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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sexo não é água (2002?)

Vez por outra assisto, ao lado de dois filhos adolescentes, programas da MTV que abordam questões de sexo. Entendo que assistir e trocar idéias com eles são o melhor caminho para ajudá-los a desenvolverem o senso crítico e, consequentemente, escolherem melhor os caminhos da vida. E a cada programa percebo que, saindo do extremo da repressão para o extremo da liberação, continuamos a manifestar nossas doenças no trato das questões sexuais.

Admitimos que a forma como o assunto foi tratado ao longo da história não foi eficaz em seus propósitos. A quantidade de casais infelizes, de casamentos desfeitos e de indivíduos com neuroses oriundas da maneira como lidam com a sexualidade é incalculável e persistem a despeito dos nossos discursos romanticamente moralistas. Tal discurso não impede deslizes sexuais e seus efeitos nocivos na vida de terceiros e até da sociedade. A experiência do rei Davi, o homem segundo o coração de Deus, de Bill Clinton, ex-presidente do país mais rico do planeta e de milhares ilustres desconhecidos, comprova isso.

Nas igrejas, a repressão ao desejo tem sido o caminho mais indicado nas poucas vezes em que o assunto é tratado, sendo a demonização do sexo, sua expressão maior. Para alguns, o desejo sexual deve ser encarado como de origem pecaminosa, demoníaca até, e, por isso, deve ser exorcizado com penitências, jejum e oração. Em vez de encararem os sentimentos sexuais como inerentes à constituição bio-psíquica humana para, a partir daí, ajudar a canalizá-los construtivamente, bloqueia-se o canal do diálogo. O alerta para os perigos do sexo é tão extremista que, mesmo sabendo tratar-se de obra divina, o melhor é ficar bem longe dele. A julgar pelos discursos, em matéria de sexo nossas igrejas estão entrincheiradas, na defensiva.

Em posição oposta estão os que defendem a liberação. Como o moderno é ser (neo) liberal, há muita gente conservadora em casa, falando de sexo como água na mídia. Para estes, a necessidade sexual deve ser encarada da mesma forma como a necessidade de beber água. Se você está a fim, basta encontrar alguém que satisfaça suas necessidades e pronto. É só não esquecer a camisinha. Mas as coisas não são tão simples assim. Sexo não é água, nem corpos, copos descartáveis. Pessoas amam, pensam, sentem, reagem, interagem e se apegam; têm história; têm passado, presente e futuro; têm família, amigos e colegas; sonham em ser amadas, detestam ser usadas. Além disso, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada causam transtornos e mudam o rumo da vida dos envolvidos e dos que os cercam.

Se a repressão e a liberação são igualmente prejudiciais a alternativa é abrir-se ao diálogo franco e conscientizador, começando na própria família. Abrir-se ao diálogo é procurar sentir e entender os dilemas do outro; é admitir, honestamente, que todos estamos sujeitos a enfrentar situações cuja dificuldade de lidar com a sexualidade é real; é não apresentar-se com um anjo que, por ser assexuado, não enfrenta dificuldades na área; é não ter medo de admitir as próprias fragilidades; é ser ajudador e não juiz ou legislador da vida alheia.

Já é tempo de rever posições, de parar de repetir chavões conservadores ou liberais e de jogar para a platéia, priorizando o IBOPE. Sexo não é somente uma questão moral, de costume. Tem também implicações emocionais, sociais e éticas que precisam ser consideradas. Sexo não é água!

sábado, 25 de setembro de 2010

A mídia comercial em guerra contra Lula e Dilma

Por Leonardo Boff

Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso” pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.
 

Esta história de vida, me avaliza fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa.
Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.
Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública.

São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, em que se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do país, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascendente como Lula.

Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de “fazedores de cabeça” do povo.

Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceitual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros.

De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa se fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, a melhorar de vida, enfim.

Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão social e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome.

Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil.

Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. 
A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela Veja faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais, não somente com referência à terra, mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista? Ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes?

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

Teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Eleições 2010: A Grande Imprensa Como “Partido de Oposição”

Por Robinson Cavalcanti

"Durante o nosso período monárquico (1822-1889) a nossa imprensa seguia o modelo europeu, com cada jornal assumindo abertamente a sua posição política, ideológica ou partidária. Em quase todas as Províncias do Império do Brasil, por exemplo, havia um jornal do Partido Liberal, ainda hoje subsistindo no Estado do Pará. Esse modelo continua sendo adotado no Velho Mundo até os nossos dias. Isso favorece a opção do comprador-leitor, e é muito mais honesto e transparente.

Com a República, fomos, progressivamente, trocando o modelo europeu pelo norte-americano, do jornal-empresa, aparentemente “neutro”, mas, no geral, formando todos um cartel ideológico dos grupos dominantes. Se hoje mais de 80% da opinião pública nacional é formada por apenas uma emissora de televisão (lembrar a “edição” do debate entre Lula e Collor no segundo turno das eleições de 1989), a imprensa escrita nacional é hegemonizada por apenas três jornais: Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo (lembrar o famoso “Diferencial Delta”, que ia roubando a primeira eleição de Brizola ao governo do Rio de Janeiro).

Temos denunciado essa cartelização ideológica e que não temos liberdade de imprensa, mas liberdade de empresa, que qualquer tentativa de quebra desse oligopólio ou a criação de qualquer mecanismo social de controle é violentamente atacado como “estatismo”, “retrógrado”, “ditadura”, “chavismo”, e coisas piores, e os caras continuam a deitar e rolar incontrolados, manipulando e alienando, em relação promíscua com os poderes e os poderosos.

Pois bem, nada como uma confissão sincera. Na semana passada, comentando o quadro das eleições presidenciais que se aproximam, uma das diretoras do jornal Folha de S. Paulo afirmou com todas as letras que, diante de uma oposição fraca, os jornais desempenharão o papel de partidos de oposição. Quer dizer, não teremos um mínimo de isenção informativa nesse pleito, mas uma “imprensa engajada”... contra o atual governo federal.

Não estamos defendendo o governo Lula (longe disso). Como cidadão, já tenho outra candidata para o primeiro turno, que não é a que ele tirou do seu colete. Mas, partido é partido e imprensa é imprensa, e o nosso povo não merece isso, e deve ser alertado. Muita coisa braba pode rolar pelas páginas esse ano.

Esse modelo “norte-americano” de imprensa-empresa pretensamente “neutra”, ou “apartidária” é mesmo uma farsa. Lá também está indo na mesma direção, com a Fox, por exemplo, como a “Pravda” da direita republicana.

No Brasil, falta opção para os leitores, e temos inveja dos cidadãos-leitores europeus.

Preparem-se para a manipulação. O jogo dá sinais que vai ser sujo.

E que Deus tenha piedade desse País!"

domingo, 11 de abril de 2010

Diálogo entre opostos em Cuba

Achei muito interessante o texto que segue, seja pelo conteúdo em si (e a relação com o que ocorre em alguns eventos religiosos conservadores ou progressistas), seja pelo contexto social cubano onde foi produzido. 

"Entre las estrategias más usadas por el discurso oficial en Cuba está la de separar a los ciudadanos en compartimentos no conectados. En la medida que cada uno se niega a escuchar al otro, no pueden constatar que tienen observaciones afines sobre su realidad y deseos confluentes de mejorar el país. Por eso se sataniza al crítico y se le impide a los periodistas oficiales invitarlo a los estudios de la televisión a participar en esos paneles aburridos donde todos tienen el mismo punto de vista. Se repite la táctica de “echar a pelear” a personas que sentadas frente a una taza de café confirmarían sus afinidades en lugar de ahondar en sus diferencias. Siempre que escucho denigrar a alguien con adjetivos encendidos al estilo de “mercenario” o “vendepatria” me percato de que el emisor de tantas calumnias teme –en su interior– que en un debate no pueda dejar los gritos y argumentar sus ideas. Los que ofenden son, generalmente, los que temen a la sana polémica por estar carentes de razones."

domingo, 7 de fevereiro de 2010

ETNIA & RELIGIOSIDADE Quando a imprensa perpetua estereótipos

 Por Rosiane Rodrigues
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=575FDS007
Jornalistas são pessoas. Por mais distanciamento e olhar crítico, os "operadores da imprensa" são produtos da sociedade em que vivem. Parece óbvio, mas observar em que contexto social nasceram e cresceram editores e repórteres é o primeiro passo para entender por que a maioria esmagadora dos veículos de comunicação presta um desserviço à liberdade religiosa no Brasil. E por que, mesmo diante de afirmações perturbadoras, somos tentados – e levados! – a jogar a opinião pública a perpetuar preconceitos e promover a discriminação.

