quinta-feira, 19 de abril de 2018

Publique

Celebro suas publicações,
mesmo quando discordo.

Admiro:
Sua capacidade criativa,
Sua crença no poder das palavras,
Sua força para posicionar-se,
Sua resistência aos policiais dos sentimentos e pensamentos,
Sua colaboração com exercício da liberdade de expressão
Sua abertura para comunicar-se,
Seu desejo de influenciar novos rumos,
Seu desejo de sair do isolamento
Sua coragem até para errar em público.

Isso vale muito mais:
do que seu silêncio,
do que sua subserviência,
do que seu medo de desagradar,
do que sua crença em levar vantagem redomando-se,
do que a clausura de seus ideais.

Numa sociedade
Que valoriza o que parece, não o que é;
Que valoriza quem acumula para si, não quem socializa,
Que valoriza o opacismo, não a transparência,
Que valoriza "reservas de 'mercado'", não a abertura,
Continue publicando,
Continue respirando e arejando,
Continue se inspirando e inspirando,
Continuarei celebrando.
Publique!

domingo, 8 de abril de 2018

Sobre elogios, críticas e amizades

Como pastor, sempre fiquei com um pé atrás frente a elogios, especialmente à porta do templo, após os cultos. Sempre preferí entrar no carro com Gláucia para, 100 mts depois de afastar-nos do estacionamento, ouvir seus comentários.

Quando ela gosta muito do que preguei, diz logo; quando gosta pouco, fica um  trecho em silêncio; quando não gosta de algo que disse, espera eu perguntar. (Nesse caso, geralmente eu me antecipo e começo a fazer minhas autocríticas. Ela confirma, eu me contorço interiormente, digiro com dificuldade e começo a pensar em como poderia melhorar da próxima vez).

Prefiro elogios à críticas. Não sou Santo Agostinho ("prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem"). Não sou masoquista. Elogios massageiam o ego, elevam a autoestima, produzem sensação de prazer.

Mas o tempo nos faz aprender que nem todos são sinceros e que uma crítica não passional, feita com racionalidade por alguém que nos ama, faz mais bem à vida do que mil elogios, especialmente elogios oriundos de clientes litúrgicos ou crentes em processo de amadurecimento em busca de aceitação.

Desconfio de muito elogio ou de muito tempo sem receber crítica. É como se algo estivesse errado em mim - pois tenho alguma idéia de minhas limitações - ou em quem está me ouvindo - pois tenho alguma idéia a respeito dos seres humanos. Se o que falo não incomoda, acomoda. Isso pode ser um mal sinal, pois, se assim não fosse, "não vos conformeis"  não seria um imperativo bíblico.

Então, conquanto elogios sejam mais agradáveis, críticas, certamente, ajudam mais em nosso crescimento humano. Ou, como disse Dom Helder Câmara: "Se você concorda comigo, me confirma. Mas, se discorda, me ajuda mais porque me obriga a aprofundar o meu ponto de vista”.

Tenho muitas pessoas como amigas, mas as amizades nas quais mais acredito são daquelas que, quando é preciso, me chamam do lado e, amorosamente, me ajudam a pensar e enxergar melhor a mim mesmo ou o que disse. Daquelas que nunca me "confrontam", desconfio.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O caso Lula e os critérios de interpretação de textos


No meio cristão, "conservadores" são aqueles que, dentre outros, se apegam a um único versículo bíblico para sustentar suas posições  no campo da moral (questões de gênero, relacionamentos sexuais, etc), enquanto "progressistas" são aqueles que entendem  que a construção do pensamento ético-cristão não pode se sutentar somente em um ou outro texto, mas deve, também, levar em conta o contexto histórico-cultural, sócio-político, no qual o texto foi elaborado, bem como o caso concreto que está em julgamento.

Na questão da presunção de inocência de Lula, porém, o critério hermenêutico se inverteu. Enquanto  "conservadores" se apegaram ao contexto, "progressistas" se apegaram à literalidade de uma frase da constituição: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória” (art. 5o Inciso LVII da CF)

Isso faz retornar a uma tese antiga que defendo: o que pensamos previamente sobre um assunto e os interesses de diversas naturezas, que já estão introjetados em nossa mente,  têm mais peso em nossa utilização dos textos que visam ordenar nossos pensamentos coletivos (Bíblia, Constituição...) do que o texto propriamente dito.

