sexta-feira, 31 de julho de 2009

Tentando tirar as traves dos olhos (2004)

"O neurótico é aquele que, tentando evitar o não-ser, evita o ser". (Paul Tillich)



Não escreverei àqueles que estão com os olhos pregados nas traves dos campos de futebol, nestes tempos de Campeonato Brasileiro, nem assunto relacionado à oftalmologia. Farei uma auto-crítica, bem ao espírito do ensino de Jesus quando disse: “E por que vês o cisco no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho? (Mt. 17.3).

Houve tempo em que, predominantemente, ser evangélico significava defesa da liberdade individual de interpretação das Escrituras; do acesso direto a Deus sem intermediários institucionais e, sobretudo, da vida debaixo da graça de Deus. Hoje, no formato mais visível, parece sinônimo de dependência de homens-show, de gurus com paletós, gravatas e maleta 007, e de obediência cega a crendices, legalismos, maldições hereditárias, mistificações e demônios de todos os tipos e gostos.

Parece-me que os sinais de neurose hoje são maiores. Neurose, segundo o Dicionário Aurélio, é uma doença nervosa sem lesão aparente. Pois bem. Basta um diálogo com ouvidos clínicos para percebermos ansiedades, medos, tensões em gente condicionada a se encaixar em milhões de regrinhas assassinas.

Se um texto bíblico combate a glutonaria, defendem logo jejum absoluto; se fala da infelicidade dos que se assentam na roda dos escarnecedores, optam pelo isolamento do mundo; se fala que não há comunhão entre luz e trevas, tentam criar guetos de lamparinas; se fala dos perigos da imoralidade sexual, combatem qualquer expressão de sexualidade; se fala de cobiça, anulam a capacidade de apreciar a beleza alheia; se diz que a Deus seja dada toda honra, não honram seus semelhantes nem a si mesmos; se ensina salvação pela graça, mediante a fé, desprezam as boas obras; se diz que a sabedoria humana é loucura diante da divina, então, palmas à ignorância...

Para esses, a Bíblia não é registro de experiências de pessoas com Deus; é um livro de regras. Se perguntarmos se já entenderam em profundidade a Carta de Paulo aos Gálatas, dirão que não, mas sabem de cor os textos de Levíticos, Êxodo, Números e Deuteronômio. São dez em memorização de textos isolados da Bíblia e zero em leituras sobre a Bíblia. Pouco se importam com o contexto histórico dos autores bíblicos, pois, primeiro, definem em que acreditam para, depois, pincelarem versículos que, aparentemente, apoiam suas crenças.

Sabe aquela história de se matar um piolho dando um tiro na cabeça? A lógica neurótica, neste caso, funciona assim: se um alcoólatra começou com um gole, então imponhamos abstinência absoluta para todos...Se um glutão começou com um prato, então jejum absoluto para todos...se uma relação sexual ilícita começou com um olhar entre duas pessoas, então, venda nos olhos de todos...Se o que faço pode ser mal interpretado por alguém, gerando mal testemunho, então tranquem-se todos em celas individuais de mosteiros...Se um descontrolado perdeu todo dinheiro no cassino, então proibamos que todos joguem dominó...Se um irresponsável atropelou alguém com seu carro, fechemos então a indústria automobilística...

Ele foi tão condicionado a se preocupar com o bom testemunho que quando precisa tomar decisão, em vez de perguntar: isso é saudável para mim e para os que me cercam? É manifestação de amor em seu sentido mais profundo? A criação de Deus está sendo honrada? Ele pergunta: o que os outros vão dizer? Será que o pastor-guru aprovaria?

Quando publiquei um texto sobre masturbação, recebi um e-mail de um jovem, casado há dois anos, que não conseguia se relacionar sexualmente com a esposa. Orientei-o a procurar apoio profissional de um psicólogo. Preocupado com o bom testemunho, ele informou-me que os dois psicólogos de sua cidade não eram evangélicos... Sendo mais urgente o problema da sexualidade, recomendei-lhe que fosse a uma cidade vizinha onde não era conhecido. O importante era começar o processo de cura...

Percebeu o quanto são neurotizantes, as traves desse modo de ser “evangélico”?

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