Há pouco mais de um mês, o país se chocou com os casos das agulhas. Duas crianças – uma na Bahia e outra no Maranhão – teriam sido alvo de rituais macabros, conduzidos por sacerdotes de matriz africana. Dezenas de agulhas foram introduzidas nos corpos das vítimas. Um outro caso, em São Paulo, há cerca de duas semanas, dava conta de uma mulher que assassinou a empregada porque queria lhe tomar a filha recém-nascida. O corpo da jovem foi encontrado com uma vela na boca e sinais de violência. O fato foi atribuído a um ritual de magia negra, orientado por um pai de santo (?) que chegou a prestar depoimento na delegacia.

O interessante dos três casos é que nenhum sacerdote – seja da umbanda, do candomblé, do catimbó, do omolokô, Xangô de Minas – tenha sido ouvido ou consultado. Salvo o jornal Meia Hora (RJ), que após publicar na capa a manchete "Patroa mata empregada em ritual de magia negra", sobre o assassinato ocorrido em São Paulo, ouviu um sacerdote de matriz africana que definiu o caso como um crime bárbaro que absolutamente não tinha ligação com qualquer prática da umbanda e do candomblé. A entrevista com o religioso saiu na edição seguinte, sem o mesmo destaque.

Ancestralidade e lógica familiar
Mas, por que ouvir uma fonte que parece nada ter a ver com a notícia? Primeiro para ter certeza de que os acusados são realmente sacerdotes ou adeptos de algum segmento da religiosidade afrobrasileira. Segundo para saber o que pensam "pais e mães de santo" a respeito dos episódios. É uma lógica simples: ou todos os jornalistas são profundos conhecedores da religiosidade afrobrasileira e por isso autorizados a afirmar a veracidade e origem do sacerdote e suas práticas ou estão faltando mães de santo no país. Não creio em nenhuma das duas hipóteses.

E este é o "xis" da questão. Quem, se não os próprios sacerdotes e adeptos das religiões de matriz africana, pode ratificar a origem de um sacerdote? Quem, se não os próprios ciganos, pode afirmar a ascendência de alguém que lê cartas? Não basta um cocar na cabeça para ser índio. Assim como roupas brancas e "farofas em alguidares" não bastam para titular quem quer que seja como "pai ou mãe de santo". A estruturação organizativa das comunidades que prescindem de ancestralidade possui uma lógica diferente. Seus praticantes precisam necessariamente pertencer a uma comunidade ou família. Na natureza não há geração espontânea. Para ser pai é necessário ter sido filho. E todo sacerdote ancestral (ialorixá, ogan, babalorixá, pajé, baba de umbanda) tem responsabilidade para com seus iniciados.

Digamos que as notícias fossem um pouco diferentes. Os acusados dos crimes se declarassem como padres da Igreja Ortodoxa ou freiras da Ordem do Sagrado Coração de Maria. O que fariam meus colegas? A resposta seria simples, se não fosse cruel. Ligariam imediatamente para o bispo da igreja ou para a madre do convento e checariam se os acusados são membros daquelas instituições. Até porque, chocados, pensariam que este não é um comportamento digno de um verdadeiro religioso. E – claro! – descreveriam detalhadamente todas as sanções que o sacerdote – se realmente o fosse! – sofreria, além de registrar a indignação de toda comunidade. O fato é que igrejas e outras ordens religiosas são organizadas por uma hierarquia vertical, fáceis de ser acessadas. Algo muito diferente do que acontece com as religiões e etnias que pautam suas tradições pela ancestralidade e lógica familiar.

"Um Cristo louro de olhos azuis"
Há pouquíssimo tempo, se esconder e clamar por justiça divina eram as únicas opções dos seguidores das religiões de matriz africana. Com intuito de garantir suas estratégias de sobrevivência, religiosos e grupos étnicos se inviabilizaram – por séculos! – do ponto de vista da mobilização social e representação institucional. E, a verdade é que, poucos se sentem seguros o suficiente para lidar com jornalistas em situações tensas. A grande maioria se amua em seu cantinho e se sente incapaz de instigar as redações a terem um novo olhar sobre esses conflitos. Mas, mesmo a dificuldade de consultar fontes confiáveis não pode servir de argumento para que uma informação não seja honestamente apurada.

Mais que elucubrar possibilidades, percebam que é impensável para qualquer um que uma freira assassine uma mulher para lhe tomar seu bebê ou que um padre oriente um fiel a introduzir agulhas no próprio filho. Mas, por que tendemos a acreditar que aberrações como essas são possíveis de acontecer com seguidores da umbanda e candomblé? Por que não duvidamos que sacerdotes afrobrasileiros se utilizam de seres humanos em rituais macabros? De que tipo de gente estamos falando? É de gente que faz o mal, que tem pacto com demônios e que por isso se tornam assassinos frios e bestiais? Ou de pessoas religiosas, pais e mães de famílias, cidadãos comuns em busca de sua religação com o Criador, com liturgias e especificidades próprias?

Levamos para as redações uma gama inimaginável de (pré)conceitos que nem nós mesmos sabemos. Somos todos nascidos, criados e formados numa sociedade que ao colocar em prática suas idéias de dominação, perseguiu a religiosidade dos descendentes de escravos por 500 anos e que se pensa religiosa e filosoficamente a partir de conceitos europeizados do Cristo "loiro de olhos azuis" e do primitivismo das sociedades ancestrais. A partir desta reflexão superficial, não é difícil entender o porquê de não nos preocuparmos em apurar sumariamente os dados que chegam às redações.

O princípio do contraditório
Nem sequer nos perguntamos: será que existe uma religião ou grupo étnico que sobreviva por meio de assassinatos e bestialidades? O que pensam os adeptos e sacerdotes desses segmentos quando alguém, se intitulando religioso ou membro da comunidade, assassina, rouba ou estupra num suposto ritual? Isso é prática religiosa? Ciganos roubam, mesmo, crianças? Muçulmanos são treinados para explodir bombas? Umbandistas enfiam agulhas em bebezinhos?

Assim também fica fácil entender a lógica utilizada por segmentos fundamentalistas que – possuidores de centenas de canais de rádios e TVs – alicerçaram suas doutrinas e liturgias calcadas na demonização do conteúdo simbólico das comunidades ancestrais. As igrejas neopentecostais apenas reforçam os conceitos aos quais fomos subjetiva e culturalmente doutrinados a aceitar. Desde os tempos da Coroa ouvimos que os rituais ciganos, africanos e indígenas são primitivos, praticados por seres sem almas – e, por que não? – acometidos de doenças mentais e pouco inteligentes. É por isso que o trabalho de "evangelização" da intolerância (desenvolvido por bispos, pastores e apóstolos) nos púlpitos eletrônicos é tão eficaz.

A sociedade brasileira conhece muito pouco de suas origens e ignora conceitos elementares de segmentos que foram (e são) primordiais para a sua construção. Religiosos e comunidades étnicas acreditam que fazer valer o princípio do contraditório em notícias de crimes envolvendo supostas práticas ritualísticas é, ao mesmo tempo, diminuir o nosso próprio desconhecimento relativo aos grupos minoritários e informar genuinamente – sem correr o risco de sedimentar e perpetuar preconceitos.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Grupo de Trabalho - GT da Transparência Batista


Compartilho com os batistas e com todos os cidadãos brasileiros interessados na questão da transparência em nossas instituições públicas, o documento que gerou a criação de um GT que estudará a filosofia e formato dos relatórios das organizações executivas e auxiliares da Convenção Batista Brasileira, visando torná-los ainda mais tecnicamente transparente.

