quinta-feira, 5 de maio de 2016

Mães



Faço ressalvas à maneira idealizada como nos referimos ao papel de mãe. É como se elas não fossem seres humanos limitados  pelas condições biológicas, psicológicas e ambientais. Essa idealização, embora seja com a intenção de reconhecimento, muita vez acaba se tornando um fardo difícil de ser carregado. Não podemos, entretanto, deixar de reconhecer a capacidade acima da média que elas possuem de superar desafios.

Elas são mulheres, esposas, profissionais, etc, porém, em que pese a capacidade de desenvolverem diversos papéis sociais, seguramente nenhum deles exerce mais força sobre sua vida do que o de mãe, diante de uma necessidade da prole.

Claro que as exceções existem, mas são exceções. O que prevalece é o sentimento de mãe dominá-las sempre que percebe os filhos em situação adversa.  É a primeira e instintiva reação. Somente razões muito fortes conseguem inibir o instinto materno de materializar-se e, ainda assim, isso não se dá sem que o coração aperte e elas sofram.

Elas abrem mão da vez, do sono, da comida, da agenda, do passeio, da profissão, se o que estiver em jogo forem necessidades dos rebentos. Toda a criatividade e energia são arregimentadas do mais profundo do seu ser e canalizadas em favor do bem estar do fruto de seu ventre.

Daí nosso apego, daí a poesia de Carlos Drummond de Andrade:

"Por que Deus permite
 que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
 
é tempo sem hora, 

luz que não apaga 
quando sopra o vento 
e chuva desaba, 

veludo escondido
 na pele enrugada,
 
água pura, 
ar puro, 

puro pensamento. 
Morrer acontece
 
com o que é breve 
e passa
 sem deixar vestígio.
 Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra
 - mistério profundo -
 de tirá-la um dia?
 Fosse eu Rei do Mundo,
 
baixava uma lei:
 
Mãe não morre nunca,
 
mãe ficará sempre
 junto de seu filho
 
 e ele, velho embora, 

será pequenino
 feito grão de milho."

Às mães, nossa gratidão. Às mães, nosso reconhecimento.



quinta-feira, 28 de abril de 2016

1o domingo de maio: a propósito do "Dia Batista de Ação Social"


Ao longo da minha história no universo batista, dois detalhes ficaram na memória em relação à visão da igreja a respeito das questões sociais: a resistência e o combate.

Sobre a resistência, refiro-me ao posicionamento que desestimulava a atenção aos menos favorecidos, sob a alegação de que dar esmola era coisa de católicos, cuja salvação se conquistaria através de boas obras, ou coisa de espíritas, cuja tese em favor do interminável processo de purgação dos pecados incluia as obras de caridade.

Essa primeira tese foi sendo superada na medida em que a Bíblia foi sendo estudada com os "próprios olhos", com senso crítico e coragem para colocar em dúvida interpretações dominantes, não por não serem boas, mas por tão somente alimentarem a competição religiosa, a conquista e fidelização de novos "crentes".

O estudo aprofundado foi convencendo-nos das palavras bíblicas:  “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos.” (Efésios‬ ‭2:10‬) e: “De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo?” (Tiago‬ ‭2:14‬)

Quanto a segunda visão - o combate - , ela ganhou força pouco antes do centenário dos batistas brasileiros, ainda na vigência da ditadura militar no Brasil e da guerra fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética.

Nessa época, dar o peixe (assistência social) e ensinar a pescar (serviço social) já haviam conquistado o coração de muitos líderes, mas um combate começou a ser travado em torno da "ação social", decorrente da seguinte questão: se uma torneira está vazando, nosso papel deveria ser o de continuar somente enxugando o chão com uma toalha ou também identificar a causa do vazamento e corrigí-la?

Em palavras mais objetivas: se existem sérios problemas sociais no mundo, quais seriam as causas espirituais, educacionais, psicológicas, econômicas ou políticas, por exemplo, dessa realidade? Deveriam os discípulos de Jesus cooperar com a manutenção da injustiça socorrendo os feridos de sistemas doentios (dando o peixe ou ensinando a pescar) ou lutar pelo aperfeiçoamento deles em benefício de todos? Essa questão enfrentou e continua enfrentando obstáculos. 

O primeiro obstáculo tem a ver com a manutenção do status quo. Uma coisa é uma pessoa, numa aparente manifestação de generosidade, tirar uns trocados do bolso e dar como esmola a alguém. Isso gera reconhecimento e aceitação social. Outra coisa é a mesma pessoa admitir que a construção da riqueza espiritual, intelectual ou material é coletiva, que deve ter em mente o bem coletivo e que, portanto, toda a coletividade deve usufruir do resultado de maneira justa e amorosa. 

O segundo obstáculo é que, para que as causas dos problemas sejam identificadas e corrigidas, são necessários estudos que não se limitam ao bíblico-teológico, exigem conhecimentos históricos, técnicos e filosóficos, além de disposição para enfrentamentos geradores de tensão interpessoal e social.

Por isso, os beneficiários e mamulengos dos sistemas estabelecidos pelos mais fortes ao longo da história, combatem ferozmente qualquer iniciativa de aperfeiçoamentos nos sistemas.

Para isso, usam dois argumentos no meio evangélico:
1. "Isso não é bíblico". Nesse caso, entenda-se como bíblico, uma leitura seletiva de textos da Bíblia (em geral sem levar em conta o contexto sócio-cultural) que fortalece a manutenção de suas posições ou um apego à falta de textos explícitos que as legitime. O uso da expressão "bíblico" gera uma impressão de autoridade espiritual, mas na verdade, nesse caso, não passa de uso ideológico visando a conservação das coisas como estão;

2. "Isso gera tensão e polêmica" - Nesse caso, um discurso teológico que elogia o pacifismo cristão e marginaliza quem não se enquadra é bem elaborado e repetido como mantra, visando gerar  sentimento de culpa em quem se opõe e de rejeição por parte daqueles que cercam os "polêmicos".

Nos dois casos a Bíblia é usada como o diabo a usou na tentação de Jesus ou como os ingleses a usaram em suas revoluções no século XVII (A Bíblia Inglesa e as Revoluções do Século XVII, de 
Christopher Hill).

