domingo, 31 de janeiro de 2010

90ª Assembléia da Convenção Batista Brasileira

Para quem ainda não sabe, a Igreja Batista da Graça, SSA, faz parte do rol cooperativo da Convenção Batista Brasileira. Isso significa que nos unimos em comunhão a outras igrejas batistas para fins de cooperação em todas as áreas ministeriais das igrejas.

Anualmente tais igrejas se reúnem, representadas por parcela de seus membros, a fim de examinar e aprovar os relatórios das organizações da Convenção, serem inspiradas e desafiadas a aprofundarem a fidelidade espiritual e experimentarem a comunhão cristã.

A última assembléia aconteceu em Cuiabá com mais de 1000 mensageiros e transcorreu num clima de harmonia. As reuniões noturnas e parte das sessões matutinas foram inspirativas, com diversas mensagens desafiadoras e expressões de adoração através da música.

Em relação aos relatórios das organizações, por definição regimental foram examinados através de câmaras setoriais. As câmaras de educação ministerial, educação religiosa, missionária e ação social, aconteceram no sábado, 23, à tarde.

De uma maneira geral destaco a ascensão da Junta de Missões Nacionais. Quanto as demais, percebo a JMM caminhando, a Jumoc dando sinais de vida, outras se movimentando sem clareza de objetivos e os seminários do Sul e do Norte em situação de crise administrativo-financeira.

Particularmente me senti muito feliz vendo funcionar, pela primeira vez, a Câmara de Ação Social, inclusive com relatório do departamento de Ação Social do Conselho que agora conta com um diretor de tempo integral. Isso fez reascender a esperança de maior estímulo às igrejas no cumprimento do seu papel social.

Fui a Cuiabá com dois assuntos em mente: a filosofia e formato dos relatórios e a constituição do Conselho Editorial d’O jornal Batista. Entretanto, um novo assunto surgiu ao chegar lá, relacionado às pastoras batistas o que me fez deixar o assunto OJB para outra ocasião.

Em relação aos relatórios, foi aprovada a criação de um GT da Transparência Batista para estudar filosofia e formato de relatório que os torne mais tecnicamente transparente. Farei parte deste GT juntamente com outros quatro líderes, representando cada uma das cinco regiões geo-políticas do país.

Quanto às pastoras, creio que se fez justiça àquelas que já haviam sido aceitas pelas ordens estaduais, antes de 2007, quando ficou definido que pastoras não seriam aceitas. 

 
A próxima assembléia acontecerá em Niterói, em janeiro de 2011.

Grupo de Trabalho - GT da Transparência Batista


Compartilho com os batistas e com todos os cidadãos brasileiros interessados na questão da transparência em nossas instituições públicas, o documento que gerou a criação de um GT que estudará a filosofia e formato dos relatórios das organizações executivas e auxiliares da Convenção Batista Brasileira, visando torná-los ainda mais tecnicamente transparente.

Agradeço aos líderes de diversas regiões do país que, acreditando na proposta, subscreveram o documento, possibilitando que fosse examinado pela Comissão de Assuntos Especiais e aprovado pela 90 Assembléia Anual da CBB, reunida em Cuiaba.
Eis a composição do GT:

Valseni José Pereira Braga (MG) - relator



Wagner Afrâniou Goulart (DF)


Edvar Gimenes Oliveira (BA)


Vanias Mendonça (AM)


Lourenço Stelio Rega (SP)

Tecerei novos comentários ao assunto posteriormente.
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À Comissão de Assuntos Especiais da 90 Assembléia da CBB


Assunto: GT da transparência batista


Os convencionais signatários deste documento, vêm, na forma do Estatuto e Regimento da CBB, submeter a esta magna assembléia, as seguintes considerações e proposições:


Considerando que, para que se tenha conhecimento da realidade das organizações executivas e auxiliares da CBB através dos relatórios, esses precisam ser tecnicamente transparentes;


Considerando a impossibilidade dos mensageiros das igrejas cooperadoras da CBB  de apresentarem recomendações eficientes e eficazes às organizações (ou mesmo contribuir para um planejamento organizacional – estratégico, tático e operacional) se não houver dados comparativos referentes a determinado período;


Considerando a impossibilidade dos mensageiros das igrejas cooperadoras da CBB, de tomarem decisões sólidas sem informações objetivas e transparentes;


Considerando que as exigências contidas no Art. 54 do Regimento Interno, não são claras quanto às informações que precisam ser dadas, para que a Assembléia tenha condições efetivas de conhecer a realidade das organizações;


Considerando que o formato dos atuais relatórios privilegia mais relatos de atividades do que de dados, em alguns casos até sem relação objetiva e clara com a missão e visão estratégica das organizações e da própria CBB;


Considerando a ausência, nos relatórios apresentados à CBB, de dados comparativos com anos anteriores para que se possa avaliar o desenvolvimento das organizações;


Considerando as experiências negativas na área econômico-financeira, nos últimos anos (Juerp, Jumoc, Juratel, OJB, JMN, STBSB e STBNB), sem que os mensageiros das Assembléias dispusessem de informações objetivas para que, a tempo, pudessem recomendar medidas necessárias;


Propomos:


1.       Que a diretoria da CBB nomeie, nesta assembléia, um GT da transparência batista, composto de 5 membros sem vínculos empregatícios com instituições da Convenção, para reavaliar filosofia e forma dos atuais relatórios e propor, na próxima assembléia, um novo formato de relatório que corrija as deficiências supramencionadas;



2.       Que na elaboração do novo relatório, o GT defina os dados essenciais (de finanças, patrimônio, pessoal, produção editorial, atividades gerais, etc.) que cada organização deve apresentar e o período de tempo, para efeito de comparação;



3.       Que, ao resultado deste trabalho, o GT de uma redação adequada à inclusão no Regimento Interno da CBB; 



4.       Que na próxima convocação da Assembléia seja incluída a reforma da cláusula regimental referente ao relatório das organizações.


