segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sexo não é água (2002?)

Vez por outra assisto, ao lado de dois filhos adolescentes, programas da MTV que abordam questões de sexo. Entendo que assistir e trocar idéias com eles são o melhor caminho para ajudá-los a desenvolverem o senso crítico e, consequentemente, escolherem melhor os caminhos da vida. E a cada programa percebo que, saindo do extremo da repressão para o extremo da liberação, continuamos a manifestar nossas doenças no trato das questões sexuais.

Admitimos que a forma como o assunto foi tratado ao longo da história não foi eficaz em seus propósitos. A quantidade de casais infelizes, de casamentos desfeitos e de indivíduos com neuroses oriundas da maneira como lidam com a sexualidade é incalculável e persistem a despeito dos nossos discursos romanticamente moralistas. Tal discurso não impede deslizes sexuais e seus efeitos nocivos na vida de terceiros e até da sociedade. A experiência do rei Davi, o homem segundo o coração de Deus, de Bill Clinton, ex-presidente do país mais rico do planeta e de milhares ilustres desconhecidos, comprova isso.

Nas igrejas, a repressão ao desejo tem sido o caminho mais indicado nas poucas vezes em que o assunto é tratado, sendo a demonização do sexo, sua expressão maior. Para alguns, o desejo sexual deve ser encarado como de origem pecaminosa, demoníaca até, e, por isso, deve ser exorcizado com penitências, jejum e oração. Em vez de encararem os sentimentos sexuais como inerentes à constituição bio-psíquica humana para, a partir daí, ajudar a canalizá-los construtivamente, bloqueia-se o canal do diálogo. O alerta para os perigos do sexo é tão extremista que, mesmo sabendo tratar-se de obra divina, o melhor é ficar bem longe dele. A julgar pelos discursos, em matéria de sexo nossas igrejas estão entrincheiradas, na defensiva.

Em posição oposta estão os que defendem a liberação. Como o moderno é ser (neo) liberal, há muita gente conservadora em casa, falando de sexo como água na mídia. Para estes, a necessidade sexual deve ser encarada da mesma forma como a necessidade de beber água. Se você está a fim, basta encontrar alguém que satisfaça suas necessidades e pronto. É só não esquecer a camisinha. Mas as coisas não são tão simples assim. Sexo não é água, nem corpos, copos descartáveis. Pessoas amam, pensam, sentem, reagem, interagem e se apegam; têm história; têm passado, presente e futuro; têm família, amigos e colegas; sonham em ser amadas, detestam ser usadas. Além disso, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada causam transtornos e mudam o rumo da vida dos envolvidos e dos que os cercam.

Se a repressão e a liberação são igualmente prejudiciais a alternativa é abrir-se ao diálogo franco e conscientizador, começando na própria família. Abrir-se ao diálogo é procurar sentir e entender os dilemas do outro; é admitir, honestamente, que todos estamos sujeitos a enfrentar situações cuja dificuldade de lidar com a sexualidade é real; é não apresentar-se com um anjo que, por ser assexuado, não enfrenta dificuldades na área; é não ter medo de admitir as próprias fragilidades; é ser ajudador e não juiz ou legislador da vida alheia.

Já é tempo de rever posições, de parar de repetir chavões conservadores ou liberais e de jogar para a platéia, priorizando o IBOPE. Sexo não é somente uma questão moral, de costume. Tem também implicações emocionais, sociais e éticas que precisam ser consideradas. Sexo não é água!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mau presságio


É como se ela estivesse vindo
Bem devagarinho
A conta-gotas
Lenta e elegantemente

Pior de tudo, disfarçada
Dançando
Sorrindo
Cantando
Representando

Anunciada,
Mas silenciosa
Cheia de vida,
Mas escabrosa

Agiota,
Oferece-se pra ajudar
Revela-se pra aniquilar

O sentimento oscila
Rio
Choro
Canto
Gemo
Confio desconfiando

E ela continua vindo
Com braços abertos
Pra acariciar?
Para enforcar?
Pra nos levantar?
Para sepultar?

Olho espantado
Sentimento dividido
Coração palpitando
Fronte dilatando

Nem um passo pra frente
Nem um passo pra trás

Paralisado

Não há como fugir
Não há como evitar
Não há como fingir
Não há como escapar

Ela vai chegando
Ela vai se aproximando
Reajo gritando
Reajo chorando
Reajo questionando
Reajo lamentando
Mas ela vai nos derrubando
E nos abandonando

Segue esbelta,
Senhora de si
Senhora da vida
Senhora da morte
Senhora morte
copyright junho 2011

O Cecom em números

No dia 29 de dezembro de 1974, a Igreja Batista da Graça, reunida em assembléia presidida pelo Pr. Djalma Torres e secretariada por Maria Assis, criou o Centro Comunitário Batista da Graça, cujo nome foi alterado posteriormente para Centro Comunitário Batista Clériston Andrade, em homenagem ao conhecido líder da Igreja e ex-prefeito de Salvador, falecido em 1982.

Durante a maior parte desse tempo, o projeto recebeu financiamento de diversas fontes, dentre as quais se destacam a própria igreja e, desde março de 1988, a Visão Mundial.

Com a saída da Visão Mundial anunciada desde 1993 e concretizada em 2007, os recursos foram drasticamente cortados, vários projetos foram encerrados pela diretoria de então e profundas medidas de contenção passaram a ser adotadas pela nova diretoria para adequar a instituição aos novos tempos de “vacas magras”.