Agradeço aos líderes de diversas regiões do país que, acreditando na proposta, subscreveram o documento, possibilitando que fosse examinado pela Comissão de Assuntos Especiais e aprovado pela 90 Assembléia Anual da CBB, reunida em Cuiaba.
Eis a composição do GT:

Valseni José Pereira Braga (MG) - relator



Wagner Afrâniou Goulart (DF)


Edvar Gimenes Oliveira (BA)


Vanias Mendonça (AM)


Lourenço Stelio Rega (SP)

Tecerei novos comentários ao assunto posteriormente.
  xxx
À Comissão de Assuntos Especiais da 90 Assembléia da CBB


Assunto: GT da transparência batista


Os convencionais signatários deste documento, vêm, na forma do Estatuto e Regimento da CBB, submeter a esta magna assembléia, as seguintes considerações e proposições:


Considerando que, para que se tenha conhecimento da realidade das organizações executivas e auxiliares da CBB através dos relatórios, esses precisam ser tecnicamente transparentes;


Considerando a impossibilidade dos mensageiros das igrejas cooperadoras da CBB  de apresentarem recomendações eficientes e eficazes às organizações (ou mesmo contribuir para um planejamento organizacional – estratégico, tático e operacional) se não houver dados comparativos referentes a determinado período;


Considerando a impossibilidade dos mensageiros das igrejas cooperadoras da CBB, de tomarem decisões sólidas sem informações objetivas e transparentes;


Considerando que as exigências contidas no Art. 54 do Regimento Interno, não são claras quanto às informações que precisam ser dadas, para que a Assembléia tenha condições efetivas de conhecer a realidade das organizações;


Considerando que o formato dos atuais relatórios privilegia mais relatos de atividades do que de dados, em alguns casos até sem relação objetiva e clara com a missão e visão estratégica das organizações e da própria CBB;


Considerando a ausência, nos relatórios apresentados à CBB, de dados comparativos com anos anteriores para que se possa avaliar o desenvolvimento das organizações;


Considerando as experiências negativas na área econômico-financeira, nos últimos anos (Juerp, Jumoc, Juratel, OJB, JMN, STBSB e STBNB), sem que os mensageiros das Assembléias dispusessem de informações objetivas para que, a tempo, pudessem recomendar medidas necessárias;


Propomos:


1.       Que a diretoria da CBB nomeie, nesta assembléia, um GT da transparência batista, composto de 5 membros sem vínculos empregatícios com instituições da Convenção, para reavaliar filosofia e forma dos atuais relatórios e propor, na próxima assembléia, um novo formato de relatório que corrija as deficiências supramencionadas;



2.       Que na elaboração do novo relatório, o GT defina os dados essenciais (de finanças, patrimônio, pessoal, produção editorial, atividades gerais, etc.) que cada organização deve apresentar e o período de tempo, para efeito de comparação;



3.       Que, ao resultado deste trabalho, o GT de uma redação adequada à inclusão no Regimento Interno da CBB; 



4.       Que na próxima convocação da Assembléia seja incluída a reforma da cláusula regimental referente ao relatório das organizações.


Cuiabá, 23 de janeiro de 2010
 xxx
Leia aqui a proposta encaminhada pelo GT em janeiro de 2011, em Niterói, encaminhada pelo Presidente da CBB ao Conselho Geral e reapresentada com falha técnica na convocação, em janeiro de 2012 (Foz do Iguaçu) ficando sobre a mesa até janeiro de 2013

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Buenos Aires no Brasil

Para os jornalistas Carolina Beal and Jair Stangler, do  The Guardian, Buenos Aires deve ficar no Brasil.
Pelo menos é o que se conclui da legenda da foto que ilustra a matéria Brazil's evangelical turn sobre a tendência de crescimento dos evangélicos em nosso país.


Young worshippers at the evangelical Church of Jesus Christ is Love in a Buenos Aires suburb, February 2007. Photograph: Enrique Marcarian/REUTERS

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Sarney, Malafaia, dinheiro, corrupção e fé

Ao assistir o vídeo que segue, no qual um senhor por nome Morris Cerullo, faz promessas de prosperidade financeira, no programa de Silas Malafaia, fiquei pensando:

por um lado

temos o Senado Federal liderado por gente envolvida até o pescoço por denúncias de corrupção. Segundo a folha, 27 dos 81 senadores estão sendo processados judicialmente, não incluidos nesse cálculo, lítigios pessoais ou movidos por adversários políticos. Para piorar, as acusações feitas contra o atual presidente José Sarney foram engavetadas pelo relator do Conselho de Ética daquela casa (transformada em covil, conforme palavra usada por Jesus).
(Os homens, da esquerda pra direita são: Dácio Vieira, juiz, José Sarney, acusado de corrupção, Agaciel Maia, ex-diretor do Senando, demitido por envolvimento em corrupção e Renan Calheiros, ex-presidente demitido por acusações de corrupção. Detalhe: o referido juiz - ex-consultor jurídio do Senando - proibiu o Estadão de divulgar as bandalheiras que estão acontecendo no Senado)

Por outro lado

temos o pós-pentecostalismo dominando a mídia, assumindo o rosto "evangélico" e girando em torno do mesmo "deus" - como pode ser visto no vídeo abaixo - que causa a corrupção no senado: o dinheiro.






Para onde iremos nós?
Sabemos que só existem comerciantes da fé porque há consumidores da fé. Se a fé é transformada em negócio é porque há um nicho de mercado formado por aqueles que estão atrás da religião não por causa de Deus, mas por causa do "deus mamom" ou "deus riquezas".
Da mesma forma, sabemos que existe o mundo da corrupção porque existem corruptores e corrompidos, cujas vidas também giram em torno do "deus mamom" ou "deus riquezas".
Pergunto:
que diferença faz a minha fé e a sua neste contexto?
Em que a instituição religiosa da qual faço parte é diferente quando o assunto é dinheiro?
A política interna ou a administração dos recursos das instituições religiosas das quais participo favorecem a corrupção?
E a mensagem que anunciamos favorece o mundo da corrupção ou ajuda a destruí-lo?

domingo, 2 de agosto de 2009

Governo e Religião: a laicidade ameaçada


Por Gilberto Garcia



A imprensa nacional começa a perceber que seu conveniente silêncio está sendo forçosamente rompido pelos fatos que têm se sucedido em relação ao "Tratado Internacional" firmado no Vaticano, em novembro de 2008, pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em nome do Estado brasileiro, e o papa Bento 16, Joseph Ratzinger, representante legal do Estado da Santa Sé, e que resultou no que a CNBB tem denominado Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, em função da polêmica que tem acontecido no Congresso Nacional, o qual possui a legalidade para homologar referido Acordo Jurídico, diante da contundente manifestação contrária de representantes de diversos grupos religiosos e defensores do Estado laico, que é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil.



Este trará benefícios concretos para o clero romano, os quais não são extensivos aos demais grupos religiosos do país, ferindo um princípio jurídico caríssimo ao nosso sistema republicano, que é princípio da isonomia, ou seja, todos os grupos religiosos devem ser tratados pelo Estado de maneira igual, em que pese termos todo respeito pela história, tradição, e, o fato da fé católica representar a opção religiosa da maioria do povo brasileiro, contudo, cremos que o Congresso Nacional não irá ratificar esta "concordata", sob pena de, se o fizer, estar desrespeitando a Constituição Federal de 1988.



