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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Frutos do Espírito Santo na Vida de cada Crente - 11.06.12 - 50/100 dias de oração pelo Brasil

Achei bom ter constatado que o roteiro do livro "100 dias que impactarão o Brasil" não traz nenhuma vez o assunto "dons", enquanto traz, diretamente, duas vezes  o assunto "fruto" do Espirito Santo.

Se isso se deu por acaso ou conscientemente, não importa. O fato é que, conquanto o uso dos dons seja essencial à edificação do corpo de Cristo, sua presença na vida da igreja decorre, primeiro, de uma decisão de Deus de presentear-nos - dom, no grego, significa presente -, de equipar-nos, com ferramentas espirituais úteis à edificação do povo; depois, decorre da decisão tomada por nós de, em vez de nos dividirmos em função da importãncia ou não deste ou daquele dom, focarmos nossas mentes e corações no amor. O amor faz toda a diferença no reconhecimento e uso dos dons de maneira favorável, benéfica.

Daí a última frase que faz ligação entre o capítulo 12 (de 1ª aos Corintios) -  o das discussões e brigas na igreja - com o 13 - o do diálogo e harmonia - ser: "Passo agora a mostrar-lhes um caminho mais excelente" (I Cor. 12.31). Paulo não se expressou, mas certamente sabia que, mesmo que o conceito "dom" nunca fosse destacado ou definido nas páginas do Novo Testamento, o fenômeno "dons" seria uma realidade na vida da igreja, pela simples presença do Espírito Santo, produzindo fruto que se manifesta, dentre outros, através do amor.

A presença de dons na igreja, não é determinada pelo fato do assunto ter sido abordado por Paulo. É determinada pela presença do fruto do Espírito Santo em nossas vida.

Se a igreja não brigasse por causa dos dons, nem os teólogos pensassem sobre os dons, nem ainda se os doutrinadores ensinassem sobre os dons, ainda assim eles seriam uma realidade na vida da igreja pela simples presença do fruto do Espírito Santo em nós. É que, quem deixa o fruto do Espírito manifestar-se em sua vida, naturalmente sente o desejo e adota a atitude de viver procurando meios para construir relacionamentos saudáveis e para agir, usando toda ferramenta disponível, visando o bem comum, não apenas os próprios interesses.

Portanto, uma das causas da importância da ênfase no fruto é que, com a presença dele, a igreja não investirá tempo e energia, discutindo, brigando por causa dos dons. Ela simplesmente os reconhecerá e os usará para a edificação e não para destruição mútua.

A presença do Espírito Santo, também chamado de "Espirito de Cristo", "Espírito de Deus", "Espirito do Senhor", significa Deus se manifestando dentro de nós (como de maneira extraordinária escreveu Christrian A. Schwars em "Nós diante da trindade"). Tal presença resulta no brotar de um conjunto de qualidades espírituais que redirecionam nossas vidas, como igrejas ou indivíduos.

Conquanto Paulo tenha exemplificado tal manifestação, em Gálatas 5.22-23, como sendo "
amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade,
Gálatas 5:22
mansidão e domínio próprio", o fruto da presença do Espírito de Deus em nós se manifesta também através de outras qualidades, como por exemplo a liberdade: "Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade." (I cor. 3.17).

Fruto, portanto, é tudo aquilo que resulta do  domínio da presença do Espírito de Deus sobre nós, da nossa disposição em permitir sua atuação em nós. A oração - ouvir e falar com Deus - é o melhor caminho para que tal manifestação aconteça. A Bíblia é a fonte mais completa e, portanto, o melhor caminho para compreendermos como isso se deu ao longo dos primeiros anos de história da igreja e como pode fazer parte de nossas vidas hoje.  

Oremos a Deus, então, e estudemos as Escrituras visando permitir que o Espirito produza em nós as qualidades necessárias ao nosso bom desenvolvimento.
Abraços do seu pastor,

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Santidade nos relacionamentos interpessoais - 14.05.12 - 22/100 dias de oração pelo Brasil

"Os tempos estão difíceis. Vivemos uma época em que os relacionamentos - superficiais, frágeis e instáveis - tornam a vida humana solitária e, por vezes, insuportável. Tempos em que o oportunismo, o egoísmo e a ética da conveniência distanciam as pessoas, deixando-as muito mais vuneráveis à tristeza e ao crescente número de somatizações. Tempos em que o relativismo substitui o certo pelo adequado e o coerente pelo conveniente. Nesse cenário, a dificuldade de se deixar guiar por um caráter cristão é cada vez maior. Por outro lado, os efeitos de um testemunho de vida coerente também serão cada vez maiores em um mundo carente da verdade e do amor duradouros" (Pr. Ney Ladeia, no livro "100 dias que impactarção o Brasil").  

Dr. David Mein disse certa vez, em uma aula de Novo Testamento, que, em Cristo, todos somos santos e que, aquilo que chamamos de santidade deveria ser chamado de crescimento na graça.


Definições conceituais à parte, trago comigo um convencimento pessoal de que o melhor sinônimo para a palavra santidade (vocabulário da linguagem sacerdotal) em nossos dias, seria a palavra saudável. Santidade, portanto, não deveria ser visto como algo místico que só poderia ser alcançado na vivência em círculos religiosos, mas algo que pode e deve estar presente em todas as dimensões da vida humana. É a vida vivida debaixo da graça de Deus que nos estimula ao viver saudável em todas as áreas, especialmente como bem destacou o Pr. Ney Ladeia, nos relacionamentos interpessoais.  

Todo relacionamento apresenta traços de conflitos. O problema não são os conflitos inerentes ao relacionamento humano, mas o processo doentio que eles desencadeiam quando não são "re-conhecidos" e devidamente tratados. 

Pior, então, é quando mascaramos os conflitos, agindo como se eles não existissem. Atitude aparentemente benéfica, em termos políticos, nos resultados de curto prazo, na sequência prolongada torna-se um elemento estressante e profundamente doentio. Doentio não só para os relacionamentos, mas também para as pessoas envolvidas.

  Da mesma forma que, em administração, as grandes reformas decorrem do acúmulo de pequenos problemas não solucionados no cotidiano, em relacionamento, a desatenção aos pequenos e sucessivos conflitos culminarão com a necessidade de uma intervenção cirúrgica.


  Se nos comprometemos com aquilo pelo que oramos, oremos, então, pela santidade - ou saúde - nos relacionamentos interpessoais, pois é algo que afeta todos nós, sem excessão.
Abraços do seu pastor,

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Marcos marca

Por ocasião do 60º aniversário de Marcos Monteiro

É impossível conviver qualquer quantidade de tempo com MarcosAdoniram Lemos Monteiro e ficar indiferente. Marcos Marca.

Uma pessoa pode divergir de outra em relação aos sonhos acalentados, mas, jamais, na importância de sonhar; pode discordar dos pensamentos desenvolvidos, mas, nunca, da necessidade de pensar; pode se diferenciar na forma de expressar sentimentos, mas não reprimir o que sente. Marcos marca não somente porque, como todo ser humano, sonha, pensa e sente, mas também porque socializa, com muita espontaneidade, essas experiências.

Marcos já era uma marca quando cheguei ao Recife, em 1979. Ainda calouro, saindo cronologicamente da adolescência, dependente e em busca de referenciais ministeriais, o nome de Marcos chegou aos meus ouvidos associado aos “Voluntários de Cristo”, um movimento jovem na capital pernambucana.

