quinta-feira, 12 de julho de 2018

Entrega teu caminho ao Senhor


"Entrega teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais ele fará" (Salmos 37:5)

O caminho não é meu, é da vida. A vida não é minha, eu sou dela. Posso traçar um caminho que advogo ser meu e nele iniciar a caminhada, mas os fatos revelam que não se trata de um "caminho", cujo controle, do começo ao fim, está em minhas mãos, mas de uma picada, de uma trilha.

Projeto o ponto de chegada, a direção desejada, mas quando olho para trás o caminho construído não é o caminho que desejava, mas o que a vida permitiu. E o ponto almejado continua no horizonte, pois o caminho não é meu, é da vida e a vida, repito, não é minha, eu sou dela.

A vida é surpreendente. Quando parece plana, eis que do nada surge uma montanha, um abismo... Quando o caminho é tortuoso, obscuro, tenebroso, eis que nos deparamos com uma retilínea, com uma visão panorâmica cinematográfica, encantadora...

Somos responsáveis pelos passos que damos nos caminhos que escolhemos, mas não controlamos as variáveis que se apresentam diante de nós, muito menos as alternativas que nos são oferecidas. Essas pertencem à vida e a nós cabe escolher uma delas ou simplesmente escolher ficarmos paralisados, por medo, receio ou simplesmente por necessidade de reflexão.

Daí a pertinência das palavras do poeta religioso: "Entrega teu caminho ao Senhor...". 

Em outras palavras, aceite que o controle que tem sobre o caminho pelo qual gostaria de caminhar é relativo e que entristecer-se, amedrontar-se, enraivecer-se ou desesperar-se diante do imprevisto, do inadequado, do indesejado, não é atitude saudável.

Se o caminho possível está diferente do desejado ou, pior, é indesejado, entrega-o a Deus. Ao Deus que se revela ao povo de Israel, mas não é propriedade de Israel. Ao Deus que se revela através das páginas da Bíblia, mas nela não está encadernado. Ao Deus que se revela à igreja, mas não se tornou membro exclusivo de qualquer uma delas. Ao Deus que se revela e se autolimita através do humano Jesus de Nazaré, mas não se torna presa das limitações da humanidade. Ao Deus que é identificado como masculino numa linguagem cultural patriarcal, mas que, por ser espírito, não é prisioneiro de um gênero...

Entrega-o a esse Deus, livre e sobrerano, que está para além de todas as possibilidades de definição, que pode ser intuido, mas não dissecado, experimentado, mas não manipulado, solicitado, mas não chantageado.

"Entrega teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais ele fará".

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Um menino com fome no Shopping da Bahia


Qual seria a diferença entre o papel do policial, no caso do Shopping da Bahia (antigo Iguatemi) - https://youtu.be/08n7eb-HGvU - e o do motorista de ônibus, no caso de Rosa Parks - https://youtu.be/FPvwKP8G4sA -? 

Veja este filme - https://youtu.be/5hCGALMi9no - com legenda em Português, compare, reflita...

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Minha dupla conversão a Jesus


Antes que reajam, os literalistas e os preciosistas da teologia, adianto que, nas palavras que seguem, faço uso de um recurso didático, não pretendendo, portanto, discutir cristologia, soterologia ou outras logias, ainda que isso seja inevitável, por ser naturalmente despertado naqueles - como eu - cujos cérebros podem ter sido treinados  para brincar ou brigar com as palavras.

Adianto também que, pra mim, Jesus é único, ainda que na prática de muitos, por mim percebida, ele já seja dividido, por razões que não vêm ao caso. Isto é, muitos cristãos já selecionam aquilo que da história de Jesus parece-lhes mais convenientemente seguir ou deixar de lado. 

Portanto, a divisão didática que faço aqui, na narrativa da minha experiência com Jesus, visa apenas ajudar na unificação que muitos ainda precisariam fazer entre JESUS CRISTO e JESUS, O CRISTO.

Minha primeira conversão foi a JESUS CRISTO; a segunda, a JESUS, O CRISTO.

JESUS CRISTO não é nome e sobrenome. Jesus é nome, Cristo é adjetivo de origem grega que, em português, seria ungido. Em hebraico, seu equivalente é Messias. 

Popularmente, usa-se JESUS CRISTO referindo-se ao significado teológico - diferente do histórico - da vida de Jesus. Nesse caso, a ideologia do tratamento aponta para o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, para o salvador que morreu na cruz pra nos salvar. 

Geralmente, o foco de quem anuncia JESUS CRISTO como salvador e de quem o aceita, nesses termos, é escatológico. Seus efeitos seriam de natureza individual, espiritual, desconectado da realidade e multiplicidade de dimensões da vida presente na qual quem o aceita está inserido. 

Em outras palavras, quando JESUS CRISTO é proclamado e aceito, os efeitos disso é a experiência de perdão dos pecados do indivíduo, a libertação do inferno futuro e a garantia de morada com Deus no céu, repito, no futuro.

Nesse sentido, aceitei JESUS CRISTO quando tinha em torno de oito anos de idade. Fui tocado pelo sentimento de que, quando morresse, queria estar onde meus pais, que eram seguidores de Jesus, estariam.  

Foi, portanto, por um lado, o medo do inferno e por outro, o amor aos meus pais, o sentimento à época consciente, que me moveu a levantar a mão, respondendo ao apelo do pregador, visando receber perdão dos meus pecados e salvação da minha "alma".

Independente da motivação, o fato é que aquela decisão marcou minha vida e norteou minha caminhada no final da infância, adolescência, juventude e início da vida adulta.

