sábado, 9 de fevereiro de 2019

Quando o plug da panela de pressão estoura - Administrando em situaçōes de crise

O QUE É QUE EU FAÇO? O QUE É QUE EU FAÇO? O QUE É QUE EU FAÇO?, gritei três vezes, como se clamasse à trindade.

Gláucia chega correndo na cozinha perguntando pelo que estava acontecendo e eu, ali parado. Foi em questão de segundos.

Tudo transcorria normalmente num sábado ensolarado. Logo no início da manhã os amigos Wilde e Maria passaram em casa pra me ajudar a resolver um problema que sozinho não conseguiria. Terminado o serviço, tomamos um suco, rimos um pouco e eles partiram.

Pouco mais tarde vou preparar uma carne de panela. Separo os ingredientes, corto a cebola, o tomate, o pimentão,  a cebolinha, o coentro; acrescento alho, batatinha, abóbora e alguns temperos, coloco na panela de pressão, ligo o fogo e começo a lavar alguns utensílios que estavam na pia.

De repente, um estouro tipo abertura de champanhe, um susto inesperado, um esguicho de água quente atingindo o exaustor e espirrando pelos arredores e a chama do fogo parecendo multiplicar-se.

No automático, repito 3 vezes a pergunta: O que devo fazer?

E enquanto a repetia, naqueles segundos, o cérebro identificava e conectava o perigo do fogo, indicando que a primeira coisa a fazer seria desligar o gás, mas, ao mesmo tempo, apontava o risco de queimadura com água quente, inclusive porque estava sem camisa.

Dos males, o menor pareceu-me arriscar desligar o gás, apagando o fogo, e assim o fiz, com sucesso.

Feito isso, restava diagnosticar e avaliar a situação, repensar o almoço, limpar o fogão, o exaustor, prateleiras próximas, paredes, piso, enfim, fazer uma bela de uma faxina e pensar em outro ingrediente para o almoço...

... e ainda, responder ao porquê do estouro, pra evitar repetições futuras...

Sem pressão da panela e do perigo e com a ajuda experiente de Gláucia, as ações foram replanejadas, medidas preliminares para garantir o almoço e ações que restaurassem a limpeza do ambiente foram adotadas.

E então, depois que a situação estava sob controle, almoçamos pelo plano B, descansei, iniciei a faxina enquanto pensava na relação "estouro da panela de pressão" e administração.

Ao longo da vida exerci muitos cargos e funções de liderança. Especializei-me em apagar incêndios. A maioria criada por terceiros; alguns, por mim mesmo. Alguns estavam em andamento e fui chamado pra apagar. Outros surgiram na caminhada.

A meu ver, esses que acontecem na caminhada são mais difíceis de debelar porque estamos envolvidos no processo. Sob pressão, fazer diagnóstico, identificar o que está acontecendo e decidir como agir para alcançar o melhor resultado visualizado, provocando o menor efeito colateral negativo, é o grande desafio. (Essencial, nestas situações, é definir focos, estabelecer ordem de prioridade e atacá-los, um por um).

Por isso tenho pouca paciência com "engenheiros de obras prontas", especialmente os que não demonstram competência para entender que uma coisa é tratar de um problema sentado numa sala confortável ouvindo narrativas passadas e dando opinião e outra é estar envolvido no problema concreto, sob a pressão de variáveis nem sempre tão claras, mas precisando tomar decisões urgentes. (Desconfio das intenções de quem assume um cargo, critica depreciativamente as decisões do antecessor sem levar em conta o contexto de seus erros e acertos. Se não estava lá quando as coisas foram feitas, que autoridade têm para criticar?)

Particularizando, nas reuniões de conselhos e assembléias de igrejas e denominação isso é muito comum. Algumas pessoas - portanto nem todas, muito menos a maioria -  participam apenas dos cultos, mas quando estão em reuniões deliberativas exercem seus poderes como se fossem totalmente envolvidas nos processos cotidianos objetos de decisão. Não são. Precisam, por isso, ser mais prudentes, humildes, generosas, em suas colocações.

Liderar é decidir e decidir, muita vez, sob pressão. Decidir sob pressão dificulta o diagnóstico e, consequentemente a escolha da melhor opção para solucionar um problema.

Já decidi muito. Milhares de pessoas já foram afetadas por decisões que tive que tomar em cargos e funções que ocupei. Muitas vezes errei, mas não mais do que acertei.  E digo com tranquilidade que, em todas as vezes que errei, nas difíceis decisões que tive que tomar, nenhuma delas foi com a intenção de prejudicar alguém. Se houve prejudicados em decisões tomadas, certamente faziam parte da escolha menos ruim enxergada no contexto, pois, como se diz, "não se faz omelete sem quebrar ovos".

Você que já viveu experiências com estouro de panela de pressão ou já estudou o assunto, pode fazer mil comentários dos "porquês" da explosão, dos "comos" que poderiam ser adotados nessa situação, das etapas do durante e do depois, mas colocar na berlinda, impiedosamente, quem viveu o caso concreto e precisou decidir sob a pressão do contexto é um grande equívoco.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

"Os cristão batistas em Pernambuco..."

Estive na Biblioteca do STBNB fazendo uma pesquisa e, dentre os livros, tive acesso a este, "Os cristãos batistas em Pernambuco...", de Francisco Pereira, o qual recomendo.

Apenas para registro, por se tratar de história da qual fiz parte em um período, ficam as seguintes observações, visando subsidiar eventuais pesquisadores:

1. Página 399

Assembléia Convenção Batista de Pernambuco (out/1991)
A presidência da diretoria: Israel Dourado Guerra, Edvar Gimenes de Oliveira e Livingstone Cunha. (Livingstone deixou a Secretaria em 1991 - por isso pode fazer parte da diretoria - e não em 92 como apresentado na página 400).

Esta diretoria - Israel, Edvar e Livingstone - dirigiu a Assembléia de Arcoverde (out. 91) e a de Bairro Novo (out. 92), pois foi a diretoria da transição. Até Arcoverde, a eleição ocorria na sessão de abertura, como mandava o estatuto e era responsável até a eleição  na abertura da Assembléia seguinte.

