segunda-feira, 1 de abril de 2019

Verdade e testemunho verdadeiro

(A verdade, as narrativas bíblicas e a educação teológico-ministerial ou a relação entre os dois mais importantes princípios dos batistas: o senhorio de Cristo e a autoridade bíblica)

"O amor não se alegra com a injustica, mas sim com a verdade" (I Cor. 13:6): "... seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.” (Efésios‬ ‭4:15‬).


A verdade é única, mas narrativas dela podem ser múltiplas e cada uma dessas sempre será contada na forma percebida ou desejada pelo narrador:
1. a partir do lugar, da posição, onde  estava posicionado como testemunha da verdade ("cada ponto de vista é a vista de um ponto");
2. com base em sua capacidade de percepção (qualidade de seus órgãos do sentido);
3. com base em sua capacidade de memorização do que percebeu (armazenamento de dados);
4. com base em sua capacidade de abstração (processamento dos dados percebidos, avaliação, análise, reflexão, enfim, e transformação em conhecimento);
5. com base na qualidade da reação de seus sentimentos (favoráveis ou desfavoráveis aos elementos que caracterizam a verdade percebida);
6. com base em suas finalidades e conveniências político-ideológicas (por prever consequências de sua narrativa da verdade testemunhada, para sua vida e de seus ouvintes/leitores).

A verdade pode ser um evento, um acontecimento, um fenômeno qualquer e  jamais se repete de maneira absolutamente igual. Suas características essenciais ou mesmo aparentes podem se manter, mas sempre haverá algo, em cada repetição, que a tornará diferente.

A "repetição de uma verdade", (evento ou fenômeno) pode até parecer igual a olhos nus, mas basta que se utilize "olhos clínicos" ou "olhos tecnológicos" e se perceberá, no mínimo, que há nuances que a torna diferente.

I. Jesus como verdade

Jesus foi um evento. Um evento tão duradouro e extraordinário que João, um dos narradores que mais conviveram com a "verdade Jesus", declarou: “Jesus realizou na presença dos seus discípulos muitos outros sinais milagrosos, que não estão registrados neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome.” (João‬ ‭20:30-31‬).

Ele - João - termina sua narrativa do evento, da "verdade Jesus", dizendo: “Este é o discípulo que DÁ TESTEMUNHO dessas coisas e que as registrou. Sabemos que o SEU TESTEMUNHO é verdadeiro. Jesus fez também muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos.” (João‬ ‭21:24-25‬)

Lucas nunca esteve com a "verdade", com o "evento Jesus", portanto, não a testemunhou, mas foi um exímio narrador do "fenômeno". E como fez? Ele mesmo responde: “Muitos já se dedicaram a elaborar um RELATO DOS FATOS que se cumpriram entre nós, conforme nos foram TRANSMITIDOS por aqueles que desde o início foram TESTEMUNHAS OCULARES e servos da palavra. Eu mesmo INVESTIGUEI tudo cuidadosamente, desde o começo, e decidi escrever-te um RELATO ORDENADO, ó excelentíssimo Teófilo, para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas.” (Lucas‬ ‭1:1-4‬)

As histórias que envolvem "a verdade Jesus", foram narradas, então, por discípulos de primeira ou segunda mão. Narradores privilegiados, marcados de tal maneira, emocional e existencialmente, pelo que viram, ouviram dizer, leram, investigaram, que suas narrativas continuam produzindo impacto semelhante ao experimentado por aqueles que testemunharam a "verdade Jesus".

Teoricamente, por mais honestos, cuidadosos e fiéis que sejam os narradores, uma narrativa jamais consegue descrever 100% da verdade que a caracteriza (Jo. 21:24-25). Sempre haverá um recorte que atenda uma finalidade, do tipo: "...para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome" (João) ou "...para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas". (Lucas).

As narrativas da verdade são a única maneira de pessoas ausentes no instante do acontecimento terem acesso à ocorrência. Nesse caso, a narrativa e a verdade se con-fundem, restando a quem não testemunhou, não presenciou, crer ou não na narrativa.

Uma narrativa em si, tem poder para libertar ou oprimir,  produzir prazer ou dor, alegria ou medo, amor ou raiva, tristeza ou graça, esperança ou desespero e desesperança. O interesse pela verdade narrada depende, então, da condição emocional, das expectativas, de quem por ela está sendo afetado e das consequências que ela percebe e abstrai disso.

II. A narrativa bíblica como verdade

Se duas pessoas estiverem envolvidades em um crime, uma como vítima, outra como ré, as narrativas do mesmo evento, da mesma verdade, certamente serão diferentes. Daí a importância de especialistas em investigação, em advocacia e em  julgamento e da necessidade de provas e das narrativas de testemunhas.

No caso da Bíblia, esse é um dos papéis do teólogo. Investigar. Isso porque trabalha com uma verdade não testemunhada por ele, não presenciada no ato da ocorrência, mas conhecida através de narrativas, de testemunhos.

Um de seus trabalhos, por exemplo, é lidar com o conflito de autoridade entre Jesus - a verdade - e a Bíblia - a narrativa da verdade -, elemento que exige investigação e alertas constantes tanto sobre a verdade - Jesus - , quanto sobre as narrativas - textos bíblicos -.

Sendo a Bíblia a única fonte de narrativas a respeito da "verdade Jesus", se ela for desacreditada, cairia por terra tudo o que se prega a respeito de Jesus. Por outro lado, a priorização dela como narrativa, em detrimento dele, como a verdade, pode induzir os leitores a se tornarem apenas, por exemplo, religiosos legalistas ou moralistas, transformando Jesus em apenas mais um de seus personagens, anulando assim os efeitos soterológicos, amorosos e graciosos de seu nascimento, vida, ensinos, morte e ressurreição.

Como nenhum de nós tem acesso, senão espiritual, à "verdade Jesus", mas somente às narrativas a respeito dela, isso  faz com que a autoridade da narrativa seja tão ou mais enfatizada por muitos, do que a autoridade de Jesus - o fato, evento, fenômeno em si, a verdade.

No evangelho, Jesus é a verdade e o Novo Testamento, a narrativa da verdade, a interpretação da verdade, a aplicação da verdade. Não custa lembrar, então, que por mais fiéis e verdadeiros que os narradores, intérpretes e aplicadores tenham sido, jamais seriam capazes de reproduzir, de traduzir em grafia o evento real.

(Daí o pressuposto teológico "inspiração", acrescido do polêmico adjetivo "verbal", que transforma os escritores bíblicos em "psicografistas", visando transferir a autoria absoluta dos textos para Deus, retirando a responsabilidade humana e, com ela, a incompletude ou a possibilidade de erros no conteúdo ou na forma da verdade que narra).

