sexta-feira, 30 de março de 2012

Eles - os mentirosos - serão lançados no fogo do inferno!


“Mas, quanto  ...  a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte.” (Apocalipse 21.8)

Sim, eles serão lançados no fogo do inferno, declara João sem meias palavras. Fogo no qual todos eles, sem exceção, arderão. Por isso, eles não deveriam ser aceitos como membros de nossas igrejas, não ter proteção social e, até, ser banidos da vida em sociedade, através de apedrejamento, diriam os mais radicais.

O problema é que “eles” somos “nós”. Inclusive nós que pregamos ou ensinamos o evangelho e somos atuantes na vida eclesiástico-denominacional.

Alguém dirá com ares intelectuais e voz impostada: sua hermenêutica está equivocada. João não está condenando os que mentem eventualmente com objetivos nobres. Ele se refere aos mentirosos sem Jesus. Ou: o texto trata daqueles que fazem da mentira um estilo de vida. Ou: ele está falando de pessoas que, conscientemente, fazem uso da mentira visando o mal do outro. Cada um, como bons advogados que somos, puxará a brasa pra sua sardinha.

O fato é que ninguém pode dizer com segurança absoluta qual seria a idéia ou o sentimento correto que o escritor quis expressar. O máximo que pode conseguir é que sua hipótese interpretativa faça sentido para alguém em dado momento ou conquiste apoio político para sua crença, seja pelos títulos acadêmicos que possui, pelo prestigio social alcançado, pelo poder político-econômico que representa em sua esfera de atuação ou ainda pelos benefícios que tal interpretação produz em favor dos envolvidos no contexto do qual faz parte.

Eu, porém, vos digo: todos quer dizer todos e mentirosos quer dizer mentirosos. Qualquer abertura interpretativa de exceção geralmente será feita por quem, curiosamente, pretende se auto-enquadrar - ou enquadrar alguém do seu mundo significativo - na exceção e não na regra.
Se levarmos ao pé da letra as palavras de João, não sobrará um membro ou um pastor em nossas igrejas. Todos mentimos, talvez todos os dias, em algum momento, por alguma razão. E radicalizo: não mentimos apenas através de palavras e ações geradas pelo inconsciente; mentimos, também, pelas produzidas pelo consciente. Se alguém dúvida dessa - reconheço – forte e indigesta afirmação que permita ser filmado 100% do seu dia e depois assista ao filme, sem edição, fazendo uma avaliação honesta.

É o riso e o abraço “carinhoso” que damos em alguém por quem nosso sentimento é de forte aversão. É o tom de voz suave e feliz que usamos ao atender aquele telefonema importuno dado por alguém com que não gostaríamos de conversar. É o elogio público que fazemos para conquistar apoio político. É a reação “simpática” diante de situações geradoras de sentimentos negativos, mas que exigem postura “adequada” à função ou cargo que exercemos. É o uso de palavras como “querido” e “irmão” dirigidas a alguém que não engolimos. É o uso de eufemismos ou de mil justificativas suaves, quando a expressão do sentimento verdadeiro seria geradora de desgaste.

Quantas vezes nos colocamos contra ou em defesa de algo, mas nosso interesse real não é com o “algo” discursado, mas com a afinação do discurso político com o de alguém ou segmento que pode nos beneficiar ou prejudicar? Quantas vezes, como no jogo de sinuca, atingimos uma bola com o objetivo de acertar outra?

Uma das mais famosas jogadas de Ronaldinho Gaucho, craque do futebol brasileiro, é aquela que ele olha para um lado e toca na bola em direção diferente. Craques na arte de jogar com as palavras e habilidosos na capacidade de driblar idéias divergentes, no parlamento podemos superar o “adversário” e explicitar, com facilidade, mil possibilidades de sentido para a palavra mentir.  

Já imagino passando por nossas cabeças, a possibilidade de buscarmos o significado da palavra mentira no grego, no hebraico, no latim; já pensamos nas possibilidades dos sentidos teológico, filosófico, científico, enfim. Tudo pra nos livrarmos de tão desconfortável interpretação do texto que a todos lança no fogo do inferno.

Você me dirá: ninguém é “super sincero”. Ou: Abraão, o pai da fé mentiu e Pedro, além de ter mentido para negar a Jesus, ainda agiu de modo dissimulado e foi alvo da repreensão de Paulo. Ou: se não administrarmos as “informações” e os sentimentos, eles poderão ser armas contra nós mesmos. Ou: pela sobrevivência e também por amor, a forma de dizer ou não dizer verdade e mentira precisa ser administrada.

Justifique-se como quiser, mas a honestidade nos leva a admitir que, antes de entregar a vida a Jesus fomos mentirosos e, depois de tê-la entregue, seja por imposição das circunstâncias, por sentimentos desfavoráveis contra alguém ou por qualquer outro motivo, o fato é que todos continuamos mentindo, de alguma forma, em algum grau, por alguma razão. Mesmo depois de “aceitar a Jesus como Salvador”.

Não digo isso para defender o uso da mentira. Longe de mim tal insanidade. Digo isso pra estimular a humildade e a graciosidade para com o outro em suas fraquezas, especialmente nas diferentes das nossas, pois, se levarmos a Bíblia ao pé da letra, nenhum de nós escapará do fogo do inferno. “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós.” (1 João 1:8) 

Se nos consideramos salvos e somos membros de uma igreja local que se considera de Jesus Cristo, isso não se dá porque não mentimos ou não pequemos, mas porque  cremos que Jesus morreu por nossos pecados do passado, do presente e do futuro ou, em outras palavras, por nos entregarmos à graça divina. Movidos por ela, nos empenhamos em ser verdadeiros, em ser pessoas melhores. “...Mas , se pecarmos, temos um advogado”! (I Jo. 2.1).

quarta-feira, 14 de março de 2012

Dialogando e refletindo para sermos melhores


Há quem acredite que a história seja linear, isto é, que ela acontece de maneira lógica, progressiva, com início, meio e fim. Fim feliz, de preferência, claro. Entretanto, a própria história nos mostra que as coisas não são bem assim. Pelo contrário, vemos que ela se caracteriza por avanços e retrocessos, altos e baixos, rupturas e reatamentos, afirmações e negações, amor, alegria, raiva, tristeza, medo...

A história de cada um e das igrejas não é diferente. O “eu quero dizer agora, o oposto do que eu disse antes...” de Raul Seixas; ou o “esqueça o que escrevi; isso foi há muitos anos, tudo se renova, esqueça”, atribuído a FHC; ou o quando a gente está na oposição, faz muita bravata”, atribuído a Lula; ou o “nossa cabeça pensa onde pisam nossos pés”, atribuído a Frei Beto, conquanto criticado por alguns como sendo sintoma de instabilidade, incoerência, incongruência, falta de integridade, até de esquizofrenia, está presente nas histórias de todos nós muito mais do que imaginamos ou admitimos. Parafraseando Paulo, o adulto não pensa, sente, fala ou age como quando era menino (I Cor. 13.11).

Há três anos resolvi colocar em ordem cronológica, em pastas plastificadas, todos os esboços de sermões que fiz desde 2 ou 3 anos antes da minha chegada ao Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em 1979, quando não existiam micro-computadores. Enquanto arrumava, perguntei-me muitas vezes: como conseguia pregar com essa estrutura de esboço?  Era assim que eu pensava há 35 anos? Percebi que acontece com o pensamento e sentimento o mesmo que ocorre com o corpo: percebemos as mudanças quando olhamos nossas fotografias.

Quanto mais vivemos, lemos, interagimos e refletimos, com honestidade e humildade, mais aprendemos que também a linearidade de pensamento, sentimento ou condições de vida, em qualquer de suas dimensões, é um mito. A vida é uma tensão saudável e permanente. Se a ausência de tensão, como escreveu Rollo May, é sinônimo de morte, a indisposição para reflexão e dificuldade de adaptação são o aperitivo do fim, a ante-sala do cemitério.

Mudamos, portanto, porque somos seres vivos. Mudamos para melhor e para pior e só nos damos conta disso muito mais pelos desdobramentos, pelo desenrolar da história, do que por uma suposta capacidade superior de avaliar o passado, diagnosticar o presente, planejar, projetar e controlar o futuro.

O importante, então, é não perdermos a disposição para refletir sobre a própria história e a história alheia, retificando ou ratificando referenciais de pensamento e conduta visando tornar nossa caminhada mais agradável (ou, numa ideologia mais pessimista, menos desconfortável). Se errarmos, que aprendamos com o erro e, em vez de ficar lamentando, prossigamos. Se alguém “mexeu no meu queijo”, como diria  Spencer Johnson, ficar amargamente paralisado elegendo bodes expiatórios, não modifica o fato.

Essa compreensão faz com que estudar, refletir comunitária e continuamente, seja algo que “não sai de moda”. Nossos patamares de pensamento e qualidade de vida podem ser diferentes, mas a interação é fundamental, inclusive com divergentes.

Em uma de suas mensagens no programa “Um olhar sobre a cidade”, no Recife, Dom Helder Câmara afirmou: “Se és sincero e buscas a verdade e tentas encontrá-la como podes, ganharás tendo a honestidade e a modéstia de completar teu pensamento com o pensamento, mesmo de pessoas, que te pareçam muito menos inteligentes e cultas do que tu.” E conclui: “Atenção, amigos, nós todos precisamos de matricular-nos na escola do diálogo e começar aprendendo de verdade a ouvir. E fiquemos alertas para a tentação de achar formidáveis, geniais, os que falam de acordo com o que nós pensamos. E de queimar como quadrados, caretas, os que têm a ousadia de discordar de nós. Adotemos como um de nossos lemas, queridos, “se discordas de mim, tu me enriqueces".”

Se acharmos que não mais precisamos disso, lembremo-nos de que o alerta paulino continua vigendo: “aquele, pois, que cuida estar em pé, que julga estar firme, cuide-se para que não caia” (I Cor. 10.12).

O interpessoal, o político e o técnico no exercício da liderança

Aberto ao exercício de cargos e funções de liderança eclesiástica desde o início da adolescência, não apenas cultivo alguma disposição e disponibilidade para tal, mas também tenho me empenhado em observar exemplos de líderes bem sucedidos, conhecer suas qualidades e ler o que estiver ao alcance sobre o assunto. Ultimamente tenho refletido sobre 3 competências pessoais que influenciam nosso modo de liderar e de nos relacionarmos com os que conosco trabalham.

As três fazem parte da nossa estrutura de personalidade, mas não se manifestam necessariamente em proporções iguais. Em geral uma se sobrepõe de forma mais espontânea, trazendo benefícios ou prejuízos a depender das exigências da função ou cargo, das pessoas com quem trabalhamos e do nível de consciência que temos a respeito delas.

A maneira como lidamos com elas pode influenciar, por exemplo, na decisão de aceitar ou não certos desafios de liderança, no sucesso em determinadas “missões” e até na maneira como desenvolvemos relacionamentos interpessoais. São elas: a interpessoal, a política e a técnica.

A descrição de algumas das manifestações de cada uma delas de maneira isolada e até um pouco “caricaturizada”, visa tão somente ajudar-nos a refletir, até porque a maneira como nossas qualidades se apresentam tem um elevado nível de particularidades próprias de cada indivíduo com sua herança genética, história de vida e contexto no qual está inserido.

Na interpessoal, o indivíduo sempre é mais importante do que instituições, tarefas ou grupos. O sentimento predomina sobre a razão e dizer não, especialmente em situações de comoção, é difícil. A exposição a riscos e sacrifícios em favor do outro é comum, mesmo que isso provoque desgastes.

Pessoas movem a vida. Tarefas importantes ou repercussões dos atos sobre instituições ou grupos têm importância secundária. Tudo pode ser parado se há uma demanda individual.

Na política, razão e emoção transparecem conforme as circunstâncias. A eficiência e eficácia discursiva podem ser diametralmente opostas à executiva. Dialogar, portanto, interessa mais do que desenvolver tarefas.
A habilidade de articulação é notória e dizer não ou sim depende mais da repercussão disso num segmento do que no interlocutor.  Um grupo desperta mais interesse do que um indivíduo. O indivíduo ganha importância se isso afetar o grupo.

A tomada de decisão não leva em conta, prioritariamente, valores éticos ou a importância individual, mas os efeitos, especialmente em favor dos interesses defendidos. Os interesses geralmente se sobrepõem aos valores e a flexibilidade à dogmática, exceto quando a defesa do inverso apresenta vantagens perante o grupo.

Na técnica, o “como fazer” é o eixo dos interesses, a lógica é evidente nas palavras e ações, o desejo de organizar se sobressai e a realização de tarefas, inclusive solitárias, é prazerosa.

O interesse por análises colabora para que a reação a imprevistos não seja imediata. O tempo para tomada de decisões ou de adaptação ao inesperado é maior. O “não” é dito mais facilmente, o cuidado com os sentimentos alheios é menor e ser ou não carismático é irrelevante.

Para o exercício de nossa missão no mundo, enganam-se os que acreditam que uma das três é preferida por Deus ou que uma delas proporciona maior probabilidade de sucesso ministerial. As três são necessárias à caminhada humana, mas não precisam aparecer – e raramente aparecem - de forma equitativa num mesmo indivíduo. O importante é que, cientes da existência e necessidade delas, aprofundemos o autoconhecimento e o conhecimento mútuo trabalhando cooperativamente, empenhados em usar os característicos favoráveis das diferenças em favor de todos.

Ter consciência dessas três competências, saber qual delas se manifesta mais espontaneamente em nossas atitudes, palavras e ações, quais são os aspectos construtivos ou destrutivos de cada uma em dada situação e com qual lidamos com maior dificuldade, tem sido de grande utilidade para mim no exercício da liderança.