Entretanto, ainda na adolescência, na comum crise existencial pela qual todos passamos em maior ou menor grau, consciente ou não, questionava-me muito a respeito de qual seria o significado da minha vida com JESUS CRISTO, entre a decisão de recebê-lo como salvador e minha morte. Ou seja, durante os anos de vida neste corpo, qual seria meu papel à luz da minha relação com JESUS CRISTO.

A resposta dada pelos doutrinadores de que meu papel seria ajudar a despovoar o inferno e povoar o céu foi minha única prioridade durante algum tempo, mas foi se tornando mais pobre de significado quanto mais eu refletia e compreendia a respeito do amor de Deus, da Bíblia e seus significados,  da criação, do ser humano e suas múltiplas e complexas dimensões e das causas do sofrimento humano criadas pela natureza em si da existência ou por nós e pelos sistemas sociais por nós criados para vivermos e sobrevivermos neste planeta.

Lembro-me de que um hino do Cantor Cristão (primeiro hinário usado nas igrejas batistas do Brasil), cuja teologia se desviava da predominante e, talvez por isso, não era dos mais cantados, tocava não somente meu coração, mas também minha mente. Ele dizia:

"Depois que Cristo me salvou, em céu o mundo se tornou; 
Até no meio do sofrer, é céu a Cristo conhecer! 

[coro] 
Oh Aleluia sim é céu, fruir perdão que concedeu; 
Em terra ou mar seja onde for, é céu andar com o Senhor! 

Prá mim mui longe, estava o céu, mas quando Cristo me valeu; 
Feliz senti meu coração, entrar no céu da retidão! 

Bem pouco importa eu ir morar, em alto monte, à beira mar; 
Em casa ou gruta boa ou ruim, com Cristo aí é céu pra mim!"

(James Milton Black (1856-1938) e Benjameim Rufino Duarte (1874-1942))

A teologia desse hino não limitava os efeitos da salvação a um céu futuro, nem a uma morada com Deus no depois. Falava-me de um Deus presente que, por isso, trazia consigo o céu para qualquer lugar ou situação do planeta.

Portanto, aceitar a JESUS CRISTO como salvador seria um ponto de partida para uma nova vida e não um ponto de chegada a se dar somente no futuro. Salvação seria, portanto, a vida em comunhão com Deus desde o presente, não apenas um espaço geográfico distante e futuro, onde Deus fica recolhido e para lá recolhe os que são "lavados pelo sangue de JESUS CRISTO".

xxx

Dai a converter-me a JESUS, O CRISTO, foi uma questão de tempo, inclusive necessária, para que a vida neste planeta ganhasse pra mim um siginificado mais profundo.

Sem necessidade de anular a fé em JESUS CRISTO ou, como dizem alguns, a fé no Cristo da teologia, especialmente da teologia paulina, passei a aprofundar o conhecimento, a comunhão e a fidelidade a JESUS, O CRISTO, o ungido de Nazaré. 

Passei a prestar mais atenção à sua vida nos termos descritos pelos 4 evangelistas, à forma como vivia, ensinava e se relacionava com as pessoas, com as coisas, com as Escrituras, com a religião e os religiosos, com as mulheres e as crianças, com os poderosos e os empobrecidos, com os doentes e marginalizados, com o ter e o não ter, enfim, com a vida.

Não fiz isso por sentir necessidade de agradar a Deus ou conquistar algo dele, até porque, no final da juventude já havia consolidado meus pensamentos e sentimentos em relação ao significado da graça de Deus manifesta em JESUS CRISTO e nela já havia depositado minha confiança. 

Viver pela graça, já havia aprendido com o "conceito teológico" JESUS CRISTO. Faltava-me aprender a ser mais gracioso no meu modo de viver e isso passei a aprender focando-me no JESUS, O CRISTO, o ungido da desconhecida, desvalorizada e menosprezada Nazaré.

Desde então, o desafio tem sido cada dia novo. 

Confiante na graça divina tal qual conheci ao conhecer JESUS CRISTO, empenho-me, simplesmente pelo significado que isso dá à minha existência neste corpo. 

Ao conhecer e, por isso reconhecer, que, sendo JESUS, O CRISTO, a luz do mundo, seguí-lo, aplicando seu caráter ao meu e seus ensinos a tudo o que me cerca, coloca-me no caminho da luz, liberta-me do caminho das trevas, em todas as dimensões e relações da vida.

Quando me perguntam a respeito de outras manifestações de fé religiosa, não sinto necessidade de negá-las ou afirmá-las, mas apenas de declarar que o significado teologico de JESUS CRISTO e o norteamento de vida de JESUS, O CRISTO, o ungido de Nazaré, enchem meu coração de paz e minha vida de significado. 

Por isso, não preciso viver minha fé como uma disputa com a fé alheia, nem minha vida ou ministério como um empreendimento, um negócio religioso, pois em JESUS CRISTO e em JESUS, O CRISTO, minh'alma sente-se satisfeita. Apenas compartilho o que JESUS fez e faz em minha vida e pode fazer na daqueles que nele - em sua integralidade - confiarem. 



(Próximo texto: Por que muitos aceitam JESUS CRISTO e rejeitam JESUS, O CRISTO?)

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A política de desempoderamento das mulheres e suas consequências no meio batista.

Há anos venho alertando os batistas brasileiros para o equívoco que parte relevante de nossa liderança tem cometido ao aliar-se a líderes batistas norte-americanos cujo posicionamento em relação às mulheres é de desempoderamento. Venho alertando que a questão não é somente aceitarmos ou não mulheres como pastoras, mas reconhecermos o valor intrínseco do ser humano mulher e todas as repercussões disso na vida.


