Mostrando postagens com marcador pessoal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pessoal. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Saudades de Peroba

Passei mais da metade dos carnavais do meu tempo de nordeste neste paraíso.
Hoje, em pleno sábado de Zé Pereira, aqui estou, transitoriamente sozinho, trancado num apartamento, com a cara enfiada nos livros, colocando o dever em dia!!!
U-tê-rê-rê!!!
Praia de Perboa, Maragogi, divisa de Alagoas e Pernambuco
 (Foto copiada de Milla)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

É Natal

A árvore caiu 
O presente feriu
A notícia magoou
O blog sumiu


O portão se fechou 
O telefone calou
A cama partiu
O feijão se queimou


A visita chegou
O remédio dopou
O gato fugiu
O silêncio reinou



O sol se esvaiu
O teclado assumiu
A toalha dobrou
O talher engoliu

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A seriedade que não quero ter

Não quero ter a seriedade dos que se escondem dentro de um paletó, escudados por uma gravata, ainda que nada tenha contra tal indumentária ou contra os que, como eu, não têm problemas com usá-la;


 Não quero ter a seriedade dos que impostam a voz para anunciar seus títulos, suas viagens ou seus relacionamentos com gente “poderosa”;


Não quero ter a seriedade dos que rebuscam o vocabulário à moda dos antigos coronéis, candidatos a cargos públicos, visando criar uma imagem que esconde realidades danosas em seu ser;


Não quero ter a seriedade dos que se manifestam pouco não por acreditarem que não têm o que dizer, ou por acharem que precisam ouvir para refletir, mas por estarem convencidos de que expondo-se menos conquistam mais reconhecimento e poder;


 Não quero ter a seriedade dos que acreditam que rir em público, da vida, dos próprios erros, das derrapadas que damos nos desqualificam para assumir responsabilidades, cumprir deveres ou executar atribuições que beneficiam a coletividade.

Não quero ter a seriedade deste tipo porque minha parca experiência mostra que não poucos, daqueles que assim agem, na verdade têm segundas, e nem sempre as melhores, intenções; que são uma coisa na vida pública e outra, oposta, na privada.

Conheço de perto alguns a quem se entregaria a chave do cofre do Banco Central, pela imagem pública que apresentam, mas a quem eu não daria a chave de sanitários de alguns postos de gasolina de regiões paupérrimas do nosso país.


Não estou falando de pessoas que, como todos, cometem erros em sua trajetória de vida. Falo de cínicos, de covardes, de mentirosos. Falo de gente que erra por que erra; que erra quando não assume que erra; que erra quando usa a imagem de que não erra para levar outros a errarem enganados por sua aparência.


Já vivi dois terços de minha vida, segundo os indicadores do IBGE. Já tive tempo suficiente para quebrar meus ídolos e destruir meus mitos. Esse tempo foi suficiente para conhecer de perto a anormalidade daqueles a quem admirava pela imagem que deles construí.


Alguns desses continuam sendo por mim admirados justamente porque, com o conhecimento de suas limitações, conheci também a sinceridade e a humildade; outros, porém, descobri que juntamente com as imperfeições havia empáfia, personalismo e até mesmo a falsa humildade e espiritualidade que se esconde atrás da fachada da fala mansa, pausada e recheada de citações “bíblicas”.


Quero ser sério sem deixar de rir, sem deixar de ouvir piadas, sem deixar de brincar com gente que tem coragem pra se assumir como gente.

Quero pode brincar sem perder a seriedade, a transparência e a sinceridade como referenciais de conduta, sabendo que há situações que exigem administração do tempo e circunstância, para que a verdade seja anunciada como manifestação de amor, de cuidado, não de ódio, amargura ou deabafo.


Quero, por isso, ter a seriedade de Jesus que se sentava com pescadores pecadores, com eles comia peixe frito, dividia o pão, tomava vinho, ouvia e contava histórias, mas que, na hora de dizer o que precisava ser dito e fazer o que precisava ser feito, agia movido por valores espirituais e não por más conveniências políticas ou interesses mesquinhos.

domingo, 4 de outubro de 2009

Um dia muito especial em minha vida



Hoje, domingo, 04 de outubro, 5h30, tomei uma decisão das mais importante do meu ministério pastoral.
Para que eu não me esqueça, como a "pedra de Jacó" (Gen.31.45-48), registro o fato aqui.
Continue Deus misericordioso para com a minha vida.


sábado, 5 de setembro de 2009

Lembranças da infância em Garça

Música é como perfume: tem o poder de escarafunchar os recônditos da memória, adentrando por entre móveis empilhados e empoeirados nos quartos escuros da vida, cheios de teias de aranha, cheiro de mofo, barulho de ratos, nos quais garimpamos medrosa, meticulosa e cuidadosamente, buscando preciosidades que possam produzir fortes e inacabáveis orgasmos.


Não importa se é considerada brega ou xique; se é bem ou mal interpretada; se a harmonia foi feita com boa qualidade técnica ou não. Quando ela penetra nossos ouvidos, vai logo ressuscitando lembranças; remetendo-nos a tempos distantes e fazendo com que cada partícula do nosso ser seja irrigada por fortes sentimentos.


É o caso da música MEU PRIMEIRO AMOR, de Herminio Gimenez, José Fortuna e Pinheirinho Jr.. Quando começo a ouvi-la sou instantaneamente trasladado para a Rua Carlos Ferrari, em Garça, onde vivi quando tinha em torno de 6 anos.

A rua não era asfaltada. As luzes dos postes eram acesas e apagadas por um profissional que ia, dia após dia, de poste em poste, com uma vara longa, ligando ou desligando uma chave. Nela também passava o “véio tarado”. Diziam que ele morava na Rua Bahia, famosa por ser uma zona de meretrício. Quando ele aparecia, a criançada corria pra dentro de casa.


Nessa rua vivi experiências inesquecíveis. Lembro-me, por exemplo, do dia em que o caminhão que recolhia lixo parou em frente a minha casa. Assim que percebi que ele sairia, dependurei-me na rabeira, mas nem tive tempo de deliciar-me com a aventura. Eis que meu pai aparece, agarra-me fortemente, leva-me para um canto e me dá uma boa surra. Recolhi-me num quarto da casa, morrendo de vergonha das pessoas que nos visitavam, fiz xixi nas calças e nunca mais ousei aquele tipo de peraltice.

As visitas do padre da lambreta, se não me engano por ocasião do nascimento do meu irmão Edson, também me ocorrem quando se abrem os arquivos daquele período. Conquanto fôssemos batistas, bom relacionamento com padres e freiras ficaram em minha mente.


Nada, porém, se compara à lembrança do dia em que dona Nena estendia roupas num varal improvisado na calçada. Ela trabalhava eenquanto eu e mais dois ou três meninos, planejávamos o que fazer com uma colméia instalada numa árvore. Ao acabar de estender as roupas, ela convidou-me a entrar e alertou-me do perigo que corria com as abelhas. Excitado, porém, com mais uma aventura, não me dei conta de que, de repente, um dos meninos atirou uma pedra na casa das abelhas e nem tive tempo de correr. Quando dei por mim, já não sabia mais o que fazer se não gritar desesperadamente, pedindo por socorro.


Claro, uma febre tomou conta de mim e, paparicado pelas irmãs mais velhas, fiquei acamado sem que uma mosca pudesse se aproximar.


A casa era de madeira escura e o telhado não era forrado. Como eu era pequeno, ela me parecia gigante. Quando meu pai chegava do trabalho, corria recebê-lo no portão e o acompanhava até um tanque, no fundo do quintal, onde ele lavava os braços com sabão.


Certa vez perguntei-lhe porque ele passava sabão até os cotovelos. Ele disse que era pra matar os bichinhos que estavam nos braços. Se não se lavasse, eles escorregariam até o garfo da comida, entrariam em seu corpo pela boca causando doenças. Até hoje, cada vez que lavo as mãos, lembro-me da história dos bichinhos escorregando braços abaixo.


