sexta-feira, 27 de maio de 2011

A educação sexual dos pastores (2009)

Se abordar o assunto sexo em igreja ainda deixa muita gente vermelha - umas de vergonha, outras de raiva - relacioná-lo a pastores, para alguns, é motivo de pânico, afinal, no imaginário evangélico popular, pastor seria um ser angelical, portanto destituído de gênero. Temos, entretanto, pelo menos dois bons motivos para tratar o assunto com mais seriedade.

Primeiro, porque o número de pastores envolvidos em problemas de natureza sexual é maior do que imaginamos. Ouvimos muito dos problemas de padres americanos acusados de abuso sexual, mas poucos sabem que nos Estados Unidos é tão grande a quantidade de pastores acusados, inclusive batistas, que já existe uma organização de vítimas de abuso praticado por pastores, a “Survivors Networks of those Abused by Priests” – SNAP.

O segundo motivo tem a ver com a maneira como líderes religiosos pensam e ensinam assuntos relacionados à sexualidade, como, por exemplo, questões de gênero, homossexualidade, abstinência ou masturbação. Nesse sentido, a organização “Religious Institute on Sexual Morality, Justice, and Healing”, também nos Estados Unidos, defende proposta de educação sexual voltada para pastores e sacerdotes. Há reações desfavoráveis de dirigentes conservadores de seminários batistas, alegando discordância da ideologia “não bíblica” da proposta.

Seja por qual motivo for, é importante tratarmos o assunto em nossas escolas de maneira diferente daquela que apenas “ensina” candidatos a pastor, o que seria certo ou errado  em termos de sexualidade, a partir de interpretação popular (ou como preferem outros, interpretação literal) de versículos isolados e descontextualizados da Bíblia, sem estudar a fundo a forma como lidamos com a própria sexualidade, o conteúdo e pressupostos dos nossos ensinos e as motivações dos posicionamentos político-sexuais que adotamos.

Depois de ler a Bíblia de capa a capa, pesquisando atentamente a questão da sexualidade, e de refletir sobre a forma passional como alguns pastores reagem à ordenação feminina ou aos direitos civis dos homossexuais, concluí que, para entendermos tais reações, mais do que prestar atenção em seus discursos “bíblicos” ou na corrente teológica do seminário onde estudou, é fundamental compreender a cultura na qual sua educação sexual foi construída.

Sendo assim, se desejo entender o porquê do meu pastor reagir como reage a temas da sexualidade, devo esquecer seu título e lembrar de que nem sempre ele se escondeu atrás de um belo paletó e gravata ou de um bonito discurso previamente elaborado. Como qualquer garoto, ele cresceu entre meninos que, como a maioria absoluta, não recebeu adequada educação sexual – no sentido técnico do termo - seja em casa, na escola e muito menos na igreja.

Como todo menino, quase 100% do que aprendeu e sentiu a respeito do assunto, é fruto da convivência com seus pares de infância. Ele não só teve seus colegas como “facilitadores” para aprender como poderia lidar com o próprio sexo, como deveria lidar com o sexo oposto e outras questões sexuais, mas sentiu na pele toda a pressão vinda do grupo para provar um tipo patriarcal de masculinidade.

Nesse sentido, a leitura do livro “Corpos, prazeres e paixões. A cultura sexual no Brasil contemporâneo”, (Richard G. Parker, Editora Best Seller, 1991), especialmente as páginas 89 a 97, levou-me a fazer conexões e clareou um pouco mais as dificuldades pastorais no trato do assunto sexo e sexualidade. Segundo o autor, a estruturação da experiência na vida sexual no Brasil contemporâneo foi influenciada pela tradição patriarcal, pela linguagem do corpo e pelo sistema de classificação sexual, tópicos devidamente esclarecidos por ele.

Tal estruturação não seria aprendida imediata e completamente. É resultado de interiorização gradual, “através de um complexo processo de socialização que se inicia nos primeiros momentos da infância”.

Reconhecendo que a responsabilidade pelo cuidado e educação das crianças é, inicialmente e em grande parte, de responsabilidade feminina, o autor demonstra como, até certa idade, a criança é influenciada pela mulher, que domina o lar, e, depois, pelos homens, que dominam o mundo fora do lar.

Como até certa idade a relação de meninas e meninos é fortemente influenciada pela presença feminina, faz-se necessário, por uma questão de definição de identidade, que a distinção de gêneros seja feita muito precocemente. Assim, a identidade das meninas, especialmente em termos de passividade e submissão, é assegurada pela continuidade da relação com a mãe, em casa, bem como pelas visíveis alterações pela qual passam seus corpos, enquanto a dos meninos é mais complicada pela descontinuidade do processo.

Segundo o autor, “ameaçado desde o princípio por uma associação muito íntima com o domínio feminino, a virilidade e atividade que são marcas principais da masculinidade na vida brasileira precisam ser construídas, erigidas a partir do grupo e atravessar um processo de masculinização capaz de quebrar os laços iniciais do menino com as mulheres e transformá-lo em homem”.

Enquanto as meninas experimentam um processo de orientação mais forte dentro de casa, exceto a partir da menstruação, “existe um forte sentido (embora nem sempre explicitamente afirmado) da parte dos pais, de que o caminho mais adequado para seus filhos tomarem é o de se afastarem cada vez mais desse domínio feminino”.  Isso lança luzes sobre a luta de alguns pastores no sentido de defender tão fervorosamente o domínio “bíblico” masculino sobre as mulheres na igreja e de resistir à atuação delas em funções de autoridade.

Pelo mesmo pressuposto entendemos a reação passional de alguns pastores às questões de direitos civis homossexuais. Observe que me refiro aqui à reação emocional que toma conta de alguns no trato do assunto, sem emitir juízo de valor, por qualquer ângulo, sobre a questão homossexual.

Isso reforça a importância de incluirmos, na educação ministerial dos pastores, uma profunda reflexão sobre o processo informal, eficaz, porém nocivo, de educação sexual a que foi submetido em sua infância. Tal reflexão o ajudará a entender o sentido de sua masculinidade, o trato do próprio sexo, sua relação com o sexo oposto, sua reação a questões civis relacionadas a homossexuais e também a influência daquilo que nele foi introjetado culturalmente, na leitura que faz dos textos bíblicos.

A superação dos paradigmas estabelecidos em sua mente e coração dificilmente será alcançada em seus estudos teológicos, nos quais a condução do pensamento está nas mãos de professores – homem em sua maioria - que, como os candidatos a pastores, também tiveram “educação sexual” eficazmente construída “nas ruas” e não em sala de jantar ou de aula.

Portanto, se quisermos entender a posição dos pastores em relação a questões de gênero, reprodução ou erotismo, mais importante do que prestar atenção às escolas onde estudaram teologia, aos livros que leu sobre o assunto ou títulos acadêmicos que ostentam, seria descobrir como se deu sua transição de saída do domínio do mundo feminino para o domínio do mundo masculino, através de suas relações sociais a partir do quinto ano de vida, aproximadamente.

Isso talvez devesse ocorrer sob a facilitação de um profissional de psicologia, não de ética, porque a insegurança para falar do assunto, especialmente dessa fase de nossa infância, não é um privilégio de alguns, mas de todos que fomos criados numa cultura religiosa em que sexo e diabo são sinônimos. O problema é que a psicologia tem sido “demonizada” pelo fundamentalismo que “anda ao redor rugindo e procurando a quem possa devorar” e prejudicada por idéias como: “enquanto Freud explica, o diabo da um toque” cantada por Raul Seixas.

Estou convencido de que, no processo de construção do conhecimento do assunto em pauta, seria muito importante que a visão de sexo e sexualidade presente na cultura brasileira e na cultura dominante nos tempos bíblicos fosse estudada criticamente à luz de princípios universais. Isso ajudaria os novos pastores a tratarem o assunto de maneira menos passional, injusta e preconceituosa, como aprendemos entre “coleguinhas” mais velhos, na infância. 
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Disponibilizo agora aos leitores deste blog, texto que produzi e publiquei n'O Jornal Batista da Convenção Batista Brasileira, em 2009

terça-feira, 24 de maio de 2011

Experiência com Deus


Foi sob as mangueiras do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, no Recife, onde ouvi com maior freqüência um pensamento que pode ser expresso da seguinte maneira: o exercício da leitura é semelhante à degustação de um peixe: separam-se as espinhas, delicia-se com a carne. Tal pensamento nos alerta para pelo menos duas coisas importantes: 1) todo livro contém carne e espinhas; 2) devemos, portanto, ler com senso crítico a fim de que, empolgados com o paladar, não nos engasguemos com as espinhas.

Isso deve nos nortear em todas as leituras que fazemos, inclusive nas leituras da Bíblia.  É que, conquanto creiamos em sua inspiração, isso não significa que ela tenha sido psicografada ou verbalmente inspirada como querem alguns, mas que é produto de seres humanos movidos por experiências profundas com o divino.

Ela é Palavra de Deus, pois de capa a capa enfatiza como Deus agiu na vida de povos e indivíduos, visando manifestar seu amor cujo ápice se deu na humanização em Cristo Jesus. Nossa leitura dela deve visar o entendimento de como povos e indivíduos se relacionaram com Deus e como a ação de Deus em suas vidas mudou o curso de suas histórias. Em outras palavras, sua leitura visa enfatizar como é essencial, para a vida como um todo e para a humanidade em particular, que Deus seja o norteador de nossa caminhada, que vivamos em comunhão com ele.

As espinhas são, principalmente, os elementos culturais que permeiam tais registros, pois, se tais elementos não forem identificados e separados, em vez da leitura nos inspirar a vivermos de maneira profundamente prazerosa com Deus, ela poderá nos conduzir a sermos profundamente nocivos, opressores até, a nós mesmos e aos que nos cercam.