Cuiabá, 23 de janeiro de 2010
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Leia aqui a proposta encaminhada pelo GT em janeiro de 2011, em Niterói, encaminhada pelo Presidente da CBB ao Conselho Geral e reapresentada com falha técnica na convocação, em janeiro de 2012 (Foz do Iguaçu) ficando sobre a mesa até janeiro de 2013

domingo, 24 de janeiro de 2010

Ainda sobre OPBB versus Pastoras


"Segundo o presidente da OPBB, pastor Orivaldo Pimentel, não houve uma decisão para a aceitação pela OPBB de qualquer pastora, mas apenas daquelas que atendam aos pré-requisitos da entidade e que tenham se filiado à mesma através das sessões estaduais antes da Assembleia de 2007"

Pastores, pastoras e povo batista em geral, de todo o Brasil, estão atentos e prontos a denunciar eventuais lucubrações que possam vir a ocorrer, no sentido de se tentar interpretar a decisão tomada pela assembléia de Cuiabá 2010, da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, de maneira desfavorável às pastoras, dificultando o reconhecimento do direito que nunca deveria ter sido negado a todas elas e muito menos agora, a algumas delas, diante da decisão da tomada.


O que esperamos dos dirigentes da OPBB, agora sob a presidência de Lécio Dornas:

1. que as pastoras beneficiadas pela decisão de Cuiabá, não tenham privilégios que os pastores não têm;
2. que às pastoras, não sejam feitas exigências que não eram feitas aos pastores à epóca da filiação, na seção que as recebeu;
3. que a direção nacional, portanto, não se envolva no processo de filiação das pastoras, se não se envolve na dos pastores; 
4. que a aplicação das normas seja feita em espírito de amor e justiça e não de acordo com a filosofia: "para os amigos as facilidades da lei; para os inimigos, os rigores da lei", pois as pastoras não são nossas inimigas. São seres humanos, criadas igualmente à imagem e semelhança de Deus, resgatadas igualmente pelo sacrifício do Cristo, comissionadas igualmente para ir por todo o mundo, fazer discípulos e batizá-los "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho mandado".


Quando penso no lugar onde trabalho como pastor e nas condições que me são oferecidas e comparo com o lugar onde a maioria das pastoras está trabalhando e as condições que a elas têm sido oferecidas, sinto vergonha só de pensar na humilhação a que têm sido submetidas, sendo tratadas como "vocacionadas de segunda classe" que não estão à altura de compartilhar a mesma organização.


A Associação dos Diáconos Batistas do Brasil não só aceita diaconizas, mas é presidida por uma delas.
A Ordem dos Advogados do Brasil é composta também de Advogadas.
Entre os pastores batistas, entretanto, há quem justifique que a Ordem é dos "pastores" e não das "pastoras". 

Para alguns colegas, dividir a Ordem com mulheres parece ser vergonhoso, ainda que a maioria de nós pastores divida teto, mesa e cama diariamente com uma delas.



Não estou aqui semeando conflitos.
Não confunda paz com ausência de tensão. Ausência de tensão é sinônimo de morte não de paz. 
Paz que não é construida em bases amorosas e justas não é paz, é ausência de vida.

Nem estou aqui semeando divisão.
Unidade que não é contruída em bases amorosas e justas não é unidade, é opressão. 

Muito menos estou aqui defendendo posições antibíblicas.
Posições bíblicas saudáveis são aquelas cuja fundamentação se dá em bases hermenêuticas sólidas e não incoerentes.

Se sou contrário à liderança da mulher por "razões bíblicas", deveria ser, também, contrário à liderança delas em todas as áreas da vida e não somente no ministério.

Se defendo o silêncio da mulher na igreja (igreja gente, não templo), por "razões bíblicas", deveria ser, também, contrário a que se manifestassem em todas as atividades da igreja.

Se aplico literalmente textos bíblicos para manter a mulher na condição de cidadã de segunda categoria, assim deveria agir, também, em relação a roupas, cabelo, uso de bijuterias, maquiagem, diálogo em público, ocupação de assento no templo, só pra exemplificar.


Que Deus nos ajude a sermos misericordiosos em nossas dificuldades naturais de enxergamos e interpretarmos as realidades de maneira compatível com o espírito do evangelho que produz vida e que haja em nós o firme propósito de nos guiarmos pelo espírito que vivifica e não pela letra fria que produz morte.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O terremoto no Haiti e a fala do seu consul no Brasil

Estava curtindo uma notícia feliz – minha filha acabava de informar por e-mail que sua transferência fora aceita pela Florida Atlantic University – quando o noticiário da televisão passa a mostrar imagens da tragédia ocorrida no Haiti. A vida é assim: enquanto uns riem, outros choram; enquanto uns corpos se abraçam pelo prazer, outros fazem o mesmo pela dor; a tecnologia que traz boas notícias é a mesma que nos mostra cenas de pavor.



É doloroso colocar-se emocionalmente no lugar das pessoas que estão vivas sob escombros enquanto não chega o socorro; no lugar do homem que chora a perda da esposa amada enquanto descansava; da mãe desesperada pela notícia do desaparecimento do filho; da filha brasileira, cuja comunicação com o pai militar, pela internet, cessou abruptamente e só depois tomou consciência de que a interrupção não era apenas o fim de um diálogo, mas o início de uma separação irreversível.