Diariamente eu acordava ao som de música sertaneja tocada no rádio da casa vizinha, acompanhada de um cheiro delicioso de café que meu pai preparava antes de sair para o trabalho. Na cama eu permanecia sob os cobertores, observando raios de sol que penetravam por entre frestas da parede ou do telhado que não tinha forro, trazendo luz para dentro do quarto escuro e frio.


Daí minha saudade ao ouvir esta música.



Saudade, palavra triste
Quando se perde um grande amor,
Na estrada longa da vida
Eu vou chorando a minha dor
Igual a uma borboleta
Vagando triste por sobre a flor
Teu nome sempre em meus lábios
Irei chamando por onde for
Você nem sequer se lembra
De ouvir a voz desse sofredor
Que implora por seus carinhos
Só um pouquinho do seu amor
Meu primeiro amor
Tão cedo acabou,
Só a dor deixou
Nesse peito meu
Meu primeiro amor
Foi como uma flor
Que desabrochou e logo morreu
Nesta solidão, sem ter alegria
O que me alivia são meus tristes... ais...
São prantos de dor
Que dos olhos caem
É porque bem sei
Quem eu tanto amei
Não verei...
Jamais...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Quero ser igual a Jesus

“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens” (Fil. 2.6-7)

Durante anos da minha vida tentei ser igual a Jesus. Assim fui estimulado através de mensagens e músicas sacras ao longo da caminhada. Como queria deixar claro o meu compromisso, vivia com ele uma relação, digamos, neurótica. Confesso que não desisti totalmente da idéia, mas ajustes foram feitos e a relação se tornou, acredito, mais saudável e prazerosa.

Primeiramente ajustei-me emocionalmente em função do conhecimento e dependência da graça de Deus. Descobri que não precisava ser igual a Jesus para ser amado por Deus. Passei a confiar que Deus amava a mim e não uma imagem idealizada de ser humano. Descobri que Ele olhava para mim, para aquilo que sou, e não através de mim, para aquilo que supostamente eu deveria ser.

Não desisti de ter Jesus como referência em termos, por exemplo, de valores, sentimentos, relacionamentos, mas isso deixou de ser fruto de uma compreensão teológica que condicionava o amor (e a salvação) de Deus a uma vivência ética num nível tão elevado que chegava a ser desumano e doentio.

Na caminhada, não somente a reflexão teológica, mas também um processo psicoterapêucio foi muito importante. Através desse processo pude refletir de maneira mais profunda e direcionada em torno das reais motivações, por detrás do desejo de “ser igual a Jesus”. Descobri que a disposição espiritual se confundia também, por exemplo, com necessidades emocionais, projetos profissionais e anseios políticos de prestígio e poder.

Hoje, se alguma coisa me motiva fortemente a querer ser igual a Jesus, essa é a disposição para ser humano. Na verdade, mais necessidade do que disposição. É bastante desafiadora a escolha de ser humano, numa sociedade em que muitos se escondem atrás da conveniência política irrefletida de viver papéis. Ainda assim, estou convencido de que essa opção, aliada a capacidade de administrar suas implicações, não só é teologicamente adequada, mas também infinitamente mais saudável emocionalmente.

Sim, continuo querendo ser igual a Jesus, mas na determinação de ser humano. Isso não significa, claro, dar vazão irresponsável a potenciais destrutivos em nós “instalados”, mas ajustar o que somos e o que desejamos ser na perspectiva da preciosa graça de um Deus que nos criou para sermos humanos e não deuses.

sábado, 1 de agosto de 2009

Vencendo as crises da adolescência (2006)

Vez por outra paro pra pensar na minha adolescência. Não costumo reclamar do que faltou, prefiro valorizar o que tive. Se em algumas áreas as condições de vida não foram as desejáveis, em outras foram bastante felizes. Num balanço final, o saldo foi positivo.

Lembro-me com alegria daquela fase cardume. Era o período em que não somente andávamos em bando, mas também, para onde um ia todos seguiam juntos.

Era o tempo em que a palavra responsabilidade não fazia parte do vocabulário. Tínhamos conhecimento dela mais por ouvir falar – quando é que você se tornará responsável? - do que por falar.

Sonhar era uma das experiências mais comuns. Idealizar a vida ao lado de alguém que se ama, chorar por causa do sofrimento de um amigo e indignar-se com as injustiças em tom fortemente emocional, era muito mais comum na caminhada.

Era delicioso voar em mundos de fantasia enquanto a professora falava em geometria, raiz quadrada, crase, análise sintática, enfim. Ruins eram as conseqüências quando aterrissava na hora das provas. Aí doía!

Imaginar-se financeiramente autônomo, dono do próprio nariz, sem ter que prestar contas sobre a hora de voltar pra casa ou das notas alcançadas na escola ocupava parte significativa do tempo.

O uso de gírias como forma de comunicação, de corte de cabelo ou certos tipos de roupa como meio de diferenciação faziam com que me sentisse único, ainda que semelhante aos da mesma idade. Essa era a forma de vivenciar a independência possível e de imitar alguém admirado em quem projetava desejos distantes de se concretizarem.

Porém, não posso negar que, se tivesse tido acesso às informações que tenho hoje, sobre perfil de pessoas naquela faixa de idade, talvez, não somente a fase tivesse sido ainda melhor, mas também, nos anos posteriores, a influência dela causasse menos dor de cabeça pra mim e para os que me cercam.

Melhor ainda, se tivesse sido cercado por pessoas, na família, na igreja, na escola, que conhecessem os característicos desta fase e, por isso, conseguissem mergulhar em minha alma e acompanhar-me em meus vôos, ajudando-me de forma adequada a encontrar melhores rumos para superar as tribulações, as coisas poderiam ter sido mais fáceis.

Teria tido menos sentimento de culpa se soubesse que o conflito de autoridade faz parte daquele momento da vida; se soubesse que, se na fase anterior à adolescência a palavra dos pais é verdade absoluta, na adolescência é natural que se inicie a busca de verdades próprias, com as próprias palavras; que isso é fato gerador de conflitos, mas também é essencial à definição do caráter.

Talvez tivesse sofrido menos se soubesse, portanto, que aquilo que chamavam de rebeldia, desobediência, desvio, ou até, pasmem, falta de comunhão com Deus ou desobediência aos seus ensinos, poderia ser sinal de saúde, de amadurecimento, de crescimento pessoal.

Teria tido uma adolescência mais saudável se o diálogo e informações em torno das alterações pelas quais o corpo passa, fossem mais freqüentes. Talvez a timidez fosse encarada com mais naturalidade e os níveis de ansiedade atingissem patamares menos danosos, se ficasse mais claro que todos passam por tal processo e o processo passa.

Certamente as coisas teriam sido mais fáceis se tivesse havido mais diálogo quanto às transformações sexuais que ocorrem e se estas tivessem sido tratadas com naturalidade, como parte saudável do desenvolvimento humano. Se assuntos como masturbação e fantasias sexuais tivessem sido objetos de diálogo humano, honesto e franco, destituídos de preconceitos, ignorância e tabus, sem dúvida a passagem teria sido mais agradável.

O grande barato da vida, porém, é que a cada dia podemos decidir o que fazer com o que fomos ou deixamos de ser. Podemos escolher lamentar o que nos machucou e ficarmos paralisados ou tentar tirar lições do passado visando construir um presente e um futuro melhores.

Por isso, na adolescência, como em todas as fases da vida, é importante relativizarmos as experiências, sejam boas ou ruins. É importante compreendermos que não devemos mergulhar na tristeza diante das adversidades, porque elas passam, nem nos enchermos de orgulho nos momentos de glória, pois eles também passam.

Como tudo na vida passa, a adolescência também passa. O importante é procurarmos conhecer mais sobre as marcas de cada fase de nossa existência e como podemos enfrentá-las à luz da palavra de Deus.