Projetos como o Cecom, entretanto, fazem parte do agir de Deus e, ainda que nem sempre isso seja devidamente enfatizado, as pessoas que neles atuam são apenas servos cooperadores. Mudam-se os servos, mas o Deus da obra continua agindo e não apenas providencia recursos, mas também convida novos servos para cooperarem em seu agir.

Enfatizo novos servos, pois concordo plenamente com meu amigo Geoffrey A. Hammond quando diz, em sua página no facebook: ‘The Son of Man came not to be served but to serve and give His life a ransom for many. Jesus wants servants not volunteers!”(o Filho do homem veio não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muito. Jesus quer servos, não voluntários). Sim, ainda que o uso da palavra voluntário não seja errado, de fato, Jesus não quer voluntários – especialmente voluntariosos -; quer servos.

Graças, portanto à ação de Deus e a sensibilidade de pessoas que se dispõe a agir com ele, o Cecom continuou firme, mesmo em meio a turbulências. Evidência disso são os números que seguem referentes a 2010.

    1. EDUCAÇÃO
    1.1. Comunidade musical: 50 crianças de 7 a 10 anos, atendidas diariamente.

2.    SAÚDE 
    2.1. Unidade de Saúde (mais de 12000 atendimentos)
    - 270 coletas de material para exame citopatologico de colo uterino,
    - 272 gestantes atendidas,
    - 178 consultas com outros profissionais de nível superior não medico,
    - 4492 aferições de pressão arterial,
    - 79 testes de glicemia capilar,
    - 965 consultas medicas,
    - 620 atendimentos fisioterápicos em pacientes com alterações motoras,
    - 404 atendimentos fisioterápicos em pacientes com distúrbios neurológicos,
    - 18 coletas de teste do pezinho,
    - 1280 aplicações tópicas de flúor.
    2.2. Feria de Saúde realizada em 15/08/2010
    - 844 pessoas atendidas nos serviços de: corte de cabelo, ginástica laboral, escovação 
     dentária, administração de vacinas, educação em saúde, dentre outros.
    2.3. Psicologia
    - 203 pessoas atendidas
    2.4. Quiropraxia
    - 4000 atendimentos aproximadamente, realizados por 22 voluntários norte-americanos,  
     auxiliados por 4 intérpretes (Juliana Argolo, Ismael Costa, Lidiane Barros e Marcos           
     Palmeira)

3.    CIDADANIA
      3.1. Serviço Social
       - 657 atendimentos individuais e em grupos
       - 3 visitas a famílias, objetivando melhor conhecimento de sua realidade.
    3.2. PAPS - Programa de Acompanhamento Psicossocial
     - 214 beneficiários de atendimento individual aos usuários do CECOM consignando
           medidas tanto preventivas quanto curativas realizadas pelo Núcleo de Assistência
           Social e Núcleo de Psicologia
    3.3. Balcão de Justiça e cidadania
     - 275 beneficiários
    3.4. Central de Apoio e Acompanhamento às Penas e Medidas Alternativas - CEAPA
    - 1 apenado foi acolhido para prestação de serviços voluntários, recebendo 6 cestas
         básicas.
    3.5. Grupo Reviver:
    - 45 idosas participando semanalmente no grupo Reviver, sendo que 33 se matricularam
          na biodança, além das envolvidas no club de mães e em pintura em tecido

Além desses números, foram adquiridas 61 cadeiras universitárias no valor de R$ 13.081,60 recebidos do programa Sua Nota é um Show e foi iniciado um investimento de alto impacto sócio-comunitário com o início da construção da quadra poliesportiva, salão de lazer, parque infantil, biblioteca e áreas de convivência.

Salientamos, finalmente, que cada número acima descrito representa uma pessoa, uma família, uma comunidade, que está sendo abençoada pelo ministério da Igreja Batista da Graça, através do Cecom, em parceria com pessoas e instituições.

Não fique de fora deste agir de Deus. Coopere como servo, orando, contribuindo financeiramente ou apresentando-se para trabalhar como voluntário em uma das áreas de atuação do Cecom.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A educação sexual dos pastores (2009)

Se abordar o assunto sexo em igreja ainda deixa muita gente vermelha - umas de vergonha, outras de raiva - relacioná-lo a pastores, para alguns, é motivo de pânico, afinal, no imaginário evangélico popular, pastor seria um ser angelical, portanto destituído de gênero. Temos, entretanto, pelo menos dois bons motivos para tratar o assunto com mais seriedade.

Primeiro, porque o número de pastores envolvidos em problemas de natureza sexual é maior do que imaginamos. Ouvimos muito dos problemas de padres americanos acusados de abuso sexual, mas poucos sabem que nos Estados Unidos é tão grande a quantidade de pastores acusados, inclusive batistas, que já existe uma organização de vítimas de abuso praticado por pastores, a “Survivors Networks of those Abused by Priests” – SNAP.

O segundo motivo tem a ver com a maneira como líderes religiosos pensam e ensinam assuntos relacionados à sexualidade, como, por exemplo, questões de gênero, homossexualidade, abstinência ou masturbação. Nesse sentido, a organização “Religious Institute on Sexual Morality, Justice, and Healing”, também nos Estados Unidos, defende proposta de educação sexual voltada para pastores e sacerdotes. Há reações desfavoráveis de dirigentes conservadores de seminários batistas, alegando discordância da ideologia “não bíblica” da proposta.

