domingo, 20 de janeiro de 2019

Trilha para sucessão pastoral

Era um concílio para examinar um colega de turma com vistas ao pastorado. A reunião acontecia numa grande igreja de interior no nordeste. Um líder, depois de ouvir para onde o candidato iria, pediu a palavra e, em tom reprovador, declarou que não era para aquela igreja que ele gostaria que o candidato fosse.

O candidato reagiu dizendo algo como: esta é a sua vontade, mas não é a de Deus. Como o senhor não é Deus, não irei para onde o senhor gostaría. O líder, silenciosamente, sentou-se.

O conflito de vontades faz parte da experiência humana. Acontece entre pessoas e também na relação com Deus.

Afinar a vontade de pessoas parece-me um desafio maior. Os motivos, interesses e escalonamento de valores são diferentes, nem sempre conscientes e transparentes, e não há, nem nunca houve neste planeta, pessoa capaz de atender em 100% as expectativas de outra. Muito menos de um grupo de outras.

Quando se trata de escolher um pastor, uma trilha de conciliação seria *relacionar* diversos aspectos definidos por envolvidos e pedir a quem vai decidir que marque, para cada um deles, quais das seguintes categorias retrataria melhor seus sentimentos e pensamentos: "muito importante", "importante", "pouco importante" ou "sem importância".

A partir disso, procuraria-se alguém que mais se aproxima daquilo que é entendido pela maioria como "muito importante" ou "importante", deixando em segundo plano os "pouco importantes" ou "sem importância" à maioria da igreja.

Perceba-se que, nesse caso, é a vontade humana que se estaria buscando reconhecer.

Há quem defenda que afinar-se à vontade Deus seria menos difícil. Bastaria elencar princípios do reinado de Deus, manifestos na vida e ensinos de Jesus, confrontá-los com os motivos que movem os corações dos que têm que decidir em busca de afinação entre as duas vontades - divina e humana - e seguir adiante, confiando na graça divina.

O problema é que há situações excepcionais nas quais o agir de Deus se manifesta de maneira imprevisível, misteriosa. Lucas, por exemplo, conta que Paulo e seus companheiros foram impedidos, pelo Espírito, de pregar a palavra na Ásia e na Bitínia e, depois, através de sonho "concluiram" que Deus os tinha chamado à Macedônia.  (At. 16:6-10).

Um  bom caminho, então, seria conciliar muita e sincera oração, com aquilo que as pessoas que decidirão consideram muito importante, buscando harmonia com o reconhecimento e priorização dos valores espirituais do reinado de Deus, manifestos em Jesus.

Seguir por esse caminho aumenta significativamente as chances de acerto.  E, se houver erro, que cada um seja humilde para reconhecer o seu e, nesse espírito, colaborar para corrigir a rota.

xxx


*Ilustração de pesquisa para definição de perfil pastoral

Estas perguntas têm por objetivo:

A) Ajudar os membros da igreja a terem uma visão ampla do que pode envolver a vida ministerial de um pastor. (É, portanto, essencial que antes de responder se faça uma leitura geral);

B) Ajudar a igreja a ter clareza do que é essencial no perfil de pastor que buscará;

C) Facilitar o trabalho da Comissão de Sucessão Pastoral na classificação de nomes que efetivamente participarão do processo.

As perguntas que seguem são apenas ilustrativas, podendo ser alteradas ou suprimidas de acordo com a valorização da Comissão que a elaborará ou, ainda, podendo receber outras que não aparecem nesta ilustração.

1. ASPECTOS MINISTERIAIS
1.1. Que o pastor se dedique exclusivamente à Igreja
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.2. Que o pastor dedique tempo à visitação dos membros
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.3. Que o pastor dedique tempo a aconselhamento
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.4. Que o pastor dedique tempo à administração eclesiástica
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.5. Que o pastor dedique tempo à preparação dos sermões e estudos bíblicos
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.6. Que o pastor dê expediente diário na sede da igreja
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.7. Que o pastor exerça magistério em instituição batista
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

1.8. Que o pastor já tenha experiência ministerial comprovada
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância


2. ASPECTOS LITÚRGICOS

2.1. Que o pastor use paletó e gravata nos cultos dominicais
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

2.2. Que o pastor pregue em todos os cultos dominicais
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

3. ASPECTOS DENOMINACIONAIS

3.1. Que o pastor seja formado em seminário batista reconhecido pela ABIBET da CBB
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

3.2. Que o pastor seja filiado à Ordem dos Pastores Batistas do Brasil
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

3.3. Que o pastor participe de assembléias das convenções batistas
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

4. ASPECTOS FAMILIARES
4.1. Que o pastor seja casado
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

4.2. Que a esposa do pastor exerça cargo na igreja
( ) Importante
( ) Pouco importante
( ) Muito importante
( ) Sem importância

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Jesus e a rivalidade

Fazendo uma leitura bíblica para iniciar a preparação da mensagem que compartilharei no próximo domingo, à tarde, me deparo com o seguinte registro de João: “Os fariseus ouviram falar que Jesus estava fazendo e batizando mais discípulos do que João, embora não fosse Jesus quem batizasse, mas os seus discípulos. Quando o Senhor ficou sabendo disso, saiu da Judeia e voltou uma vez mais à Galileia.” (João‬ ‭4:1-3)

Deixei de lado o foco da preparação da mensagem para refletir em como, até mesmo na realização de atividades relacionadas ao Reino de Deus, pessoas com segundas intenções, especialmente travestidas de roupagem religiosa, encontram uma forma de criar conflitos.

João batizava. Os discípulos de Jesus batizavam. Batizar é um ato simbólico, cujo significado inclui reconciliação, pacificação de relacionamentos. Mas aos ouvidos fariseus, isso era o menos importante. Importante para eles era gerar conflito e, para isso, nada melhor do que semear a competição, fazendo uma maliciosa comparação: "Jesus" batiza mais do que João.

Quem nunca vivenciou isso nos corredores de nossas instituições religiosas? Quem nunca se deparou com alguém comparando as qualidades de um líder em relação a outro? A pregação de um pastor em relação a outro? A eficiência administrativa de um dirigente em relação a outro? O conhecimento bíblico de um professor em relação a outro?

Não é problema reconhecer as qualidades de alguém. A quem honra, honra. A questão é a comparação maliciosa, geradora de rivalidade, que visa enfraquecer alguém, semeando desavença.

Tocou-me, entretanto, o fato de Jesus se retirar do ambiente. Sua presença ali não seria benéfica aos propósitos do Reino. Permanecer ali serviria de munição para os fariseus. Certamente também criaria problemas entre os discípulos dele e os de João e isso não fazia parte de seu ministério.

Não que Jesus não se envolvesse em conflitos. Ele virou as mesas dos cambistas, tratou o rei Herodes como "raposa velha", enfim, ele era pacificador, mas não era pacifista. A diferença é que ele sabia escolher quais conflitos precisavam ser enfrentados e quais ser evitados.

Esse conflito - quem batizava mais - não agregaria nada de útil ou benéfico à vida das pessoas ou ao seu ministério. Diante disso, sua atitude foi exemplar: "deixou a Judéia e retornou à Galiléia".

