sexta-feira, 27 de maio de 2011

As Igrejas e o movimento homossexual


Preâmbulo: O objetivo deste texto é apontar um caminho de conciliação no conflito Igrejas x homossexuais. Por isso, o foco não é provar quem está certo ou errado, mas apontar caminhos nos quais pode-se estabelecer concordância para, a partir deles, construirmos uma conciliação, pois quando cada parte puxa para um lado sem abertura para o diálogo, o conflito tende a aumentar.
 
“Façam todo o possível para viver em paz com todos”
(Romanos 12.18)

Estamos diante de mais um conflito com dimensões nacionais na sociedade brasileira. De um lado está o Movimento Gay, que luta pelo reconhecimento social e legal dos relacionamentos homossexuais; do outro, aqueles que, por razões históricas, morais ou religiosas, se opõem ao reconhecimento.

A luta do Movimento Gay não é pelo direito de pessoas do mesmo sexo se relacionar afetiva e genitalmente, pois isso faz parte da vida privada de cada um e, observados os direitos e deveres de todos, não é crime em nosso país. O que se busca, à luz do que se divulga na mídia é: 1) que se reconheça legalmente a convivência homossexual (não importa se o nome seria casamento ou união civil, pois o resultado é quase o mesmo) visando usufruto de direitos similares aos dos casamentos heterossexuais; 2) que se garanta proteção especial à vida dos homossexuais em face dos elevados índices de criminalidade motivados pela falta de respeito a eles; 3) que sejam desenvolvidas ações oficiais no sentido de mudanças culturais que possibilitem aos homossexuais serem vistos como cidadãos respeitados, com direitos e deveres iguais aos de todos.

Os que são contrários se fundamentam em três aspectos: 1) O casamento heterossexual é pilar de sustentação da família e, por entenderem que a família é essencial à manutenção da vida humana, entendem que o reconhecimento do “casamento” homossexual fragilizaria a instituição familiar e, consequentemente, a sociedade; 2) A vida é criação divina, seu manual de funcionamento é a Bíblia judaico-cristã e casamento monogâmico entre macho e fêmea seria o único modelo permitido pelo criador; 3) O heterossexualismo é uma cosmovisão milenar reinante em praticamente todos os povos.

Ainda que haja variações de conteúdo ou forma de expressão, basicamente esses elementos me parecem caracterizar o conflito fundamental entre as partes.

Entre os dois lados, há um Projeto de Lei (PL 122/2006) cujo conteúdo até aqui apresentado não foi capaz de resolver o conflito de interesses, além de uma decisão do STF e um projeto político-pedagógico em preparo no Ministério de Educação – MEC – e já disponível na internet cujo conteúdo não visa apenas superar a cultura homofóbica, mas também estimula adolescentes a encararem como natural relacionamentos homossexuais e com múltiplos parceiros.

Considerando que em ambos os lados há milhões de brasileiros e na base do conflito estão questões culturais de elevadíssimo teor de subjetividade relacionadas à formação de personalidade e a crenças religiosas é fundamental que as partes sejam honestas na busca de elementos objetivos que possibilitem uma saída que satisfaça ao máximo a ambos.

Estou convencido de que, se há uma chance de encontrarmos um caminho conciliatório, essa está relacionada à nossa competência para separar as divergências das convergências, deixando as diferenças em segundo plano e focando naquilo que é desejo comum das partes.

O primeiro elemento que me parece ser comum é que ambas as partes desejam viver em paz. Não acredito que pessoas cuja saúde mental seja boa tenham interesse de se maltratarem. Pelo contrário, o interesse é encontrar formas de vida que se caracterizem pela convivência justa, pacífica, solidária e amorosa. Nesse sentido, os líderes precisam prestar atenção na maneira como se posicionam para que o resultado seja paz e não guerra.

Um segundo elemento tem a ver com a natureza laica do Estado brasileiro. Ainda que alguns senões quanto a laicidade do Estado possam ser identificados em algumas decisões de governantes, concordamos que, em termos religiosos, a população brasileira pode ser dividida entre uma minoria sem qualquer vínculo religioso e uma esmagadora maioria que professa, publica ou particularmente, algum tipo de religião.