Entretanto, parte de nossa liderança batista, ao abrir espaço no púlpito de nossas assembléias convencionais, assembléias de ordens de pastores e até mesmo em cursos de graduação ou mestrado de nossos seminários, repito, ao abrir espaço  para pastores, professores e lideres batistas com posições extremistas restritivas em relação à mulher, tem causado um desserviço ao reinado de Deus.


Pior: quando parte de nossa liderança assina convênio, cuja finalidade e termos não foram publicados à época, com instituições dirigidas por pessoas cuja ideologia em relação à mulher é restritiva, de desempoderamento, quando as mulheres, não só pelo valor inerente à sua condição de criadas à imagem e semelhança de Deus como os homens, mas também por sua força de trabalho em nossas igrejas e obras missionárias, são essenciais ao desenvolvimento do reinado de Deus, como bem fica exemplificado no ministério cotidiano de Jesus.


Agora, estamos aí acompanhando um escândalo envolvendo um dos mais empoderados líderes batistas dos últimos 40 anos - Paige Patterson - da Convenção do Sul dos Estados Unidos, que esteve recentemente pregando em Gramado, na CBB e, nesse final de 2017 ele próprio assinou convênio com uma de nossas instituições batistas brasileiras.


Pra mim é o juizo de Deus que está chegando e chegará também, por tabela, em nossos arraiais batistas brasileiros. Não me alegro com isso e, se trago à baila esse assunto, faço-o no espírito dos escritores bíblicos que publicaram, como alerta, os malfeitos de homens como Davi, Sansão, etc. para que percebamos que, sempre que trocamos os valores do reinado de Deus pelos valores do mercado, da política partidária (conservadores x progressistas, fundamentalistas x liberais), o resultado não pode ser outro. O juizo de Deus tarda, mas não falta. Pra mim e pra você! 


E se chega pra mim e pra você, até porque todos temos nossos pontos fracos, que estejamos atentos para, na dependência de sua graça, acertarmos humildemente nossos caminhos.


Coloque no Twitter, Google, You Tube o nome Paige Patterson, acompanhe os desdobramentos, inclusive porque ele está escalado pra falar na Assembléia da Convenção do Sul, na próxima semana, e sinta o clima. 


Que Deus tenha misericórdia de nós, diante das políticas que por vezes, equivocadamente, temos adotados, repito, políticas de mercado, políticas partidárias, em lugar de políticas que manifestem o reinado de Deus e seus valores ético-espirituais em nossas vidas.


https://www.washingtonpost.com/news/acts-of-faith/wp/2018/05/27/controversial-southern-baptist-leader-still-set-to-give-prominent-sermon-in-front-of-thousands/?utm_term=.45fcf873ddfa&noredirect=on


https://www.npr.org/sections/thetwo-way/2018/05/23/613604818/head-of-southern-baptist-seminary-removed-over-remarks-on-rape-abuse-of-women?utm_source=twitter.com&utm_medium=social&utm_campaign=npr&utm_term=nprnews&utm_content=20180523


http://www.ethicsdaily.com/the-tale-of-two-presidents-at-southwestern-seminary-cms-24891


http://www.ethicsdaily.com/from-the-pews-the-danger-of-power-and-prestige-cms-24913


http://www.faithfulnews.com/43027527/its-wrath-of-god-stuff-thinking-past-paige-patterson-and-into-the-southern-baptist-future


https://jasonkallen.com/2018/05/on-the-dignity-of-women-and-the-holiness-of-ministers-a-resolution-submitted-to-the-2018-sbc-committee-on-resolutions/


https://sbcvoices.com/dr-jason-allens-resolution-on-on-affirming-the-dignity-of-women-and-the-holiness-of-ministers/

https://www.facebook.com/149306455212000/posts/1024407551035215/

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Publique

Celebro suas publicações,
mesmo quando discordo.

Admiro:
Sua capacidade criativa,
Sua crença no poder das palavras,
Sua força para posicionar-se,
Sua resistência aos policiais dos sentimentos e pensamentos,
Sua colaboração com exercício da liberdade de expressão
Sua abertura para comunicar-se,
Seu desejo de influenciar novos rumos,
Seu desejo de sair do isolamento
Sua coragem até para errar em público.

Isso vale muito mais:
do que seu silêncio,
do que sua subserviência,
do que seu medo de desagradar,
do que sua crença em levar vantagem redomando-se,
do que a clausura de seus ideais.

Numa sociedade
Que valoriza o que parece, não o que é;
Que valoriza quem acumula para si, não quem socializa,
Que valoriza o opacismo, não a transparência,
Que valoriza "reservas de 'mercado'", não a abertura,
Continue publicando,
Continue respirando e arejando,
Continue se inspirando e inspirando,
Continuarei celebrando.
Publique!

domingo, 8 de abril de 2018

Sobre elogios, críticas e amizades

Como pastor, sempre fiquei com um pé atrás frente a elogios, especialmente à porta do templo, após os cultos. Sempre preferí entrar no carro com Gláucia para, 100 mts depois de afastar-nos do estacionamento, ouvir seus comentários.

Quando ela gosta muito do que preguei, diz logo; quando gosta pouco, fica um  trecho em silêncio; quando não gosta de algo que disse, espera eu perguntar. (Nesse caso, geralmente eu me antecipo e começo a fazer minhas autocríticas. Ela confirma, eu me contorço interiormente, digiro com dificuldade e começo a pensar em como poderia melhorar da próxima vez).

Prefiro elogios à críticas. Não sou Santo Agostinho ("prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem"). Não sou masoquista. Elogios massageiam o ego, elevam a autoestima, produzem sensação de prazer.

