sábado, 1 de agosto de 2009

Masturbação (2004)

Se voce é daqueles que ficam vermelhos só de ouvir falar naquilo, minhas desculpas! Não poderia, porém, deixar de tocar no assunto. Ele tem pouca repercussão pública exatamente porque acontece estritamente na (vida) privada. Mas, é motivo de dilema para milhares de adolescentes, jovens e adultos separados por um "visto" de seus cônjuges.

A masturbação - busca solitária de prazer através da manipulação do órgao sexual - e outros assuntos relacionados à sexualidade, ganharam ênfase nos currículos de escolas brasileiras somente a partir da década passada. A inclusão se deu em reação a abusos cometidos, especialmente via televisão, e seus efeitos sociais. Conversas educativas sobre o tema continuam tabu. Pais tomam conhecimento da primeira mestruação da filha, mas ignoram a primeira ejaculação e seu significado para o filho. Existem muitos mitos em torno da masturbação, desde os mais jocosos - faria crescer cabelos nas mãos - até os sem fundamentação científica - causaria espinhas no rosto ou conduziria ao homossexualismo. A masturbação, porém, em si, não é problema. Problema é o sentimento de culpa decorrente. Como lidar com sexo ainda é transitar no proibido, quem se masturba fica com a sensação de desobediência, culpa, medo, tristeza... A Bíblia silencia sobre o tema. Dois textos, entretanto, são distorcidos para "comprovar" que masturbação seria pecado. O primeiro refere-se ao coito interrompido de Onãn. (Gênesis 38.8-10). Porém, os minimamente alfabetizados sabem a diferença entre coito interrompido e masturbação. Além disso, pecado ali não foi o coito interrompido, mas o desrespeito à lei do levirato.
O segundo, refere-se às palavras de Jesus: "Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela". (Mt. 5.28). Aqui, também, o tema não é masturbação, nem posicionamento sobre pensamentos eróticos, mas adultério.

Os que condenam a masturbação, porém, alegam que ela é acompanhada de pensamentos eróticos e isso seria pecado, com base nesse texto. Isso beira à neurose! Porém, se exegese ajudar na cura, vale a pena conhecer uma. Veja o que diz o Dr. David Hocking em "Love and Marriage":
"Primeiro, a palavra olhar está no presente, no grego, indicando um hábito vivencial contínuo. Não cremos que esteja dizendo que olhar com desejo sexual em um dado momento é errado. Deus nos fez com desejo sexual. Os homens gostam de olhar para a mulheres e as mulheres gostam de olhar para os homens. Cremos que esta passagem está condenando a prática de centralizar a sua atenção em uma dada pessoa, com a motivação de cometer adultério com ela. Em segundo lugar, a palavra "mulher" está no singular, quanto ao número e não no plural. O texto não está condenando o ato de se olhar para mulheres em geral, mas a concentração em uma mulher em particular. Uma pessoa determinada começa a dominar nossos desejos.
Em terceiro lugar, as palavras "para cobiçar" têm referência óbvia à perpetração do adultério. Isto não é a mesma coisa que experimentar o desejo de olhar para a aparência física de uma mulher e gostar do que se viu. O problema pode acontecer quando você se concentra em uma pessoa em particular e mentalmente vai pra cama com ela". (O mito da grama mais verde, JUERP, RJ, 1985, pg. 82, 83).
Precisamos ser honestos, de cara, repito, pra dizer que a Bíblia não trata do tema masturbação. Dizer também que, assim como autores bíblicos combatem a glutonaria e embriaguez, sem nunca apontarem o jejum absoluto e abstinência total como alternativa, também combatem a imoralidade sexual sem apontar a "castração" como solução. Eles não seriam tão insensatos! A repressão sexual é tão nociva ao indivíduo e à sociedade quanto a liberação. O diálogo honesto sobre sexualidade, solidão, frustração, relacionamentos e outros, é a saída recomendada. No caso da masturbação, uma avaliação das circuntâncias pessoais, da frequência do ato e sentimentos posteriores, feita por pessoa qualificada, pode identificar as causas, se a prática seria doentia e que soluções saudáveis existem. Por isso, no trato do tema, em lugar do literalismo bíblico legalista, a confiança na graça de Deus deve ser enfatizada. Se pela graça não formos edificados, estamos perdidos, pois resta-nos a letra que mata.

Maria, cheia de graça (2004)

Admiro as mulheres. Mais do que admiração puramente erótica. Admiro-as como pessoas. Fui criado entre meia duzia delas. Talvez, por desejar o bem para suas filhas, ouvi meu pai repetir “n” vezes que não deveria fazer com as filhas dos outros aquilo que não gostaria que fizessem com minhas irmãs. Continuo desobediente, mas o ensino sempre acende a luz amarela. Além disso, cresci vendo em minha mãe um exemplo muito legal de mulher.

Ouvi de uma psiquiatra, em tom humorado, enquanto a assistia pastoralmente em momento de perda dramática, que homens e mulheres não são da mesma raça. Talvez ela tenha razão. Mulheres, como alguém já disse, são flores de aço. Homens, digo eu, fingem que são de aço, têm horror a se identificarem como flores e acabam não sendo nem uma coisa, nem outra.