Falado sob as mangueiras do STBNB por sua inteligência, por ter trocado uma carreira socialmente cobiçada, pelo ministério pastoral; por sua participação no projeto missionário Trans-amazônica, da Junta de Missões Nacionais da CBB e, porque não, por sua habilidade, como jogador de dama, reconhecida nas praças da Veneza Brasileira, o nome Marcos Monteiro já era uma marca e, muito mais do que isso, uma possibilidade de forte referencial ministerial.
(Em 1986, no Acampamento Palavra da Vida, em Paudalho, PE, em encontro promovido pela Visão Mundial. Marcos, o do meio dos que estão de cócoras, era um dos líderes e eu, na segunda fila, em pé, na ponta direita, iniciante)
Por volta de 1983, Marcos passou a despontar para mim por seu envolvimento com as questões sociais começando a ser associado à Visão Mundial, organização que fomentava a difusão da missão integral da igreja, à época. Para quem buscava referenciais, saber de alguém que conciliava “missões”, questões sociais e ainda jogava dama, despertava claro, muito interesse.

Por essas e outras, no processo da minha saída do pastorado da Igreja Batista do Pinheiro, fiquei feliz quando seu nome foi lembrado, pois, pelo que dele conhecia, sabia que sua participação na construção da história dessa igreja seria relevante. E foi.

Hoje, depois de algumas décadas e por ocasião do seu sexagésimo aniversário temos muito a agradecer a Deus pelas marcas que ele deixa em nossas vidas.

Marcos marca pela humanidade numa sociedade em que papéis circunstanciais são muito mais valorizados do que a própria condição humana. Ele parece empenhar-se em administrar sua vida sem permitir que papéis sociais predominem em detrimento de sua humanidade.

Se, como se diz, ser pouco sincero é perigoso e ser sincero demais é fatal, Marcos parece não temer a fatalidade na maneira como expõe e se expõe. Essa sinceridade nos marca, pois faz dele uma pessoa simples, sem ser simplista.

Marcos marca pela humildade, mantendo os pés no chão e algumas vezes, literalmente, na estrada, construindo sua história, interagindo, sem querer controlar ou deixar-se controlar.

Sobretudo, porém, Marcos marca por levar a sério sua condição de discípulo de Jesus. Num contexto religioso no qual discipulado tem sido entendido como um programa educacional eclesiástico no qual pessoas são transformadas em objetos programados para reproduzir conceitos e preconceitos, Marcos marca por manifestar interesse em conhecer, reconhecer, identificar-se e relacionar-se com uma pessoa, a pessoa de Jesus de Nazaré.

Se me perguntarem sobre os pecados que marcam Marcos, não haveria razões para publicá-los, especialmente porque o que glorifica o Cristo que ele tão bem anuncia com sua vida, são suas boas obras. Por isso Marcos nos marca de maneira tão profunda.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mãe é mais do que mãe!

Mãe é filha que, por razões biológicas e culturais, geralmente usufrui de maior tempo ao lado da genitora e nela se inspira, afirmando ou negando o modelo, para construir seu modo próprio de ser-no-mundo; que foi amada, acolhida nos braços, amamentada, protegida, ensinada e também disciplinada ou, quem sabe até, excepcionalmente, experimentou rejeição, maltratos, abandono ou marginalização.

Mãe é ser humano que constrói seu presente, alimenta o passado e projeta o futuro; que procura sentidos para viver; se equipa para sobreviver; disputa melhores condições de vida; que chora, ri, sente fome, dor, tristeza, prazer, solidão, alegria, medo, raiva e amor.

Mãe é mulher que experimenta o fogo da paixão, a necessidade de afeto, a busca por um companheiro, o desejo de compreensão; que precisa lutar para superar a discriminação e, de forma justa e amorosa, forte e terna, ter reconhecida sua condição.

Mãe é esposa que, no encontro com o homem amado, quer caminhar numa via de mão dupla, na qual transita a troca de amor, paixão, aconchego, cuidado e atenção.

Mãe é administradora que, mesmo muita vez desenvolvendo atividades profissionais fora do lar, administra a casa, cuidando ela mesma, na maioria dos casos, ou gerenciando quando conta com auxiliar, da organização da vida em família; do abastecimento, limpeza e arrumação da casa; do cuidado com a alimentação; da higiene física, mental e espiritual dos filhos, além de participar ativamente da realização de desgastantes tarefas externas.

Mãe é serva de Deus, serva da vida, por isso amorosa e espontaneamente se empenha para ajustar-se às diversas e muitas vezes conflitantes exigências que as realidades impõem, buscando, de forma harmoniosa, cumprir seus papéis sociais e satisfazer suas necessidades pessoais.

Por isso, mãe é mais do que mãe!

terça-feira, 8 de março de 2011

O que somos, desejamos, podemos, queremos, devemos...alcançados pela graça divina


As coisas e as pessoas não são aquilo que acreditamos ou pensamos que são. São aquilo que delas nos impressiona, pelo bem ou pelo mal; aquilo que percebemos, inclusive aquilo que ameniza nossos dramas e dores recalcados, que expia nossos sentimentos de raiva, ódio, rancor e amargura e que preenche  nossos anseios velados, bem guardados, esquecidos até, num quartinho do nosso coração.
Porque sabemos que as pessoas crêem e pensam que somos o que as impressiona, agimos, consciente ou inconscientemente, para impressioná-las e assim conquistá-las e, até, em certos casos, controlá-las.
Quanto mais de perto conosco elas convivem, mais percebem quem de fato somos, pois ninguém consegue ser, o tempo todo, produtor e produto do próprio marketing.  Nossos poros, pele, membros, enfim, nos driblam, nos traem e falam por nossa fala conveniente e ineficazmente silenciada.
Quantas vezes nem somos o que aparentamos, somente para impressionar alguém “especial” por sua fama, prestígio, poder ou dinheiro?
Quantas vezes negamos o que somos para impressionar um grupo de pessoas e assim não nos sentirmos isolados?
Quantas vezes disfarçamos nossas crenças, pensamentos, ações tão somente para conquistar a confiança daqueles que podem proporcionar um prato de lentilhas, migalhas mesmo, para nossos muita vez famintos corações?
Assim nos desintegramos sob apelos disso e daquilo, para ganharmos um diploma, um novo título, outro cargo, outro emprego, uma carreira incrementada, uma viagem, um favor, mais dinheiro, mais prestígio, mais poder, até nos percebermos, como cantava o finado Raul, sentados, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar e se perguntando: e daí?
Claro é que temos algum poder e por isso devemos questionar e administrar quem somos, o que sentimos, pensamos e expressamos, a fim de que a “super sinceridade”  ou a “super hipocrisia”não se torne uma arma de destruição contra nós.
Assim, entre a extrema sinceridade e a extrema hipocrisia, o desafio posto diante de nós é a busca permanente, de acordo com o contexto, dum ponto que não permita que caiamos pra dentro de nós mesmos e, conseqüentemente, caiamos diante daqueles que nos cercam.
E diante de Deus? Diante dele nosso esforço é vão. Daí os antigos profetas, escribas e sacerdotes declararem nossa queda permanente, nossa necessidade de expiação, se não “re-conhecermos” nossa dependência daquilo que se convencionou chamar de graça divina, isto é, um favor imerecido.
Quando, num ato de fraqueza aceitamos e somos envolvidos pela graça de Deus, conseguimos coragem para ter medo, saúde para estar doente e até forças para ser fracos, “pois quando sou fraco é que sou forte” (II cor. 12.10).  Aceitamos-nos com nossas forças e fragilidades e passamos a aceitar os que nos cercam com suas forças e fragilidades.
Quando experimentamos a graça divina, deixamos de pensar que o mundo seria melhor se todos fossem iguais a nós – fazendo o que fazemos, pensando o que pensamos, sentindo como sentimos -  ou seria pior, se todos fossem iguais aos diferentes de nós.  Nos alegramos e até nos divertimos com nossas diferenças, nossas idiossincrasias e o outro deixa de ser nosso inferno, lembrando Sartre.
Abrimo-nos para aprender, a cada nascer do sol, a viver com o equilíbrio necessário entre alegrias e tristezas, dores e prazeres, semelhanças e diferenças. Perdemos o medo de que saibam das nossas fraquezas e o orgulho de que saibam das nossas virtudes, até porque fraqueza e virtude também têm relação com a percepção de cada um, dentro de determinado contexto, fruto de uma cultura introjetada ao longo da construção da história de vida.
Ou não?

sábado, 19 de junho de 2010

Dan Dan, me ajuda!