Aproveitemos o "Dia Batista de Ação Social" para rever nossa visão de mundo e de ser humano visando a permitir que o amor de Deus nos impulsione a nos comprometermos com a assistência, o serviço e, sobretudo, com a ação social, a fim de aperfeiçoemos os sistemas sociais em benefício de todos.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Carta de Santos - 96ª Assembléia da Convenção Batista Brasileira

Segue cópia da proposta de "Carta de Santos", publicada (lida) no apagar das luzes da última sessão deliberativa da 96ª Assembléia da Convenção Batista Brasileira e, por proposta do plenário, encaminhada ao Conselho Geral para estudo, deliberação e publicação.

ASSEMBLÉIA DA CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA
CARTA DE SANTOS

“Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor...” (Salmos 33:12)

Os batistas brasileiros filiados à Convenção Batista Brasileira que agrega mais de 3 milhões de brasileiros, reunidos na cidade de Santos, SP, entendendo como sendo seu papel bíblico: a) ser sal da terra e luz do mundo (Mt. 5:13-14; Fil. 2:15 NVI); b) viver de maneira inconformada com aquilo que danifica a beleza da criação divina (Rom. 12:1 e Gen. 1;31); c) orar pelas autoridades, a fim de que elas cumpram os poderes a elas atribuídos, visando proporcionar ao povo “vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade” (I Tim. 2:2); vêm a público manifestar seus pensamentos, sentimentos e compromissos relacionados à atual conjuntura brasileira:

1) É notório que esteja instalado em toda a sociedade um ambiente de desrespeito à divergência, destacando que preferimos a expressão “desrespeito à divergência” à expressão “intolerância”, por entendermos como batistas, que a liberdade de pensamento e de crença são inerentes à condição humana e não a uma concessão virtuosa de pessoas para pessoas ou de instituições para pessoas.

Reconhecemos, como batistas, que esse desrespeito à divergência é histórico no meio religioso e que, até mesmo entre nós, cujos princípios e história nos inspiram a fortalecer a caminhada entre diferentes, mesmo assim, há sinais de dificuldades com a convivência na diversidade.

Reconhecemos, também, que contribuem para esta dificuldade de convivência pacífica, as diferenças ideológicas, políticas e econômicas que têm como eixo mais visível a distância existente entre aqueles que têm infinitamente mais do que necessitam para viver e aqueles que não têm sequer o necessário para sobreviver com dignidade.

Entendemos que esse quadro ideológico-político-econômico é responsável pelo fortalecimento da cultura social do “nós contra eles”, e que, não sendo - essa cultura - contida de forma consciente e planejada, ela poderá se desdobrar em maiores danos, talvez irreparáveis a toda uma geração.

2) É notório o nível de corrupção que vêm sendo revelado em conseqüência de novas legislações, de modernização tecnológica – ferramentas de investigação e meios de comunicação - e do empenho de instituições como o Ministério Público Federal, Polícia Federal, Receita Federal e Poder Judiciário, tornando mensuráveis e assustadores os prejuízos que a mesma produz à vida da sociedade, inclusive contribuindo ao agravamento da injustiça social e a manutenção da miséria.

A revelação da corrupção nos leva a concluir que a falta de investimento prioritário, devidamente planejado e administrado em, por exemplo, educação, saúde, segurança, transporte e saneamento básico de qualidade, decorre não da falta de recursos, mas da malversação deles e do desejo desenfreado de alguns pela concentração de renda.

Os avanços nos mecanismos de combate à corrupção são benéficos, mas preocupa-nos a possibilidade de sua utilização em benefício de interesses outros que não sejam os da coletividade, mas apenas aos de segmentos habituados a se beneficiarem do poder para manutenção de seus privilégios, em detrimento do bem-estar de toda a sociedade.

3) É notória a instabilidade política que nos envolve, seja pelos conflitos visíveis entre poderes da República e dentro deles, seja pelas expressivas manifestações populares nas ruas.

A possibilidade de mudança do comando no Poder Executivo brasileiro, liderada por pessoas também citadas nas investigações da Operação Lava Jato da Polícia Federal nos indica que a instabilidade politica é generalizada.

Acreditamos que o amor ao dinheiro – raiz de todos os males (I Tim. 6:9-10) – da parte daqueles que detém poderes decisórios na República, juntamente com aqueles que historicamente construíram mecanismos de acúmulo financeiro e de poder, por um lado, e, por outro, a falta de dinheiro da parte daqueles que dependem de serviços públicos de qualidade, são o eixo em torno do qual gira a instabilidade.

Entendemos que a “dinheirização do poder” em detrimento dos valores espirituais da vida aprofunda o fosso que nos divide, criando condições favoráveis à instabilidade política.

4) É notória a falta de priorização no fortalecimento da instituicão família, manifesta por ideologias midiáticas e em algumas prioridades politico-governamentais.

Entendemos que as mensagens objetivas e subliminares transmitidas por grandes meios de comunicação de massa, por serem concessões públicas, deveriam fortalecer o que é para o bem estar público e não alimentar o adoecimento e destruição dos valores da família.

Percebe-se o empenho de alguns setores governamentais na educação e saúde em favor do justo e legítimo direito de minorias, próprio de estados democráticos e laicos, contudo consideramos desproporcional ao empenho em favor do fortalecimento da Instituição família.

5) É notório o equívoco nas prioridades de investimento público, demonstrado na construção de grandes estádios e obras em favor da Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, enquanto a população continua sem acesso a hospitais ou escolas de qualidade e segurança.

Entendemos que tais prioridades impossibilitam à população, especialmente às crianças e adolescentes deste país, desenvolver-se em ambiente no qual haja esperança de futuro mais digno e que faça jus à sua criação na condição de imagem e semelhança de Deus.

O descompasso entre desejos alimentados no coração de nossas crianças através de apelos publicitários e as reais condições de renda, vestuário, habitação e transporte, favorecem a sua frustração e alimentam a violência.

Entendemos que isso ocorre por uma nociva secundarização do estímulo ao investimento em valores espirituais, diante de um necessário consumo material (responsável pela movimentação econômica e empregabilidade), mas que, por não ter norte espiritual, empobrece a humanidade e seus relacionamentos com os semelhantes e com o meio ambiente que a cerca.

