sábado, 25 de setembro de 2010

A mídia comercial em guerra contra Lula e Dilma

Por Leonardo Boff

Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso” pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.
 

Esta história de vida, me avaliza fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa.
Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.
Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública.

São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, em que se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do país, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascendente como Lula.

Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de “fazedores de cabeça” do povo.

Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceitual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros.

De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa se fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, a melhorar de vida, enfim.

Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão social e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome.

Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil.

Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. 
A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela Veja faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais, não somente com referência à terra, mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista? Ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes?

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

Teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

We who believe in freedom cannot rest



"Ella's Song", based on the life and writings of Ella Jo Baker, the intellectual and spiritual mentor of the Student Non-violent Coordinating Committee (SNCC).

We who believe in freedom cannot rest
We who believe in freedom cannot rest until it comes
We who believe in freedom cannot rest
We who believe in freedom cannot rest until it comes

Until the killing of black men, black mothers' sons
Is as important as the killing of white men, white mothers' sons

We who believe in freedom cannot rest
We who believe in freedom cannot rest until it comes

That which touches me most is that I had a chance to work with people
Passing on to others, that which was passed on to me

We who believe in freedom cannot rest
We who believe in freedom cannot rest until it comes

To me young people come first, they have the courage where we fail
And if I can but shed some light, as they carry us through the gale

We who believe in freedom cannot rest
We who believe in freedom cannot rest until it comes

The older I get the better I know that the secret of my going on
Is when the reins are in the hand of the young, who dare to run against the storm

We who believe in freedom cannot rest
We who believe in freedom cannot rest until it comes

Not needing to clutch for power, not needing the light just to shine on me
I need to be one in a number, as we stand against tyranny

We who believe in freedom cannot rest
We who believe in freedom cannot rest until it comes

Struggling myself don't mean a whole lot, I've come to realize
That teaching others to stand and fight is the only way my struggle survives

We who believe in freedom cannot rest
We who believe in freedom cannot rest until it comes

I'm a woman who speaks in a voice and I must be heard
At times I can be quite difficult, I'll bow to no man's word.

We who believe in freedom cannot rest
We who believe in freedom cannot rest until it comes

sábado, 18 de setembro de 2010

Fazer missões


Somos o que somos porque nos relacionamos, nos percebemos, nos enxergamos, nos ouvimos, nos tocamos, nos comunicamos. No outro nos vemos e existimos. Por isso, com o outro trocamos palavras, afetos e experiências. Na troca, nos construímos e reconstruímos durante toda a caminhada da vida.


Compartilhamos nosso saber em todas as áreas da existência visando uma caminhada individual e coletiva mais feliz. Trocamos conhecimentos e experiências nas áreas da saúde, economia, lazer, transporte, comunicações, enfim, em todas as áreas que afetam nosso ser no mundo.


Não poderia ser diferente, portanto, na área espiritual. Nela também temos necessidades a serem atendidas e experiências e conhecimentos a serem compartilhados. A esse compartilhar damos o nome de “missão”, na linguagem religiosa.


Por ser algo essencial à existência, por haver manifestações inequívocas dos profundos prejuízos que a falta de cuidado com esta dimensão da vida causa à individualidade e a coletividade, temos o forte impulso de buscarmos permanentemente respostas para nossas inquietações. Quando as encontramos, não resistimos ao desejo de dividir não somente com os que nos cercam, mas também com os que estão distantes de nós.

Claro que diferentes motivações podem brotar, quando nos unimos a outras pessoas com experiências semelhantes e nos organizamos institucionalmente em grupos chamados de igrejas para aprofundar e difundir tais experiências e conhecimentos. Se não ficarmos atentos, tais motivações podem sufocar as razões que nos levaram a nos unirmos.


Exemplo disso é quando a igreja passa a ser um empreendimento meramente econômico, visando aumentar sua receita e patrimônio ou movimento político, visando impor seu modo de ver a vida a todos os demais seres.


É inevitável que elementos da economia ou da política transpareçam em nossas ações, pois a vida é fruto de um conjunto de sistemas que se interrelacionam. Porém, precisamos ter clareza de qual é a motivação central de nossa existência institucional, a fim de não a sufocarmos.


Nossa motivação nos impulsiona a fazer missões a partir do que somos e a apoiar outros a fazerem missões, a partir do que são. É a partir da visão de que temos diferentes dons que entendemos o agir missionário de cada pessoa no mundo.


Isso deve nos levar a entender que fazer missões não é uma atividade na qual a igreja é vista como uma empresa de pesca competindo para provar sua capacidade de pescar mais do que empresas da mesma natureza e até, se possível, pescar peixes da concorrente. Fazer missões é compartilhar o que somos e temos visando ajudar na construção de uma vida mais feliz a partir do que cremos ser revelação divina para sua criação.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Gracias A La Vida - Mercedes Sosa

Em tempos de mensagens que visam embaçar nossos olhos, com informações falsas, beligerantes, nada como agradecer pela capacidade de enxergar, de distinguir!




