segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Graça para amar - I João 3:14

“Sabemos que já passamos da morte para a vida porque amamos nossos irmãos. Quem não ama permanece na morte.” (1 João‬ ‭3:14‬)

Quando eu era adolescente, li um livro do evangelista Billy Graham no qual ele ilustrava que seu cachorro não fumava, não bebia bebidas alcoólicas, não ia ao cinema, não dançava, enfim, nem por isso poderia ser identificado como uma nova criatura em Cristo.

João nos aponta vários traços que caracterizam a personalidade de uma pessoa que teve um encontro com Jesus. Exemplos: não anda em trevas, isto é, fora da comunhão, (1:6); se assume como pecador (1:10); obedece os mandamentos de Jesus (2:3); anda como Jesus andou (2:6); não odeia seu irmão (2:9); pratica a justiça (2:29); não permanece no pecado (3:6); não pratica o pecado (3:9) e ama os irmãos (3:14). A partir deste ponto (3:14), outros traços continuarão a aparecer, mas o amor passa a ser o principal foco da carta.

É importante termos clareza desses traços espirituais de personalidade dos seguidores de Jesus e nos empenharmos para que se tornem evidentes em nossas vidas. Porém, importante também é nos lembrarmos de nossas limitações humanas e do indispensável reconhecimento da nossa dependência da graça divina, sem a qual nada seremos capazes de produzir.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Odiados sim; odiosos, jamais! - I João 3:13

“Meus irmãos, não se admirem se o mundo os odeia.”
 (1 João‬ ‭3:13‬)

A possibilidade de sermos odiados em função da fé que professamos é real. Jesus alertou-nos: “Todos odiarão vocês por causa do meu nome.” (Lc. 21:17‬). Paulo declarou: “De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” (2 Tim. 3:12‬). 

Há, porém, um detalhe que faz diferença: uma coisa é ser odiado, outra, odioso. Pode-se ser odiado por pessoas más, quem se empenha em viver corretamente. José do Egito, por exemplo (Gen. 39). Odioso, entretanto, é aquele cuja própria natureza é má.

Pressupõe-se que a natureza de um discípulo de Jesus seja amorosa e não odiosa. Se é amorosa, cai na graça do povo (Atos 2:42-47). Cabe, então, as palavras de Lloyd-Jones, citadas por John Stott: "A glória do evangelho é que, quando a igreja é absolutamente diferente do mundo, ela invariavelmente o atrai. É então que o mundo se sente inclinado a ouvir sua mensagem, embora talvez no princípio a odeie".

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Cada um por si, mal para todos - I João 3:12

“Não sejamos como Caim, que pertencia ao Maligno e matou seu irmão. E por que o matou? Porque suas obras eram más e as de seu irmão eram justas.” (1 João‬ ‭3:12‬)

Na narrativa bíblica da criação, Caim é irmão de Abel, ambos filhos de Eva e Adão. Trabalhavam na agropecuária e ofertavam a Deus parte do produto do trabalho. Certa vez, Deus aceitou a oferta de Abel e rejeitou a de Caim. Caim enfureceu-se. Deus, então, esclareceu que a rejeição não era ao produto, mas à sua má conduta. Conduta corrigida, oferta aceita, problema resolvido.

Caim, entretanto, transformou o irmão em Bode Expiatório. Em vez de corrigir a própria conduta, optou por matá-lo. Matou-o sem justificativa objetiva. Inveja? Rancor? Pura maldade? Para João, embora ambos tivessem a mesma origem biológica, a ação de Caim decorreu de sua escolha de vida: pertencer ao Maligno.

