sexta-feira, 31 de julho de 2009

Igreja versus empresa (1998)

O Brasil assiste, um tanto perplexo, à multiplicação acelerada do número igrejas, de todos os tipos e para todos os gostos. O princípio protestante da Livre Interpretação da Escritura está fazendo um par perfeito com o princípio econômico da Livre Iniciativa, fazendo com que o fim do monopólio, no campo da religião, no Brasil, também comece a se tornar realidade.

A modernização dos processos administrativos das igrejas, com destaque para a utilização de modernas técnicas de marketing e as necessidades espirituais das pessoas, de todos os segmentos sociais, formam exatamente aquilo que descrevemos como "a fome e a vontade de comer".

Se é verdade que administrar bem significa associar, sinergicamente, os recursos materiais e de humanos (uso a expressão "recursos de humanos" por crer que, "recursos humanos" coisifica o ser), na busca dos objetivos desejados, com o menor custo, parece óbvio que, aplicar este princípio à administração eclesiástica não é pecado.

O que precisa ficar claro é a diferença entre a filosofia cristã do empreendimento igreja e a filosofia capitalista de uma empresa qualquer do mercado. Quando fundimos, irrefletidamente, as duas coisas, na administração eclesiástica, maculamos e até invertemos o papel da igreja, como agência do Reino de Deus, no mundo.

Por isso, nesta reflexão, procuro colocar, de forma sucinta e objetiva as diferenças entre a igreja bíblico-cristã e igreja-empresa:
1. A Igreja bíblico-cristã existe para anunciar, através de palavras e obras, as boas novas da salvação e seus efeitos no indivíduo e na sociedade. A igreja-empresa não passa de uma prestadora de serviços religiosos;
2. A igreja bíblico-cristã se reúne para conhecer melhor a Deus e satisfazer a sua vontade. A igreja-empresa se reúne e se estrutura, visando satisfazer seus clientes;
3. A igreja bíblico-cristã procura fazer o melhor para agradar ao seu Senhor. A igreja-empresa procura fazer o melhor para agradar aos seus clientes;
4. A igreja bíblico-cristã está interessada no aumento do número de crentes. A igreja-empresa está interessada no aumento do número de clientes;
5. A igreja bíblico-cristã entende a liturgia como expressão de vidas comprometidas, no cotidiano, com o amor ao próximo. A igreja-empresa encara a liturgia como um show de técnica ou de apelo emocional para massagear os sentidos dos clientes;
6. A igreja bíblico-cristã busca crentes comprometidos com os ensinos de Jesus em seu dia-a-dia. A igreja-empresa busca clientes fiéis à manutenção financeira e operacional de suas atividades;
7. A igreja bíblico-cristã busca crentes interessados em servir a Jesus, no dia-a-dia, através do serviço prestado ao próximo. A igreja-empresa busca clientes interessados nos serviços de Jesus, para suas vidas, no dia-a-dia;
8. A igreja bíblico-cristã levanta recursos para implementar serviços, missionários ou sociais, em prol da humanidade, coerentes com a vontade de Deus para o mundo. A igreja-empresa levanta recursos para aumentar seu patrimônio e a influência política de seus líderes no mundo;
9. A igreja bíblico-cristã encara o aumento do seu patrimônio de maneira funcional, útil às finalidades de ajudar as pessoas. A igreja-empresa encara seu enriquecimento patrimonial como razão de sua existência, como prova de sua competência e competitividade;
10. A igreja bíblico-cristã analisa, criticamente, as estruturas sociais deste mundo, numa permanente inconformação, por serem elas, predominantemente opressoras e contrariarem aos propósitos divinos. A igreja-empresa se conforma às estruturas sociais vigentes, usufrui delas para o seu crescimento patrimonial e explora a boa fé dos crentes, mantendo-os na ignorância;
11. A igreja bíblico-cristã é voltada para a cooperação com outras igrejas visando o crescimento do Reino. A igreja-empresa é voltada para a competição com outras igrejas, visando o seu próprio crescimento;
12. A igreja bíblico-cristã estimula a livre interpretação da Bíblia, em busca da verdade, da comunhão com Deus e da libertação. A igreja-empresa estimula as emoções que cegam as pessoas e as deixa à mercê de interpretações tendenciosas, exclusivas de seus líderes;
13. A igreja bíblico-cristã analisa, criteriosamente, a moralidade dos meios disponíveis para cumprir sua missão, à luz da Palavra de Deus, por crer que "os fins preexistem nos meios" e, portanto, que "fins morais não justificam meios imorais". A igreja-empresa pouco se importa com a moralidade dos meios, desde que facilitem o alcance de suas finalidades;
14. A igreja bíblico-cristã usa os recursos materiais para o enriquecimento do ser humano. A igreja-empresa usa o ser humano, como recurso, para o seu enriquecimento material.
15. A igreja bíblico cristã sacrifica a sua imagem, dá a sua vida, em defesa do pecador arrependido. A igreja-empresa elimina o pecador, mesmo arrependido, se o que ele fez causar dano à sua imagem.
16. A igreja bíblico-cristã usa o convencimento, amparada na ação do Espírito Santo, como forma de produzir mudanças conscientes, sinceras e, portanto, profundas, nas vidas. A igreja-empresa usa da sedução, do ludíbrio, que produz mudanças superficiais, passageiras e ilusórias.
Outros pontos de diferença podem ser acrescidos, mas estes já são uma boa trilha para que o leitor faça uma reflexão e tire suas conclusões.

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