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sábado, 21 de julho de 2012

Instituições que trabalham com crianças - 21.07.12 - 90/100 dias de oração pelo Brasil

Há quem defenda que não seja papel da igreja trabalhar com crianças empobrecidas ou em situação de risco. Defendem que cabe ao Estado cuidar das questões sócio-economicas do país. À igreja, dizem, cabe o papel de cuidar das almas (no sentído medieval da palavra, não psicológico ou mesmo bíblico-teológico). A igreja, dizem, deve cuidar do futuro, impedindo que pessoas vão morar no inferno, trabalhando para que aceitem ir morar no céu.

Este tipo de compreensão é fruto muito mais de alinhamento político-ideologico com o poder político e econômico do que reflexão sobre a vida e ensinos de Jesus. Além disso, coloca seus defensores na mesma condição do sacerdote e do levita, da Parábola do Bom Samaritano.


Entendo que, em primeiro lugar, compete aos
pais trabalharem para que seus filhos tenham boas condições de vida. A responsabilidade número um, portanto, é dos pais. Entretanto, os pais não vivem numa ilha. Suas vidas são fruto de todo um contexto sócio-cultural. A educação e condições de vida que receberam e a cosmovisão de mundo que desenvolveram se deram num contexto em que há pessoas de todo tipo. Pelo fato de ser característico do ser humano, a luta pelo poder sobre o outro, a defesa de interesses particulares em detrimento dos públicos, a competição sem ética, sempre haverá quem acumule muito (dinheiro e poder) e quem fique sem nada. O desequilíbrio social torna-se realidade, se não houver elemento atento e regulador.

Nesse contexto, além dos pais nem sempre conseguirem dar o que não lhes foi dado, há também circunstâncias de vida que tornam desfavoráveis a estabilidade familiar. Uma enfermidade, um desemprego, um acidente, enfim, uma série de fatores contribue para que famílias estejam sujeitas a problemas e nem sempre consigam recuperar a condição de oferecer aos filhos o que eles necessitam.


Cabe então, ao
Estado, criar ambiente favorável à vida  de todos os cidadãos, especialmente das crianças. Ele deve adotar políticas que favoreçam o equilíbrio das famílias e assim elas possam cuidar bem de seus filhos, de nossas crianças.

Só é aceitável o Estado criar instituições e designar recursos para ajudar crianças em situações excepcionais. Via-de- regra, ele deve oferecer à família, condições favoráveis ao seu desenvolvimento, a fim de que ela não precise receber esmolas do Estado. Quando, entretanto, o desequilíbrio está estabelecido, como é o caso do nosso pais, é óbvio que o Estado precisa intervir visando recuperar as condições necessárias ao desenvolvimento autônomo de cada família. Que caminho técnico usar é o X da questão. Daí as diferenças ideológicas nos modelos econômicos que cada país adota.


Onde as
igrejas entram nisso?  As igrejas, atentas à realidade que as cerca, não podem passar de fininho como se nada estivesse acontecendo. Há um problema social com nossas crianças, ou seja, a quantidade de problemas está acima do nível considerável aceitável e o Estado não está dando conta de sua parte, seja porque razões forem.

Nesse caso, não só a igreja, mas todas as pessoas e instituições devem se mobilizar. Mobilizar-se através de atuação política mais contundente, visando otimizar a administração da coisa pública e do uso dos recursos disponíveis; trabalhar para reduzir a probabilidade de corrupção e estender as mãos - ofercendo assistência e educação - aos que são vítimas de um sistema social que não oferece condições para que o cidadão tenha acesso a educação, saúde, transporte, habitação, renda, etc..


As igrejas podem, então, fazer um bom papel, dando o peixe nos casos de emergência; ensinando a pescar, nos casos em que a integridade da pessoa não está em risco e conscientizar sobre as causas dos rios não estarem produzindo peixe em quantidade suficiente ou de alguns conseguirem mais peixes do que outros.


Vibro cada vez que vejo uma igreja fazendo algo pelas crianças. Cada uma deve encontrar sua forma de cooperar, dentro dos recursos financeiros, humanos, estruturais que dispuser. O que não podemos é ficar dando ouvido a uma teologia alienante, cujos defensores transformam igrejas apenas em nicho para vender seus livros e suas conferências "teológicas", a pretexto de fidelidade à palavra de Deus.


Fidelidade à palavra de Deus é amar ao próximo como a si mesmo, é não deixar que seja feito com as crianças dos outros aquilo que não gostaríamos que fosse feito com nossas crianças.


Abraços do seu pastor,

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Crianças -"Não as impeçais"! - 20.07.12 - 89/100 dias de oração pelo Brasil

Crianças são seres humanos.
Em estágio de vida diferente dos adultos, mas seres humanos.
Responsabilidades diferentes dos adultos, mas seres humanos.
Reações diferentes dos adultos, mas seres humanos.
Isso parece óbvio, mas não para todos e em todos os tempos. Nos tempos de Jesus, como as mulheres, elas não eram contadas. Isso indicava que não tinham o mesmo valor que os homens. Daí os discípulos dificultarem o acesso de uma mulher a Jesus que, além disso, queria levar uma criança para ser abençoada.
Jesus, quebrando mais um paradigma, reage: "não as impeçais".

"Não as impeçais" não é o mesmo de "deixem que façam o que quiserem". Significa que seus direitos devem ser reconhecidos. No caso de Jesus, os discípulos lhes negava o direito de serem abençoadas.


Por que elas não poderiam sequer ser abençoadas por Jesus? Porque Jesus era por demais importante, bastante assediado por adultos e, sendo elas seres de segunda classe, não deveriam incomodá-lo. Esse era o pensamento por detrás da decisão deles. Errado, mas assim a cultura foi introjetada em suas mentes. (Preservar a cultura é algo bom, desde que os valores que elas apresentam sejam saudáveis ao indivíduo e à sociedade como um todo).


Jesus via de outra forma.

As crianças são frágeis, mas seres humanos.
Não desenvolveram a capacidade física para se defenderem, mas seres humanos.
Não têm autonomia econômica para sobreviverem, mas seres humanos.
Não têm pensamento amadurecido para decidirem, mas seres humanos.
Não têm maturidade emocional para se autocontrolarem plenamente, mas seres humanos.
Sim, seres humanos que merecem todo o nosso respeito e cuidado.

Portanto, as palavras de Jesus precisam ser vistas não somente como um incentivo à evangelização de crianças, no sentido de proporcionarmos a elas o direito de conhecerem um evangelho que lhes garante uma salvação no futuro, mas também o evangelho que reconhece e, por isso, valoriza seus direitos de serem salvas das maldades e equívocos humanos no presente.


Não as impedí-las de ir a Jesus, para ouvirem e conhecerem, por exemplo, o "sermão do monte" que lhes ensina direitos e deveres conferidos por Deus, para viverem a vida de maneira saudável. Conhecerem, portanto, não só o direito ao céu, mas à vida, em todas as dimensões, como manifestação da graça e do amor divinos.


Abraços do seu pastor,

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Profissionais da Educação - 19.07.12 - 88/100 dias de oração pelo Brasil

É oportuno orarmos hoje pelos profissionais da educação. Sempre é oportuno orar por eles. Todos dependemos e continuaremos dependendo deles para bem viver. Quem ensinou os que atuam nas profissoões mais rentosas? Quem ensinou os que atuam nas profissões mais influentes da sociedade? Quem ensinou os profissionais mais procurados do mercado? Foram os profissionais da educação. Profissionais de outras áreas contribuem para a educação em estágios mais avançados. Você já ouviu falar de engenheiro, advogado, médico, economista, administrador, etc., ensinar no ensino fundamental? Você tem idéia de quantos dessas e outras profissões atuam no ensino médio? Pois é, atuam geralmente em graduação ou pós!

Uma das causas possíveis para a baixa remuneração dos profissionais da educação seria a lei da oferta e da procura. O fato de atuarem numa área cuja oferta de mão de obra é sempre maior do que as vagas disponíveis (não das necessárias), a tendência seria a desvalorização salarial.  Se é assim, por que o Estado não atua como regulador, como faz em relação às safras de alimentação ou ao valor do dólar? A resposta parece simples: nossos governantes se guiam por resultados de curto prazo, com efeitos políticos e financeiros imediatos e a educação é investimento de longo prazo que traz poucos efeitos eleitorais. O problema, portanto, é político-cultural.

