a diferença! - 23.05.12 - 31/100 dias de oração pelo Brasil

Vez por outra escuto alguém dizer que não trabalha por dinheiro, trabalha por amor. No contexto da maioria das vezes que ouço isso, a idéia de quem fala é elevar-se, autovalorizar-se, em comparação com outrém que atua na mesma causa ou instituição e é financeiramente remunerado. 

Geralmente, a pessoa que isso afirma, traz em suas palavras um componente emocional por ter tido um interesse seu contariado, e/ou um componente político, visando enfraquecer o outro que se sustenta financeiramente do trabalho que realiza ou até valorizar alguém, cujo papel social lhe beneficia ou pode vir a lhe beneficiar.  

Receber dinheiro como remuneração pelo trabalho não significa que a pessoa trabalha somente por dinheiro. Infeliz é a pessoa que trabalha somente por dinheiro. Geralmente há diversas outras remunerações, no campo emocional ou espiritual, que servem de motivação para o trabalho. O fato de haver remuneração financeira na relação não significa, necessariamente, ausência de amor pelo que se faz. Indica que uma instituição necessita do trabalho de alguém numa quantidade de tempo que o impediria de sustentar-se financeiramente em outra atividade. É, portanto, uma remuneração que produz benefício e atende aos interesses de ambas as partes.  

Por outro lado, a pessoa que afirma trabalhar "por amor", não está dizendo, pelo menos não conscientemente, que não receba remuneração pelo que faz. Pode até não ser remuerada financeiramente, mas sempre há outros tipos de remuneração. 

Por exemplo: há pessoas cujo trabalho "por amor" resulta, como remuneração, na experiência, no aprendizado, na construção de currículo. Ou seja, o ganho financeiro não é imediato, mas é necessário para conseguir determinado emprego ou para influenciar nos ganhos financeiros e profissionais que pretende no amanhã.

  Há pessoas que trabalham "por amor" a si mesmas, o que não seria, em si, um problema. A atividade que desenvolve, ainda que não resulte em ganhos financeiros, resulta em ganhos emocionais. A remuneração é o prazer de estar com outras pessoas; é o reconhecimento por ela valorizado, de alguém ou de um grupo social; é o preenchimento de um tempo ocioso que lhe era angustiante; é o preenchimento de uma carência afetiva ou de reconhecimento, prestígio, poder ou, até, meio de aplacar sentimentos de culpa, por exemplo.  

Há pessoas que não recebem um centavo financeiro na atividade que realiza "por amor", cuja dedicação a determinados cargos ou funções é essencial em seus projetos políticos. Algumas são cabos eleitorais de candidatos a cargos públicos eletivos e, em períodos eleitorais, usam a influência, o prestigo ou poder decorrentes do trabalho "por amor" para pedir votos para seu candidato. Outras usam o cargo ou função como moeda de barganha com candidatos eleitos para conseguir emprego para si, para familiares ou amigos.  

Certa vez, enquanto assistia uma disputa que beirava o confronto corporal, "por amor", em determinada eleição para cargos denominacionais não remunerados financeiramente, fiquei pensando no por quê daquilo. Depois entendi que era pelo valor político que a ocupação de tais cargos representariam em períodos eleitoriais.  

Já vi, literalmente, pessoas se apresentando para trabalhar "por amor" em cargos e funções - 1º ou vice de alguma diretoria, membro de algum conselho, GT, Comissão ou até Orador Oficial de Assembéia de Convenção Batista, por exemplo - sem remuneração financeira, simplesmente pelo prestígio, possibilidade de oportunidades na carreira "ministerial" e até viagens para conferências, inclusive no exterior.  

Presenciei. Não estou "ficcionando"!

  Não há, portanto, trabalho destituído  absolutamente de interesse, de remuneração. Há interesses e remunerações etica e socialmente aceitáveis ou "rejeitáveis" pelos benefícios ou prejuizos ao indivíduo ou à sociedade, de imediato ou no longo prazo. Tais constatações não diminuem, em absoluto, o valor do trabalho voluntário. Visam clarear que, o que determina o "por amor" no voluntariado não é a remuneração, mas a legitimidade dela. 

Se o determinante no trabalho voluntário não exclui algum tipo de "remuneração" a quem o prática, o que o diferencia é a inclusão dos interesses, das necessidades, de outros e da sociedade, nos motivos e motivações daquilo que realiza. Nele, o altruismo fala mais alto do que o egoísmo. O ser humano deixa de ser uma ferramenta que usamos para atender nossos interesses e passa a ser alvo do meu amor, da minha dedicação.  

Portanto, assim como no trabalho financeiramente remunerado, o trabalho voluntario também requer os 3 "T" muito bem colocados e definidos por Nancy Gonçalves Dusileck, no roteiro de oração do livro "100 dias que impactarão o Brasil": Tempo, Trabalho e Talento. E isso deve ganhar ainda mais valor e atenção, quando declaramos que o fazemos como resposta ao amor de Deus plantado em nossos corações.

