domingo, 26 de julho de 2020

Por uma igreja conservadora e progressista (I) (30.1.2020)


Perguntaram ao conservador filósofo inglês Roger Scruton, o que seria ser conservador, e ele respondeu: "Conservadores, segundo eu percebo, são pessoas que estão cientes do fato de que herdaram algo bom. Uma ordem social; um sistema político; uma cultura; uma tradição jurídica; e elas querem permanecer com isso. E isso significa ser conservador: querer conservar coisas. Mas sabem que também tem que criar compromissos para fazer isso. Para elas a atual ordem existente é importante".

Pus-me a pensar em sua resposta e destaquei de sua fala o que considerei essencial: pessoas "cientes de que herdaram algo bom". Há, portanto, uma diferença entre "pessoas conservadoras" e "pessoas aliadas políticas de conservadores": a consciência de que herdaram algo bom.

Perguntei-me, então: seria conservadora uma pessoa que herdou algo ruim? Claro que não. Se é ruim, queremos mudar pra melhor. Conservar o que é ruim, seria patológico. Progredir do ruim para o bom é o desejo saudável.
Roger Scruton destaca como algo bom: "uma ordem social; um sistema político; uma cultura; uma tradição jurídica" e conclui: "e elas querem permanecer com isso".

A questão é que Roger Scruton vive na Inglaterra que tem, digamos, "uma ordem social; um sistema político; uma cultura; uma tradição jurídica" bons. Podemos dizer isso da realidade brasileira? Nossos indicadores de violência e distribuição de renda são bons? Nosso sistema político, eleitoreiro-clientelista, é bom? Nossa cultura endêmica de corrupção é boa? Nosso sistema jurídico que só consegue manter na cadeia, predominantemente, pobres e pretos é bom? Não. Logo, declarar-se conservador nesses quesitos, no Brasil, seria falta de consciência.

Quando penso numa igreja conservadora e progressista, penso numa igreja que não se declara uma coisa ou outra pra ser aceita como aliada de quem vive bem sendo o que é, mas numa igreja que sabe que há coisas boas que precisam ser conservadas, mas também há ruins que precisam ser modificadas. Sabe que é desejável progredirmos do ruim para o bom ou do bom para o melhor ou do melhor para o ótimo e que isso é ser progressista.

Penso numa igreja com senso crítico que a torna conservadora no que, efetivamente, precisa ser conservado e não se declara conservadora por ser subalterna, por querer agradar, a quem vive bem conservando aquilo que é bom pra si, em detrimento dos semelhantes que vivem "ao lado", na desgraça.

Em outras palavras, uma coisa é Roger Scruton, na Inglaterra, outra coisa, certamente, seria ele, no Brasil.

Então, antes de endeusarmos a nomenclatura "progressista" e demonizarmos a "conservador", ou vice versa, pensemos no significado dos termos e nos abramos a um diálogo avaliativo e respeitoso em torno de cada situação, visando conservar o bom e progredir do que é ruim para o melhor, para todos.

De volta a Jesus (9.1.2020)

Os céus proclamam a glória de Deus, nem por isso eles são Deus, nem por isso eles são iguais a Deus, nem por isso, muito menos, eles são maiores do que Deus. Deus é Deus; os céus, céus.

A Bíblia é um conjunto de livros a respeito de Deus, nem por isso ela é Deus, nem por isso ela é igual a Deus, nem por isso, muito menos, ela é maior do que Deus. Deus é Deus; a Bíblia, Bíblia.
"No princípio criou Deus os céus e a terra". Não foram os céus que no princípio criaram Deus. "No princípio era o logos (o sentido) e o logos estava com Deus e era Deus". Não era a Bíblia que no princípio estava com Deus e era Deus.

Não foram os céus que nos amaram e seu filho por nós doaram. Não foi a Bíblia que nos amou e seu sangue por nós derramou. Os céus, conquanto proclamem a glória de Deus, continuam sendo criaturas e Deus, seu criador. A Bíblia, conquanto revele Jesus, continua sendo criatura e Jesus, seu criador.

A Bíblia é um livro. Um livro é feito de palavras. Palavras são códigos criados por humanos. Humanos retratam percepções, idéias e sentimentos em palavras. Palavras são criaturas. Humanos são criaturas. Deus é o criador de humanos e suas palavras. É desvio, pecado, adorar e servir a criatura em lugar do criador.

Conquanto creia na inspiração da Bíblia, alimente forte respeito e amor por ela e dela não abdico em minha vida devocional, em minhas formulações ético-doutrinárias e em meu trabalho como pastor, líder e pregador, jamais poderia declarar, por exemplo, que a aceito como "meu único e suficiente salvador".

Conquanto reconheça ser ela a única fonte de informação a respeito do Senhor de quem recebi salvação, jamais a equipararia àquele que derramou seu sangue na cruz, em meio a profunda dor.

De fato, como escreveu o historiador batista Justo C. Anderson, não há unanimidade quanto a qual deve ser o princípio batista do qual os demais emanam, se o senhorio de Cristo ou a autoridade das Escrituras. É difícil separar Jesus da Bíblia e vice-versa. Isso, porém não os torna a mesma coisa. Um é o fim; o outro, meio. Um é o revelador; o outro, revelação. Um é o criador; o outro, criatura. Um é a origem; o outro, extensão.

A Bíblia é um registro em letras. Jesus é o significado desse registro. Letras podem matar, se o significado não for lúcido, se seu espírito não predominar. Se não reconheço o logos, o sentido, o significado Jesus, jamais entenderei, saudavelmente, o sentido das mensagens, dos princípios da Bíblia. Por isso, mais importante do que repetir o que a Bíblia diz é entender, clarear e proclamar seu significado.