Cada um escolhe o rumo de sua vida.  Porém, uma má escolha não prejudica apenas a quem a escolhe. Pode significar a morte também de quem faz escolhas certas.  O bem e o mal que escolhemos, pode ser o bem e o mal de quem não escolheu. Quando cada um vive para si, o mal pode sobrevir a todos. Portanto, não  dá pra não se interessar pelas escolhas do outro. Harmonizar direitos individuais e interesses coletivos sempre será um desafio, mas enfrentá-lo é necessário. Ser indiferente, jamais.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Mensagem Original - I João 3:11

“Esta é a mensagem que vocês ouviram desde o princípio: que nos amemos uns aos outros.” (1 João‬ ‭3:11‬)

Não há discurso mais antigo da fé cristã precisando ser conservado ou, talvez, restaurado, priorizado e enfatizado do que esse. Ele nos remete à mensagem original de Jesus, nosso Senhor e Salvador. Não há, entretanto, discurso mais esquecido em nossos diálogos, pregações e práticas. 

Somos diferentes. Sentimos diferente. Pensamos diferente. Reagimos diferente. Nossa cultura familiar e social são diferentes. Nossas circunstâncias são diferentes. Nossa percepção da realidade é diferente. Nossas histórias são diferentes. Conflitos, portanto, são inevitáveis.

Podemos, entretanto, trabalhar para que nossas diferenças gerem beleza e não doença, gerem tensões criativas e não doentias e consigamos nos manter em níveis agradáveis de convivência. Isso somente é possível se, acima de tudo, estivermos comprometidos com esta mensagem original de Jesus: "que nos amemos uns aos outros".

domingo, 12 de novembro de 2017

Filhos de Deus ou do Diabo? - I João 3:10

“Desta forma sabemos quem são os filhos de Deus e quem são os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não procede de Deus, tampouco quem não ama seu irmão.” (1 João‬ ‭3:10‬)

Quer identificar quem é filho de Deus e quem é do Diabo? João responde que a resposta as seguintes perguntas indicam como saber: pratica a Justiça? Ama seu irmão?

Filiação espiritual segundo João, repito, não é uma mera consequência de nossa condição de criaturas. Esse fato não nos coloca na condição de filhos de Deus, pois isso se dá por afinidade de natureza espiritual, identificada através dos frutos que a vida de cada um apresenta.

E tudo o que sei sobre doutrinas bíblicas? E o fato de pertencer a uma denominação religiosa com marca respeitada, com poder político e econômico? E o fato de ser fiel aos costumes - moral - tradicionais da cultura onde me desenvolvi? E o fato de ser assíduo aos serviços religiosos de minha igreja? E a minha fidelidade na entrega regular de dízimos e ofertas? João responderia: se não forem decorrentes de uma vida amorosa e justa, sua paternidade não será divina.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Nascido de Deus - I João 3:9

“Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus.” (1 João‬ ‭3:9‬)

Vivi um tempo em que ir ao cinema, cantar MPB ou mulher usar calça comprida, maquiagem ou bijuterias eram tidos como pecado por grande parte dos evangélicos.  Esses são apenas alguns dos muitos possíveis exemplos de como costumes, tradições, vistos como pecado, deixaram de fazer parte da lista dos comportamentos proibidos por igrejas.

Isso não significa que o fenômeno pecado deixou de existir, mas que o enquadramento de determinados costumes, antes entendidos como pecaminosos, foram reavaliados à luz de novas compreensões. Para que um comportamento fosse classificado como pecado passou a ser necessária a especificação dos malefícios que causaria à pessoa praticante, a terceiros ou ao meio ambiente e nâo apenas ser costume - mores - ou tradição.

Uma pessoa consciente, autônoma, que de fato foi agarrada - expressão usada por Kierkgaard - pelo amor de Deus, que foi alcançada pela graça preciosa - expressão de Bonhoeffer -, portanto nascida de Deus - expressão de João -, jamais sentiria prazer em viver pecando, ainda que suceptível ao pecado.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Jesus e o Diabo - I João 3:8

“Aquele que pratica o pecado é do Diabo, porque o Diabo vem pecando desde o princípio. Para isso o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo.” (1 João‬ 3:8)

Biblicamente, o Diabo é o pecador de referência, o pecador-padrão, o pecador-mor. Ele não é o "pecador do mês", mas dos séculos. Não é aquele humano que circunstancialmente comete desvios em face de um ambiente que serve de gatilho para sua genética pecaminosa, mas um pecador contumaz, consciente. Seria, digamos, a própria encarnação do pecado.

