domingo, 17 de dezembro de 2017

Melhor é ir à luta

Cresci na ėpoca em que "levanta, sacode a poeira, dá volta por cima" era sucesso no rädio.

Aprendi que mi mi mi, nhėn nhėn nhén, ti ti ti, é coisa de derrotado.

Com Jesus aprendi que no mundo teríamos aflições, mas, mantendo o BOM ânimo, venceríamos o mundo.

Sem falar em Paulo: "Que diremos, pois, diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?

 Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará com ele, e de graça, todas as coisas? Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós. 

Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: “Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”.  Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. 

Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor." (Romanos 8:31‭-‬39)

Então, em vez de ficar murmurando, paralisado, perguntando: "Quem mexeu no meu queijo?", melhor ė ir à luta...

Amor: um dever - I João 4:8

“Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.” 
‭‭(1 João‬ ‭4:8‬)

Soren Kierkgaard, teologo e filósofo dinamarquez,  dedica 5 tópicos da primeira série de seu livro  "As obras do amor", ao verbo "dever", relacionando-o ao amor. 'Tu "deves" amar'. 'Tu deves amar o próximo'. '"Tu" deves amar o próximo". "Nosso dever é amar as pessoas que nós vemos". "Nosso dever de permanecer em dívida de amor uns para com os outros".

Seus argumentos são múltiplos e estou caminhando lentamente na leitura de seu livro de 431 páginas, pela necessidade de parar para refletir em cada argumento. Já no texto de João, os argumentos são curtos, objetivos e não deixam dúvidas: "Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor". Podemos recusar o argumento, mas negar que seja cristalino, não.

Se os autoproclamados cristãos, especialmente os que defendem tão ardorosa e muita vez odiosa e rancorosamente a Bíblia, se detivessem em João, chegariam à fácil conclusão: ou amo ou assumo que não conheço a Deus. Se as atitudes e sentimentos que regem minhas defesas das Escrituras não são regidas por amor, posso dizer que sou um ótimo intelectual a respeito do livro de Deus, mas um total ignorante em relação ao Deus do livro,  pois 
“Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.”.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Amor: certificado de origem - I João 4:7

“Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.” (1 João‬ ‭4:7‬)

O amor procede de Deus. Não há o que duvidar. Não há o que questionar. Ou se aceita, ou se rejeita. Não me parece haver meio termo. Pode-se avaliar se em determinada circunstância uma  palavra ou ação seria de fato manifestação de amor ou não, mas não se pode deixar de colocar o amor como parâmetro, como filtro, de nossas palavras ou ações.

Negar a supremacia do amor, é negar sua origem. Devemos, então, prestar atenção especialmente às formas de negação do amor presentes em nossas ações.  Corações rancorosos, amargurados, raivosos, medrosos, geralmente negam o amor, especialmente atavés de palavras, mas por meio de ações há muito "bom" coração o negando também.

Amor é certificado de origem. Elabore bem doutrinas. Exponha bem idéias. Defenda bem argumentos. Escolha aliados político-religiosos prestigiados e poderosos. Exerça cargos e funções com competência. Defenda valores morais tradicionais. Colecione títulos acadêmicos.  Construa murais com medalhas de honra ao mérito. Encha sua mesa com placas de reconhecimento. Sem amor, entretanto, nada disso certificará sua origem divina.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

De que mundo viemos? - I João 4:6

“Nós viemos de Deus, e todo aquele que conhece a Deus nos ouve; mas quem não vem de Deus não nos ouve. Dessa forma reconhecemos o Espírito da verdade e o espírito do erro.”
‭‭(1 João‬ ‭4:6‬)

"Todos viemos a este mundo pelo mesmo caminho, fomos nele inseridos igualmente através de uma linguagem e nos desenvolvemos dentro de uma cultura. Nossa origem essencial é a mesma, ainda que acidentalmente sejamos diferentes." 

A afirmativa de João, portanto, não significa que os discípulos de Jesus sejam seres extraterrestres, mas que Deus, por seu amor,  oferece a alternativa, em Jesus, de poderem mudar a fonte que alimenta suas vidas e, assim, possam afirmar que essa nova cultura, essa nova qualidade de vida que é eterna, vem dele - Deus - e não da cultura vigente no mundo.

Quem se abre para essa nova fonte - Jesus - ouve aqueles que, igualmente, "vieram de Deus". Quem se fecha a ela, continua ouvindo aquilo a que estão acostumados - "falsos profetas" -. É possível, então, diferenciar o espirito da verdade do de erro identificando a quem se dá ouvidos: se aos discípulos de Jesus de Nazaré, logos de Deus, ou aos "falsos profetas" "deste mundo".

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

De que mundo somos? - I João 4:5

“Eles vêm do mundo. Por isso, o que falam procede do mundo, e o mundo os ouve.” (1 João‬ ‭4:5‬)

Os mundos dos "falsos profetas" e dos "discípulos de Jesus" eram extremamente distintos. Entretanto, todos viemos a este mundo pelo mesmo caminho, fomos nele inseridos igualmente através de uma linguagem e nos desenvolvemos dentro de uma cultura. Nossa origem essencial é a mesma, ainda que acidentalmente sejamos diferentes.

Se os "falsos profetas" e os "discípulos de Jesus" são apontados como que de origens diferentes, isso deve-se ao reconhecimento de que aquilo que o evangelho apresenta seria diametralmente oposto àquilo que vigia no mundo. O vigente no mundo não representava a vontade de Deus, mas de Satanás. Eram mundos tão diferentes que seriam dois, não um.  

O texto não é ideologia de uma fé que aliena os discípulos deste mundo - "não peço que os tires do mundo", orou Jesus - , muito menos serve de base à essa alienação. Tão somente nos faz ver que o evangelho de Jesus Cristo representa uma mudança tão radical, uma ruptura tão profunda, uma verdadeira contracultura, que ao mundo, ouvir seus falsos profetas era mais fácil, pois eles lhes falavam daquilo a que seus ouvidos estavam acostumados a ouvir.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Vencendo enganadores - I João 4:4

“Filhinhos, vocês são de Deus e os venceram, porque aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo.” (1 João‬ ‭4:4‬)

Se no contexto histórico da carta de João o problema dos falsos profetas estava relacionado a pessoas que negavam Jesus como o Cristo, em nossos dias poderíamos identificar os que usam os púlpitos, por exemplo, para idolatrar o dinheiro, comercializar a fé, alienar pessoas, negar os efeitos do evangelho em todas as dimensões da vida no aqui e agora,  provocar conflitos desnecessários em função de doutrinas, enfim.

O desafio, portanto, é vencer "profetas" enganadores. Para isso, necessário se faz aprofundar o conhecimento da pessoa de Jesus, estreitar a relação, a intimidade, com ele, para não permitir que nossa vida seja derrotada não pelos que desconhecem o evangelho, mas por aqueles que, em nome de Deus, tiram o nosso foco da pessoa de Jesus e desviam nossa atenção para aquilo que não produz qualidade de vida eterna.

A comunhão sincera com Deus, em Cristo Jesus, habilita-nos a vencer aqueles e aquilo que se apresentam como obstáculo à caminhada, alimentando nossa esperança de vitória, não por nós, mas porque, como declara João, aquele que está em nós é maior do que aquele que está no mundo.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Confessar Jesus - I João 4:3

“mas todo espírito que não confessa Jesus não procede de Deus. Esse é o espírito do anticristo, acerca do qual vocês ouviram que está vindo, e agora já está no mundo.” (1 João‬ ‭4:3‬)

No contexto, a expressão "confessa Jesus" tem sentido diferente do usado em nossos cultos originários de movimentos avivalistas protestantes. Entre nós, a idéia de confessar a Jesus, significa recebê-lo como Senhor e Salvador pessoal. Somos uma cultura com bases religiosas cristãs na qual a divindade de Jesus é um ponto dado como definido.

Diferente também é o significado usado por Jesus: “Quem me confessar diante dos homens, também o Filho do homem o confessará diante dos anjos de Deus.” (Lucas‬ ‭12:8‬). Nesse caso, o contexto indicava que "confessar a Jesus" deveria ser uma manifestação de coragem frente à oposição religiosa, aos desafios, que os discïpulos enfrentariam.

