Saudades de Peroba
U-tê-rê-rê!!!
Não escrevo para ditar rumos. Escrevo porque estou construindo rumos, abrindo caminhos ...
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Marcadores: Filosofia de Vida, pessoal
Não importa se é considerada brega ou xique; se é bem ou mal interpretada; se a harmonia foi feita com boa qualidade técnica ou não. Quando ela penetra nossos ouvidos, vai logo ressuscitando lembranças; remetendo-nos a tempos distantes e fazendo com que cada partícula do nosso ser seja irrigada por fortes sentimentos.
É o caso da música MEU PRIMEIRO AMOR, de Herminio Gimenez, José Fortuna e Pinheirinho Jr.. Quando começo a ouvi-la sou instantaneamente trasladado para a Rua Carlos Ferrari, em Garça, onde vivi quando tinha em torno de 6 anos.
A rua não era asfaltada. As luzes dos postes eram acesas e apagadas por um profissional que ia, dia após dia, de poste em poste, com uma vara longa, ligando ou desligando uma chave. Nela também passava o “véio tarado”. Diziam que ele morava na Rua Bahia, famosa por ser uma zona de meretrício. Quando ele aparecia, a criançada corria pra dentro de casa.
Nessa rua vivi experiências inesquecíveis. Lembro-me, por exemplo, do dia em que o caminhão que recolhia lixo parou em frente a minha casa. Assim que percebi que ele sairia, dependurei-me na rabeira, mas nem tive tempo de deliciar-me com a aventura. Eis que meu pai aparece, agarra-me fortemente, leva-me para um canto e me dá uma boa surra. Recolhi-me num quarto da casa, morrendo de vergonha das pessoas que nos visitavam, fiz xixi nas calças e nunca mais ousei aquele tipo de peraltice.
As visitas do padre da lambreta, se não me engano por ocasião do nascimento do meu irmão Edson, também me ocorrem quando se abrem os arquivos daquele período. Conquanto fôssemos batistas, bom relacionamento com padres e freiras ficaram em minha mente.
Nada, porém, se compara à lembrança do dia em que dona Nena estendia roupas num varal improvisado na calçada. Ela trabalhava eenquanto eu e mais dois ou três meninos, planejávamos o que fazer com uma colméia instalada numa árvore. Ao acabar de estender as roupas, ela convidou-me a entrar e alertou-me do perigo que corria com as abelhas. Excitado, porém, com mais uma aventura, não me dei conta de que, de repente, um dos meninos atirou uma pedra na casa das abelhas e nem tive tempo de correr. Quando dei por mim, já não sabia mais o que fazer se não gritar desesperadamente, pedindo por socorro.
Claro, uma febre tomou conta de mim e, paparicado pelas irmãs mais velhas, fiquei acamado sem que uma mosca pudesse se aproximar.
A casa era de madeira escura e o telhado não era forrado. Como eu era pequeno, ela me parecia gigante. Quando meu pai chegava do trabalho, corria recebê-lo no portão e o acompanhava até um tanque, no fundo do quintal, onde ele lavava os braços com sabão.
Certa vez perguntei-lhe porque ele passava sabão até os cotovelos. Ele disse que era pra matar os bichinhos que estavam nos braços. Se não se lavasse, eles escorregariam até o garfo da comida, entrariam em seu corpo pela boca causando doenças. Até hoje, cada vez que lavo as mãos, lembro-me da história dos bichinhos escorregando braços abaixo.
Diariamente eu acordava ao som de música sertaneja tocada no rádio da casa vizinha, acompanhada de um cheiro delicioso de café que meu pai preparava antes de sair para o trabalho. Na cama eu permanecia sob os cobertores, observando raios de sol que penetravam por entre frestas da parede ou do telhado que não tinha forro, trazendo luz para dentro do quarto escuro e frio.
Daí minha saudade ao ouvir esta música.
Saudade, palavra triste
Quando se perde um grande amor,
Na estrada longa da vida
Eu vou chorando a minha dor
Igual a uma borboleta
Vagando triste por sobre a flor
Teu nome sempre em meus lábios
Irei chamando por onde for
Você nem sequer se lembra
De ouvir a voz desse sofredor
Que implora por seus carinhos
Só um pouquinho do seu amor
Meu primeiro amor
Tão cedo acabou,
Só a dor deixou
Nesse peito meu
Meu primeiro amor
Foi como uma flor
Que desabrochou e logo morreu
Nesta solidão, sem ter alegria
O que me alivia são meus tristes... ais...
São prantos de dor
Que dos olhos caem
É porque bem sei
Quem eu tanto amei
Não verei...
Jamais...
