sábado, 17 de novembro de 2018

A bela Abisague e a feia disputa pelo poder (I Reis 1 e 2)

Abisague era jovem, virgem, bonita e de origem sunamita.
Davi era idoso, sentia frio e os cobertores não o aqueciam.
Disso nasce a relação entre ambos.

A idéia foi dos servos dele.
Se cobertores não o aqueciam, ela seria a solução.
Sexo não haveria entre eles.
Ela seria apenas cuidadora.
Seu papel seria serví-lo e aquecê-lo.

Davi morreu, Salomão assumiu o trono.
Adonias perdeu a coroa, mas desejou ficar com a jovem.
Talvez como prêmio de consolação.
Assim, pediu a Bateseba que por ele intercedesse.
Foi ela quem garantiu o trono ao filho, intercedendo junto a Davi.

Para Salomão, entretanto, Adonias não queria só Abisague.
O poder seria seu real desejo.
Por isso, não só disse não à mãe, mas também mandou matar seu meio-irmão.
Seguiu à risca os últimos conselhos de seu pai Davi: inimigos políticos devem ser mortos.

Abisague entrou pra história.
Aqueceu um rei e foi desculpa à morte de um pretendente ao trono.
Tudo porque era jovem e bela? Não.
Tudo porque ela - a velha, feia e cruel disputa pelo poder - não poupa sequer irmãos.






sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A Bíblia e os empobrecidos


Temos dúvidas quanto ao olhar especial de Deus para os empobrecidos? 

1. Moisés
       1.1. ““Não perverta o direito dos pobres em seus processos.”
‭‭(Êxodo‬ ‭23:6‬)

        1.2. "Sempre haverá pobres na terra. Portanto, EU ORDENO A VOCÊ que abra o coração para o seu irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de sua terra.” (Deuteronômio‬ ‭15:11‬)

2. Davi 
       2.1. "Mas os pobres nunca serão esquecidos, nem se frustrará a esperança dos necessitados.” (Salmos‬ ‭9:18‬)

       2.2. "Reparte generosamente com os pobres; a sua justiça dura para sempre; seu poder será exaltado em honra.” (Salmos‬ ‭112:9‬)

3. Salomão
       3.1. “Acolhe os necessitados e estende as mãos aos pobres.”
‭‭(Provérbios‬ ‭31:20‬)

        3.2. "Ele se compadece dos fracos e dos pobres e os salva da morte.” (Salmos‬ ‭72:13‬)

        3.3. "Quem zomba dos pobres mostra desprezo pelo Criador deles; quem se alegra com a desgraça não ficará sem castigo.” (Provérbios‬ ‭17:5‬)

        3.4. "Quem trata bem os pobres empresta ao Senhor, e ele o recompensará.” (Provérbios‬ ‭19:17‬)

        3.5. "Quem fecha os ouvidos ao clamor dos pobres também clamará e não terá resposta.” (Provérbios‬ ‭21:13‬)

       3.6. "Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”.” (Provérbios‬ ‭31:9‬)

4. Zofar 
       4.1. "Sim, pois ele tem oprimido os pobres e os tem deixado desamparados; apoderou-se de casas que não construiu.” (Jó‬ ‭20:19‬)

5. Jó 
       5.1. "Não é certo que chorei por causa dos que passavam dificuldade? E que a minha alma se entristeceu por causa dos pobres?” (Jó‬ ‭30:25‬)

6. Isaias 
       6.1. "Ai daqueles que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores, para privar os pobres dos seus direitos e da justiça os oprimidos do meu povo, fazendo das viúvas sua presa e roubando dos órfãos!” (Isaías‬ ‭10:1-2‬)

7. Ezequiel 
      7.1. "Seus profetas disfarçam esses feitos enganando o povo com visões falsas e adivinhações mentirosas. Dizem: ‘Assim diz o Soberano, o Senhor ’, quando o Senhor não falou. O povo da terra pratica extorsão e comete roubos; oprime os pobres e os necessitados e maltrata os estrangeiros, negando-lhes justiça.” (Ezequiel‬ ‭22:28-29‬)

8. Igreja de Jerusalém e Paulo 
      8.1. "Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer.” (Gálatas‬ ‭2:10‬)

Isso sem falar em Jesus e uma quantidade imensa de casos do Velho ao Novo Testamento que demonstram o interesse de pessoas tementes a Deus pela causa de empobrecidos.

Leiamos cada um desses textos e seus cotextos, com calma, em espírito de oração, e certamente escamas cairão de nossos olhos e nossa postura mudará diante desse assunto...

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Em tempo:
Desafio 1. Coloque outros textos bíblicos que reforçam os ensinos de Deus para com empobrecidos;
Desafio 2. Coloque pelo menos UM texto bíblico que indica que NÃO devemos dar atenção aos empobrecidos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Comunidades de Diótrefes, inimigas de Barnabés

João era amado, Paulo era temido e diante de ambos havia uma porta. A porta estava fechada. Ambos queriam entrar, ambos desejavam se aproximar, conhecer e servir novas pessoas. Ambos tinham a missão de levar a Palavra. Mas havia um obstáculo: as portas estavam fechadas e eles não podiam entrar.

Portas se fecham para quem ama. Portas se fecham para quem tem histórico assustador. Elas não se fecham sozinhas, nem se fecham por acaso. Não importa o motivo: se estão fechadas, quem precisa, não pode entrar; quem precisa, não pode ouvir. E o reinado de Deus não pode avançar.

xxx

João era o discípulo amado. Como poucos, escreveu sobre o amor, discorreu sobre perdão, sobre ser luz,  verdadeiro, cooperador e hospitaleiro. Queria ter acesso à igreja, mas a porta estava trancada e Diótrefes detinha a chave.

Diótrefes ouviu a respeito de Jesus, envolveu-se com o povo de Jesus, assumiu a liderança de uma comunidade de Jesus, mas ou não conhecia ou não levava a sério ou esqueceu-se dos ensinos de Jesus.

"Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo;” (Mt. 20:26-27‬).  “Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei os seus pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Eu dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz.” (Jo. 13:14-15‬). Assim ensinou Jesus aos seus discípulos. Disso ele deu exemplo. Esse deveria ser o padrão de vida almejado.

Diótrefes, entretanto, queria ser importante e talvez tivesse medo de não ser, por isso usurpava o poder. Usava da difamação para prejudicar uma pessoa amorosa. Dividia a igreja. Fechava a porta para João.

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Paulo encontrou-se com Jesus. Sua vida mudou. Seu novo testemunho causava admiração. Mas continuava sendo temido e com razão. Participou do martírio de Estevão. Perseguiu os seguidores de Jesus. Deteve poder para prender "desviados". As notícias a seu respeito eram assustadoras. Seu currículo, portanto, não animava cristãos a  se aproximarem dele. Era legítimo que quem se reconhecia herege, se sentisse alvo em potencial e, por isso, se protegesse dele. Fechar a porta indicava medo.

Barnabé não conhecia a máxima de Abrahan Lincoln: "não gosto daquele homem. Preciso conhecê-lo melhor". Mas era homem bom, discipulador, de "bom testemunho, cheio do Espírito Santo e sabedoria". Era discípulo de Jesus, por isso aproximou-se de Paulo, conheceu sua história e decidiu ser ponte entre a igreja e ele. Tornou-se a chave que abriu a porta do coração do povo de Deus para acolher Paulo.

