quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Sim, sim; não, não!

“Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.” (Jesus, em Mt. 5.37)

“Antes, como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não foi sim e não.” (Paulo, em II Cor. 1.18)

É horrível conviver com quem diz sim quando gostaria mesmo de dizer não ou diz não quando poderia dizer um alegre e sonoro sim. Não poderia, pelo menos, ter coragem pra dizer: agora não posso dizer sim, nem não, ou: agora não quero dizer sim, nem não? Por que optar por negar os sentimentos, a percepção, a realidade?


Seria uma profunda covardia ou uma profunda necessidade de aprovação? Não percebe que a alegria que produz em que ouve o que gostaria e não o que deveria é falsa? Não sabe que a satisfação gerada por uma resposta falsa vai desembocar, a qualquer momento, numa profunda dor gerada pela frustração?


Melhor seria, então, dizer sim, quando se quer dizer sim e não quando se quer dizer não! Se alguma dor tiver que ser experimentada, que seja na companhia da honestidade, da sinceridade, da lealdade.


Agindo de forma contrária, quando a verdade vier à tona, o sofrimento será dobrado. Ela virá acompanhada da sensação de traição que não somente reinou no momento em que a palavra foi dita, mas também durante todo o tempo que se seguiu a ela.


Dizer sim, quando o que deve ser dito é sim, ou não, quando o que deve ser dito é não, é muito mais simples. Isso exige muito menos conexões, elaborações. E se a situação for tão complicada que os efeitos do sim ou do não ainda não estão claros é muito mais simples dizer: ainda não sei o que dizer!


O risco, ao contrariar o próprio sentimento ou pensamento, é muito maior.


Além disso, a relação corre mais solta, mais leve quando se rege pela coerência. O adepto do sim, sim; não, não, passa a impressão de que está de bem com a vida; de que não vive regido pela crença de que é possível estar bem com todo mundo, em todo o tempo, em todas as situações; de que não vive dependurado na tênue linha da vida que se guia pela política e não pela verdade em amor.


E o riso, então? Já prestou atenção no riso de quem a palavra vai pra um lado e o sentimento ou o pensamento vai pro outro?

Não me entenda mal. Não estou aqui propondo um sim seco, muito menos um não árido. Reconheço que não é fácil colocar um sim ou um não constrangido na companhia de um belo sorriso. Porém, quando a atitude faz parte da filosofia de vida, está internalizada e a consciência está tranqüila, mesmo não sendo o que se gostaria para a ocasião, sempre será menos desagradável do que o produto de uma falsidade.


Então, coloquemos um sim, sim ou um não, não, no coração e tenhamos um 2010 melhor!!!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Nosso reconhecimento não é sua maior recompensa

As razões que levam uma pessoa a se envolver nas atividades de uma igreja são diversas. Paulo identificou isso e escreveu: “Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa vontade; Uns, na verdade, anunciam a Cristo por contenção, não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões. Mas outros, por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho.” (fil. 1.15-17)

Curioso é que isso não acontece somente na igreja. Líderes religiosos do judaísmo demonstravam o mesmo comportamento, fato que levou Jesus a denunciar os motivos de suas obras de caridade, de suas orações e jejuns (Mt. 6:2,5,16) e a declarar de forma objetiva: “eles já receberam sua recompensa”.

O prejuízo de quem faz a obra de Deus em função do que os outros pensam, fugindo de vaias e mendigando aplausos, é simples: sua recompensa vem das pessoas, é passageira.


Aqueles, porém, que concentram o foco de suas ações no imperativo divino de amar e, portanto, fazer por amor a Deus, podem até passar despercebidos diante da multidão ou, pior, serem por ela apedrejados, mas garantem para si a maior recompensa que alguém pode receber: o prazer de saber que o que faz está em sintonia com a vontade divina e é eterno.

Isso não significa que não devamos reconhecer o trabalho alheio. “Daí a césar o que é de César”, disse Jesus (Mc. 12.17). Paulo, na mesma linha, afirma: “Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra.” (Rom. 13.7)

Portanto, se é equívoco fazer a obra de Deus esperando aplauso humano - “Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer.” (Lc. 17.10) -, é também equívoco não deixar de reconhecer o trabalho feito. Daí o ensino paulino: “E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam;” (I Tes. 5.12).

Uma igreja batista não tem dono. Seu governo é democrático. São seus membros que a fazem funcionar. A crença num ser superior e a comunhão vivida com ele é a mola propulsora que move pessoas a se doarem voluntariamente. Os recursos necessários ao funcionamento – conhecimento, dinheiro, disposição, disponibilidade, etc – são dedicados por cada um de acordo com sua realidade de vida. Julgar se o que cada um oferece está além ou aquém da possibilidade ou se suas motivações são adequadas, é tarefa divina. A nós cabe reconhecer e agradecer.

Nesse espírito, registramos aqui nosso reconhecimento e agradecimento aos que trabalharam entre nós em 2009, desejando que, em 2010, continuem “firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.” (I Cor. 15.58)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

É Natal

A árvore caiu 
O presente feriu
A notícia magoou
O blog sumiu


O portão se fechou 
O telefone calou
A cama partiu
O feijão se queimou


A visita chegou
O remédio dopou
O gato fugiu
O silêncio reinou



O sol se esvaiu
O teclado assumiu
A toalha dobrou
O talher engoliu

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

5 anos depois

Parece que foi ontem, mas já se aproxima o final de cinco anos desde que começamos - IBG e eu - nossa caminhada ministerial. Escrevo isso hoje porque quando retornar da viagem de férias e assembléia da CBB, já estaremos iniciando nosso sexto ano.


Chegou aos meus ouvidos, em meados do primeiro ano, o comentário de alguém que dizia que este pastorado não duraria mais do que 4 anos. Eu também pensei, mas erramos. Como diria o sábio: “Do homem são as preparações do coração, mas do SENHOR a resposta da língua.” (Pv. 16.1).