De repente chego à PIB X, mas, na verdade, não era a PIB X. O prédio não era o da PIB X. A PIB X tem um prédio moderno, mas o prédio da PIB X, aonde cheguei, era ainda mais moderno.
 A calçada era toda jardinada, a escadaria de 3 degraus era larga e dava acesso a um pátio ainda mais largo, descoberto e amplo. Tudo muito bonito, organizado. À esquerda seguia-se para um outro pátio, na verdade, uma espécie de hall, também amplo, no qual não tive oportunidade de entrar. Apenas avistei.
De repente chego, desço do taxi, paletó no braço direito, maleta executiva na mão esquerda. Alguém olha pra mim, me reconhece, abre um sorriso, vem ao meu encontro. Subo os 3 degraus e, por alguma razão, caminhamos para o lado direito, oposto ao de onde está uma multidão, especialmente de homens, todos de camisa social, predominantemente calças escuras e camisas azuis claras.
A pessoa que me recebe não é da PIB X. É daqui. Ela sorri. Então todos começam a se deslocar de onde estão e a vir em nossa direção. Cumprimentos daqui, cumprimentos dalí. O Pr. L., que atuou no Rio e em Goiás, colega dos tempos de JUMOC, agora aposentado, mas ainda muito jovem, também faz parte do grupo. Todos me cumprimentam, mas não me sinto acolhido. De longe o diácono V. me olha. Sinto que está desconfiado. Ele me conhece das assembléias convencionais, mas não se aproxima.
Conversei com todos, sorri, mas era como se algo estranho estivesse acontecendo.
De repente me dei conta. Não sabia o que estava acontecendo ali, mas num estalo lembrei-me de que a PIB X estava sem pastor e minha passagem ali, que para mim não passava de uma passagem casual, para aquele grupo não tinha o mesmo significado. A ficha caiu. Eles me olhavam como se eu fosse um candidato a algo que não fazia parte dos meus planos. Eu não estava ali com vistas a nada. Apenas estava passando. Parei, entrei, alguém conhecido se aproximou, sorriu, me recebeu e todos, como se fosse uma formalidade social, se aproximaram, um por um, e me cumprimentaram. Mas cumprimentaram-me como candidato a algo a que eu não havia pensado, muito menos imaginava ou soubesse que poderia ser, como parecia aos olhos deles.

Então me senti extremamente desconfortável. Não estava preparado para ser observado, analisado, julgado, acolhido com sorrisos superficiais, com um pé atrás.
Em seguida todos foram se afastando. 2 ou 3 permaneceram conversando comigo. Dentre eles, um desconhecido, o Pr. L e ela, que estava lá, mas nem sempre foi de lá, que me conhecia, sorria pra mim, mas sempre desconfiei que não me digeria.
Despedimos-nos e fui conduzido pelos dois, sem ela, em direção a um local de hospedagem. Caminhávamos por ruas amplas, limpas, arborizadas. Havia sol, mas não calor. Olhei para cima num dado momento, vi uma criança que brincava no alto de uma árvore, dependurada de cabeça para baixo e sorrindo.
Enquanto caminhávamos e conversávamos sobre assuntos que visavam apenas manter a comunicação, pensava no nó de bico no qual me encontrava. Estava ali, sem ter ido pra’li; sendo observado com vistas a uma função pela qual não estava interessado; envolvido num processo para o qual não estava preparado e cercado por pessoas que me recebiam bem, mas que pareciam não me querer. E eu teria de suportar aqueles dias com elas, sorrindo, sem querer sorrir, falando, sem querer falar, simplesmente porque estava onde não pensei estar, tendo caído de pára-quedas.
Dan Dan, me ajuda!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Irmão processa Irmão?