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Vivemos tempos de desconfiança nas igrejas. O critério de seleção para aproximação não é mais a pessoa de Jesus e seu ministério de reconciliação, de demolição de muros de separação.  Antes, estamos nos tornando comunidade de porteiros com chaves do poder e medo patológicos.

Estamos nos tornando comunidades de neuróticos nos termos usados por Paul Tillich: "O neurótico é aquele que, tentando evitar o não-ser, evita o ser".  A missão agora é descobrir a tendência teológica, a opção político-ideológica e marginalizar, perseguir, eliminar.

Descartando Jesus, estamos nos tornando comunidades de Diótrefes, inimigas de Barnabés.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Conselhos ímpios de pios

Pior do que "conselho dos impios" são os conselhos ímpios de pios. É que, diante de alguém tido como ímpio, ficamos com os pés atrás, nosso coração se arma, se protege, se põe na defensiva, se cerca de cuidados, pois culturalmente foi introjetado em nós que palavra vinda de lábios incrédulos não merece aceitação. "Como é feliz aquele que não segue o conselho dos impios..." (Salmos 1:1:)

Quando, porém, estamos diante de pios, baixamos a guarda, o coração se abre, a alma se entrega, o senso crítico é desativado e tudo que deles ouvimos penetra nosso corpo, atinge nossa medula, sem nenhuma resistência.

O paradigma mental que norteia nosso juizo continua sendo o da Idade Média. Naquela fase da história, a força de um argumento não era medida pelo argumento, mas por seu autor. Se a pessoa era acadêmica, social ou religiosamente respeitada, sua palavra ficava acima de qualquer suspeita. Bastava a citação do autor e a discussão cessava.

Há conselhos, entretanto, que mesmo vindo de labios pios merecem um sonoro não. Quem não se lembra da reação de Amós diante do conselho do sacerdote Amazias ? (Amós 7:12). Ou da reação de Jesus diante do conselho de Pedro? (Mc 8:31). Ou da reação de Jó diante do conselho da esposa? (Jó 2:9).

Um conselho não é bom porque brotou de pessoa pia, nem mau por ter sido proferido por pessoa ímpia. Nem mesmo é bom por vir embalado em palavras ou textos bíblicos. Nisso Satanás foi experto; mas Jesus, muito mais. (Mt 4:5-7).

Palavras têm significados próprios e contextuais e quem as profere tem boas ou segundas intenções. Portanto, não julgar conselhos pelo autor, nem palavras pela embalagem, é recomendável.

Ore, reflita, pondere, avalie as consequências e decida por si. Sempre se lembrando do conselho de João: “amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” (1 João‬ ‭4:1‬)

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Democracia batista


Meu pai – Pr. Jovino de Oliveira - foi aluno do hoje inexistente Instituto Bíblico Batista do Estado de São Paulo, em Bauru, nas décadas de 60 e 70. Lembro-me de que as aulas eram em maio e setembro. Morávamos em Garça, por isso, nesses meses ele passava de segunda a sexta estudando e voltava nos finais de semana.  Quando voltava, ficávamos em torno do fogão à lenha ou em torno da mesa da sala ouvindo-o contar o que havia aprendido.

Nessas conversas recebi as primeiras aulas de democracia batista. Aprendi, primeiro, que quando as posições sobre determinado assunto não convergem, o norte a ser seguido pela igreja deveria resultar de decisão da Assembléia de Membros, pelo voto da maioria.

Aprendi, também, que antes de um assunto ser colocado em votação, abrir-se-ia oportunidade para discuti-lo. (Confesso que não gosto da expressão “discutir o assunto”. Discussão é uma palavra que pressupõe posicionamentos unilaterais firmados e tentativas de convencimento do outro por via de mão única: um fala, o outro também e nenhum dos dois parece ouvir. Prefiro a palavra diálogo: um fala, o outro ouve; um ouve, o outro fala, e assim caminha-se em busca de convergências).

Claro que é legítimo o processo de mútuo convencimento, mas as partes precisam acreditar que a construção do consenso deveria ser o objetivo desejado. Porém,  construir consensos só é possível quando há predisposição, primeiro, para admitir que não se é dono da verdade; depois, que é essencial colocar-se no lugar do outro para entender os motivos de sua visão e, finalmente, que as partes estão, de fato, ponderando a respeito do que ouvem visando construir um acordo que seja bom para todos.

Se, entretanto, em vez de diálogo, o espírito é de imposição, a democracia dá lugar à ditadura de uma maioria, ainda que rigorosamente conquistada pelo voto, dentro das regras democrático-estatutárias. É que, por falta de diálogo, uma parte sente-se vitoriosa por ter obtido apoio da maioria, mas terá que lidar com a crescente pressão da minoria que não se sentiu pelo menos ouvida e compreendida, além de “derrotada” no voto.

Isso gera conflitos, omissão na cooperação, afastamento até de participantes por insatisfação, não pelo resultado em si, mas pelo processo, além de desviar o foco de atenção da igreja de sua missão, perdendo-se energia, tempo e dinheiro e enfraquecendo o desenvolvimento de sua missão.

A partir daquelas conversas com meu pai, aprendi que democracia não seria simplesmente a prevalência da vontade da maioria, mas também uma busca continua por compreensão dos pensamentos, sentimentos e necessidades das minorias, visando garantir a elas a dignidade essencial para continuar caminhando com o grupo.

Aprendi ainda que, quando se é parte da minoria vencida pelo voto, a vitória da maioria deveria ser reconhecida, a postura de respeito à decisão deveria ser cultivada e o espírito de oposição não deveria falar mais alto do que o de lealdade às regras democráticas do jogo.

Aprendi, finalmente, que a postura crítica não deveria ser sufocada, mas pautada na racionalidade que visa abrir caminhos à continuidade de entendimentos e esclarecimentos e à convivência construtiva, e não na passionalidade que agride, obscurece, afasta e nos desvia da finalidade desejada pela igreja.

Sinto falta do obsoleto fogão à lenha e das benditas conversas sobre democracia batista. Quanta falta eles  - o fogão e as conversas - nos fazem nestes tempos de crescimento das polarizações ideológico-teológico-doutrinárias e de desaparecimento de consensos. Tempos nos quais os resultados imediatos dos nossos empreendimentos religiosos são mais importantes do que a vida dos cooperadores envolvidos. Tempos nos quais temos acesso a modernas técnicas de marketing e a meios de comunicação digitais, mas que são usados apenas como via, repito, de mão única através dos quais queremos e podemos nos fazer ouvir, mas estamos perdendo o interesse e a capacidade de parar para ouvir.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Por um Brasil movido pela graça


Muito feliz a idéia da Junta de Missões Nacionais de escolher a frase “movidos pela graça”  como tema de sua campanha 2018.  Ao lê-la, pus-me a pensar no que teria passado pela cabeça dos que participaram do processo decisório. É que a escolha de tema de campanha de qualquer natureza não se dá no vácuo. Há um contexto sócio-cultural e uma realidade que se pretende influenciar, preservar ou alterar. Palavras significam muito mais do que palavras.

Sejam quais tenham sido as constatações responsáveis pela escolha, “movidos pela graça” foi de uma felicidade imensa, pois poucas palavras têm o poder que a graça tem de tornar mais saudável e feliz a vida de indivíduos e grupos.