Nada, porém, suscitou sentimento mais desagradável do que ouvir o comentário feito pelo cônsul haitiano no Brasil. Primeiro, pela falta de sensibilidade; depois, pelo preconceito de raça e religião.




Enquanto seu povo chora a dor da destruição e morte, ele enxerga uma oportunidade de tornar-se mais conhecido. Claro, sabemos todos que na vida nada é absolutamente mal, nem absolutamente bom; que toda experiência humana traz consigo efeitos colaterais benéficos ou maléficos. O que doe é a aparente falta de sensibilidade frente à dor alheia – no caso, seu próprio povo – e, pior, o inoportuno senso de oportunismo.


Se não bastasse isso, sua fala revela algo que ceifa, silenciosamente, milhões de vidas: o preconceito. Primeiro, o preconceito de raça contra o já sofrido povo africano. Sua fala traz à baila o antigo discurso teológico do fundamentalista branco referente ao pecado de Caim. Por esta hermenêutica racista, ser negro seria o sinal de Caim descrito no livro de Gênesis (4.15), símbolo de desobediência e maldição.


Depois, revela o preconceito religioso. Para ele, a macumba – forma pejorativa de referir-se às religiões de matriz africana – seria causa da desgraça experimentada. Ao ouvir isso, lembrei-me de um missionário norte-americano, doutor e professor de exegese do Antigo Testamento com quem travei um debate caloroso em sala de aula, que tentava convencer-nos, baseando-se em determinado texto bíblico, de que a causa da pobreza e da seca do nordeste brasileiro seria a idolatria do povo.


Não suporto mais o (ab)uso do sofrimento alheio, a transformação da dor humana em meio de estimulo à "evangelização", em propaganda para levantamento de recursos financeiros para agências sociais e missionárias. Ainda assim, mesmo sendo terrível, é compreensível ouvir isso de empresários sem escrúpulo de “ONGs” ou religiões, afinal, para alguns marqueteiro os fins justificam os meios e tudo é válido desde que aumente a arrecadação financeira. Fere, entretanto, o âmago da alma, presenciar a fala de um cônsul, a respeito do próprio país, quando sabemos que abalos sísmicos são fenômenos naturais.


O Haiti, até hoje conhecido como o país mais pobre das Américas, envolvido em conflitos internos e muita corrupção, ocupa agora a mídia internacional como vítima de um desastre que ceifou dezenas de milhares de vidas. Mais triste do que isso, só mesmo a confirmação, através da fala do seu cônsul no Brasil, de que a pobreza de um povo não se mede somente pela quantidade de bens e serviços produzidos – o PIB -, mas também e sobretudo pela pobreza cultural, pela falta de sensibilidade emocional, espiritual e de visão de seus dirigentes, como demonstrou o consul em sua fala.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Deus não existe


“É provável que Deus não exista. Então, pare de preocupar-se e curta sua vida”


Sabe aquele seu filhinho, pirralho de 5 anos com quem você adora brincar, que quando você chega ele abre um sorriso imenso e corre te abraçar? Pois é, foi estuprado por um pedófilo, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe sua mãezinha adorável, sorridente, cheia de vida? O cara entrou em sua casa, violentou-a brutalmente e deixou-a sofrendo, solitária e toda ensangüentada, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe seu avô que sempre te acolheu, te abraçou quando você chorava frustrado, te carregou nos braços fazendo cócegas e te levou pra comer pipoca? Pois é, depois de trabalhar a vida toda pagando a previdência pelo valor máximo, hoje passa o maior sufoco, recebendo menos do que 3 salários mínimos pra viver, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe aquele político que te inspirou confiança e você o elegeu, acreditando que ele usaria o poder de governo pra melhorar a vida de todos? Então, ele está embolsando milhões através de propinas enquanto milhões de pessoas estão sem acesso à saúde, educação de qualidade ou saneamento básico e andam inseguras pelas ruas das cidades, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Sabe aquele pastor que você admira, destacado líder denominacional, aquele que sempre que te encontra te abençoa com palavras bonitas e te desafia a uma vida melhor? Pois é, ontem, ciente de que não estava sob holofotes e ninguém estava vendo, tratou histericamente aquela ex-missionária que deu metade dos anos de sua vida anunciando o evangelho, tão somente porque ela estava trabalhando numa sala que ele não queria, e, ao determinar que ela se retirasse, ela resistiu querendo saber a razão. Ela saiu aos prantos e ele continua feliz no exercício de sua função, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe aquele presidente neurótico que determinou que um país inteiro fosse destruído, matando milhares de pessoas, inclusive crianças, mulheres e idosos indefesos, deixando outras tantas psicologicamente semimortas? Pois bem, ele vive feliz numa mansão cercado de toda mordomia, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.


Sabe aquele senhor brincalhão que vende paçoquinha de amendoim na porta do colégio? Descobriram que também vende drogas pra crianças e adolescentes, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Sabe aquele pessoal que faz as leis nas assembléias legislativas, que nos obriga a agir da maneira como quer ou aquele, dos judiciários, que tem poder pra julgar e determinar penas aos que não obedecem tais leis? Está comprometido até o último fio de cabelo com um sistema mafioso de corrupção, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Sim, curta sua vida. Não há com que se preocupar. A vida é isto: entre setenta e cem anos sobrevivendo neste planeta giratório e solto no espaço, cada um fazendo o que der na telha ou fazendo o que um grupo mais poderoso determina que se faça, na certeza de que não haverá prestação de contas a ninguém superior.


Portanto, siga seus instintos. O máximo que pode acontecer é você sofrer as conseqüências de leis naturais, existentes por acaso, fruto de casuais conexões construídas em milhares de anos entre seres que surgiram do nada e que, casualmente, se uniram, em torno de ideais nobres absurdos, sem sentido, ideais que brotaram casualmente em seus “cérebros”, cérebros que também são frutos do acaso, do interesse pela sobrevivência em torno de algo maluco.