A partir daí (na Assembléia de Olinda), a eleição passou a ocorrer na penúltima sessão. Por essa razão, a diretoria que tinha na presidência Israel, Edvar e Livingstone dirigiu duas Assembléias: da abertura  da de Arcoverde (out/91) ao encerramento da de Olinda (Out. 92)

(Como não havia impedimento estatutário até a reforma estatutária de 91 em Acoverde, na Assembléia de Olinda eu era vice-presidente (eleito na abertura de Arcoverde) e diretor do CAB. A partir daí, funcionário da CBPE ou suas instituiçōes foi impedido de participar da diretoria).

2. Pag. 401

Ney Ladeia (Página 401) - Quando Ney era pastor da Igreja Batista do Zumbi ele não era capelão no CAB. Era professor de ensino religioso. Deixou o cargo de professor para trabalhar na trabalhar na JEVAN em 92. Alguns anos depois, quando deixou a JEVAN voltou a trabalhar no Colégio como capelão.

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A primeira observação pode ser confirmada no Livro de Atas da CBPE. A segunda, somente em boletins semanais do CAB que foram encadernados e deixados nas bibliotecas do CAB e STBNB.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Trilha para sucessão pastoral

Era um concílio para examinar um colega de turma com vistas ao pastorado. A reunião acontecia numa grande igreja de interior no nordeste. Um líder, depois de ouvir para onde o candidato iria, pediu a palavra e, em tom reprovador, declarou que não era para aquela igreja que ele gostaria que o candidato fosse.

O candidato reagiu dizendo algo como: esta é a sua vontade, mas não é a de Deus. Como o senhor não é Deus, não irei para onde o senhor gostaría. O líder, silenciosamente, sentou-se.

O conflito de vontades faz parte da experiência humana. Acontece entre pessoas e também na relação com Deus.

Afinar a vontade de pessoas parece-me um desafio maior. Os motivos, interesses e escalonamento de valores são diferentes, nem sempre conscientes e transparentes, e não há, nem nunca houve neste planeta, pessoa capaz de atender em 100% as expectativas de outra. Muito menos de um grupo de outras.

Quando se trata de escolher um pastor, uma trilha de conciliação seria *relacionar* diversos aspectos definidos por envolvidos e pedir a quem vai decidir que marque, para cada um deles, quais das seguintes categorias retrataria melhor seus sentimentos e pensamentos: "muito importante", "importante", "pouco importante" ou "sem importância".

A partir disso, procuraria-se alguém que mais se aproxima daquilo que é entendido pela maioria como "muito importante" ou "importante", deixando em segundo plano os "pouco importantes" ou "sem importância" à maioria da igreja.

Perceba-se que, nesse caso, é a vontade humana que se estaria buscando reconhecer.

Há quem defenda que afinar-se à vontade Deus seria menos difícil. Bastaria elencar princípios do reinado de Deus, manifestos na vida e ensinos de Jesus, confrontá-los com os motivos que movem os corações dos que têm que decidir em busca de afinação entre as duas vontades - divina e humana - e seguir adiante, confiando na graça divina.

O problema é que há situações excepcionais nas quais o agir de Deus se manifesta de maneira imprevisível, misteriosa. Lucas, por exemplo, conta que Paulo e seus companheiros foram impedidos, pelo Espírito, de pregar a palavra na Ásia e na Bitínia e, depois, através de sonho "concluiram" que Deus os tinha chamado à Macedônia.  (At. 16:6-10).

Um  bom caminho, então, seria conciliar muita e sincera oração, com aquilo que as pessoas que decidirão consideram muito importante, buscando harmonia com o reconhecimento e priorização dos valores espirituais do reinado de Deus, manifestos em Jesus.

Seguir por esse caminho aumenta significativamente as chances de acerto.  E, se houver erro, que cada um seja humilde para reconhecer o seu e, nesse espírito, colaborar para corrigir a rota.

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*Ilustração de pesquisa para definição de perfil pastoral

Estas perguntas têm por objetivo:

A) Ajudar os membros da igreja a terem uma visão ampla do que pode envolver a vida ministerial de um pastor. (É, portanto, essencial que antes de responder se faça uma leitura geral);

B) Ajudar a igreja a ter clareza do que é essencial no perfil de pastor que buscará;

C) Facilitar o trabalho da Comissão de Sucessão Pastoral na classificação de nomes que efetivamente participarão do processo.

As perguntas que seguem são apenas ilustrativas, podendo ser alteradas ou suprimidas de acordo com a valorização da Comissão que a elaborará ou, ainda, podendo receber outras que não aparecem nesta ilustração.

1. ASPECTOS MINISTERIAIS
1.1. Que o pastor se dedique exclusivamente à Igreja
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.2. Que o pastor dedique tempo à visitação dos membros
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.3. Que o pastor dedique tempo a aconselhamento
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.4. Que o pastor dedique tempo à administração eclesiástica
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.5. Que o pastor dedique tempo à preparação dos sermões e estudos bíblicos
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.6. Que o pastor dê expediente diário na sede da igreja
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.7. Que o pastor exerça magistério em instituição batista
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.8. Que o pastor já tenha experiência ministerial comprovada
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância


2. ASPECTOS LITÚRGICOS

2.1. Que o pastor use paletó e gravata nos cultos dominicais
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

2.2. Que o pastor pregue em todos os cultos dominicais
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

3. ASPECTOS DENOMINACIONAIS

3.1. Que o pastor seja formado em seminário batista reconhecido pela ABIBET da CBB
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

3.2. Que o pastor seja filiado à Ordem dos Pastores Batistas do Brasil
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

3.3. Que o pastor participe de assembléias das convenções batistas
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

4. ASPECTOS FAMILIARES
4.1. Que o pastor seja casado
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

4.2. Que a esposa do pastor exerça cargo na igreja
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Jesus e a rivalidade

Fazendo uma leitura bíblica para iniciar a preparação da mensagem que compartilharei no próximo domingo, à tarde, me deparo com o seguinte registro de João: “Os fariseus ouviram falar que Jesus estava fazendo e batizando mais discípulos do que João, embora não fosse Jesus quem batizasse, mas os seus discípulos. Quando o Senhor ficou sabendo disso, saiu da Judeia e voltou uma vez mais à Galileia.” (João‬ ‭4:1-3)

Deixei de lado o foco da preparação da mensagem para refletir em como, até mesmo na realização de atividades relacionadas ao Reino de Deus, pessoas com segundas intenções, especialmente travestidas de roupagem religiosa, encontram uma forma de criar conflitos.