Concordamos também que a divisão de pensamentos e sentimentos entre os religiosos é quase tão grande quanto o número de religiosos do país. Portanto, um Estado nessas condições, tanto não pode deixar de reconhecer a religiosidade da imensa maioria, quanto não pode ser a cara de qualquer dos segmentos. Seu papel, portanto, não é privilegiar, nem prejudicar qualquer dos seus cidadãos. Antes, buscar meios que possibilitem a satisfação necessária à convivência pacífica, independente de crenças ou descrenças.

Um terceiro elemento que deve ser ressaltado tem a ver com a questão da promiscuidade. Esse termo tem a ver com relacionamentos confusos e desordenados de tal forma que o resultado final geralmente prejudica não só as partes envolvidas, mas também as que com elas se relacionam. Promiscuidade pode ser encontrada tanto no exercício da religião quanto do sexo. Sendo assim, as partes devem definir o que seria promiscuidade de um lado e de outro, a fim de que, eliminando aspectos nocivos nas práticas religiosas e sexuais, se busque entendimento em torno daquilo que é mais claramente saudável para a convivência pacífica de ambos.

Pessoalmente entendo que, se esses três elementos – convivência pacífica, laicidade do Estado e promiscuidade - forem aprofundados com honestidade e racionalidade por ambas as partes, o diálogo seria possível e uma saída conciliatória seria encontrada. A questão é colocar o sino no pescoço do gato.

A educação sexual dos pastores (2009)

Se abordar o assunto sexo em igreja ainda deixa muita gente vermelha - umas de vergonha, outras de raiva - relacioná-lo a pastores, para alguns, é motivo de pânico, afinal, no imaginário evangélico popular, pastor seria um ser angelical, portanto destituído de gênero. Temos, entretanto, pelo menos dois bons motivos para tratar o assunto com mais seriedade.

Primeiro, porque o número de pastores envolvidos em problemas de natureza sexual é maior do que imaginamos. Ouvimos muito dos problemas de padres americanos acusados de abuso sexual, mas poucos sabem que nos Estados Unidos é tão grande a quantidade de pastores acusados, inclusive batistas, que já existe uma organização de vítimas de abuso praticado por pastores, a “Survivors Networks of those Abused by Priests” – SNAP.

O segundo motivo tem a ver com a maneira como líderes religiosos pensam e ensinam assuntos relacionados à sexualidade, como, por exemplo, questões de gênero, homossexualidade, abstinência ou masturbação. Nesse sentido, a organização “Religious Institute on Sexual Morality, Justice, and Healing”, também nos Estados Unidos, defende proposta de educação sexual voltada para pastores e sacerdotes. Há reações desfavoráveis de dirigentes conservadores de seminários batistas, alegando discordância da ideologia “não bíblica” da proposta.

Seja por qual motivo for, é importante tratarmos o assunto em nossas escolas de maneira diferente daquela que apenas “ensina” candidatos a pastor, o que seria certo ou errado  em termos de sexualidade, a partir de interpretação popular (ou como preferem outros, interpretação literal) de versículos isolados e descontextualizados da Bíblia, sem estudar a fundo a forma como lidamos com a própria sexualidade, o conteúdo e pressupostos dos nossos ensinos e as motivações dos posicionamentos político-sexuais que adotamos.

Depois de ler a Bíblia de capa a capa, pesquisando atentamente a questão da sexualidade, e de refletir sobre a forma passional como alguns pastores reagem à ordenação feminina ou aos direitos civis dos homossexuais, concluí que, para entendermos tais reações, mais do que prestar atenção em seus discursos “bíblicos” ou na corrente teológica do seminário onde estudou, é fundamental compreender a cultura na qual sua educação sexual foi construída.

Sendo assim, se desejo entender o porquê do meu pastor reagir como reage a temas da sexualidade, devo esquecer seu título e lembrar de que nem sempre ele se escondeu atrás de um belo paletó e gravata ou de um bonito discurso previamente elaborado. Como qualquer garoto, ele cresceu entre meninos que, como a maioria absoluta, não recebeu adequada educação sexual – no sentido técnico do termo - seja em casa, na escola e muito menos na igreja.