Provavelmente constatou-se que o que tem movido pessoas nas igrejas e fora dela não seja o que seria mais recomendável, desejável, benéfico, se fosse adotado como paradigma pelo conjunto da população. Provavelmente se percebeu a existência de referenciais de pensamento e de conduta que não deveriam fazer parte da vida daqueles que se declaram seguidores de Jesus, partícipes do Reino de Deus.

Pensei nessa direção por lembrar-me de como, no Sermão da Montanha – a constituição do Reino de Deus -, há uma tônica na fala de Jesus insistindo no arrependimento, isto é, na mudança de mentalidade, na mudança de modelos mentais que determinam a conduta.

Jesus sabia que somos guiados por modelos que são introjetados em nossa mente ao longo da vida, expressos em frases curtas e que moldam nossos relacionamentos. Quem nunca ouviu, por exemplo: “lugar de mulher é na cozinha” ou “homem nenhum presta” ou “todo político é ladrão” ou “pastor só pensa em dinheiro”  ou “homem que é homem não chora” ou “quem pode manda, quem tem juízo obedece” e por aí vai.  São paradigmas que repetimos e, no fundo, determinam nosso modo de ser e tratar o próximo.

Por isso ele dizia: “ouviste o que foi dito”, “eu porém vos digo”. Ele estava provocando um repensar de conceitos culturais norteadores de ações.

Na cultura dominante as pessoas eram movidas pelo legalismo. Pessoas legalistas têm dificuldade para compreender que, conquanto as leis sejam necessárias e devam ser obedecidas, nenhuma delas é capaz de abarcar todas as possibilidades de situações que envolvem a vida humana. Não percebem que as relações interpessoais não são uma equação matemática e, por isso, repito, conquanto as leis sejam importantes, a cosmovisão regida estritamente pela lei, sem considerar seu espírito, acaba matando.

Na cultura dominante as pessoas eram movidas pelo moralismo. Embora a moral, isto é, costumes e tradições que determinam o modo de agir, tenha sua importância, ninguém é obrigado a repetir comportamentos simplesmente porque “sempre foi assim”. Houve tempo em que o paradigma era: “crente não vai ao cinema”. Na IB de Garça, SP, onde fui batizado, há uma ata que deliberava exclusão automática de quem fosse ao cinema. Hoje não. “Mulher crente não usa calça comprida”. Quando a I.B. Emanuel em Boa Viagem, Recife, na década de 60, liberou o uso de calças compridas pras mulheres em função dos maruins, foi chamada de liberal. Hoje não.

Quando Jesus declarou "Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” (Mt. 5:43) ele estava dizendo não à cultura do ódio. O paradigma vigente era odiar o inimigo, mas sob a égide do reinado de Deus o paradigma deveria ser: “amem os seus inimigos”. E a justificativa de Jesus era: Deus não manda sol e chuva somente para bons e justos, mas também para maus e injustos. Deus é amoroso e assim como ele é perfeito em amor – “vínculo da perfeição” (Col. 3:14) e “caminho mais excelente” (I Cor. 12:31) – assim devemos nós também ser (Mt 5: 43-48).

Estamos vivendo dias de extremismos. Símbolos de morte ganham espaços, são acolhidos até em igrejas e disputam nossos corações. A cultura do ódio recebe aplausos. A corrupção que ilicitamente enriquece alguns e condena milhares à morte por falta de recursos é a regra. O moralismo irrefletido está na crista da onda. O crescimento da arrogância doutrinária que humilha a divergência e se pudesse mataria o divergente, é sem igual.

Desafiar, portanto, nesses tempos, a nos movermos pela graça é de uma oportunidade extraordinária. Parabéns Junta de Missões Nacionais. Que o povo batista brasileiro entenda o recado e adote o paradigma.
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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Candidato imaginário

A maioria absoluta de nós eleitores dificilmente já chegou ou chegará perto do candidato que escolheu para representá-lo no Congresso ou para dirigir o Poder Executivo do Estado ou do País. O percentual dos que podem chegar a um metro deles, mesmo em período de corpo a corpo eleitoral, é mínimo.

Por isso, o que a maioria de nós pensa de um candidato é o que as empresas de propaganda contratadas por eles acreditam que devemos pensar para que nos convençamos a votar neles; é o que terceiros - aliados ou adversários - falam ou divulgam a respeito deles nos meios de comunicação ou, ainda, é aquilo que deduzimos, a partir do que chegou ao nosso conhecimento, sobre o que ele já fez na vida.

Alguns privilegiados com "olhos e ouvidos clínicos", com a capacidade de abstração mais desenvolvida, conseguem perceber algo mais a respeito dos candidatos, através do modo como falam, se movimentam e com quem se relacionam. Mas tudo fica no campo da impressão, da imaginação.


A escolha que a quase totalidade de nós faz, se dá com base no que imaginamos e, sobretudo, no que desejamos. Imaginamos porque desejamos. Projetamos no candidato aquilo que nosso coração anseia ou rejeita. Transferimos para eles os desejos de ser ou não ser do nosso coração, as necessidades do nosso corpo.

O problema é que os candidatos não são a encarnação dos nossos desejos e necessidades. Eles encarnam seus próprios desejos e necessidades. As vezes nem isso.

Alguns deles, excepcionalmente, incluem os desejos e necessidades de uma coletividade, como parte de seus desejos e necessidades. Se fizermos parte dessa coletividade encarnada pelo candidato, nos sentiremos contemplados com sua eleição. Se não, nos frustraremos. Daí, ou continuamos a luta, fazendo oposição a ele ou desesperançados, nos tornamos indiferentes à política

Uma vez eleito, um candidato isoladamente pode muito, mas pode muito menos do que declaram e nós, eleitores, imaginamos. Conquanto seu papel seja importante, decisivo em muitos casos, ele é parte de um sistema no qual o jogo de interesses é imenso e as forças que disputam o poder em seu próprio favor e não da coletividade é assustadora. Por isso, nem mesmo o que ele declara e deseja é exequível da forma como imagina ou discursa.

O momento eleitoral é importante porque traz à tona muitos dos desejos, sonhos, ideais, crenças, individuais e coletivos, pelos quais lutamos. Mas não podemos agir ingenuamente, muito menos delirar. É hora de manter os pés no chão. Nenhum candidato imaginário merece que desrespeitemos uns aos outros ou briguemos uns com os outros por ele.

sábado, 8 de setembro de 2018

Valorização, caminhada e separação ministerial

Um colega de ministério, após um ano de pastorado, resolveu deixar a igreja, sem outro convite, por não se sentir valorizado. Em roda de amigos, ele alterava o tom da voz e dizia: "agora eles verão o que perderam e vão valorizar". Estava enganado. Se caminhando com a igreja não foi capaz de fazê-la valorizá-lo, muito menos conseguiria afastando-se dela.

Ele não percebia que quando nos sentimos desvalorizados o sentimento é nosso não da igreja. De nada adianta esperar ser valorizado pela igreja  se, primeiro, não identificarmos com clareza aquilo que nós valorizamos, aquilo que a igreja valoriza e, a partir disso, refletirmos se nossas escalas de valores poderão ser afinadas ou não.

É comum quando um pastor fala em não se sentir valorizado, estar se referindo ao sustento material. Nesse caso, em vez de sentir-se desvalorizado, melhor seria tratar da questão de forma objetiva, com a liderança, em termos financeiros. Se o que recebe não é compatível com as necessidades dele e se o que a igreja oferece está aquém das possibilidades dela, um bom diálogo talvez resolva.