Mas o tempo nos faz aprender que nem todos são sinceros e que uma crítica não passional, feita com racionalidade por alguém que nos ama, faz mais bem à vida do que mil elogios, especialmente elogios oriundos de clientes litúrgicos ou crentes em processo de amadurecimento em busca de aceitação.

Desconfio de muito elogio ou de muito tempo sem receber crítica. É como se algo estivesse errado em mim - pois tenho alguma idéia de minhas limitações - ou em quem está me ouvindo - pois tenho alguma idéia a respeito dos seres humanos. Se o que falo não incomoda, acomoda. Isso pode ser um mal sinal, pois, se assim não fosse, "não vos conformeis"  não seria um imperativo bíblico.

Então, conquanto elogios sejam mais agradáveis, críticas, certamente, ajudam mais em nosso crescimento humano. Ou, como disse Dom Helder Câmara: "Se você concorda comigo, me confirma. Mas, se discorda, me ajuda mais porque me obriga a aprofundar o meu ponto de vista”.

Tenho muitas pessoas como amigas, mas as amizades nas quais mais acredito são daquelas que, quando é preciso, me chamam do lado e, amorosamente, me ajudam a pensar e enxergar melhor a mim mesmo ou o que disse. Daquelas que nunca me "confrontam", desconfio.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O caso Lula e os critérios de interpretação de textos


No meio cristão, "conservadores" são aqueles que, dentre outros, se apegam a um único versículo bíblico para sustentar suas posições  no campo da moral (questões de gênero, relacionamentos sexuais, etc), enquanto "progressistas" são aqueles que entendem  que a construção do pensamento ético-cristão não pode se sutentar somente em um ou outro texto, mas deve, também, levar em conta o contexto histórico-cultural, sócio-político, no qual o texto foi elaborado, bem como o caso concreto que está em julgamento.

Na questão da presunção de inocência de Lula, porém, o critério hermenêutico se inverteu. Enquanto  "conservadores" se apegaram ao contexto, "progressistas" se apegaram à literalidade de uma frase da constituição: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória” (art. 5o Inciso LVII da CF)

Isso faz retornar a uma tese antiga que defendo: o que pensamos previamente sobre um assunto e os interesses de diversas naturezas, que já estão introjetados em nossa mente,  têm mais peso em nossa utilização dos textos que visam ordenar nossos pensamentos coletivos (Bíblia, Constituição...) do que o texto propriamente dito.

Aqueles que queriam a condenação do ex-presidente, colocaram o texto em segundo plano; os que queriam a libertação, em primeiro.

Com a palavra, minhas amigas e meus amigos.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Prisão para codenados em segunda instância




Hoje é um dia muito importante na história do nosso país, tendo o STF como protagonista. Nenhum, repito N E N H U M brasileiro deveria estar alheio ao assunto. Não me refiro à decisão que o Supremo tomará sobre o pedido do ex-presidente Lula para livrar-se da eminente e inevitável prisão que mais dia, menos dia acontecerá. Falo da prisão imediata ou não de condenados em segunda instância.

De 194 paises ligados à ONU, o Brasil é o único que está dividido entre prender ou não  condenados em segunda instância. Todos os demais prendem em primeira - caso dos Estados Unidos - ou segunda.

Não por acaso estamos em 96 lugar no rancking da corrupção, pelo qual o número 1 é o menos corrupto.

Lamentavelmente não podemos contar com o apoio de grande parte de militantes político-partidários, seja de esquerda ou de direita, pois parcela significativa está preocupada em salvar a pele de algum de seus dirigentes envolvidos em falcatruas.

Tenho, também, consciência dos prejuizos que sofrem os que se posicionam pelo combate à corrupção, inclusive porque alguns dirigentes eclesiástico-denominacionais, como muitos militantes político-partidários, por enxergarem ganhos para si ou às instituições que estão ocupando cargos, preferem a política do silêncio ou, pior, de combate, de marginalização a quem se posiciona. Não sabem ou preferem parecer não saber que Deus lhes pedirá contas pelo pecado da omissão. 

Não desejo que a conta da omissão recaia sobre alguém de sua família ou sobre uma pessoa querida de sua igreja ou sobre um líder de sua denominação. Antes desejo que se arrependa, ié, que mude de mentalidade e que, se prefere não militar contra esse mal que silenciosamente destrói nossas vidas, pelos menos ore em favor daqueles que decidiram não ficar omissos, em vez de difamá-los.

Que Deus tenha misericórdia de nós.

https://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/03/22/veja-o-que-dizia-gilmar-mendes-quando-guerreava-pela-prisao-na-2a-instancia/

 








sexta-feira, 16 de março de 2018

Possibilidades eclesiâsticas e individuais frente à violência


Transcrevo parte de diálogos travados em minha LT no Facebook, a propósito do assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro.

Pergunta
"pastor como o irmão sugere que a igreja não seja omissa. Já que não conseguimos impedir que qualquer indivíduo tome uma decisão terrível de tirar a vida de alguém. A atuação da igreja local que participo trabalha na formação das crianças como uma possibilidade de alguém que possa se relacionar de forma compassiva com os outros."

Minha resposta
"Penso que a igreja pode deixar de omitir-se:

1. Revendo sua teologia de evangelização colocando o foco na restauração da comunhão do ser humano com Deus em Jesus, cujos efeitos são presentes e futuros e não apenas futuros: salvação do inferno e povoação do céu;

2. Aprofundando um ensino de ética bíblica que não foque somente na ética corporal e familiar, mas também na econômica e política;

3. Reconhecendo a pluralidade de pensamentos sobre formas de atuar neste mundo, dentro de sua membrezia, mas reafirmando Jesus como luz do mundo, como parâmetro para nossas ações como cristãos no mundo. 