Exemplo disso é a insensatez de se querer transpor para os nossos dias, leis civis e normas de instituições religiosas judaicas, vigentes no início da formação do povo de Israel, descritas no pentateuco (5 primeiros livros do Velho Testamento). Ou, ainda, querer transpor todos os costumes culturais do início da era cristã para 2 milênios depois, na era do avanço científico-tecnológico e da informação.

Não só na leitura da Bíblia, a maior e mais concentrada fonte de registros de experiências humanas com Deus, mas também na leitura que fazemos das Igrejas, o princípio “saborear a carne, separando as espinhas” deve ser observado. É que a vida em Igreja também pode ser uma rica fonte de experiências com Deus.

As igrejas são – pelo menos deveriam ser - uma espécie de laboratório no qual experiências de pessoas com Deus devem – ou deveriam - visar à produção de qualidade de vida saudável – santa na linguagem sacerdotal – para todos. Laboratórios, entretanto, podem produzir drogas-remédio para serem utilizados sob recomendação médica, visando saúde, mas também podem produzir drogas-veneno que nos tornam dependentes de traficantes, nos desumanizam e nos destroem.

Assim, também na vivência em igreja, devemos estar atentos para separar “carne de espinhas”. Ou, numa linguagem joanina: “não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (I Jo. 4.1). Cabe a cada um, portanto, desenvolver senso crítico e capacidade espiritual – fruto de experiência genuína com Deus - para discernir o que, na igreja, provém de Deus e o que provém do “tráfico da fé”.

Nossas experiências com Deus, portanto, devem ser “nossas” experiências com Deus e não as manipuladas, injetadas, desejadas ou impostas por terceiros. Devem ser fruto de busca, reconhecimento e desejo sinceros de viver em comunhão com o criador, visando à construção de relacionamentos e estruturas que possibilitem um desenvolvimento saudável da vida para todos. 

Isso é possível porque “Deus tanto amou o mundo que deu o seu filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). É possível porque “nisso conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos” (I João 3.16). Então, é para que nossa vida gire em torno do amor que devemos aprofundar nossa experiência com Deus.

domingo, 22 de maio de 2011

Ricardo Gondim despede-se da revista ULTIMATO

"Após quase vinte anos, fui convidado a “des-continuar” minha coluna na revista Ultimato. Nesta semana, recebi a visita de Elben Lenz Cesar, Marcos Bomtempo e Klênia Fassoni em meu escritório, que me deram a notícia de que não mais escreverei para a Ultimato. Nessa tarde, encerrou-se um relacionamento que, ao longo de todos esses anos, me estimulou a dividir o coração com os leitores desta boa revista. Cada texto que redigi nasceu de minhas entranhas apaixonadas.

Fui devidamente alertado pelo rev. Elben de que meus posicionamentos expostos para a revista Carta Capital trariam ainda maior tensão para a Ultimato. Respeito o corpo editorial da Ultimato por não se sentir confortável com a minha posição sobre os direitos civis dos homossexuais. Todavia, reafirmo minhas palavras: em um estado laico, a lei não pode marginalizar, excluir ou distinguir como devassos, promíscuos ou pecadores, homens e mulheres que se declaram homoafetivos e buscam constituir relacionamentos estáveis. Minhas convicções teológicas ou pessoais não podem intervir no ordenamento das leis.


O reverendo Elben Lenz Cesar, por quem tenho a maior estima, profundo respeito e eterna gratidão, acrescentou que discordava também sobre minha afirmação ao jornalista de que “Deus não está no controle”. Ressalto, jamais escondi minha fé no Deus que é amor e nos corolários que faço: amor e controle se contradizem. De fato, nunca aceitei a doutrina da providência como explicitada pelo calvinismo e não consigo encaixar no decreto divino: Auschwitz, Ruanda ou Realengo. Não há espaço em minhas reflexões para uma “vontade permissiva” de Deus que torne necessário o orgasmo do pedófilo ou a crueldade do genocida.


Por último, a Klênia Fassoni advertiu-me de que meus Tweets, somados a outros textos que postei em meu site, deixam a ideia de que sou tempestivo e inconsequente no que comunico. Falou que a minha resposta à Carta Capital sobre a condição das igrejas na Europa passa a sensação de que sou “humanista”. Sobre meu “humanismo”, sequer desejo reagir. Acolho, porém, a recomendação da Klênia sobre minha inconsequência. Peço perdão a todos os que me leram ao longo dos anos. Quaisquer desvarios e irresponsabilidades que tenham brotado de minha pena não foram intencionais. Meu único desejo ao escrever, repito, foi enriquecer, exortar e desafiar possíveis leitores.


Resta-me agradecer à revista Ultimato por todos os anos em que caminhamos juntos. Um pedaço de minha história está amputada. Mas a própria Bíblia avisa que há tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Meu amor e meu respeito pela família do rev. Elben, que compõe o corpo editorial da Ultimato, não diminuíram em nada.


Continuarei a escrever em outros veículos e a pastorear minha igreja com a mesma paixão que me motivou há 34 anos.
"

Ricardo Gondim
Soli Deo Gloria

Fonte: www.ricardogondim.com.br

terça-feira, 10 de maio de 2011

Por que eu e a minha casa não servimos ao Senhor?

Uma das expressões bíblicas mais repetidas nas igrejas foi cunhada por Josué, líder hebreu. “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” era um desafio frente a alternativas que dividiam o coração, os relacionamentos e, consequentemente, reduziam a probabilidade de alcançarem êxito no projeto de conquista por ele liderado.

Tal divisão de sentimentos e pensamentos era geradora de comportamentos desagradáveis aos olhos do Senhor Deus, pois o projeto do qual o povo participava havia nascido em seu coração e visava um objetivo mais amplo para a humanidade.

Retirada do contexto, a expressão tem sido usada por pessoas que abraçaram a fé em Jesus, cujos familiares não as acompanha nessa decisão ou não participam de maneira ativa de uma comunidade de fé. Por isso, sempre que possível expressam com emoção “eu e a minha casa serviremos ao Senhor”, como manifestação do desejo de ver a família toda engajada na vida da igreja.

Diante disso peguei-me pensando no porquê de uma pessoa, em sã consciência, negar-se a servir ao Senhor. Se servir ao Senhor representa, em última análise, colocar-se a serviço do bem, que motivos justificariam alguém a negar-se a servi-lo?

Enquanto pensava nisso, lembrei-me de uma expressão atribuída a Gandhi, na qual ele teria dito: “aceito o vosso Cristo, mas rejeito o vosso cristianismo”. Ela expressa, a meu ver, o mesmo que acontece com muitos dos nossos familiares que não nos acompanham no serviço a Deus.

Não são muitas as pessoas que conseguem diferenciar “servir a Deus” de “servir a uma estrutura religiosa”. Ainda que, sempre que somos sinceros no desejo de servir a Deus, ocorra como desdobramento o sentimento de servirmos com outras pessoas e, ainda que isso implique, inevitavelmente, na necessidade de um sentido mínimo de organização, o fato é que, geralmente, a tal organização acaba se tornando um fim em si mesma. Quando nos damos conta, em vez de estarmos juntos servindo a Deus, estamos juntos servindo aos institutos da organização.

É claro que a caminhada a dois gera necessidades de atenção à caminhada a dois, porém, a finalidade da caminhada deve merecer mais da nossa atenção, energias e outros recursos, do que os elementos que constituem meio para caminharmos a dois.

Além disso, julgo importante dizer que “servir ao Senhor” significa, antes de tudo, servir às pessoas. Isso Jesus deixa claro quando diz: “o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”. (Mat. 25.40) e Paulo corrobora, ao declarar: “Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, pois ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas”. (At. 17.25)

Ainda que seja importante destacar que, à luz da vida e ensinos dos primeiros cristãos, cooperar com uma comunidade de fé é algo inerente à vida cristã, uma exigência até, o fato é que isso não serve de motivação para quem ainda não se comprometeu a seguir como discípulo de Jesus.

Se há algo capaz de levar alguém a cogitar sair do discurso da crença em Deus para uma prática cooperativa em igreja, isso seria a realidade de nos reunimos não para servir uma estrutura ou apenas nos servirmos dela, mas para juntos servirmos uns aos outros e daí servimos à vida, à luz de finalidades coerentes com projetos divinos.

Uma importante razão para que o “eu e a minha casa serviremos ao Senhor” não se concretize é a nossa incapacidade de mostrar que santidade significa saúde para todas as dimensões da vida e que a instituição igreja é apenas canal de serviço a Deus através de serviços ao próximo e não estímulo à hipocrisia, falsa moralidade ou combustível de neuroses.

Enquanto não nos convencermos disso, mais difícil se torna realizar o desejo expresso na frase: “eu e a minha casa serviremos ao Senhor”.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mãe é mais do que mãe!

Mãe é filha que, por razões biológicas e culturais, geralmente usufrui de maior tempo ao lado da genitora e nela se inspira, afirmando ou negando o modelo, para construir seu modo próprio de ser-no-mundo; que foi amada, acolhida nos braços, amamentada, protegida, ensinada e também disciplinada ou, quem sabe até, excepcionalmente, experimentou rejeição, maltratos, abandono ou marginalização.

Mãe é ser humano que constrói seu presente, alimenta o passado e projeta o futuro; que procura sentidos para viver; se equipa para sobreviver; disputa melhores condições de vida; que chora, ri, sente fome, dor, tristeza, prazer, solidão, alegria, medo, raiva e amor.