Jesus de Nazaré é o antídoto. Sua missão foi destruir o que o Diabo fez e faz na vida humana. ““O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor”.” (Lucas‬ ‭4:18-19‬)

O Diabo é o ladrão de vida. "O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir...". Jesus é o restaurador da vida. "...eu vim para que tenham vida e a tenham plenamente.” (João‬ ‭10:10‬). Nossas escolhas e praticas indicam a quem estamos efetivamente vinculados, o tronco do qual nos nutrimos.

domingo, 5 de novembro de 2017

Não se deixe enganar - I João 3:7

“Filhinhos, não deixem que ninguém os engane. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo.” (1 João‬ ‭3:7‬)

No afã de levar alguma vantagem, de impor seu modo de pensar, de impor-se politicamente, enfim, parte das pessoas não tem nenhum constrangimento em enganar outras. Isso se dá em todos os setores e atividades da vida. Daí o imperativo: "não deixem que ninguém os engane". 

Para isso é necessário perspicácia, isto é, usar a inteligência, desenvolver a capacidade de percepção, prestar atenção à realidade, aos discursos e, principalmente, às ideologias subjancentes a eles. Isso exige empenho, determinação, foco, estudo, reflexão... Nas palavras de Jesus: "ser simples como as pombas e prudentes como a serpente".

Não se trata de tornar-se um paranóico, mas de ter consciência da possibilidade de sermos enganados e não permitir que isso ocorra. Conferir discurso e prática, por exemplo, é um caminho para identificar enganadores.  A prática da justiça, por exemplo, não apenas o discurso em defesa da justiça, é que nos torna justos, como justo foi Jesus de Nazaré.

sábado, 4 de novembro de 2017

Incompatibilidade - I João 3:6

“Todo aquele que nele permanece não está no pecado. Todo aquele que está no pecado não o viu nem o conheceu.” (1 João‬ ‭3:6)

É possível ser "crente" e conviver com pecado. Os demônios, por exemplo, são "crentes" de estremecer, segundo Tiago, mas convivem com mentira, homicidio, perseguição, engano, furia, injuria, injustiça, opressão,  tentação, destruição, ardilosidade, orgulho, sedução, enfim, convivem com o que é pecaminoso.

Aquele, porém, que convive na comunhão com Jesus, está sujeito a pecar, mas não faz do pecado sua escolha, seu estilo de vida. Sua convivência com o que é efetivamente pecaminoso não é amistosa e seu coração está sempre ligado na graça divina em busca de libertação, pois sabe que aquilo que é, de fato, pecado, à saude não faz bem.

Para João, conhecer a Jesus e estar em pecado é algo incompatível, isto é, não combina. É conflitante conhecer a Jesus e continuar convivendo com aquilo que é nocivo à própria vida, à vida da coletividade, ao ambiente no qual a vida se desenvolve. O pecado sempre será aquilo que adoece, que destrói a vida e Jesus sempre o que cura, o doador de vida, a própria vida. Dai pecado e vida em Jesus serem incompatíveis.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Conhecimento, pecado e vida - I João 3:5

“Vocês sabem que ele se manifestou para tirar os nossos pecados, e nele não há pecado.” (1 João‬ ‭3:5‬)

Conhecimento é resultado da interação de nossos corpos com a realidade que nos cerca, inclusive a virtual. Isso se dá através dos sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato). Essa interação é mediada por linguagem e processada em nosso cérebro. É mais, portanto, do que recepção e memorização de informações. É transformação de informações em significados que, por sua vez, ganham nova vida através de atitudes, palavras e ações.