Diante da desvalorização, o perfil dos profissionais da educação é um retato perfeito do comportamento de todos nós. Entre trabalhar no que se gosta e no que dá dinheiro, a segunda opção é sempre a escolhida, pois ter dinheiro possibilita ter e fazer coisas que podem compensar o desprazer de trabalhar naquilo que não seria a opção número 1. Os que insistem em fazer o que gostam ficando na educação são minoria. Assim, a sociedade perde, cada vez que alguém que seria ótimo profissional da educação opta por seguir por outro caminho por razões financeiras. E perde também, quando os que gostam e permanecem na educação trabalham insatisfeitos com a remuneração que recebem.

Se esse raciocínio estiver correto, somente um reposicionamento de cada cidadão, na hora de escolher seus dirigentes, poderia mudar o rumo das coisas. O caminho seria procurar candidatos que tanto reconhecem (comprovadamente e não discursivamente) a importância da educação quanto reconhecem que há um problema de mercado. Eles poderiam atuar no sentido de encontrar e aplicar mecanismos de regulação, visando valorizar os profissionais da educação. Aqui surge novo problema: nós não participamos dos partidos, apenas ratificamos, nas urnas, nomes por eles disponibilizados. E eles, em sua maioria absoluta, bondosamente falando, estão preocupados em nomes que os garantam no poder,
para usufruirem dos benefícios financeiros decorrentes, não em interessados na promoção de mudanças.

Lanço então a criação do Partido da Educação. Já pensou? Só poderia fazer parte dele quem manifestasse clara e inequivocamente interesse pela valorização da educação, em todos os seus aspectos, incluindo, portanto, o profissional da educação. Se você topar, já podemos marcar a primeira reunião para estruturar o projeto!


Enquanto sonhamos, oremos pelos profissionais da educação e ajamos, através dos meios existentes e pensando nos que podem ser criados, a fim de que eles - os profissionais - se sintam apoiados, devidamente valorizados e comprometidos com trabalho e mudanças necessários no sentido de construirmos um pais no qual os valores do Reino predominem.


Abraços do seu pastor,

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sistema Único de Saúde - 17.07.12 - 86/100 dias de oração pelo Brasil

Não sou especialista em sistema de saúde, nem me detive em estudar o assunto. O que direi a seguir é fruto de observação de caso e diálogo com usuários. Abro espaço, então, para que se sintam ainda mais à vontade para criticar e fazer ajustes ou reparos no que colocarei.

O sistema de saúde dos Estados Unidos tem estado no centro das discussões políticas daquele pais há anos. Uma de suas marcas é a não existência de hospitais públicos gratuitos (da mesma forma que não existe universidade pública gratuita). Em princípio, todos pagam pelos serviços utilizados. Para alguem não desembolsar pelo pagamento de serviços recebidos nos hospitais, é preciso que comprove sua incapacidade de pagamento
de acordo com requisitos legais, mediante documentação e entrevistas concedidas a assistentes sociais .

A filha de um casal amigo passou mal e  foi levada ao hospital municipal de Broward, no sul da Flórida. Passou 2 ou 3 dias sob exames rigorosos. Ao final constatou-se que era um rotavirus. Após receber alta, as contas começaram a surgir. Cada médico, laboratórios, enfim, que participou do processo enviou sua fatura que, somadas, ficaram em torno de 9 mil dólares. O pai foi atendido pela assistente social e, por não atender os requisitos legais, teria que pagar. Poderia negociar a quantidade de parcelas para quitar as dívidas com cada credor (médicos, laboratórios, enfim), mas teria que pagar.

Detalhe: ninguém deixa de ser atendido. Se alguém chega enfermo, primeiro vem o atendimento, depois se fala em pagamento. Se não pagar, o sistema judiciário é mais ágil e as leis duras com o devedor.

O modelo dinamarquês, por exemplo, tem suas diferenças. Há saúde pública e gratuita. Os impostos no país giram em torno de 50%, mas o atendimento é de qualidade.

Tenho algumas informações desses dois paises porque tenho filhos morando em ambos (e já morei por pouco tempo no primeiro). O que há em comum entre o modelo norte-americano e o dinamarquez é que, em geral, a pessoa é atendida com respeito nos hospitais, especialmente se compararmos com o que vemos nas portas de hospitais públicos no Brasil. Talvez seja esse nosso principal diferencial negativo em relação aos paises citados, em que pese as diferenças na economia.

Temos o SUS. Há, portanto, um sistema montado. Deduzimos que dinheiro parece não ser o nosso problema. As notícias de superfaturamentos, corrupção e até mesmo de recursos devolvidos a órgãos federais por não terem sido utilizados indicam que o problema não é, primeiramente, a falta de dinheiro. Também não acredito que a incompetência técnico-adminitrativa seja o maior problema. Acredito que o desrespeito ao próximo, manifesto de diversas maneiras, inclusive na forma como se trata o dinheiro, a coisa público, é o eixo central do nosso problema. Quando existe respeito, existe boa vontade, disposição para superar-se obstáculos.

Faz parte, porém, de nossa cultura, a burrice (com todo respeito aos burros) de tratar as pessoas não somente pelo que têm, mas, pior, pelo que parecem ter. Digo burrice porque, da mesma forma como tratamos aqui, onde detemos o poder, seremos tratados ali, onde outro detém o poder. A lógica é simples: se cada um se empenhar em tratar o outro com respeito, todos seremos tratados igualmente com respeito. O problema é que o coronelismo está introjetado culturalmente em nossas mentes e a maioria absoluta da população vive em condições precárias, se comparadas com a dos que concentram os benefícios resultantes do trabalho. Por isso, nos tratamos uns aos outros como vermes, ainda que façamos isso com um lindo sorriso no rosto.

Tenho insistido nesses 86/100 dias de oração pelo Brasil que devemos orar primeiramente por nós mesmos, não como vítimas, mas pela nossa insistência em não admitirmos que as coisas são como são porque incutiram em nós que devemos ser da turma do deixa disso. Não reagimos, não erguemos nossa voz. Não lutamos. Sofremos, fazemos piadas e até murmuramos críticas, nas rodas íntimas, contra quem ousa manifestar-se. Nosso grande sonho parece ser ocupar um espaço de poder, para fazer com os dependentes de nós, o mesmo que fazem conosco.

Ou destrambelhamos, se for a última alternativa, a engrenagem estabelecida, pensando em construir outra que seja justa e adequada às necessidades e ao bem comum, ou continuaremos sendo aqui, vítimas, ali, agressores; aqui, vítimas, ali, agressores; aqui, vítimas, ali; agressores; aqui, vítimas, ali agressores, sempre rindo ou lamentando, nos extremos da vida.

Abraços do seu pastor,

terça-feira, 17 de julho de 2012

Paz no Trânsito - 16.07.2012 - 85/100 dias de oração pelo Brasil

O trânsito anda caótico. Digo, não anda nem caótico. A causa seria o fato do Brasil, diferentemente dos paises europeus, ter optado por facilitar a cada morador a compra do seu próprio carro, em lugar de investir em transporte público de qualidade. Mas não é so isso. Há também a falta de investimento em novas vias de acesso, novas tecnologias e até mesmo em engenharia de trânsito. Tudo sob a justificativa de falta de recursos, em meio a tantas denúncias de corrupção.

Entretanto, há outro elemento que faz com que o trânsito seja caótico: a falta de educação. Não uso a expressão "falta de educação" no sentido negativo usado para agredir verbalmente uma pessoa grosseira, sem "etiqueta". Refiro-me à falta de priroirzação em investimento na educação pública. O que está acontecendo na Bahia é o maior exemplo dos últimos anos. Já há 100 dias, quase 1/3 do ano escolar, nossas crianças não sabem o que é um banco escolar.

Esse problema é nosso.

Não adianta aproveitar o caso para criticar o Partido dos Trabalhadores que lidera a coligação que governa o Estado. Fazer isso é tirar o foco do problema, é politizar, e "urnificar" o problema. Primeiro, porque a falta de priorização na educação é um problema de todos os governantes do pais, com raríssimas excessões. Não é de agora que se trata mal o cidadão, tratando mal a educação, as estruturas onde ela se desenvolve e os profissionais que fazem com que ela aconteça. Segundo, porque o mesmo ocorre nas igrejas. Foi-se o tempo que investir em educação era prioridade nas igrejas. O investimento é no aumento de frequentadores e na captação de receitas, usando-se para isso todo tipo de atrativo.

No caso batista, há até que defenda que nossos colégios devem evangelizar mais. Além do sentido teologicamente distorcido que se dá ao termo evangelização ou mesmo do propósito nem sempre "celestial" dado a ele, isso indica a falta de respeito que os que defem isso têm à natureza e finalidade das escolas e, pior, à sua importância para o desenvolvimento de uma sociedade.