Gracias a la Vida
de Violeta Parra ( Tradução de FL)

Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto
.
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mais dez "razões" pra "evangélico" não votar em Dilma

"10) Foi a Dilma que mostrou o fruto proibido a Eva;

9) Moisés rodou 40 anos no Deserto do Sinai, porque Dilma escondeu o mapa;

8) Deus ia fazer o mundo em 4 dias mas houve atraso na obra do PAC;

7) A Al-Qaeda era só um grupo de árabes nerds, fãs de RPG e aeromodelismo, até conhecerem a Dilma;

6) Dilma gostava de apertar campainha e sair correndo. "Ela fez isso duas vezes na minha casa", revela ex-vizinha indignada;

5) Folha de São Paulo: "Descoberto plano de Dilma para secar o Aquífero Guarani";

4) Erro de Dilma nos cálculos provocou inclinação da Torre di Pisa;

3) Dilma Roussef inventou a vuvuzela;

2) Folha de São Paulo: "Dilma lava as mãos, Cristo é crucificado"

E o #1 entre todos os #DilmaFactsByFolha:
1) Serra lamenta: a Dilma me indicou o Shampoo."
Autor desconhecido (com adaptações de título e ilustrações minhas, com imagens disponíveis na rede)
...
Moral da história: Quando a nossa predisposição é contrária, qualquer razão se torna uma forte razão, seja qual for o candidato de nossa preferência. 
...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Meu primeiro batismo por aspersão


Hoje é aniversário de Gláucia, meu dia de folga, numa semana em que completo 27 anos de ministério pastoral. O céu está claro e o sol maravilhoso, depois de um domingo extraordinariamente abençoador.


Ontem  16 pessoas adultas foram batizadas pela manhã, num culto em que todos os espaços do auditório foram ocupados e muita gente ficou do lado de fora. Pr. Amauri Munguba Cardoso trouxe-nos a mensagem. À noite celebramos a Ceia do Senhor, num ambiente não menos acolhedor, com pessoas afirmando publicamente seu desejo de viverem uma vida norteada pelos valores do Reino de Deus.


A novidade, entretanto, foi o batismo de Dona Pomposa, o primeiro por aspersão, por mim realizado.


Dona Pomposa tem 93 anos de idade. Já não ouve tão bem, está encurvada e anda sempre com o apoio de alguém. Frequenta assiduamente as reuniões da 3ª idade promovidas pelo Cecom/IBG e é avó de Marcela, competente líder do ministério com surdos da Igreja.


Passou a ler regularmente sua Bíblia e, há algum tempo, fez sua decisão de seguir a Jesus. Uma das primeiras manifestações de desejo, neste novo momento de sua fé, foi pedir que os símbolos religiosos antigos, fossem  retirados das paredes de sua casa. Diante da resistência de filhos, de atender seu desejo, ameaçou ela mesma subir numa cadeira e retirá-los. Segundo testemunho, o desejo foi atendido, por conhecerem sua determinação e temerem uma operação tão arriscada na idade dela.


Com a mesma determinação decidiu que queria ser batizada. Foi dando cada passo do processo, até passar pelo Conselho Diretor e ser aprovada pela Assembléia de Membros da Igreja. Nesse processo eu ficava indagando com meus botões: como realizarei este batismo? Ela é muito idosa e pode haver complicações em termos de saúde. Poderia ocorrer problemas ortopédicos, pulmonares, enfim. Pensando nisso, decidi que ela seria batizada por aspersão.


Já sei - dirá um fundamentalista - não existe “batismo por aspersão”, pois, etmologicamente, a palavra batismo quer dizer mergulho. E Paulo, quando se refere ao batismo, usa a imagem do sepultamento (Rom. 6.4; Col.2.12).


Sei muito bem tudo isso. Meu pai converteu-se no presbiterianismo, mas tornou-se batista por entender que a forma neotestamentária do batismo seria a imersão. Então, esse dado foi muito forte em minha trajetória de vida. 
Se não bastasse isso, minha formação cristã se deu numa igreja batista influenciada por missionários batistas do sul dos Estados Unidos, cujo discurso trazia fortes traços do anticatolicismo.  Portanto, forma de batismo era dado extremamente relevante. Chegava a ser argumento para distinguir uma igreja "bíblica" de outra não "bíblica", claro, pra mostrar a superioridade "bíblica" da que fazíamos parte.


Mas cresci, ganhei asas, desenvolvi meu senso crítico, ampliei meu universo de diálogos e leituras e tornei-me um pouco mais autônomo e honesto comigo mesmo. Assim, conquanto mantenha a compreensão da forma mais evidente de batismo no Novo Testamento, entendi que o mundo dos símbolos não é regido por etmologias ou figuras de linguagem; que suas razões têm vida própria; que símbolos podem fazer parte da cultura de uma coletividade, mas  só é efetivamente relevante quando está integrado ao mundo significativo da individualidade.