Não creio que a instituição igreja deva aliar-se a um partido ou uma ideologia, mas alimentar seu compromisso com a ética do Reino de Deus tal qual manifesta na vida e ensinos de Jesus. 

Penso que essa é uma boa trilha."

Pergunta
 "Qual a sugestão?" (Diante da violência do quadro de violência instalado no país)

Minha resposta
 "Sugiro pra mim, como começo, o que sugeri anteriormente: uma revisão na teologia da evangelização, nos enfoques éticos e no parâmetro norteador do meu comportamento prático;

Sugiro também pra mim, romper com o silêncio. O silêncio é a postura política mais covarde pra quem o usa e encorajadora pra quem pratica o crime. Para romper com o silêncio não é preciso ter uma solução ou ser um técnico-especialista no problema; basta ser empatico, sentir uma dor e expressar o sentimento, seja nas rodas de amigo, nas redes sociais, nos grupos de oração ou mesmo indo às ruas em manifestações coletivas;

Sugiro ainda pra mim, que tenha consciência de que tanto o meu silêncio quanto o meu discurso serão eloquentemente político. Por isso, preciso que esteja claro em minha mente a quem meu silêncio ou meu discurso beneficia eleitoralmente: os que estão alimentando e usufruindo do quadro de injustiça social que impera no país ou os que estão nascendo e sendo abortados precocemente pelo sistema ou quando sobrevivem, experimentam o inferno durante toda a vida;

Sugiro finalmente pra mim que reconheça que, embora não disponha dos recursos financeiros desejáveis pra ter as condições de vida possíveis, em termos de habitação, transporte, saúde, lazer, etc, já superei a linha da miséria há muito. Portanto, em vez de pisar - com meu silêncio ou meu discurso - nos quase 50 milhões de brasileiros que vivem abaixo dessa linha, com menos de 400 reais por MÊS, que eu denuncie aqueles que recebem pra lá de 4, 5, 6 vezes ou mais do que 400 reais por DIA, por caminhos corruptos ou amparados por leis injustas.

Pra mim, é o que tenho sugerido, ciente dos prejuizos que essa postura acarreta por parte de quem, muita vez canta hinos a Jesus dominicalmente em igreja, mas perdeu de longe a sensibilidade, a compaixão pela dor do outro.

Mas, como disse, tenho sugerido isso pra mim..."

terça-feira, 13 de março de 2018

O igualitarismo na mentalidade ética hebraica

Aqui em minha rede, estudando os característicos da mentalidade hebraica, tópico da disciplina Ética Cristã que estou ministrando no SEC,  deparo-me com esta pérola de Jó:

“Se neguei justiça aos meus servos e servas, quando reclamaram contra mim, que farei quando Deus me confrontar? Que responderei quando chamado a prestar contas? Aquele que me fez no ventre materno não os fez também? Não foi ele que nos formou, a mim e a eles, no interior de nossas mães?”
‭‭
Se não atendi os desejos do pobre, ou se fatiguei os olhos da viúva, se comi meu pão sozinho, sem compartilhá-lo com o órfão, sendo que desde a minha juventude o criei como se fosse seu pai, e desde o nascimento guiei a viúva; se vi alguém morrendo por falta de roupa, ou um necessitado sem cobertor, e o seu coração não me abençoou porque o aqueci com a lã de minhas ovelhas, se levantei a mão contra o órfão, ciente da minha influência no tribunal, que o meu braço descaia do ombro e se quebre nas juntas.”
‭‭(Jó‬ ‭31:13-22‬)

Esse texto não está em nossa "caixinha de promessas" porque faria parte da "caixinha de compromissos" e nós queremos ser lembrados  dos compromissos de Deus para conosco e não dos nossos para com Deus.

Ps.: no texto de Jó o que fundamenta nossa busca por justiça e nossa ajuda ao próximo não é um ato de caridade de nossa parte, mas o reconhecimento de que todos somos imagem e semelhança de Deus e assim devemos nos tratar.

domingo, 11 de março de 2018

Escolhas, caminhos e consequências


Nossos caminhos são nossos caminhos. Os caminhos de Deus são os caminhos de Deus. Jamais conseguiremos fazer Deus trilhar por nossos caminhos. Deus - assim demonstram fartos textos da literatura bíblica - não nos obriga a trilhar por seus caminhos.

Deus quer que trilhemos por seus caminhos, mas respeita as escolhas que fazemos e os caminhos pelos quais trilhamos. Se assim não fosse, perderíamos um dos, talvez, principais diferenciais humanos: a liberdade, a capacidade de fazer escolhas refletidas, considerando-se passado, presente e futuro.

Conquanto respeite nossas escolhas, por seu amor nos alerta das consequências que os rumos tomados, que os caminhos escolhidos, podem produzir em nossa existência. Daí as palavras do profeta Jeremias:

"Maldito é o homem que confia nos homens, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor. Ele será como um arbusto no deserto; não verá quando vier algum bem. Habitará nos lugares áridos do deserto, numa terra salgada onde não vive ninguém. “Mas bendito é o homem cuja confiança está no Senhor, cuja confiança nele está. Ele será como uma árvore plantada junto às águas e que estende as suas raízes para o ribeiro. Ela não temerá quando chegar o calor, porque as suas folhas estão sempre verdes; não ficará ansiosa no ano da seca nem deixará de dar fruto”.” (Jeremias‬ ‭17:5-8‬)

Isso não é coação, muito menos promessas falsas, mas um alerta sobre as consequências das escolhas irrefletidas que fazemos. Ele nos alerta por querer nosso bem. Tanto é que, quando estamos no caminho errado ele usa meios para nos alertar. 

