terça-feira, 26 de julho de 2011

Minha passagem pela Igreja Batista do Pinheiro, Maceió


Quando estava no último ano de seminário – 1983 - já sabia que queria pastorear em Maceió.  Recebi três outras consultas (MA,RN,BA), mas meu coração aguardava que uma porta se abrisse em Alagoas e se abriu.

A história começou a se desenvolver em fevereiro de 1978 quando conheci Joaquim Brito, então líder da JUBAL, no congresso da Juventude Batista Brasileira, em Porto Alegre. Em setembro do mesmo ano estive em Maceió e fui conhecer a Igreja Batista do Pinheiro. Jamais imaginava, entretanto, que um dia teria o privilégio de pastoreá-la.

Em 1979 cheguei ao Recife e não demorou muito para envolver-me com a juventude daquele estado, tornando-me secretário-executivo da Juventude Batista de Pernambuco. Nessa função, Joaquim Brito (então presidente da JUBAL) e eu nos aproximamos em diversas atividades relacionadas à Juventude Batista do Nordeste.

Nas viagens que fizemos juntos e até mesmo participando da abertura de Congresso da Jubal, no Pinheiro, meu conhecimento do perfil da liderança da juventude, bem como minha identificação com tal perfil se aprofundaram e, mesmo o namoro com a jovem alagoana não tendo progredido, o sentimento de pastorear em Maceió foi se definindo.

Em maio de 1983 fui levado por Manoel Nascimento, então seminarista e educador religioso da Igreja, para falar no mês da família. A igreja tinha seu pastor e, até aí, nada existia em relação a pastoreá-la. Entretanto, logo em seguida a igreja ficou sem pastor, fui convidado para voltar num final de semana e, em seguida surgiu o convite para seu pastorado.

Conto essa história porque nela já havia o elemento que definiria a identidade da Igreja nos anos seguintes. Esse elemento, que me levou a interessar-me por Maceió era o compromisso que percebi na liderança da juventude batista do Estado com um evangelho que não deveria ser só verticalizado, de contemplação, mas também de ação voltada para todas as dimensões vida.

Para mim isso era algo totalmente novo, pois estava saindo da adolescência, a ditadura militar estava sendo superada e a democracia em início de restabelecimento, a realidade social na qual fui criado era interiorana do sudeste brasileiro e toda a minha formação religiosa era de contemplação, voltada para a salvação da alma e sem qualquer relação consciente com o aqui e agora.

Por outro lado, a teologia ensinada no Seminário Batista do Norte do Brasil sofria influência de diversos professores que também enxergavam a fé em sua dimensão horizontal e diversos seminários e conferências eram realizados em torno do papel social do cristão, coincidindo com o processo brasileiro de abertura política.

Ao assumir o pastorado da Igreja Batista do Pinheiro, foi ficando claro pra mim que estava diante de dois mundos diferentes. Na Igreja havia um grupo de jovens e adolescentes que se reuniam num formato de comunidade eclesial de base para discutir suas vidas e problemas à luz do evangelho e uma liderança forte de adultos com a visão conservadora de igreja e evangelho.

Na denominação havia forte influência do fundamentalismo que acabava de se apossar do poder na Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos e comprometidos com a política do governo do Estado, então aliado dos militares, e uma liderança de juventude trabalhando por mudanças dentro da igreja, na convenção e na sociedade.

É difícil, portanto, separar o que acontecia na Igreja Batista do Pinheiro do que acontecia na Convenção Batista Alagoana, inclusive porque o pastor interino do Pinheiro que conduziu o processo da minha ida para Maceió – Pr. Boyd O’neil -  era secretário-executivo do campo. Isso fazia com que a Igreja do Pinheiro fosse, talvez, o melhor retrato do que se desenhava na própria convenção: duas visões distintas de prática do evangelho.

A igreja contava com um rol de membros – muito bem cuidado pela irmã Elba Moraes – que registrava pouco mais de 200 pessoas, em sua maioria de classe média baixa e a semente de uma visão de evangelho que incluía e enfatizava a dimensão horizontal e o tempo presente em suas preocupações já estava plantada em diversos corações do Pinheiro e crescer, florescer e frutificar era só uma questão de tempo.