Por ter aprendido, desde a minha Profissão de Fé para o batismo, em fevereiro de 1968, que batismo não salva; que batismo é símbolo; que o verdadeiro batismo é o efetuado pelo Espírito Santo no ato da entrega da vida a Cristo, decidi que dona Pomposa seria batizada por aspersão.


Foi emocionamente vê-la sendo conduzida para dentro do batistério, bem maquiada, com um largo sorriso no rosto, declarando sua fé em Jesus, ouvindo: “como ministro do evangelho, devidamente autorizado por esta igreja, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém” e, em vez de ser mergulhada, receber um punhado de água sobre a cabeça e ouvir a igreja inteira aplaudir, ratificando tão belo testemunho de fé.


Foi o primeiro em centenas de batismos já realizados. Continuarei seguindo a compreensão da imersão. Não tenho nenhuma inclinação para ser apologeta da aspersão, nem, muito menos, intenção de dar ao assunto relevância além do que efetivamente merece, pois, parafraseando Paulo: De nada vale ser batizado ou não. O que importa é ser uma nova criação.(Gal. 6.15)

Quando o amor adoece

por Daniel Rocha*


Fomos criados por Deus para o amor. Uma pessoa verdadeiramente autêntica é alguém que não bloqueou o amor de Deus em sua vida. Nela, há plenitude, há alegria, há compreensão, há aceitação de si mesma e do outro. E ali não existe o medo, que tantas limitações traz, pois o verdadeiro amor lança fora o temor (1Jo 4.18).

Entretanto, como tudo aquilo que é verdadeiro e sadio é susceptível de se tornar falso e enfermiço, o amor também pode adoecer. Quando encontramos alguma pessoa “difícil” pela frente, não significa que ela não tenha amor – ela tem, mas o seu amor está adoecido. O que é o orgulho, senão o excesso de amor-próprio que não consegue olhar o outro? O que é o ressentimento senão o amor que se recusa a perdoar? Que é a baixa auto-estima senão o amor que perdeu a capacidade de aceitar-se com todas as suas limitações?

Paulo nos ensina que um amor sadio não é orgulhoso, não se ensoberbece, não arde em ciúmes, é capaz de esperar, é gentil, é terno.... Mas quando esse amor adoece, desenvolve-se no seu lugar, um amor-vampiro, que suga o outro, que cobra, que exige, que sufoca, que nos faz pesados e pesarosos.

Quando o amor adoece não nos aceitamos como somos, a despeito de todas as coisas boas que Deus nos dá, e desenvolvemos interiormente a raiva ou a tristeza, porque não somos ou mais altos, ou mais bonitos, ou mais capazes, ou mais ricos, ou mais talentosos. Há sempre um descontentamento advindo de dificuldades de não apenas dar, mas também de receber – e chega-se ao ponto de “estragar” aquilo que foi recebido de bom.

Quando o amor adoece não aceitamos a liberdade do outro, mas vivemos para manipular as pessoas, mantê-las aprisionadas, fazer joguinhos, fazer cobranças. O amor adoecido é sempre controlador e manipulador, pois lhe dá vertigens imaginar que o outro possa ser livre e...... voar. Por isso “engaiola-se” o objeto amado, que passa a ser objeto por não se poder vê-lo como ser humano, livre que é. E para quem está enfermado é preferível um pássaro triste na gaiola – cujas barras chamamos de cuidado ou de proteção – que apreciá-lo em sua liberdade. Normalmente, pessoas dominadoras vivem atormentadas pelo medo de perder o controle sobre o amado.

Igrejas adoecidas querem “espreitar a liberdade que temos em Cristo Jesus e reduzir-nos à escravidão” (Gl 2.4), sim, porque o amor enfermiço é dominador, subjuga, acorrenta, manieta, encarcera, e liberdade é uma palavra que só rima com amor de verdade.

Quando o amor adoece reagimos mal às críticas, há sempre ímpetos de atacar ferozmente quem nos bloqueia o caminho, explodimos com quem tem culpa e com quem não tem. Isso acontece porque o amor adoentado não tem autocrítica, não tem coragem de se ver como é, e se porventura alguém lhe chama a atenção – mesmo em amor – isso será quase sempre visto como um ataque pessoal.

Quando o nosso amor adoece, questionamos o amor de quem nos ama, o medo da perda é recorrente, a dúvida e a insegurança tomam conta de cada pensamento. Compreende-se daí porque cada vez mais crentes exigem tanto seus direitos a Deus – é porque não têm confiança no amor do Pai, e faz-se necessário a todo o momento “lembrá-Lo” para que atente para nossos direitos.

Quando o amor adoece vivemos mal, louvamos mal, adoramos mal e torna-se impossível a comunhão com Deus e com os irmãos. Enquanto não percebermos isso, e não buscamos a cura, jamais saberemos o que é ter uma alma apaziguada que aprendeu a descansar no amor.

Em nome de um amor adoecido, perde-se a dignidade, desconfia-se, agride-se, mata-se e deixa-se de viver . Certamente essa é uma forma distorcida de vivenciar o amor e esse quadro mostra a nossa fragilidade quando estamos enfermos da alma.