Mãe é mulher que experimenta o fogo da paixão, a necessidade de afeto, a busca por um companheiro, o desejo de compreensão; que precisa lutar para superar a discriminação e, de forma justa e amorosa, forte e terna, ter reconhecida sua condição.

Mãe é esposa que, no encontro com o homem amado, quer caminhar numa via de mão dupla, na qual transita a troca de amor, paixão, aconchego, cuidado e atenção.

Mãe é administradora que, mesmo muita vez desenvolvendo atividades profissionais fora do lar, administra a casa, cuidando ela mesma, na maioria dos casos, ou gerenciando quando conta com auxiliar, da organização da vida em família; do abastecimento, limpeza e arrumação da casa; do cuidado com a alimentação; da higiene física, mental e espiritual dos filhos, além de participar ativamente da realização de desgastantes tarefas externas.

Mãe é serva de Deus, serva da vida, por isso amorosa e espontaneamente se empenha para ajustar-se às diversas e muitas vezes conflitantes exigências que as realidades impõem, buscando, de forma harmoniosa, cumprir seus papéis sociais e satisfazer suas necessidades pessoais.

Por isso, mãe é mais do que mãe!

Os focos do ministério esportivo da IBG.SSA

Visando tornar reais os compromissos decorrentes da missão e visão estratégica da IBG, nesses últimos 6 meses nossa atenção esteve voltada para a construção da quadra polivalente. Isso porque o uso do referido espaço influenciará significativamente a dinâmica da Igreja, do Cecom e seus relacionamentos com nossos vizinhos e amigos.

Os relacionamentos internos sofrerão impacto a partir do momento em que as pessoas terão mais oportunidade de estarem juntas em situações de descontração, podendo conhecer-se melhor mutuamente. Assim, nesse primeiro foco do ministério, elas poderão partilhar suas dores e prazeres, sonhos e lutas e, solidariamente, trocar idéias que gerem soluções para um viver individual e coletivo melhor.

Os relacionamentos com amigos, vizinhos e irmãos de outras igrejas também sofrerão impacto porque eles serão convidados para estar conosco não somente em função dos jogos de quadra, mas também dos de mesa que serão disponibilizados no salão de lazer, além de atividades esportivas externas que serão estimuladas. A expectativa é que nossas vidas (atitudes) falem tão alto que eles não precisem ouvir nossas vozes anunciando o amor de Deus.

Se pretendemos anunciar Cristo através de nossas atitudes, também está em nosso projeto fazê-lo com palavras. Assim, um segundo foco de atuação do ministério esportivo será o das atividades voltadas para o ensino da Palavra de Deus. Isso será feito usando atividades esportivas direcionadas especialmente para crianças. Já temos líderes treinados para isso e cheios de vontade para trabalhar.

Acreditamos que, ensinando crianças nos caminhos de Deus expressos na vida de Jesus (não da religião institucionalizada), daremos a elas um sentido que as ajudará na redução do risco de se envolverem com drogas. Assim, teremos que investir muito menos na recuperação de criminosos.  Queremos que o lugar onde estamos inseridos seja uma Cristolândia, antes que se transforme numa Cracolândia.

Finalmente, nosso terceiro foco será voltado para uma ação social através do estímulo à formação de atletas olímpicos em diversas modalidades. Isso se dará através de escolinhas esportivas e de qualificação de voluntários, visando a inserção em um universo mais amplo, seja municipal, estadual ou nacional. Acreditamos que esta área de atuação poderá tornar-se o eixo principal de atração da atuação do Cecom junto às famílias, se soubermos tirar proveito das possibilidades e oportunidades decorrentes e agirmos com consciência e paixão.

Com esses focos, a imagem e realidade da igreja serão fortalecidas não como uma organização contemplativa que cultiva reflexão pela reflexão, sem ação, mas como um laboratório de experiências que visam proporcionar melhor qualidade nos relacionamentos com Deus, com o semelhante e com o meio ambiente onde está inserida.

terça-feira, 19 de abril de 2011

“Eu vi o Senhor!”

Era domingo, início da manhã. Maria Madalena e a outra Maria foram ao sepulcro  de Jesus. Não foram por acreditar na ressurreição. Foram porque a aproximação do lugar onde o corpo estava amenizaria a dor da separação traumática e dolorosa.

Ainda estava escuro, mas viram que a pedra da porta da sepultura fora removida. A surpresa e a dúvida dominaram seus corações. Então correram para contar aos discípulos.

A correria foi geral. Pedro e um outro discípulo disputaram para ver que chegaria primeiro. Pedro perdeu a corrida, mas, por ser mais ousado, entrou primeiro na sepultura e testemunhou: as faixas de linho estavam de um lado, o lenço usado para cobrir a cabeça, dobrado do outro, mas Jesus, de fato, não estava ali.

Sem compreender o ocorrido, os discípulos voltaram pra casa. Maria, porém, permanece, inconsolável, chorando as dores da saudade. Sob o impacto da morte e agora do desaparecimento do corpo e sem acreditar naquilo tudo, voltou a olhar para dentro do túmulo.

Nova surpresa acontece: dois anjos estavam no lugar onde o corpo de Jesus esteve repousando. Um diálogo se estabelece e ela derrama seu coração: “levaram embora o meu Senhor”. Mal termina de falar, outra surpresa: alguém, parecido com um jardineiro, dirige-se a ela, indagando sobre o porquê das lágrimas. Sem responder ela implora: “Se o senhor o levou embora, diga-me onde o colocou, e eu o levarei”.

Ele pronuncia o nome dela, ela reconhece sua voz: era Jesus.

Por não ter desistido, na pior das adversidades, teve o privilégio de ser missionária da primeira mensagem de Jesus, após a ressurreição: “... Vá, porém, a meus irmãos e diga-lhes: Estou voltando para o meu pai e Pai de vocês, para o meu Deus e Deus de vocês.

E ela, respondendo positivamente ao desafio missionário, emocionada e cheia de alegria, dirige-se aos discípulos - recolhidos, amedrontados - e anuncia: “Eu vi o Senhor!”

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Futuro dos batistas brasileiros, se não abrirmos os olhos!!!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cristolândia x Cracolândia

sábado, 9 de abril de 2011

Marta Suplicy altera texto do PL 122 e libera pregação anti-gay em igrejas e templos


Iniciei oficialmente minha caminhada pastoral há 28 anos. 

O período coincidia com a tomada do poder, na Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, pelos autodenominados conservadores ou denominados pelos adversários como fundamentalistas. Pra mim a segunda expressão tornou-se mais forte porque presenciei a queda de um professor pela pressão do novo "comando mundial" dos batistas. 

(Trago viva em minha mente a reunião na sala do reitor, quando, sentados no chão pela falta de espaço, David Mein explicava pacientemente porque tomou a decisão de demitir o professor. Depois veio a queda do segundo, quando David Mein já havia saído. E entre eles, a derrubada do novo diretor do Seminário, pelos alunos, quando eu já trabalhava em Maceió) 

Foram anos de histórias tristes, no mérito das quais não entro aqui, mas estou mencionando para informar que neste período iniciava-se, dentre outras, uma mudança de concepção hermenêutica que não era novidade, mas que até então não prevalecia: Jesus deixou de ser a chave hermenêutica dos batistas para interpretação da Bíblia e a expressão "a Bíblia interpreta a própria Bíblia" se popularizou trazendo danos ainda imensuráveis à vida de pessoas e instituições. 

Mantendo as convicções tradicionais dos batistas, até aqui não abri mão de *Jesus como chave hermenêutica de interpretação. 

O que isso tem a ver com o assunto do tópico? É simples: inspiro-me no ministério de Jesus para definir a linha teológico-ministerial que adoto. E quanto mais leio e releio a vida e ensinos de Jesus, nos evangelhos, mais me convenço de que os arquiinimigos de Jesus não foram os pecadores (segundo a definição popular da palavra pecado), mas a religião institucionalizada. Confira nos evangelhos com quem foram os principais embates de Jesus, pra não dizer todos. Foram com líderes fariseus. 

Fundamentado nesse pressuposto, decidi que "púlpito" por mim ocupado não seria usado para atacar manifestações específicas de minorias relativas ao estado de separação no qual a humanidade se encontra (pecado, teologicamente, é quebra de comunhão, diferente de eticamente que é quebra de código de ética). Antes, se não pudesse anunciar o amor que restaura primeiramente a comunhão da pessoa com Deus e, só depois, como consequência, mudanças em nossos relacionamentos com pessoas, coisas e meio ambiente, ficaria em silêncio. 

Nesses 28 anos nunca senti necessidade do discurso fundamentalista, ainda que, certamente, ele também possa ser identificado em meus discursos, afinal, todos somos pecadores. Optei por colocar o acento da minha pregação no caminho da resturação da comunhão com Deus e, ao mencionar sinais da separação, cuido para não deixar que a cultura - responsável pela escolha de algumas manifestações da separação em detrimento de outras - prevaleça, transformando algumas manifestações da ausência de comunhão em "bodes expiatórios". 

Transformando toda essa prolixidade em uma frase: não aderi, não adiro, nem pretendo aderir ao discurso anti gay como bandeira política de pregação. 

Respeito aos que optaram por esse caminho - de combate a gays e outros - e luto para que eles respeitem o escolhido por mim.


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Talvez você goste de ler algo mais que penso sobre sexualidade:
1. Sexualidade, a terceira alternativa
2. "Despertar" o que?
3. A educação sexual dos pastores
4. Sexo não é água

terça-feira, 5 de abril de 2011

Fidelidade a Deus na Era da Infidelidade


"Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito” (Jesus, em Lc. 16.10)

Não disponho de dados, mas, baseado em diversas evidências, suponho que “nunca antes na história” a infidelidade foi tão perceptível.