Se, entretanto, o distanciamento entre necessidade pastoral e possibilidade da igreja se mantiver, melhor seria o pastor continuar dando o melhor de si, intensificar suas orações em busca de orientação divina, compartilhar com amigos, dentro da ética, sem murmuração, que está aberto a mudar-se, partindo quando outra porta se abrir.

Continuar trabalhando e agindo dentro da ética é essencial. Se isso não é valorizado por alguns, por outros é. Alguém perceberá a postura, reconhecerá afinidades e se interessará pelo trabalho.

Quando um pastor e uma igreja - especialmente sua liderança - não se afinam em questões NÃO financeiras, isso não quer dizer que um seja melhor do que o outro, mas que aquilo que um valoriza é diferente do que é valorizado pelo outro. Quando a descoberta dessa diferença se dá na caminhada, o único meio para se sair do impasse é o do diálogo.

Diferenças de níveis em escalas de valores são próprias em todo tipo de relacionamento humano. Há diferenças em níveis suportáveis e há  diferenças acentuadas, em pontos tão relevantes, que a convivência se torna estressante, doentia. Nesse caso, ou se equaciona via diálogo, ou se desenvolve resignação consciente enquanto procura uma saída ou, na pior das hipóteses, se separa de forma tão amistosa quanto possível.

Nenhum pastor encontrará uma igreja com a qual se afina 100% naquilo que valoriza, nem uma igreja encontrará um pastor à sua imagem e semelhança. (Nem esse é o propósito do ministério, pois  Deus nos criou diferentes e o referencial de harmonia que perseguimos está em Jesus). Daí a importância do processo de sucessão pastoral. Nele, a igreja pode listar elementos relevantes de sua forma de ser, classificá-los em níveis para facilitar as decisões de escolha (ex.: muito importante, importante, pouco importante e sem importância) e assim se nortear nos encaminhamentos sucessórios.

Da mesma forma, o pastor que se envolve nesse processo, precisa ter conhecimento mínimo do perfil da igreja, do que ela valoriza e comparar com o seu perfil, sua escala de valores, a fim de avaliar se conseguiria caminhar ou não com as diferenças já reconhecidas na escala de ambos. Isso não é garantia de sucesso na caminhada, mas é um bom começo.

Na caminhada, diferenças e afinidades se acentuarão até porque o movimento de entradas e saídas de membros é dinâmico, a alteração das pessoas que ocupam cargos na igreja faz parte do calendário e estrutura jurídica em face do modelo democrático-congregacional batista adotado e, consequentemente, sempre haverá uma tensão saudável entre pastor e igreja - repito, especialmente sua liderança - no exercício das atribuições que lhes conferem poder.

As consequências disso são imprevisíveis, pois o ser humano é uma caixa de surpresas. Deseja-se, entretanto, que haja maturidade, respeito mútuo e diálogo em níveis que possibilitem a caminhada em torno da missão, visão, valores, objetivos e metas da igreja.

Deseja-se. Quando não se consegue, que se avalie os possíveis traumas da separação e adote-se medidas e posturas tão justas e amorosas quanto as circunstâncias permitirem visando minimizar as dores. Assim separem-se, como fizeram Paulo e Barnabé, por exemplo, que tiveram uma bela caminhada ministerial juntos, mas, em dado momento, optaram por separarem-se diante de impasse profundo. (Atos 15:36-41). Isso não é demérito pra nenhum dos lados, é apenas uso acertado da razão, é sabedoria.



quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Fortalecendo o desejo de participar da igreja


“Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns...” (Heb. 10:25)
  
Cresce a população de “desigrejados” no Brasil. O adjetivo “ex-evangélico” está se popularizando. O slogan “cristo sim, igreja não”, famoso na década de 70, usado como mote para arrebanhar insatisfeitos com igreja, está retornando aos nossos ouvidos. E alguns de nós, líderes de igrejas, continuamos preferindo escrever  “pecador” na testa de quem se afasta da instituição a fazer autocrítica a respeito dos possíveis “pecados da igreja”, causadores disso.

Pensando no assunto, reporto-me a 4 versões do texto de Hebreus 10:25. Na primeira – Almeida RA -  leio que não devemos deixar “de congregar-nos”. Na segunda – A Bíblia de Jerusalém -, que não devemos deixar “as nossas assembléias”. Na terceira – A Mensagem - , que não devemos “evitar as reuniões de culto”. Na quarta – NVI –que não devemos “deixar de reunir-nos, como igreja”.

Os termos das versões suscitam lembranças e sentimentos diferentes. Nas três últimas -  BJ, Mensagem e NVI - aparecem “assembléias”, “reuniões” e “cultos”. Eles nos lembram atividades formais da instituição igreja. Já a primeira –ARA – foca no ato de congregar-se. Esse nos remete à idéia simples de estar com gente.

Se considerarmos que boa parte dos afastamentos de pessoas da vida eclesiástica não ocorre porque elas não gostam de “estar com gente”, muito menos por não gostarem de estar com Deus, mas porque se cansaram de experiências desagradáveis nas “assembléias”, “reuniões” e “cultos”, isso pode ser uma boa pista para tratar os que se afastam.

Enquanto estar com gente na igreja aponta mais para possibilidades de exercício do amor, da comunhão, da solidariedade, do crescimento pessoal através do conhecimento e aceitação mútuos, estar em “reuniões”, “assembléias” e “cultos” de algumas igrejas provoca, muita vez, conflitos e indignação por aquilo que se ouve, se vê, enfim, se percebe, especialmente na forma negativa como o exercício do poder se manifesta neles.

Sem a consciência dos nossos “pecados” que contribuem para o afastamento das pessoas, não adianta pregar que teologicamente “o isolamento não faz parte dos ensinos cristãos”, que “devemos olhar pra Jesus e não para as pessoas” ou que “igreja é assim mesmo, todos somos pecadores”, pois isso dificilmente trará pessoas de volta à comunhão.

Nem adianta, também, usar a manipulação como forma de atrair pessoas. O uso de artifícios em igrejas, ainda que legítimos e bem intencionados, não substituem o poder que a vivência e o ensino simples e honesto da vida de Jesus têm, quando levados a sério principalmente por nós que ocupamos cargos ou funções de liderança.

A manipulação tem o poder de atrair pessoas para eventos religiosos, especialmente àqueles caracterizados por arte, com ou sem catarse, e até de inspirá-las a contribuir financeiramente. Isso, porém, além de ser insuficiente para alterar a comunhão cotidiana das pessoas com Deus ou, muito menos, alterar a escala de valores ético-espirituais dos participantes, isso, repito, não é capaz de gerar fidelidade espiritual ou compromisso com o reino de Deus.

É importante reconhecer que são muitos os motivos que levam pessoas a freqüentar uma igreja e que recriminá-las por isso é ineficaz. Mais importante ainda é que nós líderes busquemos conhecer em profundidade a razão de ser de uma igreja à luz da vida, missão e ensinos de Jesus, a fim de ajudar os participantes a se congregarem movidos por eles.

Alimentar a presença por dever religioso, pela beleza retórica do sermão pastoral, pela qualidade ou estilo artístico-musical utilizada, enfim, por aquilo que a instituição tem a oferecer aos sentidos, sem “trazer à memória aquilo que nos dá esperança”, isto é, a vida comprometida com o misericordioso Jesus, o Cristo de Nazaré, isso é “hamartia”, é desvio de propósito, é pecado e causa  afastamento de muita gente do convívio eclesiástico.