A falta de paz no trânsito, passa também pela falta de educação e a falta de educação não é problema de um governo, mas de todos nós. O problema é que nós agimos como "ovelhas levadas ao matadouro", silenciamos diante da malversação do dinheiro do nosso trabalho que também chamamos de dinheiro público; transferimos a responsabilidade, através de voto sem reflexão, para governantes que são o retrato de nossa cara no que se refere ao valor dado à educação e ainda criticamos os professores, cuja luta não é somente por melhores salários, mas, simbolicamente, por um olhar novo sobre esta área da vida que é essencial a todos nós.

Se queremos paz no trânsito, comecemos orando por nós mesmo e por nossa postura frente à política, a educação e, inclusive, ao signficado de nossa fé para os dias de hoje.

Abraços do seu pastor,

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Estudantes Universitários - 08.07.12 - 77/100 dias de oração pelo Brasil

Lembro-me de quando uma pessoa podia contar em seus dedos o número de jovens universitários em nossas igrejas batistas. A raridade era tal que cada um era visto como troféu. É verdade que eram outros tempos, tanto da educação quanto no perfil religioso brasileiros. O acesso à universidade e às igrejas evangélicas era um desafio muito maior, seja pela pequena oferta, no caso da educação, seja pelo preconceito religioso, no caso das igrejas evangélicas.

Foi nessa época que surgiu o programa da JUMOC chamado "Operação Universitária - OPUS" (se não me engano). Dentro desse programa foi lançada a Revista Campus, a qual, ao lado de "Mocidade Batista", marcou minha vida no final da adolescência. Quando um texto meu foi publicado nela, no início dos anos 80, comemorei muito.


Juarez de Azevedo, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, era, talvez, a maior sensação nos acampamentos de jovens batistas, inclusive no sudeste. Eram raros os que não conheciam seu livro "Ateu ja era", escrito pensando na juventude universitária.  E como, mais uma vez comemorei, em torno de doze anos depois do lançamento do livro, por estar, como preletor, ao lado dele, em um congresso regional de juventude.


Encerrando a fase de memórias, lembro-me de ter sido determinante em minha decisão de iniciar o pastorado em Alagoas, o fato da liderança da Juventude Batista Alagoana - JUBAL, ser engajada em movimentos universitários e políticos, tendo Robinson Cavalcanti (outro ícone da juventude universitária de então, cuja vida foi ceifada recentemente, juntamente com a da esposa, de forma dramaticamente brutal) como referencial de compromisso com o Jesus da Bíblia e o diálogo universitário.


Hoje comemoramos porque, se o acesso dos jovens à universidade não é na quantidade que gostaríamos, é infinitamente maior do que até os anos 90. Dizemos o mesmo, em relação às igrejas. É animadora a presença jovem nelas.


Do meu ponto de vista a preocupação da igreja com os jovens na universidade deixou de ser primeiramente pelas dúvidas que poderiam surgir quanto a "existência" de Deus ou pela liberalidade na moral. Entendo que nossa preocupação nem é mais a relação jovem cristão-universidade. O ítem que merce reflexão é a elevação do dinheiro à condição de "deus". Isso é problema não só pra igreja, mas também pra universidade e sociedade.


Nada contra o dinheiro, pelo contrário. O problema é quando somos controlados pelo dinheiro. Quando isso ocorre, o acesso à universidade (assim como já ocorre com o acesso a algumas igrejas) passa a ser movido pelo resultado financeiro que disso decorre e não pelo anseio de construir uma vida melhor, em todas das dimensões, para todos.


A divinização do dinheiro nos divide, interior, social e espiritualmente. Por isso, se por um lado a igreja deve lutar intensamente pelo acesso de todos à universidade (pelo menos no modelo brasileiro isso é essencial), por outro, deve lutar com as mesmas forças para que a juventude se liberte da escravidão do ter ou mesmo da possibilidade de ter. Que ela, a juventude, entenda que o ter é importante, na medida que ele está a serviço do ser e não do ter mais e mais, no modelo de acúmulo e concentração por uns, ao preço da exploração, do empobrecimento e da exclusão de outros.


Sou um admirador de jovens que se empenham pra chegar à universidade. Mais ainda, dos que, chegando lá, têm como objetivo construir uma vida melhor, em todas as dimensões, especialmente na espiritiual, para si e para a sociedade na qual estão inseridos.


Abraços do seu pastor,

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Sistema Educacional Brasileiro - 05.07.12 - 74/100 dias de oração pelo Brasil

Desde o dia 11 de abril os professores da Rede Estadual de Ensino da Bahia estão em greve. A Reivindicação é que o governo cumpra a Lei Federal que lhes garante um reajuste de 22,22% e que, também, 10% do Produto Interno Bruto - PIB - sejam investidos em educação. O problema é que, a se julgar pelas notícias dos jornais, a habilidade de boa parte dos nossos dirigentes de se interessar em priorizar a educação é diametralmente oposta a de deixarem seus nomes serem envolvidos em corrupção ou não combatê-la com rigor. Se somente o dinheiro estimado, em compras superfaturadas, que escoa pelos ralos da corrupção, fosse investido em educação, nossa realidade sócio-econômica seria muito melhor.

Durante 8 anos dirigi o Colégio Americano Batista, no Recife, período no qual participei do Conselho do Sindicato de Diretores de Estabelecimentos Particulares de Pernambuco e, também, participei, mais de uma vez, da diretoria da Associação Nacional de Escolas Batistas - ANEB, inclusive como presidente. Além disso, também dei uma pequena contribuição, como professor, ao STBNB e SEC (Recife) e STBNE (SSA). Focado na administração escolar, mergulhei de cabeça no assunto e, por razões do coração, optei por retornar ao pastorado, mesmo diante de duas ou 3 novas oportunidades.

Educação, portanto, não é assunto estranho para mim, seja por formação, seja por experiência. Lamento, portanto, a maneira como lidamos com ela. Lamento inclusive, pela maneira como nós batistas encaramos a educação em nosso meio. Seja a educação cristã (ministrada nas igrejas), seja a teológico-ministerial (ministrada em nossos seminários), seja a voltada para a cidadania (ministrada em colégios batistas), o fato é que, para nós, a educação nos acompanha como um punhado de latinhas amarradas no parachoque trazeiro de carro de recem casados: distante do motor e se batendo!

Não temos autoridade institucional para lamentar a qualidade ruim do Sistema Educacional Brasileiro (que inclui escolas públicas e privadas) porque nós mesmos não fazemos o dever de casa, em nossos arraiais. A oferta de educação de qualidade em nosso meio é um retrato do país. Se duvida, faça um levantamento da situação administrativa, organizacional e pedagógica de nossas instituições educacionais e comprovará. E, como para mudar, é preciso enfrentar interesses alheios à educação, quem se atreve vive sob tensão profunda, quando não, desiste. Daí nossas instituições educacionais estarem, em grande parte, quebradas financeira e organizacionalmente.

Nós precisamos de educação. Se assim não fosse, no famoso "IDE" de Jesus (Mt. 28.19-20) o verdadeiro imperativo não estaria no "façam discípulos" (28.19), na ênfase no ensino (28.20), portanto. (No grego, o IDE nem está no imperativo!). Oremos, então, para que este espírito pouco inteligente de não valorizar a educação, presente no coração da maioria de nós, seja banido. Lutemos e apoiemos toda luta no sentido de mudar a cara da educação no Brasil.

Abraços do seu pastor,

Portal Terra 
( http://noticias.terra.com.br/educacao/noticias/0,,OI5874474-EI8266,00-vc+reporter+em+greve+professores+protestam+em+Caetite+na+BA.html )

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Vocacionados - Obreiros para a Seara - 28.06.12 - 67/100 dias de oração pelo Brasil

O que é exatamente vocação? Como ela se dá? Podemos dar diversas respostas para essas perguntas, mas a experiência é tão individual e subjetiva que dificilmente encontramos um padrão que enquadre todas as pessoas. O que sabemos é que as pessoas que se declaram vocacionadas, geralmente afirmam que são movidas por uma voz interior, por sentimentos interiores profundos que, se disserem não, se sentem como se estivessem sendo desobedientes. Mesmo sendo bem sucedidas em sua caminhada de vida, atuando fora da "vocação", sempre se lembrarão de que não fizeram o que acreditam que deveriam ter feito.

Vocação não é uma faca colocada no pescoço de alguém que, ou responde positivamente ou morre. Mas, certamente, quando se consegue unir vocação e sustento econômico a pessoa se sente muito mais feliz.


Honestamente falando, não creio que vocação seja experiência exclusiva do universo religioso. Entendo que vocação é uma experiência espiritual, que brota no coração humano, fruto não de uma determinação, de um destino, mas da coincidência de uma série de fatores que envolvem o desenvolvimento da vida de um ser humano, que acabam por levá-lo em determinada direção. Tal "coincidência" faz parte da projeto vida - obra divina - tal qual a vida é.