Aqueles que queriam a condenação do ex-presidente, colocaram o texto em segundo plano; os que queriam a libertação, em primeiro.

Com a palavra, minhas amigas e meus amigos.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Possibilidades eclesiâsticas e individuais frente à violência


Transcrevo parte de diálogos travados em minha LT no Facebook, a propósito do assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro.

Pergunta
"pastor como o irmão sugere que a igreja não seja omissa. Já que não conseguimos impedir que qualquer indivíduo tome uma decisão terrível de tirar a vida de alguém. A atuação da igreja local que participo trabalha na formação das crianças como uma possibilidade de alguém que possa se relacionar de forma compassiva com os outros."

Minha resposta
"Penso que a igreja pode deixar de omitir-se:

1. Revendo sua teologia de evangelização colocando o foco na restauração da comunhão do ser humano com Deus em Jesus, cujos efeitos são presentes e futuros e não apenas futuros: salvação do inferno e povoação do céu;

2. Aprofundando um ensino de ética bíblica que não foque somente na ética corporal e familiar, mas também na econômica e política;

3. Reconhecendo a pluralidade de pensamentos sobre formas de atuar neste mundo, dentro de sua membrezia, mas reafirmando Jesus como luz do mundo, como parâmetro para nossas ações como cristãos no mundo. 

Não creio que a instituição igreja deva aliar-se a um partido ou uma ideologia, mas alimentar seu compromisso com a ética do Reino de Deus tal qual manifesta na vida e ensinos de Jesus. 

Penso que essa é uma boa trilha."

Pergunta
 "Qual a sugestão?" (Diante da violência do quadro de violência instalado no país)

Minha resposta
 "Sugiro pra mim, como começo, o que sugeri anteriormente: uma revisão na teologia da evangelização, nos enfoques éticos e no parâmetro norteador do meu comportamento prático;

Sugiro também pra mim, romper com o silêncio. O silêncio é a postura política mais covarde pra quem o usa e encorajadora pra quem pratica o crime. Para romper com o silêncio não é preciso ter uma solução ou ser um técnico-especialista no problema; basta ser empatico, sentir uma dor e expressar o sentimento, seja nas rodas de amigo, nas redes sociais, nos grupos de oração ou mesmo indo às ruas em manifestações coletivas;

Sugiro ainda pra mim, que tenha consciência de que tanto o meu silêncio quanto o meu discurso serão eloquentemente político. Por isso, preciso que esteja claro em minha mente a quem meu silêncio ou meu discurso beneficia eleitoralmente: os que estão alimentando e usufruindo do quadro de injustiça social que impera no país ou os que estão nascendo e sendo abortados precocemente pelo sistema ou quando sobrevivem, experimentam o inferno durante toda a vida;

Sugiro finalmente pra mim que reconheça que, embora não disponha dos recursos financeiros desejáveis pra ter as condições de vida possíveis, em termos de habitação, transporte, saúde, lazer, etc, já superei a linha da miséria há muito. Portanto, em vez de pisar - com meu silêncio ou meu discurso - nos quase 50 milhões de brasileiros que vivem abaixo dessa linha, com menos de 400 reais por MÊS, que eu denuncie aqueles que recebem pra lá de 4, 5, 6 vezes ou mais do que 400 reais por DIA, por caminhos corruptos ou amparados por leis injustas.

Pra mim, é o que tenho sugerido, ciente dos prejuizos que essa postura acarreta por parte de quem, muita vez canta hinos a Jesus dominicalmente em igreja, mas perdeu de longe a sensibilidade, a compaixão pela dor do outro.

Mas, como disse, tenho sugerido isso pra mim..."

terça-feira, 13 de março de 2018

O igualitarismo na mentalidade ética hebraica

Aqui em minha rede, estudando os característicos da mentalidade hebraica, tópico da disciplina Ética Cristã que estou ministrando no SEC,  deparo-me com esta pérola de Jó:

“Se neguei justiça aos meus servos e servas, quando reclamaram contra mim, que farei quando Deus me confrontar? Que responderei quando chamado a prestar contas? Aquele que me fez no ventre materno não os fez também? Não foi ele que nos formou, a mim e a eles, no interior de nossas mães?”
‭‭
Se não atendi os desejos do pobre, ou se fatiguei os olhos da viúva, se comi meu pão sozinho, sem compartilhá-lo com o órfão, sendo que desde a minha juventude o criei como se fosse seu pai, e desde o nascimento guiei a viúva; se vi alguém morrendo por falta de roupa, ou um necessitado sem cobertor, e o seu coração não me abençoou porque o aqueci com a lã de minhas ovelhas, se levantei a mão contra o órfão, ciente da minha influência no tribunal, que o meu braço descaia do ombro e se quebre nas juntas.”
‭‭(Jó‬ ‭31:13-22‬)

Esse texto não está em nossa "caixinha de promessas" porque faria parte da "caixinha de compromissos" e nós queremos ser lembrados  dos compromissos de Deus para conosco e não dos nossos para com Deus.

Ps.: no texto de Jó o que fundamenta nossa busca por justiça e nossa ajuda ao próximo não é um ato de caridade de nossa parte, mas o reconhecimento de que todos somos imagem e semelhança de Deus e assim devemos nos tratar.

domingo, 11 de março de 2018

Escolhas, caminhos e consequências


Nossos caminhos são nossos caminhos. Os caminhos de Deus são os caminhos de Deus. Jamais conseguiremos fazer Deus trilhar por nossos caminhos. Deus - assim demonstram fartos textos da literatura bíblica - não nos obriga a trilhar por seus caminhos.

Deus quer que trilhemos por seus caminhos, mas respeita as escolhas que fazemos e os caminhos pelos quais trilhamos. Se assim não fosse, perderíamos um dos, talvez, principais diferenciais humanos: a liberdade, a capacidade de fazer escolhas refletidas, considerando-se passado, presente e futuro.

Conquanto respeite nossas escolhas, por seu amor nos alerta das consequências que os rumos tomados, que os caminhos escolhidos, podem produzir em nossa existência. Daí as palavras do profeta Jeremias:

"Maldito é o homem que confia nos homens, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor. Ele será como um arbusto no deserto; não verá quando vier algum bem. Habitará nos lugares áridos do deserto, numa terra salgada onde não vive ninguém. “Mas bendito é o homem cuja confiança está no Senhor, cuja confiança nele está. Ele será como uma árvore plantada junto às águas e que estende as suas raízes para o ribeiro. Ela não temerá quando chegar o calor, porque as suas folhas estão sempre verdes; não ficará ansiosa no ano da seca nem deixará de dar fruto”.” (Jeremias‬ ‭17:5-8‬)

Isso não é coação, muito menos promessas falsas, mas um alerta sobre as consequências das escolhas irrefletidas que fazemos. Ele nos alerta por querer nosso bem. Tanto é que, quando estamos no caminho errado ele usa meios para nos alertar. 

Mas nós, em nossa insensibilidade espiritual, em nosso falso conforto produzido por ambientes, conhecimentos ou circunstâncias aparentemente seguros, seguimos pelos caminhos escolhidos, sem nos darmos ao cuidado de pelo menos perguntar: estamos no caminho certo? Este caminho se parece com os caminhos que Deus escolheria? Nem sempre. Na maioria das vezes simplesmente nada perguntamos. Não colocamos um mínimo de dúvida sobre as escolhas que estamos fazendo. Não paramos para orar, refletir, rever os planos...

E Deus continua com seus convites, com suas constatações seguidas de palavras de ânimo que servem de alerta: ““Venham, todos vocês que estão com sede, venham às águas; e vocês que não possuem dinheiro algum, venham, comprem e comam! Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro e sem custo. Por que gastar dinheiro naquilo que não é pão, e o seu trabalho árduo naquilo que não satisfaz? Escutem, escutem-me, e comam o que é bom, e a alma de vocês se deliciará com a mais fina refeição. Deem-me ouvidos e venham a mim; ouçam-me, para que sua alma viva. Farei uma aliança eterna com vocês, minha fidelidade prometida a Davi."