Como pastor, conto mais com a cooperação de mulheres do que de homens. Antigamente isso era justificado sob alegação de que eles trabalhavam fora de casa e elas dentro. (Na verdade se dizia, desrespeitosamente, que elas não trabalhavam). Por isso teriam mais tempo para as coisas do espírito. Isso não é verdade. Algumas trabalham em jornada dupla, portanto mais do que seus maridos, mas, ainda assim, encontram meios de se dedicar às coisas espirituais. É mais um indicativo de que elas, de fato, têm mais força.

Escrevendo sobre isso, me vem à mente, imagens de uma infinidade de mulheres, solteiras e casadas, que foram ou são uma bênção em minha vida. Mas gostaria de falar de uma delas pelo impacto que provocou recentemente em mim. Trata-se de minha amiga Maria das Graças Corte de Alencar, esposa de um dos cristãos mais “gaiatos” (no bom sentido!) e amigos que já pastoreei.

Conheci Graça em 1992, na Igreja Batista Emanuel em Boa Viagem. Tempos depois, após exposição da palavra num culto, ela manifestou publicamente seu desejo de permitir que Jesus se tornasse Senhor de sua vida. Funcionária Publica, mulher de personalidade forte (Adiel, seu marido, que o diga!), faz parte da familia Alencar, de Exu, PE. Isso mesmo, uma das duas famílias que se tornaram nacionalmente conhecidas por conflitos na pequena cidade do sertão pernambucano, onde viveu o saudoso Luiz Gonzaga.

Pois bem. Vejam só um trecho da mensagem que recebi dela, por e-mail, cuja publicação faço com autorização:

“Quanto a mim estou bem, continuo fazendo quimioterapia, mas estou reagindo bem apesar das reações já esperadas. Já estou sem cabelos, mas não tive problemas com isso, estou administrando bem esta nova fase da minha vida com meu novo visual. Estou lançando a moda de chapéus e lenços. Adiel comprou de todas as cores e diz que é para combinar com as roupas, imagine! Não aderi à peruca. Me senti péssima quandoprovei, não tem nada a ver comigo. Preferi assumir a careca, sem problemas. O importante é que com o tratamento eu fique curada. Sei que vou dar boas risadas lembrando desta fase. Tenho sentido a todo momento a presença de Deus em minha vida e da minha família. Até nos aproximamos mais, o que faz valer a pena todo sofrimento”.

Não é mesmo, uma Maria, cheia de Graça?

Cada pessoa reage de forma diferente à adversidade. Porém, é claro que aquelas que reagem de forma positiva têm maiores chances de se sairem vitoriosas. Essa, aliás, é a tese que mais me marcou no best-seller “Who movies my cheese” (Quem mexeu no meu queijo, de Spencer Johnson, M.D.) uma das leituras que mais fortemente influenciaram minhas ações nos últimos dois anos.

Maria das Graças permitiu que “graça” fosse mais do que um nome. Permitiu-se experimentar a graça e ser uma graça ambulante, ao decidir investir na comunhão com Deus. Ao abrir-se à graça de Deus, foi invadida por ela, tornando-se capaz de reagir como está reagindo em situação tão dolorosa.

Grande beijo Graça. Você já venceu sua enfermidade ao não se deixar abater por ela.

A paixão de Cristo (2004)

Depois de dez dias da estréia, fui aumentar a conta bancária de Gibson em 7,75 dólares, além dos impostos de 0,44 cents para o governo americano. Ninguém é de ferro! A estratégia de marketing foi tão boa que nem ateus – que não é o meu caso - resistiram. Por isso, fala-se em faturamento cinco vezes maior do que os 25 milhões de dólares investidos.

Não estou dizendo que ele fez o filme visando lucro. Isso não precisa ser dito num pais em que se respira dinheiro e lucro não é sinônimo de pecado. Aqui ninguém é criticado por ganhar dinheiro. Pelo contrário, quanto mais acumular, mais prestígio terá.

O filme inicia com Jesus esmagando a cabeça de uma serpente no Getsêmani. Com isso, deixa claro, de cara, que nEle se cumpriu a promessa registrada em Gênesis 3:15. Sob esse pressuposto, prossegue enfatizando aquilo que tem sido anunciado historicamente nas igrejas cristãs: o contraste entre as extremas maldade humana e bondade divina.

Senti-me emocionado na cena em que Pedro nega a Jesus. As reações emocionais de Maria, porém, me desapontaram. Talvez, no afã de apresentá-la como uma mulher forte, sua atuação ficou aquém da que seria comum em mães diante do sofrimento do filho.

Judas foi premiado. Tendo sua crise de consciência demonstrada em pelo menos 4 ou 5 cenas fortíssimas, parece pagar ali seu pecado da traição. Doravante, quem sabe, será menos surrado no sábado de aleluia.

Pilatos, criticado historicamente por “lavar as mãos”, ganhou uma oportunidade de defender-se, apresentando suas razões de forma um tanto comovente.

O “Santo Sudário”, mais conhecido como peça de museu e de controvérsias históricas, ganhou cores e vida. Teria surgido das mãos de uma bela e bondosa jovem.

Uma cena de conteúdo duvidoso é a que um corvo pica o ladrão crucificado que zombou de Jesus. Simbolizaria o diabo? Não, pois eram aliados. Simbolizaria Deus? Não, pois Aquele que perdoa os que “não sabem o que fazem”, não agrediria o infeliz, afinal, ladrões não são piores do que líderes religiosos sem escrúpulos.

O momento em que o carpinteiro Jesus brinca, jogando água no rosto de Maria, após inovar fabricando uma mesa, repassa uma idéia positiva, menos medieval do Cristo, infelizmente ausente dos púlpitos eclesiásticos e do imaginário popular.