Sim, de vazão ao seu sentir. Se tiver muito dinheiro, nem as penalidades previstas em lei incomodarão sua trajetória. Além do mais, as leis são resultado puramente de interesses políticos para manter esta espécie de passatempo que chamamos vida e não fruto de um imperativo criado por um ser superior. Portanto, se alguém te forçar a obedecê-las, reaja, enfrente usando força bruta, faça terrorismo, imponha-se, afinal, tudo não passa de um jogo de forças, de interesses. Talvez você se machuque ou machuque alguém, mas fique tranqüilo: “There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life”.

Or exist?

"Disse o louco no seu coração: Não há Deus.
Têm-se corrompido e cometido abominável iniqüidade; não há ninguém que faça o bem."
(Salmos 53.1)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Sim, sim; não, não!

“Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.” (Jesus, em Mt. 5.37)

“Antes, como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não foi sim e não.” (Paulo, em II Cor. 1.18)

É horrível conviver com quem diz sim quando gostaria mesmo de dizer não ou diz não quando poderia dizer um alegre e sonoro sim. Não poderia, pelo menos, ter coragem pra dizer: agora não posso dizer sim, nem não, ou: agora não quero dizer sim, nem não? Por que optar por negar os sentimentos, a percepção, a realidade?


Seria uma profunda covardia ou uma profunda necessidade de aprovação? Não percebe que a alegria que produz em que ouve o que gostaria e não o que deveria é falsa? Não sabe que a satisfação gerada por uma resposta falsa vai desembocar, a qualquer momento, numa profunda dor gerada pela frustração?


Melhor seria, então, dizer sim, quando se quer dizer sim e não quando se quer dizer não! Se alguma dor tiver que ser experimentada, que seja na companhia da honestidade, da sinceridade, da lealdade.


Agindo de forma contrária, quando a verdade vier à tona, o sofrimento será dobrado. Ela virá acompanhada da sensação de traição que não somente reinou no momento em que a palavra foi dita, mas também durante todo o tempo que se seguiu a ela.


Dizer sim, quando o que deve ser dito é sim, ou não, quando o que deve ser dito é não, é muito mais simples. Isso exige muito menos conexões, elaborações. E se a situação for tão complicada que os efeitos do sim ou do não ainda não estão claros é muito mais simples dizer: ainda não sei o que dizer!


O risco, ao contrariar o próprio sentimento ou pensamento, é muito maior.


Além disso, a relação corre mais solta, mais leve quando se rege pela coerência. O adepto do sim, sim; não, não, passa a impressão de que está de bem com a vida; de que não vive regido pela crença de que é possível estar bem com todo mundo, em todo o tempo, em todas as situações; de que não vive dependurado na tênue linha da vida que se guia pela política e não pela verdade em amor.


E o riso, então? Já prestou atenção no riso de quem a palavra vai pra um lado e o sentimento ou o pensamento vai pro outro?

Não me entenda mal. Não estou aqui propondo um sim seco, muito menos um não árido. Reconheço que não é fácil colocar um sim ou um não constrangido na companhia de um belo sorriso. Porém, quando a atitude faz parte da filosofia de vida, está internalizada e a consciência está tranqüila, mesmo não sendo o que se gostaria para a ocasião, sempre será menos desagradável do que o produto de uma falsidade.


Então, coloquemos um sim, sim ou um não, não, no coração e tenhamos um 2010 melhor!!!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Nosso reconhecimento não é sua maior recompensa

As razões que levam uma pessoa a se envolver nas atividades de uma igreja são diversas. Paulo identificou isso e escreveu: “Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa vontade; Uns, na verdade, anunciam a Cristo por contenção, não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões. Mas outros, por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho.” (fil. 1.15-17)

Curioso é que isso não acontece somente na igreja. Líderes religiosos do judaísmo demonstravam o mesmo comportamento, fato que levou Jesus a denunciar os motivos de suas obras de caridade, de suas orações e jejuns (Mt. 6:2,5,16) e a declarar de forma objetiva: “eles já receberam sua recompensa”.

O prejuízo de quem faz a obra de Deus em função do que os outros pensam, fugindo de vaias e mendigando aplausos, é simples: sua recompensa vem das pessoas, é passageira.


Aqueles, porém, que concentram o foco de suas ações no imperativo divino de amar e, portanto, fazer por amor a Deus, podem até passar despercebidos diante da multidão ou, pior, serem por ela apedrejados, mas garantem para si a maior recompensa que alguém pode receber: o prazer de saber que o que faz está em sintonia com a vontade divina e é eterno.

Isso não significa que não devamos reconhecer o trabalho alheio. “Daí a césar o que é de César”, disse Jesus (Mc. 12.17). Paulo, na mesma linha, afirma: “Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra.” (Rom. 13.7)

Portanto, se é equívoco fazer a obra de Deus esperando aplauso humano - “Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer.” (Lc. 17.10) -, é também equívoco não deixar de reconhecer o trabalho feito. Daí o ensino paulino: “E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam;” (I Tes. 5.12).

Uma igreja batista não tem dono. Seu governo é democrático. São seus membros que a fazem funcionar. A crença num ser superior e a comunhão vivida com ele é a mola propulsora que move pessoas a se doarem voluntariamente. Os recursos necessários ao funcionamento – conhecimento, dinheiro, disposição, disponibilidade, etc – são dedicados por cada um de acordo com sua realidade de vida. Julgar se o que cada um oferece está além ou aquém da possibilidade ou se suas motivações são adequadas, é tarefa divina. A nós cabe reconhecer e agradecer.