Frente a este cenário, nós batistas brasileiros nos propomos a envidar todos os esforços necessários à construção de uma sociedade melhor e mais justa, através do exemplo e serviço, bem como conclamamos o povo brasileiro a unir-se a nós, nos seguintes propósitos:

a) Investir no fortalecimento espiritual, vivendo e anunciando o evangelho puro e simples de Jesus que visa a restaurar, no ser humano e nas estruturas que sustentam sua existência, a imagem amorosa e justa do Criador, resgatando assim a igualdade essencial de todos os seres humanos;
b) Lutar pelo respeito ao Estado Democrático de Direito, reagindo de maneira contundente e inequívoca em favor da rigorosa aplicação do texto constitucional, denunciando qualquer tipo de manobra geradora de rupturas inconstitucionais;
c) Apoiar a criação de leis que dificultem a impunidade, a exemplo das “10 medidas de combate à corrupção”, bem como lutar a fim de que o acesso aos direitos por elas proporcionado seja acessível a todos, independente das condições sócio-econômicas individuais e que suas penalidades sejam aplicadas de maneira igualitária a todos os brasileiros;
d) Apoiar a realização, sempre que necessário, de operações investigativas a exemplo da conhecida “Lava Jato”, as quais devem ocorrer estritamente de acordo com a legislação vigente e sem privilegiar ou discriminar investigados;
e) Defender reformas político-eleitorais que favoreçam não somente a democratização do voto, mas também a participação de cada cidadão em igualdade de condições;
f) Investir na transparência da informação, visando a um melhor gerenciamento das ações e resultados com a redução de manipulações perniciosas à coletividade;
g) Reafirmar nosso compromisso de somar esforços no combate ao abandono, abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes; o nosso NÃO ao trabalho Infantil, aos maus tratos, espancamento, negligencia e diretrizes educacionais equivocadas que têm colocado nossas crianças em risco social e pessoal e o nosso SIM ao fortalecimento dos vínculos familiares, para que os membros da família cuidem uns dos outros.
h) Orar e trabalhar para que a presente tensão política vivida pelo país seja administrada dentro da legalidade e da ética pelos que foram investidos de poder para tal, considerando-se como oportunidade de aperfeiçoamento das regras de convivência democrática e que, em vez de aprofundar o fosso de divergências, nos aproxime e nos permita ser partícipes na construção de dias melhores para todos.

Que Deus continue abençoando nosso querido Brasil

Santos, abril de 2016

A Comissão,

Magaly Arruda, AM
Klaudy Garros, RS
Hilquias Paim, PR
Genilson Vaz, SP
Edvar Gimenes, BA - relator

sexta-feira, 4 de março de 2016

Dia D: Lula na Polícia Federal e a crise no Brasil

Como toda manhã, ao ir pra cozinha preparar o café, ligo o rádio na #BandNews.
É claro que, especialmente depois de ontem, sabia que algo mais aconteceria na "Lava Jato".
Confesso, porém, que ouvir que Lula estava sendo levado pela PF, me deixou chocado.
Tristeza muito forte me dominou, lembrando-me dos motivos de suas relações com a polícia no fim da ditadura e os de hoje.
Depois de hoje tudo pode acontecer no país, menos nada!
Atingido o principal líder político do Brasil, repito, do Brasil e não somente do PT, minha expectativa é que os "líderes" periféricos, de todos os demais partidos e seus aliados que tiveram ou tiverem seus nomes citados na "Lava Jato" também tenham o mesmo tratamento.
A luta é simples: se o principal líder foi levado pela PF, se dirigentes das maiores empresas foram levados pela PF e alguns estão presos há meses, a expectativa é que todos os metidos em maracutaia - palavra que ouvi pela primeira vez da boca de Lula - recebam o mesmo tratamento.
Espero também que delegados, procuradores e juizes de todo o Brasil percebam com clareza o que está acontecendo e não sucubam, nem amarelem diante da corrupção.
Também entendo que o momento exige oração da parte dos que creem, pois não é difícil pensar que hoje pode ser o início de uma guerra civil no país, dependendo do que ocorrer, não só por Lula, pelo PT, mas por tantas maracutaias cometidas por dirigentes políticos, empresariais e servidores públicos e que engolimos forçados, sem como agir.
Sim a hora é de oração, reflexão, mas também de ação, em manifestações pacíficas, mas contundentes.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Jovens deixando o Brasil

Funciona assim:
1. Você e eu trabalhamos duro;
2. Do dinheiro do nosso suor, pagamos impostos;
3. Do dinheiro dos impostos que pagamos, mantém-se professores, administradores, prédios e toda estrutura de suporte ao funcionamento dos sistemas educacionais no Brasil;
4. Crianças e jovens estudam gratuitamente, porque nós trabalhamos e devolvemos obrigatoriamente parte do nosso dinheiro (impostos) para manter o sistema educacional. (Quem estuda em escola particular paga duas vezes);
5. Esse investimento visa preparar pessoas para se sustentarem na vida e colaborarem para a manutenção da vida em sociedade no Brasil;
6. Só que os governos não fazem as coisas direito, parte dos que governam ou trabalham em repartiçōes públicas e são pagos com o dinheiro do nosso trabalho se metem em corrupção e roubam a esperança, os sonhos dos jovens de viverem com qualidade e construirem um país com qualidade;
7. Então aparecem governos de outros países, que nada investiram na educação desses jovens, oferecem melhores condiçōes de vida a eles e os levam, com o conhecimento que obtiveram no Brasil, pagos por nós, para ajudá-los a manterem melhor seus países.
8. E quem fica, continua alimentando esta palhaçada em silêncio;
9. Percebeu uma das consequências do seu silêncio político diante da falta de qualidade nos serviços públicos e da corrupção geral entre governantes, empresários e trabalhadores, no Brasil?
10. E daí?