Fica a dica. Quando o ambiente dá sinais de favorecer a rivalidade entre agentes do Reino, melhor seguir o exemplo de Jesus: retirar-se.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Michelle Bolsonaro e a causa dos surdos

"Nossa cabeça pensa, onde pisam nossos pés!"

A Primeira Dama, Michelle Bolsonaro, roubou a cena no dia da posse do Presidente da República, ao discursar em LIBRAS, no parlatório, antes do seu marido. O ato foi simbólico sobretudo por trazer a debate os desafios enfrentados pelos surdos, uma parcela da população brasileira cujos problemas são desconhecidos ou ignorados pela maioria.

Criada na perifera de Brasília, Michelle teria se dedicado a aprender a Lingua Brasileira de Sinais - LIBRAS - pelo fato de ter convivido com um tio surdo. Disso teria nascido seu interesse por dedicar-se a este segmento.

Nossas escolhas pessoais têm relação direta com as experiências que tivemos. Isso ocorre inclusive na produção acadêmica. "É a relação afetiva para com um objeto, que me atrai ou me ameaça, que cria as condições para a concentração de minha atenção", escreveu Rubem Alves. Somos impulsionados a agir, visando entender e alterar uma realidade, quando nosso coração é tocado por uma situação que presenciamos, por uma narrativa que lemos ou ouvimos, por uma experiência que afetou nosso sentimento.

Lembro-me de narrativas dos pastores Paulo Eduardo, da PIB de São Paulo e Fernando Brandão, da Junta de Missões Nacionais e de como teriam sido movidos a agir após contato, "in loco", com a miserabilidade dos moradores da Cracolândia, na capital paulista. Essa experiência fez surgir um dos mais destacados projetos de recuperação e apoio a dependentes químicos conhecidos atualmente no Brasil.

O tête-à-tête dificulta nossa indiferença e nos faz tratar melhor quem está ao nosso lado. As palavras de Paulo indicam isso: “Vocês bem sabem que nunca fiz questão de riqueza ou de vestir do bom e do melhor. Com estas mãos limpas, cuidei das necessidades básicas, minhas e dos que trabalham comigo. Em tudo o que fiz, demonstrei a vocês que é preciso trabalhar a favor dos fracos, não explorá-los. Vocês não estão errando se guardarem a lembrança daquilo que o Senhor disse: ‘Vocês são mais felizes dando do que recebendo’.” (At. 20:32-35, em A Mensagem)

Mateus registra que Jesus, movido por compaixão, curou e alimentou pessoas quando VIU a multidão e seus enfermos e OUVIU que pessoas estariam com fome. (Mt 14). É, portanto, natural que, havendo um mínimo de compaixão em nosso coração, há empenho para usar os meios de poder acessíveis, por menores que sejam, para agirmos em favor de quem está em situação de vunerabilidade, desfavorecimento ou injustiça.

Michelle usou o parlatório, um instante de visibilidade "mundial", para alavancar, potencializar, o que tocou sua vida, seu coração, e fez bem. Importante, entretanto, é entendermos que não apenas sentimentos ou experiências particulares devem mover nossas ações. Não é preciso, por exemplo, ter na família um sem-teto para lutar por moradia ou uma mulher que foi violentada, para lutar pelos direitos das mulheres.

O conhecimento de dados da realidade, mesmo referentes àqueles que não fazem parte do nosso "mundo significativo", deve mover nossas escolhas, nossas lutas, como manifestação de amor ao ser humano, como Deus ama. E isso não somente para minorar a dor, assistencialmente, mas para atacar as causas geradoras e seus efeitos nocivos.

Michelle, repito, fez bem ao usar seu novo papel social e a repercussão de seus atos em favor daquilo que toca seu coração. E nós, temos usado nossas oportunidades e recursos para alavancar e potencializar não apenas o que mexe com nossas emoções, mas, sobretudo, o que move o coração de Deus, revelado em Jesus?

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Filhos "obedientes", pais condecorados

Cresci convivendo com pais orgulhosos por seus filhos estarem integrados em uma igreja e pais tristes, pelo contrário.

Vez por outra ouvi pastores encherem o peito no púlpito ao declararem que seus filhos estavam "nos caminhos do Senhor" e ouvi pastores sendo criticados sob o discurso de que o "insucesso" pelas escolhas dos filhos, diferentes das deles, os desqualificava  para o pastorado, afinal, "biblicamente", "quem não sabe governar a sua própria casa, como terá cuidado da Igreja de Deus?"

Isso me faz lembrar de um pai que criou um casal de filhos, deu-lhes as diretrizes para o bem viver, mas ambos seguiram por outro caminho. Um de seus "netos" matou o irmão. Esse era nada mais nada menos que o todo poderoso, criador do universo.

Talvez, lembrar isso ajude na redução do juízo precipitado, da jactância, da exigente hipocrisia ou ainda, até, do sentimento de culpa e desistência de alguns do ministério.

Há certas bandeiras que levantamos para nos fortalecermos moral e politicamente perante um público ou para enfraquecer alguém com quem não simpatizamos ou cujas idéias não nos agradam ou não nos beneficiam, sem prestarmos atenção no fato de que o padrão usado para acariciar e alimentar  o próprio ego é mais elevado do que o experimentado pelo próprio onipotente, onisciente e onipresente "Pai do Éden".

É bom e agradável ver os filhos seguindo os princípios que abraçamos. Investir nisso é indicado, especialmente se o resultado que se pretende é criar filhos amorosos, respeitosos, solidários, trabalhadores, enfim, retratos da imagem de Deus manifesta em Jesus.

Mas é bom  também sermos mais humildes, graciosos e respeitosos - como Jesus - na forma de lidar com o "sucesso" ou "insucesso" nessa área. Primeiro, porque a história ainda está sendo escrita e o balanço final não ocorreu; depois,  pra não nos colocarmos como mais sábios, exemplares e eficazes do que o próprio Deus, pai-criador, que apregoamos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Natal, bendita sensibilidade

“Em tudo o que fiz, mostrei a vocês que mediante trabalho árduo devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: ‘Há maior felicidade em dar do que em receber’ ”.” (Paulo, em Atos‬ ‭20:35‬)

O que é que nos torna, de uma maneira geral, mais sensíveis no Natal? Parece-me que é o espírito de dar, reinante na estação.

Neste período, independente de qual motivo se alegue, o fato é que há uma mobilização coletiva no sentido de sair de si mesmo, de lembrar-se do outro e de como se pode fazer para agradar alguém.

Seja através da doação de um presente, do compartilhar de uma ceia, de uma moedinha na "caixinha de natal", de uma libertação para si mesmo ao oferecer perdão a ofensor, enfim, o fato é que o espírito coletivo se abre para dar.

Isso faz com que surja um brilho no coração, um sorriso no rosto, luzes na cidade e emersão de esperança do fundo de nossa alma, possibilitando que aquilo que ansiamos dê sinais de tornar-se realidade.

Critique-se o comércio, a hipocrisia, a artificialidade, a superficialiade, enfim. Nem isso, entretanto, é capaz de impedir que luzes brilhem não só na fachada dos prédios, nas salas de nossos lares, mas sobretudo em milhares de rostos conhecidos ou anônimos ou mesmo em faces cujas almas vivem a maior parte do ano às escuras, com cheiro de mofo, umidecidas em lágrimas.