  Oremos, pois, no sentido de sermos voluntários reconhecendo como motivo os valores mais profundos do Reino de Deus e como motivação o atendimento às necessidades mais profundas da vida, especialmente da dos empobrecidos, como nos exemplificou Jesus e nos recomenda as Escrituras Sagradas.  

Abraços do seu pastor

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Como sua oferta faz Missões - 18.05.12 - 26/100 dias de oração pelo Brasil

Um dos diferenciais da maioria das igrejas batistas que eu jamais imaginei que um dia precisasse enfatizar, são os princípios que norteiam sua administração financeira.  

A ênfase neste diferencial não se dá em função dos membros da igreja. É uma necessidade de pessoas habituadas a ouvir que alguns donos de "igrejas particulares" estão se enriquecendo de maneira assustadora, sem qualquer pudor.  

Conquanto reconheça a importância  de enfatizar o princípio norteador da administração financeira da maioria das igrejas batistas, tenho a convicção de que não é este o motivo que leva pessoas a contribuirem. Isso pode até influenciar, mas o que leva uma pessoa a contribuir é o amor que ela tem pela obra missionária da igreja.  

Quando falo de obra missionária, não me refiro ao sentido que predomina na cabeça de alguns: enviar missionários para falarem do céu e do inferno, muito mais do inferno do que do céu, e plantar igrejas como se isso fosse um fim em si mesmo. Falo da identificação que cada pessoa tem com a vida e missão de Jesus e sua reprodução no cotidiano. 

Alguns textos expressam claramente o modelo de vida e a missão de Jesus. Exemplos:  

"Sabem o que aconteceu em toda a Judéia, começando na Galiléia, depois do batismo que João pregou, como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e poder, e como ele andou por toda parte fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo Diabo, porque Deus estava com ele. (Atos 10.37-38)  

"O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor"  

Falar, então, de como nossa oferta faz missões, é falar de como cada centavo aplicado pode resultar na reconciliação de pessoas com Deus e suas repercussões, individuais e sociais, no tempo e no espaço. É falar de como os recursos financeiros são aplicados em favor da reprodução da vida de Jesus em nossas vidas, na vida dos que nos cercam e na vida da sociedade na qual estamos inseridos.  

Portanto, sustentar financeiramente  pessoas conhecidas como missionários, que se dedicam exclusivamente à proclamação, ao ensino, ao serviço em prol do semelhante,  é uma estratégia muito importante, mas não é, jamais, a razão última da ação missionária de uma igreja.  

Quando me deparo com pessoas que não contribuem financeiramente para a obra missionária da igreja (repito: não restrinja isso a campanhas  para levantamento de ofertas) jamais levanto a hipótese disso se dar por pobreza financeira da pessoa. Isso se dá por pobreza espíritual. Tenho convivido com pessoas empobrecidas que estampam um imenso sorriso no rosto cada vez que entrega uma moedinha para cooperar com o ministério missionário da igreja. (Da mesma forma que conheço outras, enriquecidas, cujos bolsos são tão travados quanto seus rostos, quando o assunto é contribuição financeira).

  Neste dia em que oramos pela obra missionária, oremos por nosso enriquecimento espiritual, pelo fortalecimento de nossos compromissos com o reino de Deus, a fim de que nossa participação no sustento financeiro, ainda que pequena, seja uma expressão da riqueza de nossa relação com Deus.

Abraços do seu pastor,

terça-feira, 8 de maio de 2012

Missionário - 08.05.12 - 16/100 de 100 dias de oração pelo Brasil

É simples. Não há muito o que dizer.

Missionário é pessoa comprometida com uma missão. Não importa se a missão será executada na sala de sua casa, no galpão de produção da fábrica, no escritório da empresa, na praça de uma cidade, na sala de uma escola de ensino geral ou bíblico, numa sala de aconselhamento, no púlpito de uma igreja, enfim.

É simples. Não há muito o que dizer.

Missionário é pessoa que tem clareza de sua missão.  Jesus tinha:  "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos   e proclamar o ano da graça do Senhor" (Lc. 4.18-19). A clareza da missão é determinante para sua eficácia.

É simples. Não há muito o que dizer.

Missionário é gente como a gente, como muito bem disse o Pr. Samuel Meira Moutta, no roteiro de oração do livro "100 dias que impactarão o Brasil". Não é uma idéia, um mito. É gente que chora, que ri, que se irrita, que adoece, que fala, que silencia, que trabalha, que descansa, que tem libido, que lida com tentações, que paga contas e, como 90% dos brasileiros, tem renda insuficiente para pagar alimentação, habitação, vestuário, educação, lazer, saúde, transporte, água, luz, telefone...

É tão simples entender que precisamos complicar, para controlar.

Então, assim como os homens criaram o discurso da rainha do lar e com ele fugiram das responsabilidades domésticas, os crentes colocaram alguns dos seus irmãos num pedestal, chamando-os de missionários e, assim, fogem de suas responsabilidades no mundo. Eu pago as contas e você cuida da casa, diria o machista. Eu pago as contas e você faz a obra missionária, diriam alguns membros de igreja.

