segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sexo não é água (2002?)

Vez por outra assisto, ao lado de dois filhos adolescentes, programas da MTV que abordam questões de sexo. Entendo que assistir e trocar idéias com eles são o melhor caminho para ajudá-los a desenvolverem o senso crítico e, consequentemente, escolherem melhor os caminhos da vida. E a cada programa percebo que, saindo do extremo da repressão para o extremo da liberação, continuamos a manifestar nossas doenças no trato das questões sexuais.

Admitimos que a forma como o assunto foi tratado ao longo da história não foi eficaz em seus propósitos. A quantidade de casais infelizes, de casamentos desfeitos e de indivíduos com neuroses oriundas da maneira como lidam com a sexualidade é incalculável e persistem a despeito dos nossos discursos romanticamente moralistas. Tal discurso não impede deslizes sexuais e seus efeitos nocivos na vida de terceiros e até da sociedade. A experiência do rei Davi, o homem segundo o coração de Deus, de Bill Clinton, ex-presidente do país mais rico do planeta e de milhares ilustres desconhecidos, comprova isso.

Nas igrejas, a repressão ao desejo tem sido o caminho mais indicado nas poucas vezes em que o assunto é tratado, sendo a demonização do sexo, sua expressão maior. Para alguns, o desejo sexual deve ser encarado como de origem pecaminosa, demoníaca até, e, por isso, deve ser exorcizado com penitências, jejum e oração. Em vez de encararem os sentimentos sexuais como inerentes à constituição bio-psíquica humana para, a partir daí, ajudar a canalizá-los construtivamente, bloqueia-se o canal do diálogo. O alerta para os perigos do sexo é tão extremista que, mesmo sabendo tratar-se de obra divina, o melhor é ficar bem longe dele. A julgar pelos discursos, em matéria de sexo nossas igrejas estão entrincheiradas, na defensiva.

Em posição oposta estão os que defendem a liberação. Como o moderno é ser (neo) liberal, há muita gente conservadora em casa, falando de sexo como água na mídia. Para estes, a necessidade sexual deve ser encarada da mesma forma como a necessidade de beber água. Se você está a fim, basta encontrar alguém que satisfaça suas necessidades e pronto. É só não esquecer a camisinha. Mas as coisas não são tão simples assim. Sexo não é água, nem corpos, copos descartáveis. Pessoas amam, pensam, sentem, reagem, interagem e se apegam; têm história; têm passado, presente e futuro; têm família, amigos e colegas; sonham em ser amadas, detestam ser usadas. Além disso, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada causam transtornos e mudam o rumo da vida dos envolvidos e dos que os cercam.

Se a repressão e a liberação são igualmente prejudiciais a alternativa é abrir-se ao diálogo franco e conscientizador, começando na própria família. Abrir-se ao diálogo é procurar sentir e entender os dilemas do outro; é admitir, honestamente, que todos estamos sujeitos a enfrentar situações cuja dificuldade de lidar com a sexualidade é real; é não apresentar-se com um anjo que, por ser assexuado, não enfrenta dificuldades na área; é não ter medo de admitir as próprias fragilidades; é ser ajudador e não juiz ou legislador da vida alheia.

Já é tempo de rever posições, de parar de repetir chavões conservadores ou liberais e de jogar para a platéia, priorizando o IBOPE. Sexo não é somente uma questão moral, de costume. Tem também implicações emocionais, sociais e éticas que precisam ser consideradas. Sexo não é água!

2 comentários:

Leila 13 de junho de 2011 10:27  

Como concordo com sua feliz colocação Pastor. Só espero que esse pessoal que acha que sexo é água, não se afogue tentanto "beber" mais do que o que consegue.
Shalom. Abs.

Messias Brito 14 de junho de 2011 19:37  

Sexo não é água é vida! E como tal merece ser celebrado, valorizado e experienciado com todo o cuidado e respeito que a vida merece!
Parabéns Pastor Edvar pela coragem de colocar em debate temas espinhosos como a sexualidade e por superar as posturas fáceis em busca de posições mais inteligentes e relevantes.
Abraço!