Nesse espírito, registramos aqui nosso reconhecimento e agradecimento aos que trabalharam entre nós em 2009, desejando que, em 2010, continuem “firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.” (I Cor. 15.58)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

É Natal

A árvore caiu 
O presente feriu
A notícia magoou
O blog sumiu


O portão se fechou 
O telefone calou
A cama partiu
O feijão se queimou


A visita chegou
O remédio dopou
O gato fugiu
O silêncio reinou



O sol se esvaiu
O teclado assumiu
A toalha dobrou
O talher engoliu

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

5 anos depois

Parece que foi ontem, mas já se aproxima o final de cinco anos desde que começamos - IBG e eu - nossa caminhada ministerial. Escrevo isso hoje porque quando retornar da viagem de férias e assembléia da CBB, já estaremos iniciando nosso sexto ano.


Chegou aos meus ouvidos, em meados do primeiro ano, o comentário de alguém que dizia que este pastorado não duraria mais do que 4 anos. Eu também pensei, mas erramos. Como diria o sábio: “Do homem são as preparações do coração, mas do SENHOR a resposta da língua.” (Pv. 16.1).

Até mesmo cinco anos, que parece muito, é insuficiente para sabermos se um relacionamento tem futuro, especialmente em se tratando de pastor-igreja batista. Somos centenas de pessoas com personalidades dinâmicas, cada uma com suas idiossincrasias, com motivações, expectativas e propósitos diferentes, girando em torno de um sistema de governo teoricamente democrático. Se é difícil acertar o futuro de qualquer relacionamento, muito mais o de um desta natureza.

O fato é que não estamos diante somente de mais um ano novo civil, mas também ministerial. Se um já vem cheio de expectativas, em dois elas se multiplicam.  Que tipo de expectativa move meu coração?

Vivo determinado a conciliar dois ensinos de Jesus: 1) “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” (Mt. 6.34); 2) “Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, Dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar.” (Lc. 14. 28-31).

Quero as duas coisas: viver cada dia e edificar uma torre. Isso exige empenho no desenvolvimento de uma visão tanto de curto quanto de médio e longo prazo. Exige, também, disposição para renunciar as próprias pretensões em favor dos propósitos de Deus revelados em Jesus. Exige, finalmente, confiança num Deus que nos ama e supre nossas necessidades, para que a ansiedade se mantenha em níveis saudáveis.

Temos sonhos e planos para este novo ano civil e ministerial. Porém, mais importante é nos prepararmos para lidar com o novo, com o inesperado de cada dia; aprender a amar pessoas e gostar de coisas, sem que isso, entretanto, signifique o estabelecimento de relação de dependência subserviente e doentia.

Onde e como estaremos no final de 2010? Não sei, mas me alegra a idéia de caminhar em torno da consciência de missão e visão, confiando na graça divina.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

De mocinho a bandido – O poder do dinheiro

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
(Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86)

“O ministro Arnaldo Esteves Lima, STJ (Superior Tribunal de Justiça) concedeu liminar na sexta-feira em favor do banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. A liminar determina a suspensão do processo contra o Opportunity até o julgamento do processo movido contra o juiz Fausto Martin de Sanctis, da 6ª Vara Criminal Federal.


O banco questiona a isenção do juiz De Sanctis no julgamento do processso. Pela decisão, o juiz fica impedido de tomar qualquer decisão até que o STJ decida se ele é ou não suspeito para ficar à frente do processo --dependendo da decisão, o juiz pode ser afastado do caso.


Enquanto o processo de suspeição não é julgado, o processo da Satiagraha fica parado. Não há prazo para o assunto ser decidido.


A Operação Satiagraha investiga supostos crimes financeiros atribuídos ao banqueiro Daniel Dantas."


sábado, 19 de dezembro de 2009

A teologia do céu na qual creio



“Depois que Cristo me salvou,
em céu o mundo se tornou;
ate no meio do sofrer
é céu a Cristo conhecer.


Pra mim mui longe estava o céu,
mas, quando Cristo me valeu,
feliz senti meu coração
entrar no céu da retidão.


Bem pouco importa eu ir morar
em alto monte, à beira-mar,
em casa ou gruta, boa ou ruim,
com Cristo aí é céu pra mim”


Oh, aleluia! Sim, é céu
fruir perdão que concedeu!
Em terra ou mar, seja onde for,
é céu andar com o Senhor”


(Hino 490 do Cantor Cristão - Charles J. Butler & James Milton Black)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O que me dirá o Senhor?

“E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.” (Mt. 25.21)

Chegou o último mês do ano e não posso dizer que fui plenamente fiel nos meus compromissos. Pior do que isso, não posso dizer que abençoei vidas através do sustento da causa que abracei.

Semana após semana, durante todo o ano, minha vida foi abençoada. Fui inspirado, desafiado e consolado nos cultos, nas classes da escola bíblica, nas Igrejas no Lar, em encontros com irmãos e amigos nas diversas atividades desenvolvidas. 

Em cada vinda à sede da igreja, sabia dos custos de manutenção do ambiente, da energia elétrica da iluminação, do ar-condicionado e do som de boa qualidade; da água e material de higiene; das pessoas que dedicam tempo exclusivo aos trabalhos da igreja a fim de que as coisas acontecessem. Infelizmente, porém, não posso me alegrar dizendo pra mim mesmo que colaborei!

Não posso dizer que colaborei com o esforço para pagar o aluguel das congregações ou o terreno e construção do templo em Cel João Sá ou sustentar seus obreiros, nem que ajudei a enviar mais missionários para diversos lugares da Bahia, Brasil e dezenas de países do mundo.

