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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Crianças e Adolescentes Exploradas Sexualmente - 23.07.12 - 92/100 dias de oração pelo Brasil

Comecemos orando pelas famílias próximas de nós. Digo isso porque boa parte da exploração sexual começa dentro de casa e de casa de gente que não aparenta ser exploradora. É praticada por pais, tios, irmãos mais velhos ou amigos íntimos da família. E o dano que isso causa é incalculável.

Um dia desses li algumas críticas contra Xuxa por ter confessado publicamente que foi abusada no início da adolescência, mas não falou de suas fotos pornográficas, nem dos filmes dos quais participou contracenando eroticamente com crianças. E daí? Se ter feito coisa errada na vida servir de impecilho para reconhecermos erros, todos teríamos que silenciar em muitas áreas. Já ouvi pastores combatendo ferozmente a leitura de revistas pornográficas, mas já as tinha lido; combatendo ferozmente o namoro misto, mas eles mesmos namoraram; combatendo ferozmente o "ficar", mas aprontaram muito com namoradas. Porque são incoerentes, eles não servem de exemplo para nós. Se eles silenciarem, também não. A questão é: o ato denunciado é nocivo? Se sim, apoiemos a denúncia.


A denúncia é o ponto. A incoerência seria ponto de outro tópico. Se colocá-los juntos enfraquece a denúncia, tratemos cada um sepadaramente.


Se Xuxa não disse tudo de sua vida ou se o que disse foi usado para alavancar audiência, isso não nega o fato de que, o abuso sexual de crianças e adolescentes deve ser combatido e todas as iniciativas que servirem para consicientizar-nos disso devem ser valorizadas.


Só quem já presenciou a dor de alguém que desabafa um abuso sexual sofrido, sabe o quanto é importante nos posicionarmos contra o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes. É de doer o coração. Causa profunda indignação.


Na verdade, devemos ser contra qualquer tipo de abuso. Abuso de autoridade. Abuso econômico. Abuso religioso. E tantos outros, além do sexual. Mas  abuso de criança e adolescente deve mercer cuidado especial, pelas limitações próprias de suas idades.


Oremos e lutemos, por todos os meios ao nosso alcance, contra a exploração sexual de crianças e adolescentes!


Abraços do seu pastor,

sábado, 7 de julho de 2012

Santidade no Relacionamento Conjugal - 07.07.12 - 76/100 dias de oração pelo Brasil

Santidade, muito mais do que um conceito moral, é uma palavra que faz parte da linguagem sacerdotal, uma manifestação da graça divina. É sinônimo, portanto, de salvação. Daí os protestantismos, diferentemente dos catolicismos, acreditarem que santo não é somente quem tem feitos extraordinários em seu histórico ou aquele cuja vida é submetida a critérios de avaliação estabelecidos pela igreja romana e que, primeiramente, é intitulado beato, para depois ser reconhecido como santo. Predomina nos protestantismos, a doutrina que defende que todas as pessoas que depositam a fé no ato extraordinário de Deus em Cristo Jesus, são santas.

Santidade, então, não é algo que nos tornamos gradualmente, mas uma experiência inicial, segundo o Novo Testamento, marcada pela fé na graciosa mensagem libertadora, salvadora, de Jesus. Repetindo, em linguagem sacerdotal, nossa santidade foi definida no ato sacrificial de Jesus na cruz do Calvário, pois o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado, portanto, pecados do passado, do presente e do futuro.

O que popularmente chamamos de santidade é, de fato, crescimento na graça de Deus. Em outras palavras, a santidade alcançada pela fé em Jesus nos motiva a querermos crescer na graça divina, vivendo de maneira eticamente saudável e não a querermos viver eticamente saudável para sermos considerados santos.

A leitura atenta de Levíticos me convenceu de que ser santo é ser saudável. A pessoa alcançada pela santidade divina empenha-se, sob a graça de Deus, a ser saudável em todas as dimensões de sua vida.

A vida conjugal não é uma excessão.

Cultivar um casamento santo, saudável, não é, portanto, dar atenção especial somente às questões relacionadas a sexo. Desenvolver uma vida sexual saudável é um dos elementos. Ser fiel ao compromisso de amar o cônjuge como a si mesmo e, portanto, encarar todos os desdobramentos daí decorrentes, é a maior manifestação de santidade no casamento. A forma como um casal manifesta santidade nas questões sexuais é um problema de foro íntimo, definida através de diálogo sincero e respeito mútuo, entre as quatro paredes do seu quarto.

Santidade no casamento, portanto, é investir na saúde da relação com Deus, dos sentimentos, dos pensamentos e do corpo.


Da mesma forma que saúde física não significa ausência absoluta de enfermidade, mas capacidade de resistir e superar doenças que surgem até por fatores alheios ao nosso controle, santidade no relacionamento conjugal também não significa ausência de problemas, dores ou erros, mas capacidade de superá-los em face da presença graciosa de Deus agindo nos corações do casal.

Santidade no relacionamento conjugal significa, enfim, investir para evitar enfermidades, mas também, disposição para curá-las quando, por razões alheias ao querer dos dois, a relação precisa ficar acamada e, até, hospitalizada.

Abraços do seu pastor,

domingo, 17 de julho de 2011

Os discursos e os dados: a semelhança entre gays e evangélicos*

A Folha de São Paulo publicou matéria, neste domingo 17 de julho, revelando a capacidade máxima dos três principais espaços da capital paulista onde eventos abertos reunindo multidões acontecem.

O texto mostra que tanto os organizadores da PARADA GAY, quanto os da MARCHA PARA JESUS superestimam os números. Os primeiros falam em 4 milhões de participantes; os segundos, em 5. A capacidade máxima, entretanto, do maior dos 3 espaços - a Avenida Paulista - seria de um milhão de pessoas (isso mantendo-se filas organizadas, com pessoas lado a lado, fato que geralmente não acontece).

Isso significa que gays e nós, evangélicos*, que já somos iguais na condição de pecadores, agora nos igualamos em mais este elemento: o do exagero nas informações como estratégia de marketing.

Por ter aprendido a não dar ouvidos a discursos, mas a avaliar dados, gosto de, automaticamente, sempre que possível, fazer contas, quando ouço pessoas empolgadas falando dos resultados do seu próprio trabalho.

Percebi que dentre nós, pastores, alguns evangelistas são os que mais exageram. O resultado de seus trabalhos, geralmente são "evangelásticos". Em segundo lugar ficam alguns pastores dirigentes de organizações que dependem mais de resultados  para aumentar recursos financeiros para suas atividades ou, quando a coisa está feia, para manter-se na função. Alguns pastores de igrejas locais, por dependerem mais de relacionamentos, tendem a exagerar menos nos números e fazem isso, geralmente, quando precisam de afirmação, em conversas com colegas sobre número de membros ou receitas financeiras.

Falando em números, há igrejas que não fazem recadastramento de membros não por amor às pessoas, mas para manutenção de status. Números impressionam, não importa a verdade, afinal, quantos se dispõem a confrontar discurso com realidade?

Gosto de números, apesar de já ter fugido da escola por causa de uma professora de matemática. Eles não são tudo, mas são uma importante ferramenta na avaliação de realidades; não dizem tudo, mas ajudam muito quando queremos analisar situações visando melhorá-las.

Compreendo a necessidade psicológica, política ou econômica que algumas vezes temos de sair da realidade para sobrevivermos a ela, porém, enfrentá-la como ela é, parece-me ser o mais indicado e também um bom indicador da nossa própria saúde e dos valores que abraçamos.

* Evangélico no sentido mercadológico e não teológico. Leia comentários  ...

Parte da matéria da Folha de São Paulo
"QUANTOS CABEM?


Paulista e Consolação


CÁLCULO DO DATAFOLHA
A área total inclui calçadas, canteiros, árvores e espaços como bancas de jornais
216 mil m2 x 7 pessoas/m2


1,5 milhão
é o número máximo de pessoas que cabem ao mesmo tempo nas duas vias, sendo 948,5 mil na av. Paulista e 563,5 mil na rua da Consolação


Isso equivale a:
19 estádios do Pacaembu lotados


17 vezes o público do show do U2 no estádio do Morumbi, em abril deste ano


3,7 vezes a população do centro da cidade


O QUE DIZEM OS ORGANIZADORES
Segundo a Parada Gay, o público do evento do dia 26 de junho foi de 4 milhões durante sete horas


Para caberem 4 milhões na Paulista e na Consolação, cada m2 teria que conter 18 pessoas


QUANTOS CABEM?