E pra não sobrecarregar o missionário, decidiu-se em gabinetes onde a teologia é e- labor -ada que seu trabalho é somente pregar a possibilidade de salvação do inferno e inclusão no céu, escatológicos, claro, e desafiar os ouvintes a responderem com as palavras mágicas: "eu aceito Jesus"!

Missão como caminhada solidária, como construção cotidiana, como interesse por todas as dimensões da vida humana, como discurso de amor encarnado nas simples ações do dia-a-dia? Isso é coisa do passado, mania de Jesus!

Na era da produção, do planejamento, da eficácia,  dos números, o que conta são os relatórios que confirmam quantas pregações ou estudos foram feitos, quantas visitas realizadas, quantos folhetos foram distribuidos, quantas pessoas compareceram aos cultos,  quanto foi a variação positiva do valor do patrimonio físico-financeiro, quantos batismos efetuados e quantas novas almas retiradas do inferno escatológico.

É simples assim: quem não tem relatório pra dar, ainda que dê a sua vida em favor do semelhante, não é valorizado como missionário. Não é aos olhos e aos interesses de quem?

Vamos orar pelos missionários? Comecemos orando por nós!

Abraços do seu pastor,

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Minha vida, impacto para a nação

Iniciei, recentemente, a mensagem: “Brilhar para a glória de Deus”, da série: “Imperativos de Jesus”, mencionando a situação de corrupção endêmica no Brasil, presente nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, no Exército e também nas igrejas. Tal realidade foi ilustrada por artigos das revistas CARTA CAPITAL (nº 666, de 05.10.2011) E VEJA (nºs 39 e 40 de 28.09 e 05.10 de 2011) e do site “The Lausanne movement” (“Leaders in India Gather toAddress Corruption”) que, embora se refira à realidade da Índia, retrata realidades presentes no Brasil.

Saliente-se também que, ainda que o destaque seja desproporcional à publicidade dada, sabemos que o envolvimento da classe empresarial é determinante na maioria dos casos de corrupção em pauta nas mídias, em todas as esferas onde ocorrem. Em outras palavras: por detrás de cada corrupção, interesses empresariais são tão ou mais fortes do que individuais.

Alegra-nos saber que a Convenção Batista Brasileira focará, em 2012, o tema integridade. É extremamente oportuno que as igrejas batistas do Brasil estudem e debatam este assunto, pois, ou estancamos a corrupção ou a corrupção estanca nossas vidas.

O que isso tem a ver com a campanha pró Missões Nacionais? Isso é importante porque a corrupção afeta diretamente a qualidade de vida de toda a sociedade. A qualidade da segurança, da saúde, da educação, dos transportes, da alimentação, da habitação, enfim, depende fundamentalmente da honestidade e justiça nos relacionamentos interpessoais de uma sociedade. Então, se queremos impactar o Brasil, não podemos deixar de lado a preocupação e até priorização deste assunto.

Impactar significa provocar forte reação em dada realidade, alterando-a. Portanto, se nossa intenção é levar a sério o tema proposto pela Junta de Missões Nacionais da CBB, alguns aspectos precisam ser considerados:

1.      Ter clareza teológica do projeto de vida desejado por Deus para a humanidade. Em nossa tradição protestante, reconhecemos os textos bíblicos como fonte de revelação do Cristo, parâmetro de humanidade desejada por Deus. Portanto, sem conhecimento do Cristo, sua história, sua vida, seus ensinos e, consequentemente das Escrituras que o revelam, podemos saber o que não queremos, mas não saberemos como alcançar o que queremos;

2.      Ter clareza da realidade que nos cerca, não somente em relação ao que nos afeta direta e visivelmente, mas também das causas espirituais, técnicas e políticas geradoras de tal situação. Por isso, estudos individuais e debates coletivos nos ajudam no impacto que queremos causar;

3.      Manifestar compromisso com a construção de uma sociedade pautada nos valores universais do reino de Deus. Digo universais e não somente bíblicos, pois há valores sócio-culturais de uma época e local cuja transferência de forma simples e irrefletida não impactariam positivamente nossa realidade;

4.      Agir, priorizando a disponibilização de recursos como conhecimento, tempo, dinheiro e outros bens a serviço do reino de Deus. Não basta conhecer o Cristo, a realidade e vislumbrar um projeto de vida se não tivermos consciência de que cada um de nós é chamado a fazer uma parte.

Dar uma oferta para sustentar missionários, plantar igrejas, manter escolas, orfanatos, centros de recuperação de dependentes químicos e de qualificação para inclusão sócio-espiritual é uma parte das ações possíveis para impactar o Brasil. É algo que todos podemos fazer, pois ninguém é tão pobre que não possa participar. Que Deus, então, fale tão profundamente aos nossos corações que impactar o Brasil, com nossas vidas apaixonadas pelo evangelho integral, seja nossa principal motivação como discípulos e servos de Jesus Cristo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

“Eu vi o Senhor!”

Era domingo, início da manhã. Maria Madalena e a outra Maria foram ao sepulcro  de Jesus. Não foram por acreditar na ressurreição. Foram porque a aproximação do lugar onde o corpo estava amenizaria a dor da separação traumática e dolorosa.