E continua:

"Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo; clamem por ele enquanto está perto. Que o ímpio abandone o seu caminho; e o homem mau, os seus pensamentos. Volte-se ele para o Senhor, que terá misericórdia dele; volte-se para o nosso Deus, pois ele dá de bom grado o seu perdão. “Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos”, declara o Senhor. “Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos; e os meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos. Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para eles sem regarem a terra e fazerem-na brotar e florescer, para ela produzir semente para o semeador e pão para o que come, assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei. Vocês sairão em júbilo e serão conduzidos em paz; os montes e colinas irromperão em canto diante de vocês, e todas as árvores do campo baterão palmas. No lugar do espinheiro crescerá o pinheiro, e em vez de roseiras bravas crescerá a murta. Isso resultará em renome para o Senhor, para sinal eterno, que não será destruído.”” (Isaías‬ ‭55:1-3, 6-13‬)

Porém , por não darmos ouvidos e nos firmarmos em ambientes, conhecimentos e estruturas "aparentemente" sólidos, seguimos por caminhos errados e, quando paramos para ouvir a voz de Deus a situação está tão desesperadora que tudo o que ouvimos é: "Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que são enviados a você! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram!” (Lucas‬ ‭13:34‬)

Sim, todos nós nos enganamos. Todos tomamos decisões equivocadas. Uma coisa, porém, é fazer escolhas erradas por limitação de percepção; outra, por insensibilidade ou maldade espiritual. E isso, só cada um pode dizer por si. Ninguém pode julgar o outro.

Como estão nossas escolhas? De que qualidade é o piso por onde estão caminhando nossos pés? Na caminhada temos parado para refletir sobre os próprios caminhos, sobre as escolhas feitas? Ou temos preferido simplesmente desprezar a voz de Deus e seguir desorientados espiritualmente? Por que não parar agora, rever a vida, buscar orientação de Deus em oração, refletir nas palavras dele ouvidas por tantos nas Escrituras e reorientar os rumos? Este é o tempo, essa, uma oportunidade. Aproveite!

domingo, 4 de março de 2018

O que está dizendo através do que não disse. (A propósito do último texto de Lira Neto na Folha de São Paulo)


Da boca do Dr. Merval Rosa, meu professor de Hermêutica e Psicologia Pastoral no STBNB, ouvi pela primeira vez que devemos aprender a ouvir o que uma pessoa está dizendo através do que ela não disse.

Sabendo que Lira Neto estaria escrevendo hoje seu último texto como colunista da Folha, POR DECISÃO DA PRÓPRIA FOLHA E NÃO DELE, fiquei curioso por saber o que ele "escreveria" através do que "não escreveu", afinal, nem ele, nem a Folha, explicaram as razões.

É que, do jeito que as coisas andam, inclusive numa denominação que já se orgulhou de ser conhecida pela defesa  da liberdade de pensamento e de crença, as palavras de Jesus estão voltando à moda:“a quem tem será dado, e este terá em grande quantidade. De quem não tem, até o que tem lhe será tirado. Por essa razão eu lhes falo por parábolas: “ ‘Porque vendo, eles não veem e, ouvindo, não ouvem nem entendem’." (Mateus‬ ‭13:12-13)

Tenhamos, pois, a capacidade de ler e ouvir através do que não está escrito e dito, se quisermos "ter" conhecimento do que acontece ao nosso redor.

xxx

Insurgência dos vaga-lumes

Em vez de optar pela desesperança, há quem continue a apostar na rebelião do pensamento

Imagine um livro denso sobre a obra e o pensamento de Franz Kafka que, para ser lido, exija o trabalho prévio de desatarraxar com chave de fenda dois pequenos parafusos enferrujados trespassando todas as páginas, desde a capa até a contracapa.

Ou um volume que, a propósito de falar de insurreições e revoltas de rua, tenha a extremidade das folhas chamuscadas, exemplar a exemplar, e por isso recenda levemente a papel queimado.

Ou, ainda, uma brochura sobre o inferno do sistema prisional, com as costuras da lombada à vista, acondicionada dentro de um marmitex de papel alumínio, simulando uma quentinha.

Tais ousadias gráficas, que dessacralizam o formato livro e ao mesmo tempo convertem tais publicações em objetos de arte, constituem apenas um dos muitos aspectos instigantes dos títulos lançados por uma editora alternativa paulistana, de catálogo tão enxuto quanto insubmisso às convenções do mercado.

Para além do artesanato e dos experimentalismos materiais que nos atiçam os sentidos, o portfólio da n-1 edições impressiona pelo espírito transgressivo de sua proposta editorial. Não são livros destinados ao mero deleite, à leitura de puro entretenimento. Foram escritos, de modo deliberado, para ferroar consciências.