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- Há duas senhoras na recepção querendo falar com o senhor, disse a secretária.
- Quem são elas? Perguntou o pastor.
- Zefinha de Jesus e Madalena Cruz, respondeu a secretária. Elas disseram que precisam tomar uma decisão muito importante e precisam ouvir sua opinião de qualquer jeito.
- Peça a elas que entrem.
A Porta se abriu e elas, meio sem jeito, mas demonstrando forte convicção de que o que as trazia ali era muito sério, se acomodaram e foram direto ao assunto.
- O que nos traz aqui é o seguinte: fomos demitidas de uma organização de uma igreja e ficamos sabendo no sindicato que o valor que deveríamos receber de indenização seria maior do que o pago. Falamos com o diretor da instituição e ele recomendou que entrássemos com uma ação judicial a fim de que o acordo fosse feito em juízo e o assunto fosse encerrado. O problema é que aprendemos desde quando nos convertemos que crente não põe ninguém na justiça, muito menos uma organização da igreja.
- Sob que justificativa isso lhes foi ensinado? Perguntou o pastor.
 Zefinha citou um texto de Paulo aos Corintios, capítulo 6 verso 1 que diz:  “Aventura-se algum de vós, tendo questão contra outro, a submetê-lo a juízo perante injustos e não perante santos?”
Lendo rapidamente a sequência do texto concluiu: “Para vergonha vo-lo digo. Não há porventura, nem ao menos um sábio entre vós, que possa julgar no meio da irmandade? Mas irá um irmão a juízo contra outro irmão, e isto perante incrédulos?”
O pastor pensou um pouco e, em vez de começar a comentar o texto, como que caminhando noutra direção, perguntou a elas: - vocês sabem o que a Bíblia diz sobre autoridades? Ouçam: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus” (ROM. 13). Além desse, há outros textos, continuou o pastor e lançou uma pergunta?
- Quem são estas autoridades no Brasil? Seria o Poder Judiciário brasileiro uma autoridade constituída por Deus? Sem pensar duas vezes Zefinha respondeu: - claro! Então, continuou o pastor, se o Poder Judiciário foi constituído por Deus, submeter um conflito para ser julgado por ele não contraria a vontade de Deus. Além disso, precisaríamos ter mais tempo pra explicar como era o sistema judiciário em Corinto e em Israel, nos tempos de Paulo, pra entender a recomendação dele para aquela época e, depois, verificar que princípio pode ser trazido para hoje, mas isso exigiria mais tempo e outros elementos que envolvem a interpretação e compreensão de um texto.
- Ah, pastor, acho isso estranho, falou Zefinha, enquanto sua companheira acompanhava silenciosamente o diálogo. - Se esse negócio de conflito entre irmãos já é estranho, continuou ela, ir à justiça é mais estranho ainda.
- É verdade, Zefinha, mas lembre-se de que conflitos fazem parte de nossa vida. Lembra dos conflitos de Jesus com os fariseus, com Herodes,  com os comerciantes do templo?, perguntou o pastor. Lembra do conflito por causa da discriminação das viúvas de fala grega? Lembra, também, dos conflitos de Paulo com Barnabé e com Pedro?  E o caso de Evódia e Síntique? E o caso de Diótrefes? Não quero com isso, cuidou de justificar-se o pastor, alimentar conflitos. Apenas estou dizendo que eles sempre aconteceram na vida das igrejas e de todos os seres humanos.
- É verdade, pastô, mas a ponto de ir à justiça é muito feio, disse Zefinha.
Percebendo sinais de conflito interior, o pastor esclareceu: - Zefinha, observe que o que estamos clareando é a legitimidade ou não de um crente ir a juízo contra outro e não se é saudável ou se se deve evitar conflitos entre irmãos. É claro que todo esforço deve ser envidado para que os conflitos sejam minimizados, mas há situações que envolvem não somente questões racionais, mas também emocionais, conscientes ou inconscientes, por isso os conflitos acontecem.
Como que com dificuldade para acompanhar as abstrações da conversa, Zefinha retomou a questão objetiva que a trouxe com a colega ao gabinete pastoral.
- Então o senhor acha que não é errado entrar com uma ação contra a organização da igreja?
Mais uma vez, cuidadosamente o pastor esclareceu: - Nesse caso, entrar com uma ação não é resultado de uma briga, mas um meio de proteção da empresa. A idéia, pelo que estou entendendo, é negociar a ação perante o juiz, a fim de que, o que ali for acordado, não possa mais ser discutido. Então não há nada de errado. Se a intenção da organização fosse lesar seus direitos poderíamos dizer que ela estaria agindo errado, mas não parece ser o caso, concluiu o pastor.
Recuperando o fôlego e sentindo-se à vontade Zefinha provocou: - Então o senhor acredita que não é pecado crente entrar na justiça?
- Claro que não, respondeu o pastor. O direito de procurar as autoridades judiciais para julgar uma situação é legítimo. O que precisa ser considerado é o que está em discussão, disse o pastor.  Observe bem, continuou,  geralmente elementos emocionais afloram em divergências de qualquer natureza. Quando, porém envolvem situações que implicam em prejuízos claros para uma das partes e não se consegue chegar a um acordo, o caminho é o poder judiciário. Entretanto, ponderou o pastor, sempre é bom lembrar o ditado que diz que um mau acordo é melhor do que uma boa briga. Perder uma capa é melhor do que arriscar-se a perder a vida.
- Nós conversamos com o advogado do sindicato, disse Zefinha, e ele disse que não deveríamos pensar duas vezes; que o melhor caminho seria entrar mesmo com uma ação.
- Faz parte do papel deles, respondeu o pastor. Advogados não são defensores da lei, mas de causas. Quando procurados, a postura deles, primeiramente, não é colocar diante do possível cliente uma lei que o desestimule a entrar com a ação, mas conhecer  bem a causa e, então, avaliar se há brechas nas leis que oferecem chances sólidas de defesa para a causa trazida. Se ele percebe que a causa tem boas chances de ser ganha, ele incentivará a ação.
Nessas alturas, mesmo  sem ter certeza de que Zefinha e a companheira estavam alcançando o que ele comentava, arriscou-se a continuar.
- Isso acontece porque as leis são escritas com palavras cujos significados são múltiplos, portanto passíveis de interpretação e sua aplicação pode variar de acordo com o contexto. Além disso, nenhuma lei é capaz de abarcar todas as situações que brotam nos relacionamentos de milhões de pessoas.
- Honestamente, disse Zefinha, não tô entendendo muito desse negócio de significado de palavras, interpretação, mas entendi que não é errado crente entrar com processo contra um irmão.
- Dizer que é errado ou certo, depende de cada história, mas o direito de procurar uma autoridade constituída para julgar um conflito, depois de esgotadas as possibilidades de acordo que seja bom para as duas partes, não tenho nenhuma dúvida. É o que penso, disse o pastor.
 (Inauguração do Balcão de Justiça e Cidadania, do Tribunal de Justiça da Bahia, no Centro Comunitário mantido pela Igreja Batista da Graça, SSA)


Vendo que o assunto chegou ao limite, o pastor olhou pra Madalena, que silenciosamente acompanhava o diálogo, e perguntou: - E você, o que pensa sobre o assunto?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Quando a saudade encanta

 Por Gláucia Carvalho Gimenes

Deitada em minha cama, contemplo através da janela, um céu claro, sol límpido e vento calmo e suave. Olho parte da cidade e vejo copas de árvores verdes e lavadas pela chuva, pequenas borboletas amarelas saltitando ao seu redor. Prédios altos e imponentes completam um lindo quadro de um colorido muito vivo e encantador. Digo: como gostaria de estar lá fora fazendo parte desse encanto do viver!

Logo me reporto a momentos suaves e belos como este: momentos eternos, de saudade, de paz e aconchego.
Vejo mamãe nos preparativos da chegada da filha querida na volta anual para as férias em casa. Férias sonhadas, merecidas, depois de tempos longe, de esforço e estudo. Era um verdadeiro mimo do céu, encontrá-la serena, contente e até um pouco orgulhosa da filha que voltava para seu aconchego.

Lembro de cada detalhe: casa arrumada, limpa e cheirosa; bolo recheado e fresquinho; comida da melhor qualidade com frutas e verduras para completar uma dieta simples, mas saudável.

As marcas do seu rosto, mamãe, não me deixavam esquecer que o tempo era implacável, mas seu sorriso franco, seus macios cabelos cinzas, seus passos ligeiros e certos, sua bondade e alegria me enchiam de uma emoção sem igual. Como era bom desfrutar daquele momento tão esperado!

No quarto o melhor lençol, a melhor roupa de cama. O cheirinho era inconfundível. O mosqueteiro servia para afugentar temíveis insetos que jamais poderiam tocar a pele da filha. Na cozinha as panelas antigas, herdadas de vovó, reviviam emoções e a mesa com sua toalhinha vermelha me esperavam com uma deliciosa fatia de bolo. Enquanto me deliciava, seus olhos ávidos ficavam e assim falávamos das aventuras nos estudos e da grande cidade.

Para mamãe, minha chegada representava o encantamento. A filha que foi se preparar para servir a Deus, o que mais seu coração podia esperar?
Quanta expectativa e prazer ao voltar ao lar! Todos os amigos sabiam, todos da igreja queriam me ver, todos que cresceram comigo queriam participar daquela festa.  Minha filha já chegou! Minha filha está em casa! Minha filha está mais bonita! Venham vê-la!
Recordo-me da visitas inumeráveis e até cansativas, mas agradáveis.

Mamãe querida, queria poder voltar no tempo, mas a chamada do Pai nos separou.  Queria te encontrar, mas, sei que ao voltar não estarás mais lá e isso me deixa a face molhar. Queria poder dizer tudo o que sinto, o que você me fez ser, o que plantou em mim e me possibilitou fazer diferença.

Marcas ficaram... A saudade de voltar ali e te ver de novo, poder abraçar-te e pedir sua bênção está viva e me deparo com o imenso vazio de não te encontrar.

Mamãe, dos cabelos cinza e brilhantes; dos bolos fresquinhos de laranja e das tortas de abacaxi; dos dias que tanto amei e me senti acolhida; que me levava à igreja e me fazia compreender e sentir que era o melhor lugar do mundo para servir, para estar, para aprender e para amar; das escolas bíblicas nas quais sempre vi a grande professora ensinar; das melodias que gostava de cantar em vozes com as três filhas: “Que doce voz tem meu senhor, voz de amor tão terna e graciosa”. Graciosa era a sua voz que entrava com seu mavioso contralto para a harmonia pronta e encantadora ficar; que me fazia tocar no velho piano as melodias que gostava, até cansar. Horas a fio, uma por uma entoadas com a alma e o coração agradecidos a Deus que tudo lhe dera, inclusive a bela voz; das plantas que fez crescer bonitas e viçosas, como era seu amor e cuidado por elas. Mamãe, você foi meu chão firme e seguro.