Seja por qual motivo for, é importante tratarmos o assunto em nossas escolas de maneira diferente daquela que apenas “ensina” candidatos a pastor, o que seria certo ou errado  em termos de sexualidade, a partir de interpretação popular (ou como preferem outros, interpretação literal) de versículos isolados e descontextualizados da Bíblia, sem estudar a fundo a forma como lidamos com a própria sexualidade, o conteúdo e pressupostos dos nossos ensinos e as motivações dos posicionamentos político-sexuais que adotamos.

Depois de ler a Bíblia de capa a capa, pesquisando atentamente a questão da sexualidade, e de refletir sobre a forma passional como alguns pastores reagem à ordenação feminina ou aos direitos civis dos homossexuais, concluí que, para entendermos tais reações, mais do que prestar atenção em seus discursos “bíblicos” ou na corrente teológica do seminário onde estudou, é fundamental compreender a cultura na qual sua educação sexual foi construída.

Sendo assim, se desejo entender o porquê do meu pastor reagir como reage a temas da sexualidade, devo esquecer seu título e lembrar de que nem sempre ele se escondeu atrás de um belo paletó e gravata ou de um bonito discurso previamente elaborado. Como qualquer garoto, ele cresceu entre meninos que, como a maioria absoluta, não recebeu adequada educação sexual – no sentido técnico do termo - seja em casa, na escola e muito menos na igreja.

Como todo menino, quase 100% do que aprendeu e sentiu a respeito do assunto, é fruto da convivência com seus pares de infância. Ele não só teve seus colegas como “facilitadores” para aprender como poderia lidar com o próprio sexo, como deveria lidar com o sexo oposto e outras questões sexuais, mas sentiu na pele toda a pressão vinda do grupo para provar um tipo patriarcal de masculinidade.

Nesse sentido, a leitura do livro “Corpos, prazeres e paixões. A cultura sexual no Brasil contemporâneo”, (Richard G. Parker, Editora Best Seller, 1991), especialmente as páginas 89 a 97, levou-me a fazer conexões e clareou um pouco mais as dificuldades pastorais no trato do assunto sexo e sexualidade. Segundo o autor, a estruturação da experiência na vida sexual no Brasil contemporâneo foi influenciada pela tradição patriarcal, pela linguagem do corpo e pelo sistema de classificação sexual, tópicos devidamente esclarecidos por ele.

Tal estruturação não seria aprendida imediata e completamente. É resultado de interiorização gradual, “através de um complexo processo de socialização que se inicia nos primeiros momentos da infância”.

Reconhecendo que a responsabilidade pelo cuidado e educação das crianças é, inicialmente e em grande parte, de responsabilidade feminina, o autor demonstra como, até certa idade, a criança é influenciada pela mulher, que domina o lar, e, depois, pelos homens, que dominam o mundo fora do lar.

Como até certa idade a relação de meninas e meninos é fortemente influenciada pela presença feminina, faz-se necessário, por uma questão de definição de identidade, que a distinção de gêneros seja feita muito precocemente. Assim, a identidade das meninas, especialmente em termos de passividade e submissão, é assegurada pela continuidade da relação com a mãe, em casa, bem como pelas visíveis alterações pela qual passam seus corpos, enquanto a dos meninos é mais complicada pela descontinuidade do processo.

Segundo o autor, “ameaçado desde o princípio por uma associação muito íntima com o domínio feminino, a virilidade e atividade que são marcas principais da masculinidade na vida brasileira precisam ser construídas, erigidas a partir do grupo e atravessar um processo de masculinização capaz de quebrar os laços iniciais do menino com as mulheres e transformá-lo em homem”.

Enquanto as meninas experimentam um processo de orientação mais forte dentro de casa, exceto a partir da menstruação, “existe um forte sentido (embora nem sempre explicitamente afirmado) da parte dos pais, de que o caminho mais adequado para seus filhos tomarem é o de se afastarem cada vez mais desse domínio feminino”.  Isso lança luzes sobre a luta de alguns pastores no sentido de defender tão fervorosamente o domínio “bíblico” masculino sobre as mulheres na igreja e de resistir à atuação delas em funções de autoridade.

Pelo mesmo pressuposto entendemos a reação passional de alguns pastores às questões de direitos civis homossexuais. Observe que me refiro aqui à reação emocional que toma conta de alguns no trato do assunto, sem emitir juízo de valor, por qualquer ângulo, sobre a questão homossexual.

Isso reforça a importância de incluirmos, na educação ministerial dos pastores, uma profunda reflexão sobre o processo informal, eficaz, porém nocivo, de educação sexual a que foi submetido em sua infância. Tal reflexão o ajudará a entender o sentido de sua masculinidade, o trato do próprio sexo, sua relação com o sexo oposto, sua reação a questões civis relacionadas a homossexuais e também a influência daquilo que nele foi introjetado culturalmente, na leitura que faz dos textos bíblicos.

A superação dos paradigmas estabelecidos em sua mente e coração dificilmente será alcançada em seus estudos teológicos, nos quais a condução do pensamento está nas mãos de professores – homem em sua maioria - que, como os candidatos a pastores, também tiveram “educação sexual” eficazmente construída “nas ruas” e não em sala de jantar ou de aula.