Não posso dizer que colaborei com a manutenção das salas de estudo bíblico do Geração e Família Graça, bem como seus equipamentos e materiais didático-pedagógicos, abençoando todas as faixas etárias da igreja com ensinos da palavra de Deus.

Não posso dizer que colaborei com a manutenção dos projetos sociais desenvolvidos através do CECOM com crianças, adolescentes, idosos ou mesmo na manutenção dos espaços usados para atendimento médico ou do balcão de justiça e cidadania.

Não posso dizer que colaborei com a manutenção de espaços, equipamentos, materiais e pessoas que se prepararam musicalmente, semana após semana, para abrilhantar os cultos, inspirando minha vida através de corais, bandas ou solistas.

Não posso dizer que colaborei com a promoção da comunhão dos membros em ocasiões especiais ou com a integração de novas pessoas à vida da igreja.

Não posso dizer que colaborei com a manutenção de pastores que assistiram pessoas em mementos de adversidade, aconselhando-as, visitando-as, levando-lhes palavras de encorajamento, de exortação e que, a cada encontro coletivo, trouxeram palavras bíblicas que me ajudaram a viver sob o senhorio de Cristo.

Sim, o ano está acabando, muitas vidas foram salvas e edificadas, mas, com tristeza, não posso dizer que colaborei. O que me dirá o Senhor? "Tirai-lhe, pois o talento, e dai-o ao (fiel) que tem os dez talentos?" (Mt. 25.28)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A construção da identidade batista

Há quem fale em identidade batista como algo imutável e único. O principal equívoco dos que assim pensam é olhar identidade como somente aquilo que está em nós desde o nascimento, independente das influências externas sobre nós exercidas à partir do momento que fomos trazidos à luz, independente, também, dos processos de reflexão por nós praticados, confrontando, racionalmente, aquilo que está em nós com aquilo que a realidade ao redor impõe.


A idéia de imutabilidade e unicidade é totalmente equivocada. Quem a defende demonstra não compreender o que é identidade, nem como ela se constrói.


Em princípio, identidade é o conjunto de característicos que qualificam nosso ser. Se pensarmos em termos de serem humanos, perceberemos que tais característicos podem ser originários de três fontes: a herança genética, a imposição cultural e a elaboração cognitiva individual.


Todos nós herdamos geneticamente um conjunto de elementos que definem nossa humanidade. São códigos – DNA - que determinam o funcionamento dos nossos corpos, impostos pela natureza ou, numa linguagem religiosa, por Deus, o criador. Podemos estudar seu funcionamento visando construir uma compreensão que nos ajude a interferir naquilo que julgamos ser nocivo ou contrário ao nosso desejo de preservação da vida por um maior período de tempo, com uma qualidade que nos seja satisfatória.


Claro que há um limite à nossa compreensão do seu funcionamento, imposto pela própria condição de sermos criatura e não criadores de nós mesmos. Esse limite pode ser definido como “ponto de mistério”, segundo Richard N. Wolman, docente da Faculdade de medicina de Harvard (Inteligência Espiritual, Ediouro Editora)


O segundo elemento que determina nossa identidade é a imposição cultural. A partir do momento que somos expelidos do útero materno, iniciamos um processo de interação com uma realidade sobre a qual, naquele momento, nosso controle é zero.


Nessa fase, continuamos a depender totalmente de elementos fornecidos pela natureza, para sobrevivermos e também e principalmente de semelhantes – nossos pais, por exemplo - cujos corpos já estão mais amadurecidos e estão em estágio avançado de relacionamento com a tal realidade.


Assim, a forma como a interação do nosso corpo se estabelece com a realidade, depende não somente dos cuidados dos genitores, mas também das informações que receberemos deles, que serão registradas em nossos cérebros e vão servindo como referencial para a maneira como lidaremos com o mundo ao redor, visando manter quantidade e qualidade de tempo de vida.


Herdamos linguagens utilizadas por aqueles que cuidam de nós no período em que nossa autonomia é próxima de zero, principalmente o código lingüístico convencionado entre os participantes do grupo ao qual pertencemos - no nosso caso, a língua portuguesa.


Através desse código, identificamos e nos identificamos com a nova realidade, agimos sobre ela, reagimos a ela, interagimos, enfim, com ela.


Paralelamente ao nosso amadurecimento biológico, ampliamos e aprofundamos nossa relação com o mundo extra-uterino, usando a linguagem que vamos herdando daqueles que há mais tempo convivem com a nova realidade. Não apenas aprendemos nomes dados pelos antecessores à realidade na qual vamos sendo lançados, mas também herdamos os significados por eles desenvolvidos, de cada elemento da tal realidade. A isso chamamos herança cultural.


Compreendidos os dois primeiros elementos que determinam nossa identidade – herança genética e herança cultural – trataremos do terceiro elemento que é a elaboração cognitiva individual.


A elaboração cognitiva individual é o confronto que acontece em nosso cérebro entre a herança genética imposta pela natureza ou, numa linguagem religiosa, por Deus e a herança cultural imposta pela sociedade onde nossos corpos foram lançados e se desenvolvem.


Através da elaboração cognitiva, desenvolvemos o poder não somente de afirmar ou negar as heranças recebidas, mas, sobretudo, de administrá-las de tal maneira que elas nos sejam favoráveis, individual e coletivamente.


A capacidade de elaboração cognitiva é fruto da interação entre amadurecimento biológico e aprofundamento cultural. Ao tempo em que o amadurecimento biológico segue um curso natural, a realidade - incluída aqui a herança cultural - pode beneficiá-lo ou prejudicá-lo.