De qualquer forma, daqueles que leem as narrativas, sempre será exigido um elemento chamado fé, pois devem crer não no que viram, mas no que outros viram, vivenciaram, perceberam e narraram. É a narrativa que toca de maneira significativa em suas almas, reorientando o sentido de suas existências e legitimando a sua verdade.

Não por acaso desde os primeiros textos da fé judaico-cristã, a ênfase na importância das narrativas é grande.

Exemplo no Antigo (ou primeiro) Testamento: "Gravem estas minhas palavras no coração e na mente; amarrem-nas como sinal nas mãos e prendam-nas na testa. Ensinem-nas a seus filhos, conversando a respeito delas quando estiverem sentados em casa e quando estiverem andando pelo caminho, quando se deitarem e quando se levantarem. Escrevam-nas nos batentes das portas de suas casas e nos seus portões, para que, na terra que o Senhor jurou que daria aos seus antepassados, os seus dias e os dias dos seus filhos sejam muitos, sejam tantos como os dias durante os quais o céu está acima da terra.” (Deuteronômio‬ ‭11:18-21‬).

Exemplo no Novo (ou Segundo) Testamento: “Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu. Porque desde criança você conhece as Sagradas Letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus. Toda a escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.” (2 Timóteo‬ ‭3:14-17‬)

A igreja, em tese, é uma comunidade formada por pessoas que já creram nas narrativas a respeito do evento, do fenômeno, da "verdade Jesus". Ocorre que em sua caminhada ela está exposta  a versōes - pregações, palestras - das narrativas que podem alterar, omitir, até mesmo incluir elementos, "pegando carona" na "verdade Jesus". São elementos de interesse de indivíduos ou grupos no exercício do poder, visando a manutenção ou modificação do "status quo" social vigente.

Leia este caso clássico que pode ilustrar a diferença entre a verdade testemunhada por mulheres e a narrativa elaborada por líderes religiosos mal-intencionados.

1. A verdade
“Depois do sábado, tendo começado o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. E eis que sobreveio um grande terremoto, pois um anjo do Senhor desceu dos céus e, chegando ao sepulcro, rolou a pedra da entrada e assentou-se sobre ela. Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve.

O anjo disse às mulheres: “Não tenham medo! Sei que vocês estão procurando Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui; ressuscitou, como tinha dito. Venham ver o lugar onde ele jazia. Vão depressa e digam aos discípulos dele: Ele ressuscitou dentre os mortos e está indo adiante de vocês para a Galileia. Lá vocês o verão. Notem que eu já os avisei”. As mulheres saíram depressa do sepulcro, amedrontadas e cheias de alegria, e foram correndo anunciá-lo aos discípulos de Jesus. De repente, Jesus as encontrou e disse: “Salve!” Elas se aproximaram dele, abraçaram-lhe os pés e o adoraram. Então Jesus lhes disse: “Não tenham medo. Vão dizer a meus irmãos que se dirijam para a Galileia; lá eles me verão”.  (Mateus‬ ‭28:1-3, 5-10)

2. A narrativa falsa para atender interesses corporativos
"Enquanto as mulheres estavam a caminho, alguns dos guardas dirigiram-se à cidade e contaram aos chefes dos sacerdotes tudo o que havia acontecido. Quando os chefes dos sacerdotes se reuniram com os líderes religiosos, elaboraram um plano. Deram aos soldados grande soma de dinheiro, DIZENDO-lhes: “Vocês devem declarar o seguinte: Os discípulos dele vieram durante a noite e furtaram o corpo, enquanto estávamos dormindo. Se isso chegar aos ouvidos do governador, nós lhe daremos explicações e livraremos vocês de qualquer problema”. Assim, os soldados receberam o dinheiro e fizeram como tinham sido instruídos. E esta VERSÃO se divulgou entre os judeus até o dia de hoje.” (Mateus‬ ‭28:11-15‬)

É compreensível, portanto, a disputa entre correntes de pensamento teológico visando fazer prevalecer sua narrativa da "verdade Jesus". Uns focam no Jesus de Nazaré, outros no Cristo paulino, outros nos dois. Uns estão, de fato, interessados na "verdade", outros, em garantir seus interesses pessoais, sociais, grupais, institucionais, usando as narrativas como elemento de imposição da verdade que lhes interessa, lhes beneficia, inclusive política e socialmente.

Por isso, considerando que uma narrativa pode provocar impactos relevantes na vida de um ouvinte/leitor, ele deve ser estimulado exercitar o direito de pesquisar todas as variáveis envolvidas numa narrativa a fim de depositar ou não sua confiança nela.

Também nesse sentido podemos entender as palavras de João quando diz: “Amados, não creiam em qualquer espírito, mas EXAMINEM os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” (1 João‬ ‭4:1‬).

Além disso, sabemos que as narrativas bíblicas não servem somente para narrar a "verdade Jesus". Há outros interesses aos quais ela também pode servir. É comum que a autoridade dela, por narrar a "verdade Jesus", também seja usada para emplacar outros interesses.

Exemplo disso foi o uso de narrativas bíblicas para sustentar ou destruir interesses político-econômicos nas revoluções inglesas do século XVII (período do surgimento dos batistas), como foi demonstrado por Christopher Hill em "A Bíblia Inglesa e as revoluções do século XVII".

Isso fortalece a importância de investimento,  nas escolas teológico-ministeriais, em estudos profundos sobre a Bíblia e não apenas relacionados à formação ministerial visando  preparar mão de obra técnica para gerenciar um negócio religioso ou reproduzir uma ideologia teológica ou para aumentar o número de frequentadores de igreja ou para aumentar a capacidade financeiro-patrimonial eclesiástica e o poder político-denominacional.

Nesse caso, é essencial que se faça a pergunta básica de quem trabalha com educação: para que a instituição educacional existe? Existe para elucidar a "verdade" e seus efeitos a partir das narrativas existentes e da pesquisa de todos os elementos relacionados a ela ou existe para  divulgar narrativas convenientes aos interesses de quem delas tira proveito estritamente particular ou corporativo? Qual é a finalidade da educação teológico-ministerial oferecida?

A meu ver, o aprofundamento do estudo das narrativas visando lançar luzes sobre as implicações da "verdade" testemunhada pelos narradores bíblicos, bem como das interpretações dadas pelas DIVERSAS correntes de pensamento teológico é essencial:
1. numa sociedade que se caracteriza pela velocidade na veiculação de informação e na falta de priorização da analise, elaboração e construção de conhecimento;
2. numa época em que a polarização de interesses se aprofunda e "fake news", pós-verdades, são usadas para obscurecer a verdade e ludibriar as pessoas;
3. numa sociedade na qual a fé tem sido usada por muitos como um produto financeiramente rentável, num mercado consumidor em expansão ou elemento de sustentação de ideologias políticas e suas estruturas operacionais.

