domingo, 31 de janeiro de 2010

90ª Assembléia da Convenção Batista Brasileira

Para quem ainda não sabe, a Igreja Batista da Graça, SSA, faz parte do rol cooperativo da Convenção Batista Brasileira. Isso significa que nos unimos em comunhão a outras igrejas batistas para fins de cooperação em todas as áreas ministeriais das igrejas.

Anualmente tais igrejas se reúnem, representadas por parcela de seus membros, a fim de examinar e aprovar os relatórios das organizações da Convenção, serem inspiradas e desafiadas a aprofundarem a fidelidade espiritual e experimentarem a comunhão cristã.

A última assembléia aconteceu em Cuiabá com mais de 1000 mensageiros e transcorreu num clima de harmonia. As reuniões noturnas e parte das sessões matutinas foram inspirativas, com diversas mensagens desafiadoras e expressões de adoração através da música.

Em relação aos relatórios das organizações, por definição regimental foram examinados através de câmaras setoriais. As câmaras de educação ministerial, educação religiosa, missionária e ação social, aconteceram no sábado, 23, à tarde.

De uma maneira geral destaco a ascensão da Junta de Missões Nacionais. Quanto as demais, percebo a JMM caminhando, a Jumoc dando sinais de vida, outras se movimentando sem clareza de objetivos e os seminários do Sul e do Norte em situação de crise administrativo-financeira.

Particularmente me senti muito feliz vendo funcionar, pela primeira vez, a Câmara de Ação Social, inclusive com relatório do departamento de Ação Social do Conselho que agora conta com um diretor de tempo integral. Isso fez reascender a esperança de maior estímulo às igrejas no cumprimento do seu papel social.

Fui a Cuiabá com dois assuntos em mente: a filosofia e formato dos relatórios e a constituição do Conselho Editorial d’O jornal Batista. Entretanto, um novo assunto surgiu ao chegar lá, relacionado às pastoras batistas o que me fez deixar o assunto OJB para outra ocasião.

Em relação aos relatórios, foi aprovada a criação de um GT da Transparência Batista para estudar filosofia e formato de relatório que os torne mais tecnicamente transparente. Farei parte deste GT juntamente com outros quatro líderes, representando cada uma das cinco regiões geo-políticas do país.

Quanto às pastoras, creio que se fez justiça àquelas que já haviam sido aceitas pelas ordens estaduais, antes de 2007, quando ficou definido que pastoras não seriam aceitas. 

 
A próxima assembléia acontecerá em Niterói, em janeiro de 2011.

Grupo de Trabalho - GT da Transparência Batista


Compartilho com os batistas e com todos os cidadãos brasileiros interessados na questão da transparência em nossas instituições públicas, o documento que gerou a criação de um GT que estudará a filosofia e formato dos relatórios das organizações executivas e auxiliares da Convenção Batista Brasileira, visando torná-los ainda mais tecnicamente transparente.

Agradeço aos líderes de diversas regiões do país que, acreditando na proposta, subscreveram o documento, possibilitando que fosse examinado pela Comissão de Assuntos Especiais e aprovado pela 90 Assembléia Anual da CBB, reunida em Cuiaba.
Eis a composição do GT:

Valseni José Pereira Braga (MG) - relator



Wagner Afrâniou Goulart (DF)


Edvar Gimenes Oliveira (BA)


Vanias Mendonça (AM)


Lourenço Stelio Rega (SP)

Tecerei novos comentários ao assunto posteriormente.
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À Comissão de Assuntos Especiais da 90 Assembléia da CBB


Assunto: GT da transparência batista


Os convencionais signatários deste documento, vêm, na forma do Estatuto e Regimento da CBB, submeter a esta magna assembléia, as seguintes considerações e proposições:


Considerando que, para que se tenha conhecimento da realidade das organizações executivas e auxiliares da CBB através dos relatórios, esses precisam ser tecnicamente transparentes;


Considerando a impossibilidade dos mensageiros das igrejas cooperadoras da CBB  de apresentarem recomendações eficientes e eficazes às organizações (ou mesmo contribuir para um planejamento organizacional – estratégico, tático e operacional) se não houver dados comparativos referentes a determinado período;


Considerando a impossibilidade dos mensageiros das igrejas cooperadoras da CBB, de tomarem decisões sólidas sem informações objetivas e transparentes;


Considerando que as exigências contidas no Art. 54 do Regimento Interno, não são claras quanto às informações que precisam ser dadas, para que a Assembléia tenha condições efetivas de conhecer a realidade das organizações;