Campo de Bagatelle


CÁLCULO DO DATAFOLHA
164 mil m2 x 7 pessoas/m2


1,15 milhão
é o número máximo de pessoas que cabem ao mesmo tempo nesse espaço


O QUE DIZEM OS ORGANIZADORES
A Marcha para Jesus, no dia 24 de junho, anunciou que o total de participantes foi de 5 milhões


Para a estimativa dos organizadores estar certa, 30 pessoas teriam que ocupar 1 m2


outros jeitos de medir
PELOTÃO Veja como é a conta que considera a movimentação de pessoas aglomeradas na av. Paulista

1
A av. Paulista tem 47 m de uma calçada a outra. Uma fileira de lado a lado teria 85 pessoas

2
A cada 2 s, a fileira cruzaria um ponto fixo da avenida, andando, em média, a 1,8 km/h. Logo, 1.800 pelotões, ou 153 mil pessoas, passariam por ali a cada hora

3
Em sete horas, somente 1 milhão de pessoas passariam pela Paulista. Para 4 milhões, seriam necessárias 26 horas

DO ALTO Um helicóptero registra imagens aéreas para aferir se, durante o evento, a concentração de pessoas chega a seu índice máximo (seis) e mínimo (dois) por m2


PASSO A PASSO Até os anos 1980, PMs mediam a área com passos largos (cada um tinha cerca de 1 metro). Depois, multiplicava-se pelo número de pessoas por m2


LIXO Nos EUA, para medir o número de pessoas, fiscais de algumas cidades contam a quantidade de lixo produzida


RENOVAÇÃO Pesquisadores entrevistam a cada duas horas grupos diferentes. Se a pessoa estiver ali há menos de 2 h, representa um novo público e a conta final sobe


QUANTOS CABEM?
Anhangabaú


CÁLCULO DO DATAFOLHA

54,2 mil m2 x 7 pessoas/m2
379,4 mil
é o número máximo de pessoas que cabem ao mesmo tempo nesse espaço


multidões históricas
As estimativas que foram refeitas pelo Datafolha

DIRETAS-JÁ - ABRIL DE 1984  

Local: vale do Anhangabaú
Público estimado por organizadores:
1 milhão
Cálculo do Datafolha:
400 mil

CARAS PINTADAS - SETEMBRO DE 1992  

Local: vale do Anhangabaú
Público estimado pelos organizadores:
1 milhão
Cálculo do Datafolha:
70 mil

Outro lado
A organização da Parada Gay afirma que está fazendo um estudo de público sobre o evento de junho, mas que ele ainda não foi concluído. Os números levam em conta a rotatividade e a quantidade de pessoas nas imediações da av. Paulista, segundo os organizadores.

"Nos inspiramos nos cálculos feitos pelo 'Guinness', com a estimativa de público em diferentes momentos da Parada", explica Leandro Rodrigues, assessor do evento. A Igreja Renascer, que organiza a Marcha para Jesus, usa critérios semelhantes, mas admite que não dispõe de base científica.


A exemplo da Parada Gay, afirma que o público é grande por causa da alta movimentação de gente em suas nove horas de duração. A igreja diz que ruas próximas ao palco da pça. Campo de Bagatelle também são ocupadas.
"
Fonte: Folha de São Paulo, de 17.07.2011 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sexo não é água (2002?)

Vez por outra assisto, ao lado de dois filhos adolescentes, programas da MTV que abordam questões de sexo. Entendo que assistir e trocar idéias com eles são o melhor caminho para ajudá-los a desenvolverem o senso crítico e, consequentemente, escolherem melhor os caminhos da vida. E a cada programa percebo que, saindo do extremo da repressão para o extremo da liberação, continuamos a manifestar nossas doenças no trato das questões sexuais.

Admitimos que a forma como o assunto foi tratado ao longo da história não foi eficaz em seus propósitos. A quantidade de casais infelizes, de casamentos desfeitos e de indivíduos com neuroses oriundas da maneira como lidam com a sexualidade é incalculável e persistem a despeito dos nossos discursos romanticamente moralistas. Tal discurso não impede deslizes sexuais e seus efeitos nocivos na vida de terceiros e até da sociedade. A experiência do rei Davi, o homem segundo o coração de Deus, de Bill Clinton, ex-presidente do país mais rico do planeta e de milhares ilustres desconhecidos, comprova isso.

Nas igrejas, a repressão ao desejo tem sido o caminho mais indicado nas poucas vezes em que o assunto é tratado, sendo a demonização do sexo, sua expressão maior. Para alguns, o desejo sexual deve ser encarado como de origem pecaminosa, demoníaca até, e, por isso, deve ser exorcizado com penitências, jejum e oração. Em vez de encararem os sentimentos sexuais como inerentes à constituição bio-psíquica humana para, a partir daí, ajudar a canalizá-los construtivamente, bloqueia-se o canal do diálogo. O alerta para os perigos do sexo é tão extremista que, mesmo sabendo tratar-se de obra divina, o melhor é ficar bem longe dele. A julgar pelos discursos, em matéria de sexo nossas igrejas estão entrincheiradas, na defensiva.

Em posição oposta estão os que defendem a liberação. Como o moderno é ser (neo) liberal, há muita gente conservadora em casa, falando de sexo como água na mídia. Para estes, a necessidade sexual deve ser encarada da mesma forma como a necessidade de beber água. Se você está a fim, basta encontrar alguém que satisfaça suas necessidades e pronto. É só não esquecer a camisinha. Mas as coisas não são tão simples assim. Sexo não é água, nem corpos, copos descartáveis. Pessoas amam, pensam, sentem, reagem, interagem e se apegam; têm história; têm passado, presente e futuro; têm família, amigos e colegas; sonham em ser amadas, detestam ser usadas. Além disso, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada causam transtornos e mudam o rumo da vida dos envolvidos e dos que os cercam.

Se a repressão e a liberação são igualmente prejudiciais a alternativa é abrir-se ao diálogo franco e conscientizador, começando na própria família. Abrir-se ao diálogo é procurar sentir e entender os dilemas do outro; é admitir, honestamente, que todos estamos sujeitos a enfrentar situações cuja dificuldade de lidar com a sexualidade é real; é não apresentar-se com um anjo que, por ser assexuado, não enfrenta dificuldades na área; é não ter medo de admitir as próprias fragilidades; é ser ajudador e não juiz ou legislador da vida alheia.

Já é tempo de rever posições, de parar de repetir chavões conservadores ou liberais e de jogar para a platéia, priorizando o IBOPE. Sexo não é somente uma questão moral, de costume. Tem também implicações emocionais, sociais e éticas que precisam ser consideradas. Sexo não é água!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A educação sexual dos pastores (2009)

Se abordar o assunto sexo em igreja ainda deixa muita gente vermelha - umas de vergonha, outras de raiva - relacioná-lo a pastores, para alguns, é motivo de pânico, afinal, no imaginário evangélico popular, pastor seria um ser angelical, portanto destituído de gênero. Temos, entretanto, pelo menos dois bons motivos para tratar o assunto com mais seriedade.

Primeiro, porque o número de pastores envolvidos em problemas de natureza sexual é maior do que imaginamos. Ouvimos muito dos problemas de padres americanos acusados de abuso sexual, mas poucos sabem que nos Estados Unidos é tão grande a quantidade de pastores acusados, inclusive batistas, que já existe uma organização de vítimas de abuso praticado por pastores, a “Survivors Networks of those Abused by Priests” – SNAP.

O segundo motivo tem a ver com a maneira como líderes religiosos pensam e ensinam assuntos relacionados à sexualidade, como, por exemplo, questões de gênero, homossexualidade, abstinência ou masturbação. Nesse sentido, a organização “Religious Institute on Sexual Morality, Justice, and Healing”, também nos Estados Unidos, defende proposta de educação sexual voltada para pastores e sacerdotes. Há reações desfavoráveis de dirigentes conservadores de seminários batistas, alegando discordância da ideologia “não bíblica” da proposta.

Seja por qual motivo for, é importante tratarmos o assunto em nossas escolas de maneira diferente daquela que apenas “ensina” candidatos a pastor, o que seria certo ou errado  em termos de sexualidade, a partir de interpretação popular (ou como preferem outros, interpretação literal) de versículos isolados e descontextualizados da Bíblia, sem estudar a fundo a forma como lidamos com a própria sexualidade, o conteúdo e pressupostos dos nossos ensinos e as motivações dos posicionamentos político-sexuais que adotamos.

Depois de ler a Bíblia de capa a capa, pesquisando atentamente a questão da sexualidade, e de refletir sobre a forma passional como alguns pastores reagem à ordenação feminina ou aos direitos civis dos homossexuais, concluí que, para entendermos tais reações, mais do que prestar atenção em seus discursos “bíblicos” ou na corrente teológica do seminário onde estudou, é fundamental compreender a cultura na qual sua educação sexual foi construída.

Sendo assim, se desejo entender o porquê do meu pastor reagir como reage a temas da sexualidade, devo esquecer seu título e lembrar de que nem sempre ele se escondeu atrás de um belo paletó e gravata ou de um bonito discurso previamente elaborado. Como qualquer garoto, ele cresceu entre meninos que, como a maioria absoluta, não recebeu adequada educação sexual – no sentido técnico do termo - seja em casa, na escola e muito menos na igreja.

Como todo menino, quase 100% do que aprendeu e sentiu a respeito do assunto, é fruto da convivência com seus pares de infância. Ele não só teve seus colegas como “facilitadores” para aprender como poderia lidar com o próprio sexo, como deveria lidar com o sexo oposto e outras questões sexuais, mas sentiu na pele toda a pressão vinda do grupo para provar um tipo patriarcal de masculinidade.

Nesse sentido, a leitura do livro “Corpos, prazeres e paixões. A cultura sexual no Brasil contemporâneo”, (Richard G. Parker, Editora Best Seller, 1991), especialmente as páginas 89 a 97, levou-me a fazer conexões e clareou um pouco mais as dificuldades pastorais no trato do assunto sexo e sexualidade. Segundo o autor, a estruturação da experiência na vida sexual no Brasil contemporâneo foi influenciada pela tradição patriarcal, pela linguagem do corpo e pelo sistema de classificação sexual, tópicos devidamente esclarecidos por ele.

Tal estruturação não seria aprendida imediata e completamente. É resultado de interiorização gradual, “através de um complexo processo de socialização que se inicia nos primeiros momentos da infância”.

Reconhecendo que a responsabilidade pelo cuidado e educação das crianças é, inicialmente e em grande parte, de responsabilidade feminina, o autor demonstra como, até certa idade, a criança é influenciada pela mulher, que domina o lar, e, depois, pelos homens, que dominam o mundo fora do lar.

Como até certa idade a relação de meninas e meninos é fortemente influenciada pela presença feminina, faz-se necessário, por uma questão de definição de identidade, que a distinção de gêneros seja feita muito precocemente. Assim, a identidade das meninas, especialmente em termos de passividade e submissão, é assegurada pela continuidade da relação com a mãe, em casa, bem como pelas visíveis alterações pela qual passam seus corpos, enquanto a dos meninos é mais complicada pela descontinuidade do processo.