Desejo, então, que essas linhas tenham despertado seu desejo para refletir sobre os assuntos "verdade"  e "narrativas da verdade" e ajudado a entender o porquê, a importância, de continuar estudando esses dois elementos no que se refere à fé cristã, a formação teológica e ao exercício ministerial.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Quando o plug da panela de pressão estoura - Administrando em situaçōes de crise

O QUE É QUE EU FAÇO? O QUE É QUE EU FAÇO? O QUE É QUE EU FAÇO?, gritei três vezes, como se clamasse à trindade.

Gláucia chega correndo na cozinha perguntando pelo que estava acontecendo e eu, ali parado. Foi em questão de segundos.

Tudo transcorria normalmente num sábado ensolarado. Logo no início da manhã os amigos Wilde e Maria passaram em casa pra me ajudar a resolver um problema que sozinho não conseguiria. Terminado o serviço, tomamos um suco, rimos um pouco e eles partiram.

Pouco mais tarde vou preparar uma carne de panela. Separo os ingredientes, corto a cebola, o tomate, o pimentão,  a cebolinha, o coentro; acrescento alho, batatinha, abóbora e alguns temperos, coloco na panela de pressão, ligo o fogo e começo a lavar alguns utensílios que estavam na pia.

De repente, um estouro tipo abertura de champanhe, um susto inesperado, um esguicho de água quente atingindo o exaustor e espirrando pelos arredores e a chama do fogo parecendo multiplicar-se.

No automático, repito 3 vezes a pergunta: O que devo fazer?

E enquanto a repetia, naqueles segundos, o cérebro identificava e conectava o perigo do fogo, indicando que a primeira coisa a fazer seria desligar o gás, mas, ao mesmo tempo, apontava o risco de queimadura com água quente, inclusive porque estava sem camisa.

Dos males, o menor pareceu-me arriscar desligar o gás, apagando o fogo, e assim o fiz, com sucesso.

Feito isso, restava diagnosticar e avaliar a situação, repensar o almoço, limpar o fogão, o exaustor, prateleiras próximas, paredes, piso, enfim, fazer uma bela de uma faxina e pensar em outro ingrediente para o almoço...

... e ainda, responder ao porquê do estouro, pra evitar repetições futuras...

Sem pressão da panela e do perigo e com a ajuda experiente de Gláucia, as ações foram replanejadas, medidas preliminares para garantir o almoço e ações que restaurassem a limpeza do ambiente foram adotadas.

E então, depois que a situação estava sob controle, almoçamos pelo plano B, descansei, iniciei a faxina enquanto pensava na relação "estouro da panela de pressão" e administração.

Ao longo da vida exerci muitos cargos e funções de liderança. Especializei-me em apagar incêndios. A maioria criada por terceiros; alguns, por mim mesmo. Alguns estavam em andamento e fui chamado pra apagar. Outros surgiram na caminhada.

A meu ver, esses que acontecem na caminhada são mais difíceis de debelar porque estamos envolvidos no processo. Sob pressão, fazer diagnóstico, identificar o que está acontecendo e decidir como agir para alcançar o melhor resultado visualizado, provocando o menor efeito colateral negativo, é o grande desafio. (Essencial, nestas situações, é definir focos, estabelecer ordem de prioridade e atacá-los, um por um).

Por isso tenho pouca paciência com "engenheiros de obras prontas", especialmente os que não demonstram competência para entender que uma coisa é tratar de um problema sentado numa sala confortável ouvindo narrativas passadas e dando opinião e outra é estar envolvido no problema concreto, sob a pressão de variáveis nem sempre tão claras, mas precisando tomar decisões urgentes. (Desconfio das intenções de quem assume um cargo, critica depreciativamente as decisões do antecessor sem levar em conta o contexto de seus erros e acertos. Se não estava lá quando as coisas foram feitas, que autoridade têm para criticar?)

Particularizando, nas reuniões de conselhos e assembléias de igrejas e denominação isso é muito comum. Algumas pessoas - portanto nem todas, muito menos a maioria -  participam apenas dos cultos, mas quando estão em reuniões deliberativas exercem seus poderes como se fossem totalmente envolvidas nos processos cotidianos objetos de decisão. Não são. Precisam, por isso, ser mais prudentes, humildes, generosas, em suas colocações.

Liderar é decidir e decidir, muita vez, sob pressão. Decidir sob pressão dificulta o diagnóstico e, consequentemente a escolha da melhor opção para solucionar um problema.

Já decidi muito. Milhares de pessoas já foram afetadas por decisões que tive que tomar em cargos e funções que ocupei. Muitas vezes errei, mas não mais do que acertei.  E digo com tranquilidade que, em todas as vezes que errei, nas difíceis decisões que tive que tomar, nenhuma delas foi com a intenção de prejudicar alguém. Se houve prejudicados em decisões tomadas, certamente faziam parte da escolha menos ruim enxergada no contexto, pois, como se diz, "não se faz omelete sem quebrar ovos".

Você que já viveu experiências com estouro de panela de pressão ou já estudou o assunto, pode fazer mil comentários dos "porquês" da explosão, dos "comos" que poderiam ser adotados nessa situação, das etapas do durante e do depois, mas colocar na berlinda, impiedosamente, quem viveu o caso concreto e precisou decidir sob a pressão do contexto é um grande equívoco.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

"Os cristão batistas em Pernambuco..."

Estive na Biblioteca do STBNB fazendo uma pesquisa e, dentre os livros, tive acesso a este, "Os cristãos batistas em Pernambuco...", de Francisco Pereira, o qual recomendo.

Apenas para registro, por se tratar de história da qual fiz parte em um período, ficam as seguintes observações, visando subsidiar eventuais pesquisadores:

1. Página 399

Assembléia Convenção Batista de Pernambuco (out/1991)
A presidência da diretoria: Israel Dourado Guerra, Edvar Gimenes de Oliveira e Livingstone Cunha. (Livingstone deixou a Secretaria em 1991 - por isso pode fazer parte da diretoria - e não em 92 como apresentado na página 400).

Esta diretoria - Israel, Edvar e Livingstone - dirigiu a Assembléia de Arcoverde (out. 91) e a de Bairro Novo (out. 92), pois foi a diretoria da transição. Até Arcoverde, a eleição ocorria na sessão de abertura, como mandava o estatuto e era responsável até a eleição  na abertura da Assembléia seguinte.

A partir daí (na Assembléia de Olinda), a eleição passou a ocorrer na penúltima sessão. Por essa razão, a diretoria que tinha na presidência Israel, Edvar e Livingstone dirigiu duas Assembléias: da abertura  da de Arcoverde (out/91) ao encerramento da de Olinda (Out. 92)

(Como não havia impedimento estatutário até a reforma estatutária de 91 em Acoverde, na Assembléia de Olinda eu era vice-presidente (eleito na abertura de Arcoverde) e diretor do CAB. A partir daí, funcionário da CBPE ou suas instituiçōes foi impedido de participar da diretoria).