João batizava. Os discípulos de Jesus batizavam. Batizar é um ato simbólico, cujo significado inclui reconciliação, pacificação de relacionamentos. Mas aos ouvidos fariseus, isso era o menos importante. Importante para eles era gerar conflito e, para isso, nada melhor do que semear a competição, fazendo uma maliciosa comparação: "Jesus" batiza mais do que João.

Quem nunca vivenciou isso nos corredores de nossas instituições religiosas? Quem nunca se deparou com alguém comparando as qualidades de um líder em relação a outro? A pregação de um pastor em relação a outro? A eficiência administrativa de um dirigente em relação a outro? O conhecimento bíblico de um professor em relação a outro?

Não é problema reconhecer as qualidades de alguém. A quem honra, honra. A questão é a comparação maliciosa, geradora de rivalidade, que visa enfraquecer alguém, semeando desavença.

Tocou-me, entretanto, o fato de Jesus se retirar do ambiente. Sua presença ali não seria benéfica aos propósitos do Reino. Permanecer ali serviria de munição para os fariseus. Certamente também criaria problemas entre os discípulos dele e os de João e isso não fazia parte de seu ministério.

Não que Jesus não se envolvesse em conflitos. Ele virou as mesas dos cambistas, tratou o rei Herodes como "raposa velha", enfim, ele era pacificador, mas não era pacifista. A diferença é que ele sabia escolher quais conflitos precisavam ser enfrentados e quais ser evitados.

Esse conflito - quem batizava mais - não agregaria nada de útil ou benéfico à vida das pessoas ou ao seu ministério. Diante disso, sua atitude foi exemplar: "deixou a Judéia e retornou à Galiléia".

Fica a dica. Quando o ambiente dá sinais de favorecer a rivalidade entre agentes do Reino, melhor seguir o exemplo de Jesus: retirar-se.

A propósito do texto "Plano de governo ou Plano de denominação?” (OJB, 13.1.2019)

Li com atenção, como geralmente faço com OJB, o texto "Plano de governo ou Plano de denominação", escrito pelo Pastor Lourenço Stelio Rega.

O texto, bem escrito como de praxe, visa, segundo interpreto, dar um norte de estabilidade às convenções (o que pode ser aplicado também à relação pastores-igrejas locais), a fim de que não fiquemos à mercê das crenças, visões, estilos, ímpetos, enfim, traços de personalidade de cada dirigente que as assumem.

Para isso, o autor lança mão de dois conceitos (ou duas categorias políticas) que ele denomina "Plano de governo e  Plano de denominação".

Em face da importância teleológica, das implicações práticas do texto, inclusive de curto prazo, segundo minhas observações em bastidores tanto da CBB quanto de convenções estaduais e igrejas, tomo a liberdade de fazer observações que, a meu ver, merecem atenção do povo batista, especialmente suas lideranças.

1. As idéias dos conceitos usados pelo Pastor Lourenço encontram equivalência pública nos termos "Política de Estado e Política de Governo.

1.1. Política de Estado refere-se às ações que são definidas em lei, portanto, quem estiver no governo, seja de direita, esquerda ou de qualquer outro expectro ideológico possível, seja de qual partido for, é obrigado a mantê-las. (Por concordarem com elas ou discordarem delas, o dirigente pode dar mais ou menos ênfase a elas, mas, jamais poderá deixar de implementá-las, exceto se a lei for modificada).                                                                      
1.2. Política de Governo são aquelas ações que, segundo a visão ou interesses que os governantes têm da realidade, precisam ser implementadas para dar resposta a uma demanda da população ou de um segmento dela. Por não se tratar de ações impostas pela lei, cada governo tem liberdade de implementá-las ou não.

2. Em relação à nomenclatura "Plano de denominação", por ter entendido a idéia do Pastor Lourenço e por reconhecer a importância dela, peço licença para ponderar e sugerir o seguinte:                                                                                                
2.1. Denominação é um conceito que se aplica para além dos arraiais de uma convenção. Tem a ver com o nome que caracteriza o grupo, daí falarmos em denominação batista, denominação presbiteriana, denominação católica, etc.
2.1.1. Portanto, denominação é um termo que se aplica à diversidade de grupos e organizações batistas, sejam ou não vinculados à determinada Convenção Batista, no caso à CBB. (Ex. Aliança Batista Mundial, Convenção Batista Nacional, etc). Por não temos poder para estabelecer planos para os diferentes universos que se abrigam sob a denominação “batista”, a nomenclatura não me pareceu a melhor.          
2.1.2. Em face do exposto, sugeriria ao autor que considerasse a possibilidade de utilizar os termos "Plano de Convenção (em lugar de "Plano de Denominação") e "Plano de Diretoria" (em lugar de "Plano de Governo, mas aqui não faço restrições)".                                                                                                
2.1.2.1. Plano de Convenção (Política de Estado) seriam as ações que devem ser mantidas em face de imposição dos documentos legais da Convenção (Estatuto, Regimento Interno, Declaração de Princípios, Declaração Doutrinária e Filosofia da CBB)                                                                                      
2.1.2.2. Plano de Diretoria (Política de Governo) - seriam as ações que poderiam ser adotadas por cada dirigente da convenção (ou igreja local), sem contrariar o imposto pelos documentos constitutivos da Convenção (ou da Igreja).

3. Exemplos:
3.1. Declaração Doutrinária  - faz parte dos planos (da política) da Convenção Batista Brasileira que uma igreja, para ser filiada a ela, declare reconhecer sua Declaração Doutrinária como fiel.
3.1.1. A Declaração Doutrinária da CBB define a Bíblia como "a Palavra de Deus em linguagem humana..." e define também, como parâmetro hermenêutico, que a Bíblia “deve ser interpretada sempre à luz da pessoa e dos ensinos de Jesus Cristo".
3.1.2. Qualquer dirigente de convenção, de suas organizações ou de igreja local deve de ser fiel a isso.
3.1.3. Digamos, entretanto que um dirigente não creia na chave hermenêutica adotada pela Convenção Batista Brasileira (a Bíblia  "deve ser interpretada sempre à luz da pessoa e dos ensinos de Jesus Cristo") e prefira a chave hermenêutica usada no século XVI pelo presbiteriano João Calvino ("a Bíblia interpreta a própria Bíblia").
3.1.4. Nesse caso o melhor caminho, a meu ver, é que esse dirigente aja com ética e respeite a Declaração Doutrinária da Convenção.
3.1.5. Se esse ponto for extremamente relevante para ele, pelo menos dois caminhos são indicados: a) deixar a diretoria da Convenção (ou da igreja) por respeito ao "Plano de Convenção" (ou "Política de Estado") ou b) propor que o assunto seja reexaminado pelos batistas, de forma honesta e transparente, visando mudar o "Plano da Convenção", no caso expresso na Declaração Doutrinária.
3.1.6. O que é desonesto é a subversão ou o golpe, isto é, começar-se a induzir mudanças sutilmente, sem que o povo batista tenha clareza do que se quer mudar, porquê se quer mudar e para que se quer mudar. Sem que o povo, as igrejas, conheçam bem as alternativas e suas implicações para fazer uma escolha.