Em João, a expressão estava vinculada a um contexto no qual o rconhecimento de Jesus como encarnação do logos era objeto de questionamentos e trazia em si elementos de natureza filosófica presentes na cultura vigente. Na expressão de João, não confessar Jesus é atitude que não brota de Deus e quem o nega é considerado anticristo.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Falsos profetas - I João 4:2

“Vocês podem reconhecer o Espírito de Deus deste modo: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne procede de Deus;” (1 João‬ ‭4:2‬)

Se Jesus declarou que "nem todo que me diz, Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus" (Mt 7:21-23), como entender que João tenha valorizado a simples confissão de "que Jesus Cristo veio em carne", como evidência da presença do Espírito de Deus em alguém? O reconhecimento do contexto, das razões da fala e do público de Jesus e de João esclarecem.

No contexto de Jesus, a discussão girava em torno dos sinais que pessoas faziam; no de João, naquilo em que pessoas criam. Em Jesus, o foco era sobre quem entraria no Reino; em João, quem era digno de confiança. 

No contexto de João havia pessoas que negavam que Jesus teria sido o logos. Assim, o simples fato de afirmar ou negar isso seria o primeiro indicativo diferenciador entre profetas verdadeiros ou falsos. Nessa crença estaria o fundamento mais importante, a "pedra angular", o diferencial do discipulado genuinamente cristão.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Espíritos Incrédulos - I João 4:1

“Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” (1 João‬ ‭4:1‬)

De maneira inteligente, Christian A. Schwarz (Nós diante da trindade) esclarece que Deus se manifesta, nas Escrituras, como Criador, acima de nós; Salvador (Jesus), no meio de nós e Consolador (Espírito Santo), dentro de nós. Por isso, conhecer a personalidade do Espírito Santo é importante, primeiro, para comparar nosso caráter com o de Jesus de Nazaré e, depois, para confrontar a personalidade de quem se apresenta em nome de Deus, mas pode ser falso profeta.

Quem conhece a personalidade do Espírito Santo ou Espírito de Deus ou, ainda, Espírito de Jesus, dispõe do parâmetro necessário para ajustar a própria personalidade e, estando devidamente ajustado, reduzir a probabilidade de ser enganado por falsos profetas. Observe: identificar falsos profetas afinados com o caráter do Espírito, é diferente de nos tornarmos cães farejadores, como ocorre com religiosos fundamentalistas dos extremos teológicos conservadores ou liberais.

O incentivo a sermos incrédulos, nesse texto joanino, é uma bênção, pois encoraja aqueles que são oprimidos por padres, pais de santo, pastores, médiuns ou líderes de quaisquer outras religiões que fazem uso da chantagem amedrontadora, opressora, para impor seus desejos e pontos-de-vista em nome de Deus.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Obediência - I João 3:24

“Os que obedecem aos seus mandamentos nele permanecem, e ele neles. Do seguinte modo sabemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu.” (1 João‬ ‭3:24‬)

Obedecemos movidos por pelo menos um de 3 motivos:  recompensa, medo ou consciência. Isso pode ser ilustrado usando o caso da entrega de dízimos, experiência milenar com registros anteriores ao surgimento das 3 maiores religiões do planeta - judaísmo, islamismo e cristianismo.

Os movidos à RECOMPENSA, se apegam as palavras bíblicas: "tragam o dízimo ... e vejam se não vou abrir as comportas dos céus e derramar sobre vocês tantas bênçãos que nem terão onde guardá-las" (Ml 3:10-11). Os movidos à MEDO se lembram dos gafanhotos de Joel‬ ‭1:4‬ e destacam: "Impedirei que pragas devorem suas colheitas" (Ml 3:10-11). Os movidos à CONSCIÊNCIA se regem por: “Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.” (2 Coríntios‬ ‭9:7‬)

A obediência por consciência é fruto da compreensão do porquê, da razão de ser, do significado. Nas palavars de João, ela brota da confiança, da comunhão, da intimidade, da relação vivida entre Jesus e discïpulos, expressa nas palavras: "nele permanecem, e ele neles". É coisa do Espírito, não de medo ou barganha material.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Fé e amor - I João 3:23

“E este é o seu mandamento: Que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e que nos amemos uns aos outros, como ele nos ordenou.” (1 João‬ ‭3:23‬)

Dois mandamentos, se seguidos, seriam suficientes para vivermos a qualidade de vida eterna. O primeiro - fé em Jesus - restabeleceria nossa relação espiritual com Deus. Nele, a dimensão vertical da vida seria equacionada pela harmonia com o criador e a caminhada neste mundo passaria a ter um referencial seguro: "eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará em trevas" (Jo.  8:12).

O segundo - amor mútuo - supriria nossas necessidades horizontais na medida em que, se de fato nos amássemos uns aos outros, buscaríamos equacionar nossos relacionamentos interpessoais, políticos, econômicos, afetivos, enfim, tendo como paradigma a cooperação, não a competição sem ética; a solidariedade, não a exploração predatória; a liberdade, não a opressão cansativa.

Seguir esse mandamento de Jesus - fé e amor - é o caminho a ser perseguido e proclamado por nós que ansiamos vida melhor para todos. Não uma vida que todos tenham as "mesmas coisas", que todos "sejam iguais" sob o controle de um estado, mas que todos tenham  oportunidades para viver, a seu modo, de maneira compatível com sua origem na "imagem e semelhança de Deus", como revelada em Jesus.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Agradar a Deus - I João 3:22

“e recebemos dele tudo o que pedimos, porque obedecemos aos seus mandamentos e fazemos o que lhe agrada.” (1 João‬ ‭3:22‬)

Não cremos num Deus cheio de caprichos, muito menos num Deus carente que necessita de agrados para sentir-se Deus. Cremos num Criador que nos deu as condições essenciais para desenvolvermos vida saudável, santa, em todas as dimensões, cabendo a nós seguir por caminhos que nos conduzem por uma qualidade de vida eterna.

Paulo declarou que ““O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor dos céus e da terra e ... não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas.” (Atos‬ ‭17:24-25‬). Portanto, a expressão agradar a Deus não deve ser entendida como mecanismo de manipulação, pois Deus não é manipulável, nem nós, mágicos.

O que agrada a Deus - à luz do ensino geral presente nas Escrituras -  é ver sua criação desenvolver-se. “O Senhor vê com pesar a morte de seus fiéis.” (Salmos‬ ‭116:15‬). Logo, se queremos agradar a Deus - não usar magia supondo manipulá-lo - lutemos pela preservação da vida, em suas múltiplas formas e dimensões.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Culpa, condenação, confiança e paz - I João 3:21

“Amados, se o nosso coração não nos condenar, temos confiança diante de Deus” (1 João‬ ‭3:21‬)

Há um sentimento de culpa saudável. É o sinal amarelo que desperta nossa atenção. É a dor de cabeça que indica que há algo "no corpo" precisando de reparo. É o grito da alma anunciando que prioridades, valores ou relacionamentos precisam de revisão e ajustes. Ignorar, portanto, um sentimento de culpa não é uma decisão sábia.

Há um sentimento de culpa patológico. Ela é sentida, mas nenhum fato gerador, objetivo e imediato, é identificado ou, pelo menos, reconhecido e assumido. A alma dói, sente-se controlada e oprimida, sem que tenhamos consciência clara da origem. Nesse caso, pode ser necessária a ajuda de profissional de psicologia, pessoa que conhece teorias da personalidade, que estuda comportamentos humanos, enfim, para ajudar na cura.

O coração que é capaz de reconhecer erros, que está aberto a corrigí-los e não se condena, evidencia que aprendeu a confiar no Deus que é do amor, não do medo, muito menos do ódio vingativo. Quando há confiança amadurecida no amor, na misericórdia, no perdão divinos, nosso coração experimenta paz. Shalon.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Nosso coração versus Deus - I João 3:20

“quando o nosso coração nos condenar. Porque Deus é maior do que o nosso coração e sabe todas as coisas.” (1 João‬ ‭3:20‬)

"Coração", na cultura bíblica, é expressão que indica a sede, o motor, o centro decisório de nossas boas ou más escolhas. Por isso um rei escreveu: "sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida." (Pv. 4:23).  