Pelas palavras de João, a qualidade de vida denominada por ele de eterna deveria estar vinculada ao conhecimento que teríamos da razão de ser da vinda de Jesus e de sua natureza pessoal. Jesus manifestou-se para tirar os pecados -"Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" - sendo, ele próprio, sem pecado. O conhecimento disso deveria nortear nossa vida como paradigma.

Lembremo-nos, porém, de que aos olhos dos fariseus, Jesus era pecador. Tanto ele, por exemplo, quebrava a lei do sábado, quanto apoiava seus discípulos quando assim procediam. Cito isso para dizer que, se não construirmos um conhecimento adequado do que seja pecado, continuaremos sendo escravos dele mesmo conhecendo que Jesus não tinha pecado e veio para libertar-nos dele.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O gosto agridoce do pecado - I João 3:4

“Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei.” (1 João‬ ‭3:4‬)

Gostar ou não gostar da palavra pecado é direito de cada um. Se em alguma situação da vida ela foi aplicada de maneira equivocada, traumatizou e desagradou, isso não altera o fenômeno, seus significados e efeitos. Pecado faz parte de nossas vidas e suas consequências podem ser desagradáveis, ainda que, num dado momento e circunstância gere prazer.

É pouco relevante, também, a que lei João se refere, como pouco relevante seria, nesta devocional, discutirmos se quebramos a lei por causa do pecado ou se pecamos por causa da quebra da lei. O fato é que a transgressão da lei não é somente consequência de pecado, mas é também um tipo de pecado e traz consequências. 

Reafirmar o "pecado" não visa alimentar paranóias, ratificar podres poderes, reforçar culpas ou moralismos, mas reconhecer o fenômeno, o problema e as consequências. Exemplo: quem desobedece a lei no trânsito o faz pensando em ganhar tempo, fugir de obstáculos, mas pode gastar dinheiro com multa, perder o direito de dirigir por seis meses, além de colocar em risco sua vida e a do outro. Filosofando, psicologando, teologando ou não, o fato é que "pecado" - transgredir a lei - pode ser até prazeroso, mas também produz múltiplas e dolorosas consequências.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O Seminário "liberal" onde estudei

"Há sempre algum proveito quando o mestre não é de inteira confiança: o aprendiz precisa convencer-se a si mesmo sobre as verdades" (Soren Kierkgaard, em "As obras do amor")

Estudei em um seminário taxado pejorativamente de "liberal". Digo pejorativamente porque há um misto de desonestidade e pequenez intelectual em quem a ele aplica este termo. 

DESONESTIDADE, porque a intenção de quem usa o termo não visa construir pontes em busca do fortalecimento da unidade na diversidade. Antes, quem assim o taxa geralmente é um construtor de muros, amante da discriminação alheia, em busca de proteção  do próprio status quo, de sua zona de conforto, do incômodo de quem o contesta, da hegemonia do seu poder.

PEQUENEZ INTELECTUAL porque o termo liberal pode significar tanta coisa que, por paradoxal que possa parecer, até de conservador pode ser sinônimo. Por exemplo: o capitalista conservador é liberal, pois defende a manutenção do liberalismo nas relações de mercado. Para ele, conservar as relações de produção e consumo distantes do controle do Estado seria o melhor caminho à vida em sociedade. 

Outro exemplo: os batistas nasceram sob a bandeira da defesa da liberdade. Liberdade de crença, de pensamento, de opinião, de interpretação das Escrituras, de reunir-se, de organizar-se, de autogerir-se como igreja local, de cooperar com outras igrejas e não controlá-las, defendendo tudo isso bem distante das "garras" do Estado que controlava a Igreja Anglicana e as manifestações religiosas na Inglaterra do século XVII.  