Respeite-se mesmo aquelas pessoas para as quais o Natal nada signifique ou signifique coisas diferentes de seu motivo original. Nem elas, mesmo sentindo e reagindo de forma avessa, conseguem passar incólumes neste tempo do nosso calendário.

Dar é o espírito do tempo. "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna". (Jo. 3:16)

Se é assim, e assim eu creio, o Natal é uma lembrança, uma sinalização para o caminho da vida, para o pão da ceia a ser compartilhado, à porta aberta pela qual devemos entrar, a fim de que os dias que estão por vir sejam melhores do que os vividos, para todos.

Receber e compartilhar o presente divino, esse é o sentido do Natal. Daí trocarmos presentes, inclusive imateriais. Esse é o espírito da estação. Isso, parece-me, repito, é o que nos torna a todos, conscientes ou não, aceitando ou não, mais sensíveis. Bendita sensibilidade.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

"Sabedoria" e "Inteligência Emocional"?

Há quem apregoe que "sabedoria" e "inteligência emocional" são característicos daqueles que não se envolvem em conflitos de natureza política, inclusive os de natureza político-religiosa ou político-eclesiástica ou ainda político-denominacional. Esse tipo de "sabedoria" e "inteligência emocional" (ou a falta delas) seriam a causa de, no popular, alguém se dar bem (ou se dar mal) na vida.

Reconhecidas as exceções patológicas, ninguém se envolve em conflito porque gosta, muito menos porque gosta só de si. Se envolve porque enxerga e acredita que há algo nocivo, doentio, na formatação estrutural, política, ideológica, enfim, do grupo ao qual pertence que precisa ser corrigido, curado, elucidado. Se envolve porque persegue o bem não só pra si, mas também para todos.

Se "sabedoria" e "inteligência emocional" fossem ser capaz de nunca se envolver em conflito, que classificação daríamos à pessoa de Jesus? Ou à pessoa de Paulo? Ou será que  ignoramos as narrativas abundantes dos conflitos de Jesus com Fariseus, de Paulo com comerciantes e religiosos? Teria sido por nada que um foi parar na cruz e o outro atrás das grades?

Se por comodidade, medo ou outro até bom motivo alguém valoriza e, por isso, prioriza nunca envolver-se em conflito, essa é uma escolha que deve ser respeitada. Até mesmo escolher ser um covarde vivo a um herói morto seria legítimo. Cada um sabe onde seu sapato aperta e reconhece até onde é capaz de ir.

Daí, entretanto, "sinonimizar" a escolha de nunca envolver-se em conflitos como "sabedoria" ou "inteligência emocional" soa-me muito mais como conversa pra King (o Martin, não o monarca) dormir do que verdade.

Faça um levantamento na história de quem fez diferença no desenvolvimento social da humanidade ou de um segmento dela ou mesmo em um pequeno grupo e descubra o percentual desses que seriam classificados como "sábios" ou "emocionalmente inteligentes", segundo a definição pacifista. Se o percentual não for zero, chegará próximo disso.

A história daqueles que fizeram diferença social na caminhada de um grupo, de uma sociedade, demonstra que, sim, eram "sábios", "emocionalmente inteligentes". Apenas o escalonamento de seus valores tinha sequência diferente, com outra prioridade.

Eles decidiram não viver só pra si, só pra preservar  emprego,  salário,  posição social ou privilégios.  Antes, tiveram um senso de justiça social, sentiram a dor dos enfraquecidos, empobrecidos ou fragilizados pelos sistemas, eram empáticos, compassivos, corajosos e focados.

Eles pensavam no que precisava ser feito e em como fazer pelo bem de todos e agiam, mesmo que isso lhes custasse perda de privilégios, do status quo, da vida. "É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!” (Atos‬ ‭5:29‬), acreditavam.

Todo relacionamento é conflituoso. Cabe, portanto, a cada um, e é desejável e recomendável que assim seja, desenvolver a capacidade de buscar a harmonia através de diálogo, negociação, acordo, visando o maior benefício para todos, pelo menor custo emocional, político, etc, possível.

Mas, se os privilégios inaceitáveis de uns são mantidos a base dos sofrimentos inaceitáveis de outros, nada resta a ser feito senão preparar-se pra cruz ou pra prisão, com muita "sabedoria", "inteligência emocional", mas também altruismo, coragem, competência e muito amor ao próximo.

A alternativa a isso seria, "pilatianamente", "lavar as mãos", mantendo-se com curriculo "limpinho", com aparência de "cidadão de bem", de "bom mocismo" e, com "sabedoria" e "inteligência emocional", passar os dias sentado "no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar".


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O cristão e os empobrecidos

As eleições passaram. Bolsonaro será o presidente.

Sugiro duas coisas:

1. Não aja como alguns petistas agiram quando estiveram no poder: aplaudiram os acertos e silenciaram nos erros.

Se assim agir, será apenas um petista ao avesso, com todos os defeitos do avesso.

Aja como cristão, como sal e luz. Olhe as ações do governo com consciência crítica. Não uma crítica emocional de desabafo, mas racional, mesmo quando indignado.

2. Enquanto houver pessoas muito satisfeitas com a vida econômica que levam, talvez como vc, e houver 1 brasileiro ou mais de 50 milhões, como indicam as pesquisas, sobrevivendo com 400 reais por mês, haverá um seguidor de Jesus, em meio a milhões de cristãos acomodados, clamando por justiça social, mesmo sendo pejorativamente rotulado de socialista, comunista, petista, reacionário, esquerdopata, como tentativa de amedrontá-lo, marginalizá-lo e calar sua voz.

Lembre-se do que disse Jesus: se os crentes se calarem, as pedras clamarão.

Ósculos e amplexos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Economia política

Há muito  tempo, como pastor, professor e exercendo cargos de liderança denominacional batista venho falando que um dos problemas do ministério pastoral está na deficiência de estudos teológicos mais profundos no campo da ética relacionados à política e economia.

Há uma ênfase na ética corporal e familiar em detrimento da política e econômica. Por isso, nós pastores nos sentimos empoderados para tratar desses dois campos - corporal e familiar - e silenciamos em termos de ética política e econômica.

Pior, quando o assunto são os problemas da família, eles são julgados estritamente pela ótica do padrão moral - não necessáriamente ético - corporal, como se política e economia não influenciassem a saúde e estabilidade da família e seus indivíduos. Isso gera profundas distorções nas orientações que brotam dos púlpitos e das salas de aconselhamento pastoral.

Por isso fiquei maravilhado com este texto. 

Recomendo.

(http://www.lupaprotestante.com/blog/economia-politica-para-teologos-y-cristianos-con-interes-1-alfonso-ropero-berzosa/)

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A Bíblia e os empobrecidos


Temos dúvidas quanto ao olhar especial de Deus para os empobrecidos? 