Não me refiro à infidelidade a marcas de produtos. Essa já está comprovada por pesquisas e o fato é atribuído a diversos fatores como, por exemplo, aumento na diversidade de marcas e na concorrência; ascensão das classes C e D; maior acesso à informação; advento da internet, enfim.

Também não me refiro à infidelidade conjugal, prática profundamente nociva à saúde individual, familiar e social, já comprovada por pesquisas. Nesse caso, devido a fatores como autonomia econômico-financeira da mulher, redes sociais virtuais, metropolização das cidades, dentre outros. Há quem afirme que agora “os homens estão traindo com culpa. E as mulheres, traindo como nunca”. Percebe-se que não há apenas uma mudança na qualidade do comportamento, mas também na quantidade de casos.

Não me refiro, ainda, à infidelidade eclesiástica. Isso também se tornou compreensível com o fim do monopólio da fé cristã pela Igreja Católica, via reforma constitucional; com a conscientização da pluralização, da diversidade, nas sociedades democráticas; com o uso de mídias modernas por igrejas de matriz protestante ou evangélica; com as infindáveis subdivisões formais e informais em todas as denominações; com a transformação da religiosidade em produto de comercialização pelo pós pentecostalismo ou mesmo com a frustração decorrente da queda na credibilidade de instituições antes irrepreensíveis.

O neoliberalismo atingiu a religião e a iniciativa privada passou a reger a abertura de igrejas em cada esquina, como se abre um empreendimento comercial. Diante disso, as pessoas substituíram a definição doutrinária pelo prazer da convivência como critério primeiro (e até único) de escolha da igreja a qual se unir. Assim, a infidelidade também é realidade em relação às igrejas.

Nada disso, entretanto, me assusta tanto quanto a percepção da infidelidade a Deus. Não que antes não houvesse. Na verdade, Deus sempre foi procurado muito mais como gênio da lâmpada maravilhosa ou pelo encantamento que coisas do sagrado provocam do que como regente de nossa conduta. A diferença é que no conjunto de membros das comunidades chamadas batistas – cito a minha denominação apenas pra não falar da vida alheia - percebia-se mais nitidamente a fidelidade das pessoas a Deus.

O comum, a regra, era a predominância de membros querendo conhecer mais e mais a Deus através do estudo sério das Escrituras, do conhecimento intelectual e existencial da pessoa de Jesus, da busca sincera pela presença do Espírito Santo.
Presença regular na vida da Igreja; prazer em devolver o dízimo, em entregar ofertas, visando manter e expandir as causas divinas e solidariedade, inclusive material, aos necessitados, eram manifestações de fidelidade comuns à maioria.

O que assusta hoje é que o comum foi invertido.

A infidelidade predomina e não é difícil de ser comprovada. Escolha, aleatoriamente, qualquer realidade que possa ser caracterizada como fidelidade a Deus e faça uma avaliação, dentre os membros de sua igreja. Quantos estão comprometidos com ações em seu cotidiano que sejam conseqüência consciente de fidelidade a “revelações” de Deus em seu coração? Quantos se sensibilizam diante da dor alheia como manifestação de compaixão inspirada na vida de Jesus? Quantos trabalham pensando não somente em suprir as próprias necessidades (ou excentricidades), mas também para ter com que acudir a necessitados?
Quantos manifestam interesse em saber se suas atitudes, palavras e ações são compatíveis com o caráter revelado do Deus em que crêem? Quantos se perguntam se Deus tem algo a  ver com o início ou fim de um casamento? Quantos estão comprometidos com a vida em comunidade, como família de Deus, como corpo de Cristo? Quantos devolvem regularmente seus dízimos por acreditar que Deus tem alguma coisa a ver com o uso dos 100% do seu dinheiro? Quantos se perguntam, antes de fechar um negócio, se a ética que envolve a transação é agradável a Deus?
Quantos estão gritando: “Ai de mim! Estou perdido! Pois sou um homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!”? (Is. 6.6)
Parece que Deus virou peça de museu.

Nossa era é a Era da Infidelidade. O padrão infidelidade foi de tal maneira assimilado também dentro das igrejas, está tão perto de nós na forma como nos relacionamos com Deus que me pergunto: será que faz sentido ou surtiria efeito lembrar: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus?


Estou procurando “novos” indicadores de fidelidade a Deus para a Era da Infidelidade, mas, por não encontrar, sinto-me fora de moda. Se fidelidade é fruto de confiança e amor, será que as palavras de Jesus – Quando, porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” (Lc 18.8) ou “e, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará (Mt 24.12)  – estão se cumprindo em nosso meio? 

terça-feira, 8 de março de 2011

O que somos, desejamos, podemos, queremos, devemos...alcançados pela graça divina


As coisas e as pessoas não são aquilo que acreditamos ou pensamos que são. São aquilo que delas nos impressiona, pelo bem ou pelo mal; aquilo que percebemos, inclusive aquilo que ameniza nossos dramas e dores recalcados, que expia nossos sentimentos de raiva, ódio, rancor e amargura e que preenche  nossos anseios velados, bem guardados, esquecidos até, num quartinho do nosso coração.
Porque sabemos que as pessoas crêem e pensam que somos o que as impressiona, agimos, consciente ou inconscientemente, para impressioná-las e assim conquistá-las e, até, em certos casos, controlá-las.
Quanto mais de perto conosco elas convivem, mais percebem quem de fato somos, pois ninguém consegue ser, o tempo todo, produtor e produto do próprio marketing.  Nossos poros, pele, membros, enfim, nos driblam, nos traem e falam por nossa fala conveniente e ineficazmente silenciada.
Quantas vezes nem somos o que aparentamos, somente para impressionar alguém “especial” por sua fama, prestígio, poder ou dinheiro?
Quantas vezes negamos o que somos para impressionar um grupo de pessoas e assim não nos sentirmos isolados?
Quantas vezes disfarçamos nossas crenças, pensamentos, ações tão somente para conquistar a confiança daqueles que podem proporcionar um prato de lentilhas, migalhas mesmo, para nossos muita vez famintos corações?
Assim nos desintegramos sob apelos disso e daquilo, para ganharmos um diploma, um novo título, outro cargo, outro emprego, uma carreira incrementada, uma viagem, um favor, mais dinheiro, mais prestígio, mais poder, até nos percebermos, como cantava o finado Raul, sentados, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar e se perguntando: e daí?
Claro é que temos algum poder e por isso devemos questionar e administrar quem somos, o que sentimos, pensamos e expressamos, a fim de que a “super sinceridade”  ou a “super hipocrisia”não se torne uma arma de destruição contra nós.
Assim, entre a extrema sinceridade e a extrema hipocrisia, o desafio posto diante de nós é a busca permanente, de acordo com o contexto, dum ponto que não permita que caiamos pra dentro de nós mesmos e, conseqüentemente, caiamos diante daqueles que nos cercam.
E diante de Deus? Diante dele nosso esforço é vão. Daí os antigos profetas, escribas e sacerdotes declararem nossa queda permanente, nossa necessidade de expiação, se não “re-conhecermos” nossa dependência daquilo que se convencionou chamar de graça divina, isto é, um favor imerecido.
Quando, num ato de fraqueza aceitamos e somos envolvidos pela graça de Deus, conseguimos coragem para ter medo, saúde para estar doente e até forças para ser fracos, “pois quando sou fraco é que sou forte” (II cor. 12.10).  Aceitamos-nos com nossas forças e fragilidades e passamos a aceitar os que nos cercam com suas forças e fragilidades.
Quando experimentamos a graça divina, deixamos de pensar que o mundo seria melhor se todos fossem iguais a nós – fazendo o que fazemos, pensando o que pensamos, sentindo como sentimos -  ou seria pior, se todos fossem iguais aos diferentes de nós.  Nos alegramos e até nos divertimos com nossas diferenças, nossas idiossincrasias e o outro deixa de ser nosso inferno, lembrando Sartre.
Abrimo-nos para aprender, a cada nascer do sol, a viver com o equilíbrio necessário entre alegrias e tristezas, dores e prazeres, semelhanças e diferenças. Perdemos o medo de que saibam das nossas fraquezas e o orgulho de que saibam das nossas virtudes, até porque fraqueza e virtude também têm relação com a percepção de cada um, dentro de determinado contexto, fruto de uma cultura introjetada ao longo da construção da história de vida.
Ou não?

AGORA

por Myrtes Mathias
 

Se queres dar-me uma flor,
faze-o antes que eu morra...
Se podes, hoje, fazer o milagre de um sorriso no rosto que chora,
não coloques flores sobre tumbas.
Se queres dar-me uma flor, faze-o agora.
Se podes dar um lar ao orfãozinho,
abrigo ao pobre que geme lá fora,
não encolhas a mão - Deus está vendo.
Se podes dar uma flor, faze-o agora.
Se conheces o eterno Caminho
Que leva ao templo onde a alegria mora,
Não guardes egoísta o teu segredo;
Se podes dar-me uma flor, faze-o agora.
Se podes dizer em uma frase linda,
algo que faça a tristeza ir embora,
dize-o enquanto posso agradecer sorrindo.
Se podes dar uma flor, faze-o agora.
Que farei eu das orações, das flores,
quando do mundo já não mais eu for?
Aos pés de Deus eu as terei tão lindas,
Que não precisarei do teu amor.
Não esperes o instante da partida.
Se queres me fazer feliz, faze-me agora.
Para que chorar de remorso e saudade?
Custa tão pouco a felicidade,
Dá-me uma flor antes que eu vá embora!

domingo, 6 de março de 2011

Evangelização e o judiciário



 
Por Gilberto Garcia
 
Por sua formação multirracial o Brasil tem um povo voltado para o misticismo, sendo um campo livre para que diversos grupos religiosos propaguem suas crenças, inclusive os evangélicos, e o Estado brasileiro, que desde 1891, em função da Constituição Republicana, é laico, ou seja, não possui religião oficial, daí a importância do respeito aos direitos de todos os religiosos, inclusive de ateus e agnósticos.