3.2. Declaração de Princípios - Há dirigentes focados na cooperação e há dirigentes focados no (ilusório) controle dos cooperadores, no exercício do poder sobre as igrejas ou sobre os membros das igrejas.
3.2.1. Mas a CBB definiu claramente em seus documentos, como "Plano de Convenção", não só sua compreensão de autonomia da Igreja local, mas como se relacionaria com elas.
3.2.1.1. Compreensão de governo da igreja local: "O princípio governante para uma igreja local é a soberania de Jesus Cristo...
“A democracia, o governo pela congregação, é forma certa...”
“Uma igreja é um corpo autônomo, sujeito unicamente a Cristo, sua cabeça. Seu governo democrático, no sentido próprio, reflete a igualdade e responsabilidade de todos os crentes, sob a autoridade de Cristo."
3.2.1.2. Plano de relação com a igreja local: No artigo segundo do seu estatuto, a CBB reafirma os direitos e deveres das igrejas a ela filiadas explicitando o caráter cooperativo e afirma, ainda, que compromissos obrigatórios podem se dar mediante documento assinado pelas partes.
3.2.2. Se, por mais legitimo que seja o motivo, um dirigente desconsidere esses documentos em suas tomadas de decisões, estará gerando conflito. E se faz isso, impondo sua vontade, sem reconhecer ou desconsiderando que há um conflito, os danos à cooperação podem ser maiores, ainda que silenciosos.

3.3. Relatórios à Assembléia - A CBB definiu que seus dirigentes prestariam relatório de suas organizações à sua Assembléia Anual nos termos do artigo 54 do Regimento Interno. Isso faz parte do "Plano de Convenção" ("Política de Estado") e não "Plano de Diretoria" ("Política de Governo").
3.3.1. Portanto, cada dirigente é obrigado por lei a executar seus relatórios nos termos ali previstos. Se discordar da lei deve submeter o assunto à Assembléia, de forma transparente e honesta, a fim de que a Assembléia, ciente do que está fazendo, decida pela mudança ou manutenção.

4. Sem querer complicar mais e, talvez, já complicando, para reforçar as diferenças dos termos "Plano de Convenção" ("Plano de Denominação", nos termos do Pr. Lourenço) e "Plano de Diretoria" (Plano de Governo, nos termos do Pr. Lourenço), faço uma analogia com as diferenças entre "Princípios" e "valores" feita por Eliezer Arantes da Costa, em seu livro "Gestão Estratégica Fácil".

4.1. PRINCÍPIO seria "aquilo que a organização não está disposta a mudar, aconteça o que acontecer"  e VALORES, aquilo que pode "ser objeto de avaliação". Ele diz: "é como se os princípios fossem os fundamentos de um edifício, ao passo que os valores seriam as cores e os acabamentos das paredes externas e internas do prédio: ambos são importantes, mas em natureza e graus diferentes".

O texto escrito pelo pastor Lourenço é, portanto, de muita pertinência, pois nos ajuda a entender que, por mais autoritária, controladora, voluntariosa que seja a personalidade de um dirigente, ele terá que se ater ao que determina os documentos ("Plano de Convenção) e não querer que as coisas sejam feitas a seu modo ("Plano de Diretoria").

Penso, por isso, que esse assunto merece que nos debrucemos sobre ele, nestes tempos em que as polarizações afloram em nossa sociedade e o meio batista não está imune a elas.

Estudemos, pois, nossos documentos, antes de nos precipitarmos a alterar o “plano de denominação” como chamou o Pastor Lourenço, ou as “políticas de Estado”, como se chama na área pública, ou o “plano de Convenção” como sugiro como alternativa, criando conflitos desnecessários no relacionamento estabelecido entre Convenções e igrejas filiadas e gerando enfraquecimento nos processos cooperativos.

Edvar Gimenes de Oliveira,
Pastor batista, no Recife

sábado, 5 de janeiro de 2019

Michelle Bolsonaro e a causa dos surdos

"Nossa cabeça pensa, onde pisam nossos pés!"

A Primeira Dama, Michelle Bolsonaro, roubou a cena no dia da posse do Presidente da República, ao discursar em LIBRAS, no parlatório, antes do seu marido. O ato foi simbólico sobretudo por trazer a debate os desafios enfrentados pelos surdos, uma parcela da população brasileira cujos problemas são desconhecidos ou ignorados pela maioria.

Criada na perifera de Brasília, Michelle teria se dedicado a aprender a Lingua Brasileira de Sinais - LIBRAS - pelo fato de ter convivido com um tio surdo. Disso teria nascido seu interesse por dedicar-se a este segmento.

Nossas escolhas pessoais têm relação direta com as experiências que tivemos. Isso ocorre inclusive na produção acadêmica. "É a relação afetiva para com um objeto, que me atrai ou me ameaça, que cria as condições para a concentração de minha atenção", escreveu Rubem Alves. Somos impulsionados a agir, visando entender e alterar uma realidade, quando nosso coração é tocado por uma situação que presenciamos, por uma narrativa que lemos ou ouvimos, por uma experiência que afetou nosso sentimento.

Lembro-me de narrativas dos pastores Paulo Eduardo, da PIB de São Paulo e Fernando Brandão, da Junta de Missões Nacionais e de como teriam sido movidos a agir após contato, "in loco", com a miserabilidade dos moradores da Cracolândia, na capital paulista. Essa experiência fez surgir um dos mais destacados projetos de recuperação e apoio a dependentes químicos conhecidos atualmente no Brasil.