Se apregoo a importância da Bíblia, o faço porque só nela encontro relatos da vida e ensinos do Senhor e Salvador. Se respeito a autoridade da Bíblia, o faço porque suas páginas são testemunho verídico a respeito da autoridade suprema que é Jesus, o Deus que se fez gente e habitou entre nós.

Não por acaso, os slogans mais famosos, utilizados pelos batistas brasileiros, nesses últimos 60 anos foram: "Jesus Cristo é a única esperança". Não a Bíblia. "Só Jesus Cristo salva". Não a Bíblia. "Jesus transforma". Não a Bíblia. Não por acaso, esses slogans estão em harmonia com a declaração clássica do primeiro pastor batista, John Smith, em 1610: "Só Cristo é rei e juiz da igreja e da consciência". Não a Bíblia.

Dai a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira ser explicitamente cristalina: a Bíblia "deve ser interpretada sempre à luz da pessoa e dos ensinos de Jesus Cristo".

Estudemos, pois a Bíblia. Aprofundemos nosso conhecimento em sua história, seu conteúdo e em hermenêutica. Trabalhemos para que todos possam lê-la. Lembremo-nos, entretanto, de que tudo isso deve ser feito pensando em ajudar pessoas a conhecerem JESUS. É para Jesus que devemos olhar, pois ELE - não a Bíblia - é o autor e consumador de nossa fé. Ele deve ser o foco de nossa atenção e mensagem, seja em nossa educação teológica ou em nossos púlpitos. Ele é o nosso ponto de partida e de chegada. É para Jesus, portanto, que devemos voltar.
Em tempo: trocar Jesus pela Bíblia é o mesmo que trocar o remédio pela receita.

Sobre pastores e lobos (Por OSMAR LUDOVICO)


Pastores e lobos têm algo em comum: ambos se interessam e gostam de ovelhas, e vivem perto delas. Assim, muitas vezes, pastores e lobos nos deixam confusos para saber quem é quem. Isso porque lobos desenvolveram uma astuta técnica de se disfarçar em ovelhas interessadas no cuidado de outras ovelhas. Parecem ovelhas, mas são lobos.

No entanto, não é difícil distinguir entre pastores e lobos. Urge a cada um de nós exercitar o discernimento para descobrir quem é quem.

Pastores buscam o bem das ovelhas, lobos buscam os bens das ovelhas.

Pastores gostam de convívio, lobos gostam de reuniões.

Pastores vivem à sombra da cruz, lobos vivem à sombra de holofotes.

Pastores choram pelas suas ovelhas, lobos fazem suas ovelhas chorar.

Pastores têm autoridade espiritual, lobos são autoritários e dominadores.

Pastores têm esposas, lobos têm coadjuvantes.

Pastores têm fraquezas, lobos são poderosos.

Pastores olham nos olhos, lobos contam cabeças.

Pastores apaziguam as ovelhas, lobos intrigam as ovelhas.

Pastores têm senso de humor, lobos se levam a sério.

Pastores são ensináveis, lobos são donos da verdade.

Pastores têm amigos, lobos têm admiradores.

Pastores se extasiam com o mistério, lobos aplicam técnicas religiosas.

Pastores vivem o que pregam, lobos pregam o que não vivem.

Pastores vivem de salários, lobos enriquecem.

Pastores ensinam com a vida, lobos pretendem ensinar com discursos.

Pastores sabem orar no secreto, lobos só oram em público.

Pastores vivem para suas ovelhas, lobos se abastecem das ovelhas.

Pastores são pessoas humanas reais, lobos são personagens religiosos caricatos.

Pastores vão para o púlpito, lobos vão para o palco.

Pastores são apascentadores, lobos são marqueteiros.

Pastores são servos humildes, lobos são chefes orgulhosos.

Pastores se interessam pelo crescimento das ovelhas, lobos se interessam pelo crescimento das ofertas.

Pastores apontam para Cristo, lobos apontam para si mesmos e para a instituição.

Pastores são usados por Deus, lobos usam as ovelhas em nome de Deus.

Pastores falam da vida cotidiana, lobos discutem o sexo dos anjos.

Pastores se deixam conhecer, lobos se distanciam e ninguém chega perto.

Pastores sujam os pés nas estradas, lobos vivem em palácios e templos.

Pastores alimentam as ovelhas, lobos se alimentam das ovelhas.

Pastores buscam a discrição, lobos se autopromovem.

Pastores conhecem, vivem e pregam a graça, lobos vivem sem a lei e pregam a lei.

Pastores usam as Escrituras como texto, lobos usam as Escrituras como pretexto.

Pastores se comprometem com o projeto do Reino, lobos têm projetos pessoais.

Pastores vivem uma fé encarnada, lobos vivem uma fé espiritualizada.

Pastores ajudam as ovelhas a se tornarem adultas, lobos perpetuam a infantilização das ovelhas.

Pastores lidam com a complexidade da vida sem respostas prontas, lobos lidam com técnicas pragmáticas com jargão religioso.

Pastores confessam seus pecados, lobos expõem o pecado dos outros.

Pastores pregam o Evangelho, lobos fazem propaganda do Evangelho.

Pastores são simples e comuns, lobos são vaidosos e especiais.

Pastores tem dons e talentos, lobos tem cargos e títulos.

Pastores são transparentes, lobos têm agendas secretas.

Pastores dirigem igrejas-comunidades, lobos dirigem igrejas-empresas.

Pastores pastoreiam as ovelhas, lobos seduzem as ovelhas.

Pastores trabalham em equipe, lobos são prima-donas.

Pastores ajudam as ovelhas a seguir livremente a Cristo, lobos geram ovelhas dependentes e seguidoras deles.

Pastores constroem vínculos de interdependência, lobos aprisionam em vínculos de co-dependência.

Os lobos estão entre nós e é oportuno lembrar-nos do aviso de Jesus Cristo: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são devoradores (Mateus 7:15).