O coração é misterioso. Ele "tem razões que a própria razão desconhece". Ele tem lógica própria. É capaz, por isso, inclusive de nos enganar, como declarou o profeta: "enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?" (Jer. 17:9). Assim, ainda que devamos estar atento à sua voz, em vez de aceitá-la ou rejeitá-la de maneira irrefletida e absoluta, o melhor é avaliá-la com cautela antes de seguí-la.

Quando nosso coração nos condenar, uma vez avaliada e confirmada a justeza do motivo, a ansiedade e o desespero decorrentes não devem tirar nossa tranquilidade. Melhor é confiar em Deus e a ele recorrer, pois ele conhece o que fizemos, o porquê de tê-lo feito e as estruturas internas e externas que nos moveram. Ele está sempre pronto a nos perdoar e nos dar novas oportunidades de recomeço, em vez de simplesmente nos condenar, como o nosso próprio coração faria.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O amor como garantia da verdade - I João 3:19

“Assim saberemos que somos da verdade; e tranquilizaremos o nosso coração diante dele” (1 João‬ ‭3:19‬)

Vivemos a era das polarizações. Com o advento das redes sociais e a extraordinária ampliação das possibilidades de expressão de pensamentos e sentimentos,  aquilo que era privilégio de meia dúzia de mortais - veicular opiniões - tornou-se possibilidade real de uma esmagadora maioria. Hoje podemos expressar em tempo real o que pensamos, mesmo que, muita vez, sem pensar, atraindo iguais e retraindo, até com violência, desiguais.

Cada um e seu gueto, sua tribo, com sua indubitável e, portanto, inquestionável verdade, atropela o outro como um rolo compressor. Não há uso inteligente do cérebro, nem humildade mínima para reconhecer a máxima: "cada ponto de vista é a vista de um ponto" e, assim, admitir, ainda que por segundos, a possibilidade do seu "ponto de vista" impossibilitar que a pretensa verdade seja tão verdadeira como parece.

Podemos, porém, mudar totalmente esse quadro, levando a sério o ensino joanino: amar é a única atitude que nos garante pertecermos a verdade. Cultivando esse paradigma, a profunda convicção de estarmos com a verdade se manifestaria amorosamente com a mesma força, garantindo corações e relacionamento melhores com Deus e com os que nos cercam.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Amor em ação e verdade - I João 3:18

“Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade.” (1 João‬ ‭3:18‬)

Dizer que amamos nos faz bem. Ouvir alguém dizer que nos ama, também. As palavras têm um forte efeito em nossas vidas e são capazes de mudar nosso rumo. Falar, porém, como diz o ditado, é fácil; fazer é que são elas. Falar é fácil, difícil é colocar o guizo no pescoço do gato.

Amar é uma atitude. Amar é uma decisão. Amar é uma escolha. Amar é uma ação. Amar é um sentimento que nos impulsiona a agir em favor de alguém que necessita de nós. Pode ser alguém de quem não gostamos. Pode até ser um inimigo. Mas se está necessitado e podemos ajudar, somos desafiados a amar agindo, ajudando, como manifestação de amor.

Amar em verdade, ou seja, a nossa ação em favor de alguém deve ser retrato, realização, daquilo que dizemos ser o sentimento que domina nosso coração. Coerência. Apenas dizer que sentimos amor, sem transformar isso em ações concretas, objetivas, em favor da pessoa que dizemos amar, não seria amor verdadeiro e esse tipo de atitude deve ser descartado de nossas vidas.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Incompassiva disputa - 1 João 3:17

“Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (1 João‬ ‭3:17‬)

Há relação entre amor de Deus, irmão necessitado, recursos materiais e compaixão?  A resposta está obvia nas palavras de João, que coloca dúvida na presença do amor de Deus no coração de quem se fecha, incompassivo, diante da necessidade do irmão.

Alguns disputarão: "...isto vos mandamos, que, se alguém não quer trabalhar, não coma." (2 Tess. 3:10). Outro gritará: "os pobre, sempre os tendes convosco" (Mc 14:7). Outro se contraporá: "Aquele que roubava, não roube mais. Antes trabalhe, fazendo com as suas próprias mãos alguma coisa de bom, para que assim tenha com que ajudar aos pobres." (Ef. 4:28). Ou ainda: “Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer.” (Gálatas‬ ‭2:10‬). Nessa disputa, o necessitado padecerá por falta de compaixão.

Quando, porém, o amor de Deus se faz presente no coração, o jogo imaturo, egoísta, politizado, de textos bíblicos, como fundamentação, se desfaz. Se estou a caminho e vejo alguém espancado e saqueado, não pergunto se devo ou não ajudá-lo. Simplesmente, movido pela compaixão que a presença do amor de Deus produz, amo, penso e ajo. Simples assim.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Ser amado e amar - I João 3:16

“Nisto conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos.” (1 João‬ ‭3:16‬)

Não sei se Robert Estienne, erudito francês que dividiu em versículos os capítulos do Novo Testamento, em meados do século XVI, tinha consciência da relação temática entre João 3:16 e I João 3:16. É que a relação é muitíssimo interessante porque os dois textos se complementam quanto às dimensões vertical e horizontal do amor manifesto em Cristo Jesus.

Interessante também é nosso comportamento diante dos dois textos. O primeiro - "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer nâo pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo. 3:16) - sabemos de cor (to know by heart) . Já o segundo - I João 3:16 - raramente encontramos alguém que o recite.

No primeiro, somos beneficiados pelo amor de Deus que deu seu filho em nosso favor. O segundo, entretanto, nos desafia a dar nossa vida "por nossos irmãos". Memorizar um texto que fala do amor de Deus por nós parece motivar-nos mais do que um que nos desafia a amar de maneira prática. Porém, o desafio está posto.



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Ódio versus Vida Eterna - I João 3:15

“Quem odeia seu irmão é assassino, e vocês sabem que nenhum assassino tem a vida eterna em si mesmo.” (1 João‬ ‭3:15‬)

Já sabemos que, em João, vida eterna não tem significado escatológico. Não significa primeiramente, portanto, uma experiência futura, em outro lugar. Antes, é uma experiência presente, que ocorre na psique e se irradia, contagiando todas as demais dimensões da existência humana.

O ódio é o acúmulo de um sentimento negativo, consciente ou inconscientemente, contra alguém, motivado por ofensa sofrida, que não foi saudavelmente canalizado, por medo, impotência, conveniência política, enfim. Por ser uma energia negativa guardada na alma, ele corrói a existência, causando enfermidade e dor a quem o alimenta e aos que estão ao redor.

O ódio, portanto, assassina a vida de quem por ele é possuido e é gatilho contra a vida de quem dele é alvo. É incompatível com a vida de quem declara-se discípulo de Jesus. Saber disso deve nos estimular a lidar melhor com nossos medos e ofensas, a fim de não negarmos a vida eterna recebida em Cristo Jesus, tornando-nos assassinos.




segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Graça para amar - I João 3:14

“Sabemos que já passamos da morte para a vida porque amamos nossos irmãos. Quem não ama permanece na morte.” (1 João‬ ‭3:14‬)

Quando eu era adolescente, li um livro do evangelista Billy Graham no qual ele ilustrava que seu cachorro não fumava, não bebia bebidas alcoólicas, não ia ao cinema, não dançava, enfim, nem por isso poderia ser identificado como uma nova criatura em Cristo.

João nos aponta vários traços que caracterizam a personalidade de uma pessoa que teve um encontro com Jesus. Exemplos: não anda em trevas, isto é, fora da comunhão, (1:6); se assume como pecador (1:10); obedece os mandamentos de Jesus (2:3); anda como Jesus andou (2:6); não odeia seu irmão (2:9); pratica a justiça (2:29); não permanece no pecado (3:6); não pratica o pecado (3:9) e ama os irmãos (3:14). A partir deste ponto (3:14), outros traços continuarão a aparecer, mas o amor passa a ser o principal foco da carta.

É importante termos clareza desses traços espirituais de personalidade dos seguidores de Jesus e nos empenharmos para que se tornem evidentes em nossas vidas. Porém, importante também é nos lembrarmos de nossas limitações humanas e do indispensável reconhecimento da nossa dependência da graça divina, sem a qual nada seremos capazes de produzir.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Odiados sim; odiosos, jamais! - I João 3:13

“Meus irmãos, não se admirem se o mundo os odeia.”
 (1 João‬ ‭3:13‬)

A possibilidade de sermos odiados em função da fé que professamos é real. Jesus alertou-nos: “Todos odiarão vocês por causa do meu nome.” (Lc. 21:17‬). Paulo declarou: “De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” (2 Tim. 3:12‬). 