"A ideia é oferecer pontos de vista que ponham em xeque a perspectiva da razão ocidental, branca, masculina, heteronormativa, eurocêntrica", explica o filósofo, professor e tradutor Peter Pál Pelbart, que dirige a editora ao lado do sócio, o produtor cultural Ricardo Muniz Fernandes. "Queremos suscitar alteridades e insurreições de pensamento, por meio da propagação de vozes plurais que sejam minoritárias, quase inaudíveis."

Desde o primeiro lançamento, "Máquina Kafka", de Félix Guattari, em 2011, até os títulos mais recentes, como "As Existências Mínimas", de David Lapoujade, a n-1 investe em uma linha transdisciplinar que abarca da antropologia à estética, do teatro à filosofia, da política à literatura. Mas sempre trabalhando nos interstícios do mercado, na tentativa de promover fissuras em relação aos discursos hegemônicos.



O filósofo camaronense Achille Mbembe, com "Crítica da Razão Negra", e a americana Judith Butler, com "Corpos que Contam", figuram entre os próximos lançamentos. Autores brasileiros, como Eduardo Viveiros de Castro ("Metafísicas Canibais"), Suely Rolnik ("A Hora da Micropolítica") e Vladimir Safatle ("Quando as Ruas Queimam: Manifesto pela Emergência"), também estão no catálogo.

"Resolvemos publicar esse tipo de livro diante de nossa insatisfação com a maneira rasa de pensar que tomou conta do mercado editorial", comenta Pelbart. "Queremos ativar sensibilidades, promover a potência do pensamento complexo, buscar afinidades com movimentos já em curso."

Tamanho arrojo gráfico-editorial esbarra nas óbvias limitações mercadológicas relativas a esse tipo de produção. Para tentar prosseguir sustentável, a editora instituiu recentemente uma espécie de financiamento coletivo.

Por meio de pequena quantia mensal, o interessado recebe em casa publicações do catálogo, incluindo os impetuosos folhetos da série intitulada "Pandemia", feitos para serem repassados de mão em mão, produzindo o efeito de contágio.

Questionado sobre se, ante o recrudescimento da onda conservadora, é possível sobreviver à custa de uma tática que ele próprio define como "guerrilha editorial", Pelbart responde parafraseando um trecho de "A Sobrevivência dos Vaga-lumes", do francês Georges Didi-Huberman.

"A dança dos vaga-lumes se efetua justamente no meio das trevas", diz, com voz tranquila e pausada. "Quanto mais pesada é a penumbra, mais somos capazes de captar as insurgências do mínimo clarão, perceber os lampejos fugidios e nômades no meio do escuro."

Bom saber que, em vez de optar pelo lamento quase geral de desesperança ou pela rendição cínica ao pragmatismo, existe gente que continua a apostar na alteridade e na rebelião do pensamento. Mesmo que, no presente instante, a luminescência insubordinável dos vaga-lumes pareça eclipsada pelos clarões artificiais dos refletores midiáticos e pelo lusco-fusco entorpecente das multitelas.

"Devemos nos tornar vaga-lumes e, desse modo, formar novamente uma comunidade do desejo, uma comunidade de lampejos emitidos, de danças apesar de tudo, de pensamentos a transmitir", propôs Didi-Huberman. "Dizer 'sim' na noite atravessada de lampejos e não se contentar em descrever o 'não' da luz que nos ofusca."

Lira Neto
Jornalista, pesquisador e biógrafo, já ganhou quatro prêmios Jabuti por sua obra.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/lira-neto/2018/02/a-insurgencia-dos-vaga-lumes.shtml?loggedpaywall


sexta-feira, 2 de março de 2018

Museus ambulantes? Filipenses 3:13

“Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante,” (Filipenses‬ ‭3:13‬)

Quem vive de passado é museu. Não que o passado não seja importante. É. Mas é importante somente se estiver a serviço do nosso desenvolvimento humano. Se os fatos nele registrados servirem de avaliação e inspiração para avançarmos, certamente a lembrança será altamente recomendável.


O problema é quando o passado serve de freio à realização de projetos em favor do bem comum no presente e no futuro. Isso ocorre comumente quando glórias e erros vivenciados nos paralisam, quando nos tornamos escravos do que fizemos em detrimento do que desejamos ou precisamos ser no agora e no depois.