Não excluo, claro, situações excepcionais nas quais uma pessoa declara ter ouvido a voz de Deus, fato que a impulsionou a tomar determinada decisão atípica e a escolher determinado caminho. Quando isso ocorre, as consequências são tão notáveis que é muito difícil provar que não houve uma vocação "extra-ordinária". Tome-se como exemplo o caso de Abraão que, tendo ouvido a voz de Deus (e ninguém sabe como isso se deu), iniciou uma peregrinação que culminaria não só com o surgimento de uma das nações mais emblemáticas da história da humanidade, mas também da qual originaria o homem que mais influenciou e continua influenciando pessoas: nosso senhor Jesus Cristo.


Creio também na vocação de uma coletividade. Isso se dá quando um conjunto de pessoas têm sentimentos semelhantes em relação a determiniada situação e decidem agir cooperativamente no sentido de realizar a "chamada".


Porém, o mais importante aqui não é discutir o mérito da vocação, mas estimular pessoas a serem sensíveis à voz que vem do coração. Não de forma irresponsável, irrefletida, bruta, mas de forma tranquila, consciente, em espirito de oração, de comunhão com Deus. Além disso, ao ouvirmos esta voz interior, este chamado que brota da alma, entendamos que isso não significa que não precisemos nos preparar para concretizar o chamado. Jesus e Paulo, por exemplo, tiveram seu tempo de preparo. Os discípulos de Jesus tiveram seu tempo de preparo. Vocação, portanto, não indica que um preparo seja desnecessário. Pelo contrário, ela nos motiva ao aperfeiçoamento, a fim de que os resultados de nossa ação sejam eficientes e eficazes.


Precisamos muito que mais pessoas sejam sensíveis à voz de Deus no que se refere à ação no mundo. Não apenas para dirigir instituições religiosas ou executar programas de expansão da fé, mas sobretudo para agir como sal e luz do mundo. Assim podemos contribuir no sentido de construirmos uma vida onde reina o amor e todos os seus efeitos, seja em relação a Deus, em relação a si mesmo, em relação ao próximo ou ao meio ambiente onde a vida se desenvolve.


Abraços do seu pastor,

domingo, 10 de junho de 2012

Deixe um Legado de Bênçãos para seus Filhos - 10.06.12 - 49/100 dias de oração pelo Brasil

Uma das frases bonitas que li nesse sábado foi escrita por um irmão em Cristo, Serafim Ferraz, ex-aluno do STBNB, angolano e residente na Flórida. Depois de explicar uma foto do filho dizendo: "Felipe recebendo 7 premios e certificados da escola no seu último ano da elementary school. Além disso o único aluno a receber a nota maxima, 5 em todas as provas do FCAT", ele conclui: "Very proud of my son" (Muito orgulhoso do meu filho).

Pais que não se alegram com o sucesso dos filhos são excessão, geralmente, fruto de enfermidade. Pais saudáveis desejam que seus filhos sejam bem sucedidos na vida e se alegram, se orgulham, quando vêem evidências disso.

O caso citado é um retrato de um dos desejos mais saudáveis dos pais: deixar um legado educacional. É um grande equivoco pais priorizarem uma herança material. Não que seja errado. Pelo contrário. Pais que conseguem deixar algum patrimônio para seus filhos podem com isso demonstrar  capacidade de planejar, organizar, ser disciplinado e trabalhador, ter visão de futuro, porém, se não incluirem a educação como principal legado, estão cometendo um grande equívoco, pois a educação proporciona aos filhos as ferramentas necessárias para levarem adiante suas próprias vidas, de maneira autônoma, mesmo em situações de adversidade.

Além disso, geralmente, quando a prioridade 1 é deixar herança financeiro-patrimonial, a educação é incompleta. Não me refiro à educação escolar. Pais com dinheiro podem matricular seus filhos nas melhores escolas e dar a eles as condições materiais para se sairem bem nos estudos. Entretanto, a ausência de investimento na dimensão espiritual da educação, aquela que se vive no lar, fruto de uma relação comprometida com o reino de Deus manifesto em Jesus, pode levar filhos diplomados a viverem um vasio existencial, a não encontrarem um sentido que justifique suas escolhas e lutas, quando não, até a usarem o conhecimento escolar em favor de um estilo de vida danoso para si e para os que com eles convivem.

Pais não têm poder para decidir as escolhas que, depois de determinada idade, os filhos fazem, mas é fundamental que tenham consciência de que, na idade em que eles estavam sob seus cuidados, fizeram o melhor para que aprendessem, por exemplo, a não desprezarem a dimensão espiritual de suas vidas. Se isso não ocorreu, o melhor é reconhecerem em que falharam, corrigirem o daqui pra frente e descansarem na graça divina, pois, alimentar sentimento de culpa, além de não alterar o que passou, adoece.

O legado de bênção, portanto, que podemos deixar para nossos filhos
é o de possibilitar uma educação escolar que lhes permita serem autônomos, portanto responsáveis, na maneira de conduzirem suas vidas, mas também, e sobretudo, o de uma educação construída no exemplo que damos de amor a Deus, de respeito ao semelhante e de trabalho honesto.

Quando penso nas condições materiais de meus pais e comparo com a situação de seus 8 filhos hoje (6 mulheres e 2 homens), ratifico que estavam certos quando diziam: "não podemos deixar herança material. Tudo o que podemos lhes dar é a educação". Deram a  educação essencial: exemplo de amor a Deus, ao próximo e de trabalho honesto para se manterem. A acadêmica e profissional, construimos com empenho.


Nas vezes em que comparo o que sei hoje da vida com o que fiz para nossos filhos, quando ainda estavam em casa, geralmente experimento um sentimento de déficit. É a sensação de que podería ter feito diferente, para melhor, em diversas ocasiões e áreas. Porém, ao vê-los tocando suas vidas (a filha está na reta final de jornalismo na Florida Atlantic University, nos Estados Unidos, e o filho acabou de ser aceito pelo Royal Academy of Music, em Aalborg, na Dinamarca), conquistando com empenho próprio seus espaços, agradeço profundamente a Deus. Se não acertamos como gostaríamos, também não erramos tanto que suas vidas fossem prejudicadas.


Neste dia em que nos dedicamos a orar pelo legado que deixamos para nossos filhos, que Deus nos cure naquilo que reconhecemos ter errado e nos ajude a cooperar naquilo que estiver ao nosso alcance, para que suas vidas tenham como base o reconhecimento do amor de Deus e o compromisso de amor ao próximo como a si mesmos.


Abraços do seu pastor,

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Analfabetismo - 28.05.12 - 36/100 dias de oração pelo Brasil

Uma música que marcou minha vida a partir do final da década de 70, foi publicada sob o número 552 do "Hinário Para o Culto Cristão", produzido e vendido pela Convenção Batista Brasileira.

É pouco conhecida e cantada em nossos cultos.

Como "definiu-se" que atuação social não é o "nosso nicho de mercado" denominacional, ocupação com questões sociais acaba sendo, para alguns, apenas estratégia de "missões" (o que exatamente se quer dizer com esta palavra?).

O hino toca no problema do analfabetismo, não de maneira romântica, mas em uma de suas mais sérias implicações. Leia:

Que estou fazendo se sou cristão

Letra: João Dias de Araújo
Música: Décio Emerique Lauretti


"Que estou fazendo se sou cristão,
Se Cristo deu-me total perdão?
Há muitos pobres sem lar, sem pão,
Há muitas vidas sem salvação.
Meu Cristo veio pra nos remir,
O homem todo, sem dividir:
Não só a alma do mal salvar,
Também o corpo ressuscitar.


Há muita fome no meu país,
Há tanta gente que é infeliz,
Há criancinhas que vão morrer,
Há tantos velhos a padecer.
Milhões não sabem como escrever,
Milhões de olhos não sabem ler:
Nas trevas vivem sem perceber
Que são escravos de um outro ser.
 
Que estou fazendo se sou cristão,
Se Cristo deu-me o seu perdão?
Há muitos pobres sem lar, sem pão,
Há muitas vidas sem salvação.
Aos poderosos eu vou pregar,
Aos homens ricos vou proclamar
Que a injustiça é contra Deus
E a vil miséria insulta os céus."


O problema do analfabetismo, colocado nessa música, não são apenas os prejuizos sofridos pelas pessoas nesta condição, tais como não saber ler a linha do ônibus ou um aviso de perigo ou uma receita médica, ou a Bíblia, por exemplo; nem o fortalecimento da baixa-autoestima, pelo preconceito social do qual o analfabeto é vítima;  nem, ainda, o fato de não poder competir por uma vaga no mercado de trabalho que ofereça melhores condições, enfim. O destaque é: "Nas trevas vivem sem perceber que são escravos de outro ser".