Considerando que o formato dos atuais relatórios privilegia mais relatos de atividades do que de dados, em alguns casos até sem relação objetiva e clara com a missão e visão estratégica das organizações e da própria CBB;


Considerando a ausência, nos relatórios apresentados à CBB, de dados comparativos com anos anteriores para que se possa avaliar o desenvolvimento das organizações;


Considerando as experiências negativas na área econômico-financeira, nos últimos anos (Juerp, Jumoc, Juratel, OJB, JMN, STBSB e STBNB), sem que os mensageiros das Assembléias dispusessem de informações objetivas para que, a tempo, pudessem recomendar medidas necessárias;


Propomos:


1.       Que a diretoria da CBB nomeie, nesta assembléia, um GT da transparência batista, composto de 5 membros sem vínculos empregatícios com instituições da Convenção, para reavaliar filosofia e forma dos atuais relatórios e propor, na próxima assembléia, um novo formato de relatório que corrija as deficiências supramencionadas;



2.       Que na elaboração do novo relatório, o GT defina os dados essenciais (de finanças, patrimônio, pessoal, produção editorial, atividades gerais, etc.) que cada organização deve apresentar e o período de tempo, para efeito de comparação;



3.       Que, ao resultado deste trabalho, o GT de uma redação adequada à inclusão no Regimento Interno da CBB; 



4.       Que na próxima convocação da Assembléia seja incluída a reforma da cláusula regimental referente ao relatório das organizações.


Cuiabá, 23 de janeiro de 2010
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Leia aqui a proposta encaminhada pelo GT em janeiro de 2011, em Niterói, encaminhada pelo Presidente da CBB ao Conselho Geral e reapresentada com falha técnica na convocação, em janeiro de 2012 (Foz do Iguaçu) ficando sobre a mesa até janeiro de 2013

domingo, 24 de janeiro de 2010

Ainda sobre OPBB versus Pastoras


"Segundo o presidente da OPBB, pastor Orivaldo Pimentel, não houve uma decisão para a aceitação pela OPBB de qualquer pastora, mas apenas daquelas que atendam aos pré-requisitos da entidade e que tenham se filiado à mesma através das sessões estaduais antes da Assembleia de 2007"

Pastores, pastoras e povo batista em geral, de todo o Brasil, estão atentos e prontos a denunciar eventuais lucubrações que possam vir a ocorrer, no sentido de se tentar interpretar a decisão tomada pela assembléia de Cuiabá 2010, da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, de maneira desfavorável às pastoras, dificultando o reconhecimento do direito que nunca deveria ter sido negado a todas elas e muito menos agora, a algumas delas, diante da decisão da tomada.


O que esperamos dos dirigentes da OPBB, agora sob a presidência de Lécio Dornas:

1. que as pastoras beneficiadas pela decisão de Cuiabá, não tenham privilégios que os pastores não têm;
2. que às pastoras, não sejam feitas exigências que não eram feitas aos pastores à epóca da filiação, na seção que as recebeu;
3. que a direção nacional, portanto, não se envolva no processo de filiação das pastoras, se não se envolve na dos pastores; 
4. que a aplicação das normas seja feita em espírito de amor e justiça e não de acordo com a filosofia: "para os amigos as facilidades da lei; para os inimigos, os rigores da lei", pois as pastoras não são nossas inimigas. São seres humanos, criadas igualmente à imagem e semelhança de Deus, resgatadas igualmente pelo sacrifício do Cristo, comissionadas igualmente para ir por todo o mundo, fazer discípulos e batizá-los "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho mandado".


Quando penso no lugar onde trabalho como pastor e nas condições que me são oferecidas e comparo com o lugar onde a maioria das pastoras está trabalhando e as condições que a elas têm sido oferecidas, sinto vergonha só de pensar na humilhação a que têm sido submetidas, sendo tratadas como "vocacionadas de segunda classe" que não estão à altura de compartilhar a mesma organização.


A Associação dos Diáconos Batistas do Brasil não só aceita diaconizas, mas é presidida por uma delas.
A Ordem dos Advogados do Brasil é composta também de Advogadas.
Entre os pastores batistas, entretanto, há quem justifique que a Ordem é dos "pastores" e não das "pastoras". 

Para alguns colegas, dividir a Ordem com mulheres parece ser vergonhoso, ainda que a maioria de nós pastores divida teto, mesa e cama diariamente com uma delas.