1. Moisés
       1.1. ““Não perverta o direito dos pobres em seus processos.”
‭‭(Êxodo‬ ‭23:6‬)

        1.2. "Sempre haverá pobres na terra. Portanto, EU ORDENO A VOCÊ que abra o coração para o seu irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de sua terra.” (Deuteronômio‬ ‭15:11‬)

2. Davi 
       2.1. "Mas os pobres nunca serão esquecidos, nem se frustrará a esperança dos necessitados.” (Salmos‬ ‭9:18‬)

       2.2. "Reparte generosamente com os pobres; a sua justiça dura para sempre; seu poder será exaltado em honra.” (Salmos‬ ‭112:9‬)

3. Salomão
       3.1. “Acolhe os necessitados e estende as mãos aos pobres.”
‭‭(Provérbios‬ ‭31:20‬)

        3.2. "Ele se compadece dos fracos e dos pobres e os salva da morte.” (Salmos‬ ‭72:13‬)

        3.3. "Quem zomba dos pobres mostra desprezo pelo Criador deles; quem se alegra com a desgraça não ficará sem castigo.” (Provérbios‬ ‭17:5‬)

        3.4. "Quem trata bem os pobres empresta ao Senhor, e ele o recompensará.” (Provérbios‬ ‭19:17‬)

        3.5. "Quem fecha os ouvidos ao clamor dos pobres também clamará e não terá resposta.” (Provérbios‬ ‭21:13‬)

       3.6. "Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”.” (Provérbios‬ ‭31:9‬)

4. Zofar 
       4.1. "Sim, pois ele tem oprimido os pobres e os tem deixado desamparados; apoderou-se de casas que não construiu.” (Jó‬ ‭20:19‬)

5. Jó 
       5.1. "Não é certo que chorei por causa dos que passavam dificuldade? E que a minha alma se entristeceu por causa dos pobres?” (Jó‬ ‭30:25‬)

6. Isaias 
       6.1. "Ai daqueles que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores, para privar os pobres dos seus direitos e da justiça os oprimidos do meu povo, fazendo das viúvas sua presa e roubando dos órfãos!” (Isaías‬ ‭10:1-2‬)

7. Ezequiel 
      7.1. "Seus profetas disfarçam esses feitos enganando o povo com visões falsas e adivinhações mentirosas. Dizem: ‘Assim diz o Soberano, o Senhor ’, quando o Senhor não falou. O povo da terra pratica extorsão e comete roubos; oprime os pobres e os necessitados e maltrata os estrangeiros, negando-lhes justiça.” (Ezequiel‬ ‭22:28-29‬)

8. Igreja de Jerusalém e Paulo 
      8.1. "Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer.” (Gálatas‬ ‭2:10‬)

Isso sem falar em Jesus e uma quantidade imensa de casos do Velho ao Novo Testamento que demonstram o interesse de pessoas tementes a Deus pela causa de empobrecidos.

Leiamos cada um desses textos e seus cotextos, com calma, em espírito de oração, e certamente escamas cairão de nossos olhos e nossa postura mudará diante desse assunto...

xxx

Em tempo:
Desafio 1. Coloque outros textos bíblicos que reforçam os ensinos de Deus para com empobrecidos;
Desafio 2. Coloque pelo menos UM texto bíblico que indica que NÃO devemos dar atenção aos empobrecidos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Comunidades de Diótrefes, inimigas de Barnabés

João era amado, Paulo era temido e diante de ambos havia uma porta. A porta estava fechada. Ambos queriam entrar, ambos desejavam se aproximar, conhecer e servir novas pessoas. Ambos tinham a missão de levar a Palavra. Mas havia um obstáculo: as portas estavam fechadas e eles não podiam entrar.

Portas se fecham para quem ama. Portas se fecham para quem tem histórico assustador. Elas não se fecham sozinhas, nem se fecham por acaso. Não importa o motivo: se estão fechadas, quem precisa, não pode entrar; quem precisa, não pode ouvir. E o reinado de Deus não pode avançar.

xxx

João era o discípulo amado. Como poucos, escreveu sobre o amor, discorreu sobre perdão, sobre ser luz,  verdadeiro, cooperador e hospitaleiro. Queria ter acesso à igreja, mas a porta estava trancada e Diótrefes detinha a chave.

Diótrefes ouviu a respeito de Jesus, envolveu-se com o povo de Jesus, assumiu a liderança de uma comunidade de Jesus, mas ou não conhecia ou não levava a sério ou esqueceu-se dos ensinos de Jesus.

"Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo;” (Mt. 20:26-27‬).  “Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei os seus pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Eu dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz.” (Jo. 13:14-15‬). Assim ensinou Jesus aos seus discípulos. Disso ele deu exemplo. Esse deveria ser o padrão de vida almejado.

Diótrefes, entretanto, queria ser importante e talvez tivesse medo de não ser, por isso usurpava o poder. Usava da difamação para prejudicar uma pessoa amorosa. Dividia a igreja. Fechava a porta para João.

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Paulo encontrou-se com Jesus. Sua vida mudou. Seu novo testemunho causava admiração. Mas continuava sendo temido e com razão. Participou do martírio de Estevão. Perseguiu os seguidores de Jesus. Deteve poder para prender "desviados". As notícias a seu respeito eram assustadoras. Seu currículo, portanto, não animava cristãos a  se aproximarem dele. Era legítimo que quem se reconhecia herege, se sentisse alvo em potencial e, por isso, se protegesse dele. Fechar a porta indicava medo.

Barnabé não conhecia a máxima de Abrahan Lincoln: "não gosto daquele homem. Preciso conhecê-lo melhor". Mas era homem bom, discipulador, de "bom testemunho, cheio do Espírito Santo e sabedoria". Era discípulo de Jesus, por isso aproximou-se de Paulo, conheceu sua história e decidiu ser ponte entre a igreja e ele. Tornou-se a chave que abriu a porta do coração do povo de Deus para acolher Paulo.

xxx

Vivemos tempos de desconfiança nas igrejas. O critério de seleção para aproximação não é mais a pessoa de Jesus e seu ministério de reconciliação, de demolição de muros de separação.  Antes, estamos nos tornando comunidade de porteiros com chaves do poder e medo patológicos.

Estamos nos tornando comunidades de neuróticos nos termos usados por Paul Tillich: "O neurótico é aquele que, tentando evitar o não-ser, evita o ser".  A missão agora é descobrir a tendência teológica, a opção político-ideológica e marginalizar, perseguir, eliminar.

Descartando Jesus, estamos nos tornando comunidades de Diótrefes, inimigas de Barnabés.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Conselhos ímpios de pios

Pior do que "conselho dos impios" são os conselhos ímpios de pios. É que, diante de alguém tido como ímpio, ficamos com os pés atrás, nosso coração se arma, se protege, se põe na defensiva, se cerca de cuidados, pois culturalmente foi introjetado em nós que palavra vinda de lábios incrédulos não merece aceitação. "Como é feliz aquele que não segue o conselho dos impios..." (Salmos 1:1:)

Quando, porém, estamos diante de pios, baixamos a guarda, o coração se abre, a alma se entrega, o senso crítico é desativado e tudo que deles ouvimos penetra nosso corpo, atinge nossa medula, sem nenhuma resistência.

O paradigma mental que norteia nosso juizo continua sendo o da Idade Média. Naquela fase da história, a força de um argumento não era medida pelo argumento, mas por seu autor. Se a pessoa era acadêmica, social ou religiosamente respeitada, sua palavra ficava acima de qualquer suspeita. Bastava a citação do autor e a discussão cessava.

Há conselhos, entretanto, que mesmo vindo de labios pios merecem um sonoro não. Quem não se lembra da reação de Amós diante do conselho do sacerdote Amazias ? (Amós 7:12). Ou da reação de Jesus diante do conselho de Pedro? (Mc 8:31). Ou da reação de Jó diante do conselho da esposa? (Jó 2:9).