Usando a capacidade que temos de pensar, podemos compreender tanto a herança biológica quanto a cultural, interferindo nelas com o objetivo de melhorar nossa qualidade de vida.


Uma analogia com a identidade batista


Façamos, então, uma analogia, para entendermos a questão da identidade batista.


Podemos afirmar, com as devidas limitações analógicas, que temos uma herança genética. Qual seria a nossa herança genética batista? Nossa herança genética seriam os dados institucionais – teologia, eclesiologia, ética, enfim - elaborados pelos primeiros batistas.


(Claro que, pensando em termos cristãos, diríamos que nossa “herança genética” seria a Bíblia, ainda que isso nos remetesse a ter que escolher um dos canons existentes. Diante do conflito entre dados institucionais dos primeiros batistas e Bíblia, apontamos duas questões: 1) as crenças dos primeiros batistas poderiam ser comparadas a uma espécie de mutação genética. Eles seriam uma adaptação resultante do conflito entre a cultura político-religiosa estabelecida na Inglaterra do séx. XVII – anglicanismo – e a percepção que tiveram de partes das Escrituras que, aos olhos deles, precisavam ser resgatadas; 2) os primeiros batistas já nasceram divididos. Uns, por exemplo, sustentavam suas pregações na crença da predestinação, outros na do livre-arbítrio. Isso sem falar em diferenças menores que não ganharam importância histórica. Portanto, não podemos falar num único modo de ser batista).


Digamos, entretanto, para fins de analogia, que os documentos existentes desde o século XVII representam nossa herança genética. Pois bem, se tais documentos seriam nossa herança genética, nosso DNA batista, na construção histórica de nossa identidade, um segundo ingrediente teria que ser admitido: a herança cultural.


A herança cultural seria a realidade sócio-econômico-político—moral-religiosa encontrada pelos batistas em cada lugar para onde a vida os expeliu. Partindo da Inglaterra (ou Holanda se quisermos pensar em termos da primeira igreja local de que se tem documento), batistas ganharam o mundo e se defrontaram com “N” realidades diferentes e, na interação com elas, influenciaram e se deixaram influenciar.


Por fazerem uso da linguagem do lugar onde se inseriam e por interagir com a realidade vivenciando seus modelos econômicos, políticos, sociais, morais, enfim, estabelecidos, é óbvio que não seria possível a manutenção de um modo puro de ser batista que, na verdade, nunca existiu. A crença em purismo, de qualquer natureza, é uma aberração, uma manifestação de deficiência ou enfermidade intelectual.


Nesse processo de interação com as múltiplas realidades, seis ou sete princípios (não confundir com Declarações doutrinárias) se mantiveram – segundo Justo C. Anderson, (História de los bautistas, Casa Bautista de Publicaciones) – que poderiam ser chamados de DNA, de herança genética e “N” elementos, provenientes das realidades onde foram se estabelecendo, foram incorporados.


Entra, então, o terceiro elemento que é a elaboração cognitiva individual. Não somente em termos individuais, mas também em termos de igrejas locais, os batistas são (pelo menos pretendem ser) seres pensantes, portanto capazes de reconhecer sua herança genética e cultural e, daí, serem competentes, autônomos, para fazer reelaborações visando melhorar a qualidade da relação com Deus, com os semelhantes e o meio ambiente onde se desenvolvem.


Assim sendo, podemos afirmar que identidade batista é o conjunto de heranças genéticas (documentais), culturais (interação) e cognitivas (capacidade de elaboração do pensamento).


Ora, se é verdade que estes três componentes não acontecem sequencialmente, isto é, não se desenvolvem historicamente de maneira linear, e se cada batista ou igreja local batista não têm o mesmo rítmo de construção da identidade, falar em identidade batista como sendo uma só e uniforme é uma grande bobagem, uma profunda ignorância ou até mesmo má-fé política.


O que podemos fazer é reconhecer que há uma base mínima de elementos que nos caracterizam como igreja (mas não nos torna iguais, da mesma forma que há uma base mínima de elementos biológicos que nos caracterizam como seres humanos, mas não somos iguais); reconhecer que há diferenças culturais em cada lugar onde surge uma igreja batista e que cada batista ou grupo de batistas deve amadurecer sua capacidade de administrar a interação entre a “herança genética” – documental, os princípios – e a herança cultural, visando viver de maneira saudável.


Se quisermos uma denominação com identidade forte, devemos investir na educação, especialmente a teológica, a fim de que sejamos capazes de gerenciar os elementos que determinam nossa identidade denominacional e sejamos saudáveis, respeitando as diferenças individuais.


Será que compliquei demais?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Prefiro ir pro inferno

Era pouco mais de 7 da manhã. Voltando da caminhada matutina, passei no supermercado comprar pão. A fila do "caixa rápido" já estava imensa. Culpa do Lula, dos insaciáveis donos do Walmart e da nossa "cordialidade" brasileira.


Suado, de calção, camiseta e tênis, ninguém imaginaria que ali estava um pastor. Pastor combina com paletó, gravata e barriga com circunferência perigosamente superior a 94 cm.

Além disso, entre a prática esportiva e o ministério pastoral existe o entrave das palavras de Paulo, levadas rigorosamente ao pé da letra pela categoria do cajado: "Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir." (I tim. 4.8). E haja stress e problemas cardiovasculares.

Enquanto a fila seguia a passos de tartaruga por falta de funcionários nos caixas e empacotadores, uma jovem senhora vira-se para trás e começa a falar com o desconhecido, como se estivesse pensando em voz alta, manifestando preocupação:

- "To com a impressão de que deixei o fogo aceso. Nessas alturas a panela já deve estar pegando fogo!".


