sábado, 20 de junho de 2015

Sou Batista

Sou batista.

Isso entrou no sangue.

São 44 anos ininterruptos ocupando cargos em igreja. 

Na denominação, fora da igreja, são 40 anos de cargos de liderança. De presidente de jovens em associação a presidente de convenção, passando pela presidência de Ordem de Pastores, de Associação Nacional de Escolas Batistas, sem pedir pra entrar, nem pra ficar. Quando fui indicado aceitei concorrer. Quando fui eleito me empenhei pra dar o meu melhor. Quando entendi que não devia concorrer disse não. Quando concorri e não fui eleito, isso não afetou meus compromissos vitais.

Acertei e errei. Uns diriam que acertei mais do que errei; outros, que errei mais do que acertei. Eu mesmo não digo nada, pois seria suspeito. Ou minhas palavras poderiam ser usadas contra mim.

Sempre lutei pra manter a integridade psicológica. Os papéis são diferentes, mas esforço-me para que o eixo em torno do qual eles giram mantenham-se dentro de uma variação razoável. Se assim não agisse, as horas de terapia psicodramáticas e psicanalíticas não teriam dado conta. E os remédios seriam em quantidade e dosagem muito maiores.

Uso a razão, mas não para abafar a emoção.

Já esperneei muito, intelectualmente falando, até encontrar o próprio eixo. É que, com tantos e tão intensos anos, da pra ver quase tudo. E pra mostrar também. Conheço diversas das histórias dos batistas e de batistas. Tanto as que são contadas em livros, quanto as dos corredores e bastidores denominacionais. As que li, ouvi e as que presenciei.

Do jogo político nem se fala. O pior deles é o dos que condenam a política e se escondem atrás de linguagem espiritual. O segundo pior é o dos que evidenciam tanto a política que não da pra saber se existe espiritualidade. Pior ainda é resistir a tentação dos dois tipos.

Nunca desisti porque interiormente me encontrei e quando a gente se encontra interiormente, o ambiente no qual se está passa a ser um detalhe.  Encontrei o significado de ser salvo por Jesus que não depende de compêndios doutrinários ou de marabalismos de gênios teológico; muito menos se incomoda com óculos de intelectuais ou batas de cientistas ou professores que se acham. Entendi que dependo da graça pra viver e isso há muito deixou de ser preocupação doutrinária. Apenas vivo nela e por ela.

Gosto de ser batista, mas não gosto de tudo que dizem ser batista. Gosto do povo batista. Gosto muito. Talvez porque é feito de gente como eu que tem banda A e banda B, cara e coroa, o avesso do avesso do avesso e assume, com temor, mas assume. E tem os que não assumem, nem temem.

Nessas alturas da vida, depois de ter caminhado mais de 2/3 da média prevista, ouvindo cada dia mais intensamente da partida de amigos da juventude e ciente, por isso, de já estar com a senha nas mãos esperando o número da vez aparecer na tela, depois disso, repito, nada mais há para fazer que não seja pelo prazer.

As vezes ainda aparecem situações difíceis de se levar na esportiva, mas a cada dia elas se tornam mais escassas. A 'única' coisa ruim é que o cansaço parece ser mais real. Ah! e a impaciência com bobagens que exigem paciência.

Por que estou escrevendo isso? Sei lá. Esqueci. Disse a Gláucia que estava sem sono e com vontade de escrever. Ela, então, dormiu. O gato se aquietou. O som da chuva aumentou...

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Chamados para transformar

A natureza humana tem uma forte tendência conservadora e isso, em si mesmo, é bom. Conservar saudáveis, por exemplo, a saúde do corpo, dos relacionamentos interpessoais, do meio ambiente e da relação com Deus é altamente positivo. O problema é que tudo nesta vida é passível de deterioração e, pior, há quem ganhe com a deterioração, embora, em algum momento, todos – portanto, até quem aparenta estar ganhando - comecem a sentir os prejuízos. Dai a necessidade de inconformação, reformação e transformação.
 
Quando estamos atentos aos sinais de deterioração de determinada realidade que nos afeta e agimos imediatamente, fazendo as devidas manutenções, impedimos que o problema atinja um nível que somente uma reforma seria a solução. Isso ocorre com casamentos, finanças, estruturas patrimoniais ou de outra natureza, enfim.
 