Aprendendo a enfrentar as crises - transições da vida - não somente nos fortaleceremos para os desafios futuros, mas também, lamentaremos menos ao olhar para o passado. E, ao olharmos no espelho da vida, nosso semblante atestará que valeu a pena termos feito o que fizemos e vivido como vivemos.

Maria, cheia de graça (2004)

Admiro as mulheres. Mais do que admiração puramente erótica. Admiro-as como pessoas. Fui criado entre meia duzia delas. Talvez, por desejar o bem para suas filhas, ouvi meu pai repetir “n” vezes que não deveria fazer com as filhas dos outros aquilo que não gostaria que fizessem com minhas irmãs. Continuo desobediente, mas o ensino sempre acende a luz amarela. Além disso, cresci vendo em minha mãe um exemplo muito legal de mulher.

Ouvi de uma psiquiatra, em tom humorado, enquanto a assistia pastoralmente em momento de perda dramática, que homens e mulheres não são da mesma raça. Talvez ela tenha razão. Mulheres, como alguém já disse, são flores de aço. Homens, digo eu, fingem que são de aço, têm horror a se identificarem como flores e acabam não sendo nem uma coisa, nem outra.

Como pastor, conto mais com a cooperação de mulheres do que de homens. Antigamente isso era justificado sob alegação de que eles trabalhavam fora de casa e elas dentro. (Na verdade se dizia, desrespeitosamente, que elas não trabalhavam). Por isso teriam mais tempo para as coisas do espírito. Isso não é verdade. Algumas trabalham em jornada dupla, portanto mais do que seus maridos, mas, ainda assim, encontram meios de se dedicar às coisas espirituais. É mais um indicativo de que elas, de fato, têm mais força.

Escrevendo sobre isso, me vem à mente, imagens de uma infinidade de mulheres, solteiras e casadas, que foram ou são uma bênção em minha vida. Mas gostaria de falar de uma delas pelo impacto que provocou recentemente em mim. Trata-se de minha amiga Maria das Graças Corte de Alencar, esposa de um dos cristãos mais “gaiatos” (no bom sentido!) e amigos que já pastoreei.

Conheci Graça em 1992, na Igreja Batista Emanuel em Boa Viagem. Tempos depois, após exposição da palavra num culto, ela manifestou publicamente seu desejo de permitir que Jesus se tornasse Senhor de sua vida. Funcionária Publica, mulher de personalidade forte (Adiel, seu marido, que o diga!), faz parte da familia Alencar, de Exu, PE. Isso mesmo, uma das duas famílias que se tornaram nacionalmente conhecidas por conflitos na pequena cidade do sertão pernambucano, onde viveu o saudoso Luiz Gonzaga.

Pois bem. Vejam só um trecho da mensagem que recebi dela, por e-mail, cuja publicação faço com autorização:

“Quanto a mim estou bem, continuo fazendo quimioterapia, mas estou reagindo bem apesar das reações já esperadas. Já estou sem cabelos, mas não tive problemas com isso, estou administrando bem esta nova fase da minha vida com meu novo visual. Estou lançando a moda de chapéus e lenços. Adiel comprou de todas as cores e diz que é para combinar com as roupas, imagine! Não aderi à peruca. Me senti péssima quandoprovei, não tem nada a ver comigo. Preferi assumir a careca, sem problemas. O importante é que com o tratamento eu fique curada. Sei que vou dar boas risadas lembrando desta fase. Tenho sentido a todo momento a presença de Deus em minha vida e da minha família. Até nos aproximamos mais, o que faz valer a pena todo sofrimento”.

Não é mesmo, uma Maria, cheia de Graça?

Cada pessoa reage de forma diferente à adversidade. Porém, é claro que aquelas que reagem de forma positiva têm maiores chances de se sairem vitoriosas. Essa, aliás, é a tese que mais me marcou no best-seller “Who movies my cheese” (Quem mexeu no meu queijo, de Spencer Johnson, M.D.) uma das leituras que mais fortemente influenciaram minhas ações nos últimos dois anos.

Maria das Graças permitiu que “graça” fosse mais do que um nome. Permitiu-se experimentar a graça e ser uma graça ambulante, ao decidir investir na comunhão com Deus. Ao abrir-se à graça de Deus, foi invadida por ela, tornando-se capaz de reagir como está reagindo em situação tão dolorosa.

Grande beijo Graça. Você já venceu sua enfermidade ao não se deixar abater por ela.

A paixão de Cristo (2004)

Depois de dez dias da estréia, fui aumentar a conta bancária de Gibson em 7,75 dólares, além dos impostos de 0,44 cents para o governo americano. Ninguém é de ferro! A estratégia de marketing foi tão boa que nem ateus – que não é o meu caso - resistiram. Por isso, fala-se em faturamento cinco vezes maior do que os 25 milhões de dólares investidos.

Não estou dizendo que ele fez o filme visando lucro. Isso não precisa ser dito num pais em que se respira dinheiro e lucro não é sinônimo de pecado. Aqui ninguém é criticado por ganhar dinheiro. Pelo contrário, quanto mais acumular, mais prestígio terá.

O filme inicia com Jesus esmagando a cabeça de uma serpente no Getsêmani. Com isso, deixa claro, de cara, que nEle se cumpriu a promessa registrada em Gênesis 3:15. Sob esse pressuposto, prossegue enfatizando aquilo que tem sido anunciado historicamente nas igrejas cristãs: o contraste entre as extremas maldade humana e bondade divina.

Senti-me emocionado na cena em que Pedro nega a Jesus. As reações emocionais de Maria, porém, me desapontaram. Talvez, no afã de apresentá-la como uma mulher forte, sua atuação ficou aquém da que seria comum em mães diante do sofrimento do filho.

Judas foi premiado. Tendo sua crise de consciência demonstrada em pelo menos 4 ou 5 cenas fortíssimas, parece pagar ali seu pecado da traição. Doravante, quem sabe, será menos surrado no sábado de aleluia.

Pilatos, criticado historicamente por “lavar as mãos”, ganhou uma oportunidade de defender-se, apresentando suas razões de forma um tanto comovente.

O “Santo Sudário”, mais conhecido como peça de museu e de controvérsias históricas, ganhou cores e vida. Teria surgido das mãos de uma bela e bondosa jovem.

Uma cena de conteúdo duvidoso é a que um corvo pica o ladrão crucificado que zombou de Jesus. Simbolizaria o diabo? Não, pois eram aliados. Simbolizaria Deus? Não, pois Aquele que perdoa os que “não sabem o que fazem”, não agrediria o infeliz, afinal, ladrões não são piores do que líderes religiosos sem escrúpulos.

O momento em que o carpinteiro Jesus brinca, jogando água no rosto de Maria, após inovar fabricando uma mesa, repassa uma idéia positiva, menos medieval do Cristo, infelizmente ausente dos púlpitos eclesiásticos e do imaginário popular.

Seria o filme, um incentivo ao anti-semitismo? Não! Talvez estimule o sentimento anti-religião institucionalizada, pois a postura dos líderes religiosos judeus é nojenta, como nojentos são todos aqueles que querem impor impiedosamente sua crenças. Seria capaz de motivar pessoas a serem cristãs? Não! Pode sim, suscitar debates e abrir espaços para o compartilhar da fé. Porém, não passaria disso, pois o que se vê é um festival de barbáries contra Jesus, desproporcional à acusação e incompatível com o bom senso, mesmo em tempos remotos.

A violência pode gerar pena de Jesus, mas jamais serviria de ponte, para uma reflexão existencial ou revisão de valores e crenças. Violência produz revolta contra os violentos, e não amor pelo violentado ou compromisso com valores e causas defendidos por ele. O confronto entre os ensinos do Mestre e o sofrimento imposto, isso sim, poderia surtir efeito, mas recebeu pouca ênfase.

Num pais em que o fundamentalismo é politicamente ativo e ativamente político, Gibson acertou na fórmula. Aproximou sua versão dos textos canonizados pelo catolicismo e defendidos com unhas e dentes pelo protestantismo; incluiu poucos conceitos apócrifos; declarou-se inspirado pelo Espírito Santo na produção e imbuido de uma missão evangelizadora; respondeu, antes que alguém perguntasse, que não era anti-semita e anunciou que era sua, a mão que aparece segurando o braço de Jesus na cena em que é cravado na cruz, incluindo-se assim, disse, como culpado pela crucificação.