Regência e pastoreio (27.12.2019)


Nesse Natal voltei a cantar em coral. Depois de um período sabático por escolha própria, Deus me deu o privilégio de retomar à vida pastoral numa igreja cujo número de membros é menor do que o de coristas de um dos corais de igrejas que já pastoreei. Então coloquei-me à disposição para cooperar com o coro, em algumas músicas para o Natal.

Cantando no coral, ficava observando o trabalho da regente. Ela, certamente, tinha em mente onde queria chegar. Mas o caminho nem seria curto, muito menos fácil. Ensinar a voz de cada um. Afinar cada uma às notas das músicas e às vozes diversas. Treinar, repetindo infinitas vezes, visando a auto-confiança. Trocar a tensão do rosto aprendiz pelo riso espontâneo de quem sabe o que está fazendo. Cantar, cantar e cantar, até alcançar harmonia.

Pregando recentemente em uma igreja grande, um líder veio falar comigo após o culto, de forma veemente, que eu deveria ser pastor de igreja maior. Respondi que já tinha sido pastor de várias igrejas grandes e isso era algo muito bem resolvido em meu coração. Ser pastor me basta. Sinto-me muito feliz pastoreando em Casa Forte. Sinto-me como um regente iniciando a preparação de uma cantata.

Sim, como um regente que sabe onde quer chegar, assim pastoreio. Trabalho para que minha vida e a dos que estão sob meus cuidados pastorais estejam empenhadas em viver em harmonia com os valores do reinado de Deus expressos na vida de Jesus de Nazaré, conforme descrito nas Escrituras que os revelam.

Quanto aos aspectos institucionais da igreja, eles se tornam detalhe diante do desafio que é trazer as marcas de Jesus no corpo. Se as marcas de Jesus forem fortes, fazer boa liturgia, viver em comunhão, praticar o discipulado, realizar a proclamação, exercitar o serviço, administrar, enfim, são apenas conseqüências, questão de aprendizado, tempo, dedicação.

Se a igreja for espiritualmente saudável, crescimento é conseqüência, não obsessão. Se não for, grandeza será apenas manifestação de poderio político-econômico, sem efetiva relevância sócio-espiritual.

Isso, sem perder de vista as palavras paulinas: “...nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento... porque nós somos cooperadores de Deus.” (1 Coríntios 3:7-9). Ele é o regente; nós, coristas. Ele é o pastor; nós, ovelhas.

O verdadeiro Natal (22.12.2019)


Reconheço um quê de pretensiosidade na expressão “o verdadeiro natal”. Não por pressupor que existam falsos natais, o que é facilmente aceitável, mas por dar a impressão de que uma pessoa ou instituição seria capaz de deter o conhecimento absoluto da totalidade de um fenômeno que é multifacetário. Se não ficou claro, explico:
Verdade é um fenômeno, um fato único, irrepetível. São tantas as variáveis envolvidas quando o fato ocorre que o que fica dele são testemunhos, narrativas do fato, da verdade.
Verdade é o fato. O que sobra dele são narrativas. Se várias pessoas testemunharem um mesmo fato, a memória de cada uma registrará elementos diferentes, seja pela diferença no órgão de sentido utilizado (visão, audição, olfato, paladar e tato), seja pela qualidade desses órgãos de sentidos ou dos neurônios que conduzem a informação ao cérebro, seja pelas qualidades do próprio cérebro, seja pela posição geográfico-temporal da testemunha (tempo e distância em relação ao ocorrido), enfim.
A verdade é que, seja por qual variável for, não é difícil compreender e concluir que uma coisa é o fato, o fenômeno, outra é a percepção que testemunhas têm dele e outra, ainda, é a capacidade delas de narrar, seja de forma oral ou escrita, o que testemunhou.
O nascimento de Jesus é um fenômeno, um fato extraordinário. Foi percebido por poucas pessoas. As narrativas disponíveis, de Mateus, Marcos, Lucas e João, não são de pessoas que estavam presentes quando os fatos se deram. Por pressuposto teológico, cremos que esses narradores foram inspirados, cada um através dos meios utilizados, para organizar suas narrativas.
A nós, que também não estávamos lá, cabe crer ou não que as narrativas são relato fiel do ocorrido. Dessa forma a narrativa passa a ser a verdade, o "fato" no qual somos convidados a conhecer, crer, refletir e aplicar, permitindo que nossas vidas sejam afetadas e assim experimentemos uma nova relação com Deus, um novo sentido, a “salvação”.
Ao escolhermos a expressão: “o verdadeiro Natal”, pretendemos apenas destacar facetas das narrativas que não abarcam o todo do fenômeno, mas que afetam nosso modo de viver hoje a partir do contato com a vida do nascido, a razão de ser do natal, o menino de Nazaré que nasceu numa estrebaria.

Referenciais para uma igreja graciosa (13.12.2019)