O tête-à-tête dificulta nossa indiferença e nos faz tratar melhor quem está ao nosso lado. As palavras de Paulo indicam isso: “Vocês bem sabem que nunca fiz questão de riqueza ou de vestir do bom e do melhor. Com estas mãos limpas, cuidei das necessidades básicas, minhas e dos que trabalham comigo. Em tudo o que fiz, demonstrei a vocês que é preciso trabalhar a favor dos fracos, não explorá-los. Vocês não estão errando se guardarem a lembrança daquilo que o Senhor disse: ‘Vocês são mais felizes dando do que recebendo’.” (At. 20:32-35, em A Mensagem)

Mateus registra que Jesus, movido por compaixão, curou e alimentou pessoas quando VIU a multidão e seus enfermos e OUVIU que pessoas estariam com fome. (Mt 14). É, portanto, natural que, havendo um mínimo de compaixão em nosso coração, há empenho para usar os meios de poder acessíveis, por menores que sejam, para agirmos em favor de quem está em situação de vunerabilidade, desfavorecimento ou injustiça.

Michelle usou o parlatório, um instante de visibilidade "mundial", para alavancar, potencializar, o que tocou sua vida, seu coração, e fez bem. Importante, entretanto, é entendermos que não apenas sentimentos ou experiências particulares devem mover nossas ações. Não é preciso, por exemplo, ter na família um sem-teto para lutar por moradia ou uma mulher que foi violentada, para lutar pelos direitos das mulheres.

O conhecimento de dados da realidade, mesmo referentes àqueles que não fazem parte do nosso "mundo significativo", deve mover nossas escolhas, nossas lutas, como manifestação de amor ao ser humano, como Deus ama. E isso não somente para minorar a dor, assistencialmente, mas para atacar as causas geradoras e seus efeitos nocivos.

Michelle, repito, fez bem ao usar seu novo papel social e a repercussão de seus atos em favor daquilo que toca seu coração. E nós, temos usado nossas oportunidades e recursos para alavancar e potencializar não apenas o que mexe com nossas emoções, mas, sobretudo, o que move o coração de Deus, revelado em Jesus?

Um dia de pedra, um dia de vidraça

Todos nós temos nosso dia de pedra e nosso dia de vidraça, independente de isso ser ou não justo.

Na política, quanto mais uma pessoa ou instituiçåo ganha destaque, maior vidraça ela se torna.

Os amigos se alegram com o sucesso. Os inimigos procuram um "calcanhar de Aquiles" para atirar pedras. Se não encontram um ponto fraco - todos temos - inventam um.

Quanto maior prestígio ou poder político o sucesso agregar à pessoa ou instituiçäo, mais intensamente a investigação acontecerá ou narrativas serão criadas visando encontrar pontos fracos para serem apedrejados.

É o caso da igreja batista da qual a Primeira Dama do Brasil faz parte.

Recomendo aos líderes das igrejas que leiam com atenção, primeiro, para que entendam o ocorrido e, depois, para que estejam cientes de mais uma possibilidade de risco ao qual as igrejas estão sujeitas.

Lembre-se: você não vive dentro de uma redoma. xxx https://www.diariodocentrodomundo.com.br/fui-entregue-como-uma-ovelha-ao-lobo-diz-fiel-que-processa-igreja-frequentada-por-michelle-bolsonaro-por-sumico-de-r-700-mil/

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Caminhando em um novo ano

Há caminhadas cuja finalidade é clara: pretendemos chegar a um destino. Há aquelas cujo destino pouco importa: a finalidade é a caminhada em si. Ambas são importantes.

A caminhada visando um ponto de chegada geralmente é mais estressante. É que a cabeça está focada no destino. Se pensamos no rolamento do piso, na distância, na temperatura, no vento, nos sons, enfim, o fazemos em função da agilidade ou do tempo e energia que podem ser economizados para se atingir o objetivo. Pouca atenção é dada ao que acontece na trajetória, se isso pouco interferir no resultado desejado.

Diferente é a caminhada pela caminhada. Nela os olhos estão abertos aos detalhes das paisagens. Seja a beleza das árvores, as cores das flores, uma simples folha seca caída no chão, alguém com quem nos deparamos, os prédios construídos; seja a multiplicidade de sons de pássaros, de motores de veículos, de um rádio ligado, de alguém conversando ou das próprias pisadas; seja a sensação do vento na pele, o perfume da natureza, enfim, seja com o que nos depararmos ou que fenômeno ocorrer, tudo é percebido, sentido e apreciado como sinal de vida, como o mais importante da caminhada. Tudo é motivo de reflexão. Importante é estar e continuar caminhando.

Se na caminhada visando um destino o ápice do prazer, da alegria, acontece na chegada, na caminhada pela caminhada, o prazer vai sendo degustado a cada passo, a cada esquina, a cada surpresa.

Geralmente no início da caminhada de um novo ano, fala-se muito no que se pretende alcançar e menos no que se pretende viver. Parece-me que a exclusão de um tipo ou de outro é igualmente nociva à vida.

Definir onde se pretende chegar, que alvo se deseja atingir é importante, mas trabalhar a cabeça para experimentar o que ocorrer, viver o bem e o mal de cada dia, preparar o coração para enfrentar com bom humor as surpresas que a vida reserva, certamente traz mais saúde pra si e pra quem está ao redor.

Daí ser importante, nesse início de caminhada incluir espaço para o não planejado em nosso planejamento e a falta de finalidade, como finalidade, em nossos objetivos. Quem sabe isso não ajude a nos sentirmos mais felizes e a ajudarmos os que nos cercam a também serem mais felizes.

Feliz Ano Novo!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Filhos "obedientes", pais condecorados

Cresci convivendo com pais orgulhosos por seus filhos estarem integrados em uma igreja e pais tristes, pelo contrário.

Vez por outra ouvi pastores encherem o peito no púlpito ao declararem que seus filhos estavam "nos caminhos do Senhor" e ouvi pastores sendo criticados sob o discurso de que o "insucesso" pelas escolhas dos filhos, diferentes das deles, os desqualificava  para o pastorado, afinal, "biblicamente", "quem não sabe governar a sua própria casa, como terá cuidado da Igreja de Deus?"

Isso me faz lembrar de um pai que criou um casal de filhos, deu-lhes as diretrizes para o bem viver, mas ambos seguiram por outro caminho. Um de seus "netos" matou o irmão. Esse era nada mais nada menos que o todo poderoso, criador do universo.

Talvez, lembrar isso ajude na redução do juízo precipitado, da jactância, da exigente hipocrisia ou ainda, até, do sentimento de culpa e desistência de alguns do ministério.