Como todo menino, quase 100% do que aprendeu e sentiu a respeito do assunto, é fruto da convivência com seus pares de infância. Ele não só teve seus colegas como “facilitadores” para aprender como poderia lidar com o próprio sexo, como deveria lidar com o sexo oposto e outras questões sexuais, mas sentiu na pele toda a pressão vinda do grupo para provar um tipo patriarcal de masculinidade.

Nesse sentido, a leitura do livro “Corpos, prazeres e paixões. A cultura sexual no Brasil contemporâneo”, (Richard G. Parker, Editora Best Seller, 1991), especialmente as páginas 89 a 97, levou-me a fazer conexões e clareou um pouco mais as dificuldades pastorais no trato do assunto sexo e sexualidade. Segundo o autor, a estruturação da experiência na vida sexual no Brasil contemporâneo foi influenciada pela tradição patriarcal, pela linguagem do corpo e pelo sistema de classificação sexual, tópicos devidamente esclarecidos por ele.

Tal estruturação não seria aprendida imediata e completamente. É resultado de interiorização gradual, “através de um complexo processo de socialização que se inicia nos primeiros momentos da infância”.

Reconhecendo que a responsabilidade pelo cuidado e educação das crianças é, inicialmente e em grande parte, de responsabilidade feminina, o autor demonstra como, até certa idade, a criança é influenciada pela mulher, que domina o lar, e, depois, pelos homens, que dominam o mundo fora do lar.

Como até certa idade a relação de meninas e meninos é fortemente influenciada pela presença feminina, faz-se necessário, por uma questão de definição de identidade, que a distinção de gêneros seja feita muito precocemente. Assim, a identidade das meninas, especialmente em termos de passividade e submissão, é assegurada pela continuidade da relação com a mãe, em casa, bem como pelas visíveis alterações pela qual passam seus corpos, enquanto a dos meninos é mais complicada pela descontinuidade do processo.

Segundo o autor, “ameaçado desde o princípio por uma associação muito íntima com o domínio feminino, a virilidade e atividade que são marcas principais da masculinidade na vida brasileira precisam ser construídas, erigidas a partir do grupo e atravessar um processo de masculinização capaz de quebrar os laços iniciais do menino com as mulheres e transformá-lo em homem”.

Enquanto as meninas experimentam um processo de orientação mais forte dentro de casa, exceto a partir da menstruação, “existe um forte sentido (embora nem sempre explicitamente afirmado) da parte dos pais, de que o caminho mais adequado para seus filhos tomarem é o de se afastarem cada vez mais desse domínio feminino”.  Isso lança luzes sobre a luta de alguns pastores no sentido de defender tão fervorosamente o domínio “bíblico” masculino sobre as mulheres na igreja e de resistir à atuação delas em funções de autoridade.

Pelo mesmo pressuposto entendemos a reação passional de alguns pastores às questões de direitos civis homossexuais. Observe que me refiro aqui à reação emocional que toma conta de alguns no trato do assunto, sem emitir juízo de valor, por qualquer ângulo, sobre a questão homossexual.

Isso reforça a importância de incluirmos, na educação ministerial dos pastores, uma profunda reflexão sobre o processo informal, eficaz, porém nocivo, de educação sexual a que foi submetido em sua infância. Tal reflexão o ajudará a entender o sentido de sua masculinidade, o trato do próprio sexo, sua relação com o sexo oposto, sua reação a questões civis relacionadas a homossexuais e também a influência daquilo que nele foi introjetado culturalmente, na leitura que faz dos textos bíblicos.

A superação dos paradigmas estabelecidos em sua mente e coração dificilmente será alcançada em seus estudos teológicos, nos quais a condução do pensamento está nas mãos de professores – homem em sua maioria - que, como os candidatos a pastores, também tiveram “educação sexual” eficazmente construída “nas ruas” e não em sala de jantar ou de aula.

Portanto, se quisermos entender a posição dos pastores em relação a questões de gênero, reprodução ou erotismo, mais importante do que prestar atenção às escolas onde estudaram teologia, aos livros que leu sobre o assunto ou títulos acadêmicos que ostentam, seria descobrir como se deu sua transição de saída do domínio do mundo feminino para o domínio do mundo masculino, através de suas relações sociais a partir do quinto ano de vida, aproximadamente.