Logo, ser um batista conservador deveria ser apegar-se e lutar para conservar essas raizes "liberais". Isso, entretanto, contraria  o agir daqueles que se autodenominam "conservadores", cuja praxis - teoria e prática - insiste em pretender uniformizar e controlar o pensamento coletivo, movido por uma visão político-empresarial diametralmente oposta aos exemplos de Jesus e que, sob pretexto de unificar forças visando fortalecimento denominacional e crescimento numérico, estão agindo como o Estado inglês agia com os insurgentes da igreja quando do nascimento do movimento batista.

O seminário "liberal" onde estudei era - e era aqui não significa juizo de valor sobre o que hoje é, mas minha percepção histórica dos tempos em que lá estudei - um espaço PLURAL. Embora autônomos e com senso crítico regido por razão, não por rancor, não percebia postura desafinante da parte dos professores com os quais estudei em relação à denominação mantenedora. Era visível o predominante conservadorismo em torno do respeito à liberdade de pensamento no corpo docente.

Essa pluralidade - que alguns equivocada, maldosa e pejorativamente classificam como "liberalismo" - foi decisiva no preparo de muitos líderes com postura de "servos não subservientes" que têm se destacado em todos os espaços  decisórios dentro e fora da denominação batista.

No seminário "liberal" onde estudei, éramos estimulados a ler diretamente o que pensavam os que pensavam a teologia, a missão, a eclesiologia, enfim, em vez de ficarmos restritos ao pensamento dos professores sobre o que pensavam os que pensavam esses assuntos. Os professores expunham seus pensamentos, tinham opinião própria, mas o espírito não era substituir a cabeça do aluno por suas cabeças, pois isso não seria educação desejável, mas lavagem cerebral. 

Ninguém é exclusivamente liberal ou conservador. A pessoa consciente de sí, do grupo com o qual caminha e dos grupos alternativos ao seu redor, reconhece que esses conceitos precisam ser continuamente entendidos, redefinidos, e se misturam em nós - trocadilho -, em maior ou menor grau, dependendo do assunto e do contexto. Apequena-se, portanto, quem usa a palavra "liberal" politico-teologicamente de forma pejorativa, visando desvalorizar, marginalizar ou destruir o outro, seja por ignorância ou má-fé.

Tornei-me um pastor e líder  conservador quanto aos princípios da tradição batista mais antiga por ter estudado em um seminário cujos professores foram competentes, honestos e tiveram autonomia para nos ensinar a estudar, em vez de programar nossas jovens mentes para tornar-nos meras mãos e mentes de obra manipuláveis por pessoas inescrupulosas que se aproveitam daqueles que cultivam boa-fé 

Qualificar o seminário onde estudei de "liberal" é um elogio, se entendido o significado amplo dessa palavra e seu vínculo com as mais remotas histórias dos batistas. Por outro lado, chamá-lo de "conservador", em termos populares, como usado por alguns político-ideólogos de religião, pode ser agressivo às histórias dos batistas, pois esses ideólogos, em vez de conservarem o espírito de liberdade, criam camisas-de-força, identificando-se com, repito, o Estado inglês do século XVII do qual nos libertamos, quando levantamos a bandeira da liberdade para nós e para todos.

Em resumo: no Seminário "liberal" onde estudei, fomos estimulados a considerar seriamente a veracidade das palavras de Jesus: "Eis que vos envio como ovelhas em meio a lobos, portanto, sejam simples como as pombas, mas prudentes como as serpentes". Ainda bem que estudei nesse Seminário "liberal" e aprendi bem essa lição!

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Esperança - I João 3:3

“Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro.” (1 João‬ ‭3:3‬)

Vivemos em função do que almejamos nos tornar, seja daqui a pouco, seja daqui a muitos anos, em todas as dimensões de nossas vidas. Mesmo sem nos darmos conta, sem termos plena consciência, sem, portanto, planejarmos estrategicamente, é sempre uma realidade nova, ou no mínimo diferente da vigente em determinado momento, que nos move todo instante. 