Se as intenções de Gibson foram espirituais, não cabe a nós julgar. Mas que ficou muito mais rico, isso ninguém pode negar!

Primeiras palavras (2003)

No momento em que escrevo estas primeiras palavras dirigidas aos irmãos da Igreja Batista Memorial, os ingredientes que formam nossos sentimentos – meus, de Gláucia, Mônica e Raphael - são, certamente, bastante conhecidos dos que me lêem, uma vez que já passaram por situação semelhante: a possibilidade de uma mudança radical de vida.

Tenho convivido amigavelmente com diversos missionários norte-americanos e até fui batizado por um deles. Estive nos Estados Unidos e viajei por alguns dos seus Estados; conversei com “ouvidos clínicos” com diversos imigrantes brasileiros, porém nunca projetei deixar o Brasil, inclusive por ideais de cidadania de quem acredita poder contribuir para a construção de um país melhor.

De repente, entretanto, vemo-nos diante de uma real possibilidade de que uma mudança aconteça, não porque buscamos, mas simplesmente porque nosso nome brotou no coração de alguém interessado no progresso do Reino de Deus. Agora, diante dessa possibilidade, nosso coração se enche de ingredientes, como já disse, conhecido dos irmãos. Uma saudável ansiedade que nos impulsiona para o novo invade nosso ser; uma esperança profunda de que o futuro, que poderá estar vindo ao nosso encontro, esteja revestido da preciosa presença divina; uma fé profunda, ora mais, ora menos firme, mas sempre suficiente para alimentar a convicção de que qualquer lugar do universo é o melhor para se viver quando se experimenta, no coração, a presença soberana de Deus e, portanto, se tem a clareza de que o que se está fazendo é aprovado por Ele.

Diante desses sentimentos, a terra pode ser diferente, mas o céu é o mesmo; as pessoas podem ser diferentes, mas o Deus é o mesmo; os caminhos podem ser diferentes, mas os sonhos são os mesmos; as pessoas podem ter condições materiais e filosofias de vida diferentes, mas as necessidades espirituais são as mesmas; até os governos e sistemas político-econômicos podem ser diferentes, mas o Deus, a quem tudo pertence, é o mesmo.

Estamos com o coração cheio de expectativas, mas nossa alma busca repouso, permanentemente, nos braços daquele a quem confiamos nossa história e de quem nos tornamos cooperadores, em resposta ao seu amor.

No próximo final de semana, se Deus quiser, estaremos juntos, buscando conhecer a vontade de Deus que, manifeste-se como manifestar-se, é boa, agradável e perfeita. Confiemos Nisso!

Profissionais e solidários (2005)

“Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao pai de vocês, que está nos céus”. (Mateus 5.16)


Conheci Emerson, oftalmologista, quando pastoreei a Igreja Batista Emanuel em Boa Viagem, no Recife. Ele tornou-se membro da Igreja no período em que reestruturávamos a área de atuação social e criávamos o NASCE - Núcleo de Atuação Social Cristã Emanuel. Antes, porém, de falar sobre como ele nos inspirou, creio ser importante esclarecer a proposta para o NASCE que estava no coração dos que participaram de sua organização.

O NASCE nasceu para ser um espaço de solidariedade. Foi criado com personalidade jurídica autônoma, tendo a Igreja como mantenedora. Foi estruturado pensando na possibilidade de atuar, também, em convênio com organizações governamentais e não governamentais. A idéia central, porém, era possibilitar aos membros da Igreja um espaço no qual pudessem compartilhar seus conhecimentos em favor não somente dos empobrecidos que vivem há anos abaixo da linha de pobreza, mas também, dos empobrecidos por desemprego ou arrocho salarial, como ocorre eventualmente com pessoas de classe média. O NASCE, portanto, foi criado para ajudar necessitados, da igreja ou não.

Diante disso, profissionais de diversas áreas, sensibilizados e solidários, se dispuseram a cooperar. Uns ofereciam serviços médicos, psicológicos, jurídicos, outros ainda em diversas áreas de educação – alfabetização, línguas, culinária, nutrição, música, corte e costura, artes, reparos elétricos e hidráulicos, reflexão sócio-política, etc. - ou simplesmente orientando tecnicamente em questões ligadas, por exemplo, à aposentadoria.

Emerson, porém, não podia dar expediente no projeto, inclusive porque isso exigiria equipamentos indisponíveis. Assim, ofereceu-se para participar abrindo espaço em sua agenda de atendimentos, no consultório, para x consultas semanais a pessoas encaminhadas pelo NASCE. O processo era simples: a pessoa procurava o projeto, comprovava sua necessidade e o dirigente se encarregava de agendar diretamente no consultório. Assim, as pessoas eram atendidas nas mesmas condições de todos os demais clientes seus. Se não bastasse isso, ele realizava x cirurgias mensais sem ônus para o paciente.

Isso serviu de inspiração para diversos outros médicos e profissionais da Igreja que, embora não pudessem ir à sede do projeto, passaram a abrir espaço em seu ambiente profissional para atender necessitados, como manifestação de solidariedade.

Conheço pessoas que são contrárias à mobilização das igrejas para questões sociais. Um dos argumentos usados é que o trabalho social seria função do Estado, cabendo às igrejas somente cuidar da dimensão espiritual da vida. Para elas, a Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37) não significa nada mais do que oferecer uma resposta à questão “quem é o meu próximo?”. Entretanto, a Parábola nos diz muito mais do que isso. Diz, inclusive, que não devemos fugir, diante de alguém com necessidade.

A concentração de renda é a lógica do sistema sócio-econômico vigente e o empobrecimento da imensa maioria, sua conseqüência natural. Exemplo disso é que 1/3 da riqueza mundial está concentrada nos Estados Unidos e 1/3 da riqueza brasileira, em São Paulo. Estudar o sistema em busca de alternativas e lutar politicamente por seu aperfeiçoamento, visando transformá-lo em ferramenta de justiça social, deve ser compromisso e alvo de todos.

Enquanto, porém, mudanças significativas não se tornam realidade no país, nossa criatividade e recursos individuais e comunitários devem ser usados para minimizar os malefícios da estrutura vigente na vida dos empobrecidos. E Deus se agradará disso! (Amós 5.21-24)

A carência nacional é imensa e há muita gente passando de fininho, como fizeram o sacerdote e o levita da Parábola, não por “coincidência”, exatamente os líderes religiosos de então. Émerson – um médico - resolveu agir diferente, fazendo alguma coisa, como o Bom Samaritano. E o fez não por crer que sua salvação dependeria disso, mas simplesmente, por solidariedade. E nós, o que temos feito, como manifestação de solidariedade, através da nossa profissão?

Paripueira, música e teologia (2005)

Voltar a Paripueira - acampamento dos batistas alagoanos - é algo que se faz com muito prazer. Nada se compara à caminhada ao anoitecer, à beira-mar. De um lado, o som das palhas dos coqueiros; do outro, o ir e vir das ondas do mar e, pra completar, um facho de luz prateada, reflexo da lua, nos acompanhando sobre as águas, como uma trilha entre nós e o infinito.

Emocionei-me em Paripueira. Por vezes, durante as reuniões da Fraternidade Teológica Latino-Americana, arrepiei-me ao cantar melodias regionais que há muito não cantava. Cantar canções de estímulo à ação solidária e não só à contemplação, em ritmos latino-americanos, com letras que nos desafiavam a uma postura diferente da dominante, fez-me muito bem.