Segundo o autor, “ameaçado desde o princípio por uma associação muito íntima com o domínio feminino, a virilidade e atividade que são marcas principais da masculinidade na vida brasileira precisam ser construídas, erigidas a partir do grupo e atravessar um processo de masculinização capaz de quebrar os laços iniciais do menino com as mulheres e transformá-lo em homem”.

Enquanto as meninas experimentam um processo de orientação mais forte dentro de casa, exceto a partir da menstruação, “existe um forte sentido (embora nem sempre explicitamente afirmado) da parte dos pais, de que o caminho mais adequado para seus filhos tomarem é o de se afastarem cada vez mais desse domínio feminino”.  Isso lança luzes sobre a luta de alguns pastores no sentido de defender tão fervorosamente o domínio “bíblico” masculino sobre as mulheres na igreja e de resistir à atuação delas em funções de autoridade.

Pelo mesmo pressuposto entendemos a reação passional de alguns pastores às questões de direitos civis homossexuais. Observe que me refiro aqui à reação emocional que toma conta de alguns no trato do assunto, sem emitir juízo de valor, por qualquer ângulo, sobre a questão homossexual.

Isso reforça a importância de incluirmos, na educação ministerial dos pastores, uma profunda reflexão sobre o processo informal, eficaz, porém nocivo, de educação sexual a que foi submetido em sua infância. Tal reflexão o ajudará a entender o sentido de sua masculinidade, o trato do próprio sexo, sua relação com o sexo oposto, sua reação a questões civis relacionadas a homossexuais e também a influência daquilo que nele foi introjetado culturalmente, na leitura que faz dos textos bíblicos.

A superação dos paradigmas estabelecidos em sua mente e coração dificilmente será alcançada em seus estudos teológicos, nos quais a condução do pensamento está nas mãos de professores – homem em sua maioria - que, como os candidatos a pastores, também tiveram “educação sexual” eficazmente construída “nas ruas” e não em sala de jantar ou de aula.

Portanto, se quisermos entender a posição dos pastores em relação a questões de gênero, reprodução ou erotismo, mais importante do que prestar atenção às escolas onde estudaram teologia, aos livros que leu sobre o assunto ou títulos acadêmicos que ostentam, seria descobrir como se deu sua transição de saída do domínio do mundo feminino para o domínio do mundo masculino, através de suas relações sociais a partir do quinto ano de vida, aproximadamente.

Isso talvez devesse ocorrer sob a facilitação de um profissional de psicologia, não de ética, porque a insegurança para falar do assunto, especialmente dessa fase de nossa infância, não é um privilégio de alguns, mas de todos que fomos criados numa cultura religiosa em que sexo e diabo são sinônimos. O problema é que a psicologia tem sido “demonizada” pelo fundamentalismo que “anda ao redor rugindo e procurando a quem possa devorar” e prejudicada por idéias como: “enquanto Freud explica, o diabo da um toque” cantada por Raul Seixas.

Estou convencido de que, no processo de construção do conhecimento do assunto em pauta, seria muito importante que a visão de sexo e sexualidade presente na cultura brasileira e na cultura dominante nos tempos bíblicos fosse estudada criticamente à luz de princípios universais. Isso ajudaria os novos pastores a tratarem o assunto de maneira menos passional, injusta e preconceituosa, como aprendemos entre “coleguinhas” mais velhos, na infância. 
 ...
Disponibilizo agora aos leitores deste blog, texto que produzi e publiquei n'O Jornal Batista da Convenção Batista Brasileira, em 2009

sábado, 9 de abril de 2011

Marta Suplicy altera texto do PL 122 e libera pregação anti-gay em igrejas e templos


Iniciei oficialmente minha caminhada pastoral há 28 anos. 

O período coincidia com a tomada do poder, na Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, pelos autodenominados conservadores ou denominados pelos adversários como fundamentalistas. Pra mim a segunda expressão tornou-se mais forte porque presenciei a queda de um professor pela pressão do novo "comando mundial" dos batistas. 

(Trago viva em minha mente a reunião na sala do reitor, quando, sentados no chão pela falta de espaço, David Mein explicava pacientemente porque tomou a decisão de demitir o professor. Depois veio a queda do segundo, quando David Mein já havia saído. E entre eles, a derrubada do novo diretor do Seminário, pelos alunos, quando eu já trabalhava em Maceió) 

Foram anos de histórias tristes, no mérito das quais não entro aqui, mas estou mencionando para informar que neste período iniciava-se, dentre outras, uma mudança de concepção hermenêutica que não era novidade, mas que até então não prevalecia: Jesus deixou de ser a chave hermenêutica dos batistas para interpretação da Bíblia e a expressão "a Bíblia interpreta a própria Bíblia" se popularizou trazendo danos ainda imensuráveis à vida de pessoas e instituições. 

Mantendo as convicções tradicionais dos batistas, até aqui não abri mão de *Jesus como chave hermenêutica de interpretação. 

O que isso tem a ver com o assunto do tópico? É simples: inspiro-me no ministério de Jesus para definir a linha teológico-ministerial que adoto. E quanto mais leio e releio a vida e ensinos de Jesus, nos evangelhos, mais me convenço de que os arquiinimigos de Jesus não foram os pecadores (segundo a definição popular da palavra pecado), mas a religião institucionalizada. Confira nos evangelhos com quem foram os principais embates de Jesus, pra não dizer todos. Foram com líderes fariseus. 

Fundamentado nesse pressuposto, decidi que "púlpito" por mim ocupado não seria usado para atacar manifestações específicas de minorias relativas ao estado de separação no qual a humanidade se encontra (pecado, teologicamente, é quebra de comunhão, diferente de eticamente que é quebra de código de ética). Antes, se não pudesse anunciar o amor que restaura primeiramente a comunhão da pessoa com Deus e, só depois, como consequência, mudanças em nossos relacionamentos com pessoas, coisas e meio ambiente, ficaria em silêncio. 

Nesses 28 anos nunca senti necessidade do discurso fundamentalista, ainda que, certamente, ele também possa ser identificado em meus discursos, afinal, todos somos pecadores. Optei por colocar o acento da minha pregação no caminho da resturação da comunhão com Deus e, ao mencionar sinais da separação, cuido para não deixar que a cultura - responsável pela escolha de algumas manifestações da separação em detrimento de outras - prevaleça, transformando algumas manifestações da ausência de comunhão em "bodes expiatórios". 

Transformando toda essa prolixidade em uma frase: não aderi, não adiro, nem pretendo aderir ao discurso anti gay como bandeira política de pregação. 

Respeito aos que optaram por esse caminho - de combate a gays e outros - e luto para que eles respeitem o escolhido por mim.


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Talvez você goste de ler algo mais que penso sobre sexualidade:
1. Sexualidade, a terceira alternativa
2. "Despertar" o que?
3. A educação sexual dos pastores
4. Sexo não é água

sábado, 15 de agosto de 2009

Fatos que marcaram o nascimento de Jesus

Textos:
Texto bíblico: Mateus 1 e 2
Texto áureo: 1.21

Comentários da lição:

Salvação é a recuperação do relacionamento do homem com Deus. Ela se inicia no aqui e no agora e encontrará a plenitude de sua manifestação no além, quando estivermos com Cristo em sua glória.

Todos necessitam da salvação. A natureza do ser humano sente falta de um relacionamento com Deus. Ainda que não queiram admitir e mesmo sem ter clareza do que lhes falta, é natural às pessoas, a tentativa de algum tipo de relacionamento com o transcendental. "Viemos de Deus e nossa alma não descansa enquanto não voltarmos para Ele". Por isso o ser humano é essencialmente religioso e, a seu modo, desenvolve atitudes e ações místicas.

A revelação bíblica nos mostra que, conquanto Deus não esteja longe de cada um de nós, vivemos em busca dele, tateando, tentando encontrá-lo (At. 16). Mostra-nos também que Deus tomou a iniciativa de resolver este problema, enviando Jesus Cristo, em quem essa busca tem fim, quando o ser humano confia nEle, como Senhor e Salvador.

O plano de salvação para possibilitar ao homem reencontrar-se com Deus, teve início no Éden, no dia em que a humanidade, representada pelo primeiro casal, decidiu seguir seu próprio rumo, desprezando a orientação divina. Desde então, Deus planejou vir ao mundo, na pessoa de Jesus Cristo, para trazer salvação. Para isso, desenvolveu um plano que incluía a formação de um povo, através do qual o Salvador nasceria, se desenvolveria e cumpriria sua missão.

Mateus 1.1.17 - O registro genealógico

O envio de um salvador, segundo a revelação bíblica, foi planejado por Deus desde a queda do homem, no Jardim do Éden. No decorrer dos séculos, muitas profecias foram proclamadas, indicando sinais que serviriam de referência para a identificação do Salvador. Dessa forma, o registro genealógico do nascimento de Jesus não apenas dá a ele um caráter histórico, estabelecendo uma linha de relacionamento entre Jesus e Abraão, o "fundador" do povo judeu, mostrando a coerência do plano de Deus, mas também, confirma, historicamente, o cumprimento das profecias a respeito do Salvador.

Por isso, o cumprimento das profecias da trajetória do Messias, seja quanto a linhagem, seja quanto às cidades onde viveria, são evidências da credibilidade histórica e espiritual das narrativas bíblicas em torno do Salvador.