Por isso, os poderes da república: executivo, legislativo e judiciário, em todos os seus níveis, são proibidos de professar, apoiar, financiar ou proibir, qualquer tipo de manifestação de fé, seja evangélica, católica, judaica, espírita, mulçumana, cultos afros, oriental etc, excetuando a colaboração para efeitos comunitários, sendo esta a garantia constitucional da igualdade religiosa, tendo este Estado o papel institucional de assegurar a expressão de religiosidade do povo, seja qual for, dentro dos limites da lei.

A Igreja Evangélica, na condição de pessoa jurídica de direito privado, Organização Religiosa, como disciplinado no Código Civil brasileiro, bem como, qualquer Grupo Religioso tem todo o direito a liberdade de crença e propagação de sua fé de forma pública, e, portanto, a prática de seu culto, desde que a metodologia não fira o prisma da dignidade da pessoa humana, bem como, não coloque em risco os direitos civis do cristão, que é “cidadão da pátria celeste”, mas ainda é “cidadão da pátria terrestre”.

Em que pese estar resguardada pelas normas jurídicas instituídas pela sociedade civil, a Igreja, como qualquer outra Organização Associativa, também esta submetida ao exame da legalidade de seus atos pelo Poder Judiciário, e aí vemos os Juízes, Desembargadores e Ministros, em nome da sociedade civil, ao serem provocados pelos interessados, intervindo em questões, nas quais não só podem, como devem agir, para restabelecer o equilíbrio das relações sociais, coibindo os excessos, ou mesmo abusos no exercício de direitos, com base ordenamento jurídico brasileiro, ainda que envolvendo Organizações Religiosas.

Esta intervenção, exatamente pela laicidade do estado brasileiro, como contido na proposição bíblica da separação da Igreja e do Estado, “Dar a César o que de César e a Deus o que de Deus”, assegurada constitucionalmente, não pode ocorrer em questões de religiosidade, espiritualidade ou de fé, entretanto no que tange a aspectos civis, estatutários, associativos, tributários, trabalhistas, fiscais, previdenciários, administrativos, penais, financeiros etc, as Igrejas, de qualquer confissão religiosa, estão submissas ao ordenamento jurídico nacional, portanto nas questões legais adstritas as decisões do Judiciário pátrio.

É vital que a Igreja, inclusive em sua atuação evangelizadora, tenha as devidas cautelas legais quando for expressar sua fé, em respeito às leis que regem a sociedade civil, elaboradas através de seus representantes, eis que, graças a Deus não vivemos e não queremos viver em um estado fundamentalista, onde um Grupo Religioso, qualquer seja ele determine, por suas conveniências espirituais, os comportamentos sociais dos cidadãos, como ocorre em outros países, onde a religião predomina sobre os direitos civis dos cidadãos, e inclusive ocorre a proibição de pregação da vertente de fé não oficial estatal.

Estamos acompanhando atualmente uma grande discussão nas grandes cidades, como já acontece em outras nações, especialmente Rio e São Paulo, que é: “Até onde vai o direito de grupos religiosos pregarem o evangelho nos ônibus, trens, metros e barcas etc?”, “Será que os passageiros são obrigados a receberem as “boas novas”, numa situação onde eles não tem a opção de não querer ouvir ?” .

Já existem grupos sociais questionando, inclusive judicialmente, se esta liberdade de pregação do cristão, não se choca com o exercício de liberdade religiosa do cidadão, e caberá ao judiciário, “dizer do direito”, podendo ser interpretado, por um lado, como cerceamento a pregação, e por outro lado, como exacerbação da liberdade religiosa, em detrimento do direito à privacidade do cidadão.

Temos em nosso sistema legal a chamada “técnica da ponderação de direitos” , por isso, quando ocorre uma colisão de prerrogativas constitucionais, e, nestes casos, numa linguagem simplificada, geralmente aplicam os juízos a prevalência do direito coletivo-público, de interesse de toda a sociedade, sobre o direito individual do cidadão, de interesse particular-privado, evidentemente, cada caso é um caso, e é na analise do caso concreto que dá ao magistrado as condições para proferir sua decisão judicial.

Nossa sociedade, para resguardo de todos os cidadãos, independente de sua profissão de fé, instituiu um sistema jurídico para que os conflitos sejam satisfatoriamente resolvidos, com base no Estado Democrático de Direito, que é o primado da lei para todos os cidadãos, e aí a Igreja que tem contribuído na formação de bons crentes, também precisa contribuir decisivamente para a formação de bons cidadãos, “para que os homens vejam nossas boas obras e glorifiquem a nosso Pai que está nos céus”, e aí muitos sejam, pela atuação do Espírito Santo, em sua obra regeneradora, atraídos ao evangelho de Cristo, eis que os servos de Deus, também são exemplos dos fiéis nos cumprimento das Leis de César.

Que Deus continue a conceder sabedoria aos nossos Juizes e Tribunais é minha oração, para que no cumprimento de sua missão bíblica no estabelecimento da “possível paz social”, sejam instrumentos do Senhor, para a resolução destes e de outros conflitos, enquanto ministros da justiça de Deus, como assevera o Apóstolo Paulo: “Os Magistrados são instrumentos da justiça de Deus”. Romanos 13:3-4.

Direito Nosso: Gilberto Garcia é Advogado, Pós-Graduado, Mestre em Direito. Especialista em Direito Religioso, Professor Universitário, Conselheiro Estadual da OAB/RJ: 2007/2009, e, Membro Efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros. Autor dos Livros: "O Novo Código Civil e as Igrejas" (2003) e "O Direito Nosso de Cada Dia" (2004), Editora Vida, e, "Novo Direito Associativo" (2007), e, ainda Co-Autor na Obra Coletiva: "Questões Controvertidas - Parte Geral do Código Civil" (2007), Editora Método, além do DVD - "Implicações Tributárias das Igrejas" (2008), Editora CPAD. Site: www.direitonosso.com.br.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Mensagem aos batistas brasileiros

Mensagem apresentada à Assembléia da Convenção Batista Brasileira, reunida em Niterói, em Janeiro de 2011
A ARDENTE EXPECTAÇÃO DA CRIAÇÃO 
por Josué Mello Salgado*

“Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus” Romanos 8:19
INTRODUÇÃO:
A Escritura Sagrada afirma no texto lido: “Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus”. Toda a criação vive sob a ardente expectação, da apaixonada expectativa, de que aqueles que são chamados filhos de Deus pensem, falem e ajam como legítimos filhos de Deus! Que os filhos de Deus reproduzam em suas ações o caráter divino! Que aja coerência de vida com o nome que levamos!
A experiência na presidência da CBB nestes dois anos foi para mim semelhante à do profeta Isaías: Primeiramente fez-me perceber de forma mais clara a impureza dos meus próprios lábios em comparação com a Santidade de Deus e desejar ardentemente para mim o toque purificador e perdoador da brasa viva do altar. Uma responsabilidade como a da presidência de uma denominação com mais de 1.500.000 de pessoas fez-me refletir mais profundamente sobre as minhas próprias fraquezas e como um presidente, até mais do que um pastor, precisa servir de exemplo para os outros. Fui inspirado pelo ensino de Lucas 12:48 – “a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá”. Senti que à grande responsabilidade dada, correspondeu uma grande tarefa ética pessoal. Li uma vez de Fidel Castro a afirmação que deixar de fumar charutos era o último desafio que ele se impunha para ser exemplo para os cubanos. Não sei se ele cumpriu o desiderato, nem se a enfermidade que o tirou do poder foi consequência do não cumprimento do desafio, mas me impressionou a consciência da posição do líder.
Em segundo lugar a experiência na presidência da CBB fez-me também ver mais de perto certas, chamemos assim, impurezas dos lábios da nossa denominação e desejar ardentemente para ela o toque purificador e perdoador da brasa viva do altar. Microorganismos patogênicos não são vistos a olho nu, só com olhar microscópico. Certas fraquezas da denominação não são tão visíveis ao grande público ou detectáveis através de relatórios ou discursos triunfalistas. Elas, contudo estão aí presentes minando o nosso testemunho como filhos de Deus. Um dia uma jaqueira centenária amanheceu caída e morta no Seminário do Norte. Ninguém se apercebeu, mas bichos a comiam por dentro.
Quero mencionar aqui sete aspectos que chamaram a minha atenção nesses dois anos de presidência e que exigem de nós uma tomada de posição ao lado de Deus, como filhos de Deus.
Precisamos pois ser imitadores de Deus, como filhos amados (Efésios 5:1), isso é o que significa a ardente expectação da manifestação dos filhos de Deus!
Como agem genuínos filhos de Deus?
1)FILHOS DE DEUS SÃO PROTAGONISTAS PROATIVOS NO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL.
Esta assembleia convencional reveste-se de um significado paradigmático, tanto pelo contexto histórico das chuvas torrenciais que açoitam com violência pelo menos quatro estados brasileiros e principalmente o Rio de Janeiro, quanto pela “coincidência” do tema proposto: vida plena e meio ambiente; uma proposta batista de revisão da nossa relação com o meio ambiente. A criatura humana está perplexa com a dimensão dos chamados “desastres naturais”. Os números no estado do rio são alarmantes, quase mil mortos, milhares de desabrigados e desalojados.
O que vemos não são meros desastres naturais, são a consequência direta de comissões e omissões humanas. Não se pode culpar apenas a natureza pelos desastres naturais. Há anos atrás o jornalista Joelmir Beting fez uma afirmação paradigmática: A NATUREZA NÃO SE DEFENDE, ELA APENAS SE VINGA. Como ignorar a (ir-)responsabilidade dos governos, quase sempre apenas reativos e não proativos? No último dia de votação efetiva na Câmara dos Deputados, o plenário aprovou o projeto de aumento de 61,83% nos salários dos próprios parlamentares, de 133,96% no valor do vencimento do presidente da República e de 148,63% no salário do vice-presidente e dos ministros de Estado. A Auditoria Cidadã da Dívida ao comentar a situação das cidades brasileiras devastadas revelou que o Orçamento Geral da União (OGU) de
2010 reservou 442,5 milhões para o programa “Prevenção e Preparação para Desastres”, dos quais foram gastos apenas 13 milhões (2,97%) até 25 de dezembro de 2010. Infelizmente o Governo passou a desqualificar os números denunciados pela Auditoria Cidadã porque desta vez não pode se referir a herança recebida... O que mais nos surpreende é que o Rio sofre com os efeitos de tempestades desde 1700, de acordo com registros de jornais na época, e ano após ano os governos se recusam a investir nessa área. Contudo, como ignorar a teimosia dos próprios cidadãos que decidem, talvez por falta de melhores opções, viver perigosamente ocupando irregularmente áreas de risco? Como ignorar a relação irrefletida do ser humano com o meio ambiente? Mas sobretudo, como ignorar a presença pecaminosa do povo de Deus no mundo? Refiro-me a pecado no sentido de errar o alvo de Deus para nós. Como ignorar uma presença no mundo sem um sentido lato de missão que não seja apenas a de salvar almas para o céu, mas de guardar, observar, obedecer TODAS AS COISAS que Jesus ensinou (Mateus 28:20)? Como em Ezequiel 22:24ss não se pode culpar apenas a natureza pelos desastres ambientais, governo, povo e igrejas têm sua parcela de culpa. A nossa tarefa durante a assembleia seria fazer o nosso mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.
Quando Deus criou o ser humano e o colocou no jardim do éden, ordenou claramente um desenvolvimento sustentável do planeta: “E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar” Gênesis 2:15. Nem lavrar sem guardar, nem guardar sem lavrar. Vê-se por aqui que a responsabilidade ecológica não foi uma invenção humana moderna, foi uma ordenança divina antiga.
Que desta assembleia e durante todo este ano saíamos para ser protagonistas de um desenvolvimento sustentável do nosso meio-ambiente.
2)FILHOS DE DEUS NÃO DESFEREM “FOGO AMIGO”
“Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros”. Gálatas 5:15
Fogo amigo é o tiro acidental contra as próprias forças ou amigos durante a tentativa de envolver as forças inimigas, especialmente quando esta resulta em ferimentos ou morte.
Tenho visto muito fogo amigo no meio denominacional.
Não sei de onde surgiu a idéia absurda que a denominação precisa de oposição para melhorar. Infelizmente a necessária e salutar crítica aos processos e ações denominacionais foi transmudada em bloco de oposição e oposição em bloco. Diferencio claramente a oposição da crítica. A oposição fundamenta-se em críticas gratuitas e apressadas, é niilista, inflexível, sem conhecimento de causa e ordinariamente parte de posições antagônicas que tentam assim conquistar espaços não conquistados legitimamente. A crítica ainda que obstinada e implacável avalia minuciosamente o objeto, considera as variáveis, é construtiva, saudável necessária e urgente. Nenhuma instituição progride ou perdura sem interlocutor ou contraponto.
Irmãos nós estamos no mesmo barco, lutamos contra um inimigo comum, e não uns contra os outros, não contra a denominação, não contra a obra de Deus. “Pois não é contra carne e sangue que temos de lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniquidade nas regiões celestes” Efésios 6:12. É verdade que esses principados, potestades, príncipes do mundo destas trevas, e hostes espirituais da iniquidade marionetam muitos de nós para destruir a obra que Deus está realizando. A crítica ataca os processos errôneos, a oposição ataca pessoas e representam muitas vezes uma posição de “combate contra Deus” como alertou Gamaliel (Atos 5:39).
Quando não fazemos parte da solução e só queremos fazer parte do problema, então irmãos estamos desferindo fogo amigo absolutamente mortal. Estamos matando a denominação e suas instituições!
Amados irmãos uma casa dividida contra si mesma não pode subsistir. Ou nos focamos realmente o nosso inimigo, ou a denominação não subsistirá.
Que cessemos de desferir fogo amigo em nossa denominação. Que cessemos de atirar em nós mesmos.
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3)FILHOS DE DEUS SÃO PROFETAS, NÃO POLÍTICOS
“O profeta que teve um sonho, que conte o sonho; e aquele em quem está a minha palavra, que fale a minha palavra, com verdade. Que tem a palha com o trigo? -- diz o SENHOR.” Jeremias 23:28.
Não gosto de política! Essa é uma expressão usada por muitos que fundamentam assim a sua postura apolítica, i.e, "que ou aquele que não se interessa por política ou por ela tem aversão" (Dicionário Houaiss). Contudo, a expressão pode ser usada em um outro sentido, que, paradoxal e aparentemente, envolve sim participação, e às vezes até militância política. O significado da expressão depende do sentido da palavra!
Das diversas definições da palavra política duas se destacam: 1) política é a arte de bem governar os povos. Neste sentido, i.e,. como arte de bem governar, o conceito é positivo e fundamenta a conhecida afirmação aristotélica: "o homem é um animal político." Dessa política eu gosto e procuro "participar" e não tentar ser "apolítico", embora não goste da militância.
Mas política também pode ser: 2) astúcia, ardil, artifício e esperteza. Há aqueles que fazem política usando de negociações e negociatas, artifícios, manobras, conchavos, lobbys, mentiras e até usando as leis, encontrando nelas brechas! Infelizmente tal "política" vem sendo usada na sociedade de um modo geral, por vezes nas denominações religiosas e até em igrejas. É dessa política que não gosto, nem jamais gostarei, até porque não tenho tal habilidade nem quero desenvolvê-la. Talvez porque não sou político, mas profeta! O instrumento do político é a habilidade, a astúcia; o do profeta é o "assim diz o Senhor".
Os anabatistas proibiam a qualquer de seus membros exercerem cargos públicos. Eles levavam a separação entre igreja e estado muito a sério. Na verdade eles só admitiram entrar na política para implantar um estado teocrático, que acabou sendo um fiasco. Temo que em nossa denominação estejamos cada vez mais distantes do ideal anabatista; estamos flertando cada vez mais com o poder. E é por isso que creio firmemente que deixamos de lado a nossa vocação profética. Todas as vezes que alguma palavra profética se levantou em nosso meio foi fortemente criticada.
Destaco três temas abordados nos últimos tempos para os quais precisamos de coragem profética: aborto, lei da homofobia e laicidade do Estado. Quanto ao aborto, após o assunto ser levantado nas últimas eleições, setores governamentais procuraram minimizar posições claramente assumidas de descriminalização. A então candidata chegou a afirmar que é contra o aborto porque é uma violência contra a mulher, quando o aborto principalmente é uma usurpação da prerrogativa divina sobre a vida, e é principalmente uma violência contra a vida. Poucos perceberam que o nº 190 do Diário Oficial da União - Seção 3, pg. 88 no dia 4.10.2010, publicava um termo aditivo de prorrogação ao termo de cooperação entre a União Federal (Ministério da Saúde) e a Fundação Oswaldo Cruz (RJ) para "Estudo e Pesquisa para Despenalisar o Aborto no Brasil". Precisamos reafirmar profética e biblicamente que somos contra o aborto!