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A hora da Ave Maria

As ruas eram de barro
Algumas de paralelepípedos
As casas de madeira
As cercas de balaustres
O homem carregava uma vara nas mãos
A noite começava a chegar
De poste em poste ele acendia as luzes
As luzes eram amareladas
O prato que as abrigava era branco
Na base dos postes nos assentávamos para conversar
Em um rádio qualquer dos poucos existentes
A música começava a tocar
Os ponteiros do relógio ficavam na vertical
A terra e o céu se conectavam
O sino do relógio da rodoviária batia seis vezes
E em cada canto da cidade se ouvia
A hora da Ave Maria
A voz pausada e grave dizia:
"Ave Maria cheia de graça
Bendita sois vós entre as mulheres
Bendito o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, mãe de Deus,
Rogai por nós os pecadores
Agora e na hora de nossa morte
Amém"
A música terminava
Uma espécie de melancolia dominava o coração
A vida continuava...
Todo dia a reza acontecia
Todo dia se ouvia esta bela melodia.
http://youtu.be/RNxz_sUEHLc

domingo, 8 de novembro de 2015

Internet, a democracia da informação


Ouve um tempo em que 
A televisão
A revista,
O jornal
E o rádio
Eram deles.
Eles diziam o que queriam
E seus amigos se alegravam
Pois deles nada de mau eles informavam.

Só diziam coisas boas de si e dos amigos.
Dos outros,
Dependendo de quem eram,
Dependendo do que pretendiam,
Só diziam coisas más.
Assim, 
Seus ingênuos ou interesseiros amigos
Os achavam maravilhosos
E odiavam todos os seus inimigos.

Mas, então, surge uma tal de tecnologia
Que possibilita o principal na democracia:
A livre veiculação da informação.
Não só daquela que eles queriam
Mas também e sobretudo da que escondiam
Pois a liberdade que eles defendiam
Era só da informação que não os ofendia,
Da informação que aos adversários obscurecia.

De repente tudo começa a mudar
Eles dizem A
Vamos lá
E também dizemos nosso A
Tentam impor suas verdades
Vamos lá
E contrapomos com as nossas.

Então eles e seus coniventes amigos
Desesperados pela inevitável perda de poder
Apelam para o preconceito de cor
Pela perda do poder de manipulação
Chamam de marron toda mídia
Que tira de suas mãos
Aquilo que é mais precioso em uma relação:
O livre trânsito não só daquela notícia que interessa,
Mas a transparência em todo tipo de informação.


sábado, 7 de novembro de 2015

Minhas dúvidas


As dúvidas?
São minhas
Com elas faço o que julgar melhor
Posso guardá-las
Acariciá-las
Abraçá-las
Alimentá-las
Só não quero abandoná-las
Pois elas me fazem companhia
Comigo dialogam noite e dia
E fazem com que eu não me sinta só

Se eu quiser dividí-las,
Eu posso
Elas são minhas.
Mas não pense em querer de mim tirá-las
Pensando com isso ajudar-me
Pois, sem elas, com que irei ocupar-me
Quando tu,
seguindo teu dia-a-dia,
Deixar-me?

Não pense que elas me fazem mal
Que sinto-me infeliz por abrigá-las
Que me sinto inseguro por admití-las
Que tenho medo ou me sinta culpado por não desprezá-las
Não, elas não são uma ameaça à minha vida
Não me causam dor, muito menos feridas
Elas foram por mim incorporadas,
Elas foram por mim absorvidas

Se pretendo contigo dividí-las?
Talvez, mas não sinto necessidade
Nem necessidade das minhas tens
Pois já tens as tuas em teu coração.
Não as abafe,
Não as despreze,
Não as demonize
Dialogue com elas
Torne-as tuas amigas.
Isso te fará sentir-se gente
E sendo gente atrairás pra ti mais gente
Gente capaz de abrigar na mente
Que ter dúvidas
Não é sinal de ser demente
Muito menos de ser descrente.
É tão somente
Prova de que és gente.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

E eu com isso?

(Gênesis 4:1-16)

  No dia em que  Deus perguntou a ele por seu irmão, uma resposta com aparência de indiferença  foi usada. Indiferença, porém, não era um retrato verídico de sua realidade. Na verdade, suas palavras nada mais eram do que uma cortina de fumaça usada como escudo para mascarar o que de fato ocorreu: ele estava derrotado.



Sim, as palavras são um dos meios mais usados como esconderijo da alma. Cientes de que, como disse Jesus,  a boca fala daquilo que o coração está cheio, acreditamos poder  driblar nossos interlocutores usando-as para enganá-los. Falamos, falamos, falamos, muita vez sem ter consciência de que, agindo como uma espécie de matraca, tão somente queremos abafar algo que grita dentro do nosso coração e não nos deixa  dormir em paz.



Não era exatamente o caso dele. Suas palavras não foram usadas inconscientemente como um grito de socorro. Ele sabia muito bem o que estava dizendo através do que não dizia.



O não dizer também pode retratar uma tentativa de colocar a alma em uma caverna. O não dizer, nesse caso,  parece ser ainda pior do que o dizer porque ele se esconde numa aparência de sabedoria. Quem nunca ouviu falar que Deus nos deu dois ouvidos e somente uma boca, justamente para ouvirmos mais do que falar? Quem nunca ouviu dizer que freio na língua é sinal de sabedoria? Então, ficar calado, ouvir longa e pacientemente em silêncio, em  vez de sinal de sabedoria, de maturidade,  também pode ser nada mais nada menos do que estratégia de guerra para proteger-se do vozeirão que insiste em incomodar o coração anunciando de forma insistente, inconveniente até, nossa fuga.



Não foi esse o caso dele. Como disse, ele preferiu usar palavras ao silêncio, na tentativa de esconder seu desvio. Dizer que  o erro dele  foi por sentimento de inferioridade, por inveja, pela necessidade de poder, etc,  seria especulação, útil,  talvez, como instrumento de retórica visando encontrar, por acaso, uma cabeça na qual a carapuça pudesse servir. De objetivo, o que temos é que ele estava insatisfeito.



Deus sabia de sua insatisfação e, por amá-lo, apontou o caminho para vencer-se a si mesmo em vez de transferir a culpa de  suas dores ao seu irmão. Foi tão gracioso com ele que até mostrou as consequências de buscar um caminho alternativo que não o levaria diretamente ao ponto. Mas, a história infelizmente prova, ele preferiu desconsiderar as palavras de Deus, agir segundo a enfermidade de sua alma, pensando que conseguiria liberta-se do sufoco que seu coração amargurado lhe impunha.