Vinte dias antes, meu filho e eu estivemos no Teatro Castro Alves, em Salvador. O ambiente era sofisticado, ar-condicionado, público silencioso... A Orquestra Sinfônica da Bahia se apresentava, sob a regência de Piero Bastianelli, com participação especial da pianista Beatriz Pimentel. Ao ouvir a Sinfonia nº 5, Op. 107, “A Reforma”, de Felix Mendelssohn, emocionei-me profundamente ao som de “Castelo Forte”. Em Paripueira o ambiente do “palhoção” era simples, a brisa do mar nos refrescava e o movimento das folhas dos coqueiros e manguezais nos convidavam a dançar suavemente, pois reinava alegria, paz e liberdade.

Da mesma forma que me emocionei ao ouvir “Castelo Forte”, arrepiei-me ao cantar “Conceitos e Preconceitos”, em ritmo de ciranda (“Ai, os conceitos de vida que aos outros impomos por acharmos tão bons. Ai, preconceitos da gente, jeito, gestos e comida, cores modos e tons. Desce do céu o lençol das mudanças. Grego e Judeu, numa mesma esperança. Cristo rompeu, interrompeu preconceitos que nos separam. Cristo venceu, ele nos deu os conceitos de vida e paz”. (Guilherme Kerr Neto e Jorge Rehder)).

Fiquei pensando em como Deus pode usar o clássico e o contemporâneo e como, cada um em seu contexto, podem nos motivar em nossos compromissos espirituais. Pensei muito na música como veículo de teologia e na necessidade dos músicos compreenderem isso. Pensei, principalmente, em como os teólogos precisam se convencer de que teologia sem arte é letra sem espírito, fé sem ação, piada sem riso, igreja sem devoção, relacionamento sem afeto, família sem comunhão...

As emoções não pararam por aí. Em Paripueira experimentei, novamente, a liberdade de ouvir pensamentos que voavam publicamente. É que o fazer teológico não estava condicionado aos limites dos acordos políticos silenciosos existentes no âmbito dos partidos religiosos. No fazer teológico dos partidos é inevitável a presença de policiais do pensamento, cuja função é constatar se o que se diz se encaixa nas definições dominantes, denunciando os “infratores” aos tribunais da inquisição.

Mesmo entre nós batistas - defensores históricos da liberdade de pensamento – cresce a idéia de que o fazer teológico deve ser aceito somente até os limites do desejo daqueles que insistem em descolorir e uniformizar o mundo. É por isso que, quando um estudioso, interessado em aprofundar verdades divinas e não em agradar políticos da religião, ousa sair desse parâmetro, seus pensamentos são imediatamente denunciados como “poderosa arma do diabo”.

Tendemos a classificar de diabólico, aqueles cujo pensamento se opõem ao nosso, afinal, diabo significa adversário. Porém, vale prestar atenção ao que diz Rubem Alves: “O número de demônios vistos do lado de fora é precisamente igual ao número de demônios que moram dentro daquele que os vê”. (Rubem Alves, “Entre a ciência e a sapiência”).

Ninho vazio (2005)

Educamos nossos filhos discursando que eles não eram nossos, mas da vida. Evitamos, baseados nessa filosofia, super protegê-los. Possibilitamos, através de diálogo e exposição à literatura de diversas correntes, que desenvolvessem senso crítico. Propositalmente os deixamos expostos a situações nas quais pudessem decidir sem nossa interferência, apenas monitorando-os, sutilmente, à distância. Tudo em nome da autonomia pessoal. O tempo passou e, mais cedo do que imaginávamos, eles nos deixaram.

Primeiro foi Mônica. Ainda estávamos na Flórida quando ela voltou ao Brasil para dar seqüência aos estudos de Administração, na Federal de Pernambuco. Quando decidíamos voltar ao Brasil, trancou o curso, começou a repensar se queria prosseguir nele e voltou aos Estados Unidos. Aproveitando o Visto, resolveu permanecer por lá usufruindo ao máximo de tudo que uma experiência internacional proporciona.

Recentemente foi Raphael. Almejando ser lingüista, dias antes de completar 18 anos, nesse julho, “embarcou” para concluir o ensino médio na Dinamarca. Se depender da disposição de hoje e das oportunidades, dificilmente voltará a morar no Brasil, disse ele.

Ao entrarmos em nosso apartamento, na volta do aeroporto, Gláucia e eu nos demos conta de que o ninho esvaziou. Não há mais volume alto de músicas, acordes de piano ou violão e cantorias no banheiro. Linha telefônica e computadores não são mais alvo de “disputa”. Reclamações da comida não existem mais. Acabou-se o “problema” com quartos bagunçados. Encerrou-se o tempo das negociações por horários para voltar pra casa ou permissão para dormir fora. Chegou ao fim o papel de motorista particular para levar e buscar na casa de amigos, shopping, cinema, lanchonete, escola, igreja... Findou-se a necessidade de circular de loja em loja à procura de sapatos, calça, CD, livros, enfim.

Então, começamos a nos pegar olhando álbuns de fotografia e tarefas escolares da infância. As visitas aos seus fotologs (bendita internet!) se tornaram mais intensas e, para diminuir a saudade, até levamos para nossa cama, objetos de estimação deles que, “por acaso”, ficaram em casa.

Nesses dias começamos a descobrir que ninho vazio não é apenas uma experiência físico-ambiental; nem é fruto da saudade provocada pela ausência físico-emocional daqueles com quem trocamos afetos e desafetos durante tantos anos debaixo do mesmo teto. Estamos aprendendo que ninho vazio seria um profundo sentimento de tristeza, que teria como pano de fundo a sensação de inutilidade, experimentada pelos pais quando os filhos deixam a casa.

Ainda que física e emocionalmente o ninho tenha sofrido esvaziamento, nos conscientizamos de que cabe a nós não permitirmos que, existencialmente, ele se torne vazio. Para isso, apostamos, primeiro, no sentido de autonomia e independência vivenciadas durante o período de educação e, segundo, na anulação da tal sensação de inutilidade aproveitando a oportunidade de estarmos “enfim sós”, para redefinirmos projetos individuais e a dois, ocupando, criativamente, as lacunas deixadas em nossas vidas pela saída deles.

Se não podemos impedir que o ninho se esvazie, pelo menos podemos evitar que se torne Ninho Vazio!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

No viaduto do Canela (2005)

A cena se repete nos horários de pico. Quem desce a ladeira para cruzar o Viaduto do Canela, além de enfrentar uma imensa e lenta fila, ainda precisa fazer marabalismo perigoso para entrar a esquerda. Carros, descendo, subindo ou saindo do Viaduto, disputam, perigosamente, o direito de fazer a manobra em direção a seu destino.

Em alguns países de cultura diferente da nossa, onde, além da predominante disciplina individual, a polícia é forte, respeitadora e respeitada, em cruzamentos como o do Viaduto, quem chega primeiro, sai primeiro. É impressionante o respeito ao direito alheio. Chega a ser bonito assistir como cada veículo, num cruzamento, pára, observa e reconhece a vez do outro. Como todos obedecem – quem não obedece sente os rigores da lei – todos saem ganhando.

No Viaduto do Canela, não! Somente os que descem são obrigados a parar. Como fomos forjados na Lei de Gérson - queremos levar vantagem em tudo - nunca cedemos em favor do outro. O resultado disso é que, no frigir dos ovos, todos saem perdendo.

Cada vez que chego ao local, fico pensando: se ao subirmos cedêssemos a vez para pelo menos um veículo dos que descem e querem entrar a esquerda, ao descermos, enfrentaríamos menos tempo no engarrafamento, com menor risco de acidente. O raciocínio é simples: se na subida eu cedo a vez para alguém, na descida, alguém cederá a vez para mim!

Como altruísmo no trânsito parece não ser nosso forte, perguntamos: por que não colocam um policial no local ou um semáforo inteligente para funcionar nos horários em que o fluxo é maior? Com a palavra os que trabalham para nós nesta área e administram nossas multas e impostos.

Seria bonito, porém, se conseguíssemos agir respeitosa e altruisticamente, cedendo a vez para pelo menos um veículo. E com seria bonito!