Portanto, se quisermos entender a posição dos pastores em relação a questões de gênero, reprodução ou erotismo, mais importante do que prestar atenção às escolas onde estudaram teologia, aos livros que leu sobre o assunto ou títulos acadêmicos que ostentam, seria descobrir como se deu sua transição de saída do domínio do mundo feminino para o domínio do mundo masculino, através de suas relações sociais a partir do quinto ano de vida, aproximadamente.

Isso talvez devesse ocorrer sob a facilitação de um profissional de psicologia, não de ética, porque a insegurança para falar do assunto, especialmente dessa fase de nossa infância, não é um privilégio de alguns, mas de todos que fomos criados numa cultura religiosa em que sexo e diabo são sinônimos. O problema é que a psicologia tem sido “demonizada” pelo fundamentalismo que “anda ao redor rugindo e procurando a quem possa devorar” e prejudicada por idéias como: “enquanto Freud explica, o diabo da um toque” cantada por Raul Seixas.

Estou convencido de que, no processo de construção do conhecimento do assunto em pauta, seria muito importante que a visão de sexo e sexualidade presente na cultura brasileira e na cultura dominante nos tempos bíblicos fosse estudada criticamente à luz de princípios universais. Isso ajudaria os novos pastores a tratarem o assunto de maneira menos passional, injusta e preconceituosa, como aprendemos entre “coleguinhas” mais velhos, na infância. 
 ...
Disponibilizo agora aos leitores deste blog, texto que produzi e publiquei n'O Jornal Batista da Convenção Batista Brasileira, em 2009

terça-feira, 24 de maio de 2011

Experiência com Deus


Foi sob as mangueiras do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, no Recife, onde ouvi com maior freqüência um pensamento que pode ser expresso da seguinte maneira: o exercício da leitura é semelhante à degustação de um peixe: separam-se as espinhas, delicia-se com a carne. Tal pensamento nos alerta para pelo menos duas coisas importantes: 1) todo livro contém carne e espinhas; 2) devemos, portanto, ler com senso crítico a fim de que, empolgados com o paladar, não nos engasguemos com as espinhas.

Isso deve nos nortear em todas as leituras que fazemos, inclusive nas leituras da Bíblia.  É que, conquanto creiamos em sua inspiração, isso não significa que ela tenha sido psicografada ou verbalmente inspirada como querem alguns, mas que é produto de seres humanos movidos por experiências profundas com o divino.

Ela é Palavra de Deus, pois de capa a capa enfatiza como Deus agiu na vida de povos e indivíduos, visando manifestar seu amor cujo ápice se deu na humanização em Cristo Jesus. Nossa leitura dela deve visar o entendimento de como povos e indivíduos se relacionaram com Deus e como a ação de Deus em suas vidas mudou o curso de suas histórias. Em outras palavras, sua leitura visa enfatizar como é essencial, para a vida como um todo e para a humanidade em particular, que Deus seja o norteador de nossa caminhada, que vivamos em comunhão com ele.

As espinhas são, principalmente, os elementos culturais que permeiam tais registros, pois, se tais elementos não forem identificados e separados, em vez da leitura nos inspirar a vivermos de maneira profundamente prazerosa com Deus, ela poderá nos conduzir a sermos profundamente nocivos, opressores até, a nós mesmos e aos que nos cercam.

Exemplo disso é a insensatez de se querer transpor para os nossos dias, leis civis e normas de instituições religiosas judaicas, vigentes no início da formação do povo de Israel, descritas no pentateuco (5 primeiros livros do Velho Testamento). Ou, ainda, querer transpor todos os costumes culturais do início da era cristã para 2 milênios depois, na era do avanço científico-tecnológico e da informação.

Não só na leitura da Bíblia, a maior e mais concentrada fonte de registros de experiências humanas com Deus, mas também na leitura que fazemos das Igrejas, o princípio “saborear a carne, separando as espinhas” deve ser observado. É que a vida em Igreja também pode ser uma rica fonte de experiências com Deus.

As igrejas são – pelo menos deveriam ser - uma espécie de laboratório no qual experiências de pessoas com Deus devem – ou deveriam - visar à produção de qualidade de vida saudável – santa na linguagem sacerdotal – para todos. Laboratórios, entretanto, podem produzir drogas-remédio para serem utilizados sob recomendação médica, visando saúde, mas também podem produzir drogas-veneno que nos tornam dependentes de traficantes, nos desumanizam e nos destroem.

Assim, também na vivência em igreja, devemos estar atentos para separar “carne de espinhas”. Ou, numa linguagem joanina: “não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (I Jo. 4.1). Cabe a cada um, portanto, desenvolver senso crítico e capacidade espiritual – fruto de experiência genuína com Deus - para discernir o que, na igreja, provém de Deus e o que provém do “tráfico da fé”.

Nossas experiências com Deus, portanto, devem ser “nossas” experiências com Deus e não as manipuladas, injetadas, desejadas ou impostas por terceiros. Devem ser fruto de busca, reconhecimento e desejo sinceros de viver em comunhão com o criador, visando à construção de relacionamentos e estruturas que possibilitem um desenvolvimento saudável da vida para todos. 

Isso é possível porque “Deus tanto amou o mundo que deu o seu filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). É possível porque “nisso conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos” (I João 3.16). Então, é para que nossa vida gire em torno do amor que devemos aprofundar nossa experiência com Deus.

domingo, 22 de maio de 2011

Ricardo Gondim despede-se da revista ULTIMATO

"Após quase vinte anos, fui convidado a “des-continuar” minha coluna na revista Ultimato. Nesta semana, recebi a visita de Elben Lenz Cesar, Marcos Bomtempo e Klênia Fassoni em meu escritório, que me deram a notícia de que não mais escreverei para a Ultimato. Nessa tarde, encerrou-se um relacionamento que, ao longo de todos esses anos, me estimulou a dividir o coração com os leitores desta boa revista. Cada texto que redigi nasceu de minhas entranhas apaixonadas.