Mateus 1.18-25 O significado do nascimento virginal

Durante muito tempo, a ênfase no nascimento miraculoso de Jesus, isto é, um nascimento que não foi resultado de um relacionamento sexual entre José e Maria, era uma forma sutil de fundamentar, ideologicamente, a crença moral dominante em torno da sexualidade humana que ensinava que o ato sexual, por ser um relacionamento "na carne", se opunha à espiritualidade, prejudicando-a.
Tal compreensão fortaleceu, durante séculos, a vergonha cultural desenvolvida em torno da sexualidade humana.
Uma das razões, inclusive, da defesa da Igreja Católica, da perpetuidade virginal de Maria, mesmo após o nascimento de Jesus, bem como a conseqüente negação de que ela tivera outros filhos, tem como fundo histórico uma concepção moral equivocada da sexualidade humana.

Entretanto, tal concepção medieval, repressora da sexualidade, não deve dar lugar a uma postura oposta, de liberação, pois os extremos são igualmente doentios. A compreensão bíblica é a de que a sexualidade humana é boa mas, como tudo na vida, pode se tornar nociva se o seu exercício desconsiderar os valores éticos do Reino.

O nascimento miraculoso de Jesus tem se tornado mais fácil de ser aceito, na medida em que a própria humanidade já tem desenvolvido formas de reprodução que não dependem de relacionamento sexual. Porém, é preciso que fique claro que a aceitação do nascimento miraculoso de Jesus é uma questão de fé e não uma questão de racionalização científica, até porque a razão, por ser uma ferramenta da alma, não é capaz de explicar os mistérios da própria alma e, muito menos, do mundo espiritual.
O nascimento miraculoso de Jesus, portanto, não deve ser entendido como negação, por parte de Deus, da sexualidade humana mas como forma de manifestação da natureza divino-humana do Salvador.

Mateus 2.1-12 Os magos e a universalidade da salvação

Acredita-se que os magos eram astrólogos, gentios, e que a citação deles na narrativa do nascimento do Salvador tinha por objetivo proclamar aos judeus a universalidade da salvação trazida por Jesus. Essa mensagem era importante, considerando-se o sentimento exclusivista nutrido pelos judeus e o conseqüente preconceito alimentado contra os gentios. Um dos difíceis desafios, portanto, da igreja iniciante era superar o preconceito judaico.

A força do impacto do nascimento de Jesus sobre os magos pode ser identificada não apenas pela disposição manifesta por eles, de adorar, de presentear o Salvador, mas, sobretudo, de não se submeterem ao plano de Herodes. Eles não apenas abriram mão das benesses do poder mas também colocaram em risco suas próprias vidas, desobedecendo as ordens do Rei.

Mateus 1.16-18 Herodes e a luta pelo poder

Herodes, diferentemente dos magos, alarmou-se diante do risco de perder o poder; buscou ajuda dos líderes religiosos e dos magos para descobrir onde nasceria o tal Salvador e montou um plano traiçoeiro, dizendo que também queria adorar o Cristo. Frustrado em seu plano, sua máscara caiu e ele revelou quem de fato era ao decidir matar todas as crianças de Belém.

Essa cultura de eliminar aqueles que nos ameaçam faz parte da história da humanidade e ainda não foi superada, apesar dos avanços científico-tecnológicos. A cultura da violência está tão profundamente introjetada na mente humana que o espírito humano se mantém permanentemente armado contra qualquer tipo de ameaça. O ser humano ainda não aprendeu o caminho do diálogo na solução de suas diferenças. Eliminar o outro é o meio mais primitivo, ainda em uso, na resolução de problemas interpessoais.

Mateus 1.19-23 Nazaré e a visão ministerial de Jesus

A cidade de Nazaré desenvolvia uma cultura mais próxima da vida gentílica, por ser rota de acesso ao Egito. Ela nunca foi citada no Velho Testamento. Talvez por isso, tenha sido motivo de preconceituoso desprezo (Jo. 1.46).
A ida de Jesus para Nazaré certamente foi importante para o fortalecimento de sua visão ministerial e quem sabe, para o desenvolvimento de sua filosofia de vida simples. A simplicidade era a marca de Jesus. Ele andava com gente simples; vivia de modo simples; ensinava usando exemplos simples e desafiava seus discípulos a serem simples (Mt. 10.16).
Hoje, a existência de milhões de pessoas que vivem numa terrível pobreza e de tantas outras que precisam ouvir do evangelho, são um desafio a cada cristão no sentido de cultivar a simplicidade no viver.

Viver a simplicidade , portanto, significa considerar a situação do outro na administração dos recursos disponíveis, evitando que o uso frívolo desses recursos, afronte a sua dignidade humana.

A LIÇÃO EM FOCO

1. Preconceito significa a formulação de conceitos sem o devido aprofundamento no estudo de determinado tema. São nossos conceitos, ainda que não sistematizado conscientemente, que determinam nossas posturas em relação aos fatos da vida. Um conceito mal formulado, isto é, um preconceito, pode causar males profundo em nossa própria vida e na vida das pessoas que nos cercam.
Talvez os moradores de Nazaré sofressem tanto pelo preconceito quanto muitos sofrem hoje, pela religião que professam, pela região onde nasceram, pela cor de sua pele ou por sua condição econômico-financeira, por exemplo.
O fato é que devemos investir no estudo aprofundado das realidades que nos cercam, a fim de que nossas palavras e ações não sejam preconceituosas.

2. A cultura da violência tem acompanhado a humanidade desde o seu início. Caim usou a alternativa da violência como meio de solucionar um problema, da mesma forma que Herodes usou da violenta eliminação de crianças para não correr o risco de perder suas funções. A mente humana está armada e, portanto, pronta para agredir e eliminar, se preciso for, aqueles que representam ameaça para seus interesses.
Porém, como pessoas comprometidas com os valores do Reino de Deus, devemos não somente superar a cultura da violência mas lutar pelo estabelecimento da cultura da paz. O diálogo, visando encontrar caminhos que atendam o bem estar das partes deve prevalecer sobre o uso da força bruta que contraria o projeto de Deus.

sábado, 8 de agosto de 2009

Dúvidas Bíblicas

From: xxxxx@xxx.com.br
To: xxxxxxx@hotmail.com
Subject: Preciso contar tambem com a sua ajuda.
Date: Mon, 3 Aug 2009 09:21:28 -0300


Pr. Edvar,

Constantemente encontramos pessoas querendo fazer provocações e graças a DEUS tenho conseguido superar estes obstáculos.


Hoje mais uma vez recebi este tipo de provocação.

É um colega de trabalho que sempre que recebe algum material deste tipo acaba repassando.


O pessoal se prende a costumes e hábitos de uma determinada época para tentar distorcer os registros de toda a Bíblia.


Gostaria da sua colaboração para poder responder com mais conhecimento.

Grata, xxxxx

DÚVIDAS BÍBLICAS

"Laura Schlessinger é conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos e tem um programa interativo que dá respostas e conselhos aos ouvintes que a chamam ao telefone.

Recentemente, perguntada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se trata de uma abominação, pois assim a Bíblia o afirma no livro de Levítico 18:22.

Um ouvinte então escreveu-lhe uma carta, cuja tradução vai a seguir.

"Querida Dra. Laura:

Muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segundo a Lei de Deus.

Eu mesmo tenho aprendido muito no seu programa de rádio e desejo compartilhar meus conhecimentos com o maior número de pessoas possível.

Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida eu me limito a lembrar-lhe que o livro de Levítico, no capítulo 18, verso 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma abominação. E ponto final.

Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente e sobre a forma de cumpri-las:

1) Gostaria de vender minha filha como serva, tal como indica o livro de Êxodo, 21:7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?

2) O livro de Levítico 25:44 estabelece que posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que a senhora poderia esclarecer esse ponto? Por que não posso possuir escravos canadenses?

3) Sei que não estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual ( Lev. 18:19, 20:18 etc. ). O problema que se coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas.

4) Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sábado. O livro de Êxodo 35:2 claramente estabelece que quem trabalha nos sábados deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?

5) No livro de Levítico 21:18-21 está estabelecido que uma pessoa não pode se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que eu preciso de óculos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% para que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?

6) A maioria dos meus amigos homens tem o cabelo bem cortado, muito embora isto esteja claramente proibido em Levítico 19:27. Como é que eles devem morrer?

7) Eu sei, graças a Levítico 11:6-8, que quem tocar a pele de um porco morto fica impuro.Acontece que eu jogo futebol americano, cujas bolas são feitas com pele de porco. Será que me será permitido continuar a jogar futebol americano se eu usar luvas?

8) Meu tio tem uma granja. Ele deixa de cumprir o que diz Levítico 19:19, pois planta dois tipos diferentes de sementes no mesmo campo, e também deixa de cumprir a sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes, a saber, algodão e poliéster. Além disso, ele passa o dia proferindo blasfêmias e se maldizendo. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-lo? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, qual se ja o de queimá-lo numa reunião privada, como se faz com um homem que dorme com a sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levítico 20:14)?

Sei que a senhora estudou estes assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda.

Obrigado novamente por recordar-nos que a Palavra de Deus é eterna e imutável."

Minha resposta


Em relação ao texto enviado, já o conhecia.
De fato, para quem adota uma postura literalista, diante da Bíblia, tal texto é um grande nó.
Entretanto, a postura literalista não é a única possível.
A tradição batista predominante defende que o objetivo da Bíblia é revelar que:
1. Deus criou a humanidade;
2. A humanidade rejeitou os caminhos de Deus;
3. Deus preparou um meio para reconciliar a humanidade consigo em Cristo;
4. Para isso Deus preparou um povo através do qual o Cristo viria.