Há certas bandeiras que levantamos para nos fortalecermos moral e politicamente perante um público ou para enfraquecer alguém com quem não simpatizamos ou cujas idéias não nos agradam ou não nos beneficiam, sem prestarmos atenção no fato de que o padrão usado para acariciar e alimentar  o próprio ego é mais elevado do que o experimentado pelo próprio onipotente, onisciente e onipresente "Pai do Éden".

É bom e agradável ver os filhos seguindo os princípios que abraçamos. Investir nisso é indicado, especialmente se o resultado que se pretende é criar filhos amorosos, respeitosos, solidários, trabalhadores, enfim, retratos da imagem de Deus manifesta em Jesus.

Mas é bom  também sermos mais humildes, graciosos e respeitosos - como Jesus - na forma de lidar com o "sucesso" ou "insucesso" nessa área. Primeiro, porque a história ainda está sendo escrita e o balanço final não ocorreu; depois,  pra não nos colocarmos como mais sábios, exemplares e eficazes do que o próprio Deus, pai-criador, que apregoamos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Natal, bendita sensibilidade

“Em tudo o que fiz, mostrei a vocês que mediante trabalho árduo devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: ‘Há maior felicidade em dar do que em receber’ ”.” (Paulo, em Atos‬ ‭20:35‬)

O que é que nos torna, de uma maneira geral, mais sensíveis no Natal? Parece-me que é o espírito de dar, reinante na estação.

Neste período, independente de qual motivo se alegue, o fato é que há uma mobilização coletiva no sentido de sair de si mesmo, de lembrar-se do outro e de como se pode fazer para agradar alguém.

Seja através da doação de um presente, do compartilhar de uma ceia, de uma moedinha na "caixinha de natal", de uma libertação para si mesmo ao oferecer perdão a ofensor, enfim, o fato é que o espírito coletivo se abre para dar.

Isso faz com que surja um brilho no coração, um sorriso no rosto, luzes na cidade e emersão de esperança do fundo de nossa alma, possibilitando que aquilo que ansiamos dê sinais de tornar-se realidade.

Critique-se o comércio, a hipocrisia, a artificialidade, a superficialiade, enfim. Nem isso, entretanto, é capaz de impedir que luzes brilhem não só na fachada dos prédios, nas salas de nossos lares, mas sobretudo em milhares de rostos conhecidos ou anônimos ou mesmo em faces cujas almas vivem a maior parte do ano às escuras, com cheiro de mofo, umidecidas em lágrimas.

Respeite-se mesmo aquelas pessoas para as quais o Natal nada signifique ou signifique coisas diferentes de seu motivo original. Nem elas, mesmo sentindo e reagindo de forma avessa, conseguem passar incólumes neste tempo do nosso calendário.

Dar é o espírito do tempo. "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna". (Jo. 3:16)

Se é assim, e assim eu creio, o Natal é uma lembrança, uma sinalização para o caminho da vida, para o pão da ceia a ser compartilhado, à porta aberta pela qual devemos entrar, a fim de que os dias que estão por vir sejam melhores do que os vividos, para todos.

Receber e compartilhar o presente divino, esse é o sentido do Natal. Daí trocarmos presentes, inclusive imateriais. Esse é o espírito da estação. Isso, parece-me, repito, é o que nos torna a todos, conscientes ou não, aceitando ou não, mais sensíveis. Bendita sensibilidade.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Plausível


@folha "Filho de Bolsonaro diz que ex-assessor lhe relatou 'história bastante plausível'"

Plausível: 
1.  "que se pode admitir, aceitar; razoável"
2. "acreditável, possível, razoável, aceitável, admissível, crível, provável"

Bolsonaro, o filho, declarou ter entendido como plausível a justificativa de Queiroz, seu assessor e amigo de seu pai, à movimentação de quase 1,3 milhão em sua conta bancária, em um ano...

Parcela da população considerou pláusivel a justificativa dada por Bolsonaro, o pai e quase presidente, a respeito do depósito que seu amigo, assessor de seu filho, fez na conta bancária de sua esposa. Seu amigo Queiroz movimentou quase 1,3 milhão em um ano, mas precisou de 40 mil emprestados e estava devolvendo pra conta da esposa, pra poupá-lo de ter que ir ao Banco. Plausível.

O povo não achou pláusível a explicação dada pelo Cel Lima, amigo do presidente Temer, para não comparecer a um depoimento, em março de 2018. Ele estava sendo acusado pelo MP como comparsa do quase ex-presidente. Mas Temer não merecia e continua não merecendo confiança. Ele não parece ser plausível.

Parte do povo, parece-me, pelo silêncio, está achando plausível, que Queiroz, o amigo de Bolsonaro, não tenha comparecido nesta sexta-feira, pela segunda vez na semana, ao depoimento que deveria fazer ao MP sobre a vultuosa movimentação financeira. Mas, embora tivesse, segundo Bolsonaro, o filho, uma explicação plausível à movimentação financeira vultuosa, também seria plausível que tenha adoecido, como o Cel Lima, amigo do Temer, em março. Afinal, é amigo de Bolsonaro, vereador e deputado há 30 anos, acima de qualquer suspeita. E tido como plausível.

Em tempo e fora de tempo: Bolsonaro disse que, se um ministro seu sofresse acusações robustas, sua caneta BIC seria usada para depô-lo. Seu futuro ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sofreu acusação robusta e acaba de ser condenado, robustamente, em Primeira Instância em São Paulo. Ainda nada se falou, nada se fez. É plausível que canetas BIC estejam em falta neste período natalino por ser um presente que todos gostam de dar e receber. É plausível aguardarmos. Aguardemos.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

"Sabedoria" e "Inteligência Emocional"?

Há quem apregoe que "sabedoria" e "inteligência emocional" são característicos daqueles que não se envolvem em conflitos de natureza política, inclusive os de natureza político-religiosa ou político-eclesiástica ou ainda político-denominacional. Esse tipo de "sabedoria" e "inteligência emocional" (ou a falta delas) seriam a causa de, no popular, alguém se dar bem (ou se dar mal) na vida.

Reconhecidas as exceções patológicas, ninguém se envolve em conflito porque gosta, muito menos porque gosta só de si. Se envolve porque enxerga e acredita que há algo nocivo, doentio, na formatação estrutural, política, ideológica, enfim, do grupo ao qual pertence que precisa ser corrigido, curado, elucidado. Se envolve porque persegue o bem não só pra si, mas também para todos.

