quarta-feira, 10 de março de 2010

Estamos “evangelizando” ou discipulando?

“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.” (Mt. 28.19-20)


A palavra evangelho, já sabemos, significa boas notícias. A boa notícia, no caso, é que cada pessoa pode alcançar comunhão com Deus através da graça manifesta em Cristo Jesus, dando início, assim, a uma nova caminhada de vida marcada por novos valores que estimulam a permanente revisão de sentimentos, pensamentos e comportamentos. A prática, por exemplo, de sacrificar animais e a necessidade de seguir cegamente leis e costumes, como meio de justificação de pecados, foram anuladas na cruz de Cristo.

 Embora o anúncio de uma boa notícia tenha o poder de mudar o rumo da vida de uma pessoa, a notícia em si não é capaz de trazer respostas para todas as questões que envolvem nossa caminhada neste planeta. Daí Jesus ter colocado claramente em seus desafios que a missão dos seus discípulos seria fazer novos discípulos, caminhando com eles, e não apenas dar uma notícia e abandona-los à própria sorte.

Influenciados pelas linhas de produção industrial, pela cultura do “fast food”, do instantâneo, fizemos adaptações ao IDE de Jesus, substituindo o interesse por pessoas e construção de suas vidas a partir do aqui e agora, pela salvação futura de almas, visando povoar o céu rapidamente, fabricando “crentes” em série.

Assim, criamos uma perigosa diferença entre evangelizar e discipular que, além de não representar o desejo de Jesus, tem sido, se não o principal, um dos principais fatores da desmoralização das igrejas cristãs em nossos dias.

Se essa visão fabril de evangelho declara que evangelizar é libertar pessoas do inferno futuro, a proposta de discipulado de Jesus significa ajudar pessoas a se identificarem com Ele na maneira de sentir e pensar a vida e, consequentemente, de comportar-se frente às realidades do aqui e agora.

Se essa visão fabril de evangelho compreende evangelizar como sair em busca de pessoas para serem catequizadas no templo, a proposta de discipulado de Jesus nos desafia à construção de relacionamentos que sirvam de encorajamento “ao amor e às boas obras”.

Se essa visão fabril de evangelho indica que o papel do cristão é levar conceitos teológicos e morais que devem ser observados, a proposta de discipulado de Jesus estabelece a construção de uma nova vida com base em relacionamento direto entre a pessoa e Jesus, à luz dos registros de sua história.

Se essa visão fabril de evangelho gira em torno da ideologia que o crente tem uma verdade para dar, e o incrédulo  a alternativa de recebe-la ou ir para o inferno, a proposta de discipulado de Jesus gira em torno da experiência do compartilhar o que uma pessoa passou a ser em Cristo, com uma outra que abre o coração para conhecer e experimentar o modelo de vida de Jesus.

Se essa visão fabril de evangelho visa povoar o céu no futuro e aumentar o número de fiéis da igreja no presente, a proposta de discipulado de Jesus leva pessoas a se identificarem com valores do Reino de Deus visando agir como sal e luz neste tempo e espaço e, no futuro, a continuarem a vida em plena comunhão com Deus.

Se essa visão fabril de evangelho faz com que cristãos entendam que o trabalho com não cristãos termina quando a pessoa “levanta a mão aceitando a cristo”, a proposta de discipulado de Jesus nunca termina, pois visa uma permanente identificação da pessoa com Cristo, construída de forma comunitária, numa caminhada solidária.

Estamos “evangelizando” ou discipulando?

