segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Administração, Missões e Teologia

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Percebo um fenômeno curioso no coração de alguns líderes denominacionais: um discurso de amor incondicional por missões. Ocorre, entretanto, que o referido amor veiculado nesses discursos parece-me, em alguns casos, idêntico ao de adolescentes no auge da ebulição hormonal: destituído de reflexão.

Nos amores da adolescência, o que importava era estar ao lado da pessoa amada, trocando beijos e abraços, fazendo juras de amor e sonhando com um futuro “numa ilha de fantasias”. Não era o momento para considerações sobre implicações econômicas do casamento, orçamento familiar, filosofia de educação dos filhos, escala de valores e prioridades, divisão do tempo com outras necessidades individuais e conjugais, enfrentamento de adversidades físicas, emocionais, relacionais, enfim, não havia lugar para o mundo real.

Quando ouço alguém falar que dinheiro de missões é intocável, penso duas coisas: ou a pessoa está jogando pra platéia, usando aquelas frases de efeito que disparam instintivos améns quase unânimes ou demonstra ignorância a respeito da inter-relação existente entre diversos elementos no desenvolvimento da missão da igreja. Não refiro-me ao desvio de finalidade de ofertas designadas. Falo da incapacidade de enxergarem que as convenções serão ineficientes e ineficazes em seus propósitos se não valorizarem, inclusive financeiramente, os aspectos da formação teológica e de administração de seus líderes.

Penso ser importante deixar claro que missões, no sentido usado entre nós batistas, faz parte da missão, mas missões, nem é nossa única missão, nem pode existir isolada da administração e da teologia.

Sou um admirador do Pr. Fernando Brandão. Louvo a Deus por sua chegada à direção da Junta de Missões Nacionais e, observando elementos que conheço para “ouvir clinicamente” uma pessoa, não percebi até agora evidências de que não se trate de pessoa sincera e honesta. Dos lábios dele tenho ouvido uma expressão, referente à saúde financeira de Missões Nacionais, que, para não ser distorcida, merece reflexão: “Não é coisa de administração nem gestão humana, é de Deus”.

Compreendo seu espírito humilde, "joãobatistiano" do "convém que ele cresça...", mas é inegável que Deus está usando sua experiência e conhecimentos em gestão financeira, bem como sua ética, amor ao Reino e carisma, no processo de recuperação da saúde de Missões Nacionais. Se assim não fosse, não precisaríamos incluir qualidades de administrador dentre os critérios de seleção de nossos dirigentes. Bastaria descobrir quanto tempo eles passam orando e lendo a Bíblia. Mas todos sabemos que não é assim.

Ao fazer essa consideração, meu objetivo é esclarecer que administração, definida na linguagem religiosa paulina como dom, não é algo menos espiritual ou necessário do que "amor por missões". Muito menos, reconhecer a participação humana no sucesso da missão, falta de honra a Deus. Afinal, não somos seus cooperadores? Assim, vejo como equívoco comum em nossas igrejas, o discurso de que administração não faz parte da espiritualidade cristã. Não por acaso, o principal motivo de queda de pastores não são desvios éticos ou doutrinários, mas esgotamento administrativo.

A administração é a estrada sobre a qual a missão da igreja viaja e a teologia, seu combustível. Se enfatizarmos missões e nos descuidarmos da administração e da teologia, o cumprimento da missão "desacelera". Quando, por exemplo, declaramos a ação de Deus em nossos empreendimentos, estamos fazendo uma afirmação teológica, portanto, passível de análise. É a ausência de estímulo à reflexão teológica uma das principais causas do surgimento de líderes nocivos à saúde da igreja e da sociedade e a principal causa dos membros de nossas igrejas serem presas fáceis de seus discursos biblicamente diabólicos, como na tentação de Jesus.

Lamentavelmente missões parece estar para os batistas, assim como o futebol para os brasileiros. O investimento previsto para hospedar a Copa do Mundo de 2014 é 230% maior (ou numa linguagem mais correta, duas vezes mais 30% superior) do que o orçamento anual de educação do país. Se compararmos nossos investimentos em missões com os em educação encontraremos proporção semelhante ou ainda pior.

Da mesma forma, se compararmos o "amor" que manifestamos por missões (não com a missão) com o que manifestamos pela administração das organizações batistas, o resultado será o mesmo. Estamos tão neurotica e medievalmente condicionados a livrar individuos de um inferno futuro que não percebemos o "inferno" que muitas igrejas vivem por ineficiência administrativa ou influencia de teologias construidas nos e não de joelhos.

Todos ficamos encantados com os momentos devocionais das assembléias da CBB. Duas coisas, porém me preocupam: a primeira, é que a supervalorização de tais momentos pode indicar a pobreza deles no cotidiano de nossas igrejas. A carência pode ser tal que precisamos encontrar alguma fonte para suprí-la. Assim, acreditamos que o que nos falta o ano todo em nossas igrejas deve ser suprido em doses cavalares durante uma assembléia.