Há coisas alcançadas que precisam ser mantidas, mas isso enquanto elas não se tornarem obsoletas, estorvo à saúde individual e coletiva. Ter consciência do que nos falta - inclusive a própria dificuldade, como declarou Paulo, para rompermos com o passado - é essencial como alavanca para avançarmos. Para superá-las, só mesmo alimentando a predisposição em face do melhor que está diante de nós.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Entre favelas e palácios

Ao longo do meu ministério pastoral tenho transitado por favelas e palácios. 

Nessas caminhadas aprendi que o xis da questão não é se desenvolvemos nosso ministério com empobrecidos ou enriquecidos, mas se os valores espirituais que vivemos e ensinamos os aproxima ou os afasta, possibilitam pontes ou aprofundam abismos, geram paz pelo compromisso com justiça ou guerra pela incitação do ódio e do preconceito. 

Um ministério pode ser junto a enriquecidos e ser de natureza divina, ser junto a empobrecidos e ser de natureza diabólica. 

O que determina a qualidade do ministério pastoral não são as condições sócio-econômicas de quem alvejamos, mas os valores espirituais que norteiam nossas atitudes, palavras e ações.

Tudo depende do que estamos deixando o Jesus dos evangelhos fazer em nossa vida e do que estamos fazendo com o Jesus dos evangelhos, junto a empobrecidos e enriquecidos.

Soberania libertadora de Deus X escravização de ídolos

“Filhinhos, guardem-se dos ídolos.” (1 João‬ ‭5:21)

Jack Trout e Al Ries, no livro Marketing de Guerra, dizem, em, outras palavras, que o coração do consumidor é o campo de batalha daqueles que querem lhe vender seus produtos. Não por acaso, Salomão nos alerta: "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida" (Pv 4:23).

O coração é o nosso centro de defesa da vida. Aquele ou aquilo que conseguir dominá-lo - tornar-se seu ídolo - terá controle sobre sua vida, para o bem ou para o mal. Pedro estimula a resistência: “... o Diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem possa devorar. Resistam-lhe...” (1 Pedro‬ ‭5:8-9‬).

A cada um, então, compete decidir que postura adotará diante de tantas possibilidades de ídolos que se apresentam em nosso cotidiano. O ensino final desta carta joanina é que devemos nos proteger deles. Não faz sentido que alguém que conhece a soberania libertadora de Deus em Jesus, se deixe escravizar. "Guardem-se dos ídolos".

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Razäo de ser de Jesus - I João 5:20

“Sabemos também que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento, para que conheçamos aquele que é o Verdadeiro. E nós estamos naquele que é o Verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” (1 João‬ ‭5:20‬)

O evento Jesus no mundo teve por finalidade dar entendimento à humanidade a respeito de Deus e possibitar que esse Deus fosse conhecido naquilo que seria necessário à ela conhecer para experimentar uma vida de qualidade eterna.

Em Jesus, Deus é descrito como amoroso, por isso é verdadeiro e digno de aceitação e obediência. Ao aceitarmos Jesus em nossa vida, estamos aceitando um Deus de amor e o amor de Deus, pois Jesus é não apenas resultado do amor de Deus por nós, mas também, ele mesmo, a encarnação do amor de Deus, o paradigma, portanto, para nossa conduta neste mundo.

Sendo Jesus a manifestaçåo visível de Deus e a expressåo exata da qualidade de vida eterna necessária à humanidade, nada nem ninguém deve ocupar o centro de nossa existência. Ele deve ser soberano em nossas vidas e “tudo o que fizerem, seja em palavra seja em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai.” (Colossenses‬ ‭3:17‬).

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Agentes de Deus no império do mal

“Sabemos que somos de Deus e que o mundo todo está sob o poder do Maligno.” (1 João‬ ‭5:19‬)

Império do mal pode ser uma expressão forte, mas que o mal impera, não há como negar. O grau de corrupção sistêmica, os índices de violência, a péssima distribuição de renda, as condições subumanas em que sobrevive parcela significativa da população, a ética do medo reinante, são alguns exemplos que indicam o "poder do maligno" no mundo.

Por detrás de cada exemplo citado e de tantos outros, de tantas áreas da vida que poderíamos mencionar, pode-se identificar a ausência de atitudes e valores espirituais do reino de Deus, tais como amor, justiça, solidariedade, honestidade, transparência, misericórdia, bondade, verdade, enfim. A ausência desses, repito, atitudes e valores espirituais, mais do que incompetência técnica, dá sustentação político-estrutural às condições maléficas vigentes.