Isso talvez devesse ocorrer sob a facilitação de um profissional de psicologia, não de ética, porque a insegurança para falar do assunto, especialmente dessa fase de nossa infância, não é um privilégio de alguns, mas de todos que fomos criados numa cultura religiosa em que sexo e diabo são sinônimos. O problema é que a psicologia tem sido “demonizada” pelo fundamentalismo que “anda ao redor rugindo e procurando a quem possa devorar” e prejudicada por idéias como: “enquanto Freud explica, o diabo da um toque” cantada por Raul Seixas.

Estou convencido de que, no processo de construção do conhecimento do assunto em pauta, seria muito importante que a visão de sexo e sexualidade presente na cultura brasileira e na cultura dominante nos tempos bíblicos fosse estudada criticamente à luz de princípios universais. Isso ajudaria os novos pastores a tratarem o assunto de maneira menos passional, injusta e preconceituosa, como aprendemos entre “coleguinhas” mais velhos, na infância. 
 ...
Disponibilizo agora aos leitores deste blog, texto que produzi e publiquei n'O Jornal Batista da Convenção Batista Brasileira, em 2009

terça-feira, 24 de maio de 2011

Experiência com Deus


Foi sob as mangueiras do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, no Recife, onde ouvi com maior freqüência um pensamento que pode ser expresso da seguinte maneira: o exercício da leitura é semelhante à degustação de um peixe: separam-se as espinhas, delicia-se com a carne. Tal pensamento nos alerta para pelo menos duas coisas importantes: 1) todo livro contém carne e espinhas; 2) devemos, portanto, ler com senso crítico a fim de que, empolgados com o paladar, não nos engasguemos com as espinhas.

Isso deve nos nortear em todas as leituras que fazemos, inclusive nas leituras da Bíblia.  É que, conquanto creiamos em sua inspiração, isso não significa que ela tenha sido psicografada ou verbalmente inspirada como querem alguns, mas que é produto de seres humanos movidos por experiências profundas com o divino.

Ela é Palavra de Deus, pois de capa a capa enfatiza como Deus agiu na vida de povos e indivíduos, visando manifestar seu amor cujo ápice se deu na humanização em Cristo Jesus. Nossa leitura dela deve visar o entendimento de como povos e indivíduos se relacionaram com Deus e como a ação de Deus em suas vidas mudou o curso de suas histórias. Em outras palavras, sua leitura visa enfatizar como é essencial, para a vida como um todo e para a humanidade em particular, que Deus seja o norteador de nossa caminhada, que vivamos em comunhão com ele.

As espinhas são, principalmente, os elementos culturais que permeiam tais registros, pois, se tais elementos não forem identificados e separados, em vez da leitura nos inspirar a vivermos de maneira profundamente prazerosa com Deus, ela poderá nos conduzir a sermos profundamente nocivos, opressores até, a nós mesmos e aos que nos cercam.

Exemplo disso é a insensatez de se querer transpor para os nossos dias, leis civis e normas de instituições religiosas judaicas, vigentes no início da formação do povo de Israel, descritas no pentateuco (5 primeiros livros do Velho Testamento). Ou, ainda, querer transpor todos os costumes culturais do início da era cristã para 2 milênios depois, na era do avanço científico-tecnológico e da informação.

Não só na leitura da Bíblia, a maior e mais concentrada fonte de registros de experiências humanas com Deus, mas também na leitura que fazemos das Igrejas, o princípio “saborear a carne, separando as espinhas” deve ser observado. É que a vida em Igreja também pode ser uma rica fonte de experiências com Deus.

As igrejas são – pelo menos deveriam ser - uma espécie de laboratório no qual experiências de pessoas com Deus devem – ou deveriam - visar à produção de qualidade de vida saudável – santa na linguagem sacerdotal – para todos. Laboratórios, entretanto, podem produzir drogas-remédio para serem utilizados sob recomendação médica, visando saúde, mas também podem produzir drogas-veneno que nos tornam dependentes de traficantes, nos desumanizam e nos destroem.