O analfabetismo, seja ele em relação à escrita, à leitura ou  à politica, torna-nos presas fáceis de pessoas e sistemas autoritários, exploradores, opressores. Analfabeto, então, não é somente quem não sabe ler ou escrever, mas quem não sabe interpretar o que lê e nem tem noção das consequências, inclusive políticas, de sua condição.

Tenho observado, por exemplo, o processo de analfabetismo teológico a que estão sendo submetidas algumas escolas de formação ministerial da denominação batista, nos últimos anos. A impressão que tenho é que, para alguns, seminário de teologia deve ser escola técnica de formação de mão de obra qualificada para atender as exigências do mercado religioso-denominacional, especialmente relacionada a quantitativismo.

A pretexto de combater o que chamam de "academicismo" ou um suposto inimigo chamado "liberalismo" (você sabe a extensão e alternativas de significado dessa palavra?), nossas escolas de formação teológica estão sob pressão, parece que, para serem transformadas em "Escola Bíblica Dominical' (com todo respeito à EBD) um pouco mais equipada, com professores remunerados e objetivos mais tecnicamente específicos. Gente que pensa, exceto se o pensamento não divergir, não é bem vinda.

Oremos então, pelo fim do analfabetismo em suas diversas formas de manifestar-se, visando possibilitar a todos, a participação na construção de uma vida melhor com Deus e com os semelhantes, em todas as dimensões. E nos comprometamos com aquilo pelo que oramos.
Abraços do seu pastor,

Escolas e Universidades Brasileiras - 27.05.12 - 35/100 dias de oração pelo Brasil

Fui convidado a participar de uma reunião, em um hotel de ponta, na qual um senador com histórico relacionado à educação falaria sobre qualidade na educação. Dentre seus argumentos para justificar a falta de qualidade, um chamou minha atenção. Disse ele que, uma vez que os salários pagos aos professores diminuiram sensivelmente, ensinar deixou de ser interessante às filhas da classe abastada, portanto as bem educadas, e as vagas passaram a ser ocupadas por pessoas da "periferia", sem preparo adequado.

Em outra ocasião, foi da boca de um pai que, ao comentar o sucesso financeiro do filho que havia terminado o 2º grau e parou de estudar, ouvi: "estudamos pra ganhar dinheiro. Se ele já está ganhando dinheiro, pra que estudar mais?" (O problema não é parar de estudar, ainda que isso seja uma decisão equvocada numa época de rápidas e profundas transformações científico-tecnológicas, mas a justificativa para tal)


O que há em comum, nos dois casos é, além da ignorância, o dinheiro como eixo do processo ensino-aprendizagem.


Não tenho nada contra o dinheiro, exceto sua divinização e transformação em eixo central de motivação para o desenvolvimento dos processos educacionais.


É claro que um bom salário é boa motivação para o trabalho. Porém, um bom salário, por si só, é capaz de, no máximo, fazer com que o professor coloque um largo sorriso no rosto e pare por aí. Ele - salário - não é o único, nem o mais importante diferencial entre uma aula ruim e outra de boa qualidade. 


Quanto a estudar para ganhar dinheiro, devemos nos lembrar que uma pessoa pode ganhar muito dinheiro sem ter aprofundado seus estudos, mas sua vida não ser de boa qualidade, especialmente no essencial, no permanente.


Dinheiro, portanto, não deve ser a única, muito menos a motivação central das escolas. Construir valores que fortaleçam a dignidade humana, em termos individuais e sociais e conhecimentos que nos ajudem a minorar a dor uns dos outros; desenvolver competências e tecnologias que nos permitam realizar bem aquilo que produza vida saudável, confortável e prazerosa para  todos; conscientizar-nos de como as relações interpessoais e sociais são estabalecidas, do papel que podemos e devemos exercer na sociedade, da função da ética para nortear e preservar a vida, do tipo de relação que devemos manter com o dinheiro e, especialmente, da importância do conhecimento e reconhecimento da dimensão espiritual da vida, por exemplo, são mais importantes do que apenas ensinar ou estudar para ganhar dinheiro.


Reconheço, por exemplo, a importância do ensino tecnico-profissionalizante. Vejo-o, porém, com desconfiança, quando é oferecido quase que exclusivamente para atender interesses econômicos (leia-se, via-de-regra, interesses dos proprietários de empresas ou seus acionistas), colocando como grande vantagem para a população o fato de ter emprego e renda e, pior, usando isso como ideologia para solução de problemas sociais, quando há outras áreas da vida cuja importância para a realização humana e bem estar social também exigem prioridade e investimento em educação.


A discussão então, não é sobre o papel ou a importância do dinheiro na vida humana, mas sobre o uso dele como motivação central para o desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem e quem efetivamente ganha ou perde com isso.


Igrejas cujo parâmetro de desenvolvimento são os números (de batismos, de membros, de missionários, de congregações, de receita, etc.) e cuja motivação para suas atividades é o aumento de membros, de patrimônio ou finanças, demonstram que suas vidas giram em torno de critérios da mesma natureza dos adotados pela educação realizada em torno do dinheiro. Sua eficácia espiritual em nada contribui para o desenvolvimento humano, exceto, talvez, para uma pequena parcela da população.


Igrejas assim não poderão contribuir efetivamente para a construção de uma socieade na qual o dinheiro não seja "deus", na qual a realização do ser humano integralmente está gritando por socorro.


Ao orarmos hoje pelas escolas e universidades, oremos pela mudança de mentalidade dos que estão decidindo a educação brasileira, inclusive das igrejas, e pelo envolvimento do "povo de Deus" na luta por educação voltada para todos, em todas as dimensões da vida.


Abraços do seu pastor,

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Lembrando-me de meu pai


Perdi meu pai aos 20 anos. Nunca senti necessidade de ir ao cemitério onde seu corpo foi sepultado. Nunca analisei as razões disso, nem achei que tivesse qualquer relevância, pois as lembranças que tinha dele, bem guardadas em meu coração, foram, até hoje, suficientes para acalentar e nortear minha alma.

Se disser que as recordações são somente boas, estaria mentindo. Mesmo esforçando-me para compreender suas razões e colocando-me em seu lugar em alguns momentos de dura disciplina, a dor de algumas surras foi tão horrível que somente um sádico sentiria prazer.

Fui educado no tempo em que não se questionava a prática ou a legalidade do uso de “palmadas” como instrumento disciplinar. Pelo contrário, era comum o uso enfático de textos bíblicos como estes para fundamentá-las:

 “Não evite disciplinar a criança; se você a castigar com a vara, ela não morrerá. Castigue-a, você mesmo, com a vara, e assim a livrará da sepultura.” (Pv. 23.13-14).
A insensatez está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a livrará dela.” (Pv. 22.15)

Das surras, lembro-me de duas. A mais antiga aconteceu quando eu tinha entre 5 e 7 anos. Um caminhão parou na porta de casa. Quando deu partida, dependurei-me em sua rabeira e usufrui de um prazer diametralmente oposto ao da surra que levaria em seguida. Urinei no calção e, de tão envergonhado das visitas que estavam em casa, escondi-me num quarto, onde me vejo encolhido, chorando, até hoje.

Na segunda, tinha entre 8 e 10 anos. Por alguma razão que talvez Freud explique, não consigo lembrar-me do motivo. Mas lembro-me de ter a cabeça colocada entre suas pernas e, sob o clamor de irmãs mais velhas que suplicavam para que parasse, ter recebido infinitas varadas, com uma vara que, durante certo tempo, ficou pendurada na parede da cozinha como alerta.

Depois dessa surra não me lembro de ter levado outra, a não ser mais brandas, da vida.

Apesar disso, sempre acreditei em seu amor, não só porque ele justificava os atos disciplinares - “O que não faz uso da vara odeia seu filho, mas o que o ama, desde cedo o castiga.” (Pv. 13.24) – mas, sobretudo, porque através de muitas outras ações e palavras ele manifestava carinho e cuidado.

Na quarta série a professora procurou minha mãe pra falar da minha situação. Esperava por outra surra, mas naquele dia ele apenas conversou comigo. Ao final do ano, quando lhe dei a notícia da reprovação, ele ficou de cócoras ao meu lado, falou do que aquilo representava pra minha vida e para a dele e, sem surra, chorei.