Somos um eterno vir-a-ser, movidos à esperança. Esperança que não deve ser confundida com a passividade do verbo esperar, mas com a expectativa motivada pelo desejo de melhoria, de mudança. Por isso "a esperança é a última que morre", pois é ela que anima e norteia nossas decisões.

A esperança fundamentada em Jesus produz muitos bons desejos e nos conduz a mudanças. Uma delas é o desejo de purificação. Não uma purificação por razões político-puristas, até porque o purismo é uma ilusão, ou mesmo moralistas, mas pelo desejo de vida plena,  de saúde - ou santidade na linguagem sacerdotal -, para si e para todos, em todas as áreas da vida, fruto da comunhão com Deus.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Pessoas mais amorosas - I João 3:2

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é.” (1 João‬ ‭3:2‬)

À luz das narrativas bíblicas, podemos distinguir três condições diferentes sob as quais a humanidade tem vivido com Deus: 1) a de criatura; 2) a de pacto; 3) a de amor. É por essa razão que João trata, nós seus leitores, como amados. Em Jesus, estamos sob a supremacia do amor divino.

Hoje, então, não apenas somos criaturas ou temos um pacto - relação jurídica caracterizada por leis -, mas experimentamos uma relação amorosa. Essa relação amorosa de intimidade com Deus é transformadora, pois o amor é a mais eficaz arma de transformação positiva da realidade humana. 

O que nos tornaremos como consequência dessa relação amorosa com Deus? Como isso impactará nossa vida? João diz não saber. Mas sabe que seremos semelhantes a Deus, pois fomos criados à sua imagem e semelhança. Certamente, então, o que nos espera é muito melhor do que somos e enxergamos, até porque, se Deus é amoroso, nos tornaremos, no mínimo, pessoas mais amorosas. Isso é o céu.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Filhos de Deus - I João 3:1

“Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: sermos chamados filhos de Deus, o que de fato somos! Por isso o mundo não nos conhece, porque não o conheceu.” (1 João‬ ‭3:1‬)

Todos somos filhos de Deus. Todos fomos criados por Deus. Assim creio, juntamente com mais de 95% da população do planeta e Satanás que se declaram crentes na existência de um ser que está por detrás (ou para além) da existência, denominado "Deus" em língua portuguesa. (Os outros menos de 5%, por fé ou outro motivo, optam por negar ou desconsiderar um "Deus" como criador).

João, porém, introduz uma nova definição para o conceito "filho de Deus", a partir de outro marco histórico-teológico que é Jesus. Assim como a mãe, cuja filha que foi baleada no Colégio Goyases, em Goiania, declarou a data do crime como um novo marco de nascimento da adolescente, assim também, João trata a experiência humana com Jesus como uma espécie de "refiliação", declarando que, em Jesus, alcançamos uma nova condição de filhos.

O novo pressuposto estabelecido indica que "filho de Deus" não se define pela condição de criatura, mas pela relação amorosa vivenciada entre Deus e a humanidade através do elo Jesus. Essa nova condição gera estranheza naqueles que não a experimentaram porque altera as atitudes, palavras e ações daqueles que com Jesus - não com uma instituição religiosa primeiramente - se comprometeram.

sábado, 21 de outubro de 2017

Ser Justo - I João 2:29

“Se vocês sabem que ele é justo, saibam também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele.” (1 João‬ ‭2:29‬)

A vida não é justa. Wayne W. Dyer escreveu em "Seus pontos fracos": "Se o mundo fosse organizado de tal forma que tudo tivesse que ser justo, nenhum ser vivo poderia sobreviver nem um dia. Os pássaros seriam proibidos de comer os vermes e o interesse pessoal de cada um teria que ser atendido". 