Não temos, como igreja, o poder de impedir que pessoas escolham viver longe da comunhão com Deus ou com o “corpo de Cristo”, nem mesmo que participem por motivos secundários, mas podemos estar atentos, empenhados em remover de nossas vidas, como igreja, aquilo que serve de obstáculo à comunhão das pessoas, ao desejo e necessidade que todos têm, ainda que em níveis diferentes, de viver “congregados”.

Isso – a remoção de obstáculos - é possível se humilde e graciosamente fizermos auto-crítica, avaliando permanentemente  atitudes, comportamentos e discursos  adotados em nossas “assembléias”, “reuniões” e “cultos”. Isso ajuda a fortalecer o desejo das pessoas de se congregarem, de estarem juntas, e nos dá autoridade para dizer: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns...” (Heb. 10:25).

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Em tempos de escassez financeira


"Conservem-se livres do amor ao dinheiro e contentem-se com o que vocês têm, porque Deus mesmo disse: "Nunca o deixarei, nunca o abandonarei". (Heb. 13:5)

Ninguém vive sem dinheiro no modelo de sociedade do qual fazemos parte. Seja na manutenção individual, seja na de um empreendimento de qualquer natureza, não há passo dado que ele não seja incluído, direta ou indiretamente. Se ele não sai do nosso bolso, sai do bolso de alguém. Ele é o sangue operacional de qualquer ação na qual se possa estar envolvido. Se assim é, como compreender e levar a efeito a recomendação bíblica aos Hebreus, relativa a dinheiro?

Primeiro, reconhecer que o texto não demoniza o dinheiro, não o adjetiva pejorativamente, nem propõe ou sequer insinua que ele deva ser eliminado de nossa vida. Nem mesmo Jesus Cristo em sua passagem por este planeta viveu sem ele. Judas era tesoureiro do seu grupo de discípulos (Jo. 12:6) e, dentre as pessoas que investiam em seu ministério, lá estavam “Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Susana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens.” (Lc. 8:3).

Segundo, estabelecer princípios que norteiem a maneira como nos relacionamos com o dinheiro, a fim de que ele não ocupe o controle de nossos corações, nem se torne o deus de nossa existência. Até porque, a experiência mostra que aqueles que não se relacionam adequadamente com o dinheiro – na fartura ou na escassez -  não apenas tornam-se vítimas de males, mas também causam prejuízos à vida alheia. Quem não é capaz de relacionar-se adequadamente com ele, certamente sofrerá mais na falta dele.

Terceiro, identificar o tipo de sentimento que o dinheiro provoca em nós e nós nutrimos por ele. O texto recomenda que o amor não deve ser a atitude a prender-nos ao dinheiro; que ele não deve ser a inspiração de nossa vida. É lei no primeiro testamento bíblico, explicitamente ratificada por Jesus, no segundo, que o amor a Deus deve estar acima de todas as coisas – dinheiro, inclusive – e deve ser canalizado ao próximo como a si mesmo. Paulo chega a advertir que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos o males”.

Quarto, empenhar-se para adequar a vida às condições financeiras reais. Investir no que precisa, não no que deseja. Contentar-se com o que tem é o estado de uma pessoa que tornou-se capaz de reger suas emoções não pelo que acontece ao  redor, mas pelas atitudes que desenvolveu em seu coração. O dinheiro não deve ter o poder de determinar como nos sentimos, antes, nós devemos ter o poder de definir como nos sentirmos na fartura ou escassez.

Essa atitude não é natural, é fruto de aprendizado. Paulo, por exemplo, declara ter aprendido a relacionar-se com a realidade. Pelo fato de Cristo ter se tornado o lucro de sua vida e todas as demais coisas, esterco (Fil. 3:7-8), ele diz: “... aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” (Fil 4:11-13)

Por último, desenvolver a confiança naquele que é nosso criador, bem como de todas as coisas. Isso não significa parar de agir em busca do sustento, mas também não se deixar derrotar emocionalmente quando ele é escasso. Na falta de dinheiro, importante é avaliar o que realmente é indispensável à sobrevivência, rever detalhadamente as despesas, colocar a cabeça para pensar em como fazer dinheiro, tudo isso sem perder a confiança de que há alguém, para além do que nossos sentidos percebem, capaz de nos responder e nos dizer, como declara Jeremias (3:33), “coisas grandes e insondáveis” que não conhecemos. Confiar, orar e agir, sem desanimar, “porque Deus mesmo disse: "nunca o deixarei, nunca o abandonarei".

sábado, 18 de agosto de 2018

De passagem pelos “quarenta” - Uma palavra sobre momentos de aflição


Quarenta é um número simbólico. Aparece muito mais vezes no Primeiro Testamento bíblico do que no Segundo. Quando se refere a tempo, não se trata de um número exato, mas de  um longo período. Não tem, portanto, sentido literal, cronológico, mas existencial, psicológico.

Algumas vezes, nas histórias bíblicas,  refere-se a experiências que podem ser classificadas como positivas, como no caso dos espias de Israel fazendo, durante quarenta dias, reconhecimento de terreno. Ou do reinado de Otoniel, caracterizado por 40 anos de paz. Ou ainda no caso dos discípulos que passaram quarenta dias na companhia de Jesus, após a sua ressurreição, ouvindo sobre o reino de Deus.

Na maioria das vezes, entretanto,  está relacionado a experiências de aflição pelas quais os envolvidos talvez preferissem não ter que passar. Nesse sentido, poderia citar:
1. Quarenta dias de dilúvio;
2. Quarenta anos do povo de Israel no deserto;
3. Quarenta anos de Israel à base de maná após a fuga do Egito;
4. Quarenta anos até que o anjo aparecesse a Moises no Monte Horebe;
5. Quarenta dias entre o desejo de morrer de Elias e o encontro com Deus no Monte Horebe;
6. Quarenta anos de Israel sendo oprimido pelos filisteus;
7. Quarenta dias de Israel sendo ameaçado pelo gigante Golias;
8. Quarenta dias de agonia de Jonas, proclamando a destruição de Nínive;
9. Quarenta dias de Jesus sendo tentado no deserto.

É sempre longo, o tempo vivido em meio a aflições. Parece interminável. Sentimos a angústia de cada minuto sem conseguir enxergar uma luz em meio a trevas. Quando um raio de luz aparece distante, o sentimento é de dúvida, de pessimismo, imaginando mais uma possibilidade de prolongamento da nossa dor.

Todos temos uma história de  “40” pra contar. Uns, 40 minutos; outros, 40 dias; outros, ainda, quarenta anos. Alguém pode afirmar que nunca passou pelos “40”?

Quando podemos olhar pra trás e constatar que superamos um “40”, que o período de “vacas magras” passou,  tenha sido ele uma crise conjugal, uma enfermidade, um problema de natureza financeira, um tempo de desemprego, uma experiência sob o domínio do pecado, uma fase sentindo-se marginalizado ou mesmo uma experiência de amargura religiosa, enfim, estampamos no rosto um misto de reflexão de quem amadureceu e de alegria que marca quem carrega o troféu da vitória. 

Quando, entretanto, estamos passando por um deles a dúvida domina; a desconfiança faz com que pensemos que todos estão contra nós;  a solução do problema parece sempre estar no horizonte; o sono nos abandona; as noites se tornam uma eternidade; a ansiedade – desejo intenso de trazer o futuro desejado para o presente indesejado  – alcança níveis doentios e parece que o estômago quer sair pela boca.