2. Pag. 401

Ney Ladeia (Página 401) - Quando Ney era pastor da Igreja Batista do Zumbi ele não era capelão no CAB. Era professor de ensino religioso. Deixou o cargo de professor para trabalhar na trabalhar na JEVAN em 92. Alguns anos depois, quando deixou a JEVAN voltou a trabalhar no Colégio como capelão.

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A primeira observação pode ser confirmada no Livro de Atas da CBPE. A segunda, somente em boletins semanais do CAB que foram encadernados e deixados nas bibliotecas do CAB e STBNB.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Trilha para sucessão pastoral

Era um concílio para examinar um colega de turma com vistas ao pastorado. A reunião acontecia numa grande igreja de interior no nordeste. Um líder, depois de ouvir para onde o candidato iria, pediu a palavra e, em tom reprovador, declarou que não era para aquela igreja que ele gostaria que o candidato fosse.

O candidato reagiu dizendo algo como: esta é a sua vontade, mas não é a de Deus. Como o senhor não é Deus, não irei para onde o senhor gostaría. O líder, silenciosamente, sentou-se.

O conflito de vontades faz parte da experiência humana. Acontece entre pessoas e também na relação com Deus.

Afinar a vontade de pessoas parece-me um desafio maior. Os motivos, interesses e escalonamento de valores são diferentes, nem sempre conscientes e transparentes, e não há, nem nunca houve neste planeta, pessoa capaz de atender em 100% as expectativas de outra. Muito menos de um grupo de outras.

Quando se trata de escolher um pastor, uma trilha de conciliação seria *relacionar* diversos aspectos definidos por envolvidos e pedir a quem vai decidir que marque, para cada um deles, quais das seguintes categorias retrataria melhor seus sentimentos e pensamentos: "muito importante", "importante", "pouco importante" ou "sem importância".

A partir disso, procuraria-se alguém que mais se aproxima daquilo que é entendido pela maioria como "muito importante" ou "importante", deixando em segundo plano os "pouco importantes" ou "sem importância" à maioria da igreja.

Perceba-se que, nesse caso, é a vontade humana que se estaria buscando reconhecer.

Há quem defenda que afinar-se à vontade Deus seria menos difícil. Bastaria elencar princípios do reinado de Deus, manifestos na vida e ensinos de Jesus, confrontá-los com os motivos que movem os corações dos que têm que decidir em busca de afinação entre as duas vontades - divina e humana - e seguir adiante, confiando na graça divina.

O problema é que há situações excepcionais nas quais o agir de Deus se manifesta de maneira imprevisível, misteriosa. Lucas, por exemplo, conta que Paulo e seus companheiros foram impedidos, pelo Espírito, de pregar a palavra na Ásia e na Bitínia e, depois, através de sonho "concluiram" que Deus os tinha chamado à Macedônia.  (At. 16:6-10).

Um  bom caminho, então, seria conciliar muita e sincera oração, com aquilo que as pessoas que decidirão consideram muito importante, buscando harmonia com o reconhecimento e priorização dos valores espirituais do reinado de Deus, manifestos em Jesus.

Seguir por esse caminho aumenta significativamente as chances de acerto.  E, se houver erro, que cada um seja humilde para reconhecer o seu e, nesse espírito, colaborar para corrigir a rota.

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*Ilustração de pesquisa para definição de perfil pastoral

Estas perguntas têm por objetivo:

A) Ajudar os membros da igreja a terem uma visão ampla do que pode envolver a vida ministerial de um pastor. (É, portanto, essencial que antes de responder se faça uma leitura geral);

B) Ajudar a igreja a ter clareza do que é essencial no perfil de pastor que buscará;

C) Facilitar o trabalho da Comissão de Sucessão Pastoral na classificação de nomes que efetivamente participarão do processo.

As perguntas que seguem são apenas ilustrativas, podendo ser alteradas ou suprimidas de acordo com a valorização da Comissão que a elaborará ou, ainda, podendo receber outras que não aparecem nesta ilustração.

1. ASPECTOS MINISTERIAIS
1.1. Que o pastor se dedique exclusivamente à Igreja
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.2. Que o pastor dedique tempo à visitação dos membros
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.3. Que o pastor dedique tempo a aconselhamento
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.4. Que o pastor dedique tempo à administração eclesiástica
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.5. Que o pastor dedique tempo à preparação dos sermões e estudos bíblicos
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.6. Que o pastor dê expediente diário na sede da igreja
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.7. Que o pastor exerça magistério em instituição batista
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.8. Que o pastor já tenha experiência ministerial comprovada
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância


2. ASPECTOS LITÚRGICOS

2.1. Que o pastor use paletó e gravata nos cultos dominicais
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

2.2. Que o pastor pregue em todos os cultos dominicais
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

3. ASPECTOS DENOMINACIONAIS

3.1. Que o pastor seja formado em seminário batista reconhecido pela ABIBET da CBB
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

3.2. Que o pastor seja filiado à Ordem dos Pastores Batistas do Brasil
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

3.3. Que o pastor participe de assembléias das convenções batistas
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

4. ASPECTOS FAMILIARES
4.1. Que o pastor seja casado
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

4.2. Que a esposa do pastor exerça cargo na igreja
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Jesus e a rivalidade

Fazendo uma leitura bíblica para iniciar a preparação da mensagem que compartilharei no próximo domingo, à tarde, me deparo com o seguinte registro de João: “Os fariseus ouviram falar que Jesus estava fazendo e batizando mais discípulos do que João, embora não fosse Jesus quem batizasse, mas os seus discípulos. Quando o Senhor ficou sabendo disso, saiu da Judeia e voltou uma vez mais à Galileia.” (João‬ ‭4:1-3)

Deixei de lado o foco da preparação da mensagem para refletir em como, até mesmo na realização de atividades relacionadas ao Reino de Deus, pessoas com segundas intenções, especialmente travestidas de roupagem religiosa, encontram uma forma de criar conflitos.

João batizava. Os discípulos de Jesus batizavam. Batizar é um ato simbólico, cujo significado inclui reconciliação, pacificação de relacionamentos. Mas aos ouvidos fariseus, isso era o menos importante. Importante para eles era gerar conflito e, para isso, nada melhor do que semear a competição, fazendo uma maliciosa comparação: "Jesus" batiza mais do que João.

Quem nunca vivenciou isso nos corredores de nossas instituições religiosas? Quem nunca se deparou com alguém comparando as qualidades de um líder em relação a outro? A pregação de um pastor em relação a outro? A eficiência administrativa de um dirigente em relação a outro? O conhecimento bíblico de um professor em relação a outro?

Não é problema reconhecer as qualidades de alguém. A quem honra, honra. A questão é a comparação maliciosa, geradora de rivalidade, que visa enfraquecer alguém, semeando desavença.