Ainda estava escuro, mas viram que a pedra da porta da sepultura fora removida. A surpresa e a dúvida dominaram seus corações. Então correram para contar aos discípulos.

A correria foi geral. Pedro e um outro discípulo disputaram para ver que chegaria primeiro. Pedro perdeu a corrida, mas, por ser mais ousado, entrou primeiro na sepultura e testemunhou: as faixas de linho estavam de um lado, o lenço usado para cobrir a cabeça, dobrado do outro, mas Jesus, de fato, não estava ali.

Sem compreender o ocorrido, os discípulos voltaram pra casa. Maria, porém, permanece, inconsolável, chorando as dores da saudade. Sob o impacto da morte e agora do desaparecimento do corpo e sem acreditar naquilo tudo, voltou a olhar para dentro do túmulo.

Nova surpresa acontece: dois anjos estavam no lugar onde o corpo de Jesus esteve repousando. Um diálogo se estabelece e ela derrama seu coração: “levaram embora o meu Senhor”. Mal termina de falar, outra surpresa: alguém, parecido com um jardineiro, dirige-se a ela, indagando sobre o porquê das lágrimas. Sem responder ela implora: “Se o senhor o levou embora, diga-me onde o colocou, e eu o levarei”.

Ele pronuncia o nome dela, ela reconhece sua voz: era Jesus.

Por não ter desistido, na pior das adversidades, teve o privilégio de ser missionária da primeira mensagem de Jesus, após a ressurreição: “... Vá, porém, a meus irmãos e diga-lhes: Estou voltando para o meu pai e Pai de vocês, para o meu Deus e Deus de vocês.

E ela, respondendo positivamente ao desafio missionário, emocionada e cheia de alegria, dirige-se aos discípulos - recolhidos, amedrontados - e anuncia: “Eu vi o Senhor!”

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Espíritualidades no contexto brasileiro

Carlos Queiroz - Espiritualidades no contexto brasileiro from Ariovaldo Ramos on Vimeo.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Lixão

 Poucos textos tem impactado tanto minha vida pessoal e ministerial como "Lixão". 
Já perdi as contas de quantas vezes o lí desde que um amigo o recomendou no site de Cristianity Today International, há alguns anos.

Ele me incomodou tanto que pedi à minha filha que fizesse uma tradução e pedimos autorização para publicá-lo.
Vez por outro volto a ele, leio, leio, leio e me questiono, me questiono, me questiono.
Nessa semana resolvi tirá-lo dos arquivos e publicá-lo em meu blog.

Ele coloca em cheque conceitos missiológicos, atuação social, relacionamentos interpessoais, inclusive conjugais, motivação e visão ministerial, enfim...

Confira!

.........
"Num lugar onde até as pessoas são consideradas lixo, ninguém ouviria o pastor educado e bem-sucedido. Até que ele se tornou um deles.

*Uma entrevista com Saul Cruz.

Para alguém de fora, o Ministerio Armonía aparenta um exemplo extraordinário de liderança regional em algumas das comunidades mais pobres do México – uma rede de escolas, clínicas médicas e centros comunitários liderados pelos próprios membros das comunidades. E o é. Mas Armonía (Harmonia) é também uma missão trans-cultural – não apenas porque voluntários de longo ou curto prazo vindos de igrejas dos EUA e Europa são bem-vindos, mas  porque seus fundadores tiveram que aprender a superar barreiras culturais e de classes sociais intimidantes. Saul e Pilar Cruz fundaram Armonía em 1987 no momento em que Saul, que possui um Ph.D. em psicologia, estava atingindo a proeminência como líder nacional da Visão Mundial do México. Como ele descreve na entrevista com o editor chefe do Projeto de Visão Cristã (Christian Vision Project) Andy Crouch, a história do Armonía é uma de desaprendizado de muitos de seus pressupostos sobre sucesso e importância.

É uma história que carrega muitas lições para qualquer um que superaria barreiras de educação e privilégio – qualquer um que esteja fazendo a pergunta do Projeto de Visão Cristã para 2007: O que nós devemos aprender, e desaprender, para sermos agentes da missão de Deus no mundo?

Quando você começou a trabalhar com a Visão Mundial na Cidade do México há vinte anos, quão engajadas eram as igrejas protestantes com a necessidades dos pobres?

Em 1985 haviam cerca de mil igrejas protestantes – para uma cidade em que era estimada uma população de aproximadamente 8 milhões de pessoas naquele tempo – com uma média de 60 membros cada.

Nós observamos um mapa socio-econômico da Cidade do México. Naquele tempo, 8% dos residentes da Cidade do México eram ricos, alguns, aliás, dentre os mais ricos do mundo. Por conseguinte, 17% eram classe média; 75% eram pobres, a maioria sobrevivendo com menos de um dólar por dia.

Então, no mapa que separava as áreas por renda, nós posicionamos as igrejas. Das 1000 igrejas, 890 estavam localizadas em vizinhanças de classe média. Algumas estavam dentre os ricos – a maioria servindo não aos Mexicanos, mas a estrangeiros. Aproximadamente todo o resto estava nos limites entre as vizinhanças pobres e de classe média. Quase nenhuma estava localizada dentro de vizinhanças pobres.