Considero minha passagem pela Igreja Batista do Pinheiro como um tempo de transição. Por um lado a transição acontecia na cabeça de um jovem com 26 anos, recém saído do seminário, reelaborando idéias e sentimentos, confrontando teoria e prática, num tempo em que ainda se discutia ser ou não conveniente falar de sexo no espaço eclesiástico ou se crente poderia dançar ou jogar futebol aos domingos ou se pastor deveria ou não ocupar o púlpito da igreja sem paletó ou gravata.

Por outro lado, a transição acontecia numa igreja que se dividia entre a visão evangelizadora voltada estritamente para salvação da alma e a que defendia a atenção para o ser humano integral; entre a aplicação dos recursos na expansão institucional e o investimento em projetos sociais; entre a utilização dos hinos do Cantor Cristão e os cânticos contemporâneos de produção nacional ou, ainda, entre o uso exclusivo do piano na liturgia e a utilização de instrumentos acústicos e eletro-eletrônicos, por exemplo.

Para os olhares de hoje esses seriam assuntos pequenos, porém, para o período, eram assuntos que causavam sérios conflitos.

Nesse contexto, o desafio era desenvolver um ministério que avançava em termos de idéias e práticas, compatibilizando a preservação de relacionamentos entre adultos e jovens, entre o estabelecido e o engravidado, entre o ser e o vir-a-ser.

O processo de transição exigia uma “desconstrução” cuidadosa visando preservar um mínimo de unidade. Isso era um grande desafio para um jovem pastor, inexperiente, com visão teológica e de mundo em processo de definição e amadurecimento, que não tinha noção ainda de quais eram seus “dons” ministeriais, que tateava num processo de acerto e erro em torno de quais ferramentas usaria em sua caminhada pastoral.

Além disso, estava em início de casamento, dividindo o ministério com Gláucia que atuava na área da música e na liderança da União
Feminina Missionária da Igreja e que, além disso tinha que lidar com a chegada de Mônica no nosso segundo ano na Igreja e com a segunda gravidez - de Raphael - sete meses antes de nos mudarmos para o Recife.

Considero isso relevante, pois a igreja repercute, de certo modo, não só a visão, mas também a dinâmica da vida do seu pastor. Se o pastor era jovem (e jovens eram os que defendiam uma nova realidade ministerial), o nível de imprevisibilidade dos resultados era muito acima do aceitável.

Apesar disso a igreja caminhou investindo em encontros de jovens e adolescentes, em núcleos de estudos bíblicos, no fortalecimento da visão da expansão missionária, na tentativa de dialogar com o bairro fazendo-se presente em reuniões da Associação de Moradores, no incentivo à participação política, na elaboração de projetos sociais, no aprofundamento da abertura para uma liturgia mais contemporânea e na execução de atividades estruturadoras nas áreas patrimoniais e organizacionais.

Nesse período iniciamos as primeiras festas juninas, realizadas numa propriedade de membros da igreja na periferia de Maceió, com a maior discrição possível, pois tal atividade não representava unanimidade interna e ainda era alvo de duras críticas externas, vindas de membros de outras igrejas que julgavam tais eventos como sendo mundanos e incompatíveis com a fé evangélica.

Foram anos de crescimento pessoal pelos quais agradeço profundamente a Deus a oportunidade de ter iniciado o ministério naquela cidade, naquela igreja, naquele momento histórico e de ter conhecido as pessoas que ali conheci e que marcaram minha vida de tal forma que as guardo com carinho em meu coração.

2 comentários:

Maurinho 11 de setembro de 2011 21:59  

ola Pastor,Paz amado!pastor vc poderia me falar sobre a igreja batista do pimheiro,se ele é renovada,e se ela fica no recife,pernambuco,pergunto por curiosidade e por nao entender se esta em recife ou em alagoas,gd abç Maury

Edvar 12 de setembro de 2011 23:15  

Maurinho, a IB do Pinheiro fica em Maceió e é associada às convenções batistas Alagoana e Brasileira.