Um conselho não é bom porque brotou de pessoa pia, nem mau por ter sido proferido por pessoa ímpia. Nem mesmo é bom por vir embalado em palavras ou textos bíblicos. Nisso Satanás foi experto; mas Jesus, muito mais. (Mt 4:5-7).

Palavras têm significados próprios e contextuais e quem as profere tem boas ou segundas intenções. Portanto, não julgar conselhos pelo autor, nem palavras pela embalagem, é recomendável.

Ore, reflita, pondere, avalie as consequências e decida por si. Sempre se lembrando do conselho de João: “amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” (1 João‬ ‭4:1‬)

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Democracia batista


Meu pai – Pr. Jovino de Oliveira - foi aluno do hoje inexistente Instituto Bíblico Batista do Estado de São Paulo, em Bauru, nas décadas de 60 e 70. Lembro-me de que as aulas eram em maio e setembro. Morávamos em Garça, por isso, nesses meses ele passava de segunda a sexta estudando e voltava nos finais de semana.  Quando voltava, ficávamos em torno do fogão à lenha ou em torno da mesa da sala ouvindo-o contar o que havia aprendido.

Nessas conversas recebi as primeiras aulas de democracia batista. Aprendi, primeiro, que quando as posições sobre determinado assunto não convergem, o norte a ser seguido pela igreja deveria resultar de decisão da Assembléia de Membros, pelo voto da maioria.

Aprendi, também, que antes de um assunto ser colocado em votação, abrir-se-ia oportunidade para discuti-lo. (Confesso que não gosto da expressão “discutir o assunto”. Discussão é uma palavra que pressupõe posicionamentos unilaterais firmados e tentativas de convencimento do outro por via de mão única: um fala, o outro também e nenhum dos dois parece ouvir. Prefiro a palavra diálogo: um fala, o outro ouve; um ouve, o outro fala, e assim caminha-se em busca de convergências).

Claro que é legítimo o processo de mútuo convencimento, mas as partes precisam acreditar que a construção do consenso deveria ser o objetivo desejado. Porém,  construir consensos só é possível quando há predisposição, primeiro, para admitir que não se é dono da verdade; depois, que é essencial colocar-se no lugar do outro para entender os motivos de sua visão e, finalmente, que as partes estão, de fato, ponderando a respeito do que ouvem visando construir um acordo que seja bom para todos.

Se, entretanto, em vez de diálogo, o espírito é de imposição, a democracia dá lugar à ditadura de uma maioria, ainda que rigorosamente conquistada pelo voto, dentro das regras democrático-estatutárias. É que, por falta de diálogo, uma parte sente-se vitoriosa por ter obtido apoio da maioria, mas terá que lidar com a crescente pressão da minoria que não se sentiu pelo menos ouvida e compreendida, além de “derrotada” no voto.

Isso gera conflitos, omissão na cooperação, afastamento até de participantes por insatisfação, não pelo resultado em si, mas pelo processo, além de desviar o foco de atenção da igreja de sua missão, perdendo-se energia, tempo e dinheiro e enfraquecendo o desenvolvimento de sua missão.

A partir daquelas conversas com meu pai, aprendi que democracia não seria simplesmente a prevalência da vontade da maioria, mas também uma busca continua por compreensão dos pensamentos, sentimentos e necessidades das minorias, visando garantir a elas a dignidade essencial para continuar caminhando com o grupo.

Aprendi ainda que, quando se é parte da minoria vencida pelo voto, a vitória da maioria deveria ser reconhecida, a postura de respeito à decisão deveria ser cultivada e o espírito de oposição não deveria falar mais alto do que o de lealdade às regras democráticas do jogo.

Aprendi, finalmente, que a postura crítica não deveria ser sufocada, mas pautada na racionalidade que visa abrir caminhos à continuidade de entendimentos e esclarecimentos e à convivência construtiva, e não na passionalidade que agride, obscurece, afasta e nos desvia da finalidade desejada pela igreja.

Sinto falta do obsoleto fogão à lenha e das benditas conversas sobre democracia batista. Quanta falta eles  - o fogão e as conversas - nos fazem nestes tempos de crescimento das polarizações ideológico-teológico-doutrinárias e de desaparecimento de consensos. Tempos nos quais os resultados imediatos dos nossos empreendimentos religiosos são mais importantes do que a vida dos cooperadores envolvidos. Tempos nos quais temos acesso a modernas técnicas de marketing e a meios de comunicação digitais, mas que são usados apenas como via, repito, de mão única através dos quais queremos e podemos nos fazer ouvir, mas estamos perdendo o interesse e a capacidade de parar para ouvir.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Por um Brasil movido pela graça


Muito feliz a idéia da Junta de Missões Nacionais de escolher a frase “movidos pela graça”  como tema de sua campanha 2018.  Ao lê-la, pus-me a pensar no que teria passado pela cabeça dos que participaram do processo decisório. É que a escolha de tema de campanha de qualquer natureza não se dá no vácuo. Há um contexto sócio-cultural e uma realidade que se pretende influenciar, preservar ou alterar. Palavras significam muito mais do que palavras.

Sejam quais tenham sido as constatações responsáveis pela escolha, “movidos pela graça” foi de uma felicidade imensa, pois poucas palavras têm o poder que a graça tem de tornar mais saudável e feliz a vida de indivíduos e grupos.

Provavelmente constatou-se que o que tem movido pessoas nas igrejas e fora dela não seja o que seria mais recomendável, desejável, benéfico, se fosse adotado como paradigma pelo conjunto da população. Provavelmente se percebeu a existência de referenciais de pensamento e de conduta que não deveriam fazer parte da vida daqueles que se declaram seguidores de Jesus, partícipes do Reino de Deus.

Pensei nessa direção por lembrar-me de como, no Sermão da Montanha – a constituição do Reino de Deus -, há uma tônica na fala de Jesus insistindo no arrependimento, isto é, na mudança de mentalidade, na mudança de modelos mentais que determinam a conduta.

Jesus sabia que somos guiados por modelos que são introjetados em nossa mente ao longo da vida, expressos em frases curtas e que moldam nossos relacionamentos. Quem nunca ouviu, por exemplo: “lugar de mulher é na cozinha” ou “homem nenhum presta” ou “todo político é ladrão” ou “pastor só pensa em dinheiro”  ou “homem que é homem não chora” ou “quem pode manda, quem tem juízo obedece” e por aí vai.  São paradigmas que repetimos e, no fundo, determinam nosso modo de ser e tratar o próximo.

Por isso ele dizia: “ouviste o que foi dito”, “eu porém vos digo”. Ele estava provocando um repensar de conceitos culturais norteadores de ações.

Na cultura dominante as pessoas eram movidas pelo legalismo. Pessoas legalistas têm dificuldade para compreender que, conquanto as leis sejam necessárias e devam ser obedecidas, nenhuma delas é capaz de abarcar todas as possibilidades de situações que envolvem a vida humana. Não percebem que as relações interpessoais não são uma equação matemática e, por isso, repito, conquanto as leis sejam importantes, a cosmovisão regida estritamente pela lei, sem considerar seu espírito, acaba matando.