Assim, também na vivência em igreja, devemos estar atentos para separar “carne de espinhas”. Ou, numa linguagem joanina: “não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (I Jo. 4.1). Cabe a cada um, portanto, desenvolver senso crítico e capacidade espiritual – fruto de experiência genuína com Deus - para discernir o que, na igreja, provém de Deus e o que provém do “tráfico da fé”.

Nossas experiências com Deus, portanto, devem ser “nossas” experiências com Deus e não as manipuladas, injetadas, desejadas ou impostas por terceiros. Devem ser fruto de busca, reconhecimento e desejo sinceros de viver em comunhão com o criador, visando à construção de relacionamentos e estruturas que possibilitem um desenvolvimento saudável da vida para todos. 

Isso é possível porque “Deus tanto amou o mundo que deu o seu filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). É possível porque “nisso conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos” (I João 3.16). Então, é para que nossa vida gire em torno do amor que devemos aprofundar nossa experiência com Deus.

domingo, 22 de maio de 2011

Ricardo Gondim despede-se da revista ULTIMATO

"Após quase vinte anos, fui convidado a “des-continuar” minha coluna na revista Ultimato. Nesta semana, recebi a visita de Elben Lenz Cesar, Marcos Bomtempo e Klênia Fassoni em meu escritório, que me deram a notícia de que não mais escreverei para a Ultimato. Nessa tarde, encerrou-se um relacionamento que, ao longo de todos esses anos, me estimulou a dividir o coração com os leitores desta boa revista. Cada texto que redigi nasceu de minhas entranhas apaixonadas.

Fui devidamente alertado pelo rev. Elben de que meus posicionamentos expostos para a revista Carta Capital trariam ainda maior tensão para a Ultimato. Respeito o corpo editorial da Ultimato por não se sentir confortável com a minha posição sobre os direitos civis dos homossexuais. Todavia, reafirmo minhas palavras: em um estado laico, a lei não pode marginalizar, excluir ou distinguir como devassos, promíscuos ou pecadores, homens e mulheres que se declaram homoafetivos e buscam constituir relacionamentos estáveis. Minhas convicções teológicas ou pessoais não podem intervir no ordenamento das leis.


O reverendo Elben Lenz Cesar, por quem tenho a maior estima, profundo respeito e eterna gratidão, acrescentou que discordava também sobre minha afirmação ao jornalista de que “Deus não está no controle”. Ressalto, jamais escondi minha fé no Deus que é amor e nos corolários que faço: amor e controle se contradizem. De fato, nunca aceitei a doutrina da providência como explicitada pelo calvinismo e não consigo encaixar no decreto divino: Auschwitz, Ruanda ou Realengo. Não há espaço em minhas reflexões para uma “vontade permissiva” de Deus que torne necessário o orgasmo do pedófilo ou a crueldade do genocida.


Por último, a Klênia Fassoni advertiu-me de que meus Tweets, somados a outros textos que postei em meu site, deixam a ideia de que sou tempestivo e inconsequente no que comunico. Falou que a minha resposta à Carta Capital sobre a condição das igrejas na Europa passa a sensação de que sou “humanista”. Sobre meu “humanismo”, sequer desejo reagir. Acolho, porém, a recomendação da Klênia sobre minha inconsequência. Peço perdão a todos os que me leram ao longo dos anos. Quaisquer desvarios e irresponsabilidades que tenham brotado de minha pena não foram intencionais. Meu único desejo ao escrever, repito, foi enriquecer, exortar e desafiar possíveis leitores.


Resta-me agradecer à revista Ultimato por todos os anos em que caminhamos juntos. Um pedaço de minha história está amputada. Mas a própria Bíblia avisa que há tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Meu amor e meu respeito pela família do rev. Elben, que compõe o corpo editorial da Ultimato, não diminuíram em nada.


Continuarei a escrever em outros veículos e a pastorear minha igreja com a mesma paixão que me motivou há 34 anos.
"

Ricardo Gondim
Soli Deo Gloria

Fonte: www.ricardogondim.com.br

terça-feira, 10 de maio de 2011

Por que eu e a minha casa não servimos ao Senhor?