Seria o filme, um incentivo ao anti-semitismo? Não! Talvez estimule o sentimento anti-religião institucionalizada, pois a postura dos líderes religiosos judeus é nojenta, como nojentos são todos aqueles que querem impor impiedosamente sua crenças. Seria capaz de motivar pessoas a serem cristãs? Não! Pode sim, suscitar debates e abrir espaços para o compartilhar da fé. Porém, não passaria disso, pois o que se vê é um festival de barbáries contra Jesus, desproporcional à acusação e incompatível com o bom senso, mesmo em tempos remotos.

A violência pode gerar pena de Jesus, mas jamais serviria de ponte, para uma reflexão existencial ou revisão de valores e crenças. Violência produz revolta contra os violentos, e não amor pelo violentado ou compromisso com valores e causas defendidos por ele. O confronto entre os ensinos do Mestre e o sofrimento imposto, isso sim, poderia surtir efeito, mas recebeu pouca ênfase.

Num pais em que o fundamentalismo é politicamente ativo e ativamente político, Gibson acertou na fórmula. Aproximou sua versão dos textos canonizados pelo catolicismo e defendidos com unhas e dentes pelo protestantismo; incluiu poucos conceitos apócrifos; declarou-se inspirado pelo Espírito Santo na produção e imbuido de uma missão evangelizadora; respondeu, antes que alguém perguntasse, que não era anti-semita e anunciou que era sua, a mão que aparece segurando o braço de Jesus na cena em que é cravado na cruz, incluindo-se assim, disse, como culpado pela crucificação.

Se as intenções de Gibson foram espirituais, não cabe a nós julgar. Mas que ficou muito mais rico, isso ninguém pode negar!

A morte de Nezilda (2004)

“Eu quero lá pensar em morte. O que quero mesmo é viver”. É assim que muitas pessoas reagem diante deste assunto. Porém, pensar na morte não é morrer; é pensar a vida com mais profundidade. Quem evita pensar na morte, não sabe pensar em vida, vive superficialmente, de aparência.

Pensei nisso após participar, no último dia 4, do culto de gratidão pela vida de Nezilda Buarque Malta, mulher lutadora, jovem, alegre, gentil, cheia de fé, que partiu deixando, dentre os familiares, os filhos Denisy, Márcia e Mauri Jr..

A morte de Nezilda ressuscitou em minha mente a fragilidade da vida. Reportou-me ao tempo em que Leda Nagle terminava o JORNAL HOJE, da Globo, com um sonoro “vejo você amanhã, com certeza”. Mas, quem pode ter certeza do amanhã? Tiago, um dos prováveis irmãos de Jesus, disse: “Eia agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, lá passaremos um ano, negociaremos e ganharemos. No entanto, não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois um vapor que aparece por um pouco, e logo se desvanece. Em lugar disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo”. (Tg. 4.13-15).

Quantos vieram para os Estados Unidos, certos de ganhar muito dinheiro e hoje vivem na mais profunda frustração? Quantos chegaram com saúde e agora perambulam cheios de dores e tristezas? Alguns bem sucedidos vivem de explorar cruelmente seus conterrâneos. Outros abandonaram valores éticos e espirituais para fazer o que lhes dá na telha. Não são poucos os que agem como se a vida girasse em torno de si e se resumisse no aqui e no agora. Outros, ainda, vivem como se a vida se resumisse em acumular dinheiro.

A música “Testamento”, de Toquinho e Vinícius de Moraes deveria ser tocada diariamente em nossas casas. Eis parte dela: “Você que só ganha pra juntar, o que é que há, diz pra mim, o que é que há. Você vai ver um dia em que fria você vai entrar. Por cima uma lage, embaixo a escuridão. É fogo irmão, é fogo, irmão…E voce com todo seu baú, vai ficar por lá, na mais total solidão, pensando a beça que não levou nada do que juntou. Só seu terno de cerimônia, que fossa hein meu chapa, que fossa!”

A morte de Nezilda me fez pensar em solidariedade. Ao ver a família cercada de uma multidão, com tantos pastores na cerimônia, pensei na importância dos relacionamentos. Não estou falando de encontros da noite. Nada contra eles! Eles têm seu lugar em nosso cotidiano. Mas, geralmente, são fortuitos. Falo de relacionamentos movidos por valores sólidos. Na hora da adversidade são eles que nos sustentam efetiva e afetivamente. Se você morresse hoje, quem assistiria sua família?

A morte de Nezilda me fez pensar no homem rico que depois de uma colheita abundante disse pra si mesmo: “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te. Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” E Jesus conclui: “Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus”. (Lc. 12.19-21). Você está usando seu dinheiro ou o dinheiro está usando você?

A morte de Nezilda me fez pensar na importância da fé. A fé permitiu-lhe enfrentar em paz, o leito da enfermidade, ciente de que sua vida estava nas mãos de Deus; de que morrer não é o fim, mas um novo tipo de comunhão com o Criador. Para os familiares, a fé produziu consolo, pela ação do Espírito Santo e certeza do reencontro.

E pensando na morte de Nezilda, confirmou-se a palavra do pregador: “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir a casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração”. (Eclesiástes 7.2).