Não atentou, porém, para o fato de que “nada há encoberto que não venha ser descoberto” como disse Jesus e, pior, acreditou que pudesse esconder-se atrás de palavras.



Mais forte, porém,  do que suas palavras,  era o clamor do sangue de seu irmão. Irmão que foi usado como bode expiatório quando quem precisava de expiação era ele. Justamente ele  que ouviu de Deus o caminho da expiação,  mas preferiu não dar ouvidos. E por ter escolhido o caminho errado tornou-se vítima de maldição. Não maldição imposta por Deus, mas maldição imposta por sua desobediência  ao caminho apontado por Deus para o seu problema.



Quem é ele? Qual era o problema dele? Como deveria ter  reagido à palavra de Deus? Ele tinha algo a ver com isso?



 Talvez ele seja eu e o problema dele, meu. Tenho tudo a ver com isso. Preciso apenas de coragem para  abrir-me à própria verdade  em vez de escondê-la, pois, mais dia, menos dia,  um clamor chegará aos ouvidos de Deus e usar palavras para esconder-me é perda de tempo, prejuízo certo, é um tiro no próprio pé. Melhor é usá-las para revelar-me e assim, libertar-me da maldição de carregar comigo a morte do próprio irmão.

sábado, 24 de outubro de 2015

Escatologia: esperança futura, desejos e necessidades do presente

A linguagem poético-escatológica é um excelente meio de identificação dos reais desejos e necessidades do presente.

O problema é que a esperança escatológica tem sido usada como meio de manutenção do status quo em sociedades demoniacamente injustas e como instrumento de alienação humana e de negação do interesse de Deus pela vida presente.

Não há que se negar a esperança futura, antes ela deve ser o projeto arquitetônico que nos inspira e nos norteia na construção da realidade presente.

Nesse espírito compartilho esta interpretação queniana de um hino da Harpa Cristã.


"No céu não entra pecado
Fadiga, tristeza, nem dor;
Não há coração quebrantado,
Pois todos são cheios de amor,
As nuvens da vida terrestre
Não podem a glória ofuscar
Do reino de gozo celeste,
Que Deus quis pra mim preparar!

Irei eu p'ra linda cidade,
Jesus me dará um lugar,
Co'os crentes de todas Idades,
A Deus hei de sempre louvar.
Do céu tenho muitas saudades,
Das glórias que lá hei de ver;
Oh! Que gozo vou ter,
Quando eu vir meu Senhor,
Rodeado de grande esplendor!

Pagar não é necessário
A casa, que lá hei de ter;
E meu eternal vestuário,
No céu, nunca vai se romper.
Jamais viverei em pobreza,
Aflito no meu santo lar,
Ali há bastante riqueza,
Da qual podarei desfrutar.

No céu o luto é banido,
Enterros não hão de passar;
Sepulcros jamais são erguidos,
Lá mortos não vou encontrar.
Os velhos serão transformados;
Mudados nós vamos ficar.
Quais astros por Deus espalhados
No céu, para sempre brilhar."


sábado, 17 de outubro de 2015

Fé pior do que a do Demo

“Você crê que existe um só Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios creem—e tremem!” (Tiago‬ ‭2:19‬)

Você crê em Jesus?
Por que você crê em Jesus?
Se crê, essa fé faz alguma diferença em sua vida?

Só você pode responder essas perguntas. Então, seja honesto com você mesmo e as responda!

Você pode enganar aos que contigo convivem, aos que você encontra na escola, no trabalho, na igreja...

Até a si mesmo você pode enganar, criando explicações, juntando um amontoado de palavras, fazendo belos discursos que mascaram seus verdadeiros sentimentos.

Mas, a Deus você não engana.

Dou-lhe uma segunda chance. Responda:

Você crê em Jesus?
Por que você crê em Jesus?
Se crê, essa fé faz alguma diferença em sua vida?

De repente veio à minha mente que o Demo é mais crente do que alguns de nós. Tiago diz que ele crê e treme, enquanto alguns de nós diz crer, mas vive imóvel, congelado, indiferente.

Que fé é essa que não produz nenhuma diferença em mim, quando comparado aos que dizem não crer?

Você constituiu família? Todos constituem!

Você estuda? Todos estudam?

Você dirige? Todos dirigem?

Você trabalha? Todos trabalham!

Você vai ao Shopping? Todos vão!

O que diferencia você dos que assumem não crer?

O que faz sua fé ser melhor do que a do Demo que, pelo menos, "treme"?

Que fé é essa que não te move a separar 2 horas por semana para estar com a família de Deus?

Que fé é essa que não te move a separar um tempo da semana para desenvolver algo pensando objetivamente no próximo e não somente em si mesmo?

Que fé é essa que te move a ter dinheiro para aquilo que te agrada, mas te faz incapaz de dedicar um centavo pelas causas de Deus?

Que fé é essa que te move a usufruir das programações da igreja de Jesus, mas não é capaz de te mover a dar um pouco do seu conhecimento, dos seus dons, do seu tempo, muito menos seu dízimo para que o ministério da igreja se desenvolva?

Que fé é essa que não te s nsibiliza diante de adversidades experimentadas pela igreja que te acolheu, te abençoou e possibilita que você abençoe outras pessoas?

Seja honesto consigo mesmo: que fé é a sua? Se dizendo tê-la, só te vem à mente os benefícios dela para si, se tua fé não te move a nada em favor do Reino de Deus, será que você pode dizer que ela é melhor do que a do Demo?