Até mesmo cinco anos, que parece muito, é insuficiente para sabermos se um relacionamento tem futuro, especialmente em se tratando de pastor-igreja batista. Somos centenas de pessoas com personalidades dinâmicas, cada uma com suas idiossincrasias, com motivações, expectativas e propósitos diferentes, girando em torno de um sistema de governo teoricamente democrático. Se é difícil acertar o futuro de qualquer relacionamento, muito mais o de um desta natureza.

O fato é que não estamos diante somente de mais um ano novo civil, mas também ministerial. Se um já vem cheio de expectativas, em dois elas se multiplicam.  Que tipo de expectativa move meu coração?

Vivo determinado a conciliar dois ensinos de Jesus: 1) “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” (Mt. 6.34); 2) “Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, Dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar.” (Lc. 14. 28-31).

Quero as duas coisas: viver cada dia e edificar uma torre. Isso exige empenho no desenvolvimento de uma visão tanto de curto quanto de médio e longo prazo. Exige, também, disposição para renunciar as próprias pretensões em favor dos propósitos de Deus revelados em Jesus. Exige, finalmente, confiança num Deus que nos ama e supre nossas necessidades, para que a ansiedade se mantenha em níveis saudáveis.

Temos sonhos e planos para este novo ano civil e ministerial. Porém, mais importante é nos prepararmos para lidar com o novo, com o inesperado de cada dia; aprender a amar pessoas e gostar de coisas, sem que isso, entretanto, signifique o estabelecimento de relação de dependência subserviente e doentia.

Onde e como estaremos no final de 2010? Não sei, mas me alegra a idéia de caminhar em torno da consciência de missão e visão, confiando na graça divina.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

De mocinho a bandido – O poder do dinheiro

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
(Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86)

“O ministro Arnaldo Esteves Lima, STJ (Superior Tribunal de Justiça) concedeu liminar na sexta-feira em favor do banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. A liminar determina a suspensão do processo contra o Opportunity até o julgamento do processo movido contra o juiz Fausto Martin de Sanctis, da 6ª Vara Criminal Federal.


O banco questiona a isenção do juiz De Sanctis no julgamento do processso. Pela decisão, o juiz fica impedido de tomar qualquer decisão até que o STJ decida se ele é ou não suspeito para ficar à frente do processo --dependendo da decisão, o juiz pode ser afastado do caso.


Enquanto o processo de suspeição não é julgado, o processo da Satiagraha fica parado. Não há prazo para o assunto ser decidido.


A Operação Satiagraha investiga supostos crimes financeiros atribuídos ao banqueiro Daniel Dantas."


sábado, 19 de dezembro de 2009

A teologia do céu na qual creio



“Depois que Cristo me salvou,
em céu o mundo se tornou;
ate no meio do sofrer
é céu a Cristo conhecer.


Pra mim mui longe estava o céu,
mas, quando Cristo me valeu,
feliz senti meu coração
entrar no céu da retidão.


Bem pouco importa eu ir morar
em alto monte, à beira-mar,
em casa ou gruta, boa ou ruim,
com Cristo aí é céu pra mim”


Oh, aleluia! Sim, é céu
fruir perdão que concedeu!
Em terra ou mar, seja onde for,
é céu andar com o Senhor


(Hino 490 do Cantor Cristão - Charles J. Butler & James Milton Black)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O perfume do Boticário e a luz de Cristo



Entro no carro, ligo o rádio e começo a ouvir uma voz infantil a serviço do Boticário, cantando: ”This litte light of mine, I’m going to let it shine”. A música faz com que algum sentimento, nas profundezas da minha alma, tente se libertar, sem sucesso. Presto atenção à letra, usando meu mais que sofrível “globish”, na tentativa de entendê-la. Eis que a luz começa a brilhar e, como num toque de mágica, sou transportado à infância.

O ritmo usado era totalmente outro, mas a letra veio completamente à tona. “Esta é minha pequena luz, vou deixar brilhar. Esta é minha pequena luz, vou deixar brilhar, vou brilhar, vou brilhar, vou brilhar. Escondida no cesto, não. Vou deixar brilhar. Escondida no cesto, não. Vou deixar brilhar, vou brilhar, vou brilhar, vou brilhar. Satanás não apagará, vou deixar brilhar. Satanás não apagará, vou deixar brilhar, vou brilhar, vou brilhar, vou brilhar”.

 Revelada a origem do sentimento, penso na influência da cultura americana. Mesmo lá na longínqua Garça da década de 60, fui, como o restante do planeta, marcado por algo do “american way of life”, seja pela presença de missionários ou pela literatura e músicas utilizadas pelos batistas. 




Enquanto penso no assunto, ouço a notícia do golfista Tiger Woods, o desportista afro-americano mais bem pago do mundo. Devido à polêmica deflagrada por um conflito conjugal ele decide suspender a milionária carreira para tentar salvar o casamento. Não tenho certeza se a motivação dele é para salvar o casamento ou os contratos milionários que começaram a se desfazer em face do escândalo.

Diferentemente da sociedade brasileira que assiste o “fenômeno” na delegacia de polícia, metido numa estranha história de infidelidade que envolve drogas e homossexualismo e nada acontece, ou assiste imagens de líderes políticos e empresários num bacanal de assalto aos cofres públicos e saí de férias, a sociedade americana reage mexendo rapidamente no supremo bem, o deus dos envolvidos: the Money.

O que isso tem a ver com a “let it shine”, de Dorothy Norwood? É simples. Conquanto nossas culturas sejam consideradas igualmente cristãs, o fato de uma ser predominantemente protestante e a outra católica faz diferença.

No protestantismo, por exemplo, a ênfase é no Cristo; no catolicismo, em Maria.