A história deste povo se mistura com o projeto de Deus para a humanidade, daí também confundirmos a cultura judaica com o projeto de Deus.
Entretanto, o objetivo da Bíblia não é definir uma cultura e exigir que toda a humanidade a siga. Antes, o objetivo é revelar a história do amor de Deus pela humanidade revelada em Cristo.
A Bíblia revela este projeto, mas a cultura no qual ele se desenvolve apresenta virtudes e defeitos, como todas as culturas humanas.
Assim sendo, a leitura que fazemos da Bíblia deve ser, sobretudo, visando reconhecer o plano de Deus em Cristo e não reproduzir a cultura judaica.
Quanto a cultura judaica, presente na Bíblia, ela deve ser objeto de reflexão, pois tem muita coisa boa a nos dizer, mas também, pela mesma reflexão, devemos ser capazes de dizer não à parte que já foi superada pela própria revelação progressiva, nas Escrituras.
Assim, o texto enviado por seu amigo pode ser entendido não como um combate à Bíblia, mas a um certo tipo de hermenêutica (interpretação) que se caracteriza pelo literalismo que, infelizmente é muito forte hoje, pela influência do fundamentalismo de origem americana em nosso meio, mas não é a hermenêutica que historicamente predominou no protestantismo."

XXXXXX

Esta resposta não contempla em detalhes tudo o que penso sobre o assunto Bíblia, hermenêutica ou sexualidade, nem foi elaborada na forma de um texto, mas de uma conversa. Ela foi dada pensando no que seria, a meu ver, suficiente para ajudar a erigir uma construção teológica da caminhada de alguém que conheço. Para uma pessoa poderá ser "leite" demais; para outra, "carne" demais; para outra, ainda, "palha pura", como se dizia sob as mangueiras do seminário.



E você, qual seria a sua resposta? Pode publicá-la ou fazer suas críticas!

sábado, 1 de agosto de 2009

Santuário Sagrado

1 Coríntios 3.11-17
“Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque sagrado é o santuário de Deus, que sois vós” (v.17).

A separação entre sagrado e profano tem sido um dos mais graves equívocos cometidos pela humanidade. Defender tal separação é o mesmo que dizer que alguns espaços ou experiências devem ser regidos por valores espirituais enquanto outros estão liberados desse compromisso.

Como consequência desta compreensão, vemos, por exemplo, pessoas que, quando estão entre as paredes de um templo, reverenciam a Deus e aos semelhantes de maneira extraordinária e mantém o ambiente limpo, mas agem de forma diametralmente oposta fora desse espaço.

Ao escrever sua carta aos Coríntios, Paulo não estava alimentando tal divisão. Seu objetivo era enfatizar que o corpo humano também é sagrado e, por isso, deve ser tratado com todos os cuidados necessários a fim de que seja saudável e cumpra seu papel na existência humana.

Corpo sagrado significa corpo saudável. Não por acaso, a idéia de santidade no pentateuco está relacionada ao cultivo de hábitos geradores de saúde e não somente à manutenção da moral pela moral. Moral que não pode ser relacionada à manutenção da saúde, em qualquer de suas dimensões, não passa de falso moralismo.

Durante séculos definiu-se como sagrado, o corpo privado de alguns prazeres. Hoje, em vez do “não pode”, enfatiza-se o “pode” que resulta em benefício, não em malefício, do corpo.

Corpo como santuário sagrado é aquele que se alimenta, exercita sua sexualidade, se higieniza ou desenvolve qualquer outra atividade na perspectiva de manter-se saudável. A manutenção da saúde corporal é uma das evidências mais contundentes de santidade e, portanto, da presença de Deus regendo a vida de uma pessoa.

(Texto produzido para a Revista Manancial, da UFMBB e publicado na 1ª quinzena de maio)

Curiosidades da nossa moral (2006)


Ouço o candidato do psdb/pfl criticando o Presidente Lula por não ter visto uma série de problemas ocorrendo em andares próximos ao do seu gabinete de trabalho.
Curiosidade: o marido, governador e candidato Geraldo não percebeu sua mulher chegando em casa com centenas de vestidos “doados” por destacado figurinista de São Paulo!

Fico escutando o candidato do psdb/pfl encher os pulmões ao falar que o Brasil não aproveitou o momento favorável internacional para crescer mais e ficou entre os últimos da lista em crescimento.
Curiosidade: em nenhum momento o tão lúcido candidato, que pensa que somos idiotas e não somos capazes de fazer análise de conjuntura, cita as diferenças históricas, territoriais, culturais, políticas e estruturais entre o Brasil e os países que cresceram mais do que o Brasil.

Acabo de receber um texto escrito por um pastor que decidiu não mais classificar-se como evangélico pela falta de moral dos evangélicos, criticando duramente a ética do governo Lula.
Curiosidade: há alguns anos ele estava na mídia nacional, no centro de acusações éticas, no campo familiar e político!

Leio sobre o lançamento de documento da liderança batista contra a corrupção, curiosamente foi lido em sessão solene, na presença de um deputado batista carioca que integra o grupo de fundadores do Partido da Frente Liberal – PFL, partido oposicionista ferrenho ao do governo Lula, o qual ficou com a “difícil missão” de entregar tal documento aos seus pares (fato que, certamente repercutirá na Assembléia de Santa Catarina).
Curiosidade: além da representação duvidosa de oposicionistas do governo lula no lançamento do manifesto, curioso é o fato de que, em assembléias da CBB, não muito distantes, não conseguimos deixar claro, por exemplo, questões éticas envolvendo as falências da Juerp, da Juratel e da “venda” de terreno do Seminário do Sul!

De batistas de São Paulo, recebo artigos escritos por pastores e líderes sobre a necessidade de ética na escolha do presidente, pois o atual estaria dilapidando o patrimônio público.
Curiosidade: De lá também recebo e-mail tecendo comentários duramente críticos decorrentes da venda de parte do patrimônio do Colégio Batista!

De diversos líderes, leio a velha tese de que o Brasil precisa ser evangelizado (leia-se, para muitos, o povo precisa tornar-se evangélico), pois esta seria a única saída para o problema da corrupção, das injustiças sociais, enfim.
Curiosidade: O Espírito Santo e Rio de Janeiro representam a maior concentração evangélica do país, sendo que neste último os dois últimos governos foram liderados por evangélicos e, ambos, estão entre os que apresentam maiores índices de violência e narcotráfico da nação!

Recebi críticas porque em minha defesa do voto a favor de Lula, não falei da moral sexual e me referi somente à economia (preocupação sexual, por um lado, fruto de fixação de sexualidade mal administrada pois nós evangélicos não temos uma teologia consistente da corporalidade; por outro, fruto de postura servil às ênfases norte-americanas. Tais “enfatizadores” da moral sexual não conseguem percebem que os americanos podem se dar ao luxo de priorizar discussões da moral sexual porque em seu país fome, violência, saneamento básico, habitação, transporte e distribuição de renda, por exemplo, não são problemas sociais).
Curiosidade: Parece que desconhecemos a recomendação bíblica: “recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres; o que também procurei fazer com diligência”.(Gal. 2.10)

Citei batistas e evangélicos para falar somente das traves dos meus olhos!

Diante disso, fico aqui no meu cantinho, não tão quietinho, matutando nas palavras de Jesus: “E por que vês o argueiro no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho?” (Mt. 7.3).

Penso nesse texto, agora, não no sentido de limparmos nossos olhos para termos moral para limpar os dos outros. Penso que precisamos limpar nossos olhos para enxergar que estamos sendo oportunistas políticos.

Que estamos agindo de má-fé, não pela escolha de Geraldo e não de Lula. Isso é um direito de cada. A má-fé está em usar a aparente preocupação com a moralidade para fazer prevalecer nossos interesses políticos.

Parece, nossa defesa da moralidade está vinculada a anseios latentes de tirar um ex-peão de fábrica, nascido no sertão nordestino, que está priorizando fazer a comida chegar à mesa dos mais empobrecidos, para botar um médico nascido no estado mais rico da nação (o meu querido Estado, terra onde nasci!), que representa um governo que, durante dois mandatos, agiu como se o país se restringisse aos ricos de São Paulo;

Parece, estamos rejeitando um presidente que optou por abrir os olhos para a América latina, África, Oriente Médio, sem brigar com Estados Unidos e Europa, para trazer de volta aqueles que nos fazem ter a burra sensação de que não somos pobres porque priorizamos o relacionamento, mesmo de modo servil, somente com o primeiro mundo! (Observe que o governo Lula não optou por um em detrimento de outro, mas pelos dois mundos!).

Tenha certeza, a leitora que conseguiu chegar até aqui, que não ficarei deprimido se o psdb/pfl voltar ao poder. Torcerei e orarei até para que, em seus investimentos, ele não mude o foco de priorizar os empobrecidos.

Tenha certeza, também, de que não sou um ingênuo (modéstia à parte, conquistei duas graduações, uma habilitação e uma especialização, e na área em que me prontifiquei a atuar ainda não posso me considerar um fracassado!), acreditando que o governo Lula é santo, que novas denuncias não surgirão mais num segundo governo, que todos os problemas do país se resolveram se dermos a ele mais uma oportunidade! Não.

Tenha certeza, também, que não sou defensor do programa de governo do PT.

Apenas estou convencido de que trocar PT pelo psdb/pfl, depois de tudo o que avançamos em relação aos empobrecidos deste país, depois de números inquestionáveis da superioridade geral deste governo em relação ao do psdb/PFL, seria uma grande bobagem!

Então, em 29 de outubro meu voto será, de novo, de Lula!

Masturbação (2004)

Se voce é daqueles que ficam vermelhos só de ouvir falar naquilo, minhas desculpas! Não poderia, porém, deixar de tocar no assunto. Ele tem pouca repercussão pública exatamente porque acontece estritamente na (vida) privada. Mas, é motivo de dilema para milhares de adolescentes, jovens e adultos separados por um "visto" de seus cônjuges.