Assim, você tinha vastas áreas da Cidade do México sem nenhuma presença de evangélicos protestantes.

Isso deve ter sido uma decepção.
Mas eu descobri uma igreja grande em um dos piores bairros – um bairro sem água, sem ruas pavimentadas, com pouca eletricidade. “É isso,” eu pensei, o tipo de igreja que mobiliza seus recursos para servir num lugar onde esses recursos são realmente necessários. Então eu visitei o pastor.

Caminhando dentro do complexo, nós encontramos o paraíso: grama verde, água irrigando jardins e carros elegantes. O pastor me recebeu com grande alegria, me levou a seu gabinete, e me ofereceu café. Ele tinha um gabinete muito bonito!

Eu perguntei como sua igreja tinha vindo parar aqui. Eu esperava que ele dissesse: “Eu vi a necessidade. Eu vi que poderiamos causar efeito.”

Ele disse: “Você sabe, a terra é barata aqui. Se você proteger os carros, você pode ter um ótimo estacionamento!”

Que perspectiva particular.

Agora, eu devo dizer que se você for aos Estados Unidos, a imagem não é tão diferente. Muitas igrejas são pequenas ilhas que não se envolvem realmente com os vizinhos. Elas não percebem que podem ter um efeito de transformação da sociedade.

O que levou você particularmente a este tipo de ministério?

Minha esposa sempre foi minha parceira, minha intercessora chefe. Quando nos casamos, nós fizemos o compromisso de trabalhar dentre os pobres. Quando eu estava fazendo bastante dinheiro e minha carreira como psicólogo estava decolando, nós deixamos tudo para trás para iniciar uma escola para crianças deficientes numa comunidade pobre. Porém, quanto mais eu me envolvia no meu trabalho com a Visão Mundial alguns anos depois, mais distante ela se tornava.

A verdade é que enquanto havia bastante amor em nosso casamento, nossas posturas em relação aos necessitados se tornava bastante diferente. Enquanto eu trabalhava em projetos nacionais grandiosos, ela havia se envolvido com pessoas com paralisia cerebral. Ela estava sempre me perguntando, “Quando você se juntará a nós?” Mas eu estava muito ocupado para trabalhar com ela. Afinal, eu estava mobilizando igrejas para trabalhar dentre os pobres!

Um dia ela me parou e disse, “Escuta, você não é o homem com quem eu casei. E eu não sei porque você mudou tanto. Mas uma das razões para casar com você foi por causa da paixão que você tinha pelos pobres. E agora você tem uma paixão por se tornar importante.”

“Bem, escute,” eu disse, “se eu posso influenciar as igrejas do México, se eu posso mobilizá-las...”

Ela disse, “Influenciar as igrejas do México? Quem você pensa que é? Lutero ou Calvino?

Bem, isso iniciou uma enorme conversa.

Minha esposa e eu já tivemos dessas “conversas”.

Nós tiramos uma pequena folga e viajamos para discutir isso. Nós brigamos e brigamos. Até que um dia ela disse: “Eu não quero ser grossa, mas eu preciso te perguntar. Você sabe realmente como trabalhar com os pobres? Ou você apenas fala sobre os pobres?”

Eu não tinha a resposta.
Eu podia falar dos pobres. Eu podia te mostrar livros. Eu podia convocar o resto do mundo para trabalhar com os pobres. Mas eu, particularmente, não estava trabalhando com os pobres.

Ela disse: “Nós precisamos aprender. E se nós não aprendermos, como chamaremos os outros para o fazer?”

Aquilo encerrou a discussão. Ela venceu. Porque ela estava certa. Nós concordamos em viver numa favela da cidade do México e nos concentrar no trabalho com os pobres.

Agora, para minha esposa, trabalhar com os pobres não era problema. Ela não queria ser percebida como uma figura de poder, alguém com acesso a dinheiro ou alguém que tinha um projeto de mudança, mas apenas como uma vizinha. Mas para mim, isso significava despir-me do meu senso de poder, do meu lugar de segurança. Eu iniciei uma pequena clínica – um lugar para servir o povo e caminhar com meus filhos para escola e conversar com os vizinhos. E, oh!, foi terrível, porque eu era um vizinho – nada mais. Apenas um vizinho.

A abordagem da minha esposa, contudo, foi impressionantemente eficaz.  Ela se ligou a prostitutas que queriam deixar a profissão, com mães que viam seus filhos morrerem por causa do vício em drogas ou pelo tráfico, que queriam mudar seu ambiente. Mas eu não estava satisfeito com a abordagem da minha esposa. Eu me senti sem poder.

Quando uma igreja próxima nos ofereceu seu prédio para usarmos como centro comunitário, eu aceitei.

Pareceu uma boa oportunidade.