De Maria, em que pese nosso profundo respeito a ela, quase nenhum ensino restou, exceto a orientação dada aos serviçais, no casamento em Caná da Galiléia: “Façam tudo o que ele – Jesus – lhes mandar” (Jo. 2.5).

De Jesus, há informações sobre sua vida e ensinos, além das reflexões dos primeiros discípulos sobre a finalidade de seu nascimento, que servem de base para toda a reflexão teológica e construção da ética que norteia a vida protestante.

Assim, enquanto a influencia de Maria se restringe exclusivamente ao sentimento, ao simbólico, a de Jesus vai além, atingindo sentimento e pensamento. Isso faz diferença no comportamento individual e coletivo.

A ênfase protestante na necessidade de conversão individual em idade de consciência e não na adesão religiosa com base no batismo decidido pelos pais é outro elemento que gera diferença cultural. A exigência protestante estimula mudanças de atitude, reelaboração de sentimentos e pensamentos, inclusive porque há uma perspectiva de prestação de contas a Deus.

A compreensão – e não somente o sentimento - de que somos luz, testemunhas da luz que é Cristo, como tão bem esclarece João no início do seu evangelho e o compromisso de brilhar em seu nome, onde estivermos, fazem com que nossa postura seja diferente diante dos fatos da vida.

Por isso, se neste natal não atendermos ao convite do Boticário para comprarmos seus deliciosos perfumes, nada mudará em nossas vidas. Mas, se entendermos a origem da música utilizada na propaganda e aceitarmos o desafio que ela traz, uma profunda mudança poderá acontecer.


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O que me dirá o Senhor?

“E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.” (Mt. 25.21)

Chegou o último mês do ano e não posso dizer que fui plenamente fiel nos meus compromissos. Pior do que isso, não posso dizer que abençoei vidas através do sustento da causa que abracei.

Semana após semana, durante todo o ano, minha vida foi abençoada. Fui inspirado, desafiado e consolado nos cultos, nas classes da escola bíblica, nas Igrejas no Lar, em encontros com irmãos e amigos nas diversas atividades desenvolvidas. 

Em cada vinda à sede da igreja, sabia dos custos de manutenção do ambiente, da energia elétrica da iluminação, do ar-condicionado e do som de boa qualidade; da água e material de higiene; das pessoas que dedicam tempo exclusivo aos trabalhos da igreja a fim de que as coisas acontecessem. Infelizmente, porém, não posso me alegrar dizendo pra mim mesmo que colaborei!

Não posso dizer que colaborei com o esforço para pagar o aluguel das congregações ou o terreno e construção do templo em Cel João Sá ou sustentar seus obreiros, nem que ajudei a enviar mais missionários para diversos lugares da Bahia, Brasil e dezenas de países do mundo.

Não posso dizer que colaborei com a manutenção das salas de estudo bíblico do Geração e Família Graça, bem como seus equipamentos e materiais didático-pedagógicos, abençoando todas as faixas etárias da igreja com ensinos da palavra de Deus.

Não posso dizer que colaborei com a manutenção dos projetos sociais desenvolvidos através do CECOM com crianças, adolescentes, idosos ou mesmo na manutenção dos espaços usados para atendimento médico ou do balcão de justiça e cidadania.

Não posso dizer que colaborei com a manutenção de espaços, equipamentos, materiais e pessoas que se prepararam musicalmente, semana após semana, para abrilhantar os cultos, inspirando minha vida através de corais, bandas ou solistas.

Não posso dizer que colaborei com a promoção da comunhão dos membros em ocasiões especiais ou com a integração de novas pessoas à vida da igreja.

Não posso dizer que colaborei com a manutenção de pastores que assistiram pessoas em mementos de adversidade, aconselhando-as, visitando-as, levando-lhes palavras de encorajamento, de exortação e que, a cada encontro coletivo, trouxeram palavras bíblicas que me ajudaram a viver sob o senhorio de Cristo.

Sim, o ano está acabando, muitas vidas foram salvas e edificadas, mas, com tristeza, não posso dizer que colaborei. O que me dirá o Senhor? "Tirai-lhe, pois o talento, e dai-o ao (fiel) que tem os dez talentos?" (Mt. 25.28)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A construção da identidade batista

Há quem fale em identidade batista como algo imutável e único. O principal equívoco dos que assim pensam é olhar identidade como somente aquilo que está em nós desde o nascimento, independente das influências externas sobre nós exercidas à partir do momento que fomos trazidos à luz, independente, também, dos processos de reflexão por nós praticados, confrontando, racionalmente, aquilo que está em nós com aquilo que a realidade ao redor impõe.


A idéia de imutabilidade e unicidade é totalmente equivocada. Quem a defende demonstra não compreender o que é identidade, nem como ela se constrói.


Em princípio, identidade é o conjunto de característicos que qualificam nosso ser. Se pensarmos em termos de serem humanos, perceberemos que tais característicos podem ser originários de três fontes: a herança genética, a imposição cultural e a elaboração cognitiva individual.


Todos nós herdamos geneticamente um conjunto de elementos que definem nossa humanidade. São códigos – DNA - que determinam o funcionamento dos nossos corpos, impostos pela natureza ou, numa linguagem religiosa, por Deus, o criador. Podemos estudar seu funcionamento visando construir uma compreensão que nos ajude a interferir naquilo que julgamos ser nocivo ou contrário ao nosso desejo de preservação da vida por um maior período de tempo, com uma qualidade que nos seja satisfatória.


Claro que há um limite à nossa compreensão do seu funcionamento, imposto pela própria condição de sermos criatura e não criadores de nós mesmos. Esse limite pode ser definido como “ponto de mistério”, segundo Richard N. Wolman, docente da Faculdade de medicina de Harvard (Inteligência Espiritual, Ediouro Editora)


O segundo elemento que determina nossa identidade é a imposição cultural. A partir do momento que somos expelidos do útero materno, iniciamos um processo de interação com uma realidade sobre a qual, naquele momento, nosso controle é zero.