Nenhum de nós é justo. Está escrito: "Não há um justo, nem um sequer." (Rom. 3:10). E se não estivesse escrito, saberíamos por experiência, por constatação. Portanto, nossa postura de entusiasmo frente a vida não deve alimentar-se de expectativas irreais. Nem é bom dependermos, para nos sentirmos felizes, de algo impossível de concretizar-se, pelas próprias características da vida no planeta.

O desafio joanino é que, inspirados em Jesus, tenhamos "fome e sede de Justiça" e sempre consideremos o bem estar comum em tudo o que dissermos ou fizermos. E que, em cada situação de injustiça com a qual nos depararmos, lutemos para que o reparo seja feito e a justiça brilhe. Essa é uma das evidencia nossa relação com Jesus.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Jesus, Igreja e Bíblia - I João 2:28

“Filhinhos, agora permaneçam nele para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança e não sejamos envergonhados diante dele na sua vinda." (1 João‬ ‭2:28‬)

Há dois elementos da fé cristã que são extremamente essenciais: Igreja e Bíblia. A Igreja como resultado da missão de Jesus, como corpo do Cristo, como família de Deus, como comunidade do Espírito, como sinal e laboratório do Reino, enfim, e a Bíblia como inspirada por Deus para revelar o caminho de uma vida saudável ou santa, na linguagem sacerdotal ou eterna, na linguagem joanina, em Cristo Jesus.

Igreja e Bíblia são extremamente importantes no projeto divino, mas jamais a ponto de ter primazia sobre aquele que, por suas atitudes de serviço, humildade e obediência foi elevado acima de todo o nome, diante do qual "todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor". Pelo contrário, Igreja e Bíblia sempre deverão ser entendidas à luz da vida e ensinos de Jesus.

O foco de qualquer cristão é manter-se unido a Jesus, não somente em termos místicos, existenciais, mas especialmente pedagógicos, aprendendo diariamente com sua vida e ensinos e, a partir desses - vida e ensinos -, confrontando e avaliando a si mesmo e a realidade ao redor. Jesus, Igreja e Bíblia são, na prática, inseparáveis, mas o que faz toda diferença é o foco primeiro de nossa atenção: Jesus. Ele é o diferencial no aqui e agora, na qualidade de nossas relações com pessoas e coisas, e no porvir "diante dele na sua vinda".

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Unção, ensino e Bíblia - I João 2:27

“Quanto a vocês, a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas, como a unção dele recebida, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele como ele os ensinou.” (1 João‬ ‭2:27‬)

Não são poucos os que nos apresentam cotidianamente, alternativas de caminhos de vida, em termos religiosos, filosóficos, enfim. São caminhos apresentados tanto por quem caminha contra ou em paralelo a nós, quanto até por quem caminha institucionalmente ao nosso lado.

Porém, sabemos o caminho a seguir e isso não é fruto de apologética. Apologética é necessária a racionalistas, a quem precisa sustentar-se em provas, vivendo, portanto, por vista e não por fé. Não seguimos Jesus porque na Bíblia está escrito: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida e ninguém vem ao pai senão por mim" (Jesus). Ou "Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" (Pedro). Isso seria fundamentar a fé em um livro, não em uma pessoa. A Bíblia é essencial, mas por causa da pessoa de Jesus.

O fundamentalismo teológico surgiu como contraponto ao iluminismo, na tentativa de racionalizar a experiência espiritual usando linguagem e metodologia científica. Não conseguiu, entretanto, produzir pessoas melhores - pelo contrário - do que as que seguem Jesus pelo sentido espiritual e existencial gerado pela fé e pela convicção interior, inclusive com base em observação exterior, de que seguir as atitudes de Jesus nos eleva como seres criados à imagem e semelhança de Deus. Sem desmerecer a importância do ensino das Escrituras para nossas vidas, ATÉ PORQUE SÃO ELAS QUE DE JESUS TESTIFICAM, é a unção que nos sustenta no caminho, diz João.