Começamos a sarar quando nos rendemos a Deus e paramos de tentar manipular pessoas, quando aceitamos a nós mesmos sem medo de enfrentar o que temos de mais mesquinho, quando abrimos mão de controlar o outro e de controlar as situações. O verdadeiro amor traz descanso e não culpa, traz perdão e não ressentimento, o verdadeiro amor liberta as pessoas, e não engaiola. Quem ama sadiamente tem dignidade, tem tranqüilidade para enfrentar os reveses e não teme a solidão, pois está bem acompanhado interiormente.

*pastor da Igreja Metodista em Itaberaba, S.Paulo e Psicólogo. dadaro@uol.com.br

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Política regida por valores do Reino de Deus



Política é algo inerente à natureza humana. Fazemos política na cama e fora dela, do acordar ao dormir. As formas como ela é feita são de natureza cultural, mas a razão para fazê-la está escrita em nosso DNA.
Fazemos política porque, embora autônomos, somos interdependentes. Por sermos individuais, dotados de sentidos próprios, percebemos a realidade individualmente; por sermos interdependentes, necessitamos negociar tudo que nos afeta e nos interessa mutuamente.
Pensamos e sentimos individualmente, mas o que pensamos e sentimos, quando expresso, repercute coletivamente. Tudo o que cada um faz afeta outrem, e o todo afeta a vida de cada um. Por isso, é profundamente empobrecedor pensar política pragmaticamente, sem considerar a construção cultural de valores que norteiam sentimentos e pensamentos.
O médico Lucas (LC. 22.24-34) narra um episódio no qual discípulos de Jesus, movidos por valores e sentimentos obscuros, disputavam entre si quem seria o maior entre eles. Jesus interfere no debate, esclarecendo que há dois tipos de política: a vigente, na qual os reis dominam sobre pessoas e por elas são servidos (25) e a do Reino de Deus – representada por ele -, na qual quem quer governar deve ser movido primeiramente pela disposição de servir (26).




Segundo Jesus, os que optam por segui-lo, adotando a política do servir (em vez de ser servido), caminham em comunhão, em paz (28-30); os que adotam a política dominante de servir-se dos outros, vão pra peneira de Satanás, onde experimentam a separação, a divisão e o conflito doentios (31).
Jesus orou pelo fortalecimento da fidelidade de Pedro (32), a fim de que, experimentando a conversão (32) na maneira de encarar a relação com o outro, em vez de contribuir para o enfraquecimento e divisão, se tornasse instrumento de fortalecimento e unidade do grupo.
Pedro declara-se disposto a seguir a (política de) Jesus, a ser preso e até morrer para estar à mesa com ele e não na peneira de Satanás (33), mas é percebido pelo mestre como alguém cujo discurso não encontraria ressonância na prática (34). Seu discurso de abnegação seria derrubado antes “do galo cantar” (34).
O que nossa prática diz sobre o que tem norteado nossa caminhada política? Na equação das questões mais simples do cotidiano ou nas funções institucionais mais importantes que ocupamos, somos regidos pela disputa por ser servido ou pela disposição de servir? Estamos preparados para nos assentarmos à mesa com Jesus ou para sermos peneirados por Satanás?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Saudade

Sinto saudade de não sei bem o que
O sentimento chega não sei de onde
Vai crescendo
Vai tomando conta
Vai dominando
E dominado fico me perguntando:
Saudade de quem?
Do que?
De quando?
De onde?

Sinto saudade por que parti?
Sim, parti tantas vezes,
De tantas pessoas,
De tantos lugares,
De tantos sentimentos
Que foram ficando pra trás
Mas nem tanto.
E, como nossa sombra,
Ora aumenta,
Ora diminui,
Ora desaparece,
E novamente aparece,
E melancolicamente floresce

Sinto saudade por que perdi?
Sim, perdi o afeto de pessoas de quem gostava
Que partiram para muito longe
Que partiram mesmo estando perto
Que partiram, sem ter partido
Mas a lembrança insiste em trazer à tona
Momentos de risos espontâneos
De abraços apertados
De lágrimas solidárias
De conversas demoradas
Cuja ausência produz um abismo
Profundo
Escuro
Doloroso

Sinto saudade de não sei bem o que.
O sentimento chega não sei de onde
Sinto saudade porque parti
Sinto saudade porque perdi
E vou curtindo
E vou sentindo
E vou pensando
E vou chorando
E vou seguindo
E vou vivendo
E esperando
E revivendo
E revive
E revi
E re
E...
(Copyright @, 2010 Edvar Gimenes de Oliveira)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A caminhada do CECOM


Nesses quase 6 anos anos de pastorado da IBG tenho presidido o Conselho de Administração do Centro Comunitário Batista Clériston Andrade, seguindo norma criada há mais de 15 anos.