Nessa fase, continuamos a depender totalmente de elementos fornecidos pela natureza, para sobrevivermos e também e principalmente de semelhantes – nossos pais, por exemplo - cujos corpos já estão mais amadurecidos e estão em estágio avançado de relacionamento com a tal realidade.


Assim, a forma como a interação do nosso corpo se estabelece com a realidade, depende não somente dos cuidados dos genitores, mas também das informações que receberemos deles, que serão registradas em nossos cérebros e vão servindo como referencial para a maneira como lidaremos com o mundo ao redor, visando manter quantidade e qualidade de tempo de vida.


Herdamos linguagens utilizadas por aqueles que cuidam de nós no período em que nossa autonomia é próxima de zero, principalmente o código lingüístico convencionado entre os participantes do grupo ao qual pertencemos - no nosso caso, a língua portuguesa.


Através desse código, identificamos e nos identificamos com a nova realidade, agimos sobre ela, reagimos a ela, interagimos, enfim, com ela.


Paralelamente ao nosso amadurecimento biológico, ampliamos e aprofundamos nossa relação com o mundo extra-uterino, usando a linguagem que vamos herdando daqueles que há mais tempo convivem com a nova realidade. Não apenas aprendemos nomes dados pelos antecessores à realidade na qual vamos sendo lançados, mas também herdamos os significados por eles desenvolvidos, de cada elemento da tal realidade. A isso chamamos herança cultural.


Compreendidos os dois primeiros elementos que determinam nossa identidade – herança genética e herança cultural – trataremos do terceiro elemento que é a elaboração cognitiva individual.


A elaboração cognitiva individual é o confronto que acontece em nosso cérebro entre a herança genética imposta pela natureza ou, numa linguagem religiosa, por Deus e a herança cultural imposta pela sociedade onde nossos corpos foram lançados e se desenvolvem.


Através da elaboração cognitiva, desenvolvemos o poder não somente de afirmar ou negar as heranças recebidas, mas, sobretudo, de administrá-las de tal maneira que elas nos sejam favoráveis, individual e coletivamente.


A capacidade de elaboração cognitiva é fruto da interação entre amadurecimento biológico e aprofundamento cultural. Ao tempo em que o amadurecimento biológico segue um curso natural, a realidade - incluída aqui a herança cultural - pode beneficiá-lo ou prejudicá-lo.


Usando a capacidade que temos de pensar, podemos compreender tanto a herança biológica quanto a cultural, interferindo nelas com o objetivo de melhorar nossa qualidade de vida.


Uma analogia com a identidade batista


Façamos, então, uma analogia, para entendermos a questão da identidade batista.


Podemos afirmar, com as devidas limitações analógicas, que temos uma herança genética. Qual seria a nossa herança genética batista? Nossa herança genética seriam os dados institucionais – teologia, eclesiologia, ética, enfim - elaborados pelos primeiros batistas.


(Claro que, pensando em termos cristãos, diríamos que nossa “herança genética” seria a Bíblia, ainda que isso nos remetesse a ter que escolher um dos canons existentes. Diante do conflito entre dados institucionais dos primeiros batistas e Bíblia, apontamos duas questões: 1) as crenças dos primeiros batistas poderiam ser comparadas a uma espécie de mutação genética. Eles seriam uma adaptação resultante do conflito entre a cultura político-religiosa estabelecida na Inglaterra do séx. XVII – anglicanismo – e a percepção que tiveram de partes das Escrituras que, aos olhos deles, precisavam ser resgatadas; 2) os primeiros batistas já nasceram divididos. Uns, por exemplo, sustentavam suas pregações na crença da predestinação, outros na do livre-arbítrio. Isso sem falar em diferenças menores que não ganharam importância histórica. Portanto, não podemos falar num único modo de ser batista).


Digamos, entretanto, para fins de analogia, que os documentos existentes desde o século XVII representam nossa herança genética. Pois bem, se tais documentos seriam nossa herança genética, nosso DNA batista, na construção histórica de nossa identidade, um segundo ingrediente teria que ser admitido: a herança cultural.


A herança cultural seria a realidade sócio-econômico-político—moral-religiosa encontrada pelos batistas em cada lugar para onde a vida os expeliu. Partindo da Inglaterra (ou Holanda se quisermos pensar em termos da primeira igreja local de que se tem documento), batistas ganharam o mundo e se defrontaram com “N” realidades diferentes e, na interação com elas, influenciaram e se deixaram influenciar.


Por fazerem uso da linguagem do lugar onde se inseriam e por interagir com a realidade vivenciando seus modelos econômicos, políticos, sociais, morais, enfim, estabelecidos, é óbvio que não seria possível a manutenção de um modo puro de ser batista que, na verdade, nunca existiu. A crença em purismo, de qualquer natureza, é uma aberração, uma manifestação de deficiência ou enfermidade intelectual.


Nesse processo de interação com as múltiplas realidades, seis ou sete princípios (não confundir com Declarações doutrinárias) se mantiveram – segundo Justo C. Anderson, (História de los bautistas, Casa Bautista de Publicaciones) – que poderiam ser chamados de DNA, de herança genética e “N” elementos, provenientes das realidades onde foram se estabelecendo, foram incorporados.


Entra, então, o terceiro elemento que é a elaboração cognitiva individual. Não somente em termos individuais, mas também em termos de igrejas locais, os batistas são (pelo menos pretendem ser) seres pensantes, portanto capazes de reconhecer sua herança genética e cultural e, daí, serem competentes, autônomos, para fazer reelaborações visando melhorar a qualidade da relação com Deus, com os semelhantes e o meio ambiente onde se desenvolvem.


Assim sendo, podemos afirmar que identidade batista é o conjunto de heranças genéticas (documentais), culturais (interação) e cognitivas (capacidade de elaboração do pensamento).