Tocou-me, entretanto, o fato de Jesus se retirar do ambiente. Sua presença ali não seria benéfica aos propósitos do Reino. Permanecer ali serviria de munição para os fariseus. Certamente também criaria problemas entre os discípulos dele e os de João e isso não fazia parte de seu ministério.

Não que Jesus não se envolvesse em conflitos. Ele virou as mesas dos cambistas, tratou o rei Herodes como "raposa velha", enfim, ele era pacificador, mas não era pacifista. A diferença é que ele sabia escolher quais conflitos precisavam ser enfrentados e quais ser evitados.

Esse conflito - quem batizava mais - não agregaria nada de útil ou benéfico à vida das pessoas ou ao seu ministério. Diante disso, sua atitude foi exemplar: "deixou a Judéia e retornou à Galiléia".

Fica a dica. Quando o ambiente dá sinais de favorecer a rivalidade entre agentes do Reino, melhor seguir o exemplo de Jesus: retirar-se.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Michelle Bolsonaro e a causa dos surdos

"Nossa cabeça pensa, onde pisam nossos pés!"

A Primeira Dama, Michelle Bolsonaro, roubou a cena no dia da posse do Presidente da República, ao discursar em LIBRAS, no parlatório, antes do seu marido. O ato foi simbólico sobretudo por trazer a debate os desafios enfrentados pelos surdos, uma parcela da população brasileira cujos problemas são desconhecidos ou ignorados pela maioria.

Criada na perifera de Brasília, Michelle teria se dedicado a aprender a Lingua Brasileira de Sinais - LIBRAS - pelo fato de ter convivido com um tio surdo. Disso teria nascido seu interesse por dedicar-se a este segmento.

Nossas escolhas pessoais têm relação direta com as experiências que tivemos. Isso ocorre inclusive na produção acadêmica. "É a relação afetiva para com um objeto, que me atrai ou me ameaça, que cria as condições para a concentração de minha atenção", escreveu Rubem Alves. Somos impulsionados a agir, visando entender e alterar uma realidade, quando nosso coração é tocado por uma situação que presenciamos, por uma narrativa que lemos ou ouvimos, por uma experiência que afetou nosso sentimento.

Lembro-me de narrativas dos pastores Paulo Eduardo, da PIB de São Paulo e Fernando Brandão, da Junta de Missões Nacionais e de como teriam sido movidos a agir após contato, "in loco", com a miserabilidade dos moradores da Cracolândia, na capital paulista. Essa experiência fez surgir um dos mais destacados projetos de recuperação e apoio a dependentes químicos conhecidos atualmente no Brasil.

O tête-à-tête dificulta nossa indiferença e nos faz tratar melhor quem está ao nosso lado. As palavras de Paulo indicam isso: “Vocês bem sabem que nunca fiz questão de riqueza ou de vestir do bom e do melhor. Com estas mãos limpas, cuidei das necessidades básicas, minhas e dos que trabalham comigo. Em tudo o que fiz, demonstrei a vocês que é preciso trabalhar a favor dos fracos, não explorá-los. Vocês não estão errando se guardarem a lembrança daquilo que o Senhor disse: ‘Vocês são mais felizes dando do que recebendo’.” (At. 20:32-35, em A Mensagem)

Mateus registra que Jesus, movido por compaixão, curou e alimentou pessoas quando VIU a multidão e seus enfermos e OUVIU que pessoas estariam com fome. (Mt 14). É, portanto, natural que, havendo um mínimo de compaixão em nosso coração, há empenho para usar os meios de poder acessíveis, por menores que sejam, para agirmos em favor de quem está em situação de vunerabilidade, desfavorecimento ou injustiça.

Michelle usou o parlatório, um instante de visibilidade "mundial", para alavancar, potencializar, o que tocou sua vida, seu coração, e fez bem. Importante, entretanto, é entendermos que não apenas sentimentos ou experiências particulares devem mover nossas ações. Não é preciso, por exemplo, ter na família um sem-teto para lutar por moradia ou uma mulher que foi violentada, para lutar pelos direitos das mulheres.

O conhecimento de dados da realidade, mesmo referentes àqueles que não fazem parte do nosso "mundo significativo", deve mover nossas escolhas, nossas lutas, como manifestação de amor ao ser humano, como Deus ama. E isso não somente para minorar a dor, assistencialmente, mas para atacar as causas geradoras e seus efeitos nocivos.

Michelle, repito, fez bem ao usar seu novo papel social e a repercussão de seus atos em favor daquilo que toca seu coração. E nós, temos usado nossas oportunidades e recursos para alavancar e potencializar não apenas o que mexe com nossas emoções, mas, sobretudo, o que move o coração de Deus, revelado em Jesus?

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Filhos "obedientes", pais condecorados

Cresci convivendo com pais orgulhosos por seus filhos estarem integrados em uma igreja e pais tristes, pelo contrário.

Vez por outra ouvi pastores encherem o peito no púlpito ao declararem que seus filhos estavam "nos caminhos do Senhor" e ouvi pastores sendo criticados sob o discurso de que o "insucesso" pelas escolhas dos filhos, diferentes das deles, os desqualificava  para o pastorado, afinal, "biblicamente", "quem não sabe governar a sua própria casa, como terá cuidado da Igreja de Deus?"

Isso me faz lembrar de um pai que criou um casal de filhos, deu-lhes as diretrizes para o bem viver, mas ambos seguiram por outro caminho. Um de seus "netos" matou o irmão. Esse era nada mais nada menos que o todo poderoso, criador do universo.

Talvez, lembrar isso ajude na redução do juízo precipitado, da jactância, da exigente hipocrisia ou ainda, até, do sentimento de culpa e desistência de alguns do ministério.

Há certas bandeiras que levantamos para nos fortalecermos moral e politicamente perante um público ou para enfraquecer alguém com quem não simpatizamos ou cujas idéias não nos agradam ou não nos beneficiam, sem prestarmos atenção no fato de que o padrão usado para acariciar e alimentar  o próprio ego é mais elevado do que o experimentado pelo próprio onipotente, onisciente e onipresente "Pai do Éden".

É bom e agradável ver os filhos seguindo os princípios que abraçamos. Investir nisso é indicado, especialmente se o resultado que se pretende é criar filhos amorosos, respeitosos, solidários, trabalhadores, enfim, retratos da imagem de Deus manifesta em Jesus.

Mas é bom  também sermos mais humildes, graciosos e respeitosos - como Jesus - na forma de lidar com o "sucesso" ou "insucesso" nessa área. Primeiro, porque a história ainda está sendo escrita e o balanço final não ocorreu; depois,  pra não nos colocarmos como mais sábios, exemplares e eficazes do que o próprio Deus, pai-criador, que apregoamos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Natal, bendita sensibilidade

“Em tudo o que fiz, mostrei a vocês que mediante trabalho árduo devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: ‘Há maior felicidade em dar do que em receber’ ”.” (Paulo, em Atos‬ ‭20:35‬)

O que é que nos torna, de uma maneira geral, mais sensíveis no Natal? Parece-me que é o espírito de dar, reinante na estação.