Há, porém, um detalhe que faz diferença: uma coisa é ser odiado, outra, odioso. Pode-se ser odiado por pessoas más, quem se empenha em viver corretamente. José do Egito, por exemplo (Gen. 39). Odioso, entretanto, é aquele cuja própria natureza é má.

Pressupõe-se que a natureza de um discípulo de Jesus seja amorosa e não odiosa. Se é amorosa, cai na graça do povo (Atos 2:42-47). Cabe, então, as palavras de Lloyd-Jones, citadas por John Stott: "A glória do evangelho é que, quando a igreja é absolutamente diferente do mundo, ela invariavelmente o atrai. É então que o mundo se sente inclinado a ouvir sua mensagem, embora talvez no princípio a odeie".

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Cada um por si, mal para todos - I João 3:12

“Não sejamos como Caim, que pertencia ao Maligno e matou seu irmão. E por que o matou? Porque suas obras eram más e as de seu irmão eram justas.” (1 João‬ ‭3:12‬)

Na narrativa bíblica da criação, Caim é irmão de Abel, ambos filhos de Eva e Adão. Trabalhavam na agropecuária e ofertavam a Deus parte do produto do trabalho. Certa vez, Deus aceitou a oferta de Abel e rejeitou a de Caim. Caim enfureceu-se. Deus, então, esclareceu que a rejeição não era ao produto, mas à sua má conduta. Conduta corrigida, oferta aceita, problema resolvido.

Caim, entretanto, transformou o irmão em Bode Expiatório. Em vez de corrigir a própria conduta, optou por matá-lo. Matou-o sem justificativa objetiva. Inveja? Rancor? Pura maldade? Para João, embora ambos tivessem a mesma origem biológica, a ação de Caim decorreu de sua escolha de vida: pertencer ao Maligno.

Cada um escolhe o rumo de sua vida.  Porém, uma má escolha não prejudica apenas a quem a escolhe. Pode significar a morte também de quem faz escolhas certas.  O bem e o mal que escolhemos, pode ser o bem e o mal de quem não escolheu. Quando cada um vive para si, o mal pode sobrevir a todos. Portanto, não  dá pra não se interessar pelas escolhas do outro. Harmonizar direitos individuais e interesses coletivos sempre será um desafio, mas enfrentá-lo é necessário. Ser indiferente, jamais.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Mensagem Original - I João 3:11

“Esta é a mensagem que vocês ouviram desde o princípio: que nos amemos uns aos outros.” (1 João‬ ‭3:11‬)

Não há discurso mais antigo da fé cristã precisando ser conservado ou, talvez, restaurado, priorizado e enfatizado do que esse. Ele nos remete à mensagem original de Jesus, nosso Senhor e Salvador. Não há, entretanto, discurso mais esquecido em nossos diálogos, pregações e práticas. 

Somos diferentes. Sentimos diferente. Pensamos diferente. Reagimos diferente. Nossa cultura familiar e social são diferentes. Nossas circunstâncias são diferentes. Nossa percepção da realidade é diferente. Nossas histórias são diferentes. Conflitos, portanto, são inevitáveis.

Podemos, entretanto, trabalhar para que nossas diferenças gerem beleza e não doença, gerem tensões criativas e não doentias e consigamos nos manter em níveis agradáveis de convivência. Isso somente é possível se, acima de tudo, estivermos comprometidos com esta mensagem original de Jesus: "que nos amemos uns aos outros".

domingo, 12 de novembro de 2017

Filhos de Deus ou do Diabo? - I João 3:10

“Desta forma sabemos quem são os filhos de Deus e quem são os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não procede de Deus, tampouco quem não ama seu irmão.” (1 João‬ ‭3:10‬)

Quer identificar quem é filho de Deus e quem é do Diabo? João responde que a resposta as seguintes perguntas indicam como saber: pratica a Justiça? Ama seu irmão?

Filiação espiritual segundo João, repito, não é uma mera consequência de nossa condição de criaturas. Esse fato não nos coloca na condição de filhos de Deus, pois isso se dá por afinidade de natureza espiritual, identificada através dos frutos que a vida de cada um apresenta.

E tudo o que sei sobre doutrinas bíblicas? E o fato de pertencer a uma denominação religiosa com marca respeitada, com poder político e econômico? E o fato de ser fiel aos costumes - moral - tradicionais da cultura onde me desenvolvi? E o fato de ser assíduo aos serviços religiosos de minha igreja? E a minha fidelidade na entrega regular de dízimos e ofertas? João responderia: se não forem decorrentes de uma vida amorosa e justa, sua paternidade não será divina.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Nascido de Deus - I João 3:9

“Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus.” (1 João‬ ‭3:9‬)

Vivi um tempo em que ir ao cinema, cantar MPB ou mulher usar calça comprida, maquiagem ou bijuterias eram tidos como pecado por grande parte dos evangélicos.  Esses são apenas alguns dos muitos possíveis exemplos de como costumes, tradições, vistos como pecado, deixaram de fazer parte da lista dos comportamentos proibidos por igrejas.

Isso não significa que o fenômeno pecado deixou de existir, mas que o enquadramento de determinados costumes, antes entendidos como pecaminosos, foram reavaliados à luz de novas compreensões. Para que um comportamento fosse classificado como pecado passou a ser necessária a especificação dos malefícios que causaria à pessoa praticante, a terceiros ou ao meio ambiente e nâo apenas ser costume - mores - ou tradição.

Uma pessoa consciente, autônoma, que de fato foi agarrada - expressão usada por Kierkgaard - pelo amor de Deus, que foi alcançada pela graça preciosa - expressão de Bonhoeffer -, portanto nascida de Deus - expressão de João -, jamais sentiria prazer em viver pecando, ainda que suceptível ao pecado.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Jesus e o Diabo - I João 3:8

“Aquele que pratica o pecado é do Diabo, porque o Diabo vem pecando desde o princípio. Para isso o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo.” (1 João‬ 3:8)

Biblicamente, o Diabo é o pecador de referência, o pecador-padrão, o pecador-mor. Ele não é o "pecador do mês", mas dos séculos. Não é aquele humano que circunstancialmente comete desvios em face de um ambiente que serve de gatilho para sua genética pecaminosa, mas um pecador contumaz, consciente. Seria, digamos, a própria encarnação do pecado.

Jesus de Nazaré é o antídoto. Sua missão foi destruir o que o Diabo fez e faz na vida humana. ““O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor”.” (Lucas‬ ‭4:18-19‬)

O Diabo é o ladrão de vida. "O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir...". Jesus é o restaurador da vida. "...eu vim para que tenham vida e a tenham plenamente.” (João‬ ‭10:10‬). Nossas escolhas e praticas indicam a quem estamos efetivamente vinculados, o tronco do qual nos nutrimos.

domingo, 5 de novembro de 2017

Não se deixe enganar - I João 3:7

“Filhinhos, não deixem que ninguém os engane. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo.” (1 João‬ ‭3:7‬)

No afã de levar alguma vantagem, de impor seu modo de pensar, de impor-se politicamente, enfim, parte das pessoas não tem nenhum constrangimento em enganar outras. Isso se dá em todos os setores e atividades da vida. Daí o imperativo: "não deixem que ninguém os engane". 

Para isso é necessário perspicácia, isto é, usar a inteligência, desenvolver a capacidade de percepção, prestar atenção à realidade, aos discursos e, principalmente, às ideologias subjancentes a eles. Isso exige empenho, determinação, foco, estudo, reflexão... Nas palavras de Jesus: "ser simples como as pombas e prudentes como a serpente".

Não se trata de tornar-se um paranóico, mas de ter consciência da possibilidade de sermos enganados e não permitir que isso ocorra. Conferir discurso e prática, por exemplo, é um caminho para identificar enganadores.  A prática da justiça, por exemplo, não apenas o discurso em defesa da justiça, é que nos torna justos, como justo foi Jesus de Nazaré.

sábado, 4 de novembro de 2017

Incompatibilidade - I João 3:6

“Todo aquele que nele permanece não está no pecado. Todo aquele que está no pecado não o viu nem o conheceu.” (1 João‬ ‭3:6)

É possível ser "crente" e conviver com pecado. Os demônios, por exemplo, são "crentes" de estremecer, segundo Tiago, mas convivem com mentira, homicidio, perseguição, engano, furia, injuria, injustiça, opressão,  tentação, destruição, ardilosidade, orgulho, sedução, enfim, convivem com o que é pecaminoso.