Nesses tempos de “40”, o que muito precisamos não é primeiramente a solução para nossa dor, angústia, ansiedade, tristeza, seja lá o que for, mas a presença de gente que nos faça companhia, que nos ajude a superar a sensação de solidão, que seja capaz de nos ajudar a encontrar um significado plausível para continuarmos lutando, que seja, enfim, capaz de alimentar nossa esperança – aquilo que os olhos viram, mas o corpo ainda não experimentou.

Nesses tempos de “40”, precisamos de gente que nos ajude a confiar que “o choro pode persistir uma noite, mas de manhã irrompe a alegria” (salmos 30:5). Ou que nos ajude a recordar que “ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo” (salmo 23:4). Ou ainda, alguém que seja regido pelo sentimento do profeta Jeremias que, em meio aos erros e sofrimentos do seu povo, decidiu trazer à memória aquilo que pudesse alimentar a esperança (Lam. 3:21).

Em última análise, de passagem pelos “40”, precisamos crer ou de alguém que creia que: “quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “A morte foi destruída pela vitória”. “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?” O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Mas graças a Deus que nos dá a vitória por meio do nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil.” (I Cor. 15:54-58)

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Entrega teu caminho ao Senhor


"Entrega teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais ele fará" (Salmos 37:5)

O caminho não é meu, é da vida. A vida não é minha, eu sou dela. Posso traçar um caminho que advogo ser meu e nele iniciar a caminhada, mas os fatos revelam que não se trata de um "caminho", cujo controle, do começo ao fim, está em minhas mãos, mas de uma picada, de uma trilha.

Projeto o ponto de chegada, a direção desejada, mas quando olho para trás o caminho construído não é o caminho que desejava, mas o que a vida permitiu. E o ponto almejado continua no horizonte, pois o caminho não é meu, é da vida e a vida, repito, não é minha, eu sou dela.

A vida é surpreendente. Quando parece plana, eis que do nada surge uma montanha, um abismo... Quando o caminho é tortuoso, obscuro, tenebroso, eis que nos deparamos com uma retilínea, com uma visão panorâmica cinematográfica, encantadora...

Somos responsáveis pelos passos que damos nos caminhos que escolhemos, mas não controlamos as variáveis que se apresentam diante de nós, muito menos as alternativas que nos são oferecidas. Essas pertencem à vida e a nós cabe escolher uma delas ou simplesmente escolher ficarmos paralisados, por medo, receio ou simplesmente por necessidade de reflexão.

Daí a pertinência das palavras do poeta religioso: "Entrega teu caminho ao Senhor...". 

Em outras palavras, aceite que o controle que tem sobre o caminho pelo qual gostaria de caminhar é relativo e que entristecer-se, amedrontar-se, enraivecer-se ou desesperar-se diante do imprevisto, do inadequado, do indesejado, não é atitude saudável.

Se o caminho possível está diferente do desejado ou, pior, é indesejado, entrega-o a Deus. Ao Deus que se revela ao povo de Israel, mas não é propriedade de Israel. Ao Deus que se revela através das páginas da Bíblia, mas nela não está encadernado. Ao Deus que se revela à igreja, mas não se tornou membro exclusivo de qualquer uma delas. Ao Deus que se revela e se autolimita através do humano Jesus de Nazaré, mas não se torna presa das limitações da humanidade. Ao Deus que é identificado como masculino numa linguagem cultural patriarcal, mas que, por ser espírito, não é prisioneiro de um gênero...

Entrega-o a esse Deus, livre e sobrerano, que está para além de todas as possibilidades de definição, que pode ser intuido, mas não dissecado, experimentado, mas não manipulado, solicitado, mas não chantageado.

"Entrega teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais ele fará".

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Minha dupla conversão a Jesus


Antes que reajam, os literalistas e os preciosistas da teologia, adianto que, nas palavras que seguem, faço uso de um recurso didático, não pretendendo, portanto, discutir cristologia, soterologia ou outras logias, ainda que isso seja inevitável, por ser naturalmente despertado naqueles - como eu - cujos cérebros podem ter sido treinados  para brincar ou brigar com as palavras.

Adianto também que, pra mim, Jesus é único, ainda que na prática de muitos, por mim percebida, ele já seja dividido, por razões que não vêm ao caso. Isto é, muitos cristãos já selecionam aquilo que da história de Jesus parece-lhes mais convenientemente seguir ou deixar de lado. 

Portanto, a divisão didática que faço aqui, na narrativa da minha experiência com Jesus, visa apenas ajudar na unificação que muitos ainda precisariam fazer entre JESUS CRISTO e JESUS, O CRISTO.

Minha primeira conversão foi a JESUS CRISTO; a segunda, a JESUS, O CRISTO.

JESUS CRISTO não é nome e sobrenome. Jesus é nome, Cristo é adjetivo de origem grega que, em português, seria ungido. Em hebraico, seu equivalente é Messias. 

Popularmente, usa-se JESUS CRISTO referindo-se ao significado teológico - diferente do histórico - da vida de Jesus. Nesse caso, a ideologia do tratamento aponta para o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, para o salvador que morreu na cruz pra nos salvar. 

Geralmente, o foco de quem anuncia JESUS CRISTO como salvador e de quem o aceita, nesses termos, é escatológico. Seus efeitos seriam de natureza individual, espiritual, desconectado da realidade e multiplicidade de dimensões da vida presente na qual quem o aceita está inserido. 

Em outras palavras, quando JESUS CRISTO é proclamado e aceito, os efeitos disso é a experiência de perdão dos pecados do indivíduo, a libertação do inferno futuro e a garantia de morada com Deus no céu, repito, no futuro.

Nesse sentido, aceitei JESUS CRISTO quando tinha em torno de oito anos de idade. Fui tocado pelo sentimento de que, quando morresse, queria estar onde meus pais, que eram seguidores de Jesus, estariam.  

Foi, portanto, por um lado, o medo do inferno e por outro, o amor aos meus pais, o sentimento à época consciente, que me moveu a levantar a mão, respondendo ao apelo do pregador, visando receber perdão dos meus pecados e salvação da minha "alma".

Independente da motivação, o fato é que aquela decisão marcou minha vida e norteou minha caminhada no final da infância, adolescência, juventude e início da vida adulta.

Entretanto, ainda na adolescência, na comum crise existencial pela qual todos passamos em maior ou menor grau, consciente ou não, questionava-me muito a respeito de qual seria o significado da minha vida com JESUS CRISTO, entre a decisão de recebê-lo como salvador e minha morte. Ou seja, durante os anos de vida neste corpo, qual seria meu papel à luz da minha relação com JESUS CRISTO.

A resposta dada pelos doutrinadores de que meu papel seria ajudar a despovoar o inferno e povoar o céu foi minha única prioridade durante algum tempo, mas foi se tornando mais pobre de significado quanto mais eu refletia e compreendia a respeito do amor de Deus, da Bíblia e seus significados,  da criação, do ser humano e suas múltiplas e complexas dimensões e das causas do sofrimento humano criadas pela natureza em si da existência ou por nós e pelos sistemas sociais por nós criados para vivermos e sobrevivermos neste planeta.

Lembro-me de que um hino do Cantor Cristão (primeiro hinário usado nas igrejas batistas do Brasil), cuja teologia se desviava da predominante e, talvez por isso, não era dos mais cantados, tocava não somente meu coração, mas também minha mente. Ele dizia:

"Depois que Cristo me salvou, em céu o mundo se tornou; 
Até no meio do sofrer, é céu a Cristo conhecer! 