Exatamente. Parecia perfeito. Nós criamos um centro comunitário, e nós começamos a trazer pessoas para a igreja ali. Aos domingos nós acordávamos cedo para sair pelo bairro dizendo: “Acordem. Vamos para a igreja. Vamos ler a bíblia e cantar juntos. Juntem-se a nós.” Estava virando uma verdadeira passeata a cada domingo. Pessoas cantando nas ruas, batendo nas portas, oferecendo café para os vizinhos, alguns dos quais vinham para a igreja de pijama!

Mas eu não percebi que a igreja estava levando aquilo bastante insatisfatoriamente. A filha de um dos líderes se apaixonou por um dos novos Cristãos, um antigo líder de uma gangue de rua. O pai me encurralou depois de um culto e disse, “Se minha filha se casar com este homem, eu vou matá-lo.”

Então, um domingo, eu cometi um grande erro. Enquanto estava pregando, uma das mulheres da região com quem tínhamos trabalhado veio sangrando, calçando apenas um sapato. Seu vestido havia sido rasgado, e ela havia sido espancada gravemente – claramente por um cafetão. Nosso filho pequeno começou a gritar quando viu o sangue e agarrou a sua mãe, então minha esposa não podia ir ajudá-la.

Ninguém na sala toda se moveu em direção a ela. Então eu parei de pregar, pedi a um dos diáconos para continuar o culto e fui até ela, tomei-a pela mão e pedi a minha esposa para me seguir até o gabinete. Quando nós saímos, tendo atendido às suas necessidades, o culto havia terminado, mas um grupo de líderes da igreja estava esperando por mim.

Nunca abandone o púlpito por uma mulher como aquela,” eles disseram. “Isso é completamente fora de ordem!”

Eu deveria saber que o relacionamento fora quebrado e sem conserto. Mas por algumas semanas nós continuamos trazendo pessoas à igreja conosco. Nós estávamos frequentemente atrasados, o que não é raro no México. Mas uma semana nós viemos cantando para a porta do prédio da igreja. Estava trancado. Isto era estranho. Ninguém estava ali.

Eu voltei para casa e peguei minhas chaves. Abri a porta, entrei – e estava completamente vazio. Nenhuma cadeira. Nem um banco. Absolutamente vazio.

Eles tinham tirado todos os móveis?

Todos. E no chão havia um bilhete: “Saul, nós entendemos que Deus está te guiando para um caminho diferente. E nós decidimos nos mudar. Nós compramos um pedaço de terra e construímos nossa própria igreja, e você está sozinho. Se você puder pagar as contas, você poderá continuar. Adeus.”

As pessoas conosco estavam chorando, praguejando, cuspindo – elas se sentiam muito rejeitadas pela igreja. Nós prosseguimos, mas na manhã seguinte, o dono do prédio veio. “Você é o Sr. Cruz? Eu preciso que você deixe as dependências.”

Eu disse que estava aberto para assinar um contrato. Mas ele disse, “Não. As pessoas que saíram disseram que você anda com más companhias, e que eu deveria ter cuidado com você.

“Sim, eu estou com más companhias,” eu disse. “Isso é bem verdade. Eu estou com pecadores o tempo todo!”

Aquilo nos forçou a ir para um pedaço de terra que havia sido doado no meio de uma das piores favelas, um lixão. Nas áreas pobres, pessoas viviam em meio ao esgoto. Eles fizeram ilhas no esgoto com sujeira e areia,  e as conectaram com pequenas pontes, e havia uma grande rede de ilhas feitas por homens sobre o esgoto não tratado da cidade. Nós mudamos para um bairro um pouco mais seguro e trabalhamos por três anos para limpar aquela propriedade e iniciar um ministério ali. Mas era tão longe de onde estávamos antes que praticamente começamos do zero.

Para minha esposa isso não era problema. Ela ficaria feliz de estar trabalhando no lixão. Mas para mim, eu estava me desfazendo das minhas fontes de poder mais e mais.

Parece que seu senso de importância se esticou ao ponto de partir.

Exatamente. No final daqueles anos, eu disse a minha esposa, “ Eu preciso parar. Eu quero voltar a uma igreja normal. Eu quero pregar novamente. Aqui eu estou sendo muito ineficiente. Se você fala, as mulheres te escutam. Quando você lê a bíblia, as mulheres te escutam. Elas te dão suas crianças. Você as leva para hospitais. Até mesmo seus maridos vêm e te escutam. Mas quando eu falo, eles bocejam ou saem. Eu não sou aceito da forma que você é. Você é extremamente eficiente. Eu acho que devo ir a outro lugar. Eu vou te sustentar. Mas preciso de um trabalho melhor.

Em minha cabeça, havia me tornando um ninguém. Eu tinha me formado na universidade, ganhado prêmios acadêmicos e tinha uma carreirra significativa. Mas naquela vizinhança eu não era ninguém – e era culpa minha. Eu não havia aprendido a falar como eles. Eu queria que eles me entendessem, e que escutassem minha forma de falar. Lá no fundo eu era arrogante e eles podiam perceber.

Então eu disse para minha esposa, “Veja, você é que é o pastor aqui. Eu te sustentarei e serei o marido da pastora.” Nós tivemos uma verdadeira guerra aquela noite, um sábado a noite. E nossos pobres filhos tiveram que escutar tudo.