Neste período, independente de qual motivo se alegue, o fato é que há uma mobilização coletiva no sentido de sair de si mesmo, de lembrar-se do outro e de como se pode fazer para agradar alguém.

Seja através da doação de um presente, do compartilhar de uma ceia, de uma moedinha na "caixinha de natal", de uma libertação para si mesmo ao oferecer perdão a ofensor, enfim, o fato é que o espírito coletivo se abre para dar.

Isso faz com que surja um brilho no coração, um sorriso no rosto, luzes na cidade e emersão de esperança do fundo de nossa alma, possibilitando que aquilo que ansiamos dê sinais de tornar-se realidade.

Critique-se o comércio, a hipocrisia, a artificialidade, a superficialiade, enfim. Nem isso, entretanto, é capaz de impedir que luzes brilhem não só na fachada dos prédios, nas salas de nossos lares, mas sobretudo em milhares de rostos conhecidos ou anônimos ou mesmo em faces cujas almas vivem a maior parte do ano às escuras, com cheiro de mofo, umidecidas em lágrimas.

Respeite-se mesmo aquelas pessoas para as quais o Natal nada signifique ou signifique coisas diferentes de seu motivo original. Nem elas, mesmo sentindo e reagindo de forma avessa, conseguem passar incólumes neste tempo do nosso calendário.

Dar é o espírito do tempo. "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna". (Jo. 3:16)

Se é assim, e assim eu creio, o Natal é uma lembrança, uma sinalização para o caminho da vida, para o pão da ceia a ser compartilhado, à porta aberta pela qual devemos entrar, a fim de que os dias que estão por vir sejam melhores do que os vividos, para todos.

Receber e compartilhar o presente divino, esse é o sentido do Natal. Daí trocarmos presentes, inclusive imateriais. Esse é o espírito da estação. Isso, parece-me, repito, é o que nos torna a todos, conscientes ou não, aceitando ou não, mais sensíveis. Bendita sensibilidade.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

"Sabedoria" e "Inteligência Emocional"?

Há quem apregoe que "sabedoria" e "inteligência emocional" são característicos daqueles que não se envolvem em conflitos de natureza política, inclusive os de natureza político-religiosa ou político-eclesiástica ou ainda político-denominacional. Esse tipo de "sabedoria" e "inteligência emocional" (ou a falta delas) seriam a causa de, no popular, alguém se dar bem (ou se dar mal) na vida.

Reconhecidas as exceções patológicas, ninguém se envolve em conflito porque gosta, muito menos porque gosta só de si. Se envolve porque enxerga e acredita que há algo nocivo, doentio, na formatação estrutural, política, ideológica, enfim, do grupo ao qual pertence que precisa ser corrigido, curado, elucidado. Se envolve porque persegue o bem não só pra si, mas também para todos.

Se "sabedoria" e "inteligência emocional" fossem ser capaz de nunca se envolver em conflito, que classificação daríamos à pessoa de Jesus? Ou à pessoa de Paulo? Ou será que  ignoramos as narrativas abundantes dos conflitos de Jesus com Fariseus, de Paulo com comerciantes e religiosos? Teria sido por nada que um foi parar na cruz e o outro atrás das grades?

Se por comodidade, medo ou outro até bom motivo alguém valoriza e, por isso, prioriza nunca envolver-se em conflito, essa é uma escolha que deve ser respeitada. Até mesmo escolher ser um covarde vivo a um herói morto seria legítimo. Cada um sabe onde seu sapato aperta e reconhece até onde é capaz de ir.

Daí, entretanto, "sinonimizar" a escolha de nunca envolver-se em conflitos como "sabedoria" ou "inteligência emocional" soa-me muito mais como conversa pra King (o Martin, não o monarca) dormir do que verdade.

Faça um levantamento na história de quem fez diferença no desenvolvimento social da humanidade ou de um segmento dela ou mesmo em um pequeno grupo e descubra o percentual desses que seriam classificados como "sábios" ou "emocionalmente inteligentes", segundo a definição pacifista. Se o percentual não for zero, chegará próximo disso.

A história daqueles que fizeram diferença social na caminhada de um grupo, de uma sociedade, demonstra que, sim, eram "sábios", "emocionalmente inteligentes". Apenas o escalonamento de seus valores tinha sequência diferente, com outra prioridade.

Eles decidiram não viver só pra si, só pra preservar  emprego,  salário,  posição social ou privilégios.  Antes, tiveram um senso de justiça social, sentiram a dor dos enfraquecidos, empobrecidos ou fragilizados pelos sistemas, eram empáticos, compassivos, corajosos e focados.

Eles pensavam no que precisava ser feito e em como fazer pelo bem de todos e agiam, mesmo que isso lhes custasse perda de privilégios, do status quo, da vida. "É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!” (Atos‬ ‭5:29‬), acreditavam.

Todo relacionamento é conflituoso. Cabe, portanto, a cada um, e é desejável e recomendável que assim seja, desenvolver a capacidade de buscar a harmonia através de diálogo, negociação, acordo, visando o maior benefício para todos, pelo menor custo emocional, político, etc, possível.

Mas, se os privilégios inaceitáveis de uns são mantidos a base dos sofrimentos inaceitáveis de outros, nada resta a ser feito senão preparar-se pra cruz ou pra prisão, com muita "sabedoria", "inteligência emocional", mas também altruismo, coragem, competência e muito amor ao próximo.

A alternativa a isso seria, "pilatianamente", "lavar as mãos", mantendo-se com curriculo "limpinho", com aparência de "cidadão de bem", de "bom mocismo" e, com "sabedoria" e "inteligência emocional", passar os dias sentado "no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar".


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O cristão e os empobrecidos

As eleições passaram. Bolsonaro será o presidente.

Sugiro duas coisas:

1. Não aja como alguns petistas agiram quando estiveram no poder: aplaudiram os acertos e silenciaram nos erros.

Se assim agir, será apenas um petista ao avesso, com todos os defeitos do avesso.

Aja como cristão, como sal e luz. Olhe as ações do governo com consciência crítica. Não uma crítica emocional de desabafo, mas racional, mesmo quando indignado.

2. Enquanto houver pessoas muito satisfeitas com a vida econômica que levam, talvez como vc, e houver 1 brasileiro ou mais de 50 milhões, como indicam as pesquisas, sobrevivendo com 400 reais por mês, haverá um seguidor de Jesus, em meio a milhões de cristãos acomodados, clamando por justiça social, mesmo sendo pejorativamente rotulado de socialista, comunista, petista, reacionário, esquerdopata, como tentativa de amedrontá-lo, marginalizá-lo e calar sua voz.

Lembre-se do que disse Jesus: se os crentes se calarem, as pedras clamarão.