Empobrecido e bastante trabalhador, ele nunca deixou faltar-nos teto, alimento, vestuário, remédio ou mesmo brinquedo. Nem sempre podendo comprar brinquedos, não me esqueço do bilboquê, do macaquinho marabalista e dos carrinhos, todos de madeira, bem como das pipas, feitos por ele. Até das birocas feitas nas laranjas, cuidadosamente descascadas para chuparmos ou das feitas no chão para jogarmos bolinhas de gude, me recordo.

(Macaquinho equilibrista)
Mais do que isso, sendo um autodidata que vivia lendo, sempre dizia: “não poderei deixar herança pra vocês, tudo que posso dar-lhes é a educação”. E deu!

Deu não apenas o incentivo para estudarmos, mas, com seu exemplo, ensinou-nos a amar a Deus e ao próximo, a trabalhar e sermos honestos. Dos 8 filhos – 6 mulheres e 2 homens – todos continuam empenhados em viver de maneira digna dos ensinamentos recebidos e, inclusive, a se manterem nos caminhos de Deus, integrados em uma igreja.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sexo não é água (2002?)

Vez por outra assisto, ao lado de dois filhos adolescentes, programas da MTV que abordam questões de sexo. Entendo que assistir e trocar idéias com eles são o melhor caminho para ajudá-los a desenvolverem o senso crítico e, consequentemente, escolherem melhor os caminhos da vida. E a cada programa percebo que, saindo do extremo da repressão para o extremo da liberação, continuamos a manifestar nossas doenças no trato das questões sexuais.

Admitimos que a forma como o assunto foi tratado ao longo da história não foi eficaz em seus propósitos. A quantidade de casais infelizes, de casamentos desfeitos e de indivíduos com neuroses oriundas da maneira como lidam com a sexualidade é incalculável e persistem a despeito dos nossos discursos romanticamente moralistas. Tal discurso não impede deslizes sexuais e seus efeitos nocivos na vida de terceiros e até da sociedade. A experiência do rei Davi, o homem segundo o coração de Deus, de Bill Clinton, ex-presidente do país mais rico do planeta e de milhares ilustres desconhecidos, comprova isso.

Nas igrejas, a repressão ao desejo tem sido o caminho mais indicado nas poucas vezes em que o assunto é tratado, sendo a demonização do sexo, sua expressão maior. Para alguns, o desejo sexual deve ser encarado como de origem pecaminosa, demoníaca até, e, por isso, deve ser exorcizado com penitências, jejum e oração. Em vez de encararem os sentimentos sexuais como inerentes à constituição bio-psíquica humana para, a partir daí, ajudar a canalizá-los construtivamente, bloqueia-se o canal do diálogo. O alerta para os perigos do sexo é tão extremista que, mesmo sabendo tratar-se de obra divina, o melhor é ficar bem longe dele. A julgar pelos discursos, em matéria de sexo nossas igrejas estão entrincheiradas, na defensiva.

Em posição oposta estão os que defendem a liberação. Como o moderno é ser (neo) liberal, há muita gente conservadora em casa, falando de sexo como água na mídia. Para estes, a necessidade sexual deve ser encarada da mesma forma como a necessidade de beber água. Se você está a fim, basta encontrar alguém que satisfaça suas necessidades e pronto. É só não esquecer a camisinha. Mas as coisas não são tão simples assim. Sexo não é água, nem corpos, copos descartáveis. Pessoas amam, pensam, sentem, reagem, interagem e se apegam; têm história; têm passado, presente e futuro; têm família, amigos e colegas; sonham em ser amadas, detestam ser usadas. Além disso, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada causam transtornos e mudam o rumo da vida dos envolvidos e dos que os cercam.

Se a repressão e a liberação são igualmente prejudiciais a alternativa é abrir-se ao diálogo franco e conscientizador, começando na própria família. Abrir-se ao diálogo é procurar sentir e entender os dilemas do outro; é admitir, honestamente, que todos estamos sujeitos a enfrentar situações cuja dificuldade de lidar com a sexualidade é real; é não apresentar-se com um anjo que, por ser assexuado, não enfrenta dificuldades na área; é não ter medo de admitir as próprias fragilidades; é ser ajudador e não juiz ou legislador da vida alheia.

Já é tempo de rever posições, de parar de repetir chavões conservadores ou liberais e de jogar para a platéia, priorizando o IBOPE. Sexo não é somente uma questão moral, de costume. Tem também implicações emocionais, sociais e éticas que precisam ser consideradas. Sexo não é água!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A educação sexual dos pastores (2009)

Se abordar o assunto sexo em igreja ainda deixa muita gente vermelha - umas de vergonha, outras de raiva - relacioná-lo a pastores, para alguns, é motivo de pânico, afinal, no imaginário evangélico popular, pastor seria um ser angelical, portanto destituído de gênero. Temos, entretanto, pelo menos dois bons motivos para tratar o assunto com mais seriedade.

Primeiro, porque o número de pastores envolvidos em problemas de natureza sexual é maior do que imaginamos. Ouvimos muito dos problemas de padres americanos acusados de abuso sexual, mas poucos sabem que nos Estados Unidos é tão grande a quantidade de pastores acusados, inclusive batistas, que já existe uma organização de vítimas de abuso praticado por pastores, a “Survivors Networks of those Abused by Priests” – SNAP.

O segundo motivo tem a ver com a maneira como líderes religiosos pensam e ensinam assuntos relacionados à sexualidade, como, por exemplo, questões de gênero, homossexualidade, abstinência ou masturbação. Nesse sentido, a organização “Religious Institute on Sexual Morality, Justice, and Healing”, também nos Estados Unidos, defende proposta de educação sexual voltada para pastores e sacerdotes. Há reações desfavoráveis de dirigentes conservadores de seminários batistas, alegando discordância da ideologia “não bíblica” da proposta.

Seja por qual motivo for, é importante tratarmos o assunto em nossas escolas de maneira diferente daquela que apenas “ensina” candidatos a pastor, o que seria certo ou errado  em termos de sexualidade, a partir de interpretação popular (ou como preferem outros, interpretação literal) de versículos isolados e descontextualizados da Bíblia, sem estudar a fundo a forma como lidamos com a própria sexualidade, o conteúdo e pressupostos dos nossos ensinos e as motivações dos posicionamentos político-sexuais que adotamos.

Depois de ler a Bíblia de capa a capa, pesquisando atentamente a questão da sexualidade, e de refletir sobre a forma passional como alguns pastores reagem à ordenação feminina ou aos direitos civis dos homossexuais, concluí que, para entendermos tais reações, mais do que prestar atenção em seus discursos “bíblicos” ou na corrente teológica do seminário onde estudou, é fundamental compreender a cultura na qual sua educação sexual foi construída.

Sendo assim, se desejo entender o porquê do meu pastor reagir como reage a temas da sexualidade, devo esquecer seu título e lembrar de que nem sempre ele se escondeu atrás de um belo paletó e gravata ou de um bonito discurso previamente elaborado. Como qualquer garoto, ele cresceu entre meninos que, como a maioria absoluta, não recebeu adequada educação sexual – no sentido técnico do termo - seja em casa, na escola e muito menos na igreja.

Como todo menino, quase 100% do que aprendeu e sentiu a respeito do assunto, é fruto da convivência com seus pares de infância. Ele não só teve seus colegas como “facilitadores” para aprender como poderia lidar com o próprio sexo, como deveria lidar com o sexo oposto e outras questões sexuais, mas sentiu na pele toda a pressão vinda do grupo para provar um tipo patriarcal de masculinidade.

Nesse sentido, a leitura do livro “Corpos, prazeres e paixões. A cultura sexual no Brasil contemporâneo”, (Richard G. Parker, Editora Best Seller, 1991), especialmente as páginas 89 a 97, levou-me a fazer conexões e clareou um pouco mais as dificuldades pastorais no trato do assunto sexo e sexualidade. Segundo o autor, a estruturação da experiência na vida sexual no Brasil contemporâneo foi influenciada pela tradição patriarcal, pela linguagem do corpo e pelo sistema de classificação sexual, tópicos devidamente esclarecidos por ele.

Tal estruturação não seria aprendida imediata e completamente. É resultado de interiorização gradual, “através de um complexo processo de socialização que se inicia nos primeiros momentos da infância”.

Reconhecendo que a responsabilidade pelo cuidado e educação das crianças é, inicialmente e em grande parte, de responsabilidade feminina, o autor demonstra como, até certa idade, a criança é influenciada pela mulher, que domina o lar, e, depois, pelos homens, que dominam o mundo fora do lar.