Não estou aqui semeando conflitos.
Não confunda paz com ausência de tensão. Ausência de tensão é sinônimo de morte não de paz. 
Paz que não é construida em bases amorosas e justas não é paz, é ausência de vida.

Nem estou aqui semeando divisão.
Unidade que não é contruída em bases amorosas e justas não é unidade, é opressão. 

Muito menos estou aqui defendendo posições antibíblicas.
Posições bíblicas saudáveis são aquelas cuja fundamentação se dá em bases hermenêuticas sólidas e não incoerentes.

Se sou contrário à liderança da mulher por "razões bíblicas", deveria ser, também, contrário à liderança delas em todas as áreas da vida e não somente no ministério.

Se defendo o silêncio da mulher na igreja (igreja gente, não templo), por "razões bíblicas", deveria ser, também, contrário a que se manifestassem em todas as atividades da igreja.

Se aplico literalmente textos bíblicos para manter a mulher na condição de cidadã de segunda categoria, assim deveria agir, também, em relação a roupas, cabelo, uso de bijuterias, maquiagem, diálogo em público, ocupação de assento no templo, só pra exemplificar.


Que Deus nos ajude a sermos misericordiosos em nossas dificuldades naturais de enxergamos e interpretarmos as realidades de maneira compatível com o espírito do evangelho que produz vida e que haja em nós o firme propósito de nos guiarmos pelo espírito que vivifica e não pela letra fria que produz morte.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ordem dos Pastores (e das pastoras) Batistas do Brasil

Cheguei a Cuiabá na segunda-feira, 18, por volta das 23 h, depois de 13 dias em Garça, SP, de férias com Gláucia, na casa de minha mãe.

Na terça, enquanto descansava no hotel, abro o Twitter e leio: “Pastora_Zenilda OPBB exclui pastoras já inscritas http://pastorazenilda.blogspot.com/2010/01/opbb-exclui-pastoras-ja-inscritas.html”.

Fui ao blog da pastora Zenilda e a informação central era: "SOLICITAÇÃO DA SEÇÃO PARANAENSE – Mediante o pedido da Seção Paranaense que a OPBB oriente qual o procedimento da mesma em relação a pastoras que foram aceitas na Seção antes da definição na Assembléia em Florianópolis/2007, contrária à filiação de pastoras, é aprovado com 13 votos favoráveis e 02 votos contrários que se envie correspondência a Seção Paranaense ressaltando o respeito a estas amadas irmãs, entretanto enfatizando que este Conselho, pela decisão de Florianópolis, está impedido de autorizar a emissão das carteiras destas irmãs."

Imediatamente, o cérebro que estava focado em dois assuntos que pretendia colocar em discussão no plenário, relacionados à vida da Convenção Batista Brasileira, volta-se para este outro – a consagração de pastoras e sua filiação à OPBB - que me instiga por razões cognitivas, de natureza emocional e intelectual, nessa ordem.

Emocional, porque na sequência de filhos dos meus pais, sou o quarto, sendo que, antes de mim, vieram três irmãs e, após, mais uma, depois um irmão e mais duas irmãs. Claro, então, que tendo sido criado nesse perfil familiar e com uma mãe que costurava, lavava roupa pra fora e nos períodos de safra do café ia pra colheita pra aumentar a renda familiar, ou seria um "revoltado" com as mulheres ou seria "amante" delas. Por instinto inteligente, segui a segunda opção.

Intelectual, porque não faz parte da minha estrutura de personalidade agir sem que a causa da ação faça sentido em minha mente. Em outras palavras, não costumo comer, conscientemente, nas mãos alheias. Quando alguma coisa não bate e a luz da cabeça fica piscando no amarelo, costumo mergulhar, se preciso em águas profundas, em busca de resposta que apazigue o coração. Daí pensar na questão de gênero – incluído aí a possibilidade de mulheres serem reconhecidas como pastoras - a partir da teologia e da educação, áreas nas quais me aprofundei um pouco mais.

Esclarecido desnecessariamente isso, ponho-me a pensar no que fazer e a elaborar um requerimento para ganhar tempo.

O congresso da Ordem dos Pastores (e agora das pastoras também) começa.