“Amanhã,” eu disse, “eu vou começar a frequentar outra igreja.”

Você não é o primeiro pastor a ter essa idéia. (Risos)

No domingo pela manhã, alguém bateu à nossa porta. Era o vizinho do lado, um homem da classe média. Ele disse, “Você é um conselheiro?”

“Sim,” eu disse.

“Por favor, me ajude. Eu estou perdendo meu casamento.”

Eu quase disse pra ele, “Eu também estou perdendo o meu – vamos chorar juntos!” Mas, ao invés disso, minha arrogância ressurgiu de mansinho. Ali estava algo em que eu era um especialista! Então, eu o convidei para entrar. Nós conversamos por duas horas. Eu estava na minha área. Me senti útil. Sua esposa se juntou a nós e no fim da conversa eles resolveram buscar um caminho para salvar seu casamento. Eles estavam aliviados e agradecidos.

Quando estavam saindo eles perguntaram, “Vocês vão a alguma igreja? Porque nós vemos vocês saindo todo domingo vestidos para ir à igreja.”

E minha esposa disse, “Sim, nós vamos, e ele é o pregador.”

E eu disse, “Não, não. Nós temos um centro comunitário numa das favelas da cidade. É lamacento e cheira mal porque é próximo ao lixão. E na verdade, o que eu tenho é uma pequeno grupo de pessoas que vêm e escutam quando minha esposa fala e não escutam quando eu falo.”

O casal disse: “Nós queremos ir com vocês.”

“Tem certeza?” Eu perguntei. Mas eles realmente queriam ir. Então eles foram conosco aquela manhã.

Na igreja, quando estávamos no meio da oração, algumas pessoas vieram correndo para o centro comunitário dizendo “Há uma emergência naquela esquina ali em baixo!”

Nós corremos para a esquina e descobrimos que um buraco enorme, talvez com dois metros e meio de profundidade, havia sido aberto sob a rua. Um novo sistema de esgoto havia sido instalado dois anos atrás, mas não tinha sido vedado corretamente. O esgoto que vinha morro abaixo levava a areia sob a rua. A rua estava à beira de um colapso e havia o perigo de que dúzias de casas próximas serem varridas também.

Alguém chamou os serviços da cidade, mas eles disseram que levariam dias até que viessem. Era óbvio que a rua iria desmoronar antes disso. Não tínhamos idéia do que fazer.

Então senti alguém tocar meu ombro e dizer: “Posso ajudar?”

Era o vizinho que tinha vindo comigo.

“Não, não,” eu disse. “Por favor, você precisa sair daqui. Você é nosso convidado e essa situação é perigosa.”

Ele disse: “Não, eu sei exatamente o que fazer. Eu sou engenheiro de minas.”

Então ele organizou os vizinhos para fazerem sacos de areia e criou uma coluna embaixo dos canos de esgoto usando os sacos e madeira que tiramos do nosso próprio prédio. Nós mobilizamos toda a vizinhança, paramos o trânsito e pusemos todos os homens para trabalhar. Ele conseguiu colocar tudo de volta ao seu lugar.

Que presente extraordinário ele ter vindo com você aquele dia!
Claro que isso também foi uma bagunça horrível. Nós ficamos completamente cobertos de sujeira. Começamos a trabalhar pelo meio-dia e terminamos às três da manhã do dia seguinte. Nós saímos da cratera e voltamos para nosso centro comunitário, provavelmente duzentos homens, e as mulheres haviam esquentado água para nos lavarmos. Elas pegaram nossas roupas e as lavaram da melhor forma possível. Estava frio e garoando, e nós estávamos tremendo, mas ao menos não estávamos mais fedendo como antes.

Eu comecei a chorar. Eu disse, “Me desculpem, mas eu preciso orar. Preciso agradecer a Deus porque ele acabou de nos salvar. Ele salvou você e me salvou. Ele enviou este homem, meu vizinho, para nos ajudar e nos deu uns aos outros para fazer o trabalho. Podemos orar?”

Eles disseram que sim.

Então extendi as mãos e eles a seguraram. Nós nos ajoelhamos e oramos. Quando nos levantamos, eu era seu pastor. Eu puder ver isso. Daquele dia em diante, eles me respeitavam. Daquele dia em diante eu me tornei seu pastor.

Você percebe, ser um pastor é aprender a linguagem do amor. As pessoas precisam ver que você é real – que você realmente se importa com elas, que você está até mesmo disposto a colocar sua vida em risco por elas. De repente, meu papel naquele bairro tinha mudado completamente.

Essa história tem implicações sobre a maneira que as pessoas chegam a uma comunidade carente?

É muito fácil para missionários cometerem os erros que eu cometi. Nós construímos nossas igrejas através do poder. Mas nós nunca ganhamos o respeito das pessoas ao nosso redor. E com o poder vem a fantasia de que eu sei tudo, que eu sou a pessoa com a competência para “consertar” a sociedade em que estou.