Se "sabedoria" e "inteligência emocional" fossem ser capaz de nunca se envolver em conflito, que classificação daríamos à pessoa de Jesus? Ou à pessoa de Paulo? Ou será que  ignoramos as narrativas abundantes dos conflitos de Jesus com Fariseus, de Paulo com comerciantes e religiosos? Teria sido por nada que um foi parar na cruz e o outro atrás das grades?

Se por comodidade, medo ou outro até bom motivo alguém valoriza e, por isso, prioriza nunca envolver-se em conflito, essa é uma escolha que deve ser respeitada. Até mesmo escolher ser um covarde vivo a um herói morto seria legítimo. Cada um sabe onde seu sapato aperta e reconhece até onde é capaz de ir.

Daí, entretanto, "sinonimizar" a escolha de nunca envolver-se em conflitos como "sabedoria" ou "inteligência emocional" soa-me muito mais como conversa pra King (o Martin, não o monarca) dormir do que verdade.

Faça um levantamento na história de quem fez diferença no desenvolvimento social da humanidade ou de um segmento dela ou mesmo em um pequeno grupo e descubra o percentual desses que seriam classificados como "sábios" ou "emocionalmente inteligentes", segundo a definição pacifista. Se o percentual não for zero, chegará próximo disso.

A história daqueles que fizeram diferença social na caminhada de um grupo, de uma sociedade, demonstra que, sim, eram "sábios", "emocionalmente inteligentes". Apenas o escalonamento de seus valores tinha sequência diferente, com outra prioridade.

Eles decidiram não viver só pra si, só pra preservar  emprego,  salário,  posição social ou privilégios.  Antes, tiveram um senso de justiça social, sentiram a dor dos enfraquecidos, empobrecidos ou fragilizados pelos sistemas, eram empáticos, compassivos, corajosos e focados.

Eles pensavam no que precisava ser feito e em como fazer pelo bem de todos e agiam, mesmo que isso lhes custasse perda de privilégios, do status quo, da vida. "É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!” (Atos‬ ‭5:29‬), acreditavam.

Todo relacionamento é conflituoso. Cabe, portanto, a cada um, e é desejável e recomendável que assim seja, desenvolver a capacidade de buscar a harmonia através de diálogo, negociação, acordo, visando o maior benefício para todos, pelo menor custo emocional, político, etc, possível.

Mas, se os privilégios inaceitáveis de uns são mantidos a base dos sofrimentos inaceitáveis de outros, nada resta a ser feito senão preparar-se pra cruz ou pra prisão, com muita "sabedoria", "inteligência emocional", mas também altruismo, coragem, competência e muito amor ao próximo.

A alternativa a isso seria, "pilatianamente", "lavar as mãos", mantendo-se com curriculo "limpinho", com aparência de "cidadão de bem", de "bom mocismo" e, com "sabedoria" e "inteligência emocional", passar os dias sentado "no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar".


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O cristão e os empobrecidos

As eleições passaram. Bolsonaro será o presidente.

Sugiro duas coisas:

1. Não aja como alguns petistas agiram quando estiveram no poder: aplaudiram os acertos e silenciaram nos erros.

Se assim agir, será apenas um petista ao avesso, com todos os defeitos do avesso.

Aja como cristão, como sal e luz. Olhe as ações do governo com consciência crítica. Não uma crítica emocional de desabafo, mas racional, mesmo quando indignado.

2. Enquanto houver pessoas muito satisfeitas com a vida econômica que levam, talvez como vc, e houver 1 brasileiro ou mais de 50 milhões, como indicam as pesquisas, sobrevivendo com 400 reais por mês, haverá um seguidor de Jesus, em meio a milhões de cristãos acomodados, clamando por justiça social, mesmo sendo pejorativamente rotulado de socialista, comunista, petista, reacionário, esquerdopata, como tentativa de amedrontá-lo, marginalizá-lo e calar sua voz.

Lembre-se do que disse Jesus: se os crentes se calarem, as pedras clamarão.

Ósculos e amplexos.

Princesas e príncipes: diferentes, mas iguais

(A propósito do discurso de Damares Alves, futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos)

Princesas e príncipes
Diferentes, mas iguais.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais em termos espirituais.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais em direitos político-sociais.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais no trato da divisão das tarefas do lar.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais nas competências e limitações para prover sustento próprio.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais na aptidão para sentir, entender e educar.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais na inteligência para argumentar e dialogar.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais na potencialidade de liderar em qualquer situação.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais na eficácia para ir à luta, enfrentar o mundo.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais na idoneidade para serem fiéis e leais.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais frente aos desafios do poder

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais na possibilidade de servir.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais na necessidade de se respeitar.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais na faculdade de amar.

Diferentes em aspectos fisiológicos,
Mas iguais na inevitabilidade de morrer.

Princesas e príncipes,
Diferentes, mas iguais
Exploração e violência mútuos, jamais!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Economia política

Há muito  tempo, como pastor, professor e exercendo cargos de liderança denominacional batista venho falando que um dos problemas do ministério pastoral está na deficiência de estudos teológicos mais profundos no campo da ética relacionados à política e economia.

Há uma ênfase na ética corporal e familiar em detrimento da política e econômica. Por isso, nós pastores nos sentimos empoderados para tratar desses dois campos - corporal e familiar - e silenciamos em termos de ética política e econômica.

Pior, quando o assunto são os problemas da família, eles são julgados estritamente pela ótica do padrão moral - não necessáriamente ético - corporal, como se política e economia não influenciassem a saúde e estabilidade da família e seus indivíduos. Isso gera profundas distorções nas orientações que brotam dos púlpitos e das salas de aconselhamento pastoral.

Por isso fiquei maravilhado com este texto. 

Recomendo.

(http://www.lupaprotestante.com/blog/economia-politica-para-teologos-y-cristianos-con-interes-1-alfonso-ropero-berzosa/)

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A Bíblia e os empobrecidos


Temos dúvidas quanto ao olhar especial de Deus para os empobrecidos? 