A existência do Conselho não é uma exigência legal, segundo o Código Civil Brasileiro (Artigos 53 a 61), nem a definição de quem deve presidi-lo, uma imposição estatutária. Entretanto, em termos político-administrativos, sua existência e a maneira como tem funcionado tem se demonstrado saudável.

Conquanto convidado, não me lembro de ter participado, nesses últimos anos, de nenhuma das reuniões da diretoria, nem mesmo interferido em qualquer processo sem ter sido convidado. Mas tenho sido informado do seu desenvolvimento pelos dirigentes, via e-mail, em contatos individuais e nas reuniões do Conselho  e cooperado naquilo que minha participação ajuda na potencialização da instituição.

Fico feliz porque nesses dois últimos anos o Cecom firmou convênio com o Tribunal de Justiça da Bahia, com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e foi reeleito para mais um mandato neste conselho (7 membros dentre milhares de instituições); teve renovado seu certificado pelo Conselho Nacional de Assistência Social e seu reconhecimento de Utilidade Pública Estadual pelo governo da Bahia, além do seu funcionamento ser atestado pelo Ministério Público Estadual.

Fico feliz porque nesse período todas as causas trabalhistas foram regularizadas, um psicólogo de tempo integral foi contratado, além do trabalho de assessoramento técnico da assistência social na formulação dos projetos

Fico feliz, também, porque nessa semana foi assinado, finalmente, o contrato que garante o início do Projeto Comunidade Musical, bem como pelo Projeto Dagba Díjo (Crescer Juntos, de capoeira) que juntos beneficiarão 70 crianças da Escola (publica) Madre Judite, impactando 210 pessoas da mesma família. Isso sem falar que o Cecom serviu de intermediador entre esta escola e o Banco Santander para parcerias na área social.

Fico feliz em ver voluntários, da igreja e de fora, investindo tempo em atividades relevantes para o funcionamento do Cecom e para vida de empobrecidos que nos procuram, bem como pela cooperação da IBG nos projetos “Sua nota é um show” e “Também de pão vive o homem”.

Fico feliz em ver os grupos de artesãos, de mães, de pintura, de biodança e terceira idade em pleno funcionamento; em ver as congregações, especialmente do Vale do Ogunjá, sendo atendidas pelo serviço social; a Unidade de Saúde desenvolvendo suas atividades de rotina e a juventude envolvida na Feira de Saúde e Cidadania tão bem organizada e articulada.

Fico feliz, finalmente, quando participo do desenvolvimento do projeto de reformas patrimoniais que terão início nas próximas semanas e permitirão o desenvolvimento do ministério esportivo e de lazer comunitário, o funcionamento da biblioteca e núcleo de inclusão digital e, a partir deles, uma série imensa de outras ações.

Agradeço a Deus pela vida dos que tiveram a visão de aqui estabelecer o Cecom e dos que têm lutado pela superação dos revezes naturais ao desenvolvimento de qualquer instituição do seu porte. Que Deus envie ainda mais obreiros para sua seara que encarem o ser humano de maneira integral e ajudem na restauração de sua imagem divina em todas as dimensões da vida.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O Estilo Gerencial do Administrador



Toda profissão tem um estilo gerencial próprio. Ela depende das necessidades da profissão e de seus valores.
Muitos engenheiros, por exemplo, são perfeccionistas. Perfeccionismo é uma necessidade, ou um valor que muitos engenheiros possuem. O trabalho tem que ser bem feito, custe o que custar.

Por outro lado, advogados são detalhistas. São capazes de gastar horas em uma cláusula de contrato que provavelmente nunca será necessária. O trabalho é demorado, mas quando pronto o contrato cobrirá todos os detalhes e todas as incertezas do futuro. É isto que define um contrato bem feito.

Ambas as profissões administram suas vidas sob estilos gerenciais diferentes, definidos pelos seus valores e necessidades.
Por isto, todas as profissões entram em conflito com a profissão do administrador. Elas acham, incorretamente que o estilo gerencial do administrador é conflitante ou então desnecessário.

Por isto, tantas profissões, empresários e governadores não valorizam o administrador, porque não acham que nosso estilo administrativo seja superior, muito pelo contrário, “vocês não entendem nada de engenharia e advocacia”.
Pergunte a um engenheiro, advogado ou psicólogo qual é o estilo gerencial do administrador, e eles provavelmente também usariam um único adjetivo.
Provavelmente nos definiriam de “imediatistas”, preocupados com lucros de curto prazo, como Paul Krugman e seus colegas não param de escrever no New York Times.

Administradores, segundo a visão popular, querem tudo para “ontem”, vivem dizendo que “o ótimo é o inimigo do bom”, que precisamos mais de “acabativa” e não de iniciativa.
A maioria dos administradores, infelizmente, não consegue provar a sua utilidade nem sabe explicar exatamente o que faz. Por isto, eles não ganham o que merecem, por isto não são valorizados.
Muitos acham que administrar é liderar, executar, coordenar. Isto está até escrito em inúmeros livros de Administração adotados pelas nossas Faculdades de Administração. Uma tristeza!