Você pode concordar mais ou menos, mas estes pontos merecem nossa reflexão, aprofundamento e prática, se desejarmos ser igreja graciosa:
1. Uma igreja cujos membros conseguem diferenciar o evangelho da graça de Jesus Cristo da cultura judaica e do legalismo de "Moisés";
2. Uma igreja cuja relação com Bíblia não seja "bibliólatra", mas seja vista como essencial, pois, como palavra inspirada, ela nos revela a razão de nossa existência e esperança, que é Jesus, o Cristo;
3. Uma igreja cujos membros desenvolvem predisposição para amar e servir e não para controlar e explorar o outro;
4. Uma igreja cujos membros enxerguem não somente suas necessidades institucionais, mas sobretudo as humanas;
5. Uma igreja cujos membros compreendem que ela existe não apenas para que eles se abençoem mutuamente, mas também para abençoar os que não caminham com ela ou com ela caminhem, ainda que transitoriamente;
6. Uma igreja cujos membros se enxerguem não como um rebanho trancafiado em um curral cuja chave está nas mãos do pastor, mas como pessoas que exercem, consciente e responsavelmente, sua liberdade conquistada em Cristo;
7. Uma igreja cuja compreensão de relevância não esteja vinculada aos espaços políticos que ocupa ou ao prestigio social que usufrui, mas às lutas com as quais se envolve em função dos valores do reinado de Deus manifestos em Jesus;
8. Uma igreja cujo paradigma missionário não seja "conquistar" vidas para Cristo, mas "cuidar" de vidas para Cristo;
9. Uma igreja cujos membros se empenhem por entender o modo de ser dos moradores do lugar onde está sua sede e estejam com seus corações abertos para abençoá-los;
10. Uma igreja cujos membros se norteiem pela recomendação paulina: "todos os vossos atos sejam feitos em amor" (I Cor. 16:14) e não se esquecem dos empobrecidos, conforme recomendação da liderança da Igreja de Jerusalem (Gal. 2:10).

Um chamado ao serviço


Vivemos um tempo em que tudo virou mercadoria, tudo virou objeto de troca por dinheiro. O dinheiro está entronizado, assumiu o lugar do divino no planeta. Pouco se faz sem que se estabeleça um preço em dinheiro. Portanto, falar em servir sem a intermediação de Mamon torna-se cada dia mais uma utopia.

Um dos efeitos colaterais dessa cultura é a coisificação do ser. O humano deixa de ser humano e torna-se objeto. Seu valor transcedental deixa de existir e passa a ser visto como objeto descartável. Manter-se um humano vivo deixou de ser valor social e passou a ter valor puramente econômico, cujo benefício ou prejuizo gira apenas em função do custo-benefício financeiro.

O sentimento de menos valia toma conta de número cada vez maior de individuos, a tristeza e a desesperança imperam, a depressão e a violência prosperam.

Diante desse quadro, não enxergo outra saída senâo o retorno ao divino que se manifestou em Jesus de Nazaré. A conversâo da idolatria ao material à submissão ao Cristo de Deus. Esse é o caminho da restauração do valor do ser sobre o ter. Essa é a trilha da recuperação da saúde individual e coletiva, pessoal e social.

Estamos convidando os membros da IBem Casa Forte a se disponibilizarem para o serviço em favor do outro que não se concretiza exclusivamente pela intermediação do dinheiro, mas sobretudo pela compreensão de que, através de relacionamentos marcados por amor, solidariedade e fraternidade, brota a saúde necessária para uma vida mais saudável e feliz.

Sigo pela fé ou peço sinais? (12.10.2019)

Comecei a refletir sobre o conceito fé na adolescência e recebi algumas influências de palestras do Pr. Massatero Enoue (?), em encontros de jovens do Departamento de Mocidade Batista da Associação Centro do Estado de São Paulo. Com ele iniciei a compreensão de que a busca por sinais revelaria a fragilidade da fé e que, quanto mais amadurecida a fé, menos precisaríamos de sinais.

Com as encruzilhadas da vida, porém, fui aprendendo que nem sempre a realidade se encaixa nos conceitos; que uma coisa é o conceito, outra a aplicação dele em contextos específicos, objetivos, especialmente obscuros, de profunda pressão, de escolhas do tipo: "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come"; que a razão é essencial, mas ninguém é tão maduro espiritualmente a ponto de nunca agir como Gideão.

Só pra recordar: “E Gideão disse a Deus: “Quero saber se vais libertar Israel por meu intermédio, como prometeste. Vê, colocarei uma porção de lã na eira. Se o orvalho molhar apenas a lã e todo o chão estiver seco, saberei que tu libertarás Israel por meu intermédio, como prometeste”. E assim aconteceu. Gideão levantou-se bem cedo no dia seguinte, torceu a lã e encheu uma tigela de água do orvalho.

Disse ainda Gideão a Deus: “Não se acenda a tua ira contra mim. Deixa-me fazer só mais um pedido. Permite-me fazer mais um teste com a lã. Desta vez faze ficar seca a lã e o chão coberto de orvalho”. E Deus assim fez naquela noite. Somente a lã estava seca; o chão estava todo coberto de orvalho.” (Juízes‬ ‭6:36-40‬)

É isso. Compreender o conceito fé é bom. Melhor, porém, é saber lidar com ele diante das alternativas que nos encurralam e nos desafiam. Há contextos nos quais melhor é assumir: ela é frágil, imatura e precisamos de sinais. Ora mais, ora menos. Uns mais, outros menos...

Ter fé é bom e necessário. Ter alternativas de escolha, mesmo sob pressão, é melhor do que não tê-las. Decidir, porém, muita vez exige que fiquemos entre a fé e os sinais. Como cada um sabe "onde aperta o seu sapato", cada um segue seu coração, de preferência, recomendo, em oração. Eu mesmo, algumas vezes, fico indeciso: sigo pela fé ou peço sinais?

Voltando a postar

Depois de mais de um ano, reapareço para fazer postagem por aqui...

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Relações trabalhistas no ministério pastoral batista

Uma pessoa me questionou: por que pastores batistas nada falam sobre as mudanças na legislação trabalhista?

Simples.

1. Pastor batista não tem carteira de trabalho;

2. Pastor batista não é subordinado às leis trabalhistas;

3. Pastor batista não tem estabilidade no "emprego";

4. Pastor batista, quando muito, negocia com a igreja local suas condições de trabalho (e da parte que representa a igreja nas decisões salariais, há generosos e mesquinho, há patrões e empregados, há desempregados e super bem empregados, há de direita e de esquerda, há economicamente conservadores e liberais, enfim, e poucos se interessam em avaliar a complexidade da instituição e do trabalho pastoral);

5. Férias, 13o,  Fundo de Garantia, Plano de Saúde, INSS, tudo precisa ser acordado entre as partes;

6. A relação entre um pastor e uma igreja batista pode ser rompida  pelo simples desejo de uma das partes;

7. Não existe indenização demissória, exceto se tiver sido acordada no início da caminhada;

8. Pastor batista nem entra com ação na justiça do trabalho porque seu trabalho não é considerado profissão, mas sacerdócio;

9. Há pastor batista com salário (prebenda) digno, mas a maioria vive em condições salariais semelhantes a da maioria empobrecida da população brasileira;

10. A relação de trabalho entre um pastor  e uma igreja batista é classificada como ultraliberal.

Se isso é bom ou ruim, seria outro assunto. Mas é assim. 

Talvez por isso as discussões sobre desregulamentação  das relações de trabalho no Brasil não provocam reações significativas da parte pastoral batista.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Movimento pela volta da discriminação da mulher nas igrejas batistas

Fiz, nessa manhã, no meu momento devocional, uma releitura completa da carta aos Gálatas. Fiz porque ando incomodado. Ando incomodado com o fortalecimento do legalismo patriarcal no meio batista. Esse fortalecimento se dá de maneira sutil, como fermento, visando levedar toda a massa.

A aparência é atraente. Diria, "diabolicamente" atraente. Como o diabo usou a "palavra" para tentar Jesus no deserto, esse movimento também está usando a "palavra".

A pretexto de "ensinar" pastores a pregarem a "palavra", pasmem, proibem mulheres de participarem desses "cursos" e, pior do que isso e decorrente disso, já há pastor ensinando que mulher não pode ensinar a "palavra" numa sala, num templo, se houver homem na platéia.

Irmãs, em 1917, portanto há 102 anos, uma amazonense chamada Josefa da Silva veio ao Recife para estudar a Bíblia. Ao chegar, surpreendeu-se porque mulheres não podiam estudar, nem no STBNB, nem no Colégio Americano Batista.

Ela foi acolhida pelo casal Taylor e, a partir daí, foi organizada a primeira escola feminina do Brasil para estudo da Bíblia, hoje conhecida como Seminário de Educação Cristã - Sec, mantida pela UFMBB.

Ninguém discute a bênção que as ex-alunas do SEC têm sido na obra missionária no Brasil e no exterior. Ninguém discute a bênção que ex-alunas do SEC têm sido na caminhada ministerial de muitos pastores, como suas esposas, atuando, inclusive, no ensino da "palavra".

Por isso, angustia-me o silêncio das mulheres e de pastores, quando sabemos que, sob nossos narizes, sob o teto de nossos templos, até mesmo dentro de nossas escolas de educação teológico-ministerial, um retrocesso de mais de um século está sendo fomentado e fermentado, objetivando colocar as mulheres sob o legalismo da era de Moisés e não sob a graça do ministério de Jesus.

Reli a história de Josefa da Silva e também a carta de Paulo aos Gálatas e como o apóstolo digo: "“Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho que, na realidade, não é o evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo.” (Gálatas‬ ‭1:6-7‬)

Mulheres e homens, por favor, estudemos a Carta aos Gálatas para nos defendermos dessa questão que está sendo "levantada porque alguns falsos irmãos infiltraram-se em nosso meio para espionar a liberdade que temos em Cristo Jesus e nos reduzir à escravidão.” (Gálatas‬ ‭2:4).

É hora de começarmos a nos perguntar com veemência como Paulo: "Mas agora, conhecendo a Deus, ou melhor, sendo por ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez?” (Gálatas‬ ‭4:9)

Perguntemos-nos a nós mesmos: “Vocês corriam bem. Quem os impediu de continuar obedecendo à verdade? TAL PERSUASÃO NÃO PROVÉM DAQUELE QUE OS CHAMA. “Um pouco de fermento leveda toda a massa.” Estou convencido no Senhor de que vocês não pensarão de nenhum outro modo. Aquele que os perturba, seja quem for, sofrerá a condenação.” (Gálatas‬ ‭5:7-10‬)

Pensemos no que Paulo ensinou. “Os que desejam causar boa impressão exteriormente, tentando obrigá-los a se circuncidarem, agem desse modo apenas para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo. Nem mesmo os que são circuncidados cumprem a Lei; querem, no entanto, que vocês sejam circuncidados a fim de se gloriarem no corpo de vocês.

Quanto a mim, que eu jamais me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio da qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo. De nada vale ser circuncidado ou não. O que importa é ser uma nova criação.

Paz e misericórdia estejam sobre todos os que andam conforme essa regra e também sobre o Israel de Deus. Sem mais, que ninguém me perturbe, pois trago em meu corpo as marcas de Jesus. Irmãos, que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o espírito de vocês. Amém.” (Gálatas‬ ‭6:12-18‬)

Está na hora de bradarmos com veemência. Moisés nunca mais. "Cristo é a única esperança". "Só Jesus Cristo Salva". "Jesus Transforma". "Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus.” (Gálatas‬ ‭3:26-28‬)

@blogdoedvar

domingo, 23 de junho de 2019

Propaganda enganosa do evangelho de Jesus

Sob o discurso do "é bíblico" algumas igrejas estão usando a embalagem Jesus para fazer descer goela abaixo o conteúdo Moisés.

O resultado é que, em vez de água da vida, o povo está bebendo refrigerante de quinta categoria com gosto de chiclete sem banana.

Levemos a sério o que preceitua a Declaração Doutrinária da CBB sobre as Escrituras Sagradas: "Ela deve ser interpretada sempre à luz da pessoa e dos ensinos de Jesus Cristo."

Igreja Batista que não é ensinada nisso está sendo induzida, "biblicamente", à heresia.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

O amor


O amor

Uns dizem ser um sentimento
Outros, atitude que modela a ação
Outros, ainda, uma escolha
E ainda alguns outros, uma decisão.
E também é comum admitir-se:
Ele é, quimicamente, uma emoção.

Se ele brota espontaneamente
E não precisa ser cultivado.
Se ele pode ser cultivado,
Mas pode e precisa ser controlado
Se seus alvos são abrangentes
Ou se podem ser canalizados,
O fato é que a todos  toca
E, diante dele, ninguém fica alienado.

Quando ele alcança o coração
Enfrentamos tudo em seu nome 
Curtimos os tempos de calmaria
Arregaçamos as mangas nas tempestades
Lutamos contra tudo, todos e todo tipo de dificuldades
Mas não abandonamos o que nos fez experimentar
Este fenômeno que altera a realidade.

Por ele choramos
Por ele sorrimos
Por ele acordamos
Por ele dormimos
Por ele nos iluminamos
Por ele nos iludimos
Por ele negamos
Por ele assumimos
E seja por tanto bem que nos faz
Ou mesmo pelas dores que sentimos
Ele sempre estará lá, agindo.
É por ele que reagimos.

Olhe para trás e recorde o quanto sorriu
Olhe para trás e recorde o quanto sofreu
Olhe para trás e recorde tudo que partiu 
Olhe para trás e recorde tudo que uniu
Olhe para trás, foi ele que  moveu,
Mesmo que não tenha tido consciência,
Mesmo que, envolvido, não percebeu.
Foi pelo amor que lutou.
Foi por ele que sobreviveu.


(Enquanto hoje chove muito e continuamente lá fora e  me lembro de ontem, do "Dia dos Namorados", resolvi escrever estas linhas pensando nessas décadas de vida com Gláucia, começadas oficialmente em 15/10/1981)

terça-feira, 21 de maio de 2019

Autonomia, cooperação e liberdade

Autonomia, cooperação e liberdade

Um dos maiores desafios da caminhada de uma Convenção Batista é, pelo lado de seus dirigentes, terem cosciência indubitável da AUTONOMIA da igreja local e, pelo lado das igrejas, estarem profundamente convencidas de que a COOPERAÇÃO é a chave do desenvolvimento de um grupo, seja de indivíduos, seja de igrejas.

Autonomia e cooperação são dois valores que, isolados um do outro, nos fazem sentir numa corda bamba. 

A autonomia das igrejas exige que os dirigentes da Convenção se convençam de que a participação de uma igreja é uma conquista contínua permanente e que sua manutenção exige clareza de missão, visão e valores como trilhas da cooperação, transparência das informações como sustentação da fidelidade e democracia, formal ou informal, como caminho decisório.

A necessidade de cooperação deve apntar às lideranças das igrejas que, sem esse espírito, família, igreja, denominação e sociedade em geral estão fadadas à morte, ainda que os sinais não indiquem,  nem se perceba isso no curto e médio prazo.

O binômio autonomia-cooperação transita pela estrada da liberdade. É no reconhecimento da liberdade como princípio fundamental, não na chantagem, na coação, na manipulação, na imposição, na uniformidade, na mentira, na exclusão do diferente, no uso do medo, enfim, que relações saudáveis e duradouras se constroem. 

A liberdade de pensar, de expressar o pensamento, de crença, seja em termos teológicos, políticos, organizacional-administrativo-operacionais, enfim, é frágil, mas sem ela a autonomia e a cooperação se definham.

Não por acaso, a liberdade é um dos pilares da história dos batistas. Ameaçá-la é o primeiro sintoma de que estamos perdendo o equilíbrio na relação entre autonomia e cooperação.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Verdade e testemunho verdadeiro

(A verdade, as narrativas bíblicas e a educação teológico-ministerial ou a relação entre os dois mais importantes princípios dos batistas: o senhorio de Cristo e a autoridade bíblica)

"O amor não se alegra com a injustica, mas sim com a verdade" (I Cor. 13:6): "... seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.” (Efésios‬ ‭4:15‬).


A verdade é única, mas narrativas dela podem ser múltiplas e cada uma dessas sempre será contada na forma percebida ou desejada pelo narrador:
1. a partir do lugar, da posição, onde  estava posicionado como testemunha da verdade ("cada ponto de vista é a vista de um ponto");
2. com base em sua capacidade de percepção (qualidade de seus órgãos do sentido);
3. com base em sua capacidade de memorização do que percebeu (armazenamento de dados);
4. com base em sua capacidade de abstração (processamento dos dados percebidos, avaliação, análise, reflexão, enfim, e transformação em conhecimento);
5. com base na qualidade da reação de seus sentimentos (favoráveis ou desfavoráveis aos elementos que caracterizam a verdade percebida);
6. com base em suas finalidades e conveniências político-ideológicas (por prever consequências de sua narrativa da verdade testemunhada, para sua vida e de seus ouvintes/leitores).

A verdade pode ser um evento, um acontecimento, um fenômeno qualquer e  jamais se repete de maneira absolutamente igual. Suas características essenciais ou mesmo aparentes podem se manter, mas sempre haverá algo, em cada repetição, que a tornará diferente.

A "repetição de uma verdade", (evento ou fenômeno) pode até parecer igual a olhos nus, mas basta que se utilize "olhos clínicos" ou "olhos tecnológicos" e se perceberá, no mínimo, que há nuances que a torna diferente.

I. Jesus como verdade

Jesus foi um evento. Um evento tão duradouro e extraordinário que João, um dos narradores que mais conviveram com a "verdade Jesus", declarou: “Jesus realizou na presença dos seus discípulos muitos outros sinais milagrosos, que não estão registrados neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome.” (João‬ ‭20:30-31‬).

Ele - João - termina sua narrativa do evento, da "verdade Jesus", dizendo: “Este é o discípulo que DÁ TESTEMUNHO dessas coisas e que as registrou. Sabemos que o SEU TESTEMUNHO é verdadeiro. Jesus fez também muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos.” (João‬ ‭21:24-25‬)

Lucas nunca esteve com a "verdade", com o "evento Jesus", portanto, não a testemunhou, mas foi um exímio narrador do "fenômeno". E como fez? Ele mesmo responde: “Muitos já se dedicaram a elaborar um RELATO DOS FATOS que se cumpriram entre nós, conforme nos foram TRANSMITIDOS por aqueles que desde o início foram TESTEMUNHAS OCULARES e servos da palavra. Eu mesmo INVESTIGUEI tudo cuidadosamente, desde o começo, e decidi escrever-te um RELATO ORDENADO, ó excelentíssimo Teófilo, para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas.” (Lucas‬ ‭1:1-4‬)

As histórias que envolvem "a verdade Jesus", foram narradas, então, por discípulos de primeira ou segunda mão. Narradores privilegiados, marcados de tal maneira, emocional e existencialmente, pelo que viram, ouviram dizer, leram, investigaram, que suas narrativas continuam produzindo impacto semelhante ao experimentado por aqueles que testemunharam a "verdade Jesus".

Teoricamente, por mais honestos, cuidadosos e fiéis que sejam os narradores, uma narrativa jamais consegue descrever 100% da verdade que a caracteriza (Jo. 21:24-25). Sempre haverá um recorte que atenda uma finalidade, do tipo: "...para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome" (João) ou "...para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas". (Lucas).

As narrativas da verdade são a única maneira de pessoas ausentes no instante do acontecimento terem acesso à ocorrência. Nesse caso, a narrativa e a verdade se con-fundem, restando a quem não testemunhou, não presenciou, crer ou não na narrativa.

Uma narrativa em si, tem poder para libertar ou oprimir,  produzir prazer ou dor, alegria ou medo, amor ou raiva, tristeza ou graça, esperança ou desespero e desesperança. O interesse pela verdade narrada depende, então, da condição emocional, das expectativas, de quem por ela está sendo afetado e das consequências que ela percebe e abstrai disso.

II. A narrativa bíblica como verdade

Se duas pessoas estiverem envolvidades em um crime, uma como vítima, outra como ré, as narrativas do mesmo evento, da mesma verdade, certamente serão diferentes. Daí a importância de especialistas em investigação, em advocacia e em  julgamento e da necessidade de provas e das narrativas de testemunhas.

No caso da Bíblia, esse é um dos papéis do teólogo. Investigar. Isso porque trabalha com uma verdade não testemunhada por ele, não presenciada no ato da ocorrência, mas conhecida através de narrativas, de testemunhos.

Um de seus trabalhos, por exemplo, é lidar com o conflito de autoridade entre Jesus - a verdade - e a Bíblia - a narrativa da verdade -, elemento que exige investigação e alertas constantes tanto sobre a verdade - Jesus - , quanto sobre as narrativas - textos bíblicos -.

Sendo a Bíblia a única fonte de narrativas a respeito da "verdade Jesus", se ela for desacreditada, cairia por terra tudo o que se prega a respeito de Jesus. Por outro lado, a priorização dela como narrativa, em detrimento dele, como a verdade, pode induzir os leitores a se tornarem apenas, por exemplo, religiosos legalistas ou moralistas, transformando Jesus em apenas mais um de seus personagens, anulando assim os efeitos soterológicos, amorosos e graciosos de seu nascimento, vida, ensinos, morte e ressurreição.

Como nenhum de nós tem acesso, senão espiritual, à "verdade Jesus", mas somente às narrativas a respeito dela, isso  faz com que a autoridade da narrativa seja tão ou mais enfatizada por muitos, do que a autoridade de Jesus - o fato, evento, fenômeno em si, a verdade.

No evangelho, Jesus é a verdade e o Novo Testamento, a narrativa da verdade, a interpretação da verdade, a aplicação da verdade. Não custa lembrar, então, que por mais fiéis e verdadeiros que os narradores, intérpretes e aplicadores tenham sido, jamais seriam capazes de reproduzir, de traduzir em grafia o evento real.

(Daí o pressuposto teológico "inspiração", acrescido do polêmico adjetivo "verbal", que transforma os escritores bíblicos em "psicografistas", visando transferir a autoria absoluta dos textos para Deus, retirando a responsabilidade humana e, com ela, a incompletude ou a possibilidade de erros no conteúdo ou na forma da verdade que narra).

De qualquer forma, daqueles que leem as narrativas, sempre será exigido um elemento chamado fé, pois devem crer não no que viram, mas no que outros viram, vivenciaram, perceberam e narraram. É a narrativa que toca de maneira significativa em suas almas, reorientando o sentido de suas existências e legitimando a sua verdade.

Não por acaso desde os primeiros textos da fé judaico-cristã, a ênfase na importância das narrativas é grande.

Exemplo no Antigo (ou primeiro) Testamento: "Gravem estas minhas palavras no coração e na mente; amarrem-nas como sinal nas mãos e prendam-nas na testa. Ensinem-nas a seus filhos, conversando a respeito delas quando estiverem sentados em casa e quando estiverem andando pelo caminho, quando se deitarem e quando se levantarem. Escrevam-nas nos batentes das portas de suas casas e nos seus portões, para que, na terra que o Senhor jurou que daria aos seus antepassados, os seus dias e os dias dos seus filhos sejam muitos, sejam tantos como os dias durante os quais o céu está acima da terra.” (Deuteronômio‬ ‭11:18-21‬).