1. Moisés
       1.1. ““Não perverta o direito dos pobres em seus processos.”
‭‭(Êxodo‬ ‭23:6‬)

        1.2. "Sempre haverá pobres na terra. Portanto, EU ORDENO A VOCÊ que abra o coração para o seu irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de sua terra.” (Deuteronômio‬ ‭15:11‬)

2. Davi 
       2.1. "Mas os pobres nunca serão esquecidos, nem se frustrará a esperança dos necessitados.” (Salmos‬ ‭9:18‬)

       2.2. "Reparte generosamente com os pobres; a sua justiça dura para sempre; seu poder será exaltado em honra.” (Salmos‬ ‭112:9‬)

3. Salomão
       3.1. “Acolhe os necessitados e estende as mãos aos pobres.”
‭‭(Provérbios‬ ‭31:20‬)

        3.2. "Ele se compadece dos fracos e dos pobres e os salva da morte.” (Salmos‬ ‭72:13‬)

        3.3. "Quem zomba dos pobres mostra desprezo pelo Criador deles; quem se alegra com a desgraça não ficará sem castigo.” (Provérbios‬ ‭17:5‬)

        3.4. "Quem trata bem os pobres empresta ao Senhor, e ele o recompensará.” (Provérbios‬ ‭19:17‬)

        3.5. "Quem fecha os ouvidos ao clamor dos pobres também clamará e não terá resposta.” (Provérbios‬ ‭21:13‬)

       3.6. "Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”.” (Provérbios‬ ‭31:9‬)

4. Zofar 
       4.1. "Sim, pois ele tem oprimido os pobres e os tem deixado desamparados; apoderou-se de casas que não construiu.” (Jó‬ ‭20:19‬)

5. Jó 
       5.1. "Não é certo que chorei por causa dos que passavam dificuldade? E que a minha alma se entristeceu por causa dos pobres?” (Jó‬ ‭30:25‬)

6. Isaias 
       6.1. "Ai daqueles que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores, para privar os pobres dos seus direitos e da justiça os oprimidos do meu povo, fazendo das viúvas sua presa e roubando dos órfãos!” (Isaías‬ ‭10:1-2‬)

7. Ezequiel 
      7.1. "Seus profetas disfarçam esses feitos enganando o povo com visões falsas e adivinhações mentirosas. Dizem: ‘Assim diz o Soberano, o Senhor ’, quando o Senhor não falou. O povo da terra pratica extorsão e comete roubos; oprime os pobres e os necessitados e maltrata os estrangeiros, negando-lhes justiça.” (Ezequiel‬ ‭22:28-29‬)

8. Igreja de Jerusalém e Paulo 
      8.1. "Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer.” (Gálatas‬ ‭2:10‬)

Isso sem falar em Jesus e uma quantidade imensa de casos do Velho ao Novo Testamento que demonstram o interesse de pessoas tementes a Deus pela causa de empobrecidos.

Leiamos cada um desses textos e seus cotextos, com calma, em espírito de oração, e certamente escamas cairão de nossos olhos e nossa postura mudará diante desse assunto...

xxx

Em tempo:
Desafio 1. Coloque outros textos bíblicos que reforçam os ensinos de Deus para com empobrecidos;
Desafio 2. Coloque pelo menos UM texto bíblico que indica que NÃO devemos dar atenção aos empobrecidos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Comunidades de Diótrefes, inimigas de Barnabés

João era amado, Paulo era temido e diante de ambos havia uma porta. A porta estava fechada. Ambos queriam entrar, ambos desejavam se aproximar, conhecer e servir novas pessoas. Ambos tinham a missão de levar a Palavra. Mas havia um obstáculo: as portas estavam fechadas e eles não podiam entrar.

Portas se fecham para quem ama. Portas se fecham para quem tem histórico assustador. Elas não se fecham sozinhas, nem se fecham por acaso. Não importa o motivo: se estão fechadas, quem precisa, não pode entrar; quem precisa, não pode ouvir. E o reinado de Deus não pode avançar.

xxx

João era o discípulo amado. Como poucos, escreveu sobre o amor, discorreu sobre perdão, sobre ser luz,  verdadeiro, cooperador e hospitaleiro. Queria ter acesso à igreja, mas a porta estava trancada e Diótrefes detinha a chave.

Diótrefes ouviu a respeito de Jesus, envolveu-se com o povo de Jesus, assumiu a liderança de uma comunidade de Jesus, mas ou não conhecia ou não levava a sério ou esqueceu-se dos ensinos de Jesus.

"Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo;” (Mt. 20:26-27‬).  “Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei os seus pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Eu dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz.” (Jo. 13:14-15‬). Assim ensinou Jesus aos seus discípulos. Disso ele deu exemplo. Esse deveria ser o padrão de vida almejado.

Diótrefes, entretanto, queria ser importante e talvez tivesse medo de não ser, por isso usurpava o poder. Usava da difamação para prejudicar uma pessoa amorosa. Dividia a igreja. Fechava a porta para João.

xxx

Paulo encontrou-se com Jesus. Sua vida mudou. Seu novo testemunho causava admiração. Mas continuava sendo temido e com razão. Participou do martírio de Estevão. Perseguiu os seguidores de Jesus. Deteve poder para prender "desviados". As notícias a seu respeito eram assustadoras. Seu currículo, portanto, não animava cristãos a  se aproximarem dele. Era legítimo que quem se reconhecia herege, se sentisse alvo em potencial e, por isso, se protegesse dele. Fechar a porta indicava medo.

Barnabé não conhecia a máxima de Abrahan Lincoln: "não gosto daquele homem. Preciso conhecê-lo melhor". Mas era homem bom, discipulador, de "bom testemunho, cheio do Espírito Santo e sabedoria". Era discípulo de Jesus, por isso aproximou-se de Paulo, conheceu sua história e decidiu ser ponte entre a igreja e ele. Tornou-se a chave que abriu a porta do coração do povo de Deus para acolher Paulo.

xxx

Vivemos tempos de desconfiança nas igrejas. O critério de seleção para aproximação não é mais a pessoa de Jesus e seu ministério de reconciliação, de demolição de muros de separação.  Antes, estamos nos tornando comunidade de porteiros com chaves do poder e medo patológicos.

Estamos nos tornando comunidades de neuróticos nos termos usados por Paul Tillich: "O neurótico é aquele que, tentando evitar o não-ser, evita o ser".  A missão agora é descobrir a tendência teológica, a opção político-ideológica e marginalizar, perseguir, eliminar.

Descartando Jesus, estamos nos tornando comunidades de Diótrefes, inimigas de Barnabés.