Momento de oração (2005)

Eis que me ponho de joelhos perante o criador em um momento de oração. E começo a indagar-me sobre o que falarei com o senhor do universo, o todo poderoso, nesta oportunidade tão solene que me é concedida de dirigir-lhe a palavra. E pensando em todo o poder que está em suas mãos, entro em crise sobre o que deveria falar.

Os joelhos se sentem desconfortáveis e me desestimulam a prosseguir. Penso então no porquê de estar ajoelhado, mas imediatamente deixo de lado tal questionamento. Continuo a perguntar-me: o que devo dizer ao excelentíssimo nesta ocasião? Deveria pedir pela harmonia entre os seres humanos? Por justiça social? Por amor? Deveria levar diante dele minhas necessidades particulares?

Eis que de repente sinto-me intrigado comigo mesmo. O universo é imenso, o planeta tem tantos problemas e eu aqui querendo que Ele resolva os meus. Afinal, o que significo diante da imensidão da Terra e do Universo?

Desisto de continuar com tais questionamentos. Paro. Decido apenas contemplar. Pensar em sua majestade. Pensar na maravilha de sua criação. Pensar na beleza daquilo que Ele fez. Pensar no mistério que ele representa. E diante disso fico como que encantado, apaixonado.

Penso novamente no que deveria dizer-lhe. Então o PAI NOSSO me vem à mente. Foi Jesus quem disse que deveríamos fazer tal prece. Lembrei-me das repetições ensinadas na Igreja Católica. Não estaria ela certa ao ensinar a repetição, afinal, pra quem não sabe o que dizer, melhor é dizer o que o Senhor Jesus disse que deveríamos dizer. Não prossigo com o raciocínio. Rezo o Pai Nosso. Sinto-me bem ao faze-lo. Mas como aprendi que posso falar, decido então falar do que sinto.

Gláucia me vem à mente. Agradeço a Deus pelos momentos bons e ruins, agradáveis e desagradáveis pelos quais passamos ao longo das mais de duas décadas de convivência. Reflito no quanto crescemos individualmente e na relação. Em como experimentamos juntos momentos de alegria ou tristeza, de saúde ou doença, de riqueza ou pobreza. Em como o doce e o amargo se misturaram em nossa caminhada. Louvo então o criador pela possibilidade de amar e sentir-me amado.

E como não poderia deixar de ser, como que num desencadear de pontos cerebrais, os filhos aparecem na oração. O pensamento voa, atravessa o oceano e chega à Dinamarca. Oro por meu filho e suas questões existenciais. Preocupo-me pela ausência de igreja no lugar onde reside, mas me alegro por saber que no Natal, entoará JESUS, ALEGRIA DOS HOMENS, com o coro de sua escola. De volta às Américas, penso na filha, engajada no Pageant apresentado pela First Baptist Church of Fort Lauderdale. Peço proteção do Supremo para ambos.

De volta ao Brasil, a igreja da qual sou membro passa pela minha mente. Começo a interceder por ela. Já não peço que Deus me abençoe como pastor, mas que manifeste sua graça e misericórdia pela Igreja, apesar do pastor. Deixo as imagens de membros e situações relacionadas à igreja dominarem o pensamento. E vou colocando cada um deles diante do Senhor dos Senhores.

Sem me preocupar em tentar disciplinar as idéias ou sentimentos, lembranças de amigos começam a borbulhar. Como numa seqüência de fotografias num data-show, eis que vão aparecendo um após outro. Todos aparecem com um sorriso no rosto. É como se meu desejo fosse que todos estivessem felizes. De repente as imagens dão lugar a reflexão e começo a avaliar, diante do Rei dos Reis, o tipo de amigo que sou e como passo meses sem dar um telefone àqueles que tanto me fazem bem. Mas não me culpo, nem faço promessas de mudar. Apenas me comprometo a continuar acalentando tais lembranças na alma e pedindo ao onipotente que os abençoe.

Penso no Natal. Agradeço por Jesus. Não há palavras para expressar os sentimentos. Nele, o mistério da criação se repete. Eis-me novamente diante do mistério. As palavras desaparecem. Permanece, mais uma vez, o encanto e o sentimento de comunhão. Sinto-me revigorado. Levanto-me decidido a continuar tentando amar.

Meu problema com livros (2005)

Eis meu problema: sempre que estou diante de um livro, não consigo abrí-lo sem primeiro saber qual é a editora.

Até já me disseram que, primeiramente, deveria ler a orelha, se tiver. Nela deveriam estar informações essenciais sobre a obra e seu autor. Depois, deveria dar uma passada de olhos pelo índice para verificar melhor os tópicos e assim ter uma idéia de como o assunto seria abordado. Porém, parece instintivo: basta estar diante de um para os olhos procurarem quem o editou.

Isso virou uma espécie de fixação. Se a editora for desconhecida, tento imediatamente saber quem são seus dirigentes. Se for conhecida e dependendo de qual seja, começo a me arrepiar só de imaginar aquele objeto nas mãos. Pode dizer que isto é preconceito ou até paranóia. Já tenho pensando muito nisso. Mas algumas razões geraram em mim tal reação.

A convivência com gente estudiosa foi me mostrando que hoje, especialmente no mundo religioso, lançamento de livro acontece ou visando lucro ou veiculação política de determinada corrente de pensamento. Obras que tentam contribuir para clarear algum tipo de assunto, publicada por editora evangélica, é uma raridade. Afinal clarear mais o que? Tudo já está claro. Basta reproduzir o que já está definido pelas denominações ou seus representantes!

Antigamente, veicular pensamento viria em primeiro lugar. Hoje, idéias estão em segundo plano, exceto aquelas que favorecem o enriquecimento através da “proclamação da palavra” ou combatem os que combatem a má distribuição de renda do sistema sócio-econômico vigente. Mas isso é outra história.

Quem procura literatura pelo simples prazer de ler, raramente vai encontrar em editora religiosa. É que, mesmo livros aparentemente interessantes, apenas a história e os personagens mudam. Basta conhecer a editora e já se sabe que a ideologia do sistema doutrinário e moral ao qual o autor se deixou pertencer vai transparecer. Assim, se o que se espera é relaxar, esqueça: o tempo todo sua cabeça terá que decidir se concorda ou não com o autor.

Costumo dar atenção para livros de produção editorial independente. São independentes porque ou o autor escreve muito mal ou seus pensamentos incomodam tanto que não há quem queira divulgá-los. Portanto, basta uma rápida olhada para definir se vale a pena ou não comprá-lo. Editoras cujas marcas são desconhecidas também produzem coisas interessantes para clarear assuntos.

Pior, porém, é quando o livro é publicação de editora que, por pertencer à instituição denominacional democrática, necessita acariciar politicamente pessoas a fim de que seus dirigentes trabalhem em paz. Em geral, respeitadas as devidas exceções, o perfil dos autores, em termos de influência denominacional, indica claramente que critério foi adotado na definição da publicação.

Diante disso, o mito de que ler é muito importante torna-se claramente relativo. Depende da editora que o publicou. Dependendo da editora, ler pode ser o caminho mais curto para “emburrecer-se”.