Vou apresentar uma das funções básicas do administrador, e que define em linhas gerais o seu estilo, e que surpreendentemente muitos administradores sequer ouviram falar nas grandes escolas de Administração como FGV, Insper, Ibmec e USP.
Basicamente, a função do administrador é não permitir que  problemas se acumulem.

Uma organização complexa, que é a empresa moderna, requer a cooperação de milhares de pessoas, dentro e fora da empresa. E, esta cooperação gera inúmeros problemas que se não forem solucionados a tempo afetarão todos os parceiros envolvidos na empresa.

Não permitir que problemas se acumulem talvez seja a tarefa mais importante para o bom andamento de toda família, empresa e nação.
Quando o mundo era gerido por açougueiros, padeiros e fábricas de alfinetes, como observou na época  Adam Smith, de fato não havia muitos problemas “acumulados”, e nem havia necessidade para se contratar administradores. Tudo funcionava pela Mão Invisível do mercado, não pela "Mão Visível" do administrador, como apontaria 200 anos depois  seu livro com este mesmo título Alfred Chandler.
Hoje, o mundo é bem mais complexo e rápido, razão pela demanda crescente de profissionais em administração.

Toda empresa e nação precisa de um corpo de profissionais treinado e dedicado a resolver os problemas de forma rápida.
Não somos imediatistas como muitos acreditam, nós simplesmente estamos evitando que problemas se acumulem um atrás do outro, e nestes casos rapidez de raciocínio e ação são essenciais.  
Por isto, nós nos preocupamos tanto com acompanhamento, qualidade total, processos, auditoria, recursos humanos, etc.
Infelizmente, não é assim que a maioria dos intelectuais brasileiros que ocuparam tantos cargos de destaques neste país pensam.

Toda a filosofia de ensino, pelo menos a partir do iluminismo e cientificismo, é voltada para resolver problemas corretamente, até a segunda casa decimal. Rapidez, só no vestibular.
Todos os dados precisam ser precisos e rechecados. Todas as variáveis precisam ser “controladas”. O ser humano precisa estar “absolutamente certo”, o refrão do programa "O Céu é o Limite".

Quando se acusa o PSDB de ficar sempre em cima do muro, na realidade se comete uma injustiça. Eles não evitam decidir ou tomar partido, na realidade seus intelectuais são simplesmente mais demorados na tomada de decisão, como todo intelectual.
Só que resolver problemas corretamente hoje em dia não é suficiente. Eles precisam ser resolvidos rapidamente, algo que nossos formadores de opinião, jornalistas e acadêmicos simplesmente não compreendem.
Temos que tomar decisões com os dados que temos, não com os dados que gostaríamos de ter.

O Brasil é um país atrasado porque estamos eternamente acumulando problemas.
É tão óbvia esta constatação que espanta que nossa opinião pública, nossos intelectuais e professores de história nunca perceberam esta simples verdade da história brasileira.
Quando se diz que precisamos fazer a Reforma Política, a Reforma Tributária, a Reforma Judiciária, o que queremos dizer é que deixamos tantos problemas se acumularem nestas áreas que somente uma ampla reforma resolverá o problema.
Se tivéssemos resolvido os problemas na medida que surgiram, o Brasil teria evoluído, teria caminhado para um sistema ótimo, em vez de termos que criar revoluções e enormes reformas de tempos em tempos, que no fundo nos atrasam ainda mais.
Temos problemas no judiciário, na previdência, na logística, na infraestruturua, na educação, na economia, simplesmente porque não temos um estilo gerencial que se preocupa com a rápida solução de problemas. E problemas que se acumulam crescem exponencialmente, não linearmente, como todo administrador sabe por experiência.  

Quatro entre cinco empresas quebram no Brasil, porque são geridas por profissões que não percebem que problemas não podem se acumular. Aí, qualquer crise ou evento fora do comum, as abate.
Nenhuma empresa quebra por uma única razão, nenhum avião cai por causa de um único problema. Estas quatro empresas quebram a um custo de capital monstruoso para o país, por falta de um estilo gerencial apropriado.

O Brasil não poupa o suficiente para crescer; e pior, torramos 80% desta poupança em empresas que irão quebrar em quatro anos.
Eu não diria, e nunca disse, que o estilo gerencial do administrador é superior ao do engenheiro, do advogado ou do economista.
Infelizmente, estas profissões se sentem ameaçadas pelos administradores, à toa. 

Não queremos comandar, gerir, tomar o lugar de ninguém.
Quero deixar claro para todo empresário, sociólogo, economista e político que possa se sentir ameaçado, que o estilo do administrador não é superior.
Ele é simplesmente necessário. 

Não podemos permitir que nossos problemas se acumulem simplesmente porque cada profissão acha que seu estilo gerencial é superior.
Nós administradores aceitamos que engenheiros sejam perfeccionistas, que advogados sejam detalhistas, que economistas queiram dados precisos, mas tudo isto tem de ser adequado para não atrapalhar os outros dentro da empresa ou do governo.
Não podemos ficar esperando enquanto os outros seguem seus estilos individuais.