Recebo o livro do congressista com programa, resumo das palestras, relatórios, Estatuto e Regimento Interno e leio tudo de capa a capa. Gostei do relatório, especialmente por conter dados que permitem uma análise mais fácil e real da instituição. Gostei também de ver que os preletores seriam de cada uma das cinco regiões do país. Isso parece irrelevante, porém, como já escrevi n’O Jornal Batista, parece que alguns líderes pensam que a Convenção Batista Brasileira só tem vida pensante no eixo Rio-São Paulo.

Gostei de observar a diversidade na linha teológica dos preletores. Não gostei de observar que nenhum dos preletores tinha idade inferior a 40 anos (cheguei aos 50 e começo a ficar ansioso para reaprender com os  mais jovens).

Após o relatório, indaguei ao Executivo se a notícia a respeito das pastoras do Paraná procedia. Ele confirmou que sim. Iria, então, fazer uma proposta, mas o moderador da reunião informou-me, gentilmente, que o assunto só poderia ser apreciado via Comissão de Assuntos Especiais. Discordei, pois era assunto tratado pelo Conselho da Ordem e o plenário poderia tratar. Tendo sido mencionado pelo Executivo, poderia ser discutido ali. Respeitei, porém, a orientação da mesa e tratei de concluir a redação do requerimento, coletando pelo menos cinco assinaturas e, depois, passei "horas" a procura dos componentes da Comissão, tendo deixado de almoçar, inclusive, para que o documento pudesse ser entregue, avaliado e encaminhado ao plenário, com parecer, para ser debatido e votado.

A matéria chega ao plenário com um parecer melhor do que esperava, recomendando a emissão das carteiras das pastoras que haviam sido aceitas antes de 2007, quando, numa decisão a meu ver contrária ao espírito do evangelho, a assembléia, por uma diferença de meia dúzia de votos, decidiu que pastoras não poderiam ser aceitas na Ordem.

O debate foi interessante, principalmente porque o moderador, pessoa por quem nutro profundo respeito pela seriedade com que trata as coisas do reino de Deus, influenciava as discussões, passando a impressão de resistência ao parecer.

Pelo tempo de participação em assembléias e, inclusive, por ter dirigido muitas em igrejas, convenções, associações e, também, em Ordem estadual, sei que a linha que separa uma resposta dada pela presidência, da discussão do assunto é tênue. Além disso, sei também que nenhuma informação é neutra, portanto, consciente ou inconscientemente, sempre que um moderador dá uma resposta – e isso é inevitável -, ele influencia o plenário.

Diante disso, primeiro, com cuidado e respeito, intervim por uma questão de ordem, tentando ajudar o moderador a perceber que ele estava extrapolando, em suas respostas às indagações dos mensageiros; depois, numa segunda intervenção, requeri que o moderador se afastasse da moderação para que pudesse debater o assunto. Não fui atendido em nenhuma das duas questões de ordem.

Lá pelas tantas, foi feita uma proposta para que o assunto ficasse sobre a mesa. O plenário derrubou a proposta. Em seguida, propus que o assunto fosse encerrado e colocado imediatamente em votação. O moderador fez questão de aplicar rigorosamente o dispositivo regimental que exige 2/3 dos votos para esse tipo de proposta, mas, mesmo assim, a proposta passou.

Encerrada a discussão e colocado o parecer em votação, ele foi aprovado por maioria de votos.

A Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, agora também é das Pastoras. Apenas de algumas, mas é.


Apaziguei minha anima.
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Conteúdo do requerimento encaminhado e assinado por sete(7) pastores.

Considerando a informação veiculada pela internet e confirmada pelo Executivo da OPBB, Pr. Juracy Baía, que, respondendo consulta feita pela OPBB, seção Paraná, o Conselho da Ordem teria dado parecer que as carteiras das referidas pastoras não deveriam ser renovadas;



Considerando que a não renovação significa desligamento da Ordem e isso não se enquadra em qualquer dos critérios que regem o disposto no Artigo 8 do Regimento Interno da OPBB;


Considerando que diversas pastoras de Igrejas da CBB foram aceitas legalmente em diversas seções estaduais da OPBB antes da decisão de 2007 que suspendeu a filiação de pastoras à Ordem;


Considerando que a decisão de 2007 não legislou a respeito do que seria feito com as pastoras já filiadas;


Considerando que, mesmo que a OPBB tivesse deliberado pela desfiliação, isso contrariaria princípios constitucionais como: “A lei penal não pode retroagir salvo para beneficiar o réu” ou “a lei não prejudicar o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada” (Art. 5);


Considerando que, além disso, o conselho da OPBB não tem poderes regimentais para legislar sobre este assunto;


Considerando que não estamos lidando com pastoras, no sentido de sujeitos indeterminados, mas com pessoas, com nome e endereço, convertidas ao evangelho, consagradas (ou ordenadas como preferirem) ao ministério pastoral a pedido de igrejas batistas cooperadoras da CBB;


Considerando que o tema deste congresso da OPBB estimula a unidade em lugar da dissensão e decisão desta natureza aprofunda o conflito latente em torno da consagração de pastoras,


propomos:


Que esta Assembléia revogue decisão do Conselho da Ordem mantendo o direito adquirido de filiadas, das pastoras aceitas antes da decisão de 2007.