Mas nós, em nossa insensibilidade espiritual, em nosso falso conforto produzido por ambientes, conhecimentos ou circunstâncias aparentemente seguros, seguimos pelos caminhos escolhidos, sem nos darmos ao cuidado de pelo menos perguntar: estamos no caminho certo? Este caminho se parece com os caminhos que Deus escolheria? Nem sempre. Na maioria das vezes simplesmente nada perguntamos. Não colocamos um mínimo de dúvida sobre as escolhas que estamos fazendo. Não paramos para orar, refletir, rever os planos...

E Deus continua com seus convites, com suas constatações seguidas de palavras de ânimo que servem de alerta: ““Venham, todos vocês que estão com sede, venham às águas; e vocês que não possuem dinheiro algum, venham, comprem e comam! Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro e sem custo. Por que gastar dinheiro naquilo que não é pão, e o seu trabalho árduo naquilo que não satisfaz? Escutem, escutem-me, e comam o que é bom, e a alma de vocês se deliciará com a mais fina refeição. Deem-me ouvidos e venham a mim; ouçam-me, para que sua alma viva. Farei uma aliança eterna com vocês, minha fidelidade prometida a Davi."

E continua:

"Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo; clamem por ele enquanto está perto. Que o ímpio abandone o seu caminho; e o homem mau, os seus pensamentos. Volte-se ele para o Senhor, que terá misericórdia dele; volte-se para o nosso Deus, pois ele dá de bom grado o seu perdão. “Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos”, declara o Senhor. “Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos; e os meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos. Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para eles sem regarem a terra e fazerem-na brotar e florescer, para ela produzir semente para o semeador e pão para o que come, assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei. Vocês sairão em júbilo e serão conduzidos em paz; os montes e colinas irromperão em canto diante de vocês, e todas as árvores do campo baterão palmas. No lugar do espinheiro crescerá o pinheiro, e em vez de roseiras bravas crescerá a murta. Isso resultará em renome para o Senhor, para sinal eterno, que não será destruído.”” (Isaías‬ ‭55:1-3, 6-13‬)

Porém , por não darmos ouvidos e nos firmarmos em ambientes, conhecimentos e estruturas "aparentemente" sólidos, seguimos por caminhos errados e, quando paramos para ouvir a voz de Deus a situação está tão desesperadora que tudo o que ouvimos é: "Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que são enviados a você! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram!” (Lucas‬ ‭13:34‬)

Sim, todos nós nos enganamos. Todos tomamos decisões equivocadas. Uma coisa, porém, é fazer escolhas erradas por limitação de percepção; outra, por insensibilidade ou maldade espiritual. E isso, só cada um pode dizer por si. Ninguém pode julgar o outro.

Como estão nossas escolhas? De que qualidade é o piso por onde estão caminhando nossos pés? Na caminhada temos parado para refletir sobre os próprios caminhos, sobre as escolhas feitas? Ou temos preferido simplesmente desprezar a voz de Deus e seguir desorientados espiritualmente? Por que não parar agora, rever a vida, buscar orientação de Deus em oração, refletir nas palavras dele ouvidas por tantos nas Escrituras e reorientar os rumos? Este é o tempo, essa, uma oportunidade. Aproveite!

domingo, 4 de março de 2018

O que está dizendo através do que não disse. (A propósito do último texto de Lira Neto na Folha de São Paulo)


Da boca do Dr. Merval Rosa, meu professor de Hermêutica e Psicologia Pastoral no STBNB, ouvi pela primeira vez que devemos aprender a ouvir o que uma pessoa está dizendo através do que ela não disse.

Sabendo que Lira Neto estaria escrevendo hoje seu último texto como colunista da Folha, POR DECISÃO DA PRÓPRIA FOLHA E NÃO DELE, fiquei curioso por saber o que ele "escreveria" através do que "não escreveu", afinal, nem ele, nem a Folha, explicaram as razões.

É que, do jeito que as coisas andam, inclusive numa denominação que já se orgulhou de ser conhecida pela defesa  da liberdade de pensamento e de crença, as palavras de Jesus estão voltando à moda:“a quem tem será dado, e este terá em grande quantidade. De quem não tem, até o que tem lhe será tirado. Por essa razão eu lhes falo por parábolas: “ ‘Porque vendo, eles não veem e, ouvindo, não ouvem nem entendem’." (Mateus‬ ‭13:12-13)

Tenhamos, pois, a capacidade de ler e ouvir através do que não está escrito e dito, se quisermos "ter" conhecimento do que acontece ao nosso redor.

xxx

Insurgência dos vaga-lumes

Em vez de optar pela desesperança, há quem continue a apostar na rebelião do pensamento

Imagine um livro denso sobre a obra e o pensamento de Franz Kafka que, para ser lido, exija o trabalho prévio de desatarraxar com chave de fenda dois pequenos parafusos enferrujados trespassando todas as páginas, desde a capa até a contracapa.

Ou um volume que, a propósito de falar de insurreições e revoltas de rua, tenha a extremidade das folhas chamuscadas, exemplar a exemplar, e por isso recenda levemente a papel queimado.

Ou, ainda, uma brochura sobre o inferno do sistema prisional, com as costuras da lombada à vista, acondicionada dentro de um marmitex de papel alumínio, simulando uma quentinha.

Tais ousadias gráficas, que dessacralizam o formato livro e ao mesmo tempo convertem tais publicações em objetos de arte, constituem apenas um dos muitos aspectos instigantes dos títulos lançados por uma editora alternativa paulistana, de catálogo tão enxuto quanto insubmisso às convenções do mercado.