Na cultura dominante as pessoas eram movidas pelo moralismo. Embora a moral, isto é, costumes e tradições que determinam o modo de agir, tenha sua importância, ninguém é obrigado a repetir comportamentos simplesmente porque “sempre foi assim”. Houve tempo em que o paradigma era: “crente não vai ao cinema”. Na IB de Garça, SP, onde fui batizado, há uma ata que deliberava exclusão automática de quem fosse ao cinema. Hoje não. “Mulher crente não usa calça comprida”. Quando a I.B. Emanuel em Boa Viagem, Recife, na década de 60, liberou o uso de calças compridas pras mulheres em função dos maruins, foi chamada de liberal. Hoje não.

Quando Jesus declarou "Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” (Mt. 5:43) ele estava dizendo não à cultura do ódio. O paradigma vigente era odiar o inimigo, mas sob a égide do reinado de Deus o paradigma deveria ser: “amem os seus inimigos”. E a justificativa de Jesus era: Deus não manda sol e chuva somente para bons e justos, mas também para maus e injustos. Deus é amoroso e assim como ele é perfeito em amor – “vínculo da perfeição” (Col. 3:14) e “caminho mais excelente” (I Cor. 12:31) – assim devemos nós também ser (Mt 5: 43-48).

Estamos vivendo dias de extremismos. Símbolos de morte ganham espaços, são acolhidos até em igrejas e disputam nossos corações. A cultura do ódio recebe aplausos. A corrupção que ilicitamente enriquece alguns e condena milhares à morte por falta de recursos é a regra. O moralismo irrefletido está na crista da onda. O crescimento da arrogância doutrinária que humilha a divergência e se pudesse mataria o divergente, é sem igual.

Desafiar, portanto, nesses tempos, a nos movermos pela graça é de uma oportunidade extraordinária. Parabéns Junta de Missões Nacionais. Que o povo batista brasileiro entenda o recado e adote o paradigma.
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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Candidato imaginário

A maioria absoluta de nós eleitores dificilmente já chegou ou chegará perto do candidato que escolheu para representá-lo no Congresso ou para dirigir o Poder Executivo do Estado ou do País. O percentual dos que podem chegar a um metro deles, mesmo em período de corpo a corpo eleitoral, é mínimo.

Por isso, o que a maioria de nós pensa de um candidato é o que as empresas de propaganda contratadas por eles acreditam que devemos pensar para que nos convençamos a votar neles; é o que terceiros - aliados ou adversários - falam ou divulgam a respeito deles nos meios de comunicação ou, ainda, é aquilo que deduzimos, a partir do que chegou ao nosso conhecimento, sobre o que ele já fez na vida.

Alguns privilegiados com "olhos e ouvidos clínicos", com a capacidade de abstração mais desenvolvida, conseguem perceber algo mais a respeito dos candidatos, através do modo como falam, se movimentam e com quem se relacionam. Mas tudo fica no campo da impressão, da imaginação.


A escolha que a quase totalidade de nós faz, se dá com base no que imaginamos e, sobretudo, no que desejamos. Imaginamos porque desejamos. Projetamos no candidato aquilo que nosso coração anseia ou rejeita. Transferimos para eles os desejos de ser ou não ser do nosso coração, as necessidades do nosso corpo.

O problema é que os candidatos não são a encarnação dos nossos desejos e necessidades. Eles encarnam seus próprios desejos e necessidades. As vezes nem isso.

Alguns deles, excepcionalmente, incluem os desejos e necessidades de uma coletividade, como parte de seus desejos e necessidades. Se fizermos parte dessa coletividade encarnada pelo candidato, nos sentiremos contemplados com sua eleição. Se não, nos frustraremos. Daí, ou continuamos a luta, fazendo oposição a ele ou desesperançados, nos tornamos indiferentes à política

Uma vez eleito, um candidato isoladamente pode muito, mas pode muito menos do que declaram e nós, eleitores, imaginamos. Conquanto seu papel seja importante, decisivo em muitos casos, ele é parte de um sistema no qual o jogo de interesses é imenso e as forças que disputam o poder em seu próprio favor e não da coletividade é assustadora. Por isso, nem mesmo o que ele declara e deseja é exequível da forma como imagina ou discursa.

O momento eleitoral é importante porque traz à tona muitos dos desejos, sonhos, ideais, crenças, individuais e coletivos, pelos quais lutamos. Mas não podemos agir ingenuamente, muito menos delirar. É hora de manter os pés no chão. Nenhum candidato imaginário merece que desrespeitemos uns aos outros ou briguemos uns com os outros por ele.

sábado, 8 de setembro de 2018

Valorização, caminhada e separação ministerial

Um colega de ministério, após um ano de pastorado, resolveu deixar a igreja, sem outro convite, por não se sentir valorizado. Em roda de amigos, ele alterava o tom da voz e dizia: "agora eles verão o que perderam e vão valorizar". Estava enganado. Se caminhando com a igreja não foi capaz de fazê-la valorizá-lo, muito menos conseguiria afastando-se dela.

Ele não percebia que quando nos sentimos desvalorizados o sentimento é nosso não da igreja. De nada adianta esperar ser valorizado pela igreja  se, primeiro, não identificarmos com clareza aquilo que nós valorizamos, aquilo que a igreja valoriza e, a partir disso, refletirmos se nossas escalas de valores poderão ser afinadas ou não.

É comum quando um pastor fala em não se sentir valorizado, estar se referindo ao sustento material. Nesse caso, em vez de sentir-se desvalorizado, melhor seria tratar da questão de forma objetiva, com a liderança, em termos financeiros. Se o que recebe não é compatível com as necessidades dele e se o que a igreja oferece está aquém das possibilidades dela, um bom diálogo talvez resolva.

Se, entretanto, o distanciamento entre necessidade pastoral e possibilidade da igreja se mantiver, melhor seria o pastor continuar dando o melhor de si, intensificar suas orações em busca de orientação divina, compartilhar com amigos, dentro da ética, sem murmuração, que está aberto a mudar-se, partindo quando outra porta se abrir.

Continuar trabalhando e agindo dentro da ética é essencial. Se isso não é valorizado por alguns, por outros é. Alguém perceberá a postura, reconhecerá afinidades e se interessará pelo trabalho.

Quando um pastor e uma igreja - especialmente sua liderança - não se afinam em questões NÃO financeiras, isso não quer dizer que um seja melhor do que o outro, mas que aquilo que um valoriza é diferente do que é valorizado pelo outro. Quando a descoberta dessa diferença se dá na caminhada, o único meio para se sair do impasse é o do diálogo.

Diferenças de níveis em escalas de valores são próprias em todo tipo de relacionamento humano. Há diferenças em níveis suportáveis e há  diferenças acentuadas, em pontos tão relevantes, que a convivência se torna estressante, doentia. Nesse caso, ou se equaciona via diálogo, ou se desenvolve resignação consciente enquanto procura uma saída ou, na pior das hipóteses, se separa de forma tão amistosa quanto possível.