Ósculos e amplexos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Economia política

Há muito  tempo, como pastor, professor e exercendo cargos de liderança denominacional batista venho falando que um dos problemas do ministério pastoral está na deficiência de estudos teológicos mais profundos no campo da ética relacionados à política e economia.

Há uma ênfase na ética corporal e familiar em detrimento da política e econômica. Por isso, nós pastores nos sentimos empoderados para tratar desses dois campos - corporal e familiar - e silenciamos em termos de ética política e econômica.

Pior, quando o assunto são os problemas da família, eles são julgados estritamente pela ótica do padrão moral - não necessáriamente ético - corporal, como se política e economia não influenciassem a saúde e estabilidade da família e seus indivíduos. Isso gera profundas distorções nas orientações que brotam dos púlpitos e das salas de aconselhamento pastoral.

Por isso fiquei maravilhado com este texto. 

Recomendo.

(http://www.lupaprotestante.com/blog/economia-politica-para-teologos-y-cristianos-con-interes-1-alfonso-ropero-berzosa/)

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A Bíblia e os empobrecidos


Temos dúvidas quanto ao olhar especial de Deus para os empobrecidos? 

1. Moisés
       1.1. ““Não perverta o direito dos pobres em seus processos.”
‭‭(Êxodo‬ ‭23:6‬)

        1.2. "Sempre haverá pobres na terra. Portanto, EU ORDENO A VOCÊ que abra o coração para o seu irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de sua terra.” (Deuteronômio‬ ‭15:11‬)

2. Davi 
       2.1. "Mas os pobres nunca serão esquecidos, nem se frustrará a esperança dos necessitados.” (Salmos‬ ‭9:18‬)

       2.2. "Reparte generosamente com os pobres; a sua justiça dura para sempre; seu poder será exaltado em honra.” (Salmos‬ ‭112:9‬)

3. Salomão
       3.1. “Acolhe os necessitados e estende as mãos aos pobres.”
‭‭(Provérbios‬ ‭31:20‬)

        3.2. "Ele se compadece dos fracos e dos pobres e os salva da morte.” (Salmos‬ ‭72:13‬)

        3.3. "Quem zomba dos pobres mostra desprezo pelo Criador deles; quem se alegra com a desgraça não ficará sem castigo.” (Provérbios‬ ‭17:5‬)

        3.4. "Quem trata bem os pobres empresta ao Senhor, e ele o recompensará.” (Provérbios‬ ‭19:17‬)

        3.5. "Quem fecha os ouvidos ao clamor dos pobres também clamará e não terá resposta.” (Provérbios‬ ‭21:13‬)

       3.6. "Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”.” (Provérbios‬ ‭31:9‬)

4. Zofar 
       4.1. "Sim, pois ele tem oprimido os pobres e os tem deixado desamparados; apoderou-se de casas que não construiu.” (Jó‬ ‭20:19‬)

5. Jó 
       5.1. "Não é certo que chorei por causa dos que passavam dificuldade? E que a minha alma se entristeceu por causa dos pobres?” (Jó‬ ‭30:25‬)

6. Isaias 
       6.1. "Ai daqueles que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores, para privar os pobres dos seus direitos e da justiça os oprimidos do meu povo, fazendo das viúvas sua presa e roubando dos órfãos!” (Isaías‬ ‭10:1-2‬)

7. Ezequiel 
      7.1. "Seus profetas disfarçam esses feitos enganando o povo com visões falsas e adivinhações mentirosas. Dizem: ‘Assim diz o Soberano, o Senhor ’, quando o Senhor não falou. O povo da terra pratica extorsão e comete roubos; oprime os pobres e os necessitados e maltrata os estrangeiros, negando-lhes justiça.” (Ezequiel‬ ‭22:28-29‬)

8. Igreja de Jerusalém e Paulo 
      8.1. "Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer.” (Gálatas‬ ‭2:10‬)

Isso sem falar em Jesus e uma quantidade imensa de casos do Velho ao Novo Testamento que demonstram o interesse de pessoas tementes a Deus pela causa de empobrecidos.

Leiamos cada um desses textos e seus cotextos, com calma, em espírito de oração, e certamente escamas cairão de nossos olhos e nossa postura mudará diante desse assunto...

xxx

Em tempo:
Desafio 1. Coloque outros textos bíblicos que reforçam os ensinos de Deus para com empobrecidos;
Desafio 2. Coloque pelo menos UM texto bíblico que indica que NÃO devemos dar atenção aos empobrecidos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Comunidades de Diótrefes, inimigas de Barnabés

João era amado, Paulo era temido e diante de ambos havia uma porta. A porta estava fechada. Ambos queriam entrar, ambos desejavam se aproximar, conhecer e servir novas pessoas. Ambos tinham a missão de levar a Palavra. Mas havia um obstáculo: as portas estavam fechadas e eles não podiam entrar.

Portas se fecham para quem ama. Portas se fecham para quem tem histórico assustador. Elas não se fecham sozinhas, nem se fecham por acaso. Não importa o motivo: se estão fechadas, quem precisa, não pode entrar; quem precisa, não pode ouvir. E o reinado de Deus não pode avançar.

xxx

João era o discípulo amado. Como poucos, escreveu sobre o amor, discorreu sobre perdão, sobre ser luz,  verdadeiro, cooperador e hospitaleiro. Queria ter acesso à igreja, mas a porta estava trancada e Diótrefes detinha a chave.

Diótrefes ouviu a respeito de Jesus, envolveu-se com o povo de Jesus, assumiu a liderança de uma comunidade de Jesus, mas ou não conhecia ou não levava a sério ou esqueceu-se dos ensinos de Jesus.

"Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo;” (Mt. 20:26-27‬).  “Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei os seus pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Eu dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz.” (Jo. 13:14-15‬). Assim ensinou Jesus aos seus discípulos. Disso ele deu exemplo. Esse deveria ser o padrão de vida almejado.

Diótrefes, entretanto, queria ser importante e talvez tivesse medo de não ser, por isso usurpava o poder. Usava da difamação para prejudicar uma pessoa amorosa. Dividia a igreja. Fechava a porta para João.

xxx

Paulo encontrou-se com Jesus. Sua vida mudou. Seu novo testemunho causava admiração. Mas continuava sendo temido e com razão. Participou do martírio de Estevão. Perseguiu os seguidores de Jesus. Deteve poder para prender "desviados". As notícias a seu respeito eram assustadoras. Seu currículo, portanto, não animava cristãos a  se aproximarem dele. Era legítimo que quem se reconhecia herege, se sentisse alvo em potencial e, por isso, se protegesse dele. Fechar a porta indicava medo.