Tristeza 2003

Quem nunca sentiu, que atire o primeiro lenço

Há quem pense que pastor não sente tristeza. Sim, há quem pense que, pelo fato de trabalhar com coisas espirituais e, em tese, viver sob a orientação divina, ele tenha “mais crédito” no céu, o que lhe permitiria viver livre de sentimentos comuns aos mortais. Pensam assim porque alguns pastores criam em torno de si uma aura de espiritualidade que nem sempre corresponde à realidade. Por isso, por falta de senso crítico, insegurança ou qualquer outro motivo, ainda há quem alimente idéias fantasiosas em torno dessa personalidade, as vezes e infelizmente controvertida, chamada pastor.

Mas não vou escrever sobre pastor e sim sobre tristeza. É que experimentei-a recentemente quando minha filha, aos 18 anos, deixou-nos para voltar ao Brasil onde inicia seus estudos de Administração de Empresas na Universidade Federal de Pernambuco. Então, cada vez que entro em seu quarto, choro a saudade da separação, confirmando o que sempre soube, mas nem sempre admiti: sou muito mole!

Me consola saber que não estou sozinho pois a maioria dos brasileiros nos Estados Unidos sentiu ou sente este tipo de tristeza. Alguns ainda estão na fase do choro, outros já superaram, mas todos a experimentam, vez por outra, por ter deixado pra trás, pessoas, lugares, bichinhos de estimação que fazem parte do seu mundo significativo.

Há tristezas que resultam de problemas nossos e há as que são fruto de solidariedade. Acontecem, por exemplo, quando perdemos um(a) namorado(a), um ente querido por morte, quando somos reprovados num exame vestibular ou na tentativa de um novo emprego, quando vemos uma criança que cresceu nos Estados Unidos não poder entrar na faculdade por causa da ilegalidade, quando presenciamos o sofrimento de pessoas que amamos ou pensamos nas gritantes desigualdades sociais brasileiras e suas consequências funestas...

É interessante que a tristeza nem sempre está vinculada ao que se vive no presente. Mesmo que o presente esteja próximo do desejado, ela invade nossas vidas inesperadamente usando como chave a lembrança de uma experiência dolorosa e, se não fossem as lágrimas – “bem-aventurado os que choram porque serão consolados” – o coração explodiria, pois a dor seria insuportável. Tais lembranças produzem um sentimento de incompletude, de lacuna no coração, uma sensação de que algo está faltando.

Essa sensação deve ser curtida e não abafada. Digo isso porque há quem acredite ser vergonhoso expressá-la, afinal, se “homem que é homem não chora”, chorar seria coisa de fraco. Fruto de séculos de cultura machista, essa compreensão faz com que alguns escondam suas tristezas ou a camuflem num copo de cerveja numa roda de “amigos”, num “shopping”, torrando desnecessariamente alguns trocados ou ainda em catarses coletivas praticadas em algumas reuniões religiosas. Outros, por ignorância, chegam a se envolver com drogas ilegais, caindo nas mãos de traficantes, transformando a vida - a sua e a dos que os cercam - num inferno. Não podem escondê-la, porém, de si mesmos, nem mesmo embalando-a em roupas de marca, maquiagens caras ou carros maravilhosos... Na hora em que se despem destas coisas e a cabeça se encontra com o travesseiro, a noite é perturbadora.

Dependendo da filiação religiosa da pessoa, há um agravante. É que algumas igrejas ensinam que “crente” não fica triste. Então, para não dar “mal exemplo” - marketing religioso de péssima qualidade, verdadeira propaganda enganosa da “fé” causadora de profundas neuroses - há pessoas se remoendo que insitem num riso hipócrita para preservar a imagem da instituição. Diferentemente das instituições religiosas, Deus não precisa de marqueteiros, de gerenciadores de sua imagem. Ele pede somente que o amemos, bem como a nós mesmos e aos nossos semelhantes e que confiemos na incondicionalidade do seu amor. Por isso, ser verdadeiro na tristeza é a postura mais adequada, ponto de partida para quem pretende vencê-la e viver de forma saudável.

Anima-nos saber que Jesus não escondeu sua tristeza. Ele disse: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal...”(Mateus 26.38). Anima-nos sua honestidade: “neste mundo vocês terão aflições; contudo tenham ânimo! Eu venci o mundo”. (João16.33). Anima-nos o registro poético da experiência de Davi, rei Judeu, com Deus: “Pode a tristeza durar, todo o anoitecer, mas a alegria vem ao amanhecer (Salmos ). Portanto, enfrente sua tristeza na perspectiva de que ela é transitória. Cultive sempre amizades sinceras. E se for preciso, procure ajuda de profissionais. Eles também são sinais da graça de Deus.

Primeiras palavras (2003)

No momento em que escrevo estas primeiras palavras dirigidas aos irmãos da Igreja Batista Memorial, os ingredientes que formam nossos sentimentos – meus, de Gláucia, Mônica e Raphael - são, certamente, bastante conhecidos dos que me lêem, uma vez que já passaram por situação semelhante: a possibilidade de uma mudança radical de vida.

Tenho convivido amigavelmente com diversos missionários norte-americanos e até fui batizado por um deles. Estive nos Estados Unidos e viajei por alguns dos seus Estados; conversei com “ouvidos clínicos” com diversos imigrantes brasileiros, porém nunca projetei deixar o Brasil, inclusive por ideais de cidadania de quem acredita poder contribuir para a construção de um país melhor.