Sobre a lei de homofobia (PL-122), em tramitação no Congresso, poucos também se deram conta da crescente divulgação de atos de violência contra homossexuais. Condenamos todo ato de violência contra o ser humano (por isso somos contra o aborto) e defendemos o direito inerente da pessoa humana de liberdade de escolha. E contudo não se pode aceitar que em nome da luta contra a violência contra homossexuais as igrejas seja criminalizadas. Que, a liberdade deles, não tire a nossa de continuar crendo na Bíblia Sagrada, e de continuar a pregar a palavra, botando o dedo nas feridas da nossa sociedade.
Quanto à laicidade do Estado, o governo federal desferiu um golpe na liberdade religiosa ao aprovar e sancionar o Acordo Brasil-Vaticano. Disfarçado sob o manto de um acordo entre Estados, o Estado Brasileiro e o Estado do Vaticano, privilegiou-se uma religião, obviamente não oferecendo o mesmo privilégio a todas as outras religiões. Voltou-se, de certa forma, à religião oficial no Brasil, desmobilizada pela Constituição de 1889. Não é do meu conhecimento qualquer pronunciamento ou voto contrário de nossos parlamentares contra esse absurdo. No dia 12 de julho, em Sessão Especial no Senado Federal para homenagear a Igreja Memorial Batista pelo seu cinquentenário falei a apenas três senadores presentes sobre a necessidade da manutenção
do Estado laico e da liberdade religiosa. Afirmei a eles: Senhores Senadores, queremos continuar a ser uma igreja livre, num estado livre!
Que sejamos mais proféticos e menos políticos.
4)FILHOS DE DEUS VENCEM OS SEUS PRECONCEITOS
O dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define preconceito como uma opinião ou sentimento concebido ou assumido sem exame crítico, sem conhecimento abalizado, em consequência de generalização apressada ou imposta pelo meio.
Nós batistas temos reproduzido sem maiores reflexões vários preconceitos do nosso meio no correr da nossa história: há preconceito racial – Devo lembrar que muito desse preconceito teve os seus teólogos que provavam com a Bíblia na mão ser o negro designado por Deus para ser inferior e subalterno. Se alguém duvida que haja preconceito racial também em nosso meio recomendo a leitura do livrinho publicado pelo ISER, o Negro Evangélico. Há também entre nós o preconceito social, do rico contra o pobre, das igrejas ricas contra as igrejas pobres, das igrejas grandes contra as igrejas pequenas, e (pasmem) das igrejas pequenas contra as igrejas grandes, há o preconceito regional, sulistas contra nordestinos, paulistas contra baianos. E, contudo o que está mais evidente no tempo presente é o preconceito de gênero, contra a mulher e isto ficou muito evidente no horizonte da discussão sobre consagração de mulheres ao ministério pastoral batista. Muitas das argumentações contrárias deixam claramente evidente o preconceito contra a mulher: há uma desigualdade ontológica ou pelo menos funcional entre homem e mulher, a mulher foi criada para ser auxiliar do homem. Em muitas das argumentações percebe-se claramente a idéia da superioridade do homem em comparação à mulher e da inferioridade da mulher em comparação ao homem. Notem contudo que não estou dizendo que quem é contra a consagração de mulheres ao ministério pastoral pastoral batista seja preconceituoso, mas que muitos que são contrários, o são por puro preconceito contra a mulher.
Para confrontar bíblicamente o preconceito contra a mulher precisamos de uma teologia bíblica da mulher.
A TEOLOGIA DA CRIAÇÃO DESAUTORIZA A SUBALTERNAÇÃO DA MULHER AO HOMEM. Em Gênesis 2:18: “Disse mais o Senhor Deus: não é bom ao ser humano ser só; far-lhe-ei um socorro que lhe corresponda como uma imagem do outro lado do espelho” (tradução livre - Gênesis 2. 18).
Homem e mulher, mulher e homem foram criados por Deus como iguais ontológica e funcionalmente. Foram criados à imagem e semelhança de Deus (pouco menor do que Deus), coroados de honra e de glória, incumbidos de uma missão dada por Deus a ambos e dados um ao outro não como um auxiliar subalterno e inferior, foram dados um ao outro como auxílio e socorro.
É preciso lembrar que a subalternação da mulher em relação ao homem não é fruto da teologia da criação, mas da teologia da queda. "E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a dor da tua conceição; em dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará" Gênesis 3:16. O problema é que há muitos que subordinam sua visão e ação sobre a mulher não à teologia da criação, mas à teologia da queda.
A TEOLOGIA DA REDENÇÃO PRECEITUA A ISONOMIA ENTRE HOMEM E MULHER. Essa subalternação de um ser criado ao outro identificada na teologia da queda representa uma ruptura da igualdade desejada e criada por Deus. Em sua oração sacerdotal Jesus orou “para que todos sejam um”. A oração de Jesus era uma expectativa, um desejo, um sonho. Paulo escrevendo aos Gálatas 3:28, disse: “porque todos vós sois um”. A expectativa de Jesus parece ter sido realizada na Galácia. E Paulo parece oferecer uma razão para tanto: "Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus." Em Cristo afirmou Paulo não há homem nem mulher, porque todos são um. Ou dito de outra forma: "Todavia, no Senhor, nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher" (1 Coríntios 11:11). A subalternação na queda deve ser superada na redenção, na igreja.
Há contudo dois textos que trazem alguma dificuldade para nós: a) "As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja" 1 Coríntios 14:34-36, b) "A mulher aprenda em silêncio com toda a submissão (dedicação, devoção). Pois não permito que a mulher ensine (didasko), nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio" 1 Timóteo 2:11, 12.
Contudo a Tito (2:3) Paulo escreve: “As mulheres idosas (gr. presbutidas), semelhantemente, que sejam reverentes no seu viver, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras do bem (kalo–didaskalous)”. Sem entrar no mérito do uso do termo PRESBUTIDAS obviamente da mesma raiz de presbíteros, Paulo diz que elas devem ensinar, ser boas mestras (Lutero). Enquanto em Timóteo ele diz que não permitia que a mulher ensinasse na igreja, aqui ele diz que as mulheres idosas deviam ensinar, e ensinar bem. É bom lembrar que no único texto do NT em que a palavra pastor (POIMEN), aparece se referindo a líderes na igreja e mesmo assim no plural é Ef. 4.11. Aqui o título é pastores-mestres (POIMENAS KAI DISDAKALOUS).
Sobre as mulheres na igreja aprendemos que: Foi Maria de Nazaret a que deu à luz e educou ao menino Jesus; foi Maria de Magdala a primeira a ver o Senhor ressuscitado; foram quatro mulheres as que, de todos os discípulos, estiveram ao lado da cruz. Priscila com seu marido Aquila era uma mestra apreciada na igreja primitiva, uma mestra que guiou a Apolo no conhecimento da verdade (Atos 18:26). Evodia e Sintique, apesar das desavenças, eram mulheres que trabalharam no evangelho (Filipenses 4:2-3). Felipe, o evangelista, tinha quatro filhas que eram profetizas (Atos 21:9). Paulo considerava com alta honra a Loide e Eunice (2 timóteo 1:5), e muitos nomes de mulheres são mencionados com alta estima em Romanos 16.
Tanto o pano de fundo Judaico quanto grego era que a mulher não era uma pessoa, mas uma coisa. Assim as orientações paulinas procuravam enfrentar uma situação concreta em um contexto social concreto, com leis claras e definidas (como também ordena a lei). Não devemos ler estas passagens como uma barreira à tarefa e serviço da mulher dentro da igreja, devemos fazê-lo á luz do pano de fundo judaico e da situação em uma cidade grega. Todos são aptos para servir a Cristo, Deus quer usar a todos.
A teologia da criação, a teologia da queda e a teologia da redenção devem nos levar a superação de todo o preconceito contra a mulher, de qualquer diminuição de sua dignidade e funcionalidade dentro da igreja e diante de Deus.
Que aos pés da cruz vençamos os nossos preconceitos raciais, sociais, regionais e de gênero.
5)FILHOS DE DEUS RESOLVEM OS SEUS CONFLITOS BIBLICAMENTE
“Ousa algum de vós, tendo uma queixa contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? Para vos envergonhar o digo. Será que não há entre vós sequer um sábio, que possa julgar entre seus irmãos? Mas vai um irmão a juízo contra outro irmão, e isto perante incrédulos? Na verdade, já é uma completa derrota para vós o terdes demandas uns contra os outros. Por que não sofreis, antes, a injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano?” 1 Coríntios 6:1,
“O mal que mais ameaça o cristianismo não é o anti-cristianismo, mas o sub-cristianismo”!
Depois do famigerado arrombamento da PIB de Goiânia para a realização de um casamento fora dos normativos internos daquela igreja e determinado por uma juíza ímpia, eu não imaginava que veria o que temos visto em nossa denominação, uma verdadeira paranoia querelante. De todos os estados ouvimos a mesma coisa, membros de igreja que não querem viver a vida cristã pelos ditames da Palavra de Deus leva os outros às varas criminais deste país (igrejas, e até a CBB) e isto perante juízes ímpios que não conhecem sequer as determinações bíblicas.
Meus irmãos Daniel foi condenado pela lei dos medos e dos persas “que não se pode revogar” (Daniel 6:12) porque desobedeceu ao interdito estabelecido pelo edital de Dario. Note ele foi condenado pela lei dos medos e dos persas, mas com certeza não pela lei de Deus. Não estou pregando aqui uma desobediência às leis, mas afirmando que a lei de Deus, a Palavra de
Deus não pode estar para nós abaixo das leis humanas! A Bíblia ensina o caminho para resolver os conflitos: a) Auto-exame – contrição, arrependimento, confissão e restituição, b) Alter-exame – exame do outro, c) Admoestação em particular, d) Admoestação comunitária, e) Sofrimento do dano!
Quem não quer viver pela Bíblia que saia da igreja!
Que busquemos resolver os nossos conflitos entre nós e aos pés da cruz e se não formos contemplados em nossas percepções pessoais, que soframos o dano!
6)FILHOS DE DEUS GUARDAM-SE ISENTOS DA CORRUPÇÃO DO MUNDO
“Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas; para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio duma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo;” Filipenses 2:14-15.