Estado ateu e Estado confessional



É importante lembrar que nosso país já adotou o Estado Confessional no período do Brasil-Colônia, de 1500 a 1824, e no Brasil-Império, de 1824 a 1891, quando a religião católica era oficial, como ainda hoje acontece em lugares existe uma religião oficial, tais como, o catolicismo na Argentina, ou na Inglaterra onde a religião anglicana é oficial, e em países islâmicos, os quais consideram a opção religiosa até para efeitos de exercícios de cargos no serviço público, ou em Estados onde se vive o ateísmo como ideologia oficial.



O princípio da Separação Igreja-Estado, vigente em nosso sistema constitucional desde 1891, mantido em todas as constituições seguintes, e de forma contundente na Carta Magna de 1988, fundamenta o Estado Laico, ou seja, o Estado sem religião oficial, sendo uma das maiores conquistas da humanidade, eis que este tipo de construção jurídica nosso país herdou da visão francesa, "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", é exatamente o meio termo, entre o Estado ateu e o Estado confessional.



No Estado ateu impõe-se que a religião deve ser negada e perseguida pelos órgãos oficiais, numa visão unicamente materialista da vida, e com proibições para que os cidadãos possam expressar sua fé de forma pública, na perspectiva de que Deus é uma criação da mente humana e deve ser apagada das esferas sociais, sendo as pessoas incentivadas a buscar o relacionamento numa ótica tão somente humanística e existencial.



Já no Estado confessional há uma espécie de confusão entre os órgãos da administração pública, os poderes executivo, legislativo e judiciário, que são as representações do Estado, e uma determinada religião, sendo esta a religião oficial, pelo que deve ser obrigatoriamente seguida por todos os cidadãos, sendo proibida a opção por qualquer manifestação espiritual que não seja aquela que é professada pelo governo, para todos os efeitos legais.



Tratamento jurídico diferenciado



Desta forma, o Estado laico é o que proporciona o equilíbrio do exercício de fé entre os cidadãos, seja porque não persegue ou proíbe qualquer manifestação religiosa, seja porque não adota oficialmente através de seus órgãos representativos qualquer opção espiritual em detrimento das demais, independente de sua tradição histórica, tamanho do patrimônio, quantidade de fiéis, poderio econômico ou influência política, ao contrário, em nosso caso, com base na Constituição Federal de 1988 é dever do Estado proteger todas as confissões religiosas, inclusive cidadãos ateus e agnósticos.



Por isso, a conquista deste Estado sem religião oficial, em nível constitucional, apesar de todas as suas imperfeições, especialmente na inexplicável, sob o prisma da laicidade, existência dos diversos feriados religiosos, e ainda, na tolerância, que fere o princípio da separação Igreja-Estado, de símbolos místicos em prédios e repartições públicas, é um marco legal que não deve ser flexibilizado de forma alguma, exatamente porque ele é a garantia jurídica da convivência pacífica entre os religiosos brasileiros de todos os matizes de fé.




A Constituição Federal de 1988 é peremptória em seu, artigo 19, "É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – Estabelecer cultos religiosos, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público; [...]", e sobretudo no artigo 5º - Cláusula Pétrea -, incisos VI, VII e VIII.


É importante frisar que a Santa Sé é pessoa jurídica de direito internacional público, com sede no Vaticano, que representa de fato e direito a Igreja Católica Apostólica no Mundo, e por isso, este acordo internacional remetido para ser referendado pelo Congresso Nacional, institui um tratamento jurídico diferenciado entre os grupos religiosos na nação brasileira.



Prerrogativas de chefe de Estado



Em nosso sistema jurídico todas as religiões estão igualadas e são sujeitas a regulamentos, tanto por normas constitucionais, como por leis ordinárias vigentes, sendo ao Estado proibido intervir em questões religiosas, espirituais ou de fé, mas devendo normatizar e mesmo fiscalizar a atuação das igrejas e organizações religiosas, nas questões civis, associativas, trabalhistas, tributárias, criminais, administrativas, comerciais, financeiras etc., enquanto agentes atuantes na sociedade civil organizada.



Enfatizamos que nosso foco é tão somente jurídico, pois os demais grupos religiosos, sejam judeus, evangélicos, mulçumanos, espíritas, orientais etc., ou mesmo, ateus e agnósticos, não possuem uma instituição com "status" de Estado internacional que os representem, assim, não haverá possibilidade legal destes pactuarem acordos semelhantes, por isso ele é inconstitucional, eis que rompe com o princípio da isonomia estabelecido na Constituição Federal.



Por isso, ressaltamos que não existem questões religiosas sendo debatidas, e sim, aspectos jurídicos, eis que, vivemos em um país onde temos uma ampla liberdade religiosa, em que todas as pessoas e grupos religiosos usufruem o direito de expressar a sua fé, exercendo sua espiritualidade de forma privada ou coletiva, individual ou publicamente, devendo respeitar os limites impostos pela lei para todos os cidadãos.



Registre-se que, em função do Tratado de Latrão, foi formalizada a existência do Estado da Santa Sé, firmado em 1929, por Benedito Mussolini e o papa Pio 11, por isso, após a eleição pelo Colégio de Cardeais, como determina o Código Canônico, o cardeal Joseph Ratzinger, papa Bento 16, além de líder religioso mundial da Igreja Católica Apostólica Romana, também possui as prerrogativas legais de chefe de Estado.



Requisitos do Código Civil



Acentuamos que este mesmo tipo de tratado internacional é pactuado pela Santa Sé, que é um Estado soberano, para todos os efeitos legais, sendo seu território o Vaticano, em que pese seu tamanho, menos da metade de 1km², localizado na cidade de Roma, capital da Itália, com outros Estados (países), tal como Portugal, onde juristas do nível do professor-constitucionalista Joaquim José Gomes Canotilho, entende ser inconstitucional.



Assim é preocupante quando a República Federativa do Brasil aceita pactuar um Tratado Internacional com o Estado da Santa Sé, desconsiderando o princípio da Separação Igreja-Estado, estabelecido em 1891, instituindo um tratamento diferenciado do já contemplado na Constituição Federal e pelas leis ordinárias para todos os grupos religiosos, propiciando verdadeiramente um novo Estatuto da Igreja Católica Apostólica no Brasil.




Apontamos algumas das incoerências jurídicas contidas no acordo internacional, e das efetivas consequências legais para o exercício da fé nas diversas manifestações espirituais, que em face de questões históricas serão alijadas de usufruir os benefícios concedidos a Igreja Católica no Brasil, inseridos no instrumento legal que contém 20 artigos, o qual pode ser acessado na íntegra no portal do Ministério das Relações Exteriores.



Entre outros ressaltamos o artigo 3º, que reafirma a personalidade jurídica da Igreja Católica e de suas instituições, como a CNBB, dioceses, paróquias, prelazias territoriais ou pessoais, institutos religiosos etc., contido no seu parágrafo 2º, que estas deverão obedecer a legislação brasileira para efeitos de criação, modificação ou extinção, reconhecendo a submissão destas cumprimento dos requisitos contidos no Código Civil, com relação as Igrejas e Organizações Religiosas.



Incoerência jurídica



No artigo 6º é estabelecido que o Estado passe a colaborar na preservação do patrimônio cultural, histórico e artístico, e para tanto é claro despenderá de verbas públicas; no artigo 11, que regulamenta o ensino religioso, constituindo disciplina nos horários normais do ensino fundamental das escolas públicas de ensino fundamental; no artigo 12, que prevê que as sentenças dos tribunais eclesiásticos tenham validade jurídica em matéria matrimonial, sendo estas equiparadas, para todos os efeitos legais, as exaradas pelo Poder Judiciário pátrio.



Destacamos que no artigo 14, o qual fixa que nos Planos Diretores das Cidades deverão ser reservados espaços destinados a fins religiosos ao culto católico; no artigo 15, a imunidade tributária das pessoas jurídicas eclesiásticas, sendo esta extensão do título de filantropia concedido só pelo fato de ser uma entidade católica apostólica ligada ao clero romano, quando no caso das demais confissões religiosas esta permanece restrita tão somente as Igrejas, e todas as demais instituições, religiosas ou não, permanecerão necessitando enfrentar um salutar processo administrativo de comprovação de sua efetividade social, para que receba o beneplácito fiscal.