Engenheiros, advogados e economistas precisam entender que seus estilos gerenciais são superiores e apropriados, quando se trabalha sozinho, mas quando se trabalha em grupo é necessário conciliar.  
Trabalhando em grupo, um simples atraso numa reunião atrapalha os outros, imaginem um problema que  não foi solucionado por anos a fio.

Quando vejo acusarem administradores e empresários de “imediatistas”, que pensamos somente no curto prazo, percebo que estas pessoas nada entendem das funções do administrador, de crescimento, de justiça social, de democracia e de um mundo feliz cheio de realizações, porque tudo é feito na velocidade necessária.
Se você está cansado de um país estagnado, que cresce aquém de suas possibilidades, que acumula pobreza, corrupção, injustiça e inúmeros problemas, converse mais com um administrador. Ele o ajudará a decidir e implantar suas ideias muito mais rapidamente do que você vem fazendo até hoje.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Você sabe o que é política?

por Paulo Ghiraldelli Jr.


Dizia meu avô que a política é “a arte de engolir sapos”. Nem a ciência política nem a filosofia política conseguiram uma melhor definição. Podemos comer rãs. Os que são diferentes de mim, os carnívoros, podem achar a carne da rã saborosa. Mas, sapo, nem pensar, ele é venenoso. Portanto, “a arte de engolir sapos” não é fácil. Pode-se, com ela, ficar intoxicado rapidamente e morrer. Desse modo, a definição que meu avô gostava já dizia tudo sobre a política, ou seja, é uma arte perigosa, letal. Meu avô, ele próprio, experimentou essa definição. Ele morreu na política e exatamente por ter engolido sapo.

Dizem que a política e a guerra em tempos de paz. Pode ser. Pois, como a guerra, ela também mata. Ela exige aquilo que nós, os bípedes sem penas, achamos que é da nossa natureza, ou seja, a paciência e a conversação a fim que aquilo que se quer alcançar seja negociado, administrado estrategicamente e, então, obtido com o menor número de desgaste energético possível. Tudo isso parece ameno. Mas não é. A política é a brutalidade da paz. Mesmo quem convence e vence acaba pagando um preço, engole seus sapos e, portanto, nunca tem uma vitória absoluta. Um pouco de toxinas sempre são absorvidas. Elas podem ser acumuladas de vitória em vitória e, um dia, aquele que só venceu na política, morre dela. Morre de tanto vencer. A política é “a arte de engolir sapos” não só para um lado, mas para todos os lados envolvidos no que se está disputando.

O que se quer na política é o poder. O poder substantivo e o poder verbo. Encaminhar o bom governo de uma sociedade – eis a política. Mas, no desenvolver desse bom governo, ou seja, no comando do poder que implica no poder fazer, tudo tem seu jogo de forças, sua negociação, suas idas e vindas. Engole-se sapo de todos os lados. Às vezes todos os lados engolem tanto sapo que o poder fica vazio, ninguém entre os disputantes sobra para abraçar o poder e exercer o poder. Todos perecem intoxicados de veneno de sapo por todos os poros. Morrem.

Meu avô entrou em uma negociação política. Seu grupo havia perdido as eleições de sua cidade. Os novos mandatários, uma vez na prefeitura da cidade, queriam o comando do hospital municipal. No hospital havia os médicos que há muito tempo lá estavam, verdadeiros heróis. Iriam perder suas clínicas dentro do hospital. Meu avô entrou na negociação política, intermediando os desejos vindos de vencedores e vencidos. Esteve lá, entre o novo prefeito e os médicos. Mas ele próprio havia sido vencido. Sua condição de negociador, eternamente posta na cidade como um trunfo da própria cidade, estava enfraquecida. Ainda assim ele comandou a negociação. No meio da reunião, ele teve uma hérnia estourada. Segurou a hérnia com a mão e procurou suportar a dor. Manteve-se ali na reunião, até o final, seis horas depois. Conseguiu seu intento na negociação, mas, no dia seguinte, morreu de enfarto. O sapo foi grande demais. Pagou com vida aquela eleição de 1975 para 1976.

A política é a barbárie civilizada. É a guerra brutal em tempos de paz. 

Pensar politicamente é, portanto, pensar em como guerrear sem dar tiros e, sim, empurrando sapos goela abaixo do adversário que, enfim, é visto como aquele que quer o poder substantivo e o poder verbo de modo absoluto. Ao mesmo tempo, nessa batalha, o que se deve fazer é saber engolir sapos de modo a poder cuspi-los quando o veneno acusar perigo. Mas, isso é difícil.