Indivíduos com vidas deterioradas, organizações e sistemas apresentando enfermidades é o que mais temos, especialmente em nossa realidade brasileira. Assim sendo, além de estarmos atentos àquilo que clama por manutenção, a começar em nossa própria vida, estamos frequentemente expostos a situações que clamam por reforma, restauração, recuperação. Daí a pertinência do slogan: “Chamados para transformar”.
 

Todos são chamados. O chamado divino não exclui qualquer um de nós dessa responsabilidade. Todos podem contribuir, em algum grau ou situação, à saúde de nossas vidas, em suas múltiplas manifestações.
 
Algumas vezes somos chamados para uma missão específica, com início, meio e fim definidos (Ananias, por exemplo, em Atos 9); outras, para missão cujo resultado final pode ser desejado, mas nem sempre visualizado, especialmente quando se trata de trabalhar com pessoas (Paulo, no mesmo episódio de Atos  9).
 
Há chamados que envolvem elementos profundamente místicos, como foi o caso de Paulo já mencionado e há outros que acontecem em clima de aparente “normalidade”, como seria o caso de Mateus (Lc. 5:27).
 
Há chamados nos quais a voz de Deus soa de maneira contundente (At. 9:3-6) e há  outros cuja presença de Deus nem é mencionada, mas as ações e seus resultados são evidências de que Ele esteve por detrás do chamado, como ocorreu nos casos de Mardoqueu e Ester (Livro de Ester).
 
Há, entretanto, um último aspecto que considero da maior relevância: Deus não nos chama somente para serviços religiosos. Há uma cultura religiosa estabelecida em nosso meio que reconhece apenas o chamado de pessoas que se dispõe a dedicar-se estritamente à dimensão religiosa da vida. Chamado, nessa compreensão, é aquele que deixa todas as atividades cotidianas, vai para uma escola de educação teológico-ministerial e, depois, dedica-se a atividades relacionadas à vida de uma instituição religiosa, no caso batista, como pastor, missionário, ministro de música, educação cristã ou ministério social cristão.
 
Porém, embora casos de chamado que não se caracterizam por envolvimento em atividades tipificadas com religiosas sejam uma minoria – Mardoqueu, José do Egito,  por exemplo, cujo chamado foi para atuar no campo da política e administração pública – a verdade é que, pelo fato de Deus ter criado a vida e ter interesse pelo desenvolvimento integral dela, nossa ação, como cristãos, em qualquer área da vida, deve ser encarada como um chamado. Fomos nós, não Deus, que fizemos distinção entre profano e sagrado, entre mundano e religioso. A vida, porém, não pode ser encarada desta maneira, sem que isso provoque sérias deteriorações, como a experiência tem mostrado.
 
Encare sua vida, sua profissão, como um chamado, seja qualquer for a atividade na qual estiver envolvido. Encare seu espaço de atuação como um espaço sagrado. Aja de maneira que sua ação não permita a deterioração ou enfermidade da vida e trabalhe para curar, salvar, transformar aquilo que se evidencie como necessitando.
 
 
 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Com qual dos sistemas da sociedade você colabora mais?


O corpo humano pode ser dividido em oito sistemas principais: cardiovascular, respiratório, digestório, nervoso, sensorial, endócrino, excretor, urinário. Cada um tem seus próprios órgãos e, no bom funcionamento deles, a vida do corpo é mantida. Se um órgão funciona mal, o sistema é prejudicado e o corpo todo sofre. Com a sociedade não é diferente.

 

A exemplo do corpo, a sociedade – conjunto de pessoas que em tese vivem em torno de interesses básicos comuns e objetivos que lhes garantam viver com melhor qualidade de vida – também se divide em sistemas. São múltiplos e podemos citar alguns exemplos como: sistema familiar, educacional, religioso, de saúde, de lazer, político e econômico. Cada um desses gira em torno de subsistemas (habitacional, previdenciário, bancário, hospitalar, rodo-ferroviário, comunicação, etc) cuja importância pode variar em cada tempo e lugar.