Quem se declara pertencente a Deus - não confundir com pertencente a uma igreja ou religião - precisa ter clareza e consciência do que o torna diferente e que diferença essa diferença faz ou poderia fazer em seus relacionamentos interpessoais, ecológicos, socias, enfim, para minimizar os efeitos do "poder do maligno" no mundo.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A propósito da morte de Billy Graham

Estava aqui pensando, a propósito da morte de Billy Graham, nessa quarta-feira, 21/2/2018. Talvez tenha sido o top dos assuntos nas redes sociais, especialmente entre os batistas.

Considero justo. Cresci ouvindo falar dele e li alguns - 4 ou 5 - de seus livros na adolescência. Viajei por uma rodovia que leva seu nome, não tenho certeza se na Carolina do Sul, do Norte ou no Tennessee. Com Jonh Sttot como arquiteto-chefe, liderou o evento que produziu o Pacto de Lausanne, fruto do encontro de 2400 líderes de 150 paises do planeta, que norteou toda uma geração de pastores espalhados pelo mundo, a partir de 1974. Era respeitado.

O curioso é que, por ser um homem de diálogo, conquanto ortodoxo (e esse conquanto é essencial, pois há um tipo de "ortodoxo" que não dialoga nem com seus próprios pensamentos divergentes, pois trata di-vergência como sentimento diabólico), repito, por ser um homem de diálogo, encontrava-se com líderes das mais variadas matizes político-religiosa-ideológicas. Logo, mantinha uma eixo de posições rotuladas de conservadoras, mas assimilava algumas veementemente rejeitadas por conservadores radicais, leia-se fundamentalistas.

Assim sendo, e este é o ponto que estava pensando quando iniciei este registro, se fizermos um levantamento de todas as frases grafadas por ele, que circularam ontem pelas redes sociais, veremos que há idéias pra gostos e correntes de pensamento bastantes variados e cada um usou aquela que afirmava melhor sua própria cosmovisão.

É o que, na Idade Média, denominava-se "argumento de autoridade". Ou seja, o peso, o valor do argumento, dependia de quem o havia proferido. Se Billy Graham falou, merece, no mínimo, respeito. Billy Graham merece, sim, todo o nosso respeito.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Protegendo-se do pecado - I João 5:18

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não está no pecado; aquele que nasceu de Deus o protege, e o Maligno não o atinge.” (1 João‬ ‭5:18‬)

Há quem ensine que "não está no pecado" significa que um discípulo de Jesus não seja passível de pecar. Esse pensamento é utilizado por marqueteiros da fé, responsáveis pela manutenção de imagem "positiva" da instituição religiosa, ou por pregadores que sobrevivem de "alimentar culpa" para "vender graça". Eles transformam igrejas em comunidades de hipócritas ou, pior, de neuróticos.

Há um aspecto técnico da tradução desse versículo que deve ser pesquisado pelos interessados. A frase "aquele que nasceu de Deus o protege" que, a meu ver, induz ao pensamento de que alguém de fora - no caso Jesus - protegeria o discípulo do pecado, também pode ser traduzida como "aquele que nasceu de Deus a si mesmo se protege".

Essa segunda opção parece-me teológica e factualmente mais razoável, uma vez que traz para o indivíduo a responsabilidade de proteger-se do pecado, ié, daquilo que é nocivo a si, ao semelhante e ao meio ambiente onde a vida se desenvolve. Sua experiência com Jesus, conhecimento de sua vida e ensinos e confiança na graça divina geram renovação de mentalidade e de motivação para não se deixar vencer pelo "maligno", bem no espírito do ensino de Tiago: "sujeitai-vos, pois, Deus, resisti ao diabo e ele fugirá de vós".

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Injustiça é pecado - I João 5:17

“Toda injustiça é pecado, mas há pecado que não leva à morte.” 
(1 João‬ ‭5:17‬)

Sim, injustiça é pecado. Ela mata sonhos, esperanças, liberdade,  segurança, saúde, etc. Talvez ela seja a principal evidência de que o mundo jaza no maligno e uma das mais fortes pilastras de sustentação à expressão "o salário do pecado é a morte".