Como até certa idade a relação de meninas e meninos é fortemente influenciada pela presença feminina, faz-se necessário, por uma questão de definição de identidade, que a distinção de gêneros seja feita muito precocemente. Assim, a identidade das meninas, especialmente em termos de passividade e submissão, é assegurada pela continuidade da relação com a mãe, em casa, bem como pelas visíveis alterações pela qual passam seus corpos, enquanto a dos meninos é mais complicada pela descontinuidade do processo.

Segundo o autor, “ameaçado desde o princípio por uma associação muito íntima com o domínio feminino, a virilidade e atividade que são marcas principais da masculinidade na vida brasileira precisam ser construídas, erigidas a partir do grupo e atravessar um processo de masculinização capaz de quebrar os laços iniciais do menino com as mulheres e transformá-lo em homem”.

Enquanto as meninas experimentam um processo de orientação mais forte dentro de casa, exceto a partir da menstruação, “existe um forte sentido (embora nem sempre explicitamente afirmado) da parte dos pais, de que o caminho mais adequado para seus filhos tomarem é o de se afastarem cada vez mais desse domínio feminino”.  Isso lança luzes sobre a luta de alguns pastores no sentido de defender tão fervorosamente o domínio “bíblico” masculino sobre as mulheres na igreja e de resistir à atuação delas em funções de autoridade.

Pelo mesmo pressuposto entendemos a reação passional de alguns pastores às questões de direitos civis homossexuais. Observe que me refiro aqui à reação emocional que toma conta de alguns no trato do assunto, sem emitir juízo de valor, por qualquer ângulo, sobre a questão homossexual.

Isso reforça a importância de incluirmos, na educação ministerial dos pastores, uma profunda reflexão sobre o processo informal, eficaz, porém nocivo, de educação sexual a que foi submetido em sua infância. Tal reflexão o ajudará a entender o sentido de sua masculinidade, o trato do próprio sexo, sua relação com o sexo oposto, sua reação a questões civis relacionadas a homossexuais e também a influência daquilo que nele foi introjetado culturalmente, na leitura que faz dos textos bíblicos.

A superação dos paradigmas estabelecidos em sua mente e coração dificilmente será alcançada em seus estudos teológicos, nos quais a condução do pensamento está nas mãos de professores – homem em sua maioria - que, como os candidatos a pastores, também tiveram “educação sexual” eficazmente construída “nas ruas” e não em sala de jantar ou de aula.

Portanto, se quisermos entender a posição dos pastores em relação a questões de gênero, reprodução ou erotismo, mais importante do que prestar atenção às escolas onde estudaram teologia, aos livros que leu sobre o assunto ou títulos acadêmicos que ostentam, seria descobrir como se deu sua transição de saída do domínio do mundo feminino para o domínio do mundo masculino, através de suas relações sociais a partir do quinto ano de vida, aproximadamente.

Isso talvez devesse ocorrer sob a facilitação de um profissional de psicologia, não de ética, porque a insegurança para falar do assunto, especialmente dessa fase de nossa infância, não é um privilégio de alguns, mas de todos que fomos criados numa cultura religiosa em que sexo e diabo são sinônimos. O problema é que a psicologia tem sido “demonizada” pelo fundamentalismo que “anda ao redor rugindo e procurando a quem possa devorar” e prejudicada por idéias como: “enquanto Freud explica, o diabo da um toque” cantada por Raul Seixas.

Estou convencido de que, no processo de construção do conhecimento do assunto em pauta, seria muito importante que a visão de sexo e sexualidade presente na cultura brasileira e na cultura dominante nos tempos bíblicos fosse estudada criticamente à luz de princípios universais. Isso ajudaria os novos pastores a tratarem o assunto de maneira menos passional, injusta e preconceituosa, como aprendemos entre “coleguinhas” mais velhos, na infância. 
 ...
Disponibilizo agora aos leitores deste blog, texto que produzi e publiquei n'O Jornal Batista da Convenção Batista Brasileira, em 2009

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Os evangélicos e o antiintelectualismo

Por que o governo está reduzido verbas da Universidade da Califórnia?, perguntou, em outras palavras, André Petry, da Revista Veja (26.05.2010), a Jared Diamond, da Universiade da Califórnia. 

A resposta é aterrorizante:

"Em parte, isso decorre do antiintelectualismo americano e do fundamentalismo evangélico. 

O fundamentalismo evangélico é muito forte, tem ampla influência, inclusive sobre os conteúdos dos livros escolares. 

A base da biologia é a teoria da Evolução de Darwin. Ela ensina que as coisas vivas evoluem. Não é possível ser biólogo, nem um bom médico, se você não acrecdita na evolução. É o mesmo que um físico não acreditar nas leis de Newton. Ou um químico duvidar da tabela peiódica de Mendeleiev. Não dá pra ser astrônomo se você acha que o mundo é plano. 

Mesmo assim, o fundamentalismo evangélico de direita se opõe ao ensino da evolução nas aulas de biologia. Isso acontece no Texas, para dar um exemplo. É um absurdo. É o fundamentalismo associado ao anti-intelectualismo."


Quando leio coisas assim, não consigo ficar calado. 

Primeiro, porque sou batista e essa denominação está incluida no grupo religioso classificado como evangélico. Ainda que Diamond tenha sido feliz ao definir mais claramente "fundamentalismo evangélico de direita", o que, para um bom leitor, subentende-se que existem outros tipos de evangélicos, por exemplo, que não são fundamentalistas, que não são de direita, que não são nem fundamentalista, nem de direita, enfim, ainda assim, como estamos no Brasil, vejo em suas palavras a deixa que parte da mídia confessional - aquela que não se declara religiosa, mas que age como tal pela cultura de seus jornalistas - procura para bater nos evangélicos indiscriminadamente.

Marina Silva, por exemplo, não é evangélica fundamentalista de direita (ainda que a maior parte da liderança de sua denominação pareça ser), mas na guerra da política ela está precisando se esclarecer o tempo todo.

Não consigo ficar calado, também, porque sendo os batistas uma forte denominação nos Estados Unidos, poderíam ter outro posicionamento diante de tão grande retrocesso - a rejeição do estudo da evolução das espécies - que equipara os evangélicos aos católicos da Idade Média ou ao fundamentalismo islâmico, em termos de obscurantismo.
Estou convencido que tal posicionamento no meio evangélico não se dá por ignorância, mas por medo, pois há quem acredite que se admitirmos uma leitura não "literal" da Bíblia, ela perderia sua autoridade.
Entretanto, a autoridade da Bíblia  não está em postulados científicos, mas no que ela revela a respeito de Jesus Cristo.
O texto do Dr. Collins  - A Linguagem de Deus -, por exemplo, demonstra bem a possibilidade de compatibilizar ciência e autoridade bíblica.

De qualquer maneira, vamos registrando nossa percepção das notícias e das realidades que nos cercam e suportando preconceitos e oportunismos contra os evangélicos que, diga-se de passagem, a julgar por aqueles que usam  tal nome na mídia, bem que merecemos.

domingo, 11 de abril de 2010

A política nas igrejas batistas


Pra começo de conversa, gostaria de esclarecer que, neste texto, igreja é entendida de acordo com a eclesiologia dominante no meio batista, isto é, uma "comunidade local" (equivalente aproximado do conceito "paroquia" na Igreja Católica), democrática, soberana e autônoma. 
 
Por ser democrática,  soberana e autônoma, suas decisões são resultado, geralmente, da vontade da maioria simples de seus membros, expressa em assembléias convocadas e dirigidas na forma dos estatutos e regimentos internos aprovados por esses mesmos membros.