Para além do artesanato e dos experimentalismos materiais que nos atiçam os sentidos, o portfólio da n-1 edições impressiona pelo espírito transgressivo de sua proposta editorial. Não são livros destinados ao mero deleite, à leitura de puro entretenimento. Foram escritos, de modo deliberado, para ferroar consciências.

"A ideia é oferecer pontos de vista que ponham em xeque a perspectiva da razão ocidental, branca, masculina, heteronormativa, eurocêntrica", explica o filósofo, professor e tradutor Peter Pál Pelbart, que dirige a editora ao lado do sócio, o produtor cultural Ricardo Muniz Fernandes. "Queremos suscitar alteridades e insurreições de pensamento, por meio da propagação de vozes plurais que sejam minoritárias, quase inaudíveis."

Desde o primeiro lançamento, "Máquina Kafka", de Félix Guattari, em 2011, até os títulos mais recentes, como "As Existências Mínimas", de David Lapoujade, a n-1 investe em uma linha transdisciplinar que abarca da antropologia à estética, do teatro à filosofia, da política à literatura. Mas sempre trabalhando nos interstícios do mercado, na tentativa de promover fissuras em relação aos discursos hegemônicos.



O filósofo camaronense Achille Mbembe, com "Crítica da Razão Negra", e a americana Judith Butler, com "Corpos que Contam", figuram entre os próximos lançamentos. Autores brasileiros, como Eduardo Viveiros de Castro ("Metafísicas Canibais"), Suely Rolnik ("A Hora da Micropolítica") e Vladimir Safatle ("Quando as Ruas Queimam: Manifesto pela Emergência"), também estão no catálogo.

"Resolvemos publicar esse tipo de livro diante de nossa insatisfação com a maneira rasa de pensar que tomou conta do mercado editorial", comenta Pelbart. "Queremos ativar sensibilidades, promover a potência do pensamento complexo, buscar afinidades com movimentos já em curso."

Tamanho arrojo gráfico-editorial esbarra nas óbvias limitações mercadológicas relativas a esse tipo de produção. Para tentar prosseguir sustentável, a editora instituiu recentemente uma espécie de financiamento coletivo.

Por meio de pequena quantia mensal, o interessado recebe em casa publicações do catálogo, incluindo os impetuosos folhetos da série intitulada "Pandemia", feitos para serem repassados de mão em mão, produzindo o efeito de contágio.

Questionado sobre se, ante o recrudescimento da onda conservadora, é possível sobreviver à custa de uma tática que ele próprio define como "guerrilha editorial", Pelbart responde parafraseando um trecho de "A Sobrevivência dos Vaga-lumes", do francês Georges Didi-Huberman.

"A dança dos vaga-lumes se efetua justamente no meio das trevas", diz, com voz tranquila e pausada. "Quanto mais pesada é a penumbra, mais somos capazes de captar as insurgências do mínimo clarão, perceber os lampejos fugidios e nômades no meio do escuro."

Bom saber que, em vez de optar pelo lamento quase geral de desesperança ou pela rendição cínica ao pragmatismo, existe gente que continua a apostar na alteridade e na rebelião do pensamento. Mesmo que, no presente instante, a luminescência insubordinável dos vaga-lumes pareça eclipsada pelos clarões artificiais dos refletores midiáticos e pelo lusco-fusco entorpecente das multitelas.

"Devemos nos tornar vaga-lumes e, desse modo, formar novamente uma comunidade do desejo, uma comunidade de lampejos emitidos, de danças apesar de tudo, de pensamentos a transmitir", propôs Didi-Huberman. "Dizer 'sim' na noite atravessada de lampejos e não se contentar em descrever o 'não' da luz que nos ofusca."

Lira Neto
Jornalista, pesquisador e biógrafo, já ganhou quatro prêmios Jabuti por sua obra.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/lira-neto/2018/02/a-insurgencia-dos-vaga-lumes.shtml?loggedpaywall


sexta-feira, 2 de março de 2018

Museus ambulantes? Filipenses 3:13

“Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante,” (Filipenses‬ ‭3:13‬)

Quem vive de passado é museu. Não que o passado não seja importante. É. Mas é importante somente se estiver a serviço do nosso desenvolvimento humano. Se os fatos nele registrados servirem de avaliação e inspiração para avançarmos, certamente a lembrança será altamente recomendável.


O problema é quando o passado serve de freio à realização de projetos em favor do bem comum no presente e no futuro. Isso ocorre comumente quando glórias e erros vivenciados nos paralisam, quando nos tornamos escravos do que fizemos em detrimento do que desejamos ou precisamos ser no agora e no depois.

Há coisas alcançadas que precisam ser mantidas, mas isso enquanto elas não se tornarem obsoletas, estorvo à saúde individual e coletiva. Ter consciência do que nos falta - inclusive a própria dificuldade, como declarou Paulo, para rompermos com o passado - é essencial como alavanca para avançarmos. Para superá-las, só mesmo alimentando a predisposição em face do melhor que está diante de nós.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Entre favelas e palácios

Ao longo do meu ministério pastoral tenho transitado por favelas e palácios. 

Nessas caminhadas aprendi que o xis da questão não é se desenvolvemos nosso ministério com empobrecidos ou enriquecidos, mas se os valores espirituais que vivemos e ensinamos os aproxima ou os afasta, possibilitam pontes ou aprofundam abismos, geram paz pelo compromisso com justiça ou guerra pela incitação do ódio e do preconceito. 

Um ministério pode ser junto a enriquecidos e ser de natureza divina, ser junto a empobrecidos e ser de natureza diabólica. 

O que determina a qualidade do ministério pastoral não são as condições sócio-econômicas de quem alvejamos, mas os valores espirituais que norteiam nossas atitudes, palavras e ações.