A masturbação - busca solitária de prazer através da manipulação do órgao sexual - e outros assuntos relacionados à sexualidade, ganharam ênfase nos currículos de escolas brasileiras somente a partir da década passada. A inclusão se deu em reação a abusos cometidos, especialmente via televisão, e seus efeitos sociais. Conversas educativas sobre o tema continuam tabu. Pais tomam conhecimento da primeira mestruação da filha, mas ignoram a primeira ejaculação e seu significado para o filho. Existem muitos mitos em torno da masturbação, desde os mais jocosos - faria crescer cabelos nas mãos - até os sem fundamentação científica - causaria espinhas no rosto ou conduziria ao homossexualismo. A masturbação, porém, em si, não é problema. Problema é o sentimento de culpa decorrente. Como lidar com sexo ainda é transitar no proibido, quem se masturba fica com a sensação de desobediência, culpa, medo, tristeza... A Bíblia silencia sobre o tema. Dois textos, entretanto, são distorcidos para "comprovar" que masturbação seria pecado. O primeiro refere-se ao coito interrompido de Onãn. (Gênesis 38.8-10). Porém, os minimamente alfabetizados sabem a diferença entre coito interrompido e masturbação. Além disso, pecado ali não foi o coito interrompido, mas o desrespeito à lei do levirato.
O segundo, refere-se às palavras de Jesus: "Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela". (Mt. 5.28). Aqui, também, o tema não é masturbação, nem posicionamento sobre pensamentos eróticos, mas adultério.

Os que condenam a masturbação, porém, alegam que ela é acompanhada de pensamentos eróticos e isso seria pecado, com base nesse texto. Isso beira à neurose! Porém, se exegese ajudar na cura, vale a pena conhecer uma. Veja o que diz o Dr. David Hocking em "Love and Marriage":
"Primeiro, a palavra olhar está no presente, no grego, indicando um hábito vivencial contínuo. Não cremos que esteja dizendo que olhar com desejo sexual em um dado momento é errado. Deus nos fez com desejo sexual. Os homens gostam de olhar para a mulheres e as mulheres gostam de olhar para os homens. Cremos que esta passagem está condenando a prática de centralizar a sua atenção em uma dada pessoa, com a motivação de cometer adultério com ela. Em segundo lugar, a palavra "mulher" está no singular, quanto ao número e não no plural. O texto não está condenando o ato de se olhar para mulheres em geral, mas a concentração em uma mulher em particular. Uma pessoa determinada começa a dominar nossos desejos.
Em terceiro lugar, as palavras "para cobiçar" têm referência óbvia à perpetração do adultério. Isto não é a mesma coisa que experimentar o desejo de olhar para a aparência física de uma mulher e gostar do que se viu. O problema pode acontecer quando você se concentra em uma pessoa em particular e mentalmente vai pra cama com ela". (O mito da grama mais verde, JUERP, RJ, 1985, pg. 82, 83).
Precisamos ser honestos, de cara, repito, pra dizer que a Bíblia não trata do tema masturbação. Dizer também que, assim como autores bíblicos combatem a glutonaria e embriaguez, sem nunca apontarem o jejum absoluto e abstinência total como alternativa, também combatem a imoralidade sexual sem apontar a "castração" como solução. Eles não seriam tão insensatos! A repressão sexual é tão nociva ao indivíduo e à sociedade quanto a liberação. O diálogo honesto sobre sexualidade, solidão, frustração, relacionamentos e outros, é a saída recomendada. No caso da masturbação, uma avaliação das circuntâncias pessoais, da frequência do ato e sentimentos posteriores, feita por pessoa qualificada, pode identificar as causas, se a prática seria doentia e que soluções saudáveis existem. Por isso, no trato do tema, em lugar do literalismo bíblico legalista, a confiança na graça de Deus deve ser enfatizada. Se pela graça não formos edificados, estamos perdidos, pois resta-nos a letra que mata.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Tentando tirar as traves dos olhos (2004)

"O neurótico é aquele que, tentando evitar o não-ser, evita o ser". (Paul Tillich)



Não escreverei àqueles que estão com os olhos pregados nas traves dos campos de futebol, nestes tempos de Campeonato Brasileiro, nem assunto relacionado à oftalmologia. Farei uma auto-crítica, bem ao espírito do ensino de Jesus quando disse: “E por que vês o cisco no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho? (Mt. 17.3).

Houve tempo em que, predominantemente, ser evangélico significava defesa da liberdade individual de interpretação das Escrituras; do acesso direto a Deus sem intermediários institucionais e, sobretudo, da vida debaixo da graça de Deus. Hoje, no formato mais visível, parece sinônimo de dependência de homens-show, de gurus com paletós, gravatas e maleta 007, e de obediência cega a crendices, legalismos, maldições hereditárias, mistificações e demônios de todos os tipos e gostos.

Parece-me que os sinais de neurose hoje são maiores. Neurose, segundo o Dicionário Aurélio, é uma doença nervosa sem lesão aparente. Pois bem. Basta um diálogo com ouvidos clínicos para percebermos ansiedades, medos, tensões em gente condicionada a se encaixar em milhões de regrinhas assassinas.

Se um texto bíblico combate a glutonaria, defendem logo jejum absoluto; se fala da infelicidade dos que se assentam na roda dos escarnecedores, optam pelo isolamento do mundo; se fala que não há comunhão entre luz e trevas, tentam criar guetos de lamparinas; se fala dos perigos da imoralidade sexual, combatem qualquer expressão de sexualidade; se fala de cobiça, anulam a capacidade de apreciar a beleza alheia; se diz que a Deus seja dada toda honra, não honram seus semelhantes nem a si mesmos; se ensina salvação pela graça, mediante a fé, desprezam as boas obras; se diz que a sabedoria humana é loucura diante da divina, então, palmas à ignorância...

Para esses, a Bíblia não é registro de experiências de pessoas com Deus; é um livro de regras. Se perguntarmos se já entenderam em profundidade a Carta de Paulo aos Gálatas, dirão que não, mas sabem de cor os textos de Levíticos, Êxodo, Números e Deuteronômio. São dez em memorização de textos isolados da Bíblia e zero em leituras sobre a Bíblia. Pouco se importam com o contexto histórico dos autores bíblicos, pois, primeiro, definem em que acreditam para, depois, pincelarem versículos que, aparentemente, apoiam suas crenças.

Sabe aquela história de se matar um piolho dando um tiro na cabeça? A lógica neurótica, neste caso, funciona assim: se um alcoólatra começou com um gole, então imponhamos abstinência absoluta para todos...Se um glutão começou com um prato, então jejum absoluto para todos...se uma relação sexual ilícita começou com um olhar entre duas pessoas, então, venda nos olhos de todos...Se o que faço pode ser mal interpretado por alguém, gerando mal testemunho, então tranquem-se todos em celas individuais de mosteiros...Se um descontrolado perdeu todo dinheiro no cassino, então proibamos que todos joguem dominó...Se um irresponsável atropelou alguém com seu carro, fechemos então a indústria automobilística...

Ele foi tão condicionado a se preocupar com o bom testemunho que quando precisa tomar decisão, em vez de perguntar: isso é saudável para mim e para os que me cercam? É manifestação de amor em seu sentido mais profundo? A criação de Deus está sendo honrada? Ele pergunta: o que os outros vão dizer? Será que o pastor-guru aprovaria?

Quando publiquei um texto sobre masturbação, recebi um e-mail de um jovem, casado há dois anos, que não conseguia se relacionar sexualmente com a esposa. Orientei-o a procurar apoio profissional de um psicólogo. Preocupado com o bom testemunho, ele informou-me que os dois psicólogos de sua cidade não eram evangélicos... Sendo mais urgente o problema da sexualidade, recomendei-lhe que fosse a uma cidade vizinha onde não era conhecido. O importante era começar o processo de cura...

Percebeu o quanto são neurotizantes, as traves desse modo de ser “evangélico”?

Paulo, machista e conservador? (2004)

Paulo tem sido identificado por muitos, como um machista conservador. Essa acusação se deve ao fato de afirmar que as mulheres deveriam ser submissas a seus maridos e que deveriam permanecer em silêncio na igreja. Porém, uma análise do contexto sócio-cultural em que ele estava inserido e do papel da mulher naquela sociedade nos surpreende, tornando a acusação pouco justa.

Em “Jesus e as Estruturas de seu tempo” (E. Morin, Edições Paulinas, 1984) vemos que as mulheres deveriam obedecer aos homens porque a crença era de que Deus deu poder a eles. Geralmente elas eram associadas aos escravos pagãos e crianças. As filhas podiam ser vendidas, como se fazia com escravos. Aos homens era recomendado que orassem agradecendo a Deus por não os terem sido criados como mulheres.

Em termos de educação, a lei não lhes eram ensinada, pois isso seria o mesmo que ensinar-lhes a devassidão. Alguns mestres julgavam preferível queimar a Torá (lei) a ensiná-la à mulher. Nas sinagogas elas ocupavam lugares separados dos homens por uma barreira. Em nenhuma hipótese elas tinham acesso aos lugares reservados aos escribas.

No casamento, ainda que não fossem escravas do marido, eram posse sua. Cabia a elas não somente prepararem a alimentação dele, mas também lavar suas mãos, pés e rosto, coisas não exigidas de escravos judeus. Em termos de divórcio o direito ao repúdio era quase que exclusivamente do marido.

O testemunho de uma mulher não era válido. As casadas não podiam ser olhadas e nem sequer cumprimentadas pelos homens. Elas não participavam da vida pública e, na cidade ou diante de pessoas importantes, somente poderiam aparecer com véu na cabeça.