6 comentários:

einars_sturms 10 de março de 2010 16:28  

A paz!
Interessante esse seu comentário para uma boa discussão sobre produção industrial para povoar os céus.
Hoje, estou cursando o Seminário Batista Teológico de Niterói (PIBNit,então quer dizer que estou sendo capacitado para
'gerenciar" uma linha de produção?? Ou para "gerenciar RH" conforme as normas estabelecidas??
Se houver oportunidade levarei esse tema para discussão.
Um grande abraço, e quem sabe num futuro próximo para conversarmos e matar saudades da juventude.
einars.sturms

Anônimo 10 de março de 2010 23:20  

Caro Edvar,

Como sempre, suas reflexões são magistrais!
Aprendi um conceito interessante para "evangelizar". "Evangelizar é tornar conforme o Evangelho". Isso significa que é muito mais que levar alguém a levantar a mão numa igreja evangélica. É caminhar juntos na eterna jornada do discipulado, enquanto vamos sendo transformados à imagem de Jesus.

P.S: Estamos sentindo a sua falta no curso de Psicanálise.

Abraço,

Danilo Gomes

Bruno Montarroyos 11 de março de 2010 09:41  

Edvar, quanto tempo heim !!! Belíssima reflexão. Infelizmente o que é produzido em massa é consumido igualmente por aqueles que estão sem rumo. Precisamos de mais gente de coragem que una as forças contra uma herança teológica que nos afasta do caminho exemplificado em Jesus.

luiz sergio 22 de março de 2010 21:42  

muito interessante e proficuo a sua
visão sobre discipulado neste comen
tario consolidando a certeza de que
como cristãos devemos sim afirmar aos nossos irmãos a verdadeira mensagem do CRISTO sem procurar-nos
nos preocupar com números ou quanti
dades de ¨fieis¨ que encheriam templos ou igrejas.Como católico sinto-me sensibilizado com este texto que o caro amigo propaga em
seu blog colocando em questão a preocupação de igrejas que insistem em nos questionarmas ao vi
sita-las se estamos ¨¨salvos ou não¨¨o que em certas ocasiões me deixou bastante constrangido inclu-
sive ma afastando delas ressaltando o fato de que isto nunca aconteceu na igreja da Graça
mesmo sendo amigo e admirador do
Pastor Tarsis um abraço Sergio

Roberta 27 de março de 2010 09:22  

SIM O QUE PODEMOS OBSERVAR HOJE SÃO IGREJAS CHEIAS MAS FORA DO VERDADEIRO PROPÓSITO QUE É ACOMPANHAR VIDAS ATÉ QUE ELA OBTENHA O VERDADEIRO CARATER DE CRISTO,DISCIPULAR É TER VIDA DE DIFERENÇA É SER EXEMPLO EM ATITUDES AÇÃO É MOSTRAR COM SUA PRÓPRIA VIDA COMO DEVEMOS NOS PORTAR EXATAMENTE COMO CRISTO SE PORTARIA É MORRER CADA DIA PRA QUE O OUTRO VIVA REALMENTE É TER INTIMA COMPAIXÃO É ACOMPANHAMENTO É VIDA CONTINUA,É ESTAR JUNTO NÃO SO NO PRIMEIRO CONTATOPORQUE SE FIZERMOS ISSO A INTERPRETAÇÃO É SIM DEIXAR A RESPONSABILIDADE PRO PRÓPRIO INDIVIDUO QUE SE ENTENDER O PLANO DE SALVAÇÃO PASSARÁ A FREQUENTAR UMA IGREJA E O FARÁ AO SEU BELL PRAZER POIS FOI OBRIGADO A SE VIRAR NOS 30 AI TEREMOS IGREJAS CHEIAS E DOENTES

Olavo Dias 7 de abril de 2010 10:02  

Caro Pr. Edvar,

Concordo com todas as palavras. Evnagelizar e, a principio, investir em relacionamentos e, a partir dai, apresentar o Salvador refletido na propria vida do evangelizador.
Eh mais facil tentar convencer as pessoas de que nossas ideias estao certas e as deles erradas, em vez de mostrar-lhes atraves da propria vida o caminho atraves do qual podem ser redimidos e se aproximarem de Deus.
Um abraco
Pr. Olavo Dias - Carajas