Todos ao redor dirigiram seus olhares para ela com certa curiosidade, eu inclusive. O rapaz mais próximo, mesmo com cara de pouca conversa, com a cama ainda nas costas, perguntou:

- "Não tem ninguém lá pra desligar?"

- "Tem não. Sai de casa e não tinha mais ninguém!", respondeu ela, agora na condição de centro das atenções.

Penso que, como eu, todos imaginaram imediatamente a cena da panela no fogão e os riscos e, de certa forma, assimilaram a preocupação dela. O rapaz, educadamente sugere:

- "Então, telefona pro vizinho".

Ela, agora com uma imensa platéia de curiosos, responde em alto e bom som, num misto de deboche e ironia:

- "Meu vizinho? Huummm! Aquele povo acorda na igreja, passa o dia na igreja, dorme na igreja. E só vive dizendo que vai pro céu! Se eles forem pro céu, eu quero ir pro inferno. Quero estar bem longe daquela gente!"


A fila andou, a senhora seguiu seu rumo e eu fiquei matutanto em nossa teologia e testemunho evangélicos.

Fidelidade movida à alegria

“O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo”

São múltiplas as razões que nos levam a nos aproximarmos de Deus.

Uns o fazem em busca de proteção, outros, na expectativa de favores, especialmente no campo financeiro. Há os que transformam a relação em meio auxiliar para conquistar ou manter a afetividade de alguém; outros visam tão somente se igualar à maioria.

Há os que cumprem rigorosamente seus “deveres” religiosos por medo de conseqüências infernais que lhes podem advir e há, também, os que seguem a multidão, como se fossem fiéis, mas o fazem com segundas intenções ou nem mesmo têm consciência de suas reais motivações. 

Há pessoas tão superficiais que nem sabem diferenciar se o relacionamento é com Deus, com a religião ou com um conjunto de costumes introjetados culturalmente em seus corações.

Não existe, entretanto, experiência mais profunda e significativa do que ser fiel a Deus motivado pela alegria.


Alegria não é o riso provocado por uma experiência surpreendente, como no final de uma piada, nem uma emoção resultante de catarse vivenciada coletivamente no decorrer do envolvimento com músicas tecnicamente bem executadas. Ela resulta do encontro com o bem supremo em torno do qual toda a existência ganha sentido e faz com que a luta pela conservação da vida se encha de significado.

A alegria não é eliminada pela experiência do sofrimento. Antes, faz com que os que a possuem encontrem forças para continuarem desejando viver a despeito da dor.

Portanto, não é possível falar em experiência com o Reino de Deus sem incluir o elemento alegria. A alegria é o combustível que move a fidelidade daqueles que experimentam um encontro com o doador da vida.

É a alegria da comunhão com Deus que faz com que a maneira como usamos tempo, inteligência, palavras, sentimentos, ações ou recursos econômicos, tenha como referencial, como elemento balizador, os valores do Reino.

Não por acaso, quando Paulo nos estimula a sermos generosos em nossas ofertas, ele diz: “Cada um de conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria. E Deus é poderoso para fazer que lhes seja acrescentada toda graça, para que em todas as coisas, em todo o tempo, tendo tudo o que é necessário, vocês transbordem em toda boa obra” (II Cor. 9.7-8)

Estamos chegando ao final de mais um ano. Houve alguma área na qual fomos infiéis? A alegria foi o motivo de nossa fidelidade a Deus?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Corrupção sob as bênçãos de Deus


O final da história já sabemos tanto quanto o início e seu desenrolar. Se o poder judiciário aceitar a acusação, não haverá punições, afinal, o crime envolve dinheiro e poder, melhor dizendo, muito dinheiro e muito poder. Portanto, nem nos alegremos, nem nos irritemos, simplesmente nos conformemos, afinal, nós não somos um povo politicamente sério e, portanto, temos os representantes políticos que merecemos.



Estou falando do escândalo do panetone, versão do Democratas, do que teria sido o mensalão criado pelo PSDB, em Minas Gerais e aperfeiçoado pelo PT e sua base aliada (ou “cumplicidada” ?) no governo federal.


Curiosamente, meses atrás a Revista Veja publicou uma entrevista em suas páginas amarelas com o governador do Distrito Federal. Deixando de lado seu envolvimento passado, ao lado de ACM, no escândalo da violação do painel eletrônico do senado, Arruda foi premiado com elogios. Em seguida, a Revista Carta Capital denunciou que Veja teria sido beneficiada com contratos fabulosos com o governo do DF.



Claro, não cremos em nada disso. Tudo, dizemos nós do lado de cá, não passa de perseguição política. Aqueles que elegemos são pessoas boas. Não existiu escândalo do painel; não há troca de interesses entre a mídia e o poder público; a Polícia Federal age como num estado “policialesco”, a serviço de governo autoritário; mensalão, como disse o presidente, foi uma tentativa de golpe e, agora, segundo ele, "imagem não fala por si".



De fato, imagem não fala por si. As aparências enganam. Trancar a porta para “embolsar” dinheiro ou enfiar reais nas meias – já batizadas como cuecas dos sapatos – são apenas medidas de segurança num país cheio de ladrões perigosíssimos que vivem nas ruas e não em gabinetes.



A maior prova de que estamos enganados é que parte dos envolvidos são, como Bush na Casa Branca, homens de oração. Homens de oração merecem todo o nosso respeito e, também, o nosso voto. 

Votemos, irmãos, em homens de oração. Não nos preocupemos com sua história, seus deslizes,  seu passado. Irmão vota em irmão!

Ou não?





Deputado Rubens César Brunelli (PSC) orando com o secretário Durval Barbosa e com o presidente da Câmara Legislativa do DF