terça-feira, 2 de junho de 2015

O “Som de Graça”, a música e a teologia das letras que cantamos

“Som de Graça” é o nome de um evento promovido pela Igreja Batista da Graça, coordenado pelo Ministério de Adoração. Tem sido realizado em nossa quadra com a participação predominante de jovens, inclusive vindos da vizinhança e de outras igrejas. O próximo será no sábado, 13 de junho, e, além do aspecto musical, proporcionará uma reflexão sobre a teologia das letras que não cantamos nos cultos.
 
Uma das capacidades humanas é a de classificação. É por volta dos 7 anos de idade que nossa mente começa a apresentar sua capacidade de classificar objetos com base no que eles possuem em comum. Essa competência é essencial e seu adequado desenvolvimento influenciará as escolhas que faremos pelo resto da vida. Quanto melhor aprendermos a classificar, melhor será nosso relacionamento com a realidade que nos cerca e com as pessoas com as quais nos relacionarmos.
 
Tomemos por exemplo a questão da música na igreja. Que critérios usamos para diferenciar uma música “sacra” de outra “profana”? São as notas usadas? As pausas? O ritmo? A harmonia? Seriam as crenças de seus compositores? Seria a finalidade definida por quem as compôs? Seria o ambiente nos quais elas são executas ou a motivação e finalidade de quem participa? Seria o resultado imediato que produz no sentimento e no corpo do ouvinte?
 
Em relação às letras que as músicas veiculam que critério usamos para definir se são sacras? Seria pelo vocabulário usado? Seria pelo fato de incluir palavras como “Deus”, “Jesus”, “Espirito Santo” ou repetir expressões bíblicas?  Seria por enfatizarem conceitos mais abstratos como amor, justiça, alegria ou mais concretos como corpo, dinheiro, templo? Seria a declaração da motivação de quem escreveu? Que elementos, presentes na letra das músicas, as tornam sagradas ou profanas? Seria saudável e teologicamente correto fazer essa dicotomia na vida?
 
Na história do protestantismo brasileiro, definiu-se como sacras, as músicas e letras contidas em hinários produzidos para cultos como, por exemplo, “Cantor Cristão”, “Melodias de Vitória’, “Harpa Cristã”, etc. Para toda uma geração, música sacra eram a desses hinários. Somente elas poderiam ser executadas nos cultos e mais: crente verdadeiro cantava somente tais hinos. Qualquer música afora essas, eram classificadas como mundanas, do diabo, etc.
 
Com o desenvolvimento cultural, educacional, tecnológico e comercial, tais hinos saíram dos hinários, foram para os LPs (Long Plays, de vinil), conquistaram prateleiras, passaram a ser tocados em emissoras de rádio e inauguraram visivelmente a era comercial das “músicas e letras sacras”. Digo visivelmente porque os hinários já não eram gratuitos. Havia uma reserva de mercado em torno deles, uma forma discreta de comercialização, com a diferença de que, até onde se sabia, o lucro de suas vendas eram reinvestidos na “causa”. Não se falava em lucros para indivíduos ou empresas comerciais privadas.
 
Até esse momento, música sacra seria a produzida por pessoas do círculo de relacionamento religioso denominacional dos que se classificavam como os “verdadeiros cristãos”, portanto, sacros genuínos, originais; a finalidade, exclusivamente divulgar a mensagem do evangelho sem lucro financeiro aos produtores.
 
A confusão na cabeça evangélica começa a ocorrer quando tais músicas passam a ser executadas em cultos católicos ou em ambientes fora de igreja, como programas radiofônicos e depois televisivos. Gerou sentimento de culpa em muitos, cantar no culto aquela música que foi executada no dia anterior no “Xou da Xuxa”. Mais estranho foi começar a conviver com músicas que veiculavam letras de CDs produzidos por evangélicos conhecidos, nas quais as necessidades humanas passaram a ocupar o status antes pertencente a Deus, a Jesus Cristo ou ao Espírito Santo.
 
O golpe fatal ocorreu quando “cantores sacros” começaram a cobrar cachês para se apresentarem nos cultos e “cantores mundanos”, especialmente em declínio, passaram a gravar “músicas sacras”. Esse movimento de mão dupla tem produzido o efeito colateral positivo de forçar-nos a rever nossos conceitos e preconceitos relacionados às músicas e letras executadas em ambientes cúlticos, forçando-nos a valorizar a análise e a usar a competência de classificação.
 
É nesse contexto que o “som de Graça” abre espaço para destacarmos e refletirmos sobre a teologia presente em músicas “profanas” e como a qualidade delas pode ser igual ou superior a presente em músicas ditas “evangélicas”. Participe conosco deste momento de amadurecimento na maneira como lidamos com a música e suas letras, na igreja e em nossa vida cotidiana.