Porém, há na verdade uma grande resistência a pessoas que vem a uma comunidade achando que sabem do que as pessoas de lá precisam. Nós percebemos que, quando vamos a uma nova comunidade, temos que ter a postura de que não sabemos nada. Nós sabemos quem somos, dizemos, mas não sabemos como trabalhar aqui. Assim estamos abertos. Nos ensine, por favor.

Quando recebemos grupos da América do Norte ou Europa para nos visitar, eu nunca tenho um plano para o grupo ou para a comunidade. Ao invés disso, quando o grupo chega, nós perguntamos à comunidade, “O que nós podemos fazer juntos? Vocês têm vontade de fazer algo juntos?” E a resposta pode ser: nós apenas queremos jogar futebol com vocês ou gostaríamos que vocês ensinassem algo sobre computadores. Ou pode ser: nós somos bons dançarinos, gostariam de aprender a dançar conosco?

Os visitantes dizem, “O quê? Eu vim para salvar o mundo. Meu pastor disse que nós iríamos para o México para mudar o mundo para Cristo. E você me pede para aprender a dançar suas danças folclóricas?”

Mas você sabe, eles aprendem muito mais através desse processo do que apenas crendo nas fantasias de que uma chamada missão de uma ou duas semanas vai salvar o mundo.

O que as igrejas Americanas poderiam aprender que nos levaria a ser melhores parceiros em sua missão?

Eu acho que a igreja Americana, a qual eu amo e sou muito grato, frequentemente não está ciente da sua linguagem. Você escuta a linguagem dos Americanos de “mudar o mundo” o tempo todo. Bem, isso traz enormes implicações para nós restantes! Por que esses Americanos querem mudar o mundo? Em que mundo eles irão mudar? Eles sabem mais do que nós? É isso que eles querem dizer?

Se você vier a mim, mesmo com a melhor das intenções, e disser, “Saul, eu vim aqui para mudar o seu mundo,” eu vou me sentir insultado. Porque você não sabe o quanto eu amo minha própria cultura. Eu nasci aqui por causa de uma decisão de Deus, não minha. Eu cresci com nossas músicas, nossas cores, nossos rítmos.

Quando as pessoas vêm e dizem, “Oh, você está atrasado porque este é o México,” Eu sempre penso, “Bem, e daí? Os mexicanos são despreocupados e nós amamos isso!”

O mesmo acontece quando eu, como uma pessoa educada, vou até as favelas. Quando eu falo com eles, eu tenho que fazer isso na área, nas ruas, em suas casas, em qualquer lugar. E eu preciso ter certeza de que estamos criando uma linguagem de entendimento mútuo. Nós precisamos concordar em quais coisas precisamos concentrar nossa atenção para mudar, e em quais coisas nós devemos apenas dizer, “Obrigada, Deus. O que nos deste é lindo assim como é.”

Então, supondo que concordamos que um dos problemas a ser tratado seja o fato das crianças estarem reprovando nas aulas de Inglês. Agora seria fácil dizer, “Posso recrutar alguém da Inglaterra ou Estados Unidos para vir ensinar?” Mas primeiro deveria perguntar, “Há algum recurso na comunidade?”

Alguém pode dizer, “Minha filha estuda Inglês e ela está indo bem. Ela poderia ensinar as crianças.” Mas talvez ela precise trabalhar para se sustentar. Poderia a comunidade se unir para pagá-la? Este tipo de processo é muito diferente de vir para “mudar o mundo”. Nós não queremos que nossos vizinhos nos vejam como salvadores – eles devem nos ver como seus parceiros, seus facilitaderes, seus amigos.

Nós oramos, “Seja feita sua vontade na terra como no céu.”  Isso não implica em mudar o mundo?

Eu diferencio “mudança” de “transformação”. Mudança pode vir como um resultado de poder. Se você tem o poder – o poder de recursos superiores, tecnologia, conhecimento, contatos – você pode trazer um certo tipo de mudança. Mas se você usar o poder para colocar o que você tem goela a baixo nas pessoas, você nunca, nunca as verá  transformando-se. Ao contrário, você as vê se adaptando. Mas há algo sobre “transformação” que implica num processo que não é feito a alguém, mas num processo em que ambos começam a criar uma nova linguagem em comum, um novo mundo em comum, um novo entendimento em comum.

Então a transformação que precisa acontecer deve ir nas duas direções.

Exatamente. Não é “Vamos transformar esses pobres coitados” mas “Vamos ver como eles e nós seremos transformados!”

De forma alguma estou sugerindo que Americanos não são necessários no México. Nós precisamos mais desse relacionamento de transformação mútua. Mexicanos se sentem negligenciados, às vezes tão desprezados pelos seus vizinhos Americanos.

Ver os Americanos cavando ao seu lado, visitando suas casas, trazendo presentes de Natal, sentando-se com eles e lhes dando atenção, perguntando sobre seus filhos – todo ano lembrando de seus nomes – faz eles acreditarem que Deus tem uma comunidade de crentes que realmente se importam.

Essa é a forte linguagem do amor."

* Copyright © 2007 by the author or Christianity Today International/Leadership Journal.
Fall 2007, Vol. XXVIII, No. 4, Page 52n