Uma das expressões bíblicas mais repetidas nas igrejas foi cunhada por Josué, líder hebreu. “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” era um desafio frente a alternativas que dividiam o coração, os relacionamentos e, consequentemente, reduziam a probabilidade de alcançarem êxito no projeto de conquista por ele liderado.

Tal divisão de sentimentos e pensamentos era geradora de comportamentos desagradáveis aos olhos do Senhor Deus, pois o projeto do qual o povo participava havia nascido em seu coração e visava um objetivo mais amplo para a humanidade.

Retirada do contexto, a expressão tem sido usada por pessoas que abraçaram a fé em Jesus, cujos familiares não as acompanha nessa decisão ou não participam de maneira ativa de uma comunidade de fé. Por isso, sempre que possível expressam com emoção “eu e a minha casa serviremos ao Senhor”, como manifestação do desejo de ver a família toda engajada na vida da igreja.

Diante disso peguei-me pensando no porquê de uma pessoa, em sã consciência, negar-se a servir ao Senhor. Se servir ao Senhor representa, em última análise, colocar-se a serviço do bem, que motivos justificariam alguém a negar-se a servi-lo?

Enquanto pensava nisso, lembrei-me de uma expressão atribuída a Gandhi, na qual ele teria dito: “aceito o vosso Cristo, mas rejeito o vosso cristianismo”. Ela expressa, a meu ver, o mesmo que acontece com muitos dos nossos familiares que não nos acompanham no serviço a Deus.

Não são muitas as pessoas que conseguem diferenciar “servir a Deus” de “servir a uma estrutura religiosa”. Ainda que, sempre que somos sinceros no desejo de servir a Deus, ocorra como desdobramento o sentimento de servirmos com outras pessoas e, ainda que isso implique, inevitavelmente, na necessidade de um sentido mínimo de organização, o fato é que, geralmente, a tal organização acaba se tornando um fim em si mesma. Quando nos damos conta, em vez de estarmos juntos servindo a Deus, estamos juntos servindo aos institutos da organização.

É claro que a caminhada a dois gera necessidades de atenção à caminhada a dois, porém, a finalidade da caminhada deve merecer mais da nossa atenção, energias e outros recursos, do que os elementos que constituem meio para caminharmos a dois.

Além disso, julgo importante dizer que “servir ao Senhor” significa, antes de tudo, servir às pessoas. Isso Jesus deixa claro quando diz: “o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”. (Mat. 25.40) e Paulo corrobora, ao declarar: “Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, pois ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas”. (At. 17.25)

Ainda que seja importante destacar que, à luz da vida e ensinos dos primeiros cristãos, cooperar com uma comunidade de fé é algo inerente à vida cristã, uma exigência até, o fato é que isso não serve de motivação para quem ainda não se comprometeu a seguir como discípulo de Jesus.

Se há algo capaz de levar alguém a cogitar sair do discurso da crença em Deus para uma prática cooperativa em igreja, isso seria a realidade de nos reunimos não para servir uma estrutura ou apenas nos servirmos dela, mas para juntos servirmos uns aos outros e daí servimos à vida, à luz de finalidades coerentes com projetos divinos.

Uma importante razão para que o “eu e a minha casa serviremos ao Senhor” não se concretize é a nossa incapacidade de mostrar que santidade significa saúde para todas as dimensões da vida e que a instituição igreja é apenas canal de serviço a Deus através de serviços ao próximo e não estímulo à hipocrisia, falsa moralidade ou combustível de neuroses.

Enquanto não nos convencermos disso, mais difícil se torna realizar o desejo expresso na frase: “eu e a minha casa serviremos ao Senhor”.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mãe é mais do que mãe!

Mãe é filha que, por razões biológicas e culturais, geralmente usufrui de maior tempo ao lado da genitora e nela se inspira, afirmando ou negando o modelo, para construir seu modo próprio de ser-no-mundo; que foi amada, acolhida nos braços, amamentada, protegida, ensinada e também disciplinada ou, quem sabe até, excepcionalmente, experimentou rejeição, maltratos, abandono ou marginalização.