Em pesquisa divulgada pela Transparência Internacional na quinta-feira, 9 de dezembro, apontando o nível de percepção da corrupção em todo o mundo, um dado chamou a atenção: em seis anos, a percepção de que a corrupção afeta as instituições religiosas quase dobrou! Em outras palavras: as pessoas tomaram consciência que as instituições religiosas não são tão santas quanto dizem ser ou deveriam ser!
Amados irmãos, lembro-me de muitos anos atrás ler uma reportagem no Jornal Batista que falava de um executivo da denominação ter contratado vários membros da família para atuarem em funções na organização dirigida por ele. O que já me surpreendia na época, ainda um jovem, era que a reportagem falava da benção de toda a família trabalhar na obra denominacional: não era benção, era nepotismo mesmo! E já soava estranho a mim um jovem funcionário público.
A pesquisa divulgada pela Transparência Internacional não deve ser novidade para nós. Em muitas áreas temos visto a corrupção do mundo penetrar em nossas instituições.
No passado no embate com o movimento pentecostal éramos conhecidos pelo foco na ética, na lisura, e os pentecostais eram conhecidos pelo foco na experiência sensitiva, o que gerava neles um certo relaxamento na ética. Era comum ouvir as experiências espirituais profundas visivelmente mentirosas. O importante era mostrar o poder! Ou como escreveu Sammy Tippit: Buscava-se o poder de Deus, mais que o Deus do poder. Temo que hoje, por causa da idolatria do crescimento e dos números, tenhamos relaxado na ética flertando muitas vezes com líderes carismáticos, com evidente fraqueza moral e ética.
Têm-se notícias, muitas vezes advinda do espanto da sociedade secular, da corrupção, do tráfico de influência, da malversação da coisa denominacional, do enriquecimento ilícito, das propinas etc...
Que nos guardemos isentos da corrupção do mundo e sejamos de fato astros no mundo!
7)FILHOS DE DEUS VALORIZAM TODA A OBRA DE DEUS E A OBRA DE DEUS TODA
Quero recontar uma história bíblica usando-a como uma alegoria: os filhos de Rebeca. Isaque o filho da promessa (Abraão) tinha quarenta anos quanto tomou por mulher a Rebeca. Rebeca era estéril e Isaque orou insistentemente ao Senhor por sua mulher, e o Senhor ouviu as suas orações, e Rebeca, sua mulher, concebeu a gêmeos: Esaú e Jacó. “Cresceram os meninos; e Esaú tornou-se perito caçador, homem do campo; mas Jacó, homem sossegado, que habitava em tendas. Isaque amava a Esaú, porque comia da sua caça; mas Rebeca amava a Jacó” (Gênesis 25:27-28). Rebeca teve dois filhos, gêmeos, mas amava apenas um, aquele que era “sossegado”, que não exigia maiores cuidados e preocupações. As ações de Rebeca visaram sempre superproteger Jacó, em detrimento dos cuidados de mãe também a Esaú. Quero entender tal história por alegoria. Rebeca, a mãe, é a denominação batista. Esaú o filho, mal ou não amado, é a área de formação ministerial, os seminários. Jacó o filho sossegado, e amado são as juntas missionárias.
As juntas missionárias têm sido chamadas e tratadas equivocadamente de “meninas dos olhos da denominação”. É curioso que a expressão “menina do olho” seja aplicado à pupila do olho. Agora notem para termos visão não podemos só cuidar bem da pupila, mas também da
retina, do nervo ótico, enfim de todo o globo ocular. E notem de nada aproveitará uma pupila bem cuidada e saudável com um coração parado!
Tal tratamento diferenciado me faz perguntar se, as outras áreas da denominação, não são também importantes e essenciais para a existência sadia da denominação.
Em 2009 tínhamos como tema “O Aperfeiçoamento dos Santos: Descobrindo e Capacitando Líderes”. Tal tema traz uma percepção programática importante para o aperfeiçoamento dos santos: é preciso descobrir e capacitar líderes. Tais ações, entretanto devem conduzir naturalmente ao envio para que o ciclo se feche num todo harmônico, integral e sucessivo: descobrir, capacitar e enviar.
Como partes de um todo harmônico e integral descobrir, capacitar e enviar precisam receber o mesmo enfoque, a mesma ênfase, o mesmo investimento sob pena de sofrermos nanismo em uma ação em contrapartida à elefantíase em outra. É preciso conjugar os três verbos com a mesma força! Já foi o tempo em que no Brasil batista se dizia que antes de sermos testemunhas na “Judéia”, “Samária” e até “os confins da terra” era preciso ser testemunhas primeiro na nossa “Jerusalém”. O consenso hoje é que se faz necessária uma ação testemunhal concomitante, simultânea, coerente. Fazemos Missões Mundiais com a mesma paixão que Missões Nacionais e Missões Locais e Estaduais! É chegado o tempo em tenhamos a mesma paixão para capacitar que temos tido para descobrir e enviar.
Os batistas brasileiros temos investido significativamente na captação e descoberta de vocações. Os grandes e pequenos congressos missionários têm gerado um contingente considerável de vocações. Não há crise vocacional na denominação. Temos conjugado bem o verbo descobrir!
Nos últimos dois anos nomeamos e comissionamos cerca de 300 novos missionários para os campos de missões nacionais e mundiais, sem contar de missões estaduais. Os batistas brasileiros somos pródigos no envio e para isso levantamos vultosas ofertas nos dias especiais. Somos a segunda força missionária mundial e isso nos leva a conclusão: Temos conjugado bem o verbo enviar!
Lamentavelmente não podemos dizer o mesmo quando o verbo é capacitar! O dia especial para levantamento de ofertas para as casas de formação ministerial no mês de novembro não tem hoje qualquer apelo junto às nossas igrejas, às nossas lideranças, aos nossos corações. Dizemos que os seminários são importantes para a denominação, mas não o demonstramos com nossas afirmações e ações! Tratamos os seminários como empresas que devem dar lucro e se auto-sustentarem. Falta-nos paixão na conjugação do verbo capacitar! Pelo menos falta-nos a mesma paixão com que conjugamos os verbos descobrir e enviar! Como denominação ainda não descobrimos que preparo e envio são duas faces da mesma moeda!
Alguns argumentarão que o problema da nossa pouca paixão pelo verbo capacitar, pela educação teológica, é culpa dos próprios seminários mau gerenciados! Eu perguntaria como reagimos na crise de gestão que se abateu sobre a JMN em 2005, um endividamento acima dos 4 milhões? Parte dessa concepção decorre de uma visão reducionista da crise financeira que se abate há anos sobre os seminários administrados pela CBB. Os três seminários têm uma receita operacional abaixo das despesas. Reduzimos tudo a uma má gestão, mas há pelo menos três fatores responsáveis por essa situação: a) Modelo importado de difícil gestão. O modelo de campus enormes trazido pelos nossos irmãos norte-americanos era baseado no modelo de Richmond, regado a dólares não só para a aquisição de grandes áreas, mas também para o sustento de professores-missionários não remunerados por aqui, além da facilidade de conseguir verbas para cobrir os gap orçamentários. Quando as contas apertavam o Dr. David Mein ligava para os EUA e imediatamente chegavam ofertas dolarizadas para o Seminário do Norte. Os professores hoje são praticamente todos nacionais e devem receber por suas aulas, não há mais a mesma facilidade em receber ofertas de fora. B) Concorrência Interna. A abertura de instituições de ensino teológico (IET) estaduais, associacionais e eclesiásticas trouxe a redução significativa de matrículas para os seminários administrados pela CBB. C) Má Gestão. A competência na área de gestão impõe-se hoje sobre os Seminários administrados pela CBB. Além disso, precisamos responsabilizar os maus gestores por suas más gestões! Precisamos
disponibilizar instituições saudáveis e sustentáveis aos gestores e cobrar deles responsabilidade fiscal e financeira, à luz de sua competência para tal.
Para a missão precisamos de preparação e, se queremos realizar a missão nacional e mundial com egressos dos seminários que tenham um rosto batista não multifacetário e confuso, mas homogêneo, traçado pela visão nacional e não setorizada então os seminários administrados pela CBB precisam receber de nós um melhor tratamento. Penso que precisamos encarar o preparo e o envio como duas faces da mesma moeda.
Se vamos continuar a ter “menina dos olhos” da denominação entre as áreas de atuação, é melhor que esta assembleia delibere estrategicamente em matar e enterrar de vez o resto do corpo, que em alguns casos, está na UTI há muito. Será lamentável, mas pelo menos agiremos coerentemente com a nossa atitude.
Que valorizemos toda a obra denominacional como Deus valoriza, sem “menina dos olhos” entre todo o olho. Que superemos nossa “gagueira” missiológica. Que conjuguemos com toda a força todos os verbos da missão: descobrir, capacitar e enviar.
CONCLUSÃO:
Li que certo general ao encontrar no seu exército um soldado homônimo, mas com sérios problemas morais e de indisciplina decretou: OU MUDA DE ATITUDE OU MUDA DE NOME!
“Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus”.
Que desta assembleia e durante todo este ano saíamos para ser protagonistas de um desenvolvimento sustentável do nosso meio-ambiente.
Que cessemos de desferir fogo amigo em nossa denominação. Que cessemos de atirar em nós mesmos.
Que sejamos mais proféticos e menos políticos.
Que aos pés da cruz reconheçamos, enfrentemos e vençamos os nossos preconceitos raciais, sociais, regionais e de gênero.
Que busquemos resolver os nossos conflitos entre nós e aos pés da cruz e se não formos contemplados em nossas percepções pessoais, que soframos o dano!
Que nos guardemos isentos da corrupção do mundo e sejamos de fato astros no mundo!
Que valorizemos toda a obra denominacional como Deus valoriza, sem “menina dos olhos” no meio de todo o olho, de todo o corpo. Que superemos nossa “gagueira” missiológica. Que conjuguemos com toda a força todos os verbos da missão: descobrir, capacitar e enviar.
Ouçamos a exortação bíblica: 1“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados;” Porque, noutro tempo, éreis trevas, mas, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz 9 (porque o fruto do Espírito está em toda bondade, e justiça, e verdade), 10 aprovando o que é agradável ao Senhor. 11 E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas, antes, condenai-as. 12 Porque o que eles fazem em oculto, até dizê-lo é torpe. 13 Mas todas essas coisas se manifestam, sendo condenadas pela luz, porque a luz tudo manifesta. 14 Pelo que diz: Desperta, ó tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá. Efésios 5:1, 8-14
A maior contribuição ecológica que podemos fazer é corresponder e superar a ardente expectação da criação: de que nós chamados filhos de Deus pensemos, falemos e ajamos como legítimos filhos de Deus! Que aja coerência de vida com o nome que levamos

* Pastor da Igreja Memorial Batista de Brasília e ex-presidente da Convenção Batista Brasileira