Fui devidamente alertado pelo rev. Elben de que meus posicionamentos expostos para a revista Carta Capital trariam ainda maior tensão para a Ultimato. Respeito o corpo editorial da Ultimato por não se sentir confortável com a minha posição sobre os direitos civis dos homossexuais. Todavia, reafirmo minhas palavras: em um estado laico, a lei não pode marginalizar, excluir ou distinguir como devassos, promíscuos ou pecadores, homens e mulheres que se declaram homoafetivos e buscam constituir relacionamentos estáveis. Minhas convicções teológicas ou pessoais não podem intervir no ordenamento das leis.


O reverendo Elben Lenz Cesar, por quem tenho a maior estima, profundo respeito e eterna gratidão, acrescentou que discordava também sobre minha afirmação ao jornalista de que “Deus não está no controle”. Ressalto, jamais escondi minha fé no Deus que é amor e nos corolários que faço: amor e controle se contradizem. De fato, nunca aceitei a doutrina da providência como explicitada pelo calvinismo e não consigo encaixar no decreto divino: Auschwitz, Ruanda ou Realengo. Não há espaço em minhas reflexões para uma “vontade permissiva” de Deus que torne necessário o orgasmo do pedófilo ou a crueldade do genocida.


Por último, a Klênia Fassoni advertiu-me de que meus Tweets, somados a outros textos que postei em meu site, deixam a ideia de que sou tempestivo e inconsequente no que comunico. Falou que a minha resposta à Carta Capital sobre a condição das igrejas na Europa passa a sensação de que sou “humanista”. Sobre meu “humanismo”, sequer desejo reagir. Acolho, porém, a recomendação da Klênia sobre minha inconsequência. Peço perdão a todos os que me leram ao longo dos anos. Quaisquer desvarios e irresponsabilidades que tenham brotado de minha pena não foram intencionais. Meu único desejo ao escrever, repito, foi enriquecer, exortar e desafiar possíveis leitores.


Resta-me agradecer à revista Ultimato por todos os anos em que caminhamos juntos. Um pedaço de minha história está amputada. Mas a própria Bíblia avisa que há tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Meu amor e meu respeito pela família do rev. Elben, que compõe o corpo editorial da Ultimato, não diminuíram em nada.


Continuarei a escrever em outros veículos e a pastorear minha igreja com a mesma paixão que me motivou há 34 anos.
"

Ricardo Gondim
Soli Deo Gloria

Fonte: www.ricardogondim.com.br

terça-feira, 10 de maio de 2011

Por que eu e a minha casa não servimos ao Senhor?

Uma das expressões bíblicas mais repetidas nas igrejas foi cunhada por Josué, líder hebreu. “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” era um desafio frente a alternativas que dividiam o coração, os relacionamentos e, consequentemente, reduziam a probabilidade de alcançarem êxito no projeto de conquista por ele liderado.

Tal divisão de sentimentos e pensamentos era geradora de comportamentos desagradáveis aos olhos do Senhor Deus, pois o projeto do qual o povo participava havia nascido em seu coração e visava um objetivo mais amplo para a humanidade.

Retirada do contexto, a expressão tem sido usada por pessoas que abraçaram a fé em Jesus, cujos familiares não as acompanha nessa decisão ou não participam de maneira ativa de uma comunidade de fé. Por isso, sempre que possível expressam com emoção “eu e a minha casa serviremos ao Senhor”, como manifestação do desejo de ver a família toda engajada na vida da igreja.

Diante disso peguei-me pensando no porquê de uma pessoa, em sã consciência, negar-se a servir ao Senhor. Se servir ao Senhor representa, em última análise, colocar-se a serviço do bem, que motivos justificariam alguém a negar-se a servi-lo?

Enquanto pensava nisso, lembrei-me de uma expressão atribuída a Gandhi, na qual ele teria dito: “aceito o vosso Cristo, mas rejeito o vosso cristianismo”. Ela expressa, a meu ver, o mesmo que acontece com muitos dos nossos familiares que não nos acompanham no serviço a Deus.

Não são muitas as pessoas que conseguem diferenciar “servir a Deus” de “servir a uma estrutura religiosa”. Ainda que, sempre que somos sinceros no desejo de servir a Deus, ocorra como desdobramento o sentimento de servirmos com outras pessoas e, ainda que isso implique, inevitavelmente, na necessidade de um sentido mínimo de organização, o fato é que, geralmente, a tal organização acaba se tornando um fim em si mesma. Quando nos damos conta, em vez de estarmos juntos servindo a Deus, estamos juntos servindo aos institutos da organização.

É claro que a caminhada a dois gera necessidades de atenção à caminhada a dois, porém, a finalidade da caminhada deve merecer mais da nossa atenção, energias e outros recursos, do que os elementos que constituem meio para caminharmos a dois.