Nenhum pastor encontrará uma igreja com a qual se afina 100% naquilo que valoriza, nem uma igreja encontrará um pastor à sua imagem e semelhança. (Nem esse é o propósito do ministério, pois  Deus nos criou diferentes e o referencial de harmonia que perseguimos está em Jesus). Daí a importância do processo de sucessão pastoral. Nele, a igreja pode listar elementos relevantes de sua forma de ser, classificá-los em níveis para facilitar as decisões de escolha (ex.: muito importante, importante, pouco importante e sem importância) e assim se nortear nos encaminhamentos sucessórios.

Da mesma forma, o pastor que se envolve nesse processo, precisa ter conhecimento mínimo do perfil da igreja, do que ela valoriza e comparar com o seu perfil, sua escala de valores, a fim de avaliar se conseguiria caminhar ou não com as diferenças já reconhecidas na escala de ambos. Isso não é garantia de sucesso na caminhada, mas é um bom começo.

Na caminhada, diferenças e afinidades se acentuarão até porque o movimento de entradas e saídas de membros é dinâmico, a alteração das pessoas que ocupam cargos na igreja faz parte do calendário e estrutura jurídica em face do modelo democrático-congregacional batista adotado e, consequentemente, sempre haverá uma tensão saudável entre pastor e igreja - repito, especialmente sua liderança - no exercício das atribuições que lhes conferem poder.

As consequências disso são imprevisíveis, pois o ser humano é uma caixa de surpresas. Deseja-se, entretanto, que haja maturidade, respeito mútuo e diálogo em níveis que possibilitem a caminhada em torno da missão, visão, valores, objetivos e metas da igreja.

Deseja-se. Quando não se consegue, que se avalie os possíveis traumas da separação e adote-se medidas e posturas tão justas e amorosas quanto as circunstâncias permitirem visando minimizar as dores. Assim separem-se, como fizeram Paulo e Barnabé, por exemplo, que tiveram uma bela caminhada ministerial juntos, mas, em dado momento, optaram por separarem-se diante de impasse profundo. (Atos 15:36-41). Isso não é demérito pra nenhum dos lados, é apenas uso acertado da razão, é sabedoria.



quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Fortalecendo o desejo de participar da igreja


“Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns...” (Heb. 10:25)
  
Cresce a população de “desigrejados” no Brasil. O adjetivo “ex-evangélico” está se popularizando. O slogan “cristo sim, igreja não”, famoso na década de 70, usado como mote para arrebanhar insatisfeitos com igreja, está retornando aos nossos ouvidos. E alguns de nós, líderes de igrejas, continuamos preferindo escrever  “pecador” na testa de quem se afasta da instituição a fazer autocrítica a respeito dos possíveis “pecados da igreja”, causadores disso.

Pensando no assunto, reporto-me a 4 versões do texto de Hebreus 10:25. Na primeira – Almeida RA -  leio que não devemos deixar “de congregar-nos”. Na segunda – A Bíblia de Jerusalém -, que não devemos deixar “as nossas assembléias”. Na terceira – A Mensagem - , que não devemos “evitar as reuniões de culto”. Na quarta – NVI –que não devemos “deixar de reunir-nos, como igreja”.

Os termos das versões suscitam lembranças e sentimentos diferentes. Nas três últimas -  BJ, Mensagem e NVI - aparecem “assembléias”, “reuniões” e “cultos”. Eles nos lembram atividades formais da instituição igreja. Já a primeira –ARA – foca no ato de congregar-se. Esse nos remete à idéia simples de estar com gente.

Se considerarmos que boa parte dos afastamentos de pessoas da vida eclesiástica não ocorre porque elas não gostam de “estar com gente”, muito menos por não gostarem de estar com Deus, mas porque se cansaram de experiências desagradáveis nas “assembléias”, “reuniões” e “cultos”, isso pode ser uma boa pista para tratar os que se afastam.

Enquanto estar com gente na igreja aponta mais para possibilidades de exercício do amor, da comunhão, da solidariedade, do crescimento pessoal através do conhecimento e aceitação mútuos, estar em “reuniões”, “assembléias” e “cultos” de algumas igrejas provoca, muita vez, conflitos e indignação por aquilo que se ouve, se vê, enfim, se percebe, especialmente na forma negativa como o exercício do poder se manifesta neles.

Sem a consciência dos nossos “pecados” que contribuem para o afastamento das pessoas, não adianta pregar que teologicamente “o isolamento não faz parte dos ensinos cristãos”, que “devemos olhar pra Jesus e não para as pessoas” ou que “igreja é assim mesmo, todos somos pecadores”, pois isso dificilmente trará pessoas de volta à comunhão.

Nem adianta, também, usar a manipulação como forma de atrair pessoas. O uso de artifícios em igrejas, ainda que legítimos e bem intencionados, não substituem o poder que a vivência e o ensino simples e honesto da vida de Jesus têm, quando levados a sério principalmente por nós que ocupamos cargos ou funções de liderança.

A manipulação tem o poder de atrair pessoas para eventos religiosos, especialmente àqueles caracterizados por arte, com ou sem catarse, e até de inspirá-las a contribuir financeiramente. Isso, porém, além de ser insuficiente para alterar a comunhão cotidiana das pessoas com Deus ou, muito menos, alterar a escala de valores ético-espirituais dos participantes, isso, repito, não é capaz de gerar fidelidade espiritual ou compromisso com o reino de Deus.

É importante reconhecer que são muitos os motivos que levam pessoas a freqüentar uma igreja e que recriminá-las por isso é ineficaz. Mais importante ainda é que nós líderes busquemos conhecer em profundidade a razão de ser de uma igreja à luz da vida, missão e ensinos de Jesus, a fim de ajudar os participantes a se congregarem movidos por eles.

Alimentar a presença por dever religioso, pela beleza retórica do sermão pastoral, pela qualidade ou estilo artístico-musical utilizada, enfim, por aquilo que a instituição tem a oferecer aos sentidos, sem “trazer à memória aquilo que nos dá esperança”, isto é, a vida comprometida com o misericordioso Jesus, o Cristo de Nazaré, isso é “hamartia”, é desvio de propósito, é pecado e causa  afastamento de muita gente do convívio eclesiástico.

Não temos, como igreja, o poder de impedir que pessoas escolham viver longe da comunhão com Deus ou com o “corpo de Cristo”, nem mesmo que participem por motivos secundários, mas podemos estar atentos, empenhados em remover de nossas vidas, como igreja, aquilo que serve de obstáculo à comunhão das pessoas, ao desejo e necessidade que todos têm, ainda que em níveis diferentes, de viver “congregados”.

Isso – a remoção de obstáculos - é possível se humilde e graciosamente fizermos auto-crítica, avaliando permanentemente  atitudes, comportamentos e discursos  adotados em nossas “assembléias”, “reuniões” e “cultos”. Isso ajuda a fortalecer o desejo das pessoas de se congregarem, de estarem juntas, e nos dá autoridade para dizer: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns...” (Heb. 10:25).

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Em tempos de escassez financeira


"Conservem-se livres do amor ao dinheiro e contentem-se com o que vocês têm, porque Deus mesmo disse: "Nunca o deixarei, nunca o abandonarei". (Heb. 13:5)

Ninguém vive sem dinheiro no modelo de sociedade do qual fazemos parte. Seja na manutenção individual, seja na de um empreendimento de qualquer natureza, não há passo dado que ele não seja incluído, direta ou indiretamente. Se ele não sai do nosso bolso, sai do bolso de alguém. Ele é o sangue operacional de qualquer ação na qual se possa estar envolvido. Se assim é, como compreender e levar a efeito a recomendação bíblica aos Hebreus, relativa a dinheiro?