[coro] 
Oh Aleluia sim é céu, fruir perdão que concedeu; 
Em terra ou mar seja onde for, é céu andar com o Senhor! 

Prá mim mui longe, estava o céu, mas quando Cristo me valeu; 
Feliz senti meu coração, entrar no céu da retidão! 

Bem pouco importa eu ir morar, em alto monte, à beira mar; 
Em casa ou gruta boa ou ruim, com Cristo aí é céu pra mim!"

(James Milton Black (1856-1938) e Benjameim Rufino Duarte (1874-1942))

A teologia desse hino não limitava os efeitos da salvação a um céu futuro, nem a uma morada com Deus no depois. Falava-me de um Deus presente que, por isso, trazia consigo o céu para qualquer lugar ou situação do planeta.

Portanto, aceitar a JESUS CRISTO como salvador seria um ponto de partida para uma nova vida e não um ponto de chegada a se dar somente no futuro. Salvação seria, portanto, a vida em comunhão com Deus desde o presente, não apenas um espaço geográfico distante e futuro, onde Deus fica recolhido e para lá recolhe os que são "lavados pelo sangue de JESUS CRISTO".

xxx

Dai a converter-me a JESUS, O CRISTO, foi uma questão de tempo, inclusive necessária, para que a vida neste planeta ganhasse pra mim um siginificado mais profundo.

Sem necessidade de anular a fé em JESUS CRISTO ou, como dizem alguns, a fé no Cristo da teologia, especialmente da teologia paulina, passei a aprofundar o conhecimento, a comunhão e a fidelidade a JESUS, O CRISTO, o ungido de Nazaré. 

Passei a prestar mais atenção à sua vida nos termos descritos pelos 4 evangelistas, à forma como vivia, ensinava e se relacionava com as pessoas, com as coisas, com as Escrituras, com a religião e os religiosos, com as mulheres e as crianças, com os poderosos e os empobrecidos, com os doentes e marginalizados, com o ter e o não ter, enfim, com a vida.

Não fiz isso por sentir necessidade de agradar a Deus ou conquistar algo dele, até porque, no final da juventude já havia consolidado meus pensamentos e sentimentos em relação ao significado da graça de Deus manifesta em JESUS CRISTO e nela já havia depositado minha confiança. 

Viver pela graça, já havia aprendido com o "conceito teológico" JESUS CRISTO. Faltava-me aprender a ser mais gracioso no meu modo de viver e isso passei a aprender focando-me no JESUS, O CRISTO, o ungido da desconhecida, desvalorizada e menosprezada Nazaré.

Desde então, o desafio tem sido cada dia novo. 

Confiante na graça divina tal qual conheci ao conhecer JESUS CRISTO, empenho-me, simplesmente pelo significado que isso dá à minha existência neste corpo. 

Ao conhecer e, por isso reconhecer, que, sendo JESUS, O CRISTO, a luz do mundo, seguí-lo, aplicando seu caráter ao meu e seus ensinos a tudo o que me cerca, coloca-me no caminho da luz, liberta-me do caminho das trevas, em todas as dimensões e relações da vida.

Quando me perguntam a respeito de outras manifestações de fé religiosa, não sinto necessidade de negá-las ou afirmá-las, mas apenas de declarar que o significado teologico de JESUS CRISTO e o norteamento de vida de JESUS, O CRISTO, o ungido de Nazaré, enchem meu coração de paz e minha vida de significado. 

Por isso, não preciso viver minha fé como uma disputa com a fé alheia, nem minha vida ou ministério como um empreendimento, um negócio religioso, pois em JESUS CRISTO e em JESUS, O CRISTO, minh'alma sente-se satisfeita. Apenas compartilho o que JESUS fez e faz em minha vida e pode fazer na daqueles que nele - em sua integralidade - confiarem. 



(Próximo texto: Por que muitos aceitam JESUS CRISTO e rejeitam JESUS, O CRISTO?)

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A política de desempoderamento das mulheres e suas consequências no meio batista.

Há anos venho alertando os batistas brasileiros para o equívoco que parte relevante de nossa liderança tem cometido ao aliar-se a líderes batistas norte-americanos cujo posicionamento em relação às mulheres é de desempoderamento. Venho alertando que a questão não é somente aceitarmos ou não mulheres como pastoras, mas reconhecermos o valor intrínseco do ser humano mulher e todas as repercussões disso na vida.


Entretanto, parte de nossa liderança batista, ao abrir espaço no púlpito de nossas assembléias convencionais, assembléias de ordens de pastores e até mesmo em cursos de graduação ou mestrado de nossos seminários, repito, ao abrir espaço  para pastores, professores e lideres batistas com posições extremistas restritivas em relação à mulher, tem causado um desserviço ao reinado de Deus.


Pior: quando parte de nossa liderança assina convênio, cuja finalidade e termos não foram publicados à época, com instituições dirigidas por pessoas cuja ideologia em relação à mulher é restritiva, de desempoderamento, quando as mulheres, não só pelo valor inerente à sua condição de criadas à imagem e semelhança de Deus como os homens, mas também por sua força de trabalho em nossas igrejas e obras missionárias, são essenciais ao desenvolvimento do reinado de Deus, como bem fica exemplificado no ministério cotidiano de Jesus.


Agora, estamos aí acompanhando um escândalo envolvendo um dos mais empoderados líderes batistas dos últimos 40 anos - Paige Patterson - da Convenção do Sul dos Estados Unidos, que esteve recentemente pregando em Gramado, na CBB e, nesse final de 2017 ele próprio assinou convênio com uma de nossas instituições batistas brasileiras.


Pra mim é o juizo de Deus que está chegando e chegará também, por tabela, em nossos arraiais batistas brasileiros. Não me alegro com isso e, se trago à baila esse assunto, faço-o no espírito dos escritores bíblicos que publicaram, como alerta, os malfeitos de homens como Davi, Sansão, etc. para que percebamos que, sempre que trocamos os valores do reinado de Deus pelos valores do mercado, da política partidária (conservadores x progressistas, fundamentalistas x liberais), o resultado não pode ser outro. O juizo de Deus tarda, mas não falta. Pra mim e pra você! 


E se chega pra mim e pra você, até porque todos temos nossos pontos fracos, que estejamos atentos para, na dependência de sua graça, acertarmos humildemente nossos caminhos.


Coloque no Twitter, Google, You Tube o nome Paige Patterson, acompanhe os desdobramentos, inclusive porque ele está escalado pra falar na Assembléia da Convenção do Sul, na próxima semana, e sinta o clima. 