Cuiabá, 21 de janeiro de 2010

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A Comissão de Assuntos Especiais que deu parecer favorável a esse requerimento e que declarou ter ouvido parecer da Assessoria jurídico-parlamentar foi formada pelos pastores:
Julio de Oliveira Sanches (SP) - relator
Paulo Marinho (SP)
José Renê Toledo (MG)
Linaldo Guerra (PB)
Augusto Carvalho (FL)
O conteúdo do parecer não foi distribuído, por isso não o disponibilizo aqui.
Assessoria jurídico-parlamentar:
Isaias Lins - BA
Josué Andrade - ?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O terremoto no Haiti e a fala do seu consul no Brasil

Estava curtindo uma notícia feliz – minha filha acabava de informar por e-mail que sua transferência fora aceita pela Florida Atlantic University – quando o noticiário da televisão passa a mostrar imagens da tragédia ocorrida no Haiti. A vida é assim: enquanto uns riem, outros choram; enquanto uns corpos se abraçam pelo prazer, outros fazem o mesmo pela dor; a tecnologia que traz boas notícias é a mesma que nos mostra cenas de pavor.



É doloroso colocar-se emocionalmente no lugar das pessoas que estão vivas sob escombros enquanto não chega o socorro; no lugar do homem que chora a perda da esposa amada enquanto descansava; da mãe desesperada pela notícia do desaparecimento do filho; da filha brasileira, cuja comunicação com o pai militar, pela internet, cessou abruptamente e só depois tomou consciência de que a interrupção não era apenas o fim de um diálogo, mas o início de uma separação irreversível.


Nada, porém, suscitou sentimento mais desagradável do que ouvir o comentário feito pelo cônsul haitiano no Brasil. Primeiro, pela falta de sensibilidade; depois, pelo preconceito de raça e religião.




Enquanto seu povo chora a dor da destruição e morte, ele enxerga uma oportunidade de tornar-se mais conhecido. Claro, sabemos todos que na vida nada é absolutamente mal, nem absolutamente bom; que toda experiência humana traz consigo efeitos colaterais benéficos ou maléficos. O que doe é a aparente falta de sensibilidade frente à dor alheia – no caso, seu próprio povo – e, pior, o inoportuno senso de oportunismo.


Se não bastasse isso, sua fala revela algo que ceifa, silenciosamente, milhões de vidas: o preconceito. Primeiro, o preconceito de raça contra o já sofrido povo africano. Sua fala traz à baila o antigo discurso teológico do fundamentalista branco referente ao pecado de Caim. Por esta hermenêutica racista, ser negro seria o sinal de Caim descrito no livro de Gênesis (4.15), símbolo de desobediência e maldição.


Depois, revela o preconceito religioso. Para ele, a macumba – forma pejorativa de referir-se às religiões de matriz africana – seria causa da desgraça experimentada. Ao ouvir isso, lembrei-me de um missionário norte-americano, doutor e professor de exegese do Antigo Testamento com quem travei um debate caloroso em sala de aula, que tentava convencer-nos, baseando-se em determinado texto bíblico, de que a causa da pobreza e da seca do nordeste brasileiro seria a idolatria do povo.


Não suporto mais o (ab)uso do sofrimento alheio, a transformação da dor humana em meio de estimulo à "evangelização", em propaganda para levantamento de recursos financeiros para agências sociais e missionárias. Ainda assim, mesmo sendo terrível, é compreensível ouvir isso de empresários sem escrúpulo de “ONGs” ou religiões, afinal, para alguns marqueteiro os fins justificam os meios e tudo é válido desde que aumente a arrecadação financeira. Fere, entretanto, o âmago da alma, presenciar a fala de um cônsul, a respeito do próprio país, quando sabemos que abalos sísmicos são fenômenos naturais.