“Você crê que existe um só Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios creem—e tremem!” (Tiago‬ ‭2:19‬)

Hoje amanheci me perguntando isso.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Aos colegas que estão sofrendo no pastorado

Saudade de um tempo que não volta mais.
As lembranças são boas,
mas insuficientes para aplacar a melancolia.
Tempos de sonhos com a alma ingênua,
sem noção dos corredores,
muito menos dos bastidores.
Tempos em que se sentia as coisas
como elas se apresentavam aos olhos.
A expectativa era o ministério,
A palavra,
A caminhada,
O companheirismo.
Depois nos damos conta
Da instituição
Das leis,
Da estrutura,
Da organização
Das reuniōes,
Da administração
Das ideologias
Das competições
Do poder
Do prestígio
Da vaidade
Da falsidade
De repente o "o que" se distancia do "por quê"
A motivação é substituida pela manipulação
A conveniência engole a convição
E aquilo que era pra ser simples como as pombas
Torna-se astuto como a serpente
E é gente engolindo gente
Em vez de gente acolhendo gente
Nos afastamos do eixo
Nos afastamos uns dos outros
Perdemos o rumo
O sentido
A alegria
Cresce a amargura
A graça se dissolve na desgraça
A amizade se dilui na desconfiança
Perdemos o compromisso
Perdemos a aliança
E nos esquecemos do:

- "Pai, pequei contra os céus e perante ti
Já não sou digno de ser chamado teu filho
Recebe-me como um dos teus empregados..."

- “Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que for ordenado, devem dizer: ‘Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever’.””

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Amores e desamores

De repente as comportas se abriram
A explosão foi ouvida à milhas
As ondas se reproduziram em ondas
Não houve como passarem despercebidas
O movimento foi assustador
Uma espécie de atropelamento em massa
Feridas se abriram, sangue foi jorrado
Margens foram se rompendo
Deixando tudo ao redor como que gemendo
A beleza foi amedrontadora
A cena gerou uma mistura de sentimentos
A pele era predominantemente branca
A espuma maravilhosamente brilhante
A força criminosamente destruidora
Uma verdadeira explosão de riso
Uma verdadeira catarse de libertação
A poeira cobria o ar
As marcas ficavam no chão
A terra molhada foi sendo sufocada
O atropelamento deu lugar à caminhada
Um leito foi formado
Um curso começou a ser seguido
As marcas da destruição estavam gravadas
Já nåo se sabia se a beleza do movimento
Se a excitação do som
Se o embaralhar das cores
Compensava os efeitos e os horrores.
Amores e desamores.

domingo, 6 de setembro de 2015

Intolerância religiosa

Nessa quinta-feira, estive falando sobre intolerância religiosa a alunos do ensino médio do Colégio Padre Vieira, SSA, a convite de Luana Chacra. Também falaram naquela tarde, representantes do catolicismo,  candomblé e espiritismo.

Nas origens dos batistas, o valor liberdade de religião, crença e pensamento mereceu defesa. Hoje, para alguns, levantar tal bandeira seria desvantajoso, em face da competição no mercado da fé. 

Na última assembléia da Convenção Batista Brasileira, em Gramado, um orador norte-americano bradou: nós venceremos o islamismo. Fiquei pensando não somente no quanto religião e política andam juntas, mas também no tipo de política (e de religiosos políticos) que escolhemos para parceria. 

Se defendo a liberdade religiosa, mas convido para ensinar numa casa de formação de pastores ou pra falar ao povo batista alguém que não respeita o direito do outro crer ou não crer ou, pior, que trata o outro como inimigo a ser vencido por sua escolha religiosa diferente da nossa, isso indica falta de coerência entre discurso e prática. Nossa prática é o nosso verdadeiro discurso, nossa verdadeira teoria.

Já passou da hora de não apenas levantarmos esta bandeira, mas de agirmos coerentemente com ela. Se nossa fé é de boa qualidade, vivê-la intensamente é suficiente. E para que outros também possam abraçá-la, atacar a fé alheia é totalmente desnecessário. 

Foi-se o tempo de justificar a necessidade de avanço missionário tendo como referência o espaço demográfico ocupado por outras religiões. Isso não é motivação missionária, é guerra religiosa, é disputa de mercado, é despertar instintos animalescos.

Se queremos dialogar sobre nossas diferenças, que isso seja feito em nível respeitoso e não em termos belicosos. Se queremos proclamar nossa fé - isso faz parte da natureza humana e é um direito seu - não há necessidade, para isso, de atacar a do outro. Basta relacionarmos os benefícios individuais e coletivos da mensagem que pregamos e enfatizarmos isso.

Já há motivos demais para violência em nosso país. Se não posso corrigi-los todos, será uma grande contribuição à cultura da paz não alimentar desrespeito religioso em nosso raio de convivência. Religião deve ser instituto de paz, não de violência.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A ceia corintiana

Igreja dividida,
Vinho para embriaguez, 
Ceia subtraída,
Ausência de lucidez.

Gente passando fome,
Irmãos embriagados,
Enriquecidos satisfeitos, 
Empobrecidos humilhados.

Falta de educação, 
Ninguém espera por sua vez,
Encontros que fazem mal, 
Quando deveriam fazer o bem.

Pecado contra a igreja,
Participação sem reflexão
Pecado contra o senhor.
Sinal de morte no coração.

Jesus entra na história,
Não cria cerimonial, 
Não cria formalidade,
Organiza a celebração.

Incluindo solidariedade,
Consciência na comunhão,
Produz Justiça no resultado,
Esperança e vida na proclamação.

Discernimento da finalidade,
Liberdade no coração
Disciplina como igreja,
Povo livre de acusação.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O Plano Unificado da Convenção Batista Baiana e o desenvolvimento de sua igreja

 
O desenvolvimento de qualquer organização (e a igreja não é exceção) passa por dois caminhos, pelo menos: 1) solução dos problemas conhecidos; 2) qualificação e fortalecimento dos fatores que motivam sua existência. 
 
Em relação ao primeiro, podemos citar alguns exemplos: 1) se há reclamação quanto ao uso do dinheiro, que se adote transparência e se aumente a participação na definição de prioridades; 2) se há conflitos de relacionamento, que se trabalhe o caráter das pessoas ou se adote medidas que possibilitem critérios claros de justiça na distribuição de atribuições que conferem poder dentro do grupo; 3) se as estruturas patrimoniais são inadequadas à finalidade, que sejam reformadas e devidamente ajustadas. 
 
Quanto ao segundo, é essencial que se escreva qual é a finalidade da organização e o que precisa ser feito para que ela seja alcançada. 
 