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Vez por outra paro pra pensar na minha adolescência. Não costumo reclamar do que faltou, prefiro valorizar o que tive. Se em algumas áreas as condições de vida não foram as desejáveis, em outras foram bastante felizes. Num balanço final, o saldo foi positivo.
Lembro-me com alegria daquela fase cardume. Era o período em que não somente andávamos em bando, mas também, para onde um ia todos seguiam juntos.
Era o tempo em que a palavra responsabilidade não fazia parte do vocabulário. Tínhamos conhecimento dela mais por ouvir falar – quando é que você se tornará responsável? - do que por falar.
Sonhar era uma das experiências mais comuns. Idealizar a vida ao lado de alguém que se ama, chorar por causa do sofrimento de um amigo e indignar-se com as injustiças em tom fortemente emocional, era muito mais comum na caminhada.
Era delicioso voar em mundos de fantasia enquanto a professora falava em geometria, raiz quadrada, crase, análise sintática, enfim. Ruins eram as conseqüências quando aterrissava na hora das provas. Aí doía!
Imaginar-se financeiramente autônomo, dono do próprio nariz, sem ter que prestar contas sobre a hora de voltar pra casa ou das notas alcançadas na escola ocupava parte significativa do tempo.
O uso de gírias como forma de comunicação, de corte de cabelo ou certos tipos de roupa como meio de diferenciação faziam com que me sentisse único, ainda que semelhante aos da mesma idade. Essa era a forma de vivenciar a independência possível e de imitar alguém admirado em quem projetava desejos distantes de se concretizarem.
Porém, não posso negar que, se tivesse tido acesso às informações que tenho hoje, sobre perfil de pessoas naquela faixa de idade, talvez, não somente a fase tivesse sido ainda melhor, mas também, nos anos posteriores, a influência dela causasse menos dor de cabeça pra mim e para os que me cercam.
Melhor ainda, se tivesse sido cercado por pessoas, na família, na igreja, na escola, que conhecessem os característicos desta fase e, por isso, conseguissem mergulhar em minha alma e acompanhar-me em meus vôos, ajudando-me de forma adequada a encontrar melhores rumos para superar as tribulações, as coisas poderiam ter sido mais fáceis.
Teria tido menos sentimento de culpa se soubesse que o conflito de autoridade faz parte daquele momento da vida; se soubesse que, se na fase anterior à adolescência a palavra dos pais é verdade absoluta, na adolescência é natural que se inicie a busca de verdades próprias, com as próprias palavras; que isso é fato gerador de conflitos, mas também é essencial à definição do caráter.
Talvez tivesse sofrido menos se soubesse, portanto, que aquilo que chamavam de rebeldia, desobediência, desvio, ou até, pasmem, falta de comunhão com Deus ou desobediência aos seus ensinos, poderia ser sinal de saúde, de amadurecimento, de crescimento pessoal.
Teria tido uma adolescência mais saudável se o diálogo e informações em torno das alterações pelas quais o corpo passa, fossem mais freqüentes. Talvez a timidez fosse encarada com mais naturalidade e os níveis de ansiedade atingissem patamares menos danosos, se ficasse mais claro que todos passam por tal processo e o processo passa.
Certamente as coisas teriam sido mais fáceis se tivesse havido mais diálogo quanto às transformações sexuais que ocorrem e se estas tivessem sido tratadas com naturalidade, como parte saudável do desenvolvimento humano. Se assuntos como masturbação e fantasias sexuais tivessem sido objetos de diálogo humano, honesto e franco, destituídos de preconceitos, ignorância e tabus, sem dúvida a passagem teria sido mais agradável.
O grande barato da vida, porém, é que a cada dia podemos decidir o que fazer com o que fomos ou deixamos de ser. Podemos escolher lamentar o que nos machucou e ficarmos paralisados ou tentar tirar lições do passado visando construir um presente e um futuro melhores.
Por isso, na adolescência, como em todas as fases da vida, é importante relativizarmos as experiências, sejam boas ou ruins. É importante compreendermos que não devemos mergulhar na tristeza diante das adversidades, porque elas passam, nem nos enchermos de orgulho nos momentos de glória, pois eles também passam.
Como tudo na vida passa, a adolescência também passa. O importante é procurarmos conhecer mais sobre as marcas de cada fase de nossa existência e como podemos enfrentá-las à luz da palavra de Deus.
Aprendendo a enfrentar as crises - transições da vida - não somente nos fortaleceremos para os desafios futuros, mas também, lamentaremos menos ao olhar para o passado. E, ao olharmos no espelho da vida, nosso semblante atestará que valeu a pena termos feito o que fizemos e vivido como vivemos.
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