O Haiti, até hoje conhecido como o país mais pobre das Américas, envolvido em conflitos internos e muita corrupção, ocupa agora a mídia internacional como vítima de um desastre que ceifou dezenas de milhares de vidas. Mais triste do que isso, só mesmo a confirmação, através da fala do seu cônsul no Brasil, de que a pobreza de um povo não se mede somente pela quantidade de bens e serviços produzidos – o PIB -, mas também e sobretudo pela pobreza cultural, pela falta de sensibilidade emocional, espiritual e de visão de seus dirigentes, como demonstrou o consul em sua fala.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Deus não existe


“É provável que Deus não exista. Então, pare de preocupar-se e curta sua vida”


Sabe aquele seu filhinho, pirralho de 5 anos com quem você adora brincar, que quando você chega ele abre um sorriso imenso e corre te abraçar? Pois é, foi estuprado por um pedófilo, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe sua mãezinha adorável, sorridente, cheia de vida? O cara entrou em sua casa, violentou-a brutalmente e deixou-a sofrendo, solitária e toda ensangüentada, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe seu avô que sempre te acolheu, te abraçou quando você chorava frustrado, te carregou nos braços fazendo cócegas e te levou pra comer pipoca? Pois é, depois de trabalhar a vida toda pagando a previdência pelo valor máximo, hoje passa o maior sufoco, recebendo menos do que 3 salários mínimos pra viver, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe aquele político que te inspirou confiança e você o elegeu, acreditando que ele usaria o poder de governo pra melhorar a vida de todos? Então, ele está embolsando milhões através de propinas enquanto milhões de pessoas estão sem acesso à saúde, educação de qualidade ou saneamento básico e andam inseguras pelas ruas das cidades, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Sabe aquele pastor que você admira, destacado líder denominacional, aquele que sempre que te encontra te abençoa com palavras bonitas e te desafia a uma vida melhor? Pois é, ontem, ciente de que não estava sob holofotes e ninguém estava vendo, tratou histericamente aquela ex-missionária que deu metade dos anos de sua vida anunciando o evangelho, tão somente porque ela estava trabalhando numa sala que ele não queria, e, ao determinar que ela se retirasse, ela resistiu querendo saber a razão. Ela saiu aos prantos e ele continua feliz no exercício de sua função, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe aquele presidente neurótico que determinou que um país inteiro fosse destruído, matando milhares de pessoas, inclusive crianças, mulheres e idosos indefesos, deixando outras tantas psicologicamente semimortas? Pois bem, ele vive feliz numa mansão cercado de toda mordomia, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe aquele senhor brincalhão que vende paçoquinha de amendoim na porta do colégio? Descobriram que também vende drogas pra crianças e adolescentes, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Sabe aquele pessoal que faz as leis nas assembléias legislativas, que nos obriga a agir da maneira como quer ou aquele, dos judiciários, que tem poder pra julgar e determinar penas aos que não obedecem tais leis? Está comprometido até o último fio de cabelo com um sistema mafioso de corrupção, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Sim, curta sua vida. Não há com que se preocupar. A vida é isto: entre setenta e cem anos sobrevivendo neste planeta giratório e solto no espaço, cada um fazendo o que der na telha ou fazendo o que um grupo mais poderoso determina que se faça, na certeza de que não haverá prestação de contas a ninguém superior.


Portanto, siga seus instintos. O máximo que pode acontecer é você sofrer as conseqüências de leis naturais, existentes por acaso, fruto de casuais conexões construídas em milhares de anos entre seres que surgiram do nada e que, casualmente, se uniram, em torno de ideais nobres absurdos, sem sentido, ideais que brotaram casualmente em seus “cérebros”, cérebros que também são frutos do acaso, do interesse pela sobrevivência em torno de algo maluco.

Sim, de vazão ao seu sentir. Se tiver muito dinheiro, nem as penalidades previstas em lei incomodarão sua trajetória. Além do mais, as leis são resultado puramente de interesses políticos para manter esta espécie de passatempo que chamamos vida e não fruto de um imperativo criado por um ser superior. Portanto, se alguém te forçar a obedecê-las, reaja, enfrente usando força bruta, faça terrorismo, imponha-se, afinal, tudo não passa de um jogo de forças, de interesses. Talvez você se machuque ou machuque alguém, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Or exist?

"Disse o louco no seu coração: Não há Deus.
Têm-se corrompido e cometido abominável iniqüidade; não há ninguém que faça o bem."
(Salmos 53.1)