E, ainda, no artigo 16, traz uma das grandes inovações que procura "blindar" a Igreja Católica de Ações no Judiciário Trabalhista, quando pretende que os princípios do direito do trabalho, os quais norteiam as relações laborais sejam olvidadas no que tange aos padres e suas dioceses, bem como, religiosos e religiosas que labutam em seus respectivos institutos aplicando-se lhes a Lei do Voluntariado, à qual não contempla a atividade religiosa.



Alguns juristas sustentam a vigência do Decreto-Lei 119-A, de 1890, quando ele em seus artigos 5º e 6º assegura a continuidade do sustento eclesiástico que os religiosos recebiam do governo do Império, contudo ele manteve esta incoerência jurídica, que é inconstitucional, por isso, o Estado laico que nasce com a Constituição Republicana de 1891, e no artigo 20 do acordo consta que as situações jurídicas existentes e constituídas ao abrigo deste decreto do governo provisório sejam ressalvadas.



Ação de inconstitucionalidade



Ainda neste artigo 20, é reiterado de forma inconstitucional um tratado internacional firmado em 1989, entre a Santa Sé e o Brasil, com relação as Forças Armadas, na qual os capelães evangélicos são chefiados por um ordinariado católico, estabelecendo um privilégio no comando da assistência religiosa nas Forças Armadas, o qual também fere o princípio da isonomia constitucional, já dentro da vigência da Carta Magna de 1988.




Assim, a laicidade vigente na nação brasileira, que faz do Brasil, um país sem religião oficial, ficará ameaçada se aprovado o acordo internacional firmado pelo governo federal com a Santa Sé, pelo órgão que a Constituição em seu artigo art. 84, inciso VIII, concede poderes específicos para homologá-lo, anulará de forma definitiva o Princípio da Igualdade Constitucional das Religiões em nosso país, as quais são igualadas pelas normas legais.



Desta forma, entendemos singelamente, que se o Congresso Nacional ratificar este Novo Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, restará tão somente as lideranças religiosas de todas as outras expressões espirituais impetrar uma ADI - Ação Declaratória de Inconstitucionalidade do Acordo Jurídico junto ao Supremo Tribunal Federal, o qual é o único órgão que poderá manter o princípio da Separação Constitucional Igreja-Estado, resguardando a laicidade do Estado brasileiro conquistado na Constituição Republicana de 1891, um dos fundamentos da República Federativa do Brasil.

sábado, 1 de agosto de 2009

Mudanças nas estruturas da CBB (II) (2007)

Ao ser eleito, mais uma vez, em 2006, para o Conselho do Seminário do Norte, compartilhei com o diretor da instituição, em seu escritório, minha falta de ânimo com a estrutura vigente. É que, com 35 anos ininterruptos de exercício de liderança em igreja local ou estrutura denominacional, já trabalhei dos dois lados: presidi e fui presidido; fui conselheiro e executivo. Já experimentei, portanto, o que seria ser “vilão” ou “vítima” do modelo.

Talvez por isso coloquei-me ao lado dos que se alegraram com as reformas, mesmo criticando alguns aspectos da forma. Como educador, aprendi que devemos valorizar tanto o processo quanto o resultado.

Se estivesse executivo, destacaria vantagens e desvantagens gerenciais das mudanças. Como não estou, destaco os aspectos políticos. Assim, meus comentários nesta parte do texto têm como alvo alguns resultados políticos.

O Perfil do Conselho Geral

Politicamente, a mudança mais importante tem a ver com a composição do Conselho Geral. A Assembléia da CBB ampliou sua perda de controle sobre o perfil do Conselho Geral. Enquanto a Assembléia elegerá 25 componentes do Conselho (8 membros da diretoria administrativa + 12 membros renovados anualmente + 5 relatores de comitês), 70 serão eleitos por outros caminhos (5 nomeados pelo próprio Conselho (executivos da JMM e JMN e do STBNB, STBSB, STBE) + 3 eleitos por organizações auxiliares (Jumoc, UHBB, UFMBB) + 62 escolhidos pelas convenções regionais (presidentes e executivos)).

Assim, salvo melhor juízo, de um total de 95 conselheiros, a Assembléia da CBB terá poderes sobre o perfil de apenas 26%. Isso tem pelo menos duas boas implicações:

O Fortalecimento do Pluralismo

A primeira implicação disso é que estamos livres de articulações como a realizada na Convenção do Sul dos Estados Unidos, há 26 anos.

Lá, quando os fundamentalistas assumiram a direção da Convenção, iniciou-se um processo de uniformização do pensamento batista (contrariando nossa história e princípios de pluralidade). Os conselhos passaram a ser formados por aliados do pensamento único que, por sua vez, passaram a eleger somente aliados para a direção das organizações que, por sua vez, passaram a eliminar funcionários (especialmente professores de seminário e missionários) que divergiam da política do pensamento único.

O pensamento expresso nas salas de aula dos seminários e na literatura publicada passou a ser único e a visão de mundo dominante naquela convenção, preto e branco. (Tem gente de lá investindo em gente de cá, através de literatura e conferências, esperando que o mesmo acontecesse em nossa Convenção).

No modelo adotado pela CBB, para haver pensamento único seria necessário articular todas as igrejas na escolha de mensageiros, todas as assembléias estaduais e organizações auxiliares por ocasião de suas eleições presidenciais, além dos conselhos regionais na hora da escolha de seus executivos. Impraticável!

A visão do Plano Cooperativo

A segunda é que o modelo ajuda a aumentar a consciência das convenções estaduais quanto ao princípio da lealdade na administração e envio do Plano Cooperativo.

Esclareço: as igrejas batistas são filiadas a duas convenções: a estadual e a nacional. Para facilitar a remessa, num tempo em que não havia transferências on-line, e fortalecer a cooperação, ficou decidido que, em vez das igrejas enviarem metade para cada Convenção, elas enviariam tudo para a Estadual que, por sua vez, repassaria 50% para a nacional.

Ocorre que tal princípio foi rompido unilateralmente, através das Assembléias Estaduais, que deixaram de repassar 50% do Plano Cooperativo recebido das Igrejas, reduzindo o repasse para 20% ou menos. Sem falar na retenção feita por alguns escritórios estaduais que, para saldar déficits, utiliza o dinheiro que seria da CBB, sem sequer informar a executiva nacional. Não discuto a questão do percentual, mas que a decisão unilateral é desleal, isso é.

O quorum das reuniões do Conselho *

Se por um lado a representação dos campos aumentou, há um detalhe que merece reflexão, relacionado ao quorum das reuniões do Conselho. Conquanto seja composto por 95 conselheiros com direito a voto, suas reuniões poderão acontecer com a presença de apenas 14, em primeira convocação ou 11 em segunda, sendo que para nomear ou exonerar o Diretor Executivo bastam apenas 15.

Qual a razão de uma reunião acontecer até com 12% dos membros? Provavelmente se deve ao fato de 70 dos 95 conselheiros não terem suas viagens financiadas pela CBB e sim pelas convenções que representam.

Assim, apesar da impressão de que a representatividade aumentou, na realidade não há garantia de que presidentes e executivos das regionais se farão presentes, pois isso depende das possibilidades financeiras e interesse de cada convenção. Essa é a única justificativa que enxergo para quorum tão baixo.

Como conseqüência do não financiamento pela CBB e possibilidade de funcionamento com, inclusive, 12% dos conselheiros, as convenções situadas mais próximas da sede do Conselho (coincidente as que têm receitas maiores e custos de transportes menores) são beneficiadas, fortalecendo o domínio do sudeste nas decisões de uma convenção que é de abrangência nacional.

A Nomeação e o Salário dos Executivos

Outra mudança importante tem a ver com a nomeação dos executivos pelo Conselho e não por diversos conselhos. Um dos primeiros efeitos disso será quanto ao salário deles. Há instituições que enfrentam dificuldades para escolher executivos por falta de condições financeiras. Se executivos não podem dar tempo integral, em algum ponto a qualidade de suas ações será prejudicada. Não defendo salário igual para todos, muito menos discrepância absurdas. Com o novo modelo, as comparações, nas reuniões, serão inevitáveis e critérios mais justos terão que ser estabelecidos.