Além disso, julgo importante dizer que “servir ao Senhor” significa, antes de tudo, servir às pessoas. Isso Jesus deixa claro quando diz: “o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”. (Mat. 25.40) e Paulo corrobora, ao declarar: “Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, pois ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas”. (At. 17.25)

Ainda que seja importante destacar que, à luz da vida e ensinos dos primeiros cristãos, cooperar com uma comunidade de fé é algo inerente à vida cristã, uma exigência até, o fato é que isso não serve de motivação para quem ainda não se comprometeu a seguir como discípulo de Jesus.

Se há algo capaz de levar alguém a cogitar sair do discurso da crença em Deus para uma prática cooperativa em igreja, isso seria a realidade de nos reunimos não para servir uma estrutura ou apenas nos servirmos dela, mas para juntos servirmos uns aos outros e daí servimos à vida, à luz de finalidades coerentes com projetos divinos.

Uma importante razão para que o “eu e a minha casa serviremos ao Senhor” não se concretize é a nossa incapacidade de mostrar que santidade significa saúde para todas as dimensões da vida e que a instituição igreja é apenas canal de serviço a Deus através de serviços ao próximo e não estímulo à hipocrisia, falsa moralidade ou combustível de neuroses.

Enquanto não nos convencermos disso, mais difícil se torna realizar o desejo expresso na frase: “eu e a minha casa serviremos ao Senhor”.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mãe é mais do que mãe!

Mãe é filha que, por razões biológicas e culturais, geralmente usufrui de maior tempo ao lado da genitora e nela se inspira, afirmando ou negando o modelo, para construir seu modo próprio de ser-no-mundo; que foi amada, acolhida nos braços, amamentada, protegida, ensinada e também disciplinada ou, quem sabe até, excepcionalmente, experimentou rejeição, maltratos, abandono ou marginalização.

Mãe é ser humano que constrói seu presente, alimenta o passado e projeta o futuro; que procura sentidos para viver; se equipa para sobreviver; disputa melhores condições de vida; que chora, ri, sente fome, dor, tristeza, prazer, solidão, alegria, medo, raiva e amor.

Mãe é mulher que experimenta o fogo da paixão, a necessidade de afeto, a busca por um companheiro, o desejo de compreensão; que precisa lutar para superar a discriminação e, de forma justa e amorosa, forte e terna, ter reconhecida sua condição.

Mãe é esposa que, no encontro com o homem amado, quer caminhar numa via de mão dupla, na qual transita a troca de amor, paixão, aconchego, cuidado e atenção.

Mãe é administradora que, mesmo muita vez desenvolvendo atividades profissionais fora do lar, administra a casa, cuidando ela mesma, na maioria dos casos, ou gerenciando quando conta com auxiliar, da organização da vida em família; do abastecimento, limpeza e arrumação da casa; do cuidado com a alimentação; da higiene física, mental e espiritual dos filhos, além de participar ativamente da realização de desgastantes tarefas externas.

Mãe é serva de Deus, serva da vida, por isso amorosa e espontaneamente se empenha para ajustar-se às diversas e muitas vezes conflitantes exigências que as realidades impõem, buscando, de forma harmoniosa, cumprir seus papéis sociais e satisfazer suas necessidades pessoais.

Por isso, mãe é mais do que mãe!

Os focos do ministério esportivo da IBG.SSA

Visando tornar reais os compromissos decorrentes da missão e visão estratégica da IBG, nesses últimos 6 meses nossa atenção esteve voltada para a construção da quadra polivalente. Isso porque o uso do referido espaço influenciará significativamente a dinâmica da Igreja, do Cecom e seus relacionamentos com nossos vizinhos e amigos.

Os relacionamentos internos sofrerão impacto a partir do momento em que as pessoas terão mais oportunidade de estarem juntas em situações de descontração, podendo conhecer-se melhor mutuamente. Assim, nesse primeiro foco do ministério, elas poderão partilhar suas dores e prazeres, sonhos e lutas e, solidariamente, trocar idéias que gerem soluções para um viver individual e coletivo melhor.

Os relacionamentos com amigos, vizinhos e irmãos de outras igrejas também sofrerão impacto porque eles serão convidados para estar conosco não somente em função dos jogos de quadra, mas também dos de mesa que serão disponibilizados no salão de lazer, além de atividades esportivas externas que serão estimuladas. A expectativa é que nossas vidas (atitudes) falem tão alto que eles não precisem ouvir nossas vozes anunciando o amor de Deus.

Se pretendemos anunciar Cristo através de nossas atitudes, também está em nosso projeto fazê-lo com palavras. Assim, um segundo foco de atuação do ministério esportivo será o das atividades voltadas para o ensino da Palavra de Deus. Isso será feito usando atividades esportivas direcionadas especialmente para crianças. Já temos líderes treinados para isso e cheios de vontade para trabalhar.

Acreditamos que, ensinando crianças nos caminhos de Deus expressos na vida de Jesus (não da religião institucionalizada), daremos a elas um sentido que as ajudará na redução do risco de se envolverem com drogas. Assim, teremos que investir muito menos na recuperação de criminosos.  Queremos que o lugar onde estamos inseridos seja uma Cristolândia, antes que se transforme numa Cracolândia.

Finalmente, nosso terceiro foco será voltado para uma ação social através do estímulo à formação de atletas olímpicos em diversas modalidades. Isso se dará através de escolinhas esportivas e de qualificação de voluntários, visando a inserção em um universo mais amplo, seja municipal, estadual ou nacional. Acreditamos que esta área de atuação poderá tornar-se o eixo principal de atração da atuação do Cecom junto às famílias, se soubermos tirar proveito das possibilidades e oportunidades decorrentes e agirmos com consciência e paixão.