Pensando no Dito Cujo (2004)

É final de tarde em ínicio de primavera. O por do sol é cinematográfico no Sul da Flórida. A combinação de vento gelado com o calor do astro-rei provocam uma sensação deliciosa no corpo. Estou envolvido em mais uma caminhada diária e solitária. A presença de muito verde, flores, pássaros e lagos faz com que me sinta no paraiso. E por pensar no paraíso, fui levado a lembrar-me do Dito Cujo. Isso mesmo, aquele que, em forma de serpente, com um bom papo, conquistou Eva (1).
Sem saber quem me fez a pergunta, eis que me pego tentando encontrar a resposta: se era o paraíso, o que ele fazia lá? Afinal, os teólogos do rei sempre ensinaram que o paraiso seria um lugar de paz, onde Deus reina soberano. Então, o que ele fazia lá? De onde surgiu? Entrou sem permissão? Ou será que quem permitu que ele estivesse lá, tinha um propósito? Seria para testar a qualidade do caráter humano?
O danado é que nossa mente reage como um sistema de computação. Uma palavra chama outras similares. Lembrei-me então do profeta Micaias (2) . Sim, exatamente aquele de quem o rei - olha o rei de novo - de Israel não gostava porque suas profecias não lhes eram favoráveis. Diante de toda a pressão que lhe foi imposta, para não desafinar (3) profetizando contra a vontade do Rei, e até para justificar sua posição divergente, ele conta uma história de arrepiar. Diz que Deus, numa reunião com seu exército celestial (4) , decide enviar um espírito mentiroso para enganar o Rei. Ué! A mentira não é filha do Diacho (5)? Pior ainda: será que os fins - a morte de Acabe - justificariam os meios - a mentira?
Como a caminhada era longa e a Bíblia estava na memória, eis que lembrei-me de Jó. Lembrei-me porque foi num destes bate-papos de Deus com o Demo (6) que surgiu a infeliz - pelo menos para Jó - idéia de submeter o homem paciente a um teste de qualidade, tendo como agente nada mais, nada menos que Ele, o famigerado. E com a devida permissão de Deus, Satanás só não pôde tirar a vida de Jó. Jó passou no teste e entrou prá história bíblica como um exemplo de paciência(7) , apesar da inconformação. Ninguém é de ferro!
Se não bastasse isso, fui transportado ao Novo Testamento. E então me recordei que foi o Espírito que conduziu Jesus ao deserto(8) . Conduzido pelo Espírito vamos a qualquer lugar, não é mesmo? Quem não gosta de ser identificado como pessoa cuja vida é conduzida pelo Espírito? Só que dessa vez o Espírito conduziu Jesus para uma situação desagradável. Levou o mestre para ser tentado. Isso mesmo, foi o Espírito quem conduziu Jesus à presença do Capeta. Muito estranho! Fica a impressão de que a idéia que se tinha do Coisa-Ruim nos tempos bíblicos era diferente da construída a partir da Idade Média e que, ainda hoje, prevalece em alguns círculos religiosos. Parece que havia uma crença de que o Cabra da Peste estava a serviço de Deus, muito mais do que imaginamos.
Depois de mais de uma hora ainda me perguntava, afinal por que e para que ele estava lá? E mais: se ele continua ao derredor, bramando, buscando a quem possa tragar (9), por que essa ação lhe seria permitida? Estaria também, nesse caso, a serviço do Criador? Estaria também fazendo o papel de testador?
Pensei em tudo isso. Levantei diversas perguntas, mas não deixei que a falta de respostas me incomodasse por uma razão simples: sujeitar-se a Deus e resistir ao Valente é um remédio infalível(10) . E mais: além de não permitir que sejamos expostos à tentação insuportável, Deus providencia meios para nos libertarmos dela (11).
1. Gênesis 3.1
2. I Reis 22.8
3. I Reis 22.13
4. I Reis 22.19-23
5. João 8.44
6. Jó 1.6-12
7. Tiago 5.11
8. Mateus 4.1
9. I Pedro 5.8
10. Tiago 4.7
11. I Coríntios 10.13

Aprendiz de pastor (2004)

Era quinta-feira, 29 de abril. Estava me sentindo entristecido. Encontrei o carteiro ao chegar em meu apartamento, conversamos um pouco e ele entregou-me uma correspondência registrada. Ao abrí-la, sentei-me em minha cama e ri. Era meu certificado de Especialização em Ministério Pastoral, acompanhado do Histórico Escolar do Curso de Mestrado em Teologia do Seminário do Norte. O histórico apontava que meu aproveitamento, considerando-se a soma das notas obtidas, representava 92,5% da pontuação possível nas disciplinas das quais participei. Mas não recebi o título de Mestre por não ter entregue a dissertação final. A mudança de país e suas implicações tornaram impraticável o cumprimento do prazo acordado.

Você deve estar se perguntando: que relação teria tristeza, risada e um título de especialista? Tentarei explicar.

Durante mais de vinte anos de ministério, nunca parei de estudar. Quando não estava envolvido em algum curso oficial, me envolvia em cursos de curta duração, palestras, conferências, seminários ou em leituras que me ajudassem a fazer melhor aquilo a que me propunha. Pastoreei duas maravilhosas igrejas e dirigi um colégio batista. Atuei em praticamente todos os níveis da estrutura denominacional, sem precisar me oferecer ou fazer campanhas. Nunca precisei correr atrás de emprego. Convites sempre surgiram, inclusive comerciais, em contextos que me permitiam decidir aceitar ou não, sem pressões.

A última igreja na qual fui pastor – Emanuel em Boa Viagem, Recife, por duas vezes – é o que chamaria de igreja completa. Estrutura física próxima do desejável, estrutura organizacional flexível ao desenvolvimento ministerial, liderança qualificada e comprometida com a causa, recursos financeiros acima da média regional, localização privilegiada no bairro mais populoso e com maior renda per capta da cidade e membrezia na casa dos 1000. Lá, tudo o que aprendi e ensinei em termos de administração eclesiástica podia ser praticado.

De repente, me vejo numa realidade missionária, despreparado técnica e psicologicamente para tal. Diametralmente em situação oposta a que vivia anteriormente, me encontro trabalhando com uma comunidade que se reúne em templo alheio; mal dispõe de recursos financeiros para custear o mínimo necessário para funcionar; seus membros, conquanto pessoas amáveis, não são, em sua maioria absoluta, disponíveis para realizar a obra; o pastor é o único remunerado, em condições econômico-financeiras inferiores a anterior e, para ver o trabalho andar, realiza o papel de professor de Escola Bíblica, secretário, office-boy, corista...

Diga-se de passagem, quando me graduava em Teologia, aproveitei para estudar teoria musical, regência e, acreditem, dois semestres de piano. Acreditava que iria pastorear igrejas pequenas e isso ajudaria. Depois de duas décadas, pensava que não mais usaria isso, especialmente quando pastoreava igreja que até escola de música tinha. E não é que aqui já precisei reger, ajudar ensaiar vozes no coral e até voltar a tocar violão em reuniões!

Se não bastasse isso, o perfil psico-social da membrezia é totalmente diferente. O fato de 80% das famílias estarem em situação ilegal no país e boa parte cultivar o pensamento de juntar dinheiro e voltar para o Brasil ou se preparar para eventual deportação, faz com que tempo para igreja, preocupação com crescimento pessoal ou investimento em relações sociais, inclusive familiares, sejam secundários.

Entende agora meu momento de tristeza? Entende porque ri ao receber um Certificado de Especialista? Não que estivesse totalmente desanimado mas, pelo fato das coisas não andarem na velocidade a que estava acostumado, às vezes a tristeza toma conta e até chorar já chorei (o que não é novidade para pastor...). Ri porque estou convencido, como nunca, de que, apesar da experiência ministerial e de um certificado acadêmico de especialista, as circunstâncias exigem, como nunca, que continue um aprendiz.

P.S. Conheci, no início de maio, o Pr. Joed e Ida Venturine, missionários dos batistas brasileiros no interior do Guiné Bissau. Percebi, então, que sou analfabeto em abnegação. Estou chorando de barriga cheia, se comparado às circunstâcias deles!

Meu amor pelo nordeste (2003)

Entrei no Nordeste pela porta de Maceió, em setembro de 1978, antes da passagem dos furacões Collor e PC Farias. A cidade era destaque nacional por suas lindas praias, as mais belas do país. Foi, entretanto, a visão cristã comprometida e inteligente da liderança da Juventude Batista Alagoana que me motivou a voltar àquela cidade, em setembro de 1983, como pastor da Igreja Batista do Pinheiro.

A experiência de pastorear em Maceió foi muito rica. O período era de efervescência política pelo final da ditadura militar. Enquanto parte significativa dos pastores apoiava o então governador Divaldo Suruagy, ex-aluno do Colégio Batista e alinhado aos militares, pelo menos cinco dos principais sindicatos do Estado eram presididos por jovens batistas, com destaque para Joaquim Brito.