Que Deus tenha misericórdia de nós, diante das políticas que por vezes, equivocadamente, temos adotados, repito, políticas de mercado, políticas partidárias, em lugar de políticas que manifestem o reinado de Deus e seus valores ético-espirituais em nossas vidas.


https://www.washingtonpost.com/news/acts-of-faith/wp/2018/05/27/controversial-southern-baptist-leader-still-set-to-give-prominent-sermon-in-front-of-thousands/?utm_term=.45fcf873ddfa&noredirect=on


https://www.npr.org/sections/thetwo-way/2018/05/23/613604818/head-of-southern-baptist-seminary-removed-over-remarks-on-rape-abuse-of-women?utm_source=twitter.com&utm_medium=social&utm_campaign=npr&utm_term=nprnews&utm_content=20180523


http://www.ethicsdaily.com/the-tale-of-two-presidents-at-southwestern-seminary-cms-24891


http://www.ethicsdaily.com/from-the-pews-the-danger-of-power-and-prestige-cms-24913


http://www.faithfulnews.com/43027527/its-wrath-of-god-stuff-thinking-past-paige-patterson-and-into-the-southern-baptist-future


https://jasonkallen.com/2018/05/on-the-dignity-of-women-and-the-holiness-of-ministers-a-resolution-submitted-to-the-2018-sbc-committee-on-resolutions/


https://sbcvoices.com/dr-jason-allens-resolution-on-on-affirming-the-dignity-of-women-and-the-holiness-of-ministers/

https://www.facebook.com/149306455212000/posts/1024407551035215/

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Publique

Celebro suas publicações,
mesmo quando discordo.

Admiro:
Sua capacidade criativa,
Sua crença no poder das palavras,
Sua força para posicionar-se,
Sua resistência aos policiais dos sentimentos e pensamentos,
Sua colaboração com exercício da liberdade de expressão
Sua abertura para comunicar-se,
Seu desejo de influenciar novos rumos,
Seu desejo de sair do isolamento
Sua coragem até para errar em público.

Isso vale muito mais:
do que seu silêncio,
do que sua subserviência,
do que seu medo de desagradar,
do que sua crença em levar vantagem redomando-se,
do que a clausura de seus ideais.

Numa sociedade
Que valoriza o que parece, não o que é;
Que valoriza quem acumula para si, não quem socializa,
Que valoriza o opacismo, não a transparência,
Que valoriza "reservas de 'mercado'", não a abertura,
Continue publicando,
Continue respirando e arejando,
Continue se inspirando e inspirando,
Continuarei celebrando.
Publique!

domingo, 8 de abril de 2018

Sobre elogios, críticas e amizades

Como pastor, sempre fiquei com um pé atrás frente a elogios, especialmente à porta do templo, após os cultos. Sempre preferí entrar no carro com Gláucia para, 100 mts depois de afastar-nos do estacionamento, ouvir seus comentários.

Quando ela gosta muito do que preguei, diz logo; quando gosta pouco, fica um  trecho em silêncio; quando não gosta de algo que disse, espera eu perguntar. (Nesse caso, geralmente eu me antecipo e começo a fazer minhas autocríticas. Ela confirma, eu me contorço interiormente, digiro com dificuldade e começo a pensar em como poderia melhorar da próxima vez).

Prefiro elogios à críticas. Não sou Santo Agostinho ("prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem"). Não sou masoquista. Elogios massageiam o ego, elevam a autoestima, produzem sensação de prazer.

Mas o tempo nos faz aprender que nem todos são sinceros e que uma crítica não passional, feita com racionalidade por alguém que nos ama, faz mais bem à vida do que mil elogios, especialmente elogios oriundos de clientes litúrgicos ou crentes em processo de amadurecimento em busca de aceitação.

Desconfio de muito elogio ou de muito tempo sem receber crítica. É como se algo estivesse errado em mim - pois tenho alguma idéia de minhas limitações - ou em quem está me ouvindo - pois tenho alguma idéia a respeito dos seres humanos. Se o que falo não incomoda, acomoda. Isso pode ser um mal sinal, pois, se assim não fosse, "não vos conformeis"  não seria um imperativo bíblico.

Então, conquanto elogios sejam mais agradáveis, críticas, certamente, ajudam mais em nosso crescimento humano. Ou, como disse Dom Helder Câmara: "Se você concorda comigo, me confirma. Mas, se discorda, me ajuda mais porque me obriga a aprofundar o meu ponto de vista”.

Tenho muitas pessoas como amigas, mas as amizades nas quais mais acredito são daquelas que, quando é preciso, me chamam do lado e, amorosamente, me ajudam a pensar e enxergar melhor a mim mesmo ou o que disse. Daquelas que nunca me "confrontam", desconfio.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Possibilidades eclesiâsticas e individuais frente à violência


Transcrevo parte de diálogos travados em minha LT no Facebook, a propósito do assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro.

Pergunta
"pastor como o irmão sugere que a igreja não seja omissa. Já que não conseguimos impedir que qualquer indivíduo tome uma decisão terrível de tirar a vida de alguém. A atuação da igreja local que participo trabalha na formação das crianças como uma possibilidade de alguém que possa se relacionar de forma compassiva com os outros."

Minha resposta
"Penso que a igreja pode deixar de omitir-se:

1. Revendo sua teologia de evangelização colocando o foco na restauração da comunhão do ser humano com Deus em Jesus, cujos efeitos são presentes e futuros e não apenas futuros: salvação do inferno e povoação do céu;

2. Aprofundando um ensino de ética bíblica que não foque somente na ética corporal e familiar, mas também na econômica e política;

3. Reconhecendo a pluralidade de pensamentos sobre formas de atuar neste mundo, dentro de sua membrezia, mas reafirmando Jesus como luz do mundo, como parâmetro para nossas ações como cristãos no mundo. 

Não creio que a instituição igreja deva aliar-se a um partido ou uma ideologia, mas alimentar seu compromisso com a ética do Reino de Deus tal qual manifesta na vida e ensinos de Jesus. 

Penso que essa é uma boa trilha."

Pergunta
 "Qual a sugestão?" (Diante da violência do quadro de violência instalado no país)

Minha resposta
 "Sugiro pra mim, como começo, o que sugeri anteriormente: uma revisão na teologia da evangelização, nos enfoques éticos e no parâmetro norteador do meu comportamento prático;

Sugiro também pra mim, romper com o silêncio. O silêncio é a postura política mais covarde pra quem o usa e encorajadora pra quem pratica o crime. Para romper com o silêncio não é preciso ter uma solução ou ser um técnico-especialista no problema; basta ser empatico, sentir uma dor e expressar o sentimento, seja nas rodas de amigo, nas redes sociais, nos grupos de oração ou mesmo indo às ruas em manifestações coletivas;

Sugiro ainda pra mim, que tenha consciência de que tanto o meu silêncio quanto o meu discurso serão eloquentemente político. Por isso, preciso que esteja claro em minha mente a quem meu silêncio ou meu discurso beneficia eleitoralmente: os que estão alimentando e usufruindo do quadro de injustiça social que impera no país ou os que estão nascendo e sendo abortados precocemente pelo sistema ou quando sobrevivem, experimentam o inferno durante toda a vida;

Sugiro finalmente pra mim que reconheça que, embora não disponha dos recursos financeiros desejáveis pra ter as condições de vida possíveis, em termos de habitação, transporte, saúde, lazer, etc, já superei a linha da miséria há muito. Portanto, em vez de pisar - com meu silêncio ou meu discurso - nos quase 50 milhões de brasileiros que vivem abaixo dessa linha, com menos de 400 reais por MÊS, que eu denuncie aqueles que recebem pra lá de 4, 5, 6 vezes ou mais do que 400 reais por DIA, por caminhos corruptos ou amparados por leis injustas.

Pra mim, é o que tenho sugerido, ciente dos prejuizos que essa postura acarreta por parte de quem, muita vez canta hinos a Jesus dominicalmente em igreja, mas perdeu de longe a sensibilidade, a compaixão pela dor do outro.

Mas, como disse, tenho sugerido isso pra mim..."