De repente, entretanto, vemo-nos diante de uma real possibilidade de que uma mudança aconteça, não porque buscamos, mas simplesmente porque nosso nome brotou no coração de alguém interessado no progresso do Reino de Deus. Agora, diante dessa possibilidade, nosso coração se enche de ingredientes, como já disse, conhecido dos irmãos. Uma saudável ansiedade que nos impulsiona para o novo invade nosso ser; uma esperança profunda de que o futuro, que poderá estar vindo ao nosso encontro, esteja revestido da preciosa presença divina; uma fé profunda, ora mais, ora menos firme, mas sempre suficiente para alimentar a convicção de que qualquer lugar do universo é o melhor para se viver quando se experimenta, no coração, a presença soberana de Deus e, portanto, se tem a clareza de que o que se está fazendo é aprovado por Ele.

Diante desses sentimentos, a terra pode ser diferente, mas o céu é o mesmo; as pessoas podem ser diferentes, mas o Deus é o mesmo; os caminhos podem ser diferentes, mas os sonhos são os mesmos; as pessoas podem ter condições materiais e filosofias de vida diferentes, mas as necessidades espirituais são as mesmas; até os governos e sistemas político-econômicos podem ser diferentes, mas o Deus, a quem tudo pertence, é o mesmo.

Estamos com o coração cheio de expectativas, mas nossa alma busca repouso, permanentemente, nos braços daquele a quem confiamos nossa história e de quem nos tornamos cooperadores, em resposta ao seu amor.

No próximo final de semana, se Deus quiser, estaremos juntos, buscando conhecer a vontade de Deus que, manifeste-se como manifestar-se, é boa, agradável e perfeita. Confiemos Nisso!

Coisas da vida (2003)

“Pessoas brilhantes falam sobre idéias; pessoas medíocres falam sobre coisas; pessoas pequenas falam sobre outras pessoas. Todos nós já tivemos nossos momentos brilhantes, medíocres e pequenos. O importante é saber em qual deles estamos acumulando milhagem”(Autor desconhecido)
Há uma compreensão de que a vida humana se desenvolve em torno das seguintes dimensões: espiritual, familiar, educacional, econômica, política e do lazer. Sendo assim, qualquer pessoa desejosa de ver a vida florecer, deve investir na melhoria da qualidade dessas seis dimensões. Essa divisão da vida em áreas é importante para fins de estudo, compreensão e desenvolvimento, mas pode provocar problemas.

Um problema é o que nos leva a supervalorizar uma ou outra dessas dimensões, em detrimento – em prejuízo – da demais. Como consequência, encontramos, por exemplo, pessoas com a conta bancária cheia de dinheiro, mas com a existência vasia de significado e o coração paupérrimo de paz, amor, alegria, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio e outros aspectos que são produzidos em corações ricos da presença de Deus.

Outro, tão sério quanto o anterior, se fundamenta numa compreeensão equivocada de que essas áreas subsistem separadamente, isto é, sem que uma se relacione com a outra. Ainda que, numa escala de valores, uma possa ser considerada mais importante do que outra, o desequilibrio na valorização produz danos ao individuo e à coletividade. A título de exemplo, uma pessoa, obesa economicamente, mas magérrima espiritualmente (não confundir com religiosa ou misticamente), pode se transformar num rolo compressor, com elevado grau de periculosidade.

A sociedade em que vivemos supervaloriza o econômico. Nela, como ouvimos com frequência, o homem é respeitado pelo que tem e não pelo que é. Por isso, contrariando o desafio de Charles Chaplin, em O Grande Ditador, ela não produz seres humanos, produz máquinas! E o pior é que cresce o número de igrejas que, esquecendo sua missão precípua de fomentar o desenvolvimento espiritual e sua relação positiva com as demais dimensões, entraram na dança do Mercado e estão transformando suas sedes em ponto comercial, cujo produto principal é a venda de ilusão, travestida de misticismo pseudo-espiritual, explorando crentes-clientes que não enxergam ou não querem enxergar outras possíveis causas de seus problemas, que não pela “ótica cega” do misticismo exagerado.

Diga-se de passagem, se há igrejas explorando, comercialmente, pessoas, isso ocorre porque a dimensão econômica é tão enfatizada e a política está tão desturpada que cresceu o nicho de mercado formado por pessoas em busca de Deus somente como meio de prosperidade material. Em outras palavras, não estão interessadas em Deus, mas no retorno econômico que uma relação com Ele poderia proporcionar. Quando a fome de um se encontra com a vontade de comer do outro, criador e criatura são transformados em meio para se alcançar o “verdadeiro” deus da existência: o dinheiro.

Na tentativa de nadar contra a maré, iniciamos esta coluna visando ser um espaço saudável de reflexão crítica. Tentaremos tratar de coisas da vida a partir de uma perspectiva biblico-teológica. Queremos oferecer aos leitores uma oportunidade de refletir sobre a necessidade de investir em cada uma das dimensões citadas no início, visando a construção de uma vida mais saudável. Não visamos, portanto, fazer proselitismo religioso. Queremos contribuir para aproximação do leitor com Deus e com seus semelhantes, numa relação de amor. Queremos, ao tratar de coisas da vida, ser uma expressão do amor de Deus.
(Publicado no The Brazilian paper, FL, USA)

Visão estratégica do casamento (2005)

“Prometo amar-te e respeitar-te, na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza, na alegria ou na tristeza, até que a morte nos separe”.

Visão Estratégica é linguagem da administração moderna. Expressa aquilo que se deseja ser. Significa que os envolvidos num projeto não somente usarão todas as armas possíveis para tornar realidade o que se pretende, mas também que estarão vigilantes para evitar tudo que impede sua concretização.