Primeiro, reconhecer que o texto não demoniza o dinheiro, não o adjetiva pejorativamente, nem propõe ou sequer insinua que ele deva ser eliminado de nossa vida. Nem mesmo Jesus Cristo em sua passagem por este planeta viveu sem ele. Judas era tesoureiro do seu grupo de discípulos (Jo. 12:6) e, dentre as pessoas que investiam em seu ministério, lá estavam “Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Susana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens.” (Lc. 8:3).

Segundo, estabelecer princípios que norteiem a maneira como nos relacionamos com o dinheiro, a fim de que ele não ocupe o controle de nossos corações, nem se torne o deus de nossa existência. Até porque, a experiência mostra que aqueles que não se relacionam adequadamente com o dinheiro – na fartura ou na escassez -  não apenas tornam-se vítimas de males, mas também causam prejuízos à vida alheia. Quem não é capaz de relacionar-se adequadamente com ele, certamente sofrerá mais na falta dele.

Terceiro, identificar o tipo de sentimento que o dinheiro provoca em nós e nós nutrimos por ele. O texto recomenda que o amor não deve ser a atitude a prender-nos ao dinheiro; que ele não deve ser a inspiração de nossa vida. É lei no primeiro testamento bíblico, explicitamente ratificada por Jesus, no segundo, que o amor a Deus deve estar acima de todas as coisas – dinheiro, inclusive – e deve ser canalizado ao próximo como a si mesmo. Paulo chega a advertir que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos o males”.

Quarto, empenhar-se para adequar a vida às condições financeiras reais. Investir no que precisa, não no que deseja. Contentar-se com o que tem é o estado de uma pessoa que tornou-se capaz de reger suas emoções não pelo que acontece ao  redor, mas pelas atitudes que desenvolveu em seu coração. O dinheiro não deve ter o poder de determinar como nos sentimos, antes, nós devemos ter o poder de definir como nos sentirmos na fartura ou escassez.

Essa atitude não é natural, é fruto de aprendizado. Paulo, por exemplo, declara ter aprendido a relacionar-se com a realidade. Pelo fato de Cristo ter se tornado o lucro de sua vida e todas as demais coisas, esterco (Fil. 3:7-8), ele diz: “... aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” (Fil 4:11-13)

Por último, desenvolver a confiança naquele que é nosso criador, bem como de todas as coisas. Isso não significa parar de agir em busca do sustento, mas também não se deixar derrotar emocionalmente quando ele é escasso. Na falta de dinheiro, importante é avaliar o que realmente é indispensável à sobrevivência, rever detalhadamente as despesas, colocar a cabeça para pensar em como fazer dinheiro, tudo isso sem perder a confiança de que há alguém, para além do que nossos sentidos percebem, capaz de nos responder e nos dizer, como declara Jeremias (3:33), “coisas grandes e insondáveis” que não conhecemos. Confiar, orar e agir, sem desanimar, “porque Deus mesmo disse: "nunca o deixarei, nunca o abandonarei".

sábado, 18 de agosto de 2018

De passagem pelos “quarenta” - Uma palavra sobre momentos de aflição


Quarenta é um número simbólico. Aparece muito mais vezes no Primeiro Testamento bíblico do que no Segundo. Quando se refere a tempo, não se trata de um número exato, mas de  um longo período. Não tem, portanto, sentido literal, cronológico, mas existencial, psicológico.

Algumas vezes, nas histórias bíblicas,  refere-se a experiências que podem ser classificadas como positivas, como no caso dos espias de Israel fazendo, durante quarenta dias, reconhecimento de terreno. Ou do reinado de Otoniel, caracterizado por 40 anos de paz. Ou ainda no caso dos discípulos que passaram quarenta dias na companhia de Jesus, após a sua ressurreição, ouvindo sobre o reino de Deus.

Na maioria das vezes, entretanto,  está relacionado a experiências de aflição pelas quais os envolvidos talvez preferissem não ter que passar. Nesse sentido, poderia citar:
1. Quarenta dias de dilúvio;
2. Quarenta anos do povo de Israel no deserto;
3. Quarenta anos de Israel à base de maná após a fuga do Egito;
4. Quarenta anos até que o anjo aparecesse a Moises no Monte Horebe;
5. Quarenta dias entre o desejo de morrer de Elias e o encontro com Deus no Monte Horebe;
6. Quarenta anos de Israel sendo oprimido pelos filisteus;
7. Quarenta dias de Israel sendo ameaçado pelo gigante Golias;
8. Quarenta dias de agonia de Jonas, proclamando a destruição de Nínive;
9. Quarenta dias de Jesus sendo tentado no deserto.

É sempre longo, o tempo vivido em meio a aflições. Parece interminável. Sentimos a angústia de cada minuto sem conseguir enxergar uma luz em meio a trevas. Quando um raio de luz aparece distante, o sentimento é de dúvida, de pessimismo, imaginando mais uma possibilidade de prolongamento da nossa dor.

Todos temos uma história de  “40” pra contar. Uns, 40 minutos; outros, 40 dias; outros, ainda, quarenta anos. Alguém pode afirmar que nunca passou pelos “40”?

Quando podemos olhar pra trás e constatar que superamos um “40”, que o período de “vacas magras” passou,  tenha sido ele uma crise conjugal, uma enfermidade, um problema de natureza financeira, um tempo de desemprego, uma experiência sob o domínio do pecado, uma fase sentindo-se marginalizado ou mesmo uma experiência de amargura religiosa, enfim, estampamos no rosto um misto de reflexão de quem amadureceu e de alegria que marca quem carrega o troféu da vitória. 

Quando, entretanto, estamos passando por um deles a dúvida domina; a desconfiança faz com que pensemos que todos estão contra nós;  a solução do problema parece sempre estar no horizonte; o sono nos abandona; as noites se tornam uma eternidade; a ansiedade – desejo intenso de trazer o futuro desejado para o presente indesejado  – alcança níveis doentios e parece que o estômago quer sair pela boca.

Nesses tempos de “40”, o que muito precisamos não é primeiramente a solução para nossa dor, angústia, ansiedade, tristeza, seja lá o que for, mas a presença de gente que nos faça companhia, que nos ajude a superar a sensação de solidão, que seja capaz de nos ajudar a encontrar um significado plausível para continuarmos lutando, que seja, enfim, capaz de alimentar nossa esperança – aquilo que os olhos viram, mas o corpo ainda não experimentou.

Nesses tempos de “40”, precisamos de gente que nos ajude a confiar que “o choro pode persistir uma noite, mas de manhã irrompe a alegria” (salmos 30:5). Ou que nos ajude a recordar que “ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo” (salmo 23:4). Ou ainda, alguém que seja regido pelo sentimento do profeta Jeremias que, em meio aos erros e sofrimentos do seu povo, decidiu trazer à memória aquilo que pudesse alimentar a esperança (Lam. 3:21).

Em última análise, de passagem pelos “40”, precisamos crer ou de alguém que creia que: “quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “A morte foi destruída pela vitória”. “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?” O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Mas graças a Deus que nos dá a vitória por meio do nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil.” (I Cor. 15:54-58)