Exemplo no Novo (ou Segundo) Testamento: “Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu. Porque desde criança você conhece as Sagradas Letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus. Toda a escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.” (2 Timóteo‬ ‭3:14-17‬)

A igreja, em tese, é uma comunidade formada por pessoas que já creram nas narrativas a respeito do evento, do fenômeno, da "verdade Jesus". Ocorre que em sua caminhada ela está exposta  a versōes - pregações, palestras - das narrativas que podem alterar, omitir, até mesmo incluir elementos, "pegando carona" na "verdade Jesus". São elementos de interesse de indivíduos ou grupos no exercício do poder, visando a manutenção ou modificação do "status quo" social vigente.

Leia este caso clássico que pode ilustrar a diferença entre a verdade testemunhada por mulheres e a narrativa elaborada por líderes religiosos mal-intencionados.

1. A verdade
“Depois do sábado, tendo começado o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. E eis que sobreveio um grande terremoto, pois um anjo do Senhor desceu dos céus e, chegando ao sepulcro, rolou a pedra da entrada e assentou-se sobre ela. Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve.

O anjo disse às mulheres: “Não tenham medo! Sei que vocês estão procurando Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui; ressuscitou, como tinha dito. Venham ver o lugar onde ele jazia. Vão depressa e digam aos discípulos dele: Ele ressuscitou dentre os mortos e está indo adiante de vocês para a Galileia. Lá vocês o verão. Notem que eu já os avisei”. As mulheres saíram depressa do sepulcro, amedrontadas e cheias de alegria, e foram correndo anunciá-lo aos discípulos de Jesus. De repente, Jesus as encontrou e disse: “Salve!” Elas se aproximaram dele, abraçaram-lhe os pés e o adoraram. Então Jesus lhes disse: “Não tenham medo. Vão dizer a meus irmãos que se dirijam para a Galileia; lá eles me verão”.  (Mateus‬ ‭28:1-3, 5-10)

2. A narrativa falsa para atender interesses corporativos
"Enquanto as mulheres estavam a caminho, alguns dos guardas dirigiram-se à cidade e contaram aos chefes dos sacerdotes tudo o que havia acontecido. Quando os chefes dos sacerdotes se reuniram com os líderes religiosos, elaboraram um plano. Deram aos soldados grande soma de dinheiro, DIZENDO-lhes: “Vocês devem declarar o seguinte: Os discípulos dele vieram durante a noite e furtaram o corpo, enquanto estávamos dormindo. Se isso chegar aos ouvidos do governador, nós lhe daremos explicações e livraremos vocês de qualquer problema”. Assim, os soldados receberam o dinheiro e fizeram como tinham sido instruídos. E esta VERSÃO se divulgou entre os judeus até o dia de hoje.” (Mateus‬ ‭28:11-15‬)

É compreensível, portanto, a disputa entre correntes de pensamento teológico visando fazer prevalecer sua narrativa da "verdade Jesus". Uns focam no Jesus de Nazaré, outros no Cristo paulino, outros nos dois. Uns estão, de fato, interessados na "verdade", outros, em garantir seus interesses pessoais, sociais, grupais, institucionais, usando as narrativas como elemento de imposição da verdade que lhes interessa, lhes beneficia, inclusive política e socialmente.

Por isso, considerando que uma narrativa pode provocar impactos relevantes na vida de um ouvinte/leitor, ele deve ser estimulado exercitar o direito de pesquisar todas as variáveis envolvidas numa narrativa a fim de depositar ou não sua confiança nela.

Também nesse sentido podemos entender as palavras de João quando diz: “Amados, não creiam em qualquer espírito, mas EXAMINEM os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” (1 João‬ ‭4:1‬).

Além disso, sabemos que as narrativas bíblicas não servem somente para narrar a "verdade Jesus". Há outros interesses aos quais ela também pode servir. É comum que a autoridade dela, por narrar a "verdade Jesus", também seja usada para emplacar outros interesses.

Exemplo disso foi o uso de narrativas bíblicas para sustentar ou destruir interesses político-econômicos nas revoluções inglesas do século XVII (período do surgimento dos batistas), como foi demonstrado por Christopher Hill em "A Bíblia Inglesa e as revoluções do século XVII".

Isso fortalece a importância de investimento,  nas escolas teológico-ministeriais, em estudos profundos sobre a Bíblia e não apenas relacionados à formação ministerial visando  preparar mão de obra técnica para gerenciar um negócio religioso ou reproduzir uma ideologia teológica ou para aumentar o número de frequentadores de igreja ou para aumentar a capacidade financeiro-patrimonial eclesiástica e o poder político-denominacional.

Nesse caso, é essencial que se faça a pergunta básica de quem trabalha com educação: para que a instituição educacional existe? Existe para elucidar a "verdade" e seus efeitos a partir das narrativas existentes e da pesquisa de todos os elementos relacionados a ela ou existe para  divulgar narrativas convenientes aos interesses de quem delas tira proveito estritamente particular ou corporativo? Qual é a finalidade da educação teológico-ministerial oferecida?

A meu ver, o aprofundamento do estudo das narrativas visando lançar luzes sobre as implicações da "verdade" testemunhada pelos narradores bíblicos, bem como das interpretações dadas pelas DIVERSAS correntes de pensamento teológico é essencial:
1. numa sociedade que se caracteriza pela velocidade na veiculação de informação e na falta de priorização da analise, elaboração e construção de conhecimento;
2. numa época em que a polarização de interesses se aprofunda e "fake news", pós-verdades, são usadas para obscurecer a verdade e ludibriar as pessoas;
3. numa sociedade na qual a fé tem sido usada por muitos como um produto financeiramente rentável, num mercado consumidor em expansão ou elemento de sustentação de ideologias políticas e suas estruturas operacionais.

Desejo, então, que essas linhas tenham despertado seu desejo para refletir sobre os assuntos "verdade"  e "narrativas da verdade" e ajudado a entender o porquê, a importância, de continuar estudando esses dois elementos no que se refere à fé cristã, a formação teológica e ao exercício ministerial.