Mãe é ser humano que constrói seu presente, alimenta o passado e projeta o futuro; que procura sentidos para viver; se equipa para sobreviver; disputa melhores condições de vida; que chora, ri, sente fome, dor, tristeza, prazer, solidão, alegria, medo, raiva e amor.

Mãe é mulher que experimenta o fogo da paixão, a necessidade de afeto, a busca por um companheiro, o desejo de compreensão; que precisa lutar para superar a discriminação e, de forma justa e amorosa, forte e terna, ter reconhecida sua condição.

Mãe é esposa que, no encontro com o homem amado, quer caminhar numa via de mão dupla, na qual transita a troca de amor, paixão, aconchego, cuidado e atenção.

Mãe é administradora que, mesmo muita vez desenvolvendo atividades profissionais fora do lar, administra a casa, cuidando ela mesma, na maioria dos casos, ou gerenciando quando conta com auxiliar, da organização da vida em família; do abastecimento, limpeza e arrumação da casa; do cuidado com a alimentação; da higiene física, mental e espiritual dos filhos, além de participar ativamente da realização de desgastantes tarefas externas.

Mãe é serva de Deus, serva da vida, por isso amorosa e espontaneamente se empenha para ajustar-se às diversas e muitas vezes conflitantes exigências que as realidades impõem, buscando, de forma harmoniosa, cumprir seus papéis sociais e satisfazer suas necessidades pessoais.

Por isso, mãe é mais do que mãe!

Os focos do ministério esportivo da IBG.SSA

Visando tornar reais os compromissos decorrentes da missão e visão estratégica da IBG, nesses últimos 6 meses nossa atenção esteve voltada para a construção da quadra polivalente. Isso porque o uso do referido espaço influenciará significativamente a dinâmica da Igreja, do Cecom e seus relacionamentos com nossos vizinhos e amigos.

Os relacionamentos internos sofrerão impacto a partir do momento em que as pessoas terão mais oportunidade de estarem juntas em situações de descontração, podendo conhecer-se melhor mutuamente. Assim, nesse primeiro foco do ministério, elas poderão partilhar suas dores e prazeres, sonhos e lutas e, solidariamente, trocar idéias que gerem soluções para um viver individual e coletivo melhor.

Os relacionamentos com amigos, vizinhos e irmãos de outras igrejas também sofrerão impacto porque eles serão convidados para estar conosco não somente em função dos jogos de quadra, mas também dos de mesa que serão disponibilizados no salão de lazer, além de atividades esportivas externas que serão estimuladas. A expectativa é que nossas vidas (atitudes) falem tão alto que eles não precisem ouvir nossas vozes anunciando o amor de Deus.

Se pretendemos anunciar Cristo através de nossas atitudes, também está em nosso projeto fazê-lo com palavras. Assim, um segundo foco de atuação do ministério esportivo será o das atividades voltadas para o ensino da Palavra de Deus. Isso será feito usando atividades esportivas direcionadas especialmente para crianças. Já temos líderes treinados para isso e cheios de vontade para trabalhar.

Acreditamos que, ensinando crianças nos caminhos de Deus expressos na vida de Jesus (não da religião institucionalizada), daremos a elas um sentido que as ajudará na redução do risco de se envolverem com drogas. Assim, teremos que investir muito menos na recuperação de criminosos.  Queremos que o lugar onde estamos inseridos seja uma Cristolândia, antes que se transforme numa Cracolândia.

Finalmente, nosso terceiro foco será voltado para uma ação social através do estímulo à formação de atletas olímpicos em diversas modalidades. Isso se dará através de escolinhas esportivas e de qualificação de voluntários, visando a inserção em um universo mais amplo, seja municipal, estadual ou nacional. Acreditamos que esta área de atuação poderá tornar-se o eixo principal de atração da atuação do Cecom junto às famílias, se soubermos tirar proveito das possibilidades e oportunidades decorrentes e agirmos com consciência e paixão.

Com esses focos, a imagem e realidade da igreja serão fortalecidas não como uma organização contemplativa que cultiva reflexão pela reflexão, sem ação, mas como um laboratório de experiências que visam proporcionar melhor qualidade nos relacionamentos com Deus, com o semelhante e com o meio ambiente onde está inserida.