 

Os sistemas não foram determinados por Deus, pelo menos não no sentido como determinamos as coisas. Eles surgem da necessidade dos seres humanos. A Bíblia – livro que norteia a vida do sistema religioso de origem judaico-cristã – não apresenta um único modelo de sistema. Ela não é um manual de funcionamento de sistemas, como alguns afirmam. Ela nem mesmo faz análise e recomendações para o bom funcionamento de um modelo de sistema, na forma como um trabalho acadêmico produzido para tal finalidade faria.

 

A Bíblia descreve como os relacionamentos humanos se deram no emaranhado de sistemas das sociedades de então, com ênfase no sistema religioso. Ela mostra como os valores espirituais cultivados determinaram a qualidade de vida individual e social, seja na dimensão horizontal, seja na vertical, e como os sistemas, especialmente, repito, o religioso, sofreram alteração ao longo da história nela contida, trazendo benefícios ou prejuízos aos seus cidadãos.

 

A Bíblia aponta o caminho a ser seguido por cada indivíduo, caminho personificado em Jesus Cristo, que, levado a sério, influencia não somente o próprio indivíduo, mas os sistemas nos quais está inserido. Na linguagem bíblica, esse caminho produz salvação. Fora dele, caminhamos à perdição.

 

A salvação, então, não está na repetição de modelos encontrados em determinado tempo e local descritos na Bíblia, mas no comprometimento com a vida e ensinos de Jesus que têm se demonstrado universais. Daí sua oferta de “salvação” para “todos”.

 

Ninguém é capaz de conhecer e operar em todos os sistemas da sociedade, mas todos somos capazes de contribuir para o funcionamento de pelo menos um. Ainda que todos afetem nossas vidas e possamos nos envolver com mais de um deles, é essencial que sejamos capazes de enumerar, por ordem de prioridade, quais deles são alvo não somente de nosso interesse, mas também de nossas ações.

 

Quando cada um decide viver em harmonia com a vida e ensinos de Jesus, seja qual for o sistema social com o qual ele mais contribua, sua vida fará diferença positiva em favor desse sistema. Quando, porém, idolatramos um sistema, abdicando de criticá-lo, contribuímos para o seu definhamento. A crítica puramente emocional aos sistemas pouco ajuda. É preciso que haja racionalidade, que haja intencionalidade de oferecer contribuição para que sejam aperfeiçoados e cumpram melhor suas finalidades.

 

Às vezes idolatramos um sistema simplesmente porque o funcionamento dele alimenta nossas necessidades individuais relacionadas, por exemplo, a sustento financeiro, prestígio e poder. Isso faz com que transformemos a manutenção desse sistema não em função do benefício que produz à coletividade, mas do benefício que dele advém apenas para nós, individualmente. Nesse caso, a manutenção do sistema passa a ocorrer em função de interesses particulares ou corporativos e não da coletividade.

 

A tese que defendo é que a qualidade de relação mantida com Jesus Cristo é determinante naquilo que nos motiva a manter um sistema. Foi ele que nos ensinou, por exemplo, que “quem quiser salvar a própria vida, perdê-la-á”. Contribuir para o bom funcionamento de um sistema, seja em termos operacionais, seja em termos dos valores espirituais que regem nossas operações, torna-se benéfico para todos. Se for para todos, será para o indivíduo, mas se for só para o indivíduo, em algum momento esse mesmo indivíduo começará ser prejudicado.

 

Com qual sistema da sociedade você tem contribuído? Que valores espirituais norteiam sua ação nele? Que influência a pessoa de Jesus de Nazaré exerce sobre suas atitudes, palavras e ações relacionadas aos sistemas da sociedade?

terça-feira, 2 de junho de 2015

O “Som de Graça”, a música e a teologia das letras que cantamos

“Som de Graça” é o nome de um evento promovido pela Igreja Batista da Graça, coordenado pelo Ministério de Adoração. Tem sido realizado em nossa quadra com a participação predominante de jovens, inclusive vindos da vizinhança e de outras igrejas. O próximo será no sábado, 13 de junho, e, além do aspecto musical, proporcionará uma reflexão sobre a teologia das letras que não cantamos nos cultos.
 
