sábado, 8 de setembro de 2018

Valorização, caminhada e separação ministerial

Um colega de ministério, após um ano de pastorado, resolveu deixar a igreja, sem outro convite, por não se sentir valorizado. Em roda de amigos, ele alterava o tom da voz e dizia: "agora eles verão o que perderam e vão valorizar". Estava enganado. Se caminhando com a igreja não foi capaz de fazê-la valorizá-lo, muito menos conseguiria afastando-se dela.

Ele não percebia que quando nos sentimos desvalorizados o sentimento é nosso não da igreja. De nada adianta esperar ser valorizado pela igreja  se, primeiro, não identificarmos com clareza aquilo que nós valorizamos, aquilo que a igreja valoriza e, a partir disso, refletirmos se nossas escalas de valores poderão ser afinadas ou não.

É comum quando um pastor fala em não se sentir valorizado, estar se referindo ao sustento material. Nesse caso, em vez de sentir-se desvalorizado, melhor seria tratar da questão de forma objetiva, com a liderança, em termos financeiros. Se o que recebe não é compatível com as necessidades dele e se o que a igreja oferece está aquém das possibilidades dela, um bom diálogo talvez resolva.

Se, entretanto, o distanciamento entre necessidade pastoral e possibilidade da igreja se mantiver, melhor seria o pastor continuar dando o melhor de si, intensificar suas orações em busca de orientação divina, compartilhar com amigos, dentro da ética, sem murmuração, que está aberto a mudar-se, partindo quando outra porta se abrir.

Continuar trabalhando e agindo dentro da ética é essencial. Se isso não é valorizado por alguns, por outros é. Alguém perceberá a postura, reconhecerá afinidades e se interessará pelo trabalho.

Quando um pastor e uma igreja - especialmente sua liderança - não se afinam em questões NÃO financeiras, isso não quer dizer que um seja melhor do que o outro, mas que aquilo que um valoriza é diferente do que é valorizado pelo outro. Quando a descoberta dessa diferença se dá na caminhada, o único meio para se sair do impasse é o do diálogo.

Diferenças de níveis em escalas de valores são próprias em todo tipo de relacionamento humano. Há diferenças em níveis suportáveis e há  diferenças acentuadas, em pontos tão relevantes, que a convivência se torna estressante, doentia. Nesse caso, ou se equaciona via diálogo, ou se desenvolve resignação consciente enquanto procura uma saída ou, na pior das hipóteses, se separa de forma tão amistosa quanto possível.

Nenhum pastor encontrará uma igreja com a qual se afina 100% naquilo que valoriza, nem uma igreja encontrará um pastor à sua imagem e semelhança. (Nem esse é o propósito do ministério, pois  Deus nos criou diferentes e o referencial de harmonia que perseguimos está em Jesus). Daí a importância do processo de sucessão pastoral. Nele, a igreja pode listar elementos relevantes de sua forma de ser, classificá-los em níveis para facilitar as decisões de escolha (ex.: muito importante, importante, pouco importante e sem importância) e assim se nortear nos encaminhamentos sucessórios.

Da mesma forma, o pastor que se envolve nesse processo, precisa ter conhecimento mínimo do perfil da igreja, do que ela valoriza e comparar com o seu perfil, sua escala de valores, a fim de avaliar se conseguiria caminhar ou não com as diferenças já reconhecidas na escala de ambos. Isso não é garantia de sucesso na caminhada, mas é um bom começo.

Na caminhada, diferenças e afinidades se acentuarão até porque o movimento de entradas e saídas de membros é dinâmico, a alteração das pessoas que ocupam cargos na igreja faz parte do calendário e estrutura jurídica em face do modelo democrático-congregacional batista adotado e, consequentemente, sempre haverá uma tensão saudável entre pastor e igreja - repito, especialmente sua liderança - no exercício das atribuições que lhes conferem poder.

As consequências disso são imprevisíveis, pois o ser humano é uma caixa de surpresas. Deseja-se, entretanto, que haja maturidade, respeito mútuo e diálogo em níveis que possibilitem a caminhada em torno da missão, visão, valores, objetivos e metas da igreja.

Deseja-se. Quando não se consegue, que se avalie os possíveis traumas da separação e adote-se medidas e posturas tão justas e amorosas quanto as circunstâncias permitirem visando minimizar as dores. Assim separem-se, como fizeram Paulo e Barnabé, por exemplo, que tiveram uma bela caminhada ministerial juntos, mas, em dado momento, optaram por separarem-se diante de impasse profundo. (Atos 15:36-41). Isso não é demérito pra nenhum dos lados, é apenas uso acertado da razão, é sabedoria.



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