Com esses focos, a imagem e realidade da igreja serão fortalecidas não como uma organização contemplativa que cultiva reflexão pela reflexão, sem ação, mas como um laboratório de experiências que visam proporcionar melhor qualidade nos relacionamentos com Deus, com o semelhante e com o meio ambiente onde está inserida.

terça-feira, 19 de abril de 2011

“Eu vi o Senhor!”

Era domingo, início da manhã. Maria Madalena e a outra Maria foram ao sepulcro  de Jesus. Não foram por acreditar na ressurreição. Foram porque a aproximação do lugar onde o corpo estava amenizaria a dor da separação traumática e dolorosa.

Ainda estava escuro, mas viram que a pedra da porta da sepultura fora removida. A surpresa e a dúvida dominaram seus corações. Então correram para contar aos discípulos.

A correria foi geral. Pedro e um outro discípulo disputaram para ver que chegaria primeiro. Pedro perdeu a corrida, mas, por ser mais ousado, entrou primeiro na sepultura e testemunhou: as faixas de linho estavam de um lado, o lenço usado para cobrir a cabeça, dobrado do outro, mas Jesus, de fato, não estava ali.

Sem compreender o ocorrido, os discípulos voltaram pra casa. Maria, porém, permanece, inconsolável, chorando as dores da saudade. Sob o impacto da morte e agora do desaparecimento do corpo e sem acreditar naquilo tudo, voltou a olhar para dentro do túmulo.

Nova surpresa acontece: dois anjos estavam no lugar onde o corpo de Jesus esteve repousando. Um diálogo se estabelece e ela derrama seu coração: “levaram embora o meu Senhor”. Mal termina de falar, outra surpresa: alguém, parecido com um jardineiro, dirige-se a ela, indagando sobre o porquê das lágrimas. Sem responder ela implora: “Se o senhor o levou embora, diga-me onde o colocou, e eu o levarei”.

Ele pronuncia o nome dela, ela reconhece sua voz: era Jesus.

Por não ter desistido, na pior das adversidades, teve o privilégio de ser missionária da primeira mensagem de Jesus, após a ressurreição: “... Vá, porém, a meus irmãos e diga-lhes: Estou voltando para o meu pai e Pai de vocês, para o meu Deus e Deus de vocês.

E ela, respondendo positivamente ao desafio missionário, emocionada e cheia de alegria, dirige-se aos discípulos - recolhidos, amedrontados - e anuncia: “Eu vi o Senhor!”

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Futuro dos batistas brasileiros, se não abrirmos os olhos!!!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cristolândia x Cracolândia

sábado, 9 de abril de 2011

Marta Suplicy altera texto do PL 122 e libera pregação anti-gay em igrejas e templos


Iniciei oficialmente minha caminhada pastoral há 28 anos. 

O período coincidia com a tomada do poder, na Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, pelos autodenominados conservadores ou denominados pelos adversários como fundamentalistas. Pra mim a segunda expressão tornou-se mais forte porque presenciei a queda de um professor pela pressão do novo "comando mundial" dos batistas. 

(Trago viva em minha mente a reunião na sala do reitor, quando, sentados no chão pela falta de espaço, David Mein explicava pacientemente porque tomou a decisão de demitir o professor. Depois veio a queda do segundo, quando David Mein já havia saído. E entre eles, a derrubada do novo diretor do Seminário, pelos alunos, quando eu já trabalhava em Maceió) 

Foram anos de histórias tristes, no mérito das quais não entro aqui, mas estou mencionando para informar que neste período iniciava-se, dentre outras, uma mudança de concepção hermenêutica que não era novidade, mas que até então não prevalecia: Jesus deixou de ser a chave hermenêutica dos batistas para interpretação da Bíblia e a expressão "a Bíblia interpreta a própria Bíblia" se popularizou trazendo danos ainda imensuráveis à vida de pessoas e instituições. 

Mantendo as convicções tradicionais dos batistas, até aqui não abri mão de *Jesus como chave hermenêutica de interpretação. 

O que isso tem a ver com o assunto do tópico? É simples: inspiro-me no ministério de Jesus para definir a linha teológico-ministerial que adoto. E quanto mais leio e releio a vida e ensinos de Jesus, nos evangelhos, mais me convenço de que os arquiinimigos de Jesus não foram os pecadores (segundo a definição popular da palavra pecado), mas a religião institucionalizada. Confira nos evangelhos com quem foram os principais embates de Jesus, pra não dizer todos. Foram com líderes fariseus. 

Fundamentado nesse pressuposto, decidi que "púlpito" por mim ocupado não seria usado para atacar manifestações específicas de minorias relativas ao estado de separação no qual a humanidade se encontra (pecado, teologicamente, é quebra de comunhão, diferente de eticamente que é quebra de código de ética). Antes, se não pudesse anunciar o amor que restaura primeiramente a comunhão da pessoa com Deus e, só depois, como consequência, mudanças em nossos relacionamentos com pessoas, coisas e meio ambiente, ficaria em silêncio. 

Nesses 28 anos nunca senti necessidade do discurso fundamentalista, ainda que, certamente, ele também possa ser identificado em meus discursos, afinal, todos somos pecadores. Optei por colocar o acento da minha pregação no caminho da resturação da comunhão com Deus e, ao mencionar sinais da separação, cuido para não deixar que a cultura - responsável pela escolha de algumas manifestações da separação em detrimento de outras - prevaleça, transformando algumas manifestações da ausência de comunhão em "bodes expiatórios". 