A segunda é com a negação da importância das sessões administrativas. Já fui, por oito anos, executivo de instituição denominacional. Sei o quanto se sofre durante os dias das assembléias por termos que ouvir alguns discursos destituídos de fundamentos sólidos a respeito do trabalho que desenvolvemos. Mas não podemos, por isso, desestimular a participação democrática daqueles que representam os interesses das igrejas locais, que são a razão de ser da existência das convenções batistas.

Fui a Brasília com o pensamento focado na defesa de dois temas. Um deles decidi aguardar mais este ano e, a depender de como as coisas caminharem, levantarei na próxima assembléia. Durante toda a assembléia fiz uso do microfone três vezes. Duas em defesa da criação da Câmara de Ação Social (o segundo dos meus temas-foco) que foi aprovada. O outro uso do microfone, foi em favor dos direitos de participação nos conselhos da CBB, dos membros das igrejas fiéis ao Plano Cooperativo, oriundos de convenções estaduais cujos administradores retiveram indevidamente o repasse do Plano Cooperativo nacional. Sobre isso escreverei oportunamente.

Pois bem, reconheço que há oradores que alugam os microfones e cujas intervenções nos debates, tanto em quantidade quanto em qualidade, seriam dispensáveis. Devemos cuidar, entretanto, de não usar isso para inibir aqueles que têm somente aquele espaço para fiscalizar as instituições financiadas por suas igrejas e se calam por receio de serem estigmatizados como falastrões. Diga-se de passagem, alguns não falam nas assembléias, mas manifestam suas insatisfações, inclusive retendo o Plano Cooperativo ou não enfatizando ofertas especiais.

Todos sabemos o pensamento que diz que, se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. Portanto, é, também, visando evitar brechas para corrupção, malversação dos recursos financeiros enviados mensalmente às convenções, bem como garantir a finalidade da nossa "filiação" que devemos estimular a participação consciente de cada representante das igrejas nas sessões administrativas das assembléias.

Penso que estamos num momento crucial em relação aos investimentos que as convenções estaduais e nacionais fazem com o dinheiro dos dízimos, devolvidos até com sacrifício às igrejas. Chegou a hora de aprofundarmos a administração da coisa batista, a partir de dados objetivos, transparentes, sem receios ou amarguras, amando não só missões, mas também a educação e a administração, a fim de cumprirmos nossa missão integral, ajudando o ser humano em todas as dimensões de sua vida, a partir da comunhão com Deus.

4 comentários:

Durvanil 23 de fevereiro de 2009 10:40  

Parabens pelos comentários. Penso da mesma forma em relação à administração, notamente das igrejas, que muitas vezes (não sei se na sua maioria) estão engtregues a "Presidentes" que não tem o mínimo de conhecimento em administração, e sempre por força do estatuto.Muitos acabam sendo meio ditadores... Acho que está na hora de rever essa prática, deixando a parte administrativa sob cuidados de especialistas que muitas vezes estão nas próprias irgrejas. Alterar a clausula do estaturo para: O PRESIDENTE PODERÁ ser o pastor da igreja, ao invés de "O presidente será sempre o pastor da irgreja"...

Diácono Durvanil J. Souza
IEB Varzea Recife - PE

Anônimo 23 de fevereiro de 2009 12:03  

Pois e, grande pastor Edvar. Eu aqui, na Ucrania, ate sonho quando os lideres batistas daqui vao falar apaixonadamente sobre missoes. Ate entao, isso nao acontece, infelizmente :( Mas, acho que vc usou uma frase chave: "missao integral". Ai, sim, eu concordo. Missao sem uma boa administracao e uma "JUERP". No mes de marco pretendo comecar estudo num curso de administracao eclesiastica com um cara alemao Rudy Duk que tem procedencia dos refugiados alemaos na Asia Central. Quando ouvi ele falar, entendi uma coisa, sem boa administracao a missao se torna num fracasso. Estas coisas devem caminhar juntas. Como diz um ditado africano: "sozinho vai mais rapido, mas juntos mais longe". Um abraco do seu amigo ucraniano, Anatoliy

Raquel Xavier 25 de fevereiro de 2009 14:11  

Excelente texto!!! Como é que a gente faz prá colocar isso na cabeça dos "crentes", hein ?
Deu vontade de fazer esse curso do Anatoly...

Anônimo 27 de fevereiro de 2009 00:58  

Parabéns pelo excelente texto, querido Pr. Edvar.

Mas rejeito o que o irmão Durvanil sugeriu. Penso que poderá ser um caos para a igreja se o pastor não for o presidente dela.

Que tenhamos pastores bem preparados para presidirem nossas igrejas.

Valeu Pr. Edvar! Está escrevendo muito!!