Sei que posso dizer hoje para meus filhos que volta não haverá mais, porém, eles podem ver e reconhecer o que você deixou de mais grandioso: o seu amor por mim.

Obrigada mamãe.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Sim, sim; não, não!

“Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.” (Jesus, em Mt. 5.37)

“Antes, como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não foi sim e não.” (Paulo, em II Cor. 1.18)

É horrível conviver com quem diz sim quando gostaria mesmo de dizer não ou diz não quando poderia dizer um alegre e sonoro sim. Não poderia, pelo menos, ter coragem pra dizer: agora não posso dizer sim, nem não, ou: agora não quero dizer sim, nem não? Por que optar por negar os sentimentos, a percepção, a realidade?


Seria uma profunda covardia ou uma profunda necessidade de aprovação? Não percebe que a alegria que produz em que ouve o que gostaria e não o que deveria é falsa? Não sabe que a satisfação gerada por uma resposta falsa vai desembocar, a qualquer momento, numa profunda dor gerada pela frustração?


Melhor seria, então, dizer sim, quando se quer dizer sim e não quando se quer dizer não! Se alguma dor tiver que ser experimentada, que seja na companhia da honestidade, da sinceridade, da lealdade.


Agindo de forma contrária, quando a verdade vier à tona, o sofrimento será dobrado. Ela virá acompanhada da sensação de traição que não somente reinou no momento em que a palavra foi dita, mas também durante todo o tempo que se seguiu a ela.


Dizer sim, quando o que deve ser dito é sim, ou não, quando o que deve ser dito é não, é muito mais simples. Isso exige muito menos conexões, elaborações. E se a situação for tão complicada que os efeitos do sim ou do não ainda não estão claros é muito mais simples dizer: ainda não sei o que dizer!


O risco, ao contrariar o próprio sentimento ou pensamento, é muito maior.


Além disso, a relação corre mais solta, mais leve quando se rege pela coerência. O adepto do sim, sim; não, não, passa a impressão de que está de bem com a vida; de que não vive regido pela crença de que é possível estar bem com todo mundo, em todo o tempo, em todas as situações; de que não vive dependurado na tênue linha da vida que se guia pela política e não pela verdade em amor.


E o riso, então? Já prestou atenção no riso de quem a palavra vai pra um lado e o sentimento ou o pensamento vai pro outro?

Não me entenda mal. Não estou aqui propondo um sim seco, muito menos um não árido. Reconheço que não é fácil colocar um sim ou um não constrangido na companhia de um belo sorriso. Porém, quando a atitude faz parte da filosofia de vida, está internalizada e a consciência está tranqüila, mesmo não sendo o que se gostaria para a ocasião, sempre será menos desagradável do que o produto de uma falsidade.


Então, coloquemos um sim, sim ou um não, não, no coração e tenhamos um 2010 melhor!!!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Prefiro ir pro inferno

Era pouco mais de 7 da manhã. Voltando da caminhada matutina, passei no supermercado comprar pão. A fila do "caixa rápido" já estava imensa. Culpa do Lula, dos insaciáveis donos do Walmart e da nossa "cordialidade" brasileira.


Suado, de calção, camiseta e tênis, ninguém imaginaria que ali estava um pastor. Pastor combina com paletó, gravata e barriga com circunferência perigosamente superior a 94 cm.

Além disso, entre a prática esportiva e o ministério pastoral existe o entrave das palavras de Paulo, levadas rigorosamente ao pé da letra pela categoria do cajado: "Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir." (I tim. 4.8). E haja stress e problemas cardiovasculares.

Enquanto a fila seguia a passos de tartaruga por falta de funcionários nos caixas e empacotadores, uma jovem senhora vira-se para trás e começa a falar com o desconhecido, como se estivesse pensando em voz alta, manifestando preocupação:

- "To com a impressão de que deixei o fogo aceso. Nessas alturas a panela já deve estar pegando fogo!".


Todos ao redor dirigiram seus olhares para ela com certa curiosidade, eu inclusive. O rapaz mais próximo, mesmo com cara de pouca conversa, com a cama ainda nas costas, perguntou:

- "Não tem ninguém lá pra desligar?"

- "Tem não. Sai de casa e não tinha mais ninguém!", respondeu ela, agora na condição de centro das atenções.

Penso que, como eu, todos imaginaram imediatamente a cena da panela no fogão e os riscos e, de certa forma, assimilaram a preocupação dela. O rapaz, educadamente sugere:

- "Então, telefona pro vizinho".

Ela, agora com uma imensa platéia de curiosos, responde em alto e bom som, num misto de deboche e ironia:

- "Meu vizinho? Huummm! Aquele povo acorda na igreja, passa o dia na igreja, dorme na igreja. E só vive dizendo que vai pro céu! Se eles forem pro céu, eu quero ir pro inferno. Quero estar bem longe daquela gente!"


A fila andou, a senhora seguiu seu rumo e eu fiquei matutanto em nossa teologia e testemunho evangélicos.

sábado, 1 de agosto de 2009

Prova de Integridade

1 Samuel 24.1-12
“E disse aos seus homens: O Senhor me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, ao ungido do Senhor, que eu estenda a minha mão contra ele, pois é o ungido do Senhor” (v.6).

Diariamente temos motivos para nos lembrarmos da palavra integridade, não por ser muito citada, mas por ser pouco levada a sério. Na verdade, nos acostumamos tanto com sua escassez, nas ações de parte de nossas lideranças, que sua inexistência parece ser o normal.

Integridade, porém, é elemento essencial à manutenção da existência humana num nível de qualidade saudável. Sua falta é o mesmo que ausência de honestidade, respeito mútuo, verdade, sinceridade, justiça e outros ingredientes que dão sabor agradável à vida.

Davi é um personagem bíblico que pode ser considerado íntegro. Como todo ser humano ele não era perfeito. Também cometeu equívocos. Porém, à luz das narrativas de sua história, percebemos tratar-se de pessoa cujo coração era inclinado a agir de maneira integra. Seus desvios não se constituiam regra, nem retratavam inclinação proposital para o mal.

Vítima de mentiras, foi perseguido pelo rei Saul que estava decidido a matá-lo. Durante a perseguição, Davi teve oportunidade para matar o perseguidor, mas optou por não fazê-lo em respeito à condição de ungido do Senhor, do monarca. Tal decisão serviu para provar sua inocência, elevou o respeito dos soldados por ele e o fez entrar para a história como um exemplo de integridade a ser seguido.

É fundamental que, além de procurarmos ser exemplos de integridade em nossas ações, alertemos aos que nos rodeiam da necessidade de valorizá-la no dia-a-dia. Para isso devemos, em espírito de oração, dizer: “que o Senhor me guarde de faltar com a integridade em meus relacionamentos interpessoais”.

(Texto produzido para a Revista manancial 2009 da UFMBB e publicado na 1ª quinzena de maio)

Estimulando a comunhão (2008)

Conta-se que numa manhã fria de inverno um casal de porcos-espinhos procurava aquecer-se, mas, a cada aproximação, um machucava o outro. Depois de muito exercício e boa vontade, encontrou-se uma justa posição na qual cada um conseguia extrair o máximo de calor do outro, com o mínimo de ferimento.