Em relação ao casamento, geralmente os noivos tomam conhecimento da frase na hora da cerimônia. Por isso, ainda que carregada de emoção, eles a repetem de maneira mecânica. Ali não há espaço para reflexão. Nem mesmo depois, quando se reúnem para assistir a gravação do evento, o clima estimula reflexão. A compreensão, porém, do que nela é dito, poderia ajudar a enfrentar de maneira diferente a vida a dois.

Provavelmente, quem elaborou a tal frase era experiente em casamento. Diferentemente daqueles que estão iniciando a caminhada, tinha autoridade para afirmar que casamento é feito, também, de doenças, pobreza e tristezas. Os que estão em início de caminhada, conquanto conheçam a famosa expressão de compromisso, raramente visualizam as diversas implicações possíveis - especialmente as desagradáveis - no futuro que se descortina.

Imagine aquele casal que sempre é visto junto e sorrindo. Aquele que, talvez, já tenha até vencido a barreira do Jubileu de Ouro. Aquele que, imagina-se, seria um modelo para novos casais. Pois bem, tenha certeza de que ele teria muito a contar de problemas vividos na relação.

Pobreza? Se nem todos podem dizer que já passaram por momentos de pobreza, na acepção econômica da palavra, a maioria certamente já passou por aperto financeiro, seja por imprevisto, erro de cálculo orçamentário, necessidade de ousar diante de alguma circunstância que exigiu arriscar-se em algum investimento ou até por irresponsabilidade mesmo. Nessas horas de aperto financeiro, se a família, sobretudo o casal, não estiver unida em torno da situação, frustrações ou lamentações corroem o relacionamento.

Enfermidades? Uma coisa é encontrar-se com o outro com alguma dor, na fase de namoro; outra é encontrá-lo freqüentemente reclamando de dor na convivência cotidiana do casamento. Diante de momentos de enfermidade do outro ou, principalmente, quando o outro tem algum tipo permanente de enfermidade, o mau humor exerce pressão e provoca desejo de alívio, não somente para a dor do cônjuge, mas também para a dor que a exposição constante ao desconforto afetivo produz em ambos. Isso pode enfraquecer a relação.

Tristezas? Todos experimentamos ainda que em graus diferentes. Não me refiro a tristezas por problemas alheios. Falo das provocadas pela pessoa com que decidimos dividir “cama, mesa e banho”. São palavras que dizemos na hora e lugar errado. Frustrações por atitudes indesejadas. Lágrimas por ações inesperadas. Enfim, uma lista infinita de possibilidades.

Uma dica é não “absolutizarmos” quaisquer momentos da relação. Tanto os bons, quanto os maus passam. Usando a expressão popularizada por Lulu Santos, eles vão e vem “como uma onda no mar”. Administrá-los com paciência, buscando orientação e força em Deus e, se necessário, em amigos ou pessoas qualificadas, nos primeiros sinais de crise, faz profunda diferença.

É fácil amar e respeitar na riqueza, na alegria e na saúde. Desafio é manter o compromisso e o desejo expressos na hora da formalização do casamento, quando a situação é oposta. Se na adversidade estivermos atentos à promessa e ao desejo de amar e respeitar, dificilmente a relação naufragará.

Posturas frente à variedade de modelos de igreja (2005)

Cresci no meio batista, no tempo em que o único modelo de igreja era o herdado dos batistas do sul dos Estados Unidos. Ele retratava estilo, conceitos e prioridades dos missionários que lideravam a denominação. Hoje, ainda que a maioria dos modelos continue sendo importada, me alegro com a variedade disponível.

Modelos retratam conceitos. Se a valorização e definição de conceitos variam de acordo com época e lugar, é inevitável, então, que modelos de hoje variem e se diversifiquem em relação ao dos pioneiros. A variedade é sinal de que há cabeças pensantes e braços operantes interagindo com sua realidade, buscando alternativas mais eficientes e eficazes no cumprimento do objetivo a que se propõem.

Antes, portanto, de criticarmos modelos e quem deles faz uso, seria fundamental descobrirmos que conceitos eles representam e como estão sendo definidos por aqueles que se abrem ou se fecham a eles. O xis da questão, portanto, não é o modelo, mas os conceitos que estão por detrás. Se descobrirmos quais conceitos a pessoa prioriza em sua escala de valores, descobriremos porque ela é mais ou menos aberta ao novo.

Pense, por exemplo, na compreensão da finalidade da Igreja e em nosso compromisso com ela. Os extremos da profundidade ou superficialidade do compromisso e a clareza ou obscurantismo da compreensão de finalidade, geralmente produzem igualmente uma maior abertura para alternativas que ajudem a alcançar os objetivos, bem como influencia nossa postura frente a novidades.

A personalidade de cada um é outro fator a ser considerado. Uns sentem maior necessidade de buscar o novo do que outros. Se a pessoa se sente emocionalmente mais confortável numa dada situação ou se é mais sensível às necessidades alheias, sua abertura ou busca pelo novo é afetada. Provavelmente, fatores de natureza emocional pesem muito mais na postura diante dos modelos do que os de natureza intelectual.

Nesse sentido, a necessidade maior ou menor de agradar os que comandam o sistema do qual se faz parte também influencia o comportamento diante de novos modelos.

O mesmo pode ser dito em relação aos dons, não necessariamente no sentido Paulino, que predominam na vida da pessoa. Pessoas com dom de liderança e administração, por exemplo, podem ter posturas diferentes, frente a modelos eclesiásticos, das que têm dom de evangelização, devido à diferença de foco.