Aquele, porém, que convive na comunhão com Jesus, está sujeito a pecar, mas não faz do pecado sua escolha, seu estilo de vida. Sua convivência com o que é efetivamente pecaminoso não é amistosa e seu coração está sempre ligado na graça divina em busca de libertação, pois sabe que aquilo que é, de fato, pecado, à saude não faz bem.

Para João, conhecer a Jesus e estar em pecado é algo incompatível, isto é, não combina. É conflitante conhecer a Jesus e continuar convivendo com aquilo que é nocivo à própria vida, à vida da coletividade, ao ambiente no qual a vida se desenvolve. O pecado sempre será aquilo que adoece, que destrói a vida e Jesus sempre o que cura, o doador de vida, a própria vida. Dai pecado e vida em Jesus serem incompatíveis.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Conhecimento, pecado e vida - I João 3:5

“Vocês sabem que ele se manifestou para tirar os nossos pecados, e nele não há pecado.” (1 João‬ ‭3:5‬)

Conhecimento é resultado da interação de nossos corpos com a realidade que nos cerca, inclusive a virtual. Isso se dá através dos sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato). Essa interação é mediada por linguagem e processada em nosso cérebro. É mais, portanto, do que recepção e memorização de informações. É transformação de informações em significados que, por sua vez, ganham nova vida através de atitudes, palavras e ações.

Pelas palavras de João, a qualidade de vida denominada por ele de eterna deveria estar vinculada ao conhecimento que teríamos da razão de ser da vinda de Jesus e de sua natureza pessoal. Jesus manifestou-se para tirar os pecados -"Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" - sendo, ele próprio, sem pecado. O conhecimento disso deveria nortear nossa vida como paradigma.

Lembremo-nos, porém, de que aos olhos dos fariseus, Jesus era pecador. Tanto ele, por exemplo, quebrava a lei do sábado, quanto apoiava seus discípulos quando assim procediam. Cito isso para dizer que, se não construirmos um conhecimento adequado do que seja pecado, continuaremos sendo escravos dele mesmo conhecendo que Jesus não tinha pecado e veio para libertar-nos dele.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O gosto agridoce do pecado - I João 3:4

“Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei.” (1 João‬ ‭3:4‬)

Gostar ou não gostar da palavra pecado é direito de cada um. Se em alguma situação da vida ela foi aplicada de maneira equivocada, traumatizou e desagradou, isso não altera o fenômeno, seus significados e efeitos. Pecado faz parte de nossas vidas e suas consequências podem ser desagradáveis, ainda que, num dado momento e circunstância gere prazer.

É pouco relevante, também, a que lei João se refere, como pouco relevante seria, nesta devocional, discutirmos se quebramos a lei por causa do pecado ou se pecamos por causa da quebra da lei. O fato é que a transgressão da lei não é somente consequência de pecado, mas é também um tipo de pecado e traz consequências. 

Reafirmar o "pecado" não visa alimentar paranóias, ratificar podres poderes, reforçar culpas ou moralismos, mas reconhecer o fenômeno, o problema e as consequências. Exemplo: quem desobedece a lei no trânsito o faz pensando em ganhar tempo, fugir de obstáculos, mas pode gastar dinheiro com multa, perder o direito de dirigir por seis meses, além de colocar em risco sua vida e a do outro. Filosofando, psicologando, teologando ou não, o fato é que "pecado" - transgredir a lei - pode ser até prazeroso, mas também produz múltiplas e dolorosas consequências.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O Seminário "liberal" onde estudei

"Há sempre algum proveito quando o mestre não é de inteira confiança: o aprendiz precisa convencer-se a si mesmo sobre as verdades" (Soren Kierkgaard, em "As obras do amor")

Estudei em um seminário taxado pejorativamente de "liberal". Digo pejorativamente porque há um misto de desonestidade e pequenez intelectual em quem a ele aplica este termo. 

DESONESTIDADE, porque a intenção de quem usa o termo não visa construir pontes em busca do fortalecimento da unidade na diversidade. Antes, quem assim o taxa geralmente é um construtor de muros, amante da discriminação alheia, em busca de proteção  do próprio status quo, de sua zona de conforto, do incômodo de quem o contesta, da hegemonia do seu poder.

PEQUENEZ INTELECTUAL porque o termo liberal pode significar tanta coisa que, por paradoxal que possa parecer, até de conservador pode ser sinônimo. Por exemplo: o capitalista conservador é liberal, pois defende a manutenção do liberalismo nas relações de mercado. Para ele, conservar as relações de produção e consumo distantes do controle do Estado seria o melhor caminho à vida em sociedade. 

Outro exemplo: os batistas nasceram sob a bandeira da defesa da liberdade. Liberdade de crença, de pensamento, de opinião, de interpretação das Escrituras, de reunir-se, de organizar-se, de autogerir-se como igreja local, de cooperar com outras igrejas e não controlá-las, defendendo tudo isso bem distante das "garras" do Estado que controlava a Igreja Anglicana e as manifestações religiosas na Inglaterra do século XVII.  

Logo, ser um batista conservador deveria ser apegar-se e lutar para conservar essas raizes "liberais". Isso, entretanto, contraria  o agir daqueles que se autodenominam "conservadores", cuja praxis - teoria e prática - insiste em pretender uniformizar e controlar o pensamento coletivo, movido por uma visão político-empresarial diametralmente oposta aos exemplos de Jesus e que, sob pretexto de unificar forças visando fortalecimento denominacional e crescimento numérico, estão agindo como o Estado inglês agia com os insurgentes da igreja quando do nascimento do movimento batista.

O seminário "liberal" onde estudei era - e era aqui não significa juizo de valor sobre o que hoje é, mas minha percepção histórica dos tempos em que lá estudei - um espaço PLURAL. Embora autônomos e com senso crítico regido por razão, não por rancor, não percebia postura desafinante da parte dos professores com os quais estudei em relação à denominação mantenedora. Era visível o predominante conservadorismo em torno do respeito à liberdade de pensamento no corpo docente.

Essa pluralidade - que alguns equivocada, maldosa e pejorativamente classificam como "liberalismo" - foi decisiva no preparo de muitos líderes com postura de "servos não subservientes" que têm se destacado em todos os espaços  decisórios dentro e fora da denominação batista.

No seminário "liberal" onde estudei, éramos estimulados a ler diretamente o que pensavam os que pensavam a teologia, a missão, a eclesiologia, enfim, em vez de ficarmos restritos ao pensamento dos professores sobre o que pensavam os que pensavam esses assuntos. Os professores expunham seus pensamentos, tinham opinião própria, mas o espírito não era substituir a cabeça do aluno por suas cabeças, pois isso não seria educação desejável, mas lavagem cerebral. 

Ninguém é exclusivamente liberal ou conservador. A pessoa consciente de sí, do grupo com o qual caminha e dos grupos alternativos ao seu redor, reconhece que esses conceitos precisam ser continuamente entendidos, redefinidos, e se misturam em nós - trocadilho -, em maior ou menor grau, dependendo do assunto e do contexto. Apequena-se, portanto, quem usa a palavra "liberal" politico-teologicamente de forma pejorativa, visando desvalorizar, marginalizar ou destruir o outro, seja por ignorância ou má-fé.

Tornei-me um pastor e líder  conservador quanto aos princípios da tradição batista mais antiga por ter estudado em um seminário cujos professores foram competentes, honestos e tiveram autonomia para nos ensinar a estudar, em vez de programar nossas jovens mentes para tornar-nos meras mãos e mentes de obra manipuláveis por pessoas inescrupulosas que se aproveitam daqueles que cultivam boa-fé 

Qualificar o seminário onde estudei de "liberal" é um elogio, se entendido o significado amplo dessa palavra e seu vínculo com as mais remotas histórias dos batistas. Por outro lado, chamá-lo de "conservador", em termos populares, como usado por alguns político-ideólogos de religião, pode ser agressivo às histórias dos batistas, pois esses ideólogos, em vez de conservarem o espírito de liberdade, criam camisas-de-força, identificando-se com, repito, o Estado inglês do século XVII do qual nos libertamos, quando levantamos a bandeira da liberdade para nós e para todos.

Em resumo: no Seminário "liberal" onde estudei, fomos estimulados a considerar seriamente a veracidade das palavras de Jesus: "Eis que vos envio como ovelhas em meio a lobos, portanto, sejam simples como as pombas, mas prudentes como as serpentes". Ainda bem que estudei nesse Seminário "liberal" e aprendi bem essa lição!

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Esperança - I João 3:3

“Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro.” (1 João‬ ‭3:3‬)

Vivemos em função do que almejamos nos tornar, seja daqui a pouco, seja daqui a muitos anos, em todas as dimensões de nossas vidas. Mesmo sem nos darmos conta, sem termos plena consciência, sem, portanto, planejarmos estrategicamente, é sempre uma realidade nova, ou no mínimo diferente da vigente em determinado momento, que nos move todo instante. 

Somos um eterno vir-a-ser, movidos à esperança. Esperança que não deve ser confundida com a passividade do verbo esperar, mas com a expectativa motivada pelo desejo de melhoria, de mudança. Por isso "a esperança é a última que morre", pois é ela que anima e norteia nossas decisões.

A esperança fundamentada em Jesus produz muitos bons desejos e nos conduz a mudanças. Uma delas é o desejo de purificação. Não uma purificação por razões político-puristas, até porque o purismo é uma ilusão, ou mesmo moralistas, mas pelo desejo de vida plena,  de saúde - ou santidade na linguagem sacerdotal -, para si e para todos, em todas as áreas da vida, fruto da comunhão com Deus.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Pessoas mais amorosas - I João 3:2

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é.” (1 João‬ ‭3:2‬)

À luz das narrativas bíblicas, podemos distinguir três condições diferentes sob as quais a humanidade tem vivido com Deus: 1) a de criatura; 2) a de pacto; 3) a de amor. É por essa razão que João trata, nós seus leitores, como amados. Em Jesus, estamos sob a supremacia do amor divino.

Hoje, então, não apenas somos criaturas ou temos um pacto - relação jurídica caracterizada por leis -, mas experimentamos uma relação amorosa. Essa relação amorosa de intimidade com Deus é transformadora, pois o amor é a mais eficaz arma de transformação positiva da realidade humana. 

O que nos tornaremos como consequência dessa relação amorosa com Deus? Como isso impactará nossa vida? João diz não saber. Mas sabe que seremos semelhantes a Deus, pois fomos criados à sua imagem e semelhança. Certamente, então, o que nos espera é muito melhor do que somos e enxergamos, até porque, se Deus é amoroso, nos tornaremos, no mínimo, pessoas mais amorosas. Isso é o céu.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Filhos de Deus - I João 3:1

“Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: sermos chamados filhos de Deus, o que de fato somos! Por isso o mundo não nos conhece, porque não o conheceu.” (1 João‬ ‭3:1‬)

Todos somos filhos de Deus. Todos fomos criados por Deus. Assim creio, juntamente com mais de 95% da população do planeta e Satanás que se declaram crentes na existência de um ser que está por detrás (ou para além) da existência, denominado "Deus" em língua portuguesa. (Os outros menos de 5%, por fé ou outro motivo, optam por negar ou desconsiderar um "Deus" como criador).

João, porém, introduz uma nova definição para o conceito "filho de Deus", a partir de outro marco histórico-teológico que é Jesus. Assim como a mãe, cuja filha que foi baleada no Colégio Goyases, em Goiania, declarou a data do crime como um novo marco de nascimento da adolescente, assim também, João trata a experiência humana com Jesus como uma espécie de "refiliação", declarando que, em Jesus, alcançamos uma nova condição de filhos.

O novo pressuposto estabelecido indica que "filho de Deus" não se define pela condição de criatura, mas pela relação amorosa vivenciada entre Deus e a humanidade através do elo Jesus. Essa nova condição gera estranheza naqueles que não a experimentaram porque altera as atitudes, palavras e ações daqueles que com Jesus - não com uma instituição religiosa primeiramente - se comprometeram.

sábado, 21 de outubro de 2017

Ser Justo - I João 2:29

“Se vocês sabem que ele é justo, saibam também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele.” (1 João‬ ‭2:29‬)

A vida não é justa. Wayne W. Dyer escreveu em "Seus pontos fracos": "Se o mundo fosse organizado de tal forma que tudo tivesse que ser justo, nenhum ser vivo poderia sobreviver nem um dia. Os pássaros seriam proibidos de comer os vermes e o interesse pessoal de cada um teria que ser atendido". 

Nenhum de nós é justo. Está escrito: "Não há um justo, nem um sequer." (Rom. 3:10). E se não estivesse escrito, saberíamos por experiência, por constatação. Portanto, nossa postura de entusiasmo frente a vida não deve alimentar-se de expectativas irreais. Nem é bom dependermos, para nos sentirmos felizes, de algo impossível de concretizar-se, pelas próprias características da vida no planeta.

O desafio joanino é que, inspirados em Jesus, tenhamos "fome e sede de Justiça" e sempre consideremos o bem estar comum em tudo o que dissermos ou fizermos. E que, em cada situação de injustiça com a qual nos depararmos, lutemos para que o reparo seja feito e a justiça brilhe. Essa é uma das evidencia nossa relação com Jesus.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Jesus, Igreja e Bíblia - I João 2:28

“Filhinhos, agora permaneçam nele para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança e não sejamos envergonhados diante dele na sua vinda." (1 João‬ ‭2:28‬)

Há dois elementos da fé cristã que são extremamente essenciais: Igreja e Bíblia. A Igreja como resultado da missão de Jesus, como corpo do Cristo, como família de Deus, como comunidade do Espírito, como sinal e laboratório do Reino, enfim, e a Bíblia como inspirada por Deus para revelar o caminho de uma vida saudável ou santa, na linguagem sacerdotal ou eterna, na linguagem joanina, em Cristo Jesus.

Igreja e Bíblia são extremamente importantes no projeto divino, mas jamais a ponto de ter primazia sobre aquele que, por suas atitudes de serviço, humildade e obediência foi elevado acima de todo o nome, diante do qual "todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor". Pelo contrário, Igreja e Bíblia sempre deverão ser entendidas à luz da vida e ensinos de Jesus.

O foco de qualquer cristão é manter-se unido a Jesus, não somente em termos místicos, existenciais, mas especialmente pedagógicos, aprendendo diariamente com sua vida e ensinos e, a partir desses - vida e ensinos -, confrontando e avaliando a si mesmo e a realidade ao redor. Jesus, Igreja e Bíblia são, na prática, inseparáveis, mas o que faz toda diferença é o foco primeiro de nossa atenção: Jesus. Ele é o diferencial no aqui e agora, na qualidade de nossas relações com pessoas e coisas, e no porvir "diante dele na sua vinda".

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Unção, ensino e Bíblia - I João 2:27

“Quanto a vocês, a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas, como a unção dele recebida, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele como ele os ensinou.” (1 João‬ ‭2:27‬)

Não são poucos os que nos apresentam cotidianamente, alternativas de caminhos de vida, em termos religiosos, filosóficos, enfim. São caminhos apresentados tanto por quem caminha contra ou em paralelo a nós, quanto até por quem caminha institucionalmente ao nosso lado.

Porém, sabemos o caminho a seguir e isso não é fruto de apologética. Apologética é necessária a racionalistas, a quem precisa sustentar-se em provas, vivendo, portanto, por vista e não por fé. Não seguimos Jesus porque na Bíblia está escrito: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida e ninguém vem ao pai senão por mim" (Jesus). Ou "Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" (Pedro). Isso seria fundamentar a fé em um livro, não em uma pessoa. A Bíblia é essencial, mas por causa da pessoa de Jesus.

O fundamentalismo teológico surgiu como contraponto ao iluminismo, na tentativa de racionalizar a experiência espiritual usando linguagem e metodologia científica. Não conseguiu, entretanto, produzir pessoas melhores - pelo contrário - do que as que seguem Jesus pelo sentido espiritual e existencial gerado pela fé e pela convicção interior, inclusive com base em observação exterior, de que seguir as atitudes de Jesus nos eleva como seres criados à imagem e semelhança de Deus. Sem desmerecer a importância do ensino das Escrituras para nossas vidas, ATÉ PORQUE SÃO ELAS QUE DE JESUS TESTIFICAM, é a unção que nos sustenta no caminho, diz João.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Enganadores - I João 2:26

“Escrevo estas coisas a respeito daqueles que os querem enganar.” (1 João‬ ‭2:26‬)

Todos nós nos enganamos, isto é, cometemos erros seja por ignorância, falta de atenção, zelo excessivo, paixão ou limitações outras. Isso não elimina as consequências naturais do erro cometido, mas pode atenuar aquelas que são passíveis de punição.

Não só nos enganamos, mas também acabamos por enganar aqueles que, seja por imposição hierárquica, seja por aceitarem nossa liderança, seguem pelos caminhos que abrimos sem a devida reflexão e reação. Façamos, portanto, diferença entre os que se enganam e enganam agindo com boa-fé e aqueles que enganam agindo com má-fé, com segundas intenções.

Se todos nos enganamos ou estamos sujeitos a ser enganados, estudar os assuntos e os comportamentos humanos nos ajudam a diminuir os riscos de sermos vítimas de enganos ou de nos tornarmos enganadores. Por outro ângulo, se não posso julgar as intenções dos enganadores, posso, estando atento, estudando, reduzir o risco de enganar-me. Este é o papel intencional das Escrituras joaninas: ajudar-nos a não sermos enganados. Nem enganar, diria eu.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Promessa de vida eterna - I João 2:25

“E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna.” 
(1 João‬ ‭2:25‬)

Em João, repito, o conceito "vida eterna" tem a ver com uma qualidade de vida cujo início se dá não após a morte do corpo, mas a partir da plantação da semente do evangelho no coração.  Essa foi a vida prometida por Jesus quando declarou: ““Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.”  (João‬ ‭3:16‬)

Porque Jesus prometeu por amor, amorosamente, nós que dizemos nele confiar, que nos autodenominamos seus seguidores, seus discípulos, nos com-prometemos a amar. Porque a vida prometida por Jesus decorre do amor de Deus, nós também nos com-prometemos a conviver em amor e dele deixar brotar nossas atitudes, palavras e ações. 

Se vivemos numa cultura na qual promessas não são valorizadas, comprometer-se também não é um produto em alta. Talvez disso decorra a qualidade muito moralista - com todo respeito a moral -, mas pouco amorosa dos compromissos de parte barulhenta dos que se apresentam nas mídias como humildes porta-vozes, advogados e únicos proprietários da "palavra de Deus".

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Conservar - I João 2:24


“Quanto a vocês, cuidem para que aquilo que ouviram desde o princípio permaneça em vocês. Se o que ouviram desde o princípio permanecer em vocês, vocês também permanecerão no Filho e no Pai.” (1 João‬ ‭2:24‬)

Nem tudo que ouvimos desde a nossa infância deve ser conservado, nem tudo que ouvimos desde a nossa infância deve ser rejeitado. Não é o rótulo de antiguidade ou de modernidade que torna uma coisa boa ou ruim. 

Entre tudo o que foi dito no passado e está sendo dito no presente estamos nós, com o poder e a liberdade de julgar e decidir entre o que deve ser conservado e o que deve ser rejeitado em cada contexto no qual estivermos inseridos. Contamos com um coração e um cérebro dados por Deus, além do auxílio do Espírito Santo, da vida e ensinos de Jesus, dos "céus que proclamam a glória de Deus", das Escrituras que revelam a interação do divino com o humano, enfim, para julgarmos e decidirmos.

Essencial é não abrirmos mão da boa notícia de que em Jesus, não no catolicismo, no protestantismo, no pentecostalismo ou qualquer outro ismo, a graça e a verdade divinas se materializaram. Ou, como escreveu João: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.” (João‬ ‭1:14‬). Disso não devemos abrir mão.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Deus e (m) Jesus - I João 2:23

“Todo o que nega o Filho também não tem o Pai; quem confessa publicamente o Filho tem também o Pai." (1 João‬ ‭2:23‬)

Falando de Jesus, João inicia seu evangelho dizendo: “No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens.” (João‬ ‭1:1-4‬).

Relatando o momento em que Jesus se despede dos discípulos, João descreve Tomé perguntando-lhe sobre o caminho. Ao responder Jesus identifica-se como sendo Deus dizendo: "ninguém VEM ao pai senão por mim" e reafirma que quem o conhece, conhece o Pai. Filipe, então, pede que ele lhes mostre o Pai, ao que ele responde: "Quem me vê, vê o pai" (Jo 14).

Para João, portanto, Jesus encarnava Deus, claro, naquilo que podemos e necessitamos conhecer para que nossa vida encontre sentido e se fortaleça na fé, na esperança e no amor. Daí sua afirmação: dizer não a Jesus é dizer não a Deus, confessar a Jesus é confessar a Deus. 

domingo, 8 de outubro de 2017

Mentiroso - I João 2:22

“Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo: aquele que nega o Pai e o Filho." (1 João‬ ‭2:22‬)

"“Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era seu costume. E levantou-se para ler. Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. Abriu-o e encontrou o lugar onde está escrito: 'O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor'. Então ele fechou o livro, devolveu-o ao assistente e assentou-se. Na sinagoga todos tinham os olhos fitos nele; e ele começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir”.” (Lucas‬ 4:16-21)

“Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: “Quem os outros dizem que o Filho do homem é?” Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas”. “E vocês?”, perguntou ele. “Quem vocês dizem que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Respondeu Jesus: “Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não foi revelado a você por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus.” (Mateus‬ ‭16:13-17)

Jesus é o Cristo, o ungido de Deus. Essa era a narrativa dos primeiros discípulos de Jesus. Essa, portanto, foi, tem sido e continuará sendo a verdade anunciada pela igreja de Jesus. Qualquer narrativa que nega isso é falsa, é mentirosa e quem a narra não é digno de confiança, é mentiroso. 

sábado, 7 de outubro de 2017

Verdades - I João 2:21

“Não escrevo a vocês porque não conhecem a verdade, mas porque a conhecem e porque nenhuma mentira procede da verdade.” (1 João‬ ‭2:21‬)

Verdade tem a ver com narrativa, tem a ver, portanto, com a relação entre um fenômeno (por exemplo, o evento Jesus) e a descrição desse fenômeno (a narrativa dos que, por exemplo, com Jesus estiveram). Quanto maior for a aproximação ao fenômeno, no tempo e no espaço; quanto mais atenta, acurada, a percepção em relação a tal fenômeno e mais profunda a consciência que a pessoa tem de suas emoções frente ao fenômeno, maior a probabilidade dela descrever, narrar o fenômeno tal qual ocorreu e sua verdade ser crível.

Essa verdade experiencial pode ou não ser igual a verdade histórica, pois essa é resultado não da experiência direta do narrador, mas de sua capacidade de juntar informações, abstrair e elaborar uma narrativa do fenômeno, com base em descrições diversas, narradas por terceiros sobre um fenômeno. E ambas - a verdade experiencial e a histórica - podem ser diferentes da verdade política - a meu ver a menos confiável - pois essa está menos interessada em descrever o fenômeno como se deu e mais a quem sua narrativa beneficia ou prejudica em termos de manutenção ou perda do poder sobre pessoas e coisas.

A leitura da carta de João nos faz perceber que havia um conflito de verdades na comunidade. Havia a verdade dos que com Jesus estiveram, que cotidianamente com ele conviveram e foram impactados por sua vida e uma outra narrativa que negava elementos essenciais do evento Jesus tal qual a comunidade conhecia. João, claro, relembrava os leitores da verdade que conheciam, mostrando a falácia das narrativas divergentes. Esse conflito de verdades sempre nos acompanhará.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Unção e conhecimento - I João 2:20

“Mas vocês têm uma unção que procede do Santo e todos vocês têm conhecimento.” (1 João‬ ‭2:20‬)

Unção era um ato cerimonial simbólico do judaísmo - tipo imposição de mãos na ordenação ao ministério pastoral ou o mergulho nas águas batismais protestantes - cujo característico era o derramamento de óleo sobre a cabeça de pessoa reconhecida oficialmente para o exercício sacerdotal.

Como linguagem figurada, a expressão bíblica foi maximizada pelo pentecostalismo, passando a ser usada para caracterizar alguém cujas qualidades carismáticas sobressaltavam aos olhos comunitários em reuniões marcadas por emoção e catarse.

Em João, "unção" - reconhecimento comunitário - e "conhecimento" deixam de ser exclusividade de uma elite religiosa ou "espiritual" e passam a ser reconhecidos como marcas de todos os comprometidos com o Cristo de Deus (ungido de Deus), Jesus de Nazaré - fonte da nossa unção -, uma vez que nele, todos se tornam sacerdotes com livre acesso a Deus, sem necessidade de intermediários, sejam pessoas ou instituiçôes.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Anticristos saem e ficam - I João 2:19

“Eles saíram do nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos, pois, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; o fato de terem saído mostra que nenhum deles era dos nossos.” (1 João‬ ‭2:19‬)

Não pode sair do nosso meio quem em nosso meio não esteve. Estiveram entre os primeiros discípulos, estão entre nós e estarão entre os que depois de nós vierem. Não nos iludamos pensando que anticristos fizeram parte somente das igrejas primitivas. Eles também, repito, estão entre nós e, talvez, nem sairão.

E mais: sair do nosso meio não é indicação de que se é um anticristo. Pelo contrário, embora sair não seja recomendável, há quem saia justamente porque pessoas com traços de anticristo não só permanecem, mas também ocupam funções e cargos na igreja, exercendo influência doentia sobre a comunidade.

Porém, querer identificar quem poderia ser anticristo entre nós, na igreja, não é uma escolha saudável. Melhor é conhecermos o caráter do Cristo, do ungido de Nazaré, e, movidos pela graça, sob a ação do Espírito Santo, nos empenharmos em nos identificar com ele e amorosamente ajudarmos os demais da igreja a fazerem o mesmo.

domingo, 1 de outubro de 2017

Moralidade seletiva (A propósito das repercussões de mostras de museus em POA e SP)

Respeito o direito daqueles que estão protestando contra algumas expressões "artísticas" apresentadas recentemente em museus de Porto Alegre e São Paulo. 

Também não se afinam - tais expressões - ao meu gosto estético. 

Também tenho minhas dúvidas quanto a teleologia pedagógica e sua ideologia ética. 

Também exige a ativação de neurônios bem acima dos que possuo para desencadear minha capacidade de abstração e de reflexão filosófica. 

Sinto-me um analfabeto artístico frente ao nível de abstração dos que conseguem apreciar tais expressões. 

Sem trocadilhos, sinto-me mais pro garoto que gritou: "o rei está nu", do que para os súditos que paparicavam: "bela camisa, fernandinho".

Mas, como já dizia minha avó, "uns gostam dos olhos; outros, da ramela". O que seria de nós se não fosse assim?

Fico, entretanto, observando as manifestações de protesto, especialmente de pessoas, igrejas e pastores com os quais mantenho vínculos afetivos e organizacionais e meus botões cerebrais são automaticamente acionados exigindo de mim respostas. 

Por exemplo: 1) por que tanto reagimos se tão avesso somos a artes em nossas igrejas ou pouco investimos nelas? 2) Por que reagimos apenas em relação à moral e silenciamos sobre ética? 3) Por que a moral sexual provoca reação e as morais econômica, política, religiosa e ecológica, por exemplo, não nos sensibilizam e silenciamos sobre elas em nossos púlpitos? 4) Seria, nosso silêncio, por traumas psicológicos, medo político ou pobreza intelectual?

Responda-me: O que causa mais dano às famílias brasileiras? Uma exposição de arte na qual meia dúzia de quem tem um pouco mais de dinheiro e teve acesso à escolaridade bem acima da média pode ver ou taxas de juros extorsivas que empobrecem os já pobres tirando das famílias o acesso à saúde, segurança, educação ou ao transporte? Uma exposição de arte ou leis injustas que aumentam as desigualdades sociais, provocando violência desenfreiada?

Estava pensando no seguinte, em termos bíblicos, como nossa moralidade é seletiva:

1. Quem silencia deve gostar da imoralidade dos juros de 400% aa no Brasil, a despeito do que nos declara este Salmo: “Senhor, quem habitará no teu santuário? Quem poderá morar no teu santo monte? Aquele que é íntegro em sua conduta e pratica o que é justo; que de coração fala a verdade e não usa a língua para difamar; que nenhum mal faz ao seu semelhante e não lança calúnia contra o seu próximo; que rejeita quem merece desprezo, mas honra os que temem o Senhor; que mantém a sua palavra, mesmo quando sai prejudicado; que não empresta o seu dinheiro visando a algum lucro nem aceita suborno contra o inocente. Quem assim procede nunca será abalado!” (Salmos‬ ‭15:1-5‬)

2. Quem silencia deve gostar da imoralidade do fato de 6 brasileiros acumularem fortuna (herança) igual a de 100 milhões (CEM MILHÕES) de conterrâneos seus, a despeito do que nos disse Jesus: ““Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.” (Mateus‬ ‭6:19-21‬)

3. Quem silencia deve gostar da imoralidade do tratamento dado a imigrantes refugiados em muitos países ricos do planeta, a despeito do que nos diz as Escrituras: “Pois o Senhor, o seu Deus, é o Deus dos deuses e o Soberano dos soberanos, o grande Deus, poderoso e temível, que não age com parcialidade nem aceita suborno. Ele defende a causa do órfão e da viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe alimento e roupa. Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros no Egito.” (Deuteronômio‬ ‭10:17-19‬)

4. Quem silencia deve gostar da imoralidade de ítens, especialmente da discriminação desfavorável aos empobrecidos, das reformas trabalhista e previdenciária ou mesmo do REFIS que está sendo aprovado no Congresso, a despeito do que diz o profeta: “Ai daqueles que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores, para privar os pobres dos seus direitos e da justiça os oprimidos do meu povo, fazendo das viúvas sua presa e roubando dos órfãos!" (Isaías‬ ‭10:1-2‬)

É triste constatar essa moralidade seletiva, de quem se esgoela diante da moral sexual e silencia, quando não se delicia, diante da imoralidade política, econômica, religiosa ou ecológica, por exemplo, que estão sendo estampadas diariamente nas páginas dos jornais.

sábado, 30 de setembro de 2017

Anticristos em nós

“Filhinhos, esta é a última hora e, assim como vocês ouviram que o anticristo está vindo, já agora muitos anticristos têm surgido. Por isso sabemos que esta é a última hora." (1 João‬ ‭2:18‬)

Não sou afeito a escatologia. Nada, nada contra quem goste. Já investi tempo estudando o tema em seus aspectos políticos, doutrinários e literários, mas decidi priorizar aquilo que estivesse a meu alcance mudar. Oriento-me pelas palavras de Jesus: “Não compete a vocês saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade.” (Atos‬ ‭1:7‬)

Também não sou simpático a personificação do anticristo. A política religiosa e o marketing de guerra que declara líderes religiosos que não os da minha tribo como anticristos é de uma ignorância ou ma-fé brutal. Essa postura cheira "trave em meus olhos, cisco nos olhos alheios".

Prefiro estar atento a traços de anticristos que podem brotar em minha vida e na vida do grupo religioso com o qual me identifico. Isso ajuda-me a ser um discípulo mais saudável, pois reconhecendo-os, posso superá-los. E traços de anticristos sempre surgem em e entre nós. Quem tem olhos pra ver, que veja...

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Permanente e transitório - I João 2:17

“O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre." (1 João‬ ‭2:17‬)

Eis um bom critério a ser considerado em momentos de decisōes, especialmente naquelas que impactam nossas vidas e as de terceiros: conferir o que as desencadeia em nossos corações,  seus efeitos e  durabilidade.

Isso não significa abandonar por completo as experiências que, sabemos, são ainda mais passageiras do que a própria vida, mas conferir se o custo-benefício justifica e se não poderíamos viver os resultados semelhantes sem maiores riscos de prejuízo a nós e a outros.

Decisões movidas à cobiça - desejo acentuado, descontrolado, cego - geralmente entram em conflito com propósitos divinos. Elas estão constantemente à nossa porta, mas a nós compete controlá-las. Podemos até decidir, trocando o permanente pelo transitório, mas não sem consciência dos riscos envolvidos e das possíveis más consequências que precisaremos assumir.