Essa fábula retrata bem a experiência humana. Necessitamos de convivência. Nela nos humanizamos, dela nos alimentamos. Mas não há convívio sem ferimentos. Todos, em algum grau, ferimos e nos ferimos, leve ou gravemente. Não há relacionamento sem conflito. Negar isso é evidência de imaturidade.

Há pessoas que preferem não construir relacionamentos a correr o risco de sofrer. Outras vivem perseguindo parcerias ideais, por isso não conseguem manter-se casadas; vivem trocando de igreja ou de emprego. Há pastores que permanecem pouquíssimo tempo em todas as igrejas por onde passam, simplesmente por não admitirem que o problema pode estar neles.

Construir comunhão é uma arte. Nossas múltiplas diferenças favorecem o conflito. É a consciência das vantagens da paz que faz com que prefiramos a cultura da harmonia e trabalhemos artisticamente para estabelecê-la.

Obviamente, há situações em que não há como alcançar comunhão duradoura sem passar pela trilha do conflito. Vemos isso no exemplo de Jesus, Gandhi, Martin Luther King Jr. e tantos outros ícones da paz. Porém, os conflitos encontrados na história deles eram “efeitos colaterais” e não fruto de almas doentias ou propósitos maléficos.

O ministério número um de uma igreja é o da comunhão. Ele antecede até o da evangelização. Evangelizamos porque, primeiramente, experimentamos comunhão com Deus. Confira as citações bíblicas: a) a razão teológica da morte de Jesus na cruz foi possibilitar comunhão entre Deus e a humanidade e entre os seres humanos (Ef. 2.11-19); b) a principal evidência do poder da mensagem que anunciamos, de acordo com Jesus, é a comunhão que vivemos uns com os outros (Jo.17.20-21); c) a maior prova da nossa salvação é o amor que cultivamos (I Jo. 3.14-15).

Comunhão, entretanto, não se estabelece com discurso. Concretiza-se no cotidiano, nas oportunidades que temos de passar tempo juntos, em alguma atividade.

Na década de 60, no auge do Movimento de Renovação Espiritual, publicou-se uma recomendação às igrejas, no sentido de que, ao terminar o culto, cada pessoa fosse imediatamente para casa, “a fim de evitar fofoca”. Tal solução é semelhante ao uso de uma bala de revolver para matar piolhos na cabeça. Não se constrói espiritualidade no isolamento.

Diante disso, deixo três sugestões: 1) enfatize regularmente, através de mensagens ou estudos bíblicos, valores que fortaleçam a comunhão, como por exemplo, humildade, transparência, pluralidade, sinceridade ou lealdade; 2) procure adequar a estrutura organizacional da igreja, a fim de que as atribuições de cada função ou setores sejam distribuídas de maneira justa e favorável à paz, eliminando a concentração e perpetuação de poder que é geradora de animosidades; 3) ajuste as estruturas físicas da sede da igreja para que os membros possam ter onde estar juntos, trabalhando ou simplesmente conversando.

O importante é que a comunhão seja real “a fim de que o mundo creia”.

Perdoar: desafio, necessidade e possibilidade (2007)

Seu José era um homem já idoso. A maneira de vestir-se, de caminhar e os traços de seu rosto indicavam uma pessoa sofrida e triste que carregava um pesado fardo. Nos conhecemos casualmente pelas ruas de uma cidade do interior paulista e começamos a conversar sobre a possibilidade de mudança em sua vida. Depois de algum tempo de diálogo, ele declarou não acreditar que houvesse solução para o seu caso.

Perguntei-lhe sobre o porquê de sentir-se daquela forma e ele contou-me sua história. Garantiu que, em legítima defesa, matou uma pessoa. Foi preso, julgado, condenado e cumpriu a pena. Entretanto, apesar de estar em dia com a justiça, nunca mais conseguiu ser feliz por não se sentir perdoado pelo crime cometido.

Lembro-me de que, enquanto citava as palavras: “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar nossos pecados e nos purificar de toda a injustiça” (I Jo 1.9), as lágrimas começaram a banhar seu rosto, como se estivesse - e estava - experimentando um momento de libertação. Livre das grades e sem dívidas para com a sociedade, continuava, entretanto, prisioneiro emocionalmente de seus próprios sentimentos, até o momento em que se sentiu perdoado.

Seu Pedro era um pescador bem temperamental. Começou a conviver com alguém que o fazia refletir profundamente sobre suas atitudes. Certa vez foi desafiado a perdoar “setenta vezes sete” uma mesma pessoa que tivesse pecado contra ele. Diante disso e ciente de sua incapacidade para atingir tão elevado nível de espiritualidade, juntamente com seus companheiros acabou pedindo ajuda: “aumenta a nossa fé!” (Lc 17.5).

Tanto perdoar quanto se perdoar é, para muitos, um grande desafio e, para todos, uma grande necessidade. É um desafio porque, geralmente, a pessoa ofendida sente-se ferida, sangrando, sofrendo e amargurada. É uma necessidade porque, além de alimentar sentimentos prejudiciais, é, também, um forte combustível da vingança que causa profundos danos aos relacionamentos e à vida em sociedade.

Por isso, perdoar não é assunto somente de natureza espiritual ou uma virtude a ser perseguida por razões teológicas. É também uma questão de saúde pessoal e social.

Os ensinos de Jesus são ricos em lições sobre o perdão. Em um deles ele fala de um homem que teve suas dívidas perdoadas mas não foi capaz de agir da mesma maneira com seus credores[1]. Num outro, conhecido como oração do Pai Nosso[2], ele não apenas ensina que devemos pedir que Deus perdoe “as nossas dívidas assim como perdoamos aos nossos devedores”, mas também explica que “se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também lhes perdoará. Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará” .[3]

Dois aspectos despertam a atenção nesses ensinos. O primeiro é que o perdão é o único aspecto da oração que merece um esclarecimento à parte, por Jesus. Isso indica não somente a preocupação de Jesus com o tema, mas também revela uma possível carência dos ouvintes, no caso, daqueles para os quais proferiu diretamente as palavras, e também da comunidade para a qual o evangelho de Mateus foi primeiramente dirigido. Isso reforça a importância do tema.

O segundo é que, nos dois casos, o recebimento do perdão de Deus estaria condicionado à disposição humana de perdoar seus semelhantes. Tal condição não pode ser vista como uma regra matemática, pois, se assim fosse, a soberania estaria sendo tirada das mãos de Deus e transferida para mãos humanas. Em outras palavras, Deus não teria autonomia para perdoar, mas ficaria na dependência da capacidade humana de fazê-lo.

Além das questões de natureza hermenêutica, filosófica e teológica que envolvem o texto que condiciona o Perdão divino à disposição humana para perdoar, todos sabemos que há situações em que somos tão profundamente feridos que se torna quase impossível oferecermos o perdão. Portanto, tais palavras não podem ser entendidas fora da compreensão teológica mais ampla que hoje temos da graça e soberania divinas.

Penso que tais palavras servem de despertamento para a necessidade de cultivarmos misericórdia para com os que nos ferem, assim como Deus é misericordioso para conosco diante dos nossos desvios, bem como para que cultivemos a graça divina e aprendamos a depender dela, também nesta área de nossa vida, uma vez que, se o recebimento do perdão divino dependesse da nossa capacidade de perdoar, estaríamos condenados.