Obviamente, o Conselho precisará estar atento para uma articulação especial com os seminários do Norte e Equatorial, por razões geográfico-culturais. Mas isso não é difícil de se resolver.

Os critérios de Composição dos Comitês

A questão da nomeação dos Comitês (palavra importada das estruturas americanas) pelo Conselho Geral, através de critérios técnicos é outro aspecto que julgo importante. Na parte anterior deste texto já defendi que técnico e político são categorias diferentes, mas inseparáveis. Assim, defenderei dois aspectos em relação a isso: 1) que os critérios que definirão a escolha técnica sejam explicitados; 2) que haja garantias de que os técnicos que preencherão os comitês sejam oriundos das diversas regiões do país.

Em relação ao primeiro ponto, o Conselho Geral deverá apontar explicitamente qual a formação ou experiência de cada indicado e que necessidade técnica do Comitê se busca atender. Falo da necessidade do comitê porque, é óbvio que um Comitê de Missões, por exemplo, não precisa ser formado apenas por missiólogos ou ex-missionários para ser técnico. Nem seria técnica – mas política - a escolha de alguém por ser de uma igreja que envia ofertas acima da média para missões (ofertas altas e ardor missionário não são, necessariamente, sinônimos. Pode ser apenas retrato de má distribuição de renda). O funcionamento das organizações missionárias exige, também, pessoas com conhecimento em, por exemplo, administração, contabilidade e finanças, relações públicas, inclusive internacionais.

Quanto ao segundo, justamente por não dissociar o técnico do político, por ser “sudestino” por nascimento e nordestino por opção e conhecer batistas de todas as regiões do país, sei que pessoas qualificadas estão presentes em todas elas e devem ser aproveitadas. Este é o preço de querermos ser uma Convenção Batista Brasileira.

Comitê de Ação Social e Necessidade de Câmara Setorial

A definição, em plenário, da criação do Comitê de Ação Social foi outro ponto relevante. Mudar a mera condição de departamento do Conselho para Comitê fará diferença. Essa diferença será ainda mais significativa quando a Câmara de Ação Social, para tratar do assunto nas assembléias, for incluída no Regimento Interno. Num país com os graves problemas sociais como o nosso, uma denominação que se preze, independente de concepções teológicas, não poderia deixar tal assunto em segundo plano.

Papel das Comunicações

O papel das comunicações em nosso “projeto” denominacional ainda não mereceu maior atenção. Atenção especial precisa ser dada não somente quanto ao possível uso da televisão, rádio ou internet, mas também, por exemplo, da estrutura de funcionamento d’O Jornal Batista. A meu ver ela é um retrato da importância que damos às comunicações.

Finalizando, há uma série de outros aspectos interessantes para nossa reflexão e penso que o povo batista deveria ser convocado a emitir suas opiniões sobre as mudanças, no espírito de ajudar nossos líderes. Manifestações públicas são geradoras de reflexão, favorecem o despertar de idéias e possibilita surgimento de soluções.

Ponto final (2006)

Há alguns anos venho ocupando este espaço, semana sim, semana não, emitindo opinião sobre aspectos que marcam nossas vidas. O objetivo foi abrir brechas de reflexão que nos ajudassem a fortalecer ou duvidar de alguma crença estabelecida.

Inspirado no discurso Paulino, o título “Examinai Tudo” teve por objetivo fortalecer a idéia de que não há nada intocável debaixo do sol. Tudo merece ser reexaminado, pois a vida é dinâmica e sempre nos apresenta possibilidades novas de entendermos conceitos e experiências.

Escrever o óbvio ou novidade, depende de quem lê. Por isso, nunca me preocupei em ser portador da última novidade, muita menos satisfazer especialistas. Se alguma vez consegui dizer coisas velhas tornando-a nova para alguém, me dou por satisfeito.

Durante esse tempo, recebi manifestações de apoio e de rejeição. Tantas vezes, separados por milhares de quilômetros, pude aprofundar, via e-mail, idéias com pessoas que se sentiram fortalecidas, aliviadas até, através de algo que escrevi. Também recebi e-mails de pessoas insatisfeitas, desaforadas, por se sentirem ofendidas por alguma afirmação que contrariou seus conceitos de vida.

Entre ser político e ser sincero, optei pelo segundo. Nesse sentido, durmo em paz com minha consciência pois jamais escrevi algo que não acreditasse, somente para agradar esta ou aquela personalidade.

Por já ter passado a fase dos mitos e também por, nesses quase meio século de vida, já ter visto tantos caírem do pico do prestígio denominacional para a sarjeta do esquecimento, tantos que viviam sendo bajulados, experimentando a solidão, a rejeição, o desprezo, que nada escrevi visando prestígio, nem me mirei naqueles que hoje lá estão. Estar no poder, ter prestígio, é como estar numa gangorra: hora estamos em cima, hora embaixo. Quem está em pé, disse Paulo, que se cuide para que não caia.

Então, entre ser político que discursa para agradar aqueles que lhe interessam e ser verdadeiro, agradando a Deus e mantendo a consciência em paz, optei pela segunda.

Mas, como tudo que começa termina, decidi parar com esta coluna para enveredar por outros caminhos. Não parar de escrever, mas parar para tentar escrever com mais profundidade e consistência sobre um ou dois temas, no campo da ética social e da teologia, em torno dos quais venho refletindo durante alguns anos. Escrever mais pelo prazer de deixar registrado o resultado de leituras e reflexões do que com pretensões de ser considerado escritor.

Na verdade, a idéia é trabalhar dois temas já amplamente debatidos e publicados, porém, com minhas percepções e palavras. Acredito que a questão não é escrever ou não sobre temas que outros já escreveram, mas escrever de forma que determinado público possa ter acesso devido à linguagem adotada.

Bem, parar com a coluna não significa deixar de enviar textos para apreciação da redação d’OJB. Significa apenas não ter o compromisso de enviar semana sim, semana não. Por isso, tanto os que gostavam do que escrevia nesta coluna, quanto os não me incluíam no seu rol de preferidos, vez por outra me encontrarão nas páginas deste centenário semanário.

Registro, então meus agradecimentos aos que investiram parte do seu precioso tempo lendo o que escrevi e aos dirigentes d’OJB que, num espírito de coerência com os princípios de democracia e liberdade que caracterizam historicamente nossa denominação, sempre publicaram, sem censura, os textos por mim produzidos.

Coisas da vida (2003)

“Pessoas brilhantes falam sobre idéias; pessoas medíocres falam sobre coisas; pessoas pequenas falam sobre outras pessoas. Todos nós já tivemos nossos momentos brilhantes, medíocres e pequenos. O importante é saber em qual deles estamos acumulando milhagem”(Autor desconhecido)
Há uma compreensão de que a vida humana se desenvolve em torno das seguintes dimensões: espiritual, familiar, educacional, econômica, política e do lazer. Sendo assim, qualquer pessoa desejosa de ver a vida florecer, deve investir na melhoria da qualidade dessas seis dimensões. Essa divisão da vida em áreas é importante para fins de estudo, compreensão e desenvolvimento, mas pode provocar problemas.

Um problema é o que nos leva a supervalorizar uma ou outra dessas dimensões, em detrimento – em prejuízo – da demais. Como consequência, encontramos, por exemplo, pessoas com a conta bancária cheia de dinheiro, mas com a existência vasia de significado e o coração paupérrimo de paz, amor, alegria, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio e outros aspectos que são produzidos em corações ricos da presença de Deus.