Parece-me óbvio que devemos nos empenhar para reverter um quadro de injustiça naquilo que salta aos olhos e esteja ao nosso alcance modificar, seja nos círculos de relacionamentos dos quais participamos, seja nas estruturas de qualquer natureza que servem de sustentação a agrupamentos ou empreendimentos humanos.

O que não se justifica é nos tornarmos amargos em função do conceito "injustiça" ou usá-lo como argumento para nossos fracassos e infelicidades. Parafraseando Wayne W. Dyer, em "Seus pontos fracos", podemos nos esforçar para eliminar injustiças sem nos deixarmos derrotar psicologicamente pela existência delas.

Violência no Brasil, intervenção só no Rio?

Há muito tempo aprendi a prestar mais atençāo a dados do que a discursos, mais atençāo a dados do que a imagens que valem por mil palavras discursivas.

Pensei nisso agora, ouvindo sobre a intervenção federal na segurança do Rio.

De tudo que encontrei disponível, não há dados que comprovem que o Rio seja uma ilha de violência no oceano pacífico chamado Brasil. 

Lembro-me de que em junho passado, participando de reunião de uma comissão de pastores no Rio, um pastor carioca da gema ficou admirado quando lhe disse que deixaria Campinas para fixar residência no Recife. O Recife está muito violento, disse-me o morador do Rio. 

Por que, então, intervenção na segurança do Rio e não na do Recife? Só por que a Globo selecionou algumas imagens, editou um discurso e repetiu em todos os seus horários nobres, revigorando ainda mais a qualidade podre do partido que governa o Rio? Por que o Rio tornou-se o pior cartão postal do partido do "tem que mudar o governo para estacar essa sangria" ou do "tem que manter isso aí, viu"?

Pense bem para que, em outubro, possamos dar uma resposta vigorosa nas urnas.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Acadêmicos curiosos versus intercessores solidários - I João 5:16

“Se alguém vir seu irmão cometer pecado que não leva à morte, ore, e Deus dará vida ao que pecou. Refiro-me àqueles cujo pecado não leva à morte. Há pecado que leva à morte; não estou dizendo que se deva orar por este.” (1 João‬ ‭5:16‬)

Podemos falar com Deus diretamente, confiantes de que ele nos ouvirá e cientes de que nos atenderá segundo sua vontade. Intermediários individuais ou institucionais foram banidos na cruz de Cristo, quando, simbolicamente, foi rasgado o véu do templo que definia limites de acesso às pessoas comuns àquele espaço sagrado e exclusivo do templo, à presença de Deus.

Em Jesus, não apenas conquistamos a liberdade de ir diretamente a Deus em favor de nós mesmos, mas também nos tornamos sacerdotes em favor dos semelhantes. Assim, posso falar diretamente com Deus em favor de mim e também daqueles que estão em necessidade.

O ensino de João nos desperta a querer saber que pecado seria esse pelo qual não adiantaria orar. Nada contra essa curiosidade acadêmica. Porém, no ato de orar, a solidariedade tira de foco essa ocupação e coloca todo pecador, indiscriminadamente, no rol de nossas intercessões. Todos somos pecadores, todos podemos e devemos interceder uns pelos outros na luta em favor da vida.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Paradigmas sobre oração - I João 5:15

“E, se sabemos que ele nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que temos o que dele pedimos.” (1 João‬ ‭5:15‬)

Saber que Deus nos ouve é, primeiramente, um ato de fé. Fé que é fortalecida através das interpretações que damos a textos das Escrituras e no conhecimento das experiências nelas narradas ou fé construída a partir de experiências extraordinárias que acumulamos em nossa história que indicam, com razoável grau de acerto, a relação entre uma oração feita e um fato ocorrido que com ela se casa.

Dessa forma elabora-se a fé e consolida-se o paradigma: "ele nos ouve em tudo o que pedimos". É um paradigma essencial à esperança, pois sem essa instância superior para recorrermos em nossas angústias, oriundas das múltiplas experiências neste planeta, viver aqui poderia ser em si um inferno.

Quanto ao paradigma "temos o que dele pedimos", merece reflexão à luz de nossas reais experiências e de tantos outros textos das Escrituras, com destaque para o próprio Jesus que não só admitiu que poderia não ter o que pedia, mas apontou-nos outro paradigma de oração: “Meu Pai, se não for possível afastar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade”. (Mateus‬ ‭26:42‬).