O cultivo de espírito perdoador deve fazer parte de nossas prioridades. A questão é como compatibilizar tal espírito com a realidade de uma sociedade na qual os direitos são desrespeitados como regra e não exceção em nossos relacionamentos. Como compatibilizar o “andar uma segunda milha” ou “ dar a nossa capa”[4] quando, em vez de exceção, tais atitudes contaminaram todo o tecido social e o perdão aos que agem assim contraria o próprio princípio de preservação da vida?

[1] Mateus 18.21-35
[2] Mateus 6.5-15
[3] Mateus 6.14-15
[4] Mateus 5.39-40

Minha primeira vez numa assembléia da convenção baiana ( em 2007)

Participei, pela primeira vez, da Assembléia Anual da Convenção Batista Baiana e fiquei muito feliz. Não compareci às anteriores por questões de prioridade. Entendi que deveria concentrar esforços e atenção nas questões do meu novo trabalho e decidi que, nos dois primeiros anos, não deveria me envolver.

Não me afino com tudo que existe e acontece na denominação batista, mas a quantidade de elementos que me aproximam dela é maior do que a de qualquer outro grupo. Por isso, administro as diferenças e concentro esforços nas semelhanças.

Além disso, muito do que sou é fruto da cooperação denominacional. Seja através do know-how, dos recursos financeiros ou patrimoniais, em cada ponto da minha história identifico a presença do espírito cooperativo dos batistas.

Fui batizado, por exemplo, por um missionário cuja formação e sustento se deveram à cooperação denominacional. O mesmo ocorreu com minha Igreja de origem e com o seminário onde me preparei para o ministério. Ambos – Igreja e Seminário – existem graças à cooperação denominacional. O subsidio do Plano Cooperativo e as ofertas de membros de igrejas, foram decisivos à minha manutenção no Seminário.

Voltando à Assembléia da Convenção Baiana, foi muito bom chegar a cada reunião e ser recebido por um corredor polonês que, em vez de dar tapas em nossas costas, nos recebia com um sorriso no rosto e um aperto de mãos. Parabéns Igreja Batista de Teosópolis.

Dizem que aperto de mãos tem origem em encontros de inimigos buscando a paz. Para provar seus objetivos pacíficos, demonstravam que estavam desarmados, estendendo mãos vazias.

A celebração da Ceia do Senhor no final da primeira reunião noturna chamou a atenção de todos. Uns, prendendo-se à tese doutrinária que defende à exclusividade da igreja local na realização de tal ato, ou retraíram-se ou participaram em crise. Outros, prendendo-se ao significado contextual – a comunhão no corpo de Cristo – sentiram-se maravilhados com tal iniciativa, logo no início de uma Assembléia.

Confesso que me senti incomodado ao ver o Secretário de Estado, representante do Governador, privilegiado com um assento à mesa diretora e depois de ter dirigido palavra aos convencionais, ser, a meu ver, discreta, mas constrangedoramente discriminado na hora da entrega do pão e do vinho. Deixemos isso, porém, para debates de pé de ouvidos, nos corredores da vida!

O aperto de mãos dos hospedeiros e a celebração da ceia deram um colorido especial ao encontro.

Fato da maior importância histórica, que deveria ser seguido por todas as assembléias convencionais do Brasil, foi a mudança radical na programação da Assembléia. Os três períodos diários foram utilizados para programações distintas.

Pela manhã, cursos de capacitação foram oferecidos a todos os convencionais. Nesta primeira experiência, um convênio com o Instituto Haggai possibilitou a oferta de aprimoramento das qualidades dos participantes, desviando o foco da assembléia dos debates que muita vez nos cansa, para o crescimento individual e coletivo que sempre nos alegra.

Nas tardes, as reuniões foram deliberativas. Para isso mudanças profundas foram realizadas. Aquela infinidade de relatórios repetitivos de organizações, ineficazes do ponto de vista administrativo e de marketing, foi excluída da agenda e todo o tempo dedicado à discussão do relatório dos Conselhos de Coordenação e Fiscal.

Nas noites, a inspiração tomou conta, com destaque para Missões e Serviço.

Talvez por isso, essa assembléia tenha sido a maior da história em número de mensageiros e de pastores presentes e a segunda maior em número de igrejas representadas. Sem dúvidas, uma primeira resposta de esperança depois de tanto tempo de questionamentos pessimistas em torno das estruturas de nossas assembléias e convenções.

Conflitos na igreja (2007)

Conflitos fazem parte da vida humana. Todo relacionamento é conflituoso. O grau de intensidade, freqüência, forma de lidar com eles e conseqüências é que variam. Sua inexistência plena, portanto, não seria sinal de saúde, mas de morte.

Na vida em igreja não é diferente. É que, tanto por definição etimológica quanto teológica, igreja é reunião de gente. Quanto maior o número de pessoas reunidas, maior a probabilidade de conflitos.

A história da igreja é marcada por conflitos. Quem não se lembra do conflito causado pelo sentimento de injustiça dos judeus de fala grega porque “suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimentos”? (Atos 6)

Quem não se lembra do conflito entre os grandes amigos Barnabé e Paulo em torno da possibilidade de levar ou não Marcos com eles numa viagem missionária? (Atos 15.36-39)

Quem não se lembra do conflito entre judeus da circuncisão e cristãos gentios em torno da aplicação ou não dos costumes judaicos à vida cristã? (Atos 15)

Quem não se lembra do conflito entre Paulo e Pedro, pela incoerência petrina em torno da relação com gentios? (Gálatas 2.11-14)

O que dizer do conflito entre Evódia e Síntique? (Filipenses 4.1); entre João, o discípulo amado, e Diótrefes que se achava dono de uma igreja? (III João, verso 9)

Conhecer esses conflitos nos ajuda a demitificar e desmistificar a tese da existência de igrejas “ideais” e possibilitam um estudo de suas causas para evitar repeti-las.

Conflitos são inevitáveis, às vezes são necessários, mas não devem ser nosso referencial de conduta. Nem sempre podemos fugir deles, mas quem neles se envolve não sai ileso. Daí Jesus ter dito: “aí daqueles por meio de quem acontecem”. (Mateus 18.7).

Mudanças nas estruturas da CBB (I) (2007)

Não tenha dúvida: a 87ª Assembléia da CBB entrará para a história como aquela em que, provavelmente, se operou a mais significativa intervenção na estrutura da Convenção Batista Brasileira, nesses cem anos de existência. Foi uma mudança corajosa. Como, porém, coragem e insensatez são separadas por uma tênue linha, somente pelos efeitos poderemos definir em qual das duas atitudes serão enquadrados os líderes que conduziram o processo.

De uma coisa estamos certos: os batistas clamavam por mudanças e elas aconteceram. Por isso, concordando ou não, devemos continuar de mãos dadas, cooperando para que os acertos sejam aplaudidos e os equívocos corrigidos. Não tendo bola de cristal para prever o futuro, resta-nos analisar o que aconteceu e sinalizar possibilidades que merecem atenção.

Para mim, o processo de aprovação foi como a passagem de um furacão. Ainda estou digerindo as mudanças e nisto vejo um problema. Pelo que percebi, a quantidade de líderes em situação semelhante a minha é surpreendentemente grande. Se eu que tenho um envolvimento acima da média com líderes denominacionais, pelas funções já exercidas, me senti “como um cego em tiroteio”, imagino como deve estar a cabeça daqueles que têm envolvimento menor.

Sou leitor do Jornal Batista, acesso regularmente o Portal Batista na internet, mantenho comunicação diária com batistas de diversos pontos do país, mas somente tive acesso ao projeto de mudanças no plenário da Assembléia. E daí? Três alternativas: 1) Estou alienado e preciso prestar mais atenção; 2) Houve falha nos processos de comunicação; 3) A ausência de debate fez parte de uma estratégia política de condução do processo.