Barnabé não conhecia a máxima de Abrahan Lincoln: "não gosto daquele homem. Preciso conhecê-lo melhor". Mas era homem bom, discipulador, de "bom testemunho, cheio do Espírito Santo e sabedoria". Era discípulo de Jesus, por isso aproximou-se de Paulo, conheceu sua história e decidiu ser ponte entre a igreja e ele. Tornou-se a chave que abriu a porta do coração do povo de Deus para acolher Paulo.

xxx

Vivemos tempos de desconfiança nas igrejas. O critério de seleção para aproximação não é mais a pessoa de Jesus e seu ministério de reconciliação, de demolição de muros de separação.  Antes, estamos nos tornando comunidade de porteiros com chaves do poder e medo patológicos.

Estamos nos tornando comunidades de neuróticos nos termos usados por Paul Tillich: "O neurótico é aquele que, tentando evitar o não-ser, evita o ser".  A missão agora é descobrir a tendência teológica, a opção político-ideológica e marginalizar, perseguir, eliminar.

Descartando Jesus, estamos nos tornando comunidades de Diótrefes, inimigas de Barnabés.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Conselhos ímpios de pios

Pior do que "conselho dos impios" são os conselhos ímpios de pios. É que, diante de alguém tido como ímpio, ficamos com os pés atrás, nosso coração se arma, se protege, se põe na defensiva, se cerca de cuidados, pois culturalmente foi introjetado em nós que palavra vinda de lábios incrédulos não merece aceitação. "Como é feliz aquele que não segue o conselho dos impios..." (Salmos 1:1:)

Quando, porém, estamos diante de pios, baixamos a guarda, o coração se abre, a alma se entrega, o senso crítico é desativado e tudo que deles ouvimos penetra nosso corpo, atinge nossa medula, sem nenhuma resistência.

O paradigma mental que norteia nosso juizo continua sendo o da Idade Média. Naquela fase da história, a força de um argumento não era medida pelo argumento, mas por seu autor. Se a pessoa era acadêmica, social ou religiosamente respeitada, sua palavra ficava acima de qualquer suspeita. Bastava a citação do autor e a discussão cessava.

Há conselhos, entretanto, que mesmo vindo de labios pios merecem um sonoro não. Quem não se lembra da reação de Amós diante do conselho do sacerdote Amazias ? (Amós 7:12). Ou da reação de Jesus diante do conselho de Pedro? (Mc 8:31). Ou da reação de Jó diante do conselho da esposa? (Jó 2:9).

Um conselho não é bom porque brotou de pessoa pia, nem mau por ter sido proferido por pessoa ímpia. Nem mesmo é bom por vir embalado em palavras ou textos bíblicos. Nisso Satanás foi experto; mas Jesus, muito mais. (Mt 4:5-7).

Palavras têm significados próprios e contextuais e quem as profere tem boas ou segundas intenções. Portanto, não julgar conselhos pelo autor, nem palavras pela embalagem, é recomendável.

Ore, reflita, pondere, avalie as consequências e decida por si. Sempre se lembrando do conselho de João: “amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” (1 João‬ ‭4:1‬)

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Democracia batista


Meu pai – Pr. Jovino de Oliveira - foi aluno do hoje inexistente Instituto Bíblico Batista do Estado de São Paulo, em Bauru, nas décadas de 60 e 70. Lembro-me de que as aulas eram em maio e setembro. Morávamos em Garça, por isso, nesses meses ele passava de segunda a sexta estudando e voltava nos finais de semana.  Quando voltava, ficávamos em torno do fogão à lenha ou em torno da mesa da sala ouvindo-o contar o que havia aprendido.

Nessas conversas recebi as primeiras aulas de democracia batista. Aprendi, primeiro, que quando as posições sobre determinado assunto não convergem, o norte a ser seguido pela igreja deveria resultar de decisão da Assembléia de Membros, pelo voto da maioria.

Aprendi, também, que antes de um assunto ser colocado em votação, abrir-se-ia oportunidade para discuti-lo. (Confesso que não gosto da expressão “discutir o assunto”. Discussão é uma palavra que pressupõe posicionamentos unilaterais firmados e tentativas de convencimento do outro por via de mão única: um fala, o outro também e nenhum dos dois parece ouvir. Prefiro a palavra diálogo: um fala, o outro ouve; um ouve, o outro fala, e assim caminha-se em busca de convergências).

Claro que é legítimo o processo de mútuo convencimento, mas as partes precisam acreditar que a construção do consenso deveria ser o objetivo desejado. Porém,  construir consensos só é possível quando há predisposição, primeiro, para admitir que não se é dono da verdade; depois, que é essencial colocar-se no lugar do outro para entender os motivos de sua visão e, finalmente, que as partes estão, de fato, ponderando a respeito do que ouvem visando construir um acordo que seja bom para todos.

Se, entretanto, em vez de diálogo, o espírito é de imposição, a democracia dá lugar à ditadura de uma maioria, ainda que rigorosamente conquistada pelo voto, dentro das regras democrático-estatutárias. É que, por falta de diálogo, uma parte sente-se vitoriosa por ter obtido apoio da maioria, mas terá que lidar com a crescente pressão da minoria que não se sentiu pelo menos ouvida e compreendida, além de “derrotada” no voto.

Isso gera conflitos, omissão na cooperação, afastamento até de participantes por insatisfação, não pelo resultado em si, mas pelo processo, além de desviar o foco de atenção da igreja de sua missão, perdendo-se energia, tempo e dinheiro e enfraquecendo o desenvolvimento de sua missão.

A partir daquelas conversas com meu pai, aprendi que democracia não seria simplesmente a prevalência da vontade da maioria, mas também uma busca continua por compreensão dos pensamentos, sentimentos e necessidades das minorias, visando garantir a elas a dignidade essencial para continuar caminhando com o grupo.

Aprendi ainda que, quando se é parte da minoria vencida pelo voto, a vitória da maioria deveria ser reconhecida, a postura de respeito à decisão deveria ser cultivada e o espírito de oposição não deveria falar mais alto do que o de lealdade às regras democráticas do jogo.

Aprendi, finalmente, que a postura crítica não deveria ser sufocada, mas pautada na racionalidade que visa abrir caminhos à continuidade de entendimentos e esclarecimentos e à convivência construtiva, e não na passionalidade que agride, obscurece, afasta e nos desvia da finalidade desejada pela igreja.

Sinto falta do obsoleto fogão à lenha e das benditas conversas sobre democracia batista. Quanta falta eles  - o fogão e as conversas - nos fazem nestes tempos de crescimento das polarizações ideológico-teológico-doutrinárias e de desaparecimento de consensos. Tempos nos quais os resultados imediatos dos nossos empreendimentos religiosos são mais importantes do que a vida dos cooperadores envolvidos. Tempos nos quais temos acesso a modernas técnicas de marketing e a meios de comunicação digitais, mas que são usados apenas como via, repito, de mão única através dos quais queremos e podemos nos fazer ouvir, mas estamos perdendo o interesse e a capacidade de parar para ouvir.