Outro, tão sério quanto o anterior, se fundamenta numa compreeensão equivocada de que essas áreas subsistem separadamente, isto é, sem que uma se relacione com a outra. Ainda que, numa escala de valores, uma possa ser considerada mais importante do que outra, o desequilibrio na valorização produz danos ao individuo e à coletividade. A título de exemplo, uma pessoa, obesa economicamente, mas magérrima espiritualmente (não confundir com religiosa ou misticamente), pode se transformar num rolo compressor, com elevado grau de periculosidade.

A sociedade em que vivemos supervaloriza o econômico. Nela, como ouvimos com frequência, o homem é respeitado pelo que tem e não pelo que é. Por isso, contrariando o desafio de Charles Chaplin, em O Grande Ditador, ela não produz seres humanos, produz máquinas! E o pior é que cresce o número de igrejas que, esquecendo sua missão precípua de fomentar o desenvolvimento espiritual e sua relação positiva com as demais dimensões, entraram na dança do Mercado e estão transformando suas sedes em ponto comercial, cujo produto principal é a venda de ilusão, travestida de misticismo pseudo-espiritual, explorando crentes-clientes que não enxergam ou não querem enxergar outras possíveis causas de seus problemas, que não pela “ótica cega” do misticismo exagerado.

Diga-se de passagem, se há igrejas explorando, comercialmente, pessoas, isso ocorre porque a dimensão econômica é tão enfatizada e a política está tão desturpada que cresceu o nicho de mercado formado por pessoas em busca de Deus somente como meio de prosperidade material. Em outras palavras, não estão interessadas em Deus, mas no retorno econômico que uma relação com Ele poderia proporcionar. Quando a fome de um se encontra com a vontade de comer do outro, criador e criatura são transformados em meio para se alcançar o “verdadeiro” deus da existência: o dinheiro.

Na tentativa de nadar contra a maré, iniciamos esta coluna visando ser um espaço saudável de reflexão crítica. Tentaremos tratar de coisas da vida a partir de uma perspectiva biblico-teológica. Queremos oferecer aos leitores uma oportunidade de refletir sobre a necessidade de investir em cada uma das dimensões citadas no início, visando a construção de uma vida mais saudável. Não visamos, portanto, fazer proselitismo religioso. Queremos contribuir para aproximação do leitor com Deus e com seus semelhantes, numa relação de amor. Queremos, ao tratar de coisas da vida, ser uma expressão do amor de Deus.
(Publicado no The Brazilian paper, FL, USA)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Na onda do Orkut (2005)

Tornei-me um “orkuteiro”, não posso negar! Que me iniciou foi minha filha, quando ainda morávamos na Flórida. Na época, esta Rede de Relacionamentos (www.orkut.com) que leva o nome do seu criador, funcionava somente em inglês. Porém, com a explosão da adesão dos brasileiros, imediatamente o sistema passou a ser rodado em português. Hoje, com 9 milhões de associados em todo o mundo, tornou-se uma verdadeira febre nacional.

A filiação ao sistema não se dá por iniciativa exclusiva da pessoa. A inclusão é possível, somente através de convite feito por participante. Uma vez incluído, há uma infinidade de comunidades virtuais as quais se pode aderir. Religião, esportes, sexo, literatura, política, enfim, são áreas em torno das quais pessoas, com interesses comuns, se conhecem, se atualizam, discutem temas, se cumprimentam no aniversário, enviam recados...

Resolvi usar esta ferramenta como veículo de ampliação e solidificação de relacionamentos, de estudo bíblico e de incentivo ao debate sobre vários assuntos, especialmente com jovens da Igreja que pastoreio. Navegando por comunidades de igrejas, descobri que em poucas o debate tem sido tão fervoroso, polêmico e construtivo como na da Igreja Batista da Graça

Criei duas comunidades de estudos bíblicos nos quais os participantes são os comentaristas. Neles uns ajudam os outros a entender e aplicar os ensinos das Escrituras. O primeiro com mais de uma centena de participantes, é o texto da Carta de Paulo aos Gálatas. O outro, uma proposta de destaques sobre liderança, a partir do texto de Neemias.

Além dos associados, é incalculável o número de pessoas que podem visitar as comunidades apenas para leitura do que está, como dizem os jovens, rolando.

O que me levou a escrever sobre este assunto, porém, foi a informação de que, em determinada igreja que usa a marca batista, mas cultiva princípios e práticas que fogem aos postulados históricos de nossa denominação, um “apóstolo” demonizou esta ferramenta, proibindo os membros de “sua” igreja de se associarem ao Orkut.

O curioso foi que o motivo alegado para tal proibição não foi o perigo eventual de crentes se associarem a comunidades cuja ênfase seria o erotismo depravado, o uso de drogas e outros malefícios. Segundo ele, a comunidade de nossa igreja estaria estimulando o alcoolismo.

Na verdade o tema “uso de bebida alcoólica” entrou em debate em nossa comunidade e no pleno exercício da liberdade de expressão individual, opiniões divergentes foram registradas, como soe acontecer sobre todo tipo de tema ético. Qualquer leitor atento, porém, perceberá que a ideologia dominante no debate tem sido de desestimulo ao uso de álcool.

Diante disso, lembrei-me do tempo em que crente era proibido de ir ao cinema, ao teatro, de ouvir músicas populares, assistir televisão ou até mesmo ler “gibis”. Por se tratarem de veículos cujo controle das informações e ideologias veiculadas estavam fora do controle das igrejas, parecia mais fácil proibir o contato com eles do que ensinar os crentes a serem capazes, se fosse o caso, de examinarem tudo, retendo o que fosse bom.

Agora, diante de uma interessante ferramenta que democratiza a expressão da opinião e pode ser um meio importante de construção do conhecimento, os dominadores de plantão aparecem lutando para não perder o controle da mente de “seus” fiéis e de mantê-los cativos ao seu modo de enxergar o mundo.

A história se repete. Mudam-se somente os personagens, as ferramentas, a época e os lugares!

Variações sobre O Jornal Batista (2004)

Minhas primeiras lembranças do Jornal Batista remontam à adolescência. Meu tio Messias, um piauiense radicado no interior paulista, era o único da igreja que o assinava. Através dele, por uma certa insistência até, lia um artigo aqui, outro ali…De uma maneira geral, não gostava mas, depois que aprendi sobre público-alvo, entendi a razão: o jornal não era para adolescentes.

Daquela época, dois títulos ficaram gravados. O primeiro, parece-me, “Eu chorei na Rússia”, escrito por “um tal de” Valdemiro Tymchak. Meu tio era um vibrador da, se não me engano, série escrita por ele. Somente anos depois vim saber quem era o referido escritor. Ele se tornaria, para mim, o mais visível símbolo de credibilidade dos batistas brasileiros. Se a imagem que sua vida pública repassa, pudesse ser reproduzida em mais meia dúzia de líderes, em áreas distintas, a realidade denominacional, eclesiástica e nacional, seriam bem melhores.

O segundo título era da coluna “Um pouco de Sol”. Tive um único e frustrante contato direto com seu autor, Rubens Lopes. Ainda adolescente, caipira, de uma igreja pequena do interior, participando de uma atividade da Jubesp na Igreja Batista de Vila Mariana, recebi dele um frio aperto de mão, sem que me olhasse nos olhos. Mas não fiquei com uma opinião distorcida dele por causa disso, nem deveria. Reconheço seu importante papel na história dos batistas.

De sua coluna ficou o título. O título das colunas dizem muito mais dos autores e seus contextos do que imaginamos. Uma leitura psico-teológico-sociológica deles daria muito pano prá manga. Examinai Tudo, por exemplo, retrata sentimentos de inconformação com posturas superficiais diante de realidades opressoras que afetam o viver.

O fato, porém, é que nossos discursos expressam muito mais nossos desejos do que as palavras conseguem expressar. Por isso, imagino que, talvez, “Um pouco de Sol”, nos porões da ditadura militar, significaria para um pastor, o mesmo que o “Afasta de mim esse cálice”, de Chico Buarque de Hollanda, ainda que apontando causas e soluções com símbolos e linguagem diferentes.