No caso de uma Convenção Batista, suas finalidades básicas são: 1) gerar cooperação visando plantar igrejas saudáveis e 2) oferecer condições para que as igrejas cooperadoras se desenvolvam saudavelmente. O crescimento numérico é importante, mas deve ser decorrente da saúde da igreja e não fruto de "pedalada" ministerial. (entenda-se por "pedalada" qualquer tipo de ação que cria uma impressão de que tudo está bem, quando não está). 
 
Um exemplo bíblico de "pedalada" pode ser lido em Atos 21:20-25. 1) Paulo é recebido com alegria pela igreja de Jerusalém (V 17); 2) Tiago e os líderes apreciam o relatório de Paulo (V 19); 3) Tiago fala do crescimento numérico da igreja de Jerusalém (V 20); 4) Tiago antevê os problemas que a presença de Paulo causaria e propõe que ele adote uma política de boa vizinhança com os judeus, fazendo concessões ao legalistas (V 21-25); 5) Paulo age de acordo com a orientação deles, seguindo a filosofia do "fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei" (V. 26); 6) Paulo, mesmo assim, não escapa de uma boa surra (V 27-36). 
 
O que vemos aí? Uma igreja que se acomodou ao crescimento numérico e à aceitação social, sacrificando o essencial do evangelho que são a manifestação da graça de Deus e da liberdade amorosa conquistada em Jesus Cristo. Crescimento numérico que não é decorrente da qualidade sincera do caráter dos crentes e de suas palavras e ações no mundo, sem falsos moralismos, é "pedalada" ministerial e precisa ser repensado. 
 
Pensando assim, defendemos que o anseio missionário por envio de obreiros ao campo e por plantação de igrejas jamais pode ser separado de investimento concomitante em educação cristã, formação teológico-ministerial e responsabilidade social. Ter visão missionária é desenvolver a compreensão de que não há como enviar obreiros aos campos se as igrejas não forem saudáveis e se seus pastores não forem bem preparados. Técnicos em multiplicação de igrejas serão capazes de construir currais de ovelhas, mas incapazes de compreender o ser humano, dialogar com ele e plantar igrejas capazes de exercer o papel amoroso de sal da terra e luz do mundo. 
 
Nesses últimos anos nos empenhamos, como lideranças batistas, para: 1) sanear a administração e as finanças dos órgãos executivos e auxiliares e da Secretaria Geral da Convenção; 2) reestruturar as relações políticas definindo com clareza a finalidade e atribuições de órgãos e seus cargos nos estatutos; 3) Buscar uma melhor comunicação e transparência dos órgãos e da Secretaria Geral para com as igrejas cooperadoras; 4) elaborar as Assembléias Anuais de tal maneira que se tornem fonte de capacitação, inspiração e fortalecimento da comunhão; 5) manter uma política de visitação às associações e igrejas que nos tornem sensíveis às suas necessidades. 
 
Agora, queremos elaborar um Plano Unificado - plano que envolve os órgãos executivos (CBTE, EBKW, STBNE) e auxiliares (ADBB, AECBA, AMUBAB, ARI, JUBAB, OPBB, UFMBB, UMHBB), bem como a Secretaria Geral e suas gerências (Administração, Comunicação, Educação Cristã, Expansão Missionária e Responsabilidade Social) - visando definir um norte, sempre para um horizonte de dois anos. 
 
Para isso, precisaremos de sua ajuda, respondendo-nos duas perguntas: 
 
1) Que problemas relacionados à Convenção Batista Baiana, segundo sua percepção, precisam ser corrigidos com urgência?
2) Que necessidades sua igreja tem que poderiam ser supridas com o apoio dos batistas da Bahia? 
 
Nessa segunda, pedimos que relacione os pontos que julga deficientes em sua igreja nas áreas de: 1) Administração (pessoal, patrimônio, finanças, organização, formatos de reuniões, organização de eventos, estatutos e Regimento Interno...); 2) Adoração (elaboração de cultos, seleção de hinos e cânticos, composição, execução instrumental, ensaios de grupos e corais, solos...); 3) Comunhão (recepcionistas e introdutores, visitação, elaboração de programas para dias especiais (das mães, dos pais, do pastor, da esposa do pastor, dos namorados, de aniversário...) 4) Educação Cristã (trabalho com crianças, adolescentes, jovens, adultos (mulheres ou homens), família, EBD, conteúdos, liderança...); 5) Educação teológico-ministerial (interpretação da Bíblia, preparação de mensagens, conhecimento da história e identidade dos batistas, regras parlamentares...); 6) Proclamação (testemunho amoroso, evangelização individual, campanhas para levantamento de ofertas, viagens e manutenção de frentes missionárias...). 
 
Se sua igreja não necessita de apoio externo, coloque-se à disposição para abençoar as que precisam, abrindo as portas para receber estagiários de outras igrejas, nas áreas que ela mais se destaca ou que está fazendo algo diferenciado. 
 
Ajude-nos a elaborar um Plano Unificado que atenda as necessidades das igrejas, respondendo as perguntas acima e enviando-as por e-mail para diretoria.cbba@gmail.com ou por carta, à Secretaria Geral, até 30 de agosto. 
 

Ajude-nos!

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O Dia do País - A propósito da operação “lava jato” e suas consequências


Gostaria de usar a expressão “Dia do País” no sentido de um momento especial do tipo “Dia D”, para expressar um desejo que cresce no coração de muitos brasileiros de que estamos vivendo perto de um tempo que poderá ser lembrado como divisor entre duas partes da história do Brasil: a da corrupção desenfreada e a da punidade ou, se preferirem, punibilidade.

Digo isso reconhecendo em mim um grau tal de credulidade que beira a ingenuidade. Porém, exceto se houver uma extraordinária virada de mesa – fato que não ocorreria sem consequências traumáticas imprevisíveis e incalculáveis – os fatos nos levam a crer que estamos vivendo algo nunca visto antes na história do país: corruptores e corruptores do topo das pirâmides indo pra trás das grades.

Disse corruptores e corruptores porque da maneira como os fatos estão sendo narrados, ainda não consigo definir quem subornou quem. Não sei se os empresários das grandes construtoras subornaram políticos partidários ou se políticos partidários subornaram empresários. O fato é que ambos - e de quebra os que tiraram sua “casquinha” dessa “relação incestuosa” – não apenas institucionalizaram, profissionalizaram, sistematizaram os processos de corrupção causando prejuízos às empresas, mas também provocaram um quadro político de instabilidade tal que todos estamos pagando de maneira explícita os prejuízos.