Em “Vida Cotidiana nos Tempos Bíblicos” (Merryl C. Tenney, J.I. Packer e William White Jr., Editora Vida, 1984) os autores descrevem a condição da mulher de maneira romântica. Eles não se manifestam sobre a justiça das relações homem-mulher. Pelo contrário, enaltecem as mulheres como virtuosas por agirem como agiam em contexto tão adverso.

A postura desses autores é de simplesmente reproduzir acriticamente o que os registros bíblicos apontam, sem nenhuma reflexão sócio-política. Ao tratar do papel da mulher de forma enaltecedora, seus escritos trazem imbutidos uma ideologia que legitima e alimenta relacionamentos injustos. Suas descrições, entretanto, confirmam a condição inferior das mulheres, mesmo que não tenha sido este o propósito dos escritores.

Agora me responda: se, num contexto como o descrito, em que mulher, escravo e objeto quase se confundem, alguém aparece ensinando que elas deveriam ser amadas, essa postura seria machista e conservadora? Claro que não!

Creio que as palavras de Paulo foram as “palavras possíveis” para seu tempo e espaço, uma vez que, enquanto o novo – a restauração da graça - estava sendo estabelecido, os efeitos da ruptura com o velho – o legalismo – precisava ser politicamente administrado. Desafiar homens a amarem – e não somente usarem - suas mulheres significava defender uma nova forma de relacionamento. Podia parecer pouco explícito, acanhado até, mas no desenrolar do processo os efeitos seriam revolucionários.

Imagino os conflitos interiores de Paulo, na formulação, apresentação e defesa desse novo comportamento. Compreendendo as perdas que a mudança representaria para os homens, entendo porque ele parece dar dois passos à frente e um para trás. Entendo, também, porque os homens-interpretes de hoje se apegam mais aos “passos para trás” do que aos “para frente” que Paulo deu.

Dois problemas posteriores a Paulo determinam a lentidão nos avanços das relações sociais homem-mulher. O primeiro, de natureza teológica, tem a ver com a canonização e absolutização dos escritos de Paulo. No momento em que a igreja decidiu fechar o Cânon, os avanços nas mudanças foram dificultados pois, aos teólogos, restaram duas alternativas: ou rompiam com a decisão da Igreja se expondo ao risco de serem marginalizados pejorativamente como modernistas, liberais, ou faziam marabalismos linguístico-teológicos com tais textos visando encontrar saídas que desatassem o nó. A maioria absoluta, compreensivamente, continua escolhendo a segunda opção.

O segundo problema é de natureza política. Na agenda de discussões político-doutrinárias da igreja, o tema submissão da mulher aos homens ocupou muito mais espaço nos debates do que o tema amor dos homens por elas. Essa ênfase na submissão e não no amor, retrata a resistência dos homens em aceitar as perdas políticas resultantes da proposta de Paulo.

Vale salientar que quem sempre definiu a agenda de temas a serem debatidos na igreja foram os homens. Quem sempre interpretou e escreveu sobre textos bíblicos foram os homens. Essa condição fez com que eles não somente pudessem escolher o que deveria ser discutido ou não, mas também possibilitou que o que eles pensavam se estabelecesse como verdade. Quantos livros de hermenêutica escritos por mulheres você conhece? Como elas poderiam fazer isso se não podiam, por decisão política dos homens, sequer se matricular numa escola teológica para estudar técnicas de interpretação, linguas originas e temas afins? Como as mulheres poderiam difundir o que pensavam ou sentiam se os púlpitos, por decisão política dos homens, eram espaços masculinos?

Estudando a natureza das relações sociais e como os sistemas são montados, entendemos porque tantas rupturas surgem no seio eclesiástico. É que, quando pessoas que têm uma visão diferente da dominante, perdem a esperança de ver avanços acontecerem, resta-lhes a alternativa do rompimento. Nas rupturas, brechas se abrem e raios de sol penetram nas estruturas escuras e mofadas que sufocam a beleza da vida.

Paulo não foi tão conservador e machista como é acusado. Nós é que somos ao nos calarmos diante de pressupostos teológicos e agendas de debates que nos favorecem e de relações humanas tão injustas.

Infidelidade conjugal (2004)

Infidelidade Conjugal é importante tema no campo do relacionamento humano. Ela afeta as dimensões emocional e espiritual do indivíduo, desestabiliza a família, afeta a convivência social, prejudica o desempenho profissional e pode até culminar em criminalidade.

Em algumas abordagens jornalísticas o assunto é tratado de forma jocosa ou simplesmente como algo corriqueiro que não merece maiores preocupações. Tais abordagens passam a impressão de que (in) experiências particulares ou desejos latentes dos escritores prevalecem sobre a análise crítica e norteadora.

O princípio da fidelidade foi construído culturalmente ao longo da história, com base em experiências e suas conseqüências nos grupos sociais. Sistematizado detalhadamente, geralmente através de uma tradição religiosa, é repassado de forma oral ou escrita, através dos que dominam o universo religioso. Porém, a cultura do povo e as idiossincrasias individuais determinam maior ou menor submissão ao princípio.

Os cristãos que crêem na autoridade normativa do Segundo Testamento (coleção de textos canonizados pela Igreja Católica, dentre os diversos produzidos pelos primeiros seguidores de Jesus, visando nortear posicionamentos ético-doutrinários da igreja) são mais ou menos radicais em relação ao assunto, de acordo com a formação acadêmica ou estrutura de personalidade de seus líderes.

Teorias ou posicionamentos políticos à parte, todos concordam, porém, com os danos provocados pela infidelidade. Independente, portanto, das questões teológicas, filosóficas, antropológicas, sociológicas, psicológicas, biológicas, enfim, que envolvem o assunto, é inegável a dor que caracteriza a vida dos envolvidos na infidelidade conjugal.

Se as pessoas tivessem noção prévia das conseqüências dolorosas da infidelidade, provavelmente pensariam melhor antes de, irracionalmente, darem vazão aos sentimentos motivadores. Digo irracionalmente porque, via-de-regra, a infidelidade é impulsionada por uma força interior aparentemente incontrolável, capaz de fazer com que o candidato a infiel ou não enxergue as conseqüências ou, simplesmente decida arriscar-se a pagar o preço das possíveis conseqüências. Sem ajuda externa, de pessoa qualificada técnica, emocional e espiritualmente, dificilmente se consegue alterar o propósito do coração.

O triste é que, consumado o objetivo, verifica-se, primeiro, que um ato é insuficiente para satisfazer o desejo e, mais tarde, que todo o prazer alcançado é infinitamente menor do que os efeitos colaterais dolorosos que produz. Diante dos sentimentos destrutivos que assediam o coração, alguns tentam abafá-los envolvendo-se em ativismo doentio, excesso de álcool ou uso de drogas, legalizadas ou não. O corpo fragiliza-se e enfermidades aparecem, como no caso de Davi (Salmo 32.2). A dor é tal, pelo menos nos mais sensíveis a valores espirituais, que o fantasma da morte ronda em forma de desejo. Somente a graça divina, manifesta através de pessoa qualificada pode restaurar o equilíbrio na alma.

Quem se envolve em infidelidade é incapaz de mensurar as conseqüências na vida do cônjuge. Este, independente das explicações teóricas, parece ser o que sofre mais. O fato de sentir-se vítima de traição, a perda da confiança em alguém que faz parte de seus pilares de sustentação emocional, a tristeza de saber que o afeto antes tido como somente seu ter sido canalizado para outrem, os efeitos humilhantes da repercussão social, a tomada de consciência da falta de controle na situação em que o fato se deu, a própria indignação da cruel invasão de terceiros na intimidade daquele que lhe era sagrado, enfim, podem culminar em reações drásticas, irracionais e irreversíveis. O pensamento dominante é que, eliminando-se os traidores, elimina-se a dor. Crimes passionais, portanto, não ocorrem por amor ou ódio, mas pelo desejo de eliminar a própria dor.

O resultado final de um ato de infidelidade é imprevisível. Pode haver restauração da relação, uma simples separação ou até, em casos extremos, ações criminosas. Por isso, é essencial que se busque a imediata restauração do equilíbrio emocional, seguida de reflexão sobre possíveis causas, sob monitoramento de pessoa qualificada.

A restauração da relação é possível, conquanto longa e dolorosa. A transparência e a verdade como meios de resgate da confiança, são essenciais. A abertura para reconhecimento de necessidades não supridas na relação, surgidas antes ou durante o casamento, bem como de possíveis erros cometidos por ambos nos processos que antecederam ao fato, são indispensáveis. A busca de ajuda espiritual, visando restaurar a graça, a misericórdia, o respeito, o afeto, o amor mútuo, enfim, são fundamentais. Somente quando nos abrimos, ainda que através de uma pequena brecha, para o agir divino, algo novo e bom pode acontecer.

Sexualidade, a terceira alternativa (2001)

“A liberação não é a única, nem a melhor alternativa à repressão”.
(Examinai tudo, OJB, nº 29 de 16 a 22 de julho de 2001 )


São raras as pessoas que tratam com desenvoltura o tema sexualidade e eu não sou uma delas. Sou de uma geração que pouco ouvia sobre o assunto, exceto para se inculcar como pecado o simples "pensar naquilo". E do pouco que se ouvia, o discurso era que as inclinações da carne - entendidas, para boa parte dos pastores, como sinônimo exclusivo de desejos sexuais - eram pecaminosas.

Mas não podemos tapar o sol com a peneira. Basta olhar para o passado para constatar que a forma como o assunto foi tratado ao longo da história não foi eficaz em seus propósitos. A quantidade de casamentos desfeitos, de casais infelizes e de crentes, inclusive pastores e esposas, com neuroses oriundas da maneira como lidam com a sua sexualidade é incalculável e persistem a despeito dos nossos discursos romanticamente moralistas. Isso sem contar os efeitos nocivos que alguns deslizes sexuais provocam na vida de terceiros e da sociedade. Exemplos? as preocupações mundiais que o batista Bill Clinton, ex-presidente da mais rica potência do planeta, provocou com suas aventuras sexuais na Casablanca ou os prejuízos que as aventuras sexuais do pastor fulano de tal (você certamente tem pelo menos um nome em mente para substituir o “fulano de tal”!) trouxeram à família, à igreja e à denominação que servia com tanta sinceridade e dedicação.