Não há vencedores na política, quando observamos os contendores imediatos. Vence na política os que usufruem dos benefícios do poder fazer após o bom governo se efetivar. Vence o grupo maior, o terceiro grupo que é, enfim, a população, que recebe os benefícios da administração da cidade, o bom governo. Os envolvidos diretamente com a conquista do poder substantivo a fim de empurrar as coisas por meio do poder verbo, não vencem nunca. Dos dois lados, os envolvidos diretamente, só perdem. Pois não se faz o outro engolir sapos sem também engolir a sua quantidade. Ao final, os dois lados estão envenenados. A política é a guerra da paz, a guerra lenta, surda. É o consumo dos sapos que vão soltando os seus venenos pelo estômago e pelo intestino, contaminando todos os corpos dos contendores. Sapos são altamente venenosos.

Pensar politicamente é pensar em função de ter o poder substantivo para ficar com o poder verbo. É pensar em como engolir menos sapos do que aqueles que se pode fazer o adversário engolir. Todo grande político sabe muito bem que a política é isso. Portanto, todo grande político sabe que não sairá vivo da política. Eis a razão pela qual a política e a guerra se casam, uma é a extensão da outra. A diferença é que na guerra morrem os que não fazem política, enquanto na política sofrem todos, às vezes, mas morrer, mesmo, só os políticos. Não há grande político que não saiba que ele irá perder a vida, cedo ou tarde, por conta dos sapos.

Só escapa de engolir sapos, entre os grandes políticos, aquele que, em determinado momento, opta pela guerra, ou a guerra do outro ou a sua própria guerra. Esse político morre na guerra. Ele toma a morte nas mãos, opta por morrer com data marcada. Os que optam só pela política, morrem sem saber quando vão morrer, pois os sapos não dizem exatamente quando a taxa de veneno será a fatal.
A política é a negociação associada ao pensamento estratégico em função do governo da cidade que, enfim, deve ser o bom governo. 
 
Portanto, pensar politicamente é pensar em termos de como encaminhar melhor uma negociação para que, ao final, tudo culmine no bom governo. O alvo é o poder substantivo e o poder verbo.

Pensar politicamente é pensar a negociação como um dispêndio de energia inevitável. É a morte inevitável. Pois essa energia é calculada pelo número de sapos que é possível de ser ingerido e, também, pelo número de sapos que se pode fazer o outro ingerir em um determinado espaço de tempo. A política é “a arte de engolir sapo” porque ela é a atividade da contrariedade. Quem não pode ser contrariado não pode pensar politicamente e não pode fazer política – não deve. A política só cai como luva para aqueles cujas mãos são do tamanho das luvas, ou seja, para quem se ajusta no tempo e no espaço para engolir sapos. Quem tem estômago fraco, não faz política.

Quando que alguém não pensa politicamente? Quando alguém faz política sem pensar politicamente? Quando se quer o poder substantivo em função de ser ter o poder verbo sem querer engolir sapo. Pensar politicamente é pensar com a garganta. É necessário saber engolir sapo e saber expelir. É necessário saber o que se suporta de contrariedade, se há como fazer o adversário engolir mais sapos ainda e ter uma boa visão do quanto ele suportará isso. Quem sabe isso, já está na metade do caminho de ser exímio engolidor de sapos, grande fazedor de política, hábil na capacidade de pensar politicamente.

Pensar sociologicamente é pensar a partir da perspectiva da sociedade. Pensar filosoficamente é pensar a partir da perspectiva da razão. Pensar politicamente é pensar a partir da racionalidade instrumental associada ao tanto de sapo que se pode colocar no estômago. Pensar politicamente não é pensar pacienciosamente. É pensar pacienciosamente quando se tem de pensar pacienciosamente. Mas é ser intempestivo quando se tem de sê-lo. Ou seja, a política é arte – arte de engolir sapos. Não é engolir sapos, simplesmente. É a arte de assim fazer. Não se trata de tragar para dentro tudo que é sapo. Trata-se de pegar os sapos e abrir espaço para que adversários também venha a engolir os seus. A política é um toma-lá-da-cá – de sapos!

O jogo de “dar e fornecer razões” tem a ver com as justificativas que estão no âmbito da filosofia e da sociologia. O jogo de “dar e fornecer razões” não pertence à política. Na política troca-se o jogo, pois tudo gira em torno de sonegar razões e dar não-razões quando se tem força para tal, ou seja, quando se pode fazer o outro engolir o sapo.  
 
Pensar politicamente, nesse caso, é saber entrar em um jogo de forças não para estourar com ele, mas para ficar nele. O melhor político é o que pensa politicamente, ou seja, o que fica no jogo político porque seu pensamento se desenvolve naturalmente no tempo desse jogo que, para outro, seria sufocante. Entra-se nisso para ficar. O que pensa politicamente nunca pensa em sair do jogo. Não poderia mais viver sem o veneno que consome diariamente, vindo dos sapos. Quem pensa politicamente está sempre viciado na política. Pois, antes de matar, o veneno vicia. O veneno do sapo é um tipo de droga. Pode ser uma droga alucinógena.

A alucinação que essa droga provoca é necessária, pois é a alucinação de que podemos nos entender na obtenção do bom governo. Sem essa alucinação, somos bem piores.

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor e professor da UFRRJ