Com toda honestidade, a terceira hipótese foi a que mais martelou minha cabeça, ainda que não tenha especulado quem seria(m) seu(s) mentor(es). E olha que não sou adepto de teorias conspiratórias, nem me considero um paranóico em permanente estado de alerta contra ações traiçoeiras.

Olhando o ocorrido, do futuro para o passado, recordo-me da decisão de não se aceitar propostas orais sobre a reforma, durante os debates. Tal decisão foi tomada logo no início da instalação da Assembléia, quando a maioria dos convencionais mal havia se “instalado psicologicamente” no plenário, nem tinha noção do que estava por vir.

Depois, a reforma foi colocada diante do plenário em forma de alterações no Estatuto e Regimento. Nenhuma exposição foi feita, por exemplo, informando as diferenças entre o que era e o que estava sendo proposto; quanto se gastava com o funcionamento da estrutura anterior e quanto se gastaria com a nova;.uanto se gastaria com a nova; que falhas se pretendida corrigir com as propostas feitas. funcion que benefícios – gerenciais, financeiros, políticos... - se pretendida alcançar com as propostas feitas; quem perderia ou ganharia poderes com as mudanças, enfim.

O uso da expressão “o assunto é técnico”, para apressar a aprovação foi um dos recursos políticos adotados. Tal artifício pressupunha, a meu ver, duas coisas: 1) o que é técnico é politicamente neutro; 2) se é técnico deve ser reservado a um grupo de iluminados. Os dois pressupostos são falsos.

Quanto à primeira alternativa, não existe uma única forma “técnica” de se fazer algo. Logo, precisamos fazer uma escolha. Fazer escolha pressupõe que cada alternativa apresenta ganhos e perdas. Se há ganhos e perdas, alguém ganha e alguém perde. Se alguém ganha e alguém perde, o assunto, ainda que técnico, não pode ser dissociado da política.

Em relação ao segundo, devemos considerar que um grupo de pessoas não é formado somente por aqueles que sabem tudo e aqueles que nada sabem. Entre os dois extremos encontramos pessoas especializadas no assunto, com formação acadêmica ou experiências práticas e pessoas que, embora não sejam especialistas, interagem e sofrem os efeitos da realidade e, por isso, também têm algo a dizer. Ouvir, por exemplo, os mais simples trabalhadores envolvidos nos processos de produção empresarial, tem sido conselho comum em cursos de capacitação gerencial.

O apelo à confiança na liderança - quando ainda não nos recuperamos dos efeitos Juerp, da “venda” do terreno do Seminário do Sul ou déficits na Junta de Missões Nacionais - foi outro artifício usado.

O abandono das regras parlamentares em momentos decisivos tirou muito da beleza do processo e descaracterizou parte da decisão como sendo democrática. Por um momento pensei que, se o plenário não fosse de cristãos, talvez cadeiras e sapatos voariam... Mas foi só por um momento e o bom espírito predominou...

Todos sabemos que, se há dois ou três parlamentares que fazem muito uso da palavra, há também 200 ou 300 convencionais, adeptos do silêncio, predispostos a votar favoravelmente qualquer proposta de encerramento de discussão. Porém, é tão prejudicial ao andamento da causa atropelar as regras por causa dos que falam muito, quanto apressar decisões fazendo uso daqueles que preferem não discutir nada.

Alguém poderá ser alegrar, no curto prazo, por ter “conseguido” aprovar uma reforma usando de argumentos questionáveis, mas a instituição perderá no longo prazo, se o mesmo tipo de procedimento for adotado em larga escala. Por isso, independente da qualidade das reformas, não podemos silenciar quanto ao processo.

Penso que a reforma em si era necessária e seu conteúdo, em linhas gerais, positivo. Do jeito que estava não poderia continuar. O fato de ter ocorrido fez brotar uma nova esperança. Que Deus continue a nos iluminar nos ajustes que precisarão ser feitos.

Violência conrtra a mulher no meio evangélico (2007)

O trabalho que está em suas mãos pode ser considerado uma raridade. Não me refiro ao fato de descrever a violência contra a mulher. Isso é notório ao longo da história da humanidade e milhares de livros já foram escritos sobre o assunto. Sua raridade se deve ao fato de tratar da violência promovida dentro de família que se considera evangélica, numa abordagem feita por um homem que faz parte do mundo evangélico.

A violência contra a mulher é praticada desde quando se tem registro da história humana. Não me refiro somente à violência de natureza física, mas principalmente a de natureza política, religiosa e psicológica. Estes tipos de violência, praticados inclusive através da restrição de espaços de atuação social feminina, por puro preconceito, ainda é bastante tolerado em nossa sociedade e também precisa continuar sendo vigorosamente repudiado.

A reação, entretanto, à violência física, merece atenção especial pelos prejuízos imediatos e chocantes que produz, em todas as dimensões do ser humano.

A novidade que este livro traz à tona é o fato da violência estar ocorrendo em índices preocupantes dentro de lares classificados como evangélicos. Explicar o motivo disso deve ser também objeto de preocupação, pois até um passado relativamente recente, famílias evangélicas eram tidas como referência em termos de respeito.

O que estaria acontecendo? Algumas trilhas podem ser apontadas. Primeiro, a elasticidade do termo evangélico. No Brasil, a partir da década de 70 teve início uma espécie de estelionato da marca “evangélico”, que passou a ser usada por qualquer grupo que não comungasse com a fé católica.

Em segundo lugar, o reconhecido crescimento numérico, tanto de igrejas, quanto de indivíduos que se dizem evangélicos, provocado pelo crescente acesso de líderes que se auto-intitulam evangélicos à mídia falada e televisada.

Em terceiro lugar, devemos reconhecer a influência do fenômeno da “sentimentalização da fé”, próprio da cultura pós-moderna, disseminado especialmente através de igrejas de origem carismático-pentecostal, cujo discurso enfatiza quase que exclusivamente o sentir e experimentar, em detrimento do pensar e confiar.

Em quarto lugar, vale salientar o papel do paradigma religioso presente no discurso de muitos pastores, que, na prática, é a troca do Deus conforme revelado nas Escrituras Sagradas - a Bíblia – pelo deus riqueza, elemento central da chamada teologia da prosperidade. Essa troca de Iavé por Mamon eliminou o elemento ética dos sermões, “coisificando” os relacionamentos interpessoais.

Em quinto lugar, não poderia deixar de destacar a influência de uma teologia que coloca o Velho Testamento no mesmo pé de igualdade do Novo Testamento. Enfatizando mais a lei do que a graça e transformando o específico de uma cultura primitiva em regra universal, ela reascendeu a crença da submissão incondicional da mulher ao homem, gerando ainda mais conflitos conjugais, em face da falta de sintonia entre a cultura dos tempos bíblicos com os papéis da mulher no mundo atual.

Finalmente, não poderia deixar de destacar a humanidade daqueles que se dizem evangélicos, também influenciáveis pela cultura da violência, em índices alarmantes, presente em cada espaço e situação da sociedade brasileira, como elemento que merece reflexão.

Deixando de lado as possíveis causas do aumento da violência contra a mulher em lares evangélicos, o fato é que este livro apresenta de maneira clara, não somente como a violência se dá, mas também como os envolvidos reagem e o que podemos fazer para modificar esta situação.

O texto é um sinal de alerta e deve ser lido com atenção por todos que, comprometidos com valores do Reino de Deus, desejam ver a vida a dois como um sinal da presença do Cristo.