A repressão ao desejo tem sido o caminho mais indicado nas poucas vezes em que o assunto é tratado, sendo a demonização do sexo, sua expressão maior. Para alguns, o desejo sexual deve ser encarado como de origem demoníaca e, por isso, deve ser exorcizado com jejum e oração. Em vez de encararem os sentimentos sexuais como inerentes à constituição bio-psíquica humana para, a partir daí, canalizá-los construtivamente, bloqueia-se o canal do diálogo, mais por insegurança emocional do que cognitiva. O alerta para os perigos do sexo é tão extremista que, mesmo sabendo tratar-se de obra divina, o melhor é ficar bem longe dele. Reprimir sexualmente parece ser o caminho mais curto quando o pregador quer jogar o ouvinte na lama da culpa para depois convocá-lo a uma mudança, geralmente ineficaz, por mais sincero que seja o "Arrependido".

Em posição oposta estão os que defendem a liberação. Existem em minoria e poucos mostram a cara por, digamos, conveniência política. Para estes, a necessidade sexual deve ser encarada da mesma forma como a necessidade de beber água. Se você está a fim, basta encontrar alguém que satisfaça suas necessidades e pronto. É só não esquecer a camisinha. Mas as coisas não são tão simples assim. Sexo não é água, nem corpos, copos descartáveis. Pessoas sentem, pensam, se apegam, se amam, reagem e interagem; têm passado, presente e futuro; têm história; têm família, amigos e colegas; sonham em ser amadas, detestam ser usadas. Além disso, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada causam transtornos e mudam o rumo da vida dos envolvidos e dos que os cercam.

Se a repressão e a liberação são igualmente prejudiciais, qual seria a terceira alternativa? A alternativa é abrir-se ao diálogo franco e conscientizador, começando na própria família. Abrir-se ao diálogo é procurar sentir e entender os dilemas do interlocutor; é admitir, honestamente, que todos estamos sujeitos a enfrentar situações cuja dificuldade de lidar com a sexualidade é real; é não apresentar-se com um anjo que, por ser assexuado, não enfrenta dificuldades na área; é não Ter medo de admitir as próprias fragilidades. Para nós pastores, essa é uma alternativa indecorosa, afinal, não pecamos nem estamos sujeitos a conflitos no campo da sexualidade... Isso é problema de adolescentes, jovens e uma meia dúzia de adultos mal resolvidos...

Esta na hora de revermos nossas posições, de pararmos de ditar normas, como se fôssemos deuses, para dialogar, para ouvir e se deixar ouvir sem um púlpito e uma gravata entre nós e o povo. Está na hora de reavaliarmos algumas questões. Por exemplo: a eficácia da repressão ou da liberação sexual a partir de dados; a função sexual, em termos de reprodução, intercâmbio de afeto e de prazer; a questão cultural e sua influência no trato do assunto; o uso da Bíblia como ponto de partida para uma orientação saudável e não ferramenta de manutenção de costumes sociais oriundos de contextos diferentes ou ponto de chegada fundamentalista; a avaliação crítica do pensamento daqueles que fazem da sexualidade seu nicho de atuação ministerial em face de interesses e motivações questionáveis; o convencimento de que conversar abertamente sobre sentimentos sexuais é tão saudável e necessário para os casais quanto a própria pratica sexual; o interesse dos pais pelo desenvolvimento sexual de seus filhos especialmente quando em fase de namoro, muito mais com ajudadores do que como legisladores ou juizes; o mito de que casar-se é solução para todos os casos de abrasamento sexual e que pessoas casadas estão livres de se sentirem atraídas por terceiros; o mito de que o conhecimento acadêmico do assunto torna a pessoa mais preparada para lidar com a sexualidade, desconsiderando as emoções, a matriz da personalidade e sua história de vida; o papel do afeto nos relacionamentos familiares e na construção de uma sexualidade saudável.

Está na hora de abandonarmos o simplismo, de sermos mais realistas e de dobrarmos mais nossos joelhos em oração, não para fugir do assunto ou mistificá-lo, mas para buscar sabedoria divina e preparo mais adequado aos clamores dos nossos dias.

O corpo vai ao culto (2005)

O corpo vai ao culto. Se não fosse, o evento seria fantasmagórico, pois sem as cordas vocais, sons não seriam emitidos, não haveria pregação, cânticos, beleza ou alegria. Ele não vai nu. A nudez despertaria sentimentos e reações inadequados à ocasião. Já que vai vestido, cada um se veste a seu modo, à luz de crenças e objetivos particulares ou do grupo. Os que vêem Deus como autoridade governamental, se vestem formalmente, como se fossem encontrar um Presidente; os que O vêem como um amigo pessoal, comparecem vestidos informalmente. Uns respeitam essas diferenças de visão; outros, fundamentalistas, são capazes de matar para "uniformizar" a todos.

No culto o corpo se expressa de diversas formas. Por ser na “casa de Deus” e não na dele, em reverência, permanece a maior parte do tempo sentado e não deitado, podendo, no transcorrer da programação, se postar de outras maneiras.

O culto, neste caso, é coletivo por isso, o corpo é estimulado a expressar sua boa vontade para com o outro apertando sua mão. Originalmente essa expressão indicava que duas pessoas estavam literalmente desarmadas, dispostas a viver em paz. Hoje significa espírito desarmado, abertura para aproximação. Esse mesmo sentimento pode ser expresso através de um recíproco movimento dos músculos faciais, conhecido como sorriso.

Em alguns momentos do culto, um respeito maior é solicitado. Nesse caso, o corpo é convidado a expressar esse sentimento colocando-se em pé. Ao longo da vida, aprendeu que ficar em pé diante do outro pode significar respeito. Na escola, quando um adulto adentrava à sala de aulas, ele assim agia. No exército, aprendeu a expressar-se assim diante dos "superiores", batendo continência. Além disso, após longo tempo sentado, ficar em pé pode produzir relaxamento e, consequentemente, melhorar a performance litúrgica.

Em alguns momentos do culto, o corpo ajoelha-se. Isso é símbolo de humildade e reconhecimento da soberania divina. Alguns não gostam dessa postura por preconceito. Alegam que ajoelhar-se é prática de católicos ou pentecostais. Os que não pensam assim, respeitam a dificuldade de idosos ou doentes, os quais permanecem sentados, postura que, nesse caso, não significa desrespeito à divindade.

As mãos podem ser usadas para expressar alegria, reconhecimento, bênção, legitimação, adoração ou como instrumento acústico. O encontro da palma da mão direita com a da esquerda, produz som. A esse movimento dá-se o nome de bater palmas. Seja por consenso ou por imposição dos que detém o poder, nem sempre a alegria ou o reconhecimento podem ser manifestos através das mãos. A facilidade de se aceitar a expressão corporal de reverência ou humildade é maior do que a de alegria. O contato das mãos com algum instrumento musical produz sons agradáveis aos nossos ouvidos e, por isso, cremos que são também agradáveis aos "ouvidos" de Deus. Há pouca resistência ao uso das mãos ao final do culto ou em ocasiões especiais, quando são levantadas sobre a cabeça, simbolizando bênção ou legitimação. Também já se aceita em alguns cultos, a recomendação paulina para se levantar as mãos em adoração(I Tim. 2.8). Vez por outra se fala de mãos que foram usadas para dar soco ou para apertar o pescoço do outro em "cultos administrativos". Mas isso é outra história...

Balançar-se ou dançar, como expressão rítmica ou de alegria, é difícil para corpos envelhecidos. Por serem eles, geralmente, os que detém o poder de definir as regras do culto, esse tipo de expressão é tido como inadequado, afinal, "o que não é bom pra mim, não é para os todos..." Corpos mais jovens, cheios de saúde e vigor, sentem-se tolhidos, daí os conflitos.

Movimentar-se de forma harmoniosa e sincronizada também é um meio de comunicação de mensagens. Pode não ser tão eficiente como a comunicação oral mas produz efeitos positivos nos apreciadores de arte. Há os que têm problemas com a libido e olham mais para o corpo, do que para o que ele está se propondo, mas isso é outro problema. Se um corpo fica encantado com a beleza de algum(a) corista e não presta atenção à mensagem da música coral, o problema não é do coral. O problema, portanto, não está nos movimentos corporais, mas nos olhos de quem os assiste. Quando os olhos estão doentes, até uma afegã dentro de uma burca ou uma freira em seu hábito provoca encantamento e excitação.

O corpo vai ao culto mas não coloca o rosto em terra como símbolo de temor ou espírito de oração, expressões corporais comuns nos tempos de Jesus. Quando um corpo brasileiro vai ao culto, conquanto essa prática - colocar o rosto em terra - seja bíblica (Mt. 26.39; Mt. 17.6 etc.), ela não é usada. É que, graças ao senso crítico, à capacidade de aprender história, de pensar, de lidar com os símbolos, com a sexualidade, com a cultura ou com a política, nem todos os corpos se dobraram àqueles que impõem interpretações literais da Bíblia, para favorecer esta ou aquela expressão corporal.

Quanto à vontade de Deus, nu Ele enviou o corpo ao mundo e nu o corpo voltará a Ele. Por isso, durante a sua estada neste planeta, os corpos podem aperfeiçoar maneiras saudáveis de cultuarem, com objetivos claros, sempre visando a glória do criador.