Ora, se é verdade que estes três componentes não acontecem sequencialmente, isto é, não se desenvolvem historicamente de maneira linear, e se cada batista ou igreja local batista não têm o mesmo rítmo de construção da identidade, falar em identidade batista como sendo uma só e uniforme é uma grande bobagem, uma profunda ignorância ou até mesmo má-fé política.


O que podemos fazer é reconhecer que há uma base mínima de elementos que nos caracterizam como igreja (mas não nos torna iguais, da mesma forma que há uma base mínima de elementos biológicos que nos caracterizam como seres humanos, mas não somos iguais); reconhecer que há diferenças culturais em cada lugar onde surge uma igreja batista e que cada batista ou grupo de batistas deve amadurecer sua capacidade de administrar a interação entre a “herança genética” – documental, os princípios – e a herança cultural, visando viver de maneira saudável.


Se quisermos uma denominação com identidade forte, devemos investir na educação, especialmente a teológica, a fim de que sejamos capazes de gerenciar os elementos que determinam nossa identidade denominacional e sejamos saudáveis, respeitando as diferenças individuais.


Será que compliquei demais?

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Club de Regatas do Flamengo e a Ordem dos Pastores Batistas do Brasil

Não me atreverei a escrever o que o CRF e a OPBB têm em comum. Pode até não parecer, mas não perdi o senso de preservação. Pelo contrário, ainda dou ouvidos ao meu sentido de sobrevivência, o que não quer dizer que seja guiado pelo “mais vale um covarde vivo do que um herói morto”. Então, falarei sobre um aspecto em que ambos – CRF e OPBB – têm em “in –comum”: a mulher.


A presidência do Flamengo, o club de futebol com a maior torcida do mundo – reconheço constrangido – agora é presidido – reconheço com alegria - por uma mulher. Patrícia Amorim é a primeira mulher eleita para o cargo em 114 anos de história.




 "Ser a primeira mulher presidente do Clube de Regatas do Flamengo, maior clube do mundo, é maior do que qualquer sonho que eu pudesse sonhar. E eu sonhei, E eu cheguei", disse a ex-nadadora. Ela deve assumir o cargo no início de janeiro para um mandato de três anos (2010/11/12).”

Sim, senhoras, o futebol, um dos redutos mais machistas do mundo já se abriu para ver a mulher com outros olhos. De símbolo sexual embelezando os estádios, elas, que começaram a conquistar espaços políticos inicialmente como bandeirinhas, agora chegam à presidência do club campeão brasileiro de 2009 (penta, segundo a CBF, pois em 87 foi campeão do Club dos Treze e não do brasileiro).


Isso significa que, doravante, nos acostumaremos com a presença de uma mulher influenciando a cúpula do esporte mais popular e machista do mundo, no mais importante país de futebol do planeta.


E a OPBB com isso? A Ordem, à luz desse acontecimento histórico no futebol, continua, neste aspecto, na idade da pedra. Nela, mulher não pode sequer ser sócia, ainda que já haja pelo menos 100 pastoras batistas em igrejas da Convenção Batista Brasileira, diversas seções estaduais já admitiram pastoras e até presidência de convenção estadual e nacional já tenha sido ocupada por elas.


A decisão pela rejeição da presença feminina na OPBB foi resultado de uma votação bastante apertada e, por isso, o assunto continua burbulhando. Em face disso, os principais dirigentes transitórios dos batistas – por convicção pessoal ou conveniência política - andam com uma mangueira de água fria evitando o incêndio que não para de arder mineiramente pelas beiradas.


Por que o Flamengo tem uma mulher na presidência, a exemplo de grandes nações ou empresas multinacionais, e a Ordem dos Pastores Batistas sequer as aceita como sócias? A resposta dos que venceram politicamente pelo voto é: a Bíblia diz. Digo, entretanto, com o maior respeito e carinho, sem querer entrar em discussões político-teológicas e já entrando: a Bíblia não diz, são os olhos que lêem.


Nunca imaginei, como torcedor do glorioso Santos Futebol Club, que um dia diria com tanta alegria: “parabéns Flamengo!”. Por isso alimento a esperança de um dia também dizer, em relação ao modo de relacionar-se com as mulheres: “Parabéns Ordem dos Pastores Batistas do Brasil”.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Prefiro ir pro inferno

Era pouco mais de 7 da manhã. Voltando da caminhada matutina, passei no supermercado comprar pão. A fila do "caixa rápido" já estava imensa. Culpa do Lula, dos insaciáveis donos do Walmart e da nossa "cordialidade" brasileira.


Suado, de calção, camiseta e tênis, ninguém imaginaria que ali estava um pastor. Pastor combina com paletó, gravata e barriga com circunferência perigosamente superior a 94 cm.

Além disso, entre a prática esportiva e o ministério pastoral existe o entrave das palavras de Paulo, levadas rigorosamente ao pé da letra pela categoria do cajado: "Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir." (I tim. 4.8). E haja stress e problemas cardiovasculares.

Enquanto a fila seguia a passos de tartaruga por falta de funcionários nos caixas e empacotadores, uma jovem senhora vira-se para trás e começa a falar com o desconhecido, como se estivesse pensando em voz alta, manifestando preocupação:

- "To com a impressão de que deixei o fogo aceso. Nessas alturas a panela já deve estar pegando fogo!".


Todos ao redor dirigiram seus olhares para ela com certa curiosidade, eu inclusive. O rapaz mais próximo, mesmo com cara de pouca conversa, com a cama ainda nas costas, perguntou:

- "Não tem ninguém lá pra desligar?"

- "Tem não. Sai de casa e não tinha mais ninguém!", respondeu ela, agora na condição de centro das atenções.

Penso que, como eu, todos imaginaram imediatamente a cena da panela no fogão e os riscos e, de certa forma, assimilaram a preocupação dela. O rapaz, educadamente sugere:

- "Então, telefona pro vizinho".