Tudo depende do que estamos deixando o Jesus dos evangelhos fazer em nossa vida e do que estamos fazendo com o Jesus dos evangelhos, junto a empobrecidos e enriquecidos.

Soberania libertadora de Deus X escravização de ídolos

“Filhinhos, guardem-se dos ídolos.” (1 João‬ ‭5:21)

Jack Trout e Al Ries, no livro Marketing de Guerra, dizem, em, outras palavras, que o coração do consumidor é o campo de batalha daqueles que querem lhe vender seus produtos. Não por acaso, Salomão nos alerta: "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida" (Pv 4:23).

O coração é o nosso centro de defesa da vida. Aquele ou aquilo que conseguir dominá-lo - tornar-se seu ídolo - terá controle sobre sua vida, para o bem ou para o mal. Pedro estimula a resistência: “... o Diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem possa devorar. Resistam-lhe...” (1 Pedro‬ ‭5:8-9‬).

A cada um, então, compete decidir que postura adotará diante de tantas possibilidades de ídolos que se apresentam em nosso cotidiano. O ensino final desta carta joanina é que devemos nos proteger deles. Não faz sentido que alguém que conhece a soberania libertadora de Deus em Jesus, se deixe escravizar. "Guardem-se dos ídolos".

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Razäo de ser de Jesus - I João 5:20

“Sabemos também que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento, para que conheçamos aquele que é o Verdadeiro. E nós estamos naquele que é o Verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” (1 João‬ ‭5:20‬)

O evento Jesus no mundo teve por finalidade dar entendimento à humanidade a respeito de Deus e possibitar que esse Deus fosse conhecido naquilo que seria necessário à ela conhecer para experimentar uma vida de qualidade eterna.

Em Jesus, Deus é descrito como amoroso, por isso é verdadeiro e digno de aceitação e obediência. Ao aceitarmos Jesus em nossa vida, estamos aceitando um Deus de amor e o amor de Deus, pois Jesus é não apenas resultado do amor de Deus por nós, mas também, ele mesmo, a encarnação do amor de Deus, o paradigma, portanto, para nossa conduta neste mundo.

Sendo Jesus a manifestaçåo visível de Deus e a expressåo exata da qualidade de vida eterna necessária à humanidade, nada nem ninguém deve ocupar o centro de nossa existência. Ele deve ser soberano em nossas vidas e “tudo o que fizerem, seja em palavra seja em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai.” (Colossenses‬ ‭3:17‬).

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Agentes de Deus no império do mal

“Sabemos que somos de Deus e que o mundo todo está sob o poder do Maligno.” (1 João‬ ‭5:19‬)

Império do mal pode ser uma expressão forte, mas que o mal impera, não há como negar. O grau de corrupção sistêmica, os índices de violência, a péssima distribuição de renda, as condições subumanas em que sobrevive parcela significativa da população, a ética do medo reinante, são alguns exemplos que indicam o "poder do maligno" no mundo.

Por detrás de cada exemplo citado e de tantos outros, de tantas áreas da vida que poderíamos mencionar, pode-se identificar a ausência de atitudes e valores espirituais do reino de Deus, tais como amor, justiça, solidariedade, honestidade, transparência, misericórdia, bondade, verdade, enfim. A ausência desses, repito, atitudes e valores espirituais, mais do que incompetência técnica, dá sustentação político-estrutural às condições maléficas vigentes.

Quem se declara pertencente a Deus - não confundir com pertencente a uma igreja ou religião - precisa ter clareza e consciência do que o torna diferente e que diferença essa diferença faz ou poderia fazer em seus relacionamentos interpessoais, ecológicos, socias, enfim, para minimizar os efeitos do "poder do maligno" no mundo.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A propósito da morte de Billy Graham

Estava aqui pensando, a propósito da morte de Billy Graham, nessa quarta-feira, 21/2/2018. Talvez tenha sido o top dos assuntos nas redes sociais, especialmente entre os batistas.

Considero justo. Cresci ouvindo falar dele e li alguns - 4 ou 5 - de seus livros na adolescência. Viajei por uma rodovia que leva seu nome, não tenho certeza se na Carolina do Sul, do Norte ou no Tennessee. Com Jonh Sttot como arquiteto-chefe, liderou o evento que produziu o Pacto de Lausanne, fruto do encontro de 2400 líderes de 150 paises do planeta, que norteou toda uma geração de pastores espalhados pelo mundo, a partir de 1974. Era respeitado.

O curioso é que, por ser um homem de diálogo, conquanto ortodoxo (e esse conquanto é essencial, pois há um tipo de "ortodoxo" que não dialoga nem com seus próprios pensamentos divergentes, pois trata di-vergência como sentimento diabólico), repito, por ser um homem de diálogo, encontrava-se com líderes das mais variadas matizes político-religiosa-ideológicas. Logo, mantinha uma eixo de posições rotuladas de conservadoras, mas assimilava algumas veementemente rejeitadas por conservadores radicais, leia-se fundamentalistas.

Assim sendo, e este é o ponto que estava pensando quando iniciei este registro, se fizermos um levantamento de todas as frases grafadas por ele, que circularam ontem pelas redes sociais, veremos que há idéias pra gostos e correntes de pensamento bastantes variados e cada um usou aquela que afirmava melhor sua própria cosmovisão.

É o que, na Idade Média, denominava-se "argumento de autoridade". Ou seja, o peso, o valor do argumento, dependia de quem o havia proferido. Se Billy Graham falou, merece, no mínimo, respeito. Billy Graham merece, sim, todo o nosso respeito.