É fácil supor, portanto, que o segundo característico mais evidente da natureza de uma igreja batista, depois do religioso, seja o político. Isso não é apenas uma suposição teórico-eclesiológica. Basta que se estude a origem dos batistas em seus documentos históricos e se perceberá que o viés político - defesa da liberdade religiosa, por exemplo - estava profundamente imbricado nas causas do seu surgimento.
Ainda que todo um discurso bem elaborado e amparado por publicidade fortaleça suas imagens de comunidades missionárias, uma análise, profunda e isenta, da realidade identificará a força que a política exerce no seio de parte considerável de tais comunidades e como pastores precisam permanecer atentos para mantê-las num foco e manterem-se na liderança.
A política é tão presente no desenrolar dos processos internos, nos bastidores especialmente, da vida de uma comunidade que, muita vez, sem que se perceba ou se tenha consciência, o político e o religioso disputam a primazia. (Quando quem tem consciência política não leva a sério os valores espirituais do Reino de Deus, a coisa fica ainda mais difícil)
(Entre parêntesis digo que, claro, o grau de tensão entre o religioso e o político depende:
a) do grau de politização ou despolitização dos membros com perfil de liderança;
b) do tipo de relação mantida com Deus pelos membros com perfil de liderança ou do grau de predominância dos valores do Reino de Deus sobre suas vidas, sejam eles politizados ou não.
Isso faz diferença na vida de cada igreja, na tensão religioso x político).
Na tentativa de corrigir os efeitos colaterais considerados negativos da política na natureza eclesiológica das igrejas, construiu-se um discurso que diz que "crente não se envolve com política". Isso tem feito com que, em vez dos problemas políticos serem encarados como reais e administrados conscientemente, eles são mistificados, demonizados e, portanto, nem sempre administrados adequadamente.
Tal mascaramento da realidade chega, em alguns casos, a uma situação tão nefasta que há pessoas que usam o discurso místico-religioso como meio de fazer prevalecer seus desejos. Assim, a linguagem religiosa deixa de ser uma expressão dos sentimentos e pensamentos que decorrem da relação com o sagrado e passa a ser instrumento de manipulação dos semelhantes e, até, de demolição daqueles que são definidos como obstáculo a interesses particulares.
 (Abro outro parêntese pra lembrar que os interesses que envolvem a vida  numa "paróquia" são múltiplos. Exemplos:
a) Há pessoas em busca de paz espiritual;
b) há desejosas de construir uma vida individual e coletiva saudável, segundo a compreensão que se tem de Deus;
c) há necessitadas de conforto espiritual e emocional;
d) há carentes de esperança e fé para prosseguir na caminhada de vida;
e) há interessadas em platéia para massagear o ego;
f) há interessadas em espaço para liberar a ânsia psicológica por poder;
g) há cabos eleitorais de candidatos e partidos políticos;
h) há aquelas cuja libido tem sido extrema e prejudicialmente mal canalizada;
i) enfim, )

...
Uma vez que a igreja existe dentro de um contexto caracterizado por interesses regidos por diversidade de ideologias, geralmente ela também se posiciona como parte competidora (em vez de cooperadora), visando imprimir os valores que acredita naqueles que estão em seu raio de influência (em vez de ser coparticipante na construção deles)

Nesse caso, para que o trabalho de uma igreja produza os resultados desejados, duas coisas são importantes: 
1) que predomine em seu seio a clareza dos valores que defende; 
2) que ela se multiplique para ampliar sua influência.
 Se essas duas coisas são legítimas, e acredito que sejam, em que ponto a política se torna um problema? A política se torna um problema quando: 1) os valores são equivocados ou não são devidamente sólidos ou não são levados a sério na vida dos participantes;
2) a ânsia pela multiplicação visando exercer influência é tal que se desconsidere a essencialidade dos valores espirituais que são sua razão de existir. 

Quando os valores espirituais deixam de ser prioritários, a predominância de conflitos doentios se torna parte freqüente da história da igreja. A enfermidade se torna tal que, os feitos individuais internos, por exemplo, deixam de ser valorizados pelo resultado positivo que produzem à vida comunitária e passam a ser criticados pelo aumento de prestígio que agrega a quem disparou a idéia ou liderou a execução. 
Assim, como o prestígio e o poder político estão acima dos interesses comunitários, não importa se algo bom para a coletividade esteja acontecendo. O importante é anular o fortalecimento político daquele (s) que é (são) visto (s) como agente(s) decisivo(s) nas ações positivas implementadas: o "não-eu".

(Abro um último parêntese para lembrar que conflitos fazem parte de nossa vida, afinal, todo relacionamento é potencialmente conflitante. Entretanto, é fundamental que se avalie, primeiro, a legitimidade das causas aparentes e, segundo, quem são os atores envolvidos e seu histórico de vida). 

Se queremos canalizar de maneira positiva o elemento político que caracteriza a natureza humana e é tão forte na natureza eclesiológica das igrejas batistas, sermões não são suficientes. A ênfase na construção de valores espirituais é essencial. Por isso, a educação cristã, nas igrejas, e a teológico-ministerial, nas escolas de teologia, deveriam ocupar prioridade. 
 
Porém, como as igrejas são geradas dentro de uma cultura que não valoriza a educação - no caso, a brasileira - educação também não é prioridade nelas. Expansão é prioridade.
Como na política adotada pelos governantes brasileiros, nas igrejas batistas (e nas convenções das quais elas fazem parte), todo o discurso, todo recurso financeiro e esforço dos líderes relacionados à educação são diametralmente opostos aos investidos no sentido da expansão. Cada igreja organizada é comemorada da mesma maneira que governantes político-partidários comemoram construção de prédios escolares, dando pouca importância para o "para quê" da educação que ali será praticada (quando consegue ser praticada).

Sou pela expansão. Mas expansão desacompanhada de investimento em educação ou dos devidos valores espirituais, apenas nos iguala à política culturalmente dominante e aos políticos partidários sem visão pública, que tantos males têm causado ao povo.
Se numa eclesiologia politicamente fértil, como a das igrejas batista, valores espirituais não forem ensinados, cultivados, enfim, levados a sério, as portas do inferno podem não prevalecer contra elas, mas sempre estarão "à porta"  de suas sedes, esquentando e enfumaçando o ambiente.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O terremoto no Haiti e a fala do seu consul no Brasil

Estava curtindo uma notícia feliz – minha filha acabava de informar por e-mail que sua transferência fora aceita pela Florida Atlantic University – quando o noticiário da televisão passa a mostrar imagens da tragédia ocorrida no Haiti. A vida é assim: enquanto uns riem, outros choram; enquanto uns corpos se abraçam pelo prazer, outros fazem o mesmo pela dor; a tecnologia que traz boas notícias é a mesma que nos mostra cenas de pavor.



É doloroso colocar-se emocionalmente no lugar das pessoas que estão vivas sob escombros enquanto não chega o socorro; no lugar do homem que chora a perda da esposa amada enquanto descansava; da mãe desesperada pela notícia do desaparecimento do filho; da filha brasileira, cuja comunicação com o pai militar, pela internet, cessou abruptamente e só depois tomou consciência de que a interrupção não era apenas o fim de um diálogo, mas o início de uma separação irreversível.


Nada, porém, suscitou sentimento mais desagradável do que ouvir o comentário feito pelo cônsul haitiano no Brasil. Primeiro, pela falta de sensibilidade; depois, pelo preconceito de raça e religião.




Enquanto seu povo chora a dor da destruição e morte, ele enxerga uma oportunidade de tornar-se mais conhecido. Claro, sabemos todos que na vida nada é absolutamente mal, nem absolutamente bom; que toda experiência humana traz consigo efeitos colaterais benéficos ou maléficos. O que doe é a aparente falta de sensibilidade frente à dor alheia – no caso, seu próprio povo – e, pior, o inoportuno senso de oportunismo.


Se não bastasse isso, sua fala revela algo que ceifa, silenciosamente, milhões de vidas: o preconceito. Primeiro, o preconceito de raça contra o já sofrido povo africano. Sua fala traz à baila o antigo discurso teológico do fundamentalista branco referente ao pecado de Caim. Por esta hermenêutica racista, ser negro seria o sinal de Caim descrito no livro de Gênesis (4.15), símbolo de desobediência e maldição.


Depois, revela o preconceito religioso. Para ele, a macumba – forma pejorativa de referir-se às religiões de matriz africana – seria causa da desgraça experimentada. Ao ouvir isso, lembrei-me de um missionário norte-americano, doutor e professor de exegese do Antigo Testamento com quem travei um debate caloroso em sala de aula, que tentava convencer-nos, baseando-se em determinado texto bíblico, de que a causa da pobreza e da seca do nordeste brasileiro seria a idolatria do povo.


Não suporto mais o (ab)uso do sofrimento alheio, a transformação da dor humana em meio de estimulo à "evangelização", em propaganda para levantamento de recursos financeiros para agências sociais e missionárias. Ainda assim, mesmo sendo terrível, é compreensível ouvir isso de empresários sem escrúpulo de “ONGs” ou religiões, afinal, para alguns marqueteiro os fins justificam os meios e tudo é válido desde que aumente a arrecadação financeira. Fere, entretanto, o âmago da alma, presenciar a fala de um cônsul, a respeito do próprio país, quando sabemos que abalos sísmicos são fenômenos naturais.


O Haiti, até hoje conhecido como o país mais pobre das Américas, envolvido em conflitos internos e muita corrupção, ocupa agora a mídia internacional como vítima de um desastre que ceifou dezenas de milhares de vidas. Mais triste do que isso, só mesmo a confirmação, através da fala do seu cônsul no Brasil, de que a pobreza de um povo não se mede somente pela quantidade de bens e serviços produzidos – o PIB -, mas também e sobretudo pela pobreza cultural, pela falta de sensibilidade emocional, espiritual e de visão de seus dirigentes, como demonstrou o consul em sua fala.