Conheci Joaquim em fevereiro de 1978, no Congresso da Juventude Batista Brasileira, em Porto Alegre e ali iniciamos a aproximação. Daí surgiu uma amizade que produziu bons frutos. Entre 1980 e 1982, Joaquim, presidente da JUBAL e eu, Secretário da JUBAPE, atuaríamos juntos trabalhando pelo CON-NORDESTE.

Paralelamente à liderança denominacional, Joaquim se destacou como líder político chegando à presidência da CUT alagoana e, mais recentemente, como Deputado Federal pelo PT e Secretário de Estado em Alagoas. Curiosamente, tendo iniciado sua carreira profissional como estagiário da CEAL (Centrais Elétricas de Alagoas ?) em 1975, hoje é presidente da Empresa. Por isso, qualquer trabalho acadêmico sobre a atuação de batistas brasileiros na política que não considere a ação deste líder e da Juventude Batista Alagoana, precisa ser revisto. (O mesmo deve ser dito em relação à família do Pr. Israel Dourado Guerra, em Pernambuco). Foram pessoas como ele, comprometidas com um evangelho de ação e não somente de contemplação, inclusive as de posição ideológica diferente, que fortaleceram meu amor pelo Nordeste.

No Recife, cheguei em fevereiro de 1979. Depois de mais de dois dias dentro de um ônibus, desci na antiga Rodoviária do Cais de Santa Rita, ansioso por conhecer a Rua do Padre Inglês e o Seminário do Norte onde me graduaria e me especializaria em teologia, seria membro de sua Junta Administrativa e teria uma passagem rápida por seu magistério, devido a outras prioridades. (Além do STBNB, também construí mais alguns conhecimentos estudando na UFPE e ensinando no SEC). Como seminarista, trabalhei com os pastores José Deusarte, na Igreja Batista de Bairro Novo, em Olinda; Eli Fernandes, na Igreja Batista da Rua Imperial; Livingstone Cunha, na então JUNTIVA-PE e Amauri Munguba, na Igreja Batista do Cordeiro. Nas igrejas citadas me senti amado por muita gente, verdadeiros pais, mães, irmãos e amigos. Diga-se de passagem, o papel das famílias das igrejas na vida dos seminaristas deveria receber atenção dos seminários e até ser objeto de estudos.

Ao deixar São Paulo para viver no Nordeste, fiz o caminho inverso da história da migração brasileira. O último empurrão para que isso ocorresse foi dado por Wagner, em outubro de 1978, no então Instituto Bíblico Batista do Estado de São Paulo, em Bauru. Na ocasião, eu presidia o congresso do Departamento de Mocidade da Associação Centro e ele participava na condição de Presidente da Mocidade da Associação Vale do Paraíba. Ele planejava prestar vestibular de medicina no Estado da Paraíba e a idéia era trabalharmos juntos com juventude, no Nordeste. Esses planos não deram certo para ele e nunca mais nos vimos; para mim, entretanto, se concretizaram. Durante quase 25 anos exerci muitas funções denominacionais; cruzei o sertão de diversos Estados; estive em quase duas centenas de igrejas; falei em congressos e acampamentos de adolescentes, jovens, pastores, famílias...; batizei centenas de pessoas, aconselhei, fui aconselhado... e meu amor pelo Nordeste se tornou realidade.

Meu amor pelo Nordeste se tornou realidade porque não foquei a visão na sua propalada condição de relativa pobreza; porque aprendi, a tempo, a não fazer das estruturas denominacionais ou do status e prestígio que elas efemeramente conferem, meu propósito ministerial; porque descobri, a tempo, que as pessoas, os relacionamentos, deveriam ser priorizados, pois as funções exercidas ficam esquecidas nas páginas dos livros de atas ou de relatórios, mas as pessoas que amamos nos carregam consigo, num testemunho vivo, ambulante, daquilo que dá sentido à existência humana, verdadeiro combustível da vida: o amor.

Olhos de jardineiro (2001)

O Dia da Árvore de setembro de 1968 está gravado em minha memória. Nele aconteceu uma cerimônia no Colégio e uma árvore foi plantada. Mais do que uma árvore, naquele evento foi plantado oficialmente, em meu coração, um profundo amor e respeito pela natureza.

Já perdi as contas de quantas árvores ajudei a plantar. As mais antigas da calçada da Emanuel, foram plantadas no meu primeiro período de pastorado, em parceria com um vizinho, o Dr. Luiz de França, um dentista católico; as mais novas e os jardins, neste segundo período. Pelo menos 70% das atuais árvores do Colégio Americano Batista foram plantadas em minha gestão. Comprei pessoalmente parte delas e acompanhei a plantação.

Da infância, portanto, vem meu amor às plantas. Cultivávamos um jardim no quintal de casa. Era pouco ordenado e muito diversificado. Havia rosas, copos-de-leite, beijos, meios-dias, espirradeiras, margaridas, cravos, lírios, papoulas, sambambaias... Imaginem a "salada"! Não era planejado como a maioria dos que conhecemos nos elegantes edifícios de Boa Viagem. Mais do que pela estética paisagística, o cultivo se dava pelo amor às plantas. Não por acaso, portanto, uma das minhas músicas preferidas é "As Rosas não falam", de Cartola.

Diariamente molhávamos as plantas. E ao molhar, fazíamos pequenas intervenções visando seu desenvolvimento. Isso influenciou a construção da minha filosofia de vida, tanto em relação ao meio ambiente, quanto à maneira como encaro tudo o que faço. Aprendi que o desenvolvimento das coisas obedecem processos as vezes demorados; que precisamos semear, cuidar, proteger; que nem sempre seremos beneficiários diretos do que plantamos; que precisamos ser zelosos, pacientes...

Como pastor, não sonho construir patrimônios luxuosos, nem apresentar resultados estatísticos "evangelásticos". Não sonho com igreja famosa, com prestígio e poder. Sonho com uma igreja que ama o ser humano em todas as suas dimensões e se envolve em projetos que tornam este amor visível. Sonho com uma igreja que compartilha generosa e solidariamente o que é e o que tem. Sonho com uma igreja que não espera alguém fazer o que deve ser feito, mas que toma a frente e faz. Sonho com uma igreja envolvida em atividades espirituais como a arborização de Boa Viagem ou a preservação do meio ambiente pois, por emanar de Deus, a vida toda é espiritual. (Quantos estão conscientes de que estamos a duzentos metros da maior área de mangue urbano do Brasil, que resiste ferozmente aos ataques especulativos das construtoras e dos que querem multiplicar, a qualquer custo, seu capital?).

Tudo o que faço é para aproximar a igreja desses sonhos. Por isso me alegro com pequenos sinais de movimento em direção a eles. Talvez por isso noticio com tanta alegria "acontecimentos insignificantes", como uma porta, uma janela, um aparelho de ar condicionado, um tijolo ou uma pedra de cerâmica que conseguimos colocar a cada semana nas salas em que nossas crianças - as economicamente privilegiadas e as empobrecidas - estão sendo educadas. Não porque me alegre com pouco, mas porque olho com olhos de jardineiro.

As vezes a impaciência invade. É que as condições econômicas que aparentamos - casa, carro, roupas, lugares que freqüentamos - é incompatível com a nossa contribuição financeira para a causa. E quando me impaciento, recordo-me do falecido Pr. Luiz de Assis, meu primeiro conselheiro ministerial. Tínhamos um pacto: sempre que eu fugisse da regra oficial da língua portuguesa, ele me corrigiria. Ele fazia isso através de bilhetes. Um dia, depois de revelar minha impaciência com a lentidão dos resultados, numa pregação que fiz à Igreja Batista do Pinheiro, ele escreveu-me o seguinte: "Edvar, coentro nasce em semanas; carvalho, leva décadas. O que você está plantando?". Ao corrigir "minha língua", seu bilhete trouxe paz ao meu espírito. Devolveu-me olhos de jardineiro.