Ela, agora com uma imensa platéia de curiosos, responde em alto e bom som, num misto de deboche e ironia:

- "Meu vizinho? Huummm! Aquele povo acorda na igreja, passa o dia na igreja, dorme na igreja. E só vive dizendo que vai pro céu! Se eles forem pro céu, eu quero ir pro inferno. Quero estar bem longe daquela gente!"


A fila andou, a senhora seguiu seu rumo e eu fiquei matutanto em nossa teologia e testemunho evangélicos.

Fidelidade movida à alegria

“O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo”

São múltiplas as razões que nos levam a nos aproximarmos de Deus.

Uns o fazem em busca de proteção, outros, na expectativa de favores, especialmente no campo financeiro. Há os que transformam a relação em meio auxiliar para conquistar ou manter a afetividade de alguém; outros visam tão somente se igualar à maioria.

Há os que cumprem rigorosamente seus “deveres” religiosos por medo de conseqüências infernais que lhes podem advir e há, também, os que seguem a multidão, como se fossem fiéis, mas o fazem com segundas intenções ou nem mesmo têm consciência de suas reais motivações. 

Há pessoas tão superficiais que nem sabem diferenciar se o relacionamento é com Deus, com a religião ou com um conjunto de costumes introjetados culturalmente em seus corações.

Não existe, entretanto, experiência mais profunda e significativa do que ser fiel a Deus motivado pela alegria.


Alegria não é o riso provocado por uma experiência surpreendente, como no final de uma piada, nem uma emoção resultante de catarse vivenciada coletivamente no decorrer do envolvimento com músicas tecnicamente bem executadas. Ela resulta do encontro com o bem supremo em torno do qual toda a existência ganha sentido e faz com que a luta pela conservação da vida se encha de significado.

A alegria não é eliminada pela experiência do sofrimento. Antes, faz com que os que a possuem encontrem forças para continuarem desejando viver a despeito da dor.

Portanto, não é possível falar em experiência com o Reino de Deus sem incluir o elemento alegria. A alegria é o combustível que move a fidelidade daqueles que experimentam um encontro com o doador da vida.

É a alegria da comunhão com Deus que faz com que a maneira como usamos tempo, inteligência, palavras, sentimentos, ações ou recursos econômicos, tenha como referencial, como elemento balizador, os valores do Reino.

Não por acaso, quando Paulo nos estimula a sermos generosos em nossas ofertas, ele diz: “Cada um de conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria. E Deus é poderoso para fazer que lhes seja acrescentada toda graça, para que em todas as coisas, em todo o tempo, tendo tudo o que é necessário, vocês transbordem em toda boa obra” (II Cor. 9.7-8)

Estamos chegando ao final de mais um ano. Houve alguma área na qual fomos infiéis? A alegria foi o motivo de nossa fidelidade a Deus?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Corrupção sob as bênçãos de Deus


O final da história já sabemos tanto quanto o início e seu desenrolar. Se o poder judiciário aceitar a acusação, não haverá punições, afinal, o crime envolve dinheiro e poder, melhor dizendo, muito dinheiro e muito poder. Portanto, nem nos alegremos, nem nos irritemos, simplesmente nos conformemos, afinal, nós não somos um povo politicamente sério e, portanto, temos os representantes políticos que merecemos.



Estou falando do escândalo do panetone, versão do Democratas, do que teria sido o mensalão criado pelo PSDB, em Minas Gerais e aperfeiçoado pelo PT e sua base aliada (ou “cumplicidada” ?) no governo federal.


Curiosamente, meses atrás a Revista Veja publicou uma entrevista em suas páginas amarelas com o governador do Distrito Federal. Deixando de lado seu envolvimento passado, ao lado de ACM, no escândalo da violação do painel eletrônico do senado, Arruda foi premiado com elogios. Em seguida, a Revista Carta Capital denunciou que Veja teria sido beneficiada com contratos fabulosos com o governo do DF.



Claro, não cremos em nada disso. Tudo, dizemos nós do lado de cá, não passa de perseguição política. Aqueles que elegemos são pessoas boas. Não existiu escândalo do painel; não há troca de interesses entre a mídia e o poder público; a Polícia Federal age como num estado “policialesco”, a serviço de governo autoritário; mensalão, como disse o presidente, foi uma tentativa de golpe e, agora, segundo ele, "imagem não fala por si".



De fato, imagem não fala por si. As aparências enganam. Trancar a porta para “embolsar” dinheiro ou enfiar reais nas meias – já batizadas como cuecas dos sapatos – são apenas medidas de segurança num país cheio de ladrões perigosíssimos que vivem nas ruas e não em gabinetes.



A maior prova de que estamos enganados é que parte dos envolvidos são, como Bush na Casa Branca, homens de oração. Homens de oração merecem todo o nosso respeito e, também, o nosso voto. 

Votemos, irmãos, em homens de oração. Não nos preocupemos com sua história, seus deslizes,  seu passado. Irmão vota em irmão!

Ou não?





Deputado Rubens César Brunelli (PSC) orando com o secretário Durval Barbosa e com o presidente da Câmara Legislativa do DF  

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Eu só peço a Deus, de Mahatma Gandhi



Poema de Mahatma Gandhi
Intrepretação: Beth Carvalho e Mercedez Sosa


Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o q’eu queria


Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o que eu queria


Eu só peço a Deus
Que a injustiça não me seja indiferente
Pois não posso dar a outra face
Se já fui machucada brutalmente


Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Toda fome e inocência dessa gente


Eu só peço a Deus
Que a mentira não me seja indiferente
Se um só traidor tem mais poder que um povo
Que este povo não esqueça facilmente


Eu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente
Sem ter que fugir desenganando
Pra viver uma cultura diferente




Interpretação: Mercedez Sosa

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O evangelho da conversão individual


A igreja foi criada em função do indivíduo e não o indivíduo em função da igreja. Qualquer pessoa que já leu os ensinos de Jesus conhece esse princípio. Nosso problema em relação a ele não é o conhecimento, mas a prática política.


Como a igreja é um conjunto de indivíduos, a ação organizada, articulada, de um grupo menos atento à ética, aos direitos individuais, acaba não somente se sobrepondo às reais necessidades da maioria, mas também, muita vez, negando a ela o que lhe pertence por direito humanitário.


(O raciocínio é o mesmo para qualquer outro sistema ou instituição).



Entretanto, aqui e ali surgem indivíduos “problemáticos”, “in-conformados” que, tendo conseguido perceber o equívoco da ordem estabelecida, pensam sobre o sistema, compreendem que as coisas não são e nem deveriam ser como estão e resolvem não somente gritar que “o rei está nu”, mas também mobilizar outros no sentido de alterar a realidade.



Geralmente o discurso dos “rebeldes” encontra eco rapidamente simplesmente porque ele se torna a voz que faltava à maioria sufocada. Porém, a resistência a ele também aumenta proporcionalmente à profundidade dos problemas denunciados. É que, ao denunciar os problemas, a situação dos que mantém algum tipo de dependência do sistema se desestabiliza tornando inevitável uma reação.


A beleza de o evangelho ser primeiramente para o indivíduo é que é a partir do indivíduo que as coisas acontecem. Mesmo reconhecendo que “uma andorinha só não faz verão”, é inegável que, se pudéssemos identificar o ponto zero do início da história de cada movimento social por mudanças, ali encontraríamos um indivíduo que reagiu corajosamente ao desenvolver uma percepção diferente da dominante.


Não defendo um evangelho individualista, mas não posso deixar de reconhecer a importância do papel individual na construção de caminhada coletiva.


Tal compreensão faz com que, a despeito do valor que atribuo à caminhada solidária, ao papel coletivo nas questões sociais, me mantenha, também, comprometido com a proclamação do evangelho a cada indivíduo. Continuo crente que o evangelho é poder de Deus gerando salvação a partir de corações genuinamente convertidos ao seu amor.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Evangélicos que fazem diferença fazendo diferente

Igreja Batista de Bultrins
Olinda - PE


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Línguas afiadas, ouvidos de bonecos

“Na época áurea de Hollywood, duas mulheres disputavam ferrenhamente o posto de fofoqueira mais poderosa da América: Louella Parsons (1881-1972) e Hedda Hopper (1885-1966) (J.G.Couto, Carta Capital, 4.11.09 )

Famílias se dividem, igrejas perdem o brilho, partidos se repartem, pessoas ficam desempregadas, desesperadas e estigmatizadas, relacionamentos são prejudicados simplesmente pelo poder destruidor da palavra.

Não se trata, portanto, de tema de segunda categoria. É assunto que merece atenção.


Pessoas de língua afiada brotam como erva daninha em qualquer ajuntamento humano. Frustradas, com complexo de inferioridade, não imaginam que podem superar, através de caminhos saudáveis, os traumas impostos pela vida. Humilhar, acreditam, seria o antídoto para o sentimento de humilhação que carregam. Destruir a imagem alheia abafa a dor de seus abalos.


Não nos enganemos. As mais poderosas línguas afiadas não se caracterizam por falar muito. Pelo contrário, falam pouco, sem serem notadas. Não falam abertamente em grande grupo. Preferem a “boca miúda”, o “pé de ouvido”. Escolhem cuidadosamente a quem falar. Sabem como espalhar um boato, uma difamação, correndo o mínimo possível de risco de serem descobertas.

Como ventríloquos, seus maiores aliados são os ouvidos de bonecos.


Quem dá ouvido a fofocas, revigora o linguarudo. Repassando informação sem certificar-se, sem ouvir o outro lado, reage exatamente do jeito que o produtor de fofocas espera. Por isso, a postura de quem dá ouvidos é tão danosa quanto a de quem tem língua afiada. Quem tem ouvidos de boneco pode ser classificado de fofoqueiro passivo.

É claro que há situações em que não há como fugir. Por uma questão de educação aguardamos o fim da “conversa”. Na esperança de não perder o relacionamento, evitamos confrontar a peçonhenta pessoa e nos retiramos.


Se, entretanto, quisermos ajudar tais pessoas, o melhor caminho é levá-las a perceberem as causas de tal postura, os sentimentos que as levam a serem intrigantes. Caso não nos sintamos preparados para isso, o melhor é não levarmos a sério o que elas dizem e, em último caso, nos afastarmos delas.


Nas igrejas, línguas afiadas e ouvidos de bonecos encontram no ativismo religioso, no conhecimento bíblico, na aparência de espiritualidade, ótimos esconderijos. Portanto, se nosso interesse é cooperar com a construção e manutenção da comunhão, prestemos atenção para não bebermos "água doce" de fonte salgada.



As palavras
Sérgio Pimenta

As palavras não dizem tudo

Mesmo que o tudo seja facíl de dizer
Com certeza fala bem melhor o mudo
Se sua atitude manifesta o que crê.

Compromisso submisso omisso
Ou faz o que fala ou se cala de uma vez
Que não venha sobre si justo juizo
Pois terrivel coisa é cair nas mãos do rei

Mesma lingua que abençoa amaldiçoa
Mesma lingua canta um hino e traz divisão
não pode da mesma fonte o doce e amargo
se Cristo habita de fato no coração

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Incentivo e alerta


O incentivo:


"Os Beatles foram recusados pela Decca Records. Fred Astaire, numa seleção de elenco no começo da carreira teve a seguinte crítica: "Baixo, sem carisma, sabe dançar um pouco." Max Lucado, que já vendeu 65 milhões de livros, foi recusado por 15 editoras. O livro Fernão Capelo Gaivota foi recusado por 13 editoras. O projeto Walt Disney World foi recusado por 67 bancos (os gerentes diziam que a idéia de cobrar um único ingresso na entrada do parque não daria lucro)."

O alerta:


"É óbvio que mestrado e doutorado são títulos meritórios. Contudo, como aluno e como coordenador de universidades e cursos, informo que alguns dos melhores professores que conheci não tinham títulos, pois dedicavam todo o seu tempo à sala de aula, ao front. Tive professores maravilhosos e ruins, tanto com quanto sem títulos. Tenho mestrado e optei por gastar o tempo que teria para o doutorado me preparando para correr uma maratona. Apenas uma escolha. Admiro, portanto, meus colegas com doutorado e mestrado, mas não ouso dizer que por si mesmo o título garanta competência. Aliás, Steve Jobs e Bill Gates podem dar boas dicas sobre o assunto"

(William  Douglas, Juiz Federal, professor universitário, palestrante e autor de mais de 30 obras, dentre elas o best-seller Como passar em provas e concursos. Fonte Jornal A Tarde, 27.10.2009)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A seriedade que não quero ter

Não quero ter a seriedade dos que se escondem dentro de um paletó, escudados por uma gravata, ainda que nada tenha contra tal indumentária ou contra os que, como eu, não têm problemas com usá-la;


 Não quero ter a seriedade dos que impostam a voz para anunciar seus títulos, suas viagens ou seus relacionamentos com gente “poderosa”;


Não quero ter a seriedade dos que rebuscam o vocabulário à moda dos antigos coronéis, candidatos a cargos públicos, visando criar uma imagem que esconde realidades danosas em seu ser;


Não quero ter a seriedade dos que se manifestam pouco não por acreditarem que não têm o que dizer, ou por acharem que precisam ouvir para refletir, mas por estarem convencidos de que expondo-se menos conquistam mais reconhecimento e poder;


 Não quero ter a seriedade dos que acreditam que rir em público, da vida, dos próprios erros, das derrapadas que damos nos desqualificam para assumir responsabilidades, cumprir deveres ou executar atribuições que beneficiam a coletividade.

Não quero ter a seriedade deste tipo porque minha parca experiência mostra que não poucos, daqueles que assim agem, na verdade têm segundas, e nem sempre as melhores, intenções; que são uma coisa na vida pública e outra, oposta, na privada.

Conheço de perto alguns a quem se entregaria a chave do cofre do Banco Central, pela imagem pública que apresentam, mas a quem eu não daria a chave de sanitários de alguns postos de gasolina de regiões paupérrimas do nosso país.


Não estou falando de pessoas que, como todos, cometem erros em sua trajetória de vida. Falo de cínicos, de covardes, de mentirosos. Falo de gente que erra por que erra; que erra quando não assume que erra; que erra quando usa a imagem de que não erra para levar outros a errarem enganados por sua aparência.


Já vivi dois terços de minha vida, segundo os indicadores do IBGE. Já tive tempo suficiente para quebrar meus ídolos e destruir meus mitos. Esse tempo foi suficiente para conhecer de perto a anormalidade daqueles a quem admirava pela imagem que deles construí.


Alguns desses continuam sendo por mim admirados justamente porque, com o conhecimento de suas limitações, conheci também a sinceridade e a humildade; outros, porém, descobri que juntamente com as imperfeições havia empáfia, personalismo e até mesmo a falsa humildade e espiritualidade que se esconde atrás da fachada da fala mansa, pausada e recheada de citações “bíblicas”.


Quero ser sério sem deixar de rir, sem deixar de ouvir piadas, sem deixar de brincar com gente que tem coragem pra se assumir como gente.

Quero pode brincar sem perder a seriedade, a transparência e a sinceridade como referenciais de conduta, sabendo que há situações que exigem administração do tempo e circunstância, para que a verdade seja anunciada como manifestação de amor, de cuidado, não de ódio, amargura ou deabafo.


Quero, por isso, ter a seriedade de Jesus que se sentava com pescadores pecadores, com eles comia peixe frito, dividia o pão, tomava vinho, ouvia e contava histórias, mas que, na hora de dizer o que precisava ser dito e fazer o que precisava ser feito, agia movido por valores espirituais e não por más conveniências políticas ou interesses mesquinhos.

sábado, 17 de outubro de 2009

O poder lá e aqui

Do blog de Fernando Rodrigues:
(via blog do Noblat)

Duas imagens recentes mostram como o Brasil e os Estados Unidos reverenciam o poder de formas diferentes. Ou como o poder gosta de se apresentar para a população.


A primeira, dos EUA, foi publicada pelos jornais no último domingo (11.out.2009). Mostra o presidente norte-americano, Barack Obama, reunido com sua equipe. É de autoria de Pete Souza, fotografo da Casa Branca.



A outra imagem é de ontem (16.out.2009), no sertão de Pernambuco. Mostra um tapete vermelho sendo estendido para a chegada do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. De autoria do excelente Evelson de Freitas.


Qual é a diferença entre essas duas imagens?



Na reunião do presidente dos EUA, várias pessoas (Barack Obama, inclusive) usam canetas esferográficas ordinárias, dessas descartáveis. À mesa, garrafinhas de plástico com água.

Algumas pessoas têm à sua frente aqueles indefectíveis copos de papelão tampados (possivelmente com o horroroso café que se toma por lá).



Há assessores com latinhas de refrigerantes, sem copo. Em resumo, nada daqueles garçons com paletós brancos (em geral, com as bordas encardidas) servindo cafezinho e água em louça personalizada como ocorre em toda a Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Na segunda foto, a imagem é autoexplicativa. A cena estapafúrdia parece ter saído de um livro de realismo fantástico escrito por Gabriel García Márquez. Um tapete vermelho para o presidente naquele ambiente chega a ser ofensivo ao próprio Lula.

Em resumo, a forma como o poder é tratado e se apresenta é um traço marcante do caráter e do estado de espírito de um país.