Transformando toda essa prolixidade em uma frase: não aderi, não adiro, nem pretendo aderir ao discurso anti gay como bandeira política de pregação. 

Respeito aos que optaram por esse caminho - de combate a gays e outros - e luto para que eles respeitem o escolhido por mim.


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Talvez você goste de ler algo mais que penso sobre sexualidade:
1. Sexualidade, a terceira alternativa
2. "Despertar" o que?
3. A educação sexual dos pastores
4. Sexo não é água

terça-feira, 5 de abril de 2011

Fidelidade a Deus na Era da Infidelidade


"Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito” (Jesus, em Lc. 16.10)

Não disponho de dados, mas, baseado em diversas evidências, suponho que “nunca antes na história” a infidelidade foi tão perceptível.

Não me refiro à infidelidade a marcas de produtos. Essa já está comprovada por pesquisas e o fato é atribuído a diversos fatores como, por exemplo, aumento na diversidade de marcas e na concorrência; ascensão das classes C e D; maior acesso à informação; advento da internet, enfim.

Também não me refiro à infidelidade conjugal, prática profundamente nociva à saúde individual, familiar e social, já comprovada por pesquisas. Nesse caso, devido a fatores como autonomia econômico-financeira da mulher, redes sociais virtuais, metropolização das cidades, dentre outros. Há quem afirme que agora “os homens estão traindo com culpa. E as mulheres, traindo como nunca”. Percebe-se que não há apenas uma mudança na qualidade do comportamento, mas também na quantidade de casos.

Não me refiro, ainda, à infidelidade eclesiástica. Isso também se tornou compreensível com o fim do monopólio da fé cristã pela Igreja Católica, via reforma constitucional; com a conscientização da pluralização, da diversidade, nas sociedades democráticas; com o uso de mídias modernas por igrejas de matriz protestante ou evangélica; com as infindáveis subdivisões formais e informais em todas as denominações; com a transformação da religiosidade em produto de comercialização pelo pós pentecostalismo ou mesmo com a frustração decorrente da queda na credibilidade de instituições antes irrepreensíveis.

O neoliberalismo atingiu a religião e a iniciativa privada passou a reger a abertura de igrejas em cada esquina, como se abre um empreendimento comercial. Diante disso, as pessoas substituíram a definição doutrinária pelo prazer da convivência como critério primeiro (e até único) de escolha da igreja a qual se unir. Assim, a infidelidade também é realidade em relação às igrejas.

Nada disso, entretanto, me assusta tanto quanto a percepção da infidelidade a Deus. Não que antes não houvesse. Na verdade, Deus sempre foi procurado muito mais como gênio da lâmpada maravilhosa ou pelo encantamento que coisas do sagrado provocam do que como regente de nossa conduta. A diferença é que no conjunto de membros das comunidades chamadas batistas – cito a minha denominação apenas pra não falar da vida alheia - percebia-se mais nitidamente a fidelidade das pessoas a Deus.

O comum, a regra, era a predominância de membros querendo conhecer mais e mais a Deus através do estudo sério das Escrituras, do conhecimento intelectual e existencial da pessoa de Jesus, da busca sincera pela presença do Espírito Santo.
Presença regular na vida da Igreja; prazer em devolver o dízimo, em entregar ofertas, visando manter e expandir as causas divinas e solidariedade, inclusive material, aos necessitados, eram manifestações de fidelidade comuns à maioria.

O que assusta hoje é que o comum foi invertido.

A infidelidade predomina e não é difícil de ser comprovada. Escolha, aleatoriamente, qualquer realidade que possa ser caracterizada como fidelidade a Deus e faça uma avaliação, dentre os membros de sua igreja. Quantos estão comprometidos com ações em seu cotidiano que sejam conseqüência consciente de fidelidade a “revelações” de Deus em seu coração? Quantos se sensibilizam diante da dor alheia como manifestação de compaixão inspirada na vida de Jesus? Quantos trabalham pensando não somente em suprir as próprias necessidades (ou excentricidades), mas também para ter com que acudir a necessitados?
Quantos manifestam interesse em saber se suas atitudes, palavras e ações são compatíveis com o caráter revelado do Deus em que crêem? Quantos se perguntam se Deus tem algo a  ver com o início ou fim de um casamento? Quantos estão comprometidos com a vida em comunidade, como família de Deus, como corpo de Cristo? Quantos devolvem regularmente seus dízimos por acreditar que Deus tem alguma coisa a ver com o uso dos 100% do seu dinheiro? Quantos se perguntam, antes de fechar um negócio, se a ética que envolve a transação é agradável a Deus?
Quantos estão gritando: “Ai de mim! Estou perdido! Pois sou um homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!”? (Is. 6.6)
Parece que Deus virou peça de museu.

Nossa era é a Era da Infidelidade. O padrão infidelidade foi de tal maneira assimilado também dentro das igrejas, está tão perto de nós na forma como nos relacionamos com Deus que me pergunto: será que faz sentido ou surtiria efeito lembrar: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus?


Estou procurando “novos” indicadores de fidelidade a Deus para a Era da Infidelidade, mas, por não encontrar, sinto-me fora de moda. Se fidelidade é fruto de confiança e amor, será que as palavras de Jesus – Quando, porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” (Lc 18.8) ou “e, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará (Mt 24.12)  – estão se cumprindo em nosso meio?