Creio que a grande decisão agora gira em torno de ganhar a curto ou a longo prazo.  Se nossa visão for de curto prazo, optaremos por colocar panos quentes, minimizando a gravidade do que está ocorrendo; se for de longo, enfrentaremos as consequências da situação atípica que vivemos acreditando que, havendo punição severa, exemplar e aproveitando a oportunidade para efetuar mudanças na legislação, poderemos alcançar dias melhores nesse aspecto da caminhada nacional.

Sem deixar de reconhecer que nenhum de nós é perfeito, que todos somos pecadores, sou da opinião que onde não impera nem se defende princípios éticos, seja por consciência ou imposição legal, falta um dos pilares essenciais à qualidade de vida em qualquer grupo que é a credibilidade. Sem relações caracterizadas por credibilidade a vida é um inferno.

Claro que, diante da crise, uns se posicionam politicamente, procurando perder menos poder; outros economicamente, na expectativa de manter seus ganhos financeiros, mas, repito, se relevarmos a importância da ética, todos perderão infinitamente mais.

Estou entre os que desejam este “Dia do País”, entre os que, mesmo não tendo influência significativa nas decisões que norteiam a vida nacional, acreditam que na força de cada um somos capazes de fazer diferença. Não apenas a força do desejo, mas o uso consciente das mídias, a aplicação correta dos conhecimentos técnicos no círculo de influência e a disposição para pagar algum preço em favor de dias melhores para todos.

Nesse contexto temos duas oportunidades que não devemos perder:
1. Participar da manifestação do dia 16 de agosto sem se deixar dominar pela ideologia ou interesses deste ou daquele partido político. Creio que devemos focar no combate a corrupção, venha de onde vier, e exigir do Congresso Nacional, a aprovação de reformas políticas que eliminem, por exemplo, o financiamento de campanha por empresas. Então, saiamos às ruas neste dia 16 de agosto;
2. Participar efetivamente do levantamento de um milhão e quinhentas mil assinaturas para o projeto “10 medidas contra a corrupção”. Para isso, entre no site do Ministério Público Federal: http://www.combateacorrupcao.mpf.mp.br/10-medidas, imprima a folha lá disponibilizada, colha o máximo de assinaturas possível e siga as demais instruções.


Sei que o tema, bem como essas duas sugestões têm algum grau de controvérsia, mas o que não podemos é deixar de agir, ficando “à toa na vida”, vendo “a banda passar”. Lembremo-nos das palavras de Jesus: “vós sois a luz do mundo... vós sois o sal da terra”

O Brasil à beira de um abismo?

Nessa semana um profundo sentimento de que o pior poderia acontecer em nosso país começou a invadir meu coração. Lembrei-me de que a Ucrânia vivia em paz, mas no momento em que resolveu-se tirar um presidente corrupto, o país desabou e entrou em guerra que até hoje não cessou.


Difícil pra nós pensar em guerra por razões políticas, mas a possibilidade de uma guerra civil é maior, talvez, do que estamos calculando. 

1) Grandes empresários estão sendo presos e há muitos outros mais do que imaginamos com as barbas de molho;
2) Políticos que ocupam ou ocuparam os principais cargos em nível nacional ou estadual estão com os dias contados para responder em juizo por seus maus feitos, com grande probabilidade de serem presos;
3) A presidente tem o mais baixo índice de popularidade das últimas décadas, portanto não tem credibilidade;
4) A economia está parando;
5) A inflação corroendo salários;
6) Os juros voltando a patamares indesejáveis;
7) Os indicadores de desemprego aumentando;
8) O dólar subindo num sinal de que investidores estão em estado de alerta.

Ontem, após ver a capa de uma revista semanal, pensei em mudar a foto do meu perfil no Facebook, pra chamar a atenção dos meus amigos. Independente da ideologia da revista ou da veracidade da notícia, ela serve par nos mostrar que chegamos à beira do abismo.

Por uma questão de coerência, se o juiz Sérgio Moro receber delação de Leo Pinheiro, da OAS, nos termos que a Revista publicou, ele não terá outra opção senão a de fazer o que fez até aqui: prender preventivamente. Sabe o que isso significa se Lula for preso?

Entendo que, se ele tiver culpa no cartório deve mesmo ser preso, como devem ser presos os dos outros partidos na mesma situação,  mesmo que não haja - e não haverá - cela suficiente, pois a lei é para todos. Mas ninguém é tão ingênuo a ponto de pensar que não haverá uma ida às ruas com manifestações violentas.

Sim, vislumbrei a possibilidade de uma guerra civil, daí a mudança de minha foto no perfil do Facebook.

Ao ler há pouco um texto de Cristovão Buarque, n'O Globo, constato que o sentimento começa a ser público. Alegra-me quando ele diz: "Ainda é tempo de evitar a tragédia e o desastre, mas esta ideia parece ingenuidade diante da nossa incapacidade como líderes nacionais. Neste momento, a culpa é de todos nós, por não estarmos à altura do desafio histórico do momento. E se não encontrarmos uma saída negociada, o povo na rua convocará por cima da Constituição uma eleição geral antecipada, com impeachment de todos."

Os desfecho apresentado por ele é mais otimista do que o meu.

Creio que já passou o tempo de ficarmos como expectadores admirados diante de cada notícia de mais uma descoberta e de mais uma decisão séria do Poder Judiciário. 

Creio que já passou a hora de ficarmos discutindo quem é mais ou quem é menos culpado. 

Creio que já passou a hora de ficarmos comentando que o Brasil está em crise. 

A hora é de assumirmos, ainda que atrasado, que o problema é meu e seu e todos sofreremos duramente se não for encontrada uma saída negociada, com reconhecimento de erros, com aceitação de punição para todos e não apenas para os do partido adversário ao nosso.

É hora das igrejas redobrarem as orações e os compromissos de ser sal e luz em meio a tão densas trevas, a fim de que o povo que está em trevas possa ver uma grande luz e superemos mais este momento difícil de nossa história.