Quando seminarista fiz uma assinatura do Jornal Batista. O período coincidia com o fim da ditadura militar e, talvez, com a mais visível investida do fundamentalismo norte-americano sobre instituições batistas brasileiras. O Jornal era tido como politicamente conformista e teologicamente uniformizador. Pensamentos diferentes dos do Editor não eram publicados, dizia-se sob as mangueiras do STBNB.

Ao iniciar o pastorado, passei a enviar alguns textos para publicação que, em sua maioria, foram ‘enlixeirados’. Certa vez comentei isso com o hoje falecido Pr. Luis de Assis, cujos “bilhetes” eram regularmente publicados. Pr. Assis era, além de conselheiro, meu supervisor de língua portuguesa. Mantínhamos um pacto. Todas as vezes em que, na expressão escrita ou oral, cometesse desvio do português oficial, ele me corrigiria. Pois bem, ao comentar com ele sobre o ‘enlixeiramento’ dos textos que enviava, ele disse: “não desanime. Continue escrevendo e enviando. Alguém um dia vai se interessar e publicar...” Até o momento ele acertou...

Com o soprar dos ventos da democracia, O Jornal Batista se reencontrou com a identidade histórica dos batistas. Não tenho idéia se hoje há textos ‘enlixeirados’, mas, pelo menos, percebe-se que há espaço para pensamentos divergentes sobre temas iguais. Quando um escritor questiona pensamentos dominantes, publica-se depois, o pensamento oficial da Convenção Batista – Declaração doutrinária, princípios ou filosofia – ou até o de alguém que, no momento, ocupa função de poder.

Isso demonstra que ter um pensamento oficial e canonizá-lo são coisas diferentes. Significa também que, conquanto tenhamos pensamento oficial, dominante, (e de oficiais), continuar refletindo de forma responsável sobre ele é um imperativo para uma denominação que não deseja fossilizar-se. Assim deve ser pois não há sobre a face da terra um grupo de iluminados ou um indivíduo, a quem a onisciência foi presenteada.

Entre escritores, uns escrevem para impor, outros, para expor pensamentos. Uns escrevem para conquistar leitores, outros para confrontar idéias. Há até os que, narcisicamente, escrevem para se ver num texto. O importante é que o texto, seja qual for a motivação ou o estilo, cumpra a finalidade de levar leitores a pensar. Pensar é essencial para ações consistentes.

Quando o Jornal Batista abre espaço para formas de pensamentos e motivos divergentes e leitores reagem expressando suas opiniões, todos têm oportunidade de refletir e construir, com maior solidez, suas próprias opiniões e práticas. Dessa forma, escritores e leitores contribuem, através da reflexão, para a abertura de caminhos que nos aproximem cada dia mais de estruturas de pensamento e de práticas que expressem valores do Reino de Deus.

Contadores de histórias (2004)

Pelo esforço intelectual e diploma alcançado, eles têm reconhecimento e respeito social, mas continuam sendo seres de carne e osso. Os longos anos de estudo lhes dão ar de autoridade, possibilitam técnicas especializadas de pesquisa e linguagem rebuscada, mas continuam susceptíveis às mesmas paixões que cegam ou distorcem a visão de todo mortal. Refiro-me aos Contadores de histórias ou Historiadores ou como alguns preferem, Pesquisadores de história.

Quando um Contador de história toma a decisão de narrar determinado acontecimento jamais é destituído de sentimentos motivadores. Um dos mais pobres seria contar histórias simplesmente para entrar para a história como Contador de histórias. Outros, mais nobres, seriam o desejo de resgatar verdades, de promover justica, aperfeiçoamento ou de oferecer subsídios para quem quer refletir e influenciar os rumos de seu mundo.

Sendo humanos, eles não são, absolutamente, neutros. Ainda que treinados, suas idiossincrasias influenciam suas narrativas. Se as histórias contadas aconteceram em sua própria época, a neutralidade é comprometida pelo envolvimento politico-emocional. Se são de um passado distante, além de reproduzirem a ótica dos autores do material usado, a própria seleção desse material se limita a objetivos pré-estabelecidos. Curiosidade: se gostam dos atores historiados, enche-os de elogios, esconde seus pecados; se não…

Alguns Contadores não diferenciam o fenômeno social chamado história, da simples tentativa de se narrar, linearmente, a cronologia dos acontecimentos. A história como um fenômeno social acontece de forma “desordenada”, num intrincado jogo de relacionamentos marcados por interesses difusos. Já a narrativa é o ponto de vista de alguém que tenta estabelecer uma ordem cronológica, destacando aquilo que interessa a seus olhos, de acordo com o objetivo de seu trabalho.

É relativamente fácil colocar acontecimentos em ordem cronológica, sem considerar quem eram seus atores, em que contexto social seus papéis foram desempenhados e quais interesses estavam em conflito. Esse tipo de narrativa tem seu valor, mas pouca ou nenhuma contribuição dá à compreensão dos acontecimentos e ao aprendizado que conduz as leitoras a uma reflexão e revisão de posicionamentos.

Quem conta um conto pode aumentar um ponto ou mesmo dar um desconto. Tudo depende da inteligência e dos sentimentos motivadores. Por isso, quem lê histórias deve procurar o maior número possível de pontos-de-vista, a fim de que, num exercício de senso crítico, entenda, inclusive, o que estava por detrás daquilo que não foi explicitamente narrado ou o que se diz através do que não se disse. Como história não se faz somente com documentos é fundamental que se saiba algo a respeito de quem os produziu, para qual finalidade e porque foram destacados.

Motivo e finalidade da narrativa determinam a seleção do material. Tomemos a história de Jesus como exemplo. Que quantidade de informações temos sobre sua vida afetiva, educacional, econômica ou de lazer, por exemplo ? Por que o material disponível se refere predominantemente à dimensão espiritual de sua vida? A resposta está na finalidade dos contadores da história. A ênfase, certamente seria outra, se o objetivo não fosse religioso ou se fosse contada pela ótica de seus opositores.

Se o primeiro solo pisado pelos descobridores do Brasil foi Porto Seguro, pelos portugueses, ou Cabo de Santo Agostinho, pelos espanhóis, é outro exemplo. Os interesses político-econômicos atuais falam mais alto, dizem, do que a documentação que comprova a cronologia dos fatos.

Da mesma forma, por que há polêmica entre qual teria sido a primeira igreja batista no Brasil (ou brasileira)? A controvérsia, certamente, não é somente pela verdade cronológica. Há outras motivações que dificilmente seriam verbalizadas. Tais motivações não são, necessariamente, dos Contadores de história, mas daqueles que tirariam proveito da narrativa para demarcar territórios politico-econômicos, conquistar prestígio, fazer prevalecer ou negar certa identidade...

No mundo adulto dos Contadores de história, tem ainda a história dos contadores oficiais. Eles existem, geralmente, para enaltecer acontecimentos relacionados a atores aliados, instituições para qual trabalham ou grupo ao qual pertencem. Consequentemente, desvalorizam, omitem ou mesmo denigrem a imagem dos opositores. Cabe aos que têm interesses contrarios à história narrada, provar que os fatos não se deram como são oficialmente contados, tarefa nem sempre fácil.

Se contar história é comunicar-se, deve-se considerar, finalmente, o problema da comunicação. Há diferença entre “o que se quer dizer, o que se diz, o que o outro escuta, o que o outro pensa do que escuta, o que o outro diz sobre o que se disse e o que se crê que o outro disse sobre o que se disse” .

Por tudo isso, fique de olho nos Contadores de história, sejam eles o filho narrando a briga com um irmãozinho; o pastor ou ovelha contando sua versão de um conflito eclesiástico; o conjuge narrando problemas conjugais a um conselheiro; o empregado dando relatório ao patrão; o jornalista fazendo uma reportagem ou mesmo a narrativa do especialista que passou pelos bancos de faculdade de história.

Lembre-se de que nem sempre o Contador de história explicita suas finalidades e motivações e, certamente, sua versão é uma versão. Há outras que podem até ser diametralmente opostas.