Uma das capacidades humanas é a de classificação. É por volta dos 7 anos de idade que nossa mente começa a apresentar sua capacidade de classificar objetos com base no que eles possuem em comum. Essa competência é essencial e seu adequado desenvolvimento influenciará as escolhas que faremos pelo resto da vida. Quanto melhor aprendermos a classificar, melhor será nosso relacionamento com a realidade que nos cerca e com as pessoas com as quais nos relacionarmos.
 
Tomemos por exemplo a questão da música na igreja. Que critérios usamos para diferenciar uma música “sacra” de outra “profana”? São as notas usadas? As pausas? O ritmo? A harmonia? Seriam as crenças de seus compositores? Seria a finalidade definida por quem as compôs? Seria o ambiente nos quais elas são executas ou a motivação e finalidade de quem participa? Seria o resultado imediato que produz no sentimento e no corpo do ouvinte?
 
Em relação às letras que as músicas veiculam que critério usamos para definir se são sacras? Seria pelo vocabulário usado? Seria pelo fato de incluir palavras como “Deus”, “Jesus”, “Espirito Santo” ou repetir expressões bíblicas?  Seria por enfatizarem conceitos mais abstratos como amor, justiça, alegria ou mais concretos como corpo, dinheiro, templo? Seria a declaração da motivação de quem escreveu? Que elementos, presentes na letra das músicas, as tornam sagradas ou profanas? Seria saudável e teologicamente correto fazer essa dicotomia na vida?
 
Na história do protestantismo brasileiro, definiu-se como sacras, as músicas e letras contidas em hinários produzidos para cultos como, por exemplo, “Cantor Cristão”, “Melodias de Vitória’, “Harpa Cristã”, etc. Para toda uma geração, música sacra eram a desses hinários. Somente elas poderiam ser executadas nos cultos e mais: crente verdadeiro cantava somente tais hinos. Qualquer música afora essas, eram classificadas como mundanas, do diabo, etc.
 
Com o desenvolvimento cultural, educacional, tecnológico e comercial, tais hinos saíram dos hinários, foram para os LPs (Long Plays, de vinil), conquistaram prateleiras, passaram a ser tocados em emissoras de rádio e inauguraram visivelmente a era comercial das “músicas e letras sacras”. Digo visivelmente porque os hinários já não eram gratuitos. Havia uma reserva de mercado em torno deles, uma forma discreta de comercialização, com a diferença de que, até onde se sabia, o lucro de suas vendas eram reinvestidos na “causa”. Não se falava em lucros para indivíduos ou empresas comerciais privadas.
 
Até esse momento, música sacra seria a produzida por pessoas do círculo de relacionamento religioso denominacional dos que se classificavam como os “verdadeiros cristãos”, portanto, sacros genuínos, originais; a finalidade, exclusivamente divulgar a mensagem do evangelho sem lucro financeiro aos produtores.
 
A confusão na cabeça evangélica começa a ocorrer quando tais músicas passam a ser executadas em cultos católicos ou em ambientes fora de igreja, como programas radiofônicos e depois televisivos. Gerou sentimento de culpa em muitos, cantar no culto aquela música que foi executada no dia anterior no “Xou da Xuxa”. Mais estranho foi começar a conviver com músicas que veiculavam letras de CDs produzidos por evangélicos conhecidos, nas quais as necessidades humanas passaram a ocupar o status antes pertencente a Deus, a Jesus Cristo ou ao Espírito Santo.
 
O golpe fatal ocorreu quando “cantores sacros” começaram a cobrar cachês para se apresentarem nos cultos e “cantores mundanos”, especialmente em declínio, passaram a gravar “músicas sacras”. Esse movimento de mão dupla tem produzido o efeito colateral positivo de forçar-nos a rever nossos conceitos e preconceitos relacionados às músicas e letras executadas em ambientes cúlticos, forçando-nos a valorizar a análise e a usar a competência de classificação.
 
É nesse contexto que o “som de Graça” abre espaço para destacarmos e refletirmos sobre a teologia presente em músicas “profanas” e como a qualidade delas pode ser igual ou superior a presente em músicas ditas “evangélicas”. Participe conosco deste momento de amadurecimento na maneira como lidamos com a música e suas letras, na igreja e em nossa vida cotidiana.