Coloco esses aspectos para dizer que devemos ser cuidadosos ao julgarmos àqueles que estão envolvidos em experiências com novos modelos eclesiásticos. Não há virtude em si, em manter-se preso a um modelo fixo, nem em simplesmente abandoná-lo.
Posto isso, reafirmo minha alegria pela variedade e acrescento minha indagação diante das críticas ácidas que se faz àqueles que estão buscando alternativas para o cumprimento da missão. Fico me perguntando o porquê de reagirmos tão duramente contra aqueles que, entendendo que o modelo herdado não produz os resultados desejados, ou partem para criar algo diferente a partir do que existe ou fazem uso de alternativas existentes.

Penso que, no contexto desta reflexão, devemos nos preocupar com o que estamos fazendo e não com o que outro faz ou deixa de fazer. Cada um deve fazer bem feito seu trabalho confiando exclusivamente no julgamento divino e deixar o outro seguir sua caminhada. Se conhecermos alguém seguindo experiências que acreditamos ser perigosa, parece que melhor seria nos dirigirmos à pessoa e não sair atirando em todos que, buscando fazer melhor, se abrem a novos modelos de Igreja.

Relações de poder nas Juntas(2005)

Ocupei, em 30 anos de atuação na estrutura denominacional, funções nos dois lados da mesma moeda: membro e executivo de Junta. Já me senti “representante de interesses do povo” e defensor das finalidades ou sobrevivência institucional. Aprendi um pouco dos sentimentos reinantes nos dois lados e os conflitos que caracterizam a relação membro de Junta/Executivo. Há seis anos sem ser vidraça e feliz no ministério pastoral, sinto-me à vontade para escrever sobre o tema.

A relação Membro de Junta/Executivo é menos ou mais conflituosa, dependendo dos interesses que envolvem a instituição. Veja o exemplo das Juntas Missionárias – JMN e JMM - da Convenção Batista Brasileira. Dirigi-las é um grande desafio, tanto em decorrência de suas finalidades e estrutura, quanto por serem a menina dos olhos dos batistas. Creio, entretanto, que a probabilidade de conflitos na JMN é maior, pois atua em espaços semelhantes aos dos campos estaduais e os interesses nem sempre coincidem.

Membros dessa Junta são eleitos para administrar a instituição, mas também são cobrados como representantes dos interesses de suas convenções estaduais. Assim, podem sofrer pressões, por exemplo, no sentido de conseguirem mais obreiros da JMN para seus campos. Esse fato os influencia no modo de exercerem seus papéis, pois os colocam no centro de interesses às vezes diferentes: os da Junta e os de seus campos. Isso sem falar dos problemas, nos Estados, entre missionários e obreiros ou igrejas, que afetam as relações Junta/líderes estaduais, com rebatimento, inclusive, nas assembléias convencionais.

Em outras instituições, as possibilidades de conflitos também são múltiplas. Nos colégios batistas, por exemplo, há interesses por emprego, salários, uso de espaço físico, bolsas de estudo, patrocínio de eventos e, de vez em quando, pela qualidade do ensino e serviços! Neles e em outras instituições, seus dirigentes ganham visibilidade, facilitando candidaturas político-partidárias, ascensão denominacional ou suposta influência sobre o voto de seus liderados. Isso abre espaços para barganhas em períodos eleitorais (denominacionais e nacionais) e conflitos extremamente nocivos à causa.

É provável que, entre as causas da falência da JUERP, fatores como esses, além dos relacionados à escolha de livros (principalmente de escritores que atuam na Junta!) ou linhas de pensamentos a serem publicados, influenciaram na crise.

Essas possibilidades, somadas aos problemas de personalidade, de diferenças de compreensão da realidade e, sobretudo, de falta de respeito ao espaço ocupado pelo outro, fazem com que a permanência prolongada na função de executivo, em certas instituições, se torne um imenso desafio, um eterno ato de marabalismo.

É flagrante o desrespeito às atribuições estatutárias da parte de alguns. As Convenções definem e distinguem com “clareza cristalina” as atribuições dos Executivos e dos Membros das Juntas. Entretanto, se há executivos que extrapolam, há também membros que não se contentam em exercer suas atribuições. Por terem o poder de demitir o Executivo, usurpam seus poderes, tornam-se dominadores, opressores até, transformando num inferno a vida dos que administram.

Isso não desmerece nossas instituições ou líderes, pois não significa que tais práticas sejam dominantes. Mas alerta-nos e nos estimula a sermos menos ingênuos em nosso envolvimento cooperativo.

Relações de poder nas igrejas primitivas (2005)

Enganam-se aqueles que criticam os conflitos de interesses constatados nas estruturas das igrejas, convenções e juntas batistas, tanto quanto os que preferem fazer vistas grossas para o fato, ou mesmo escondê-lo, sob o argumento de que isso depõem contra a denominação. Assumir a realidade e estudá-la é o melhor caminho para minimizarmos eventuais efeitos colaterais maléficos.

Na verdade, se temos conflitos, isso apenas retrata nossa condição natural de seres que pensam, sentem, agem e interagem, de maneira individual e ativa, com a realidade. Ademais, o fato de adotarmos a democracia como forma de governo impede que diferenças permaneçam escondidas e possibilita que cheiros, às vezes desagradáveis, dos bastidores, atinjam nossas narinas.

Para aqueles que se sentem incomodados com a exposição de nossos conflitos ou que mistificam e mitificam o passado, defendendo um retorno aos “fundadores” como caminho para superar problemas do presente, eis uma notícia que preferiríamos não anunciar: entre os santos “fundadores” das igrejas cristãs primitivas, conflitos também se fizeram presentes, senão vejamos:

Em Jerusalém, os judeus de fala grega se sentiram discriminados pelos de fala hebraica, fato que exigiu a eleição da primeira CPSC - Comissão Para Solução de Conflitos - (At. 6.1-6); os cristãos do PC – Partido da Circuncisão – criticaram Pedro, fato que exigiu dele explicações sobre suas posturas (At. 11.1-3); esses mesmos cristãos geraram uma grande contenda com Paulo e Barnabé (At. 15.1-2), fato que forçou a realização de uma assembléia da igreja (At. 15.1-19) em que o PRF – Partido Religioso dos Fariseus – (At. 15.5) fez acusações que geraram muita discussão (At. 15.5-8); Paulo e Barnabé, quem diria, tiveram um desentendimento tão sério que culminou com uma separação temporária (At. 15.9);
Na Galácia, Paulo bateu de frente com Pedro porque este teria agido incoerentemente (Gal. 2.11-13);
Em Filipos, duas irmãs viveram um conflito que mereceu intervenção de Paulo (Fil. 4.2-3);
Em Corinto a coisa foi tão feia que o escancarado partidarismo em torno de líderes foi classificado por Paulo como mundanismo (I Cor. 1.11-12; 3.4);
O próprio “grupo de elite” de Jesus já discutia entre si, ainda na presença do mestre, em torno de qual deles seria o maior (Lc. 9.46) e até já havia candidatos às cadeiras mais próximas de Jesus na glória, fato gerador de indignação (Mc. 10.35-41).

Diga-se de passagem, os que defendem o passado como paradigma para a igreja de hoje deveriam estudar com mais profundidade a história da igreja, inclusive dos “reformadores”, para perceberem que em todas as épocas e lugares as relações de poder foram testadas e conflitos de diferentes naturezas e graus ficaram registrados.
Isso não significa que devamos nos acomodar diante dos atritos resultantes da convivência cooperativa e democrática da qual participamos. Muito menos, servir de modelo ou estímulo para alimentarmos ou justificarmos conflitos na denominação ou igreja. Antes, suas causas e soluções devem ser estudadas, postura que pode nos ajudar no aperfeiçoamento de nossas relações interpessoais e organizacionais.

Todos, em todas as épocas e lugares, experimentam relacionamentos conflituosos. Portanto, não permitamos que aumentem o peso de nossas culpas pela parte que nos toca, nem que oportunistas políticos, com discurso pseudo-espiritual, usem isso para justificar o afastamento da cooperação ou a criação de igrejas ou denominações de propriedade privada.

Continuemos lutando pela unidade, tanto na diversidade quanto na adversidade, alimentando a cultura do respeito mútuo e do diálogo e combatendo extremismos nocivos à caminhada cristã solidária.

De quem é a soberania, da Assembléia ou do Estatuto? (2005)

Ao tentar responder a questão em epígrafe, não pretendo fazer um mero exercício intelectual ou, muito menos, ocupar o tempo das leitoras com assunto que interessaria somente a meia dúzia de líderes. Creio que a incompreensão deste tema afeta não somente o tempo das discussões nas assembléias, mas também provoca instabilidade em instituições e na vida de seus dirigentes, além dos conflitos interpessoais.

Tanto a Assembléia quanto o Estatuto têm soberania relativa. A Assembléia é soberana porque tem o poder de modificar as regras estatutárias. Porém, na vigência do Estatuto, a soberania é das regras nele definidas. Isso significa que nenhuma Assembléia tem poderes para contrariar aquilo que já está definido em seu Estatuto.

Isso tudo parece óbvio. A questão, porém, é quando caminhamos do teórico para o prático.

Digamos que determinado colégio pertença a uma Convenção e que o Estatuto dessa Convenção defina que ele será administrado por uma Junta. Poderia, então, a Assembléia da Convenção deliberar, por exemplo, sobre valores de mensalidades escolares, contratação ou demissão de empregados, concessão de bolsas de estudo?

Digamos, ainda, que uma Convenção defina em seu Estatuto que suas atividades missionárias seriam administradas por uma Junta. Poderia sua Assembléia de membros deliberar e determinar quais missionários deveriam ser contratados ou desligados ou os salários destes missionários?

A resposta a essas perguntas é não!

Seria um contra-senso, uma Convenção cujos poderes foram divididos entre Assembléia e Juntas Administrativas, eleger pessoas para dar cumprimento às atribuições estatutárias e, depois, obrigar as Juntas a fazerem o que for votado em plenário. Além de contrariar seu estatuto, isso indicaria que critérios políticos – desejo da maioria expresso em sessões tumultuadas pela quantidade e diversidade de assuntos e sentimentos – prevaleceriam sobre decisões analisadas com maior racionalidade num grupo menor e com objetivos específicos. Indica, também, que não há necessidade de Juntas para administrar seus organismos. Bastaria que os executivos cumprissem as deliberações do plenário.

A divisão de poderes entre Assembléia e Juntas Administrativas visa garantir a racionalidade na administração da instituição. O pressuposto que norteia tal divisão de poderes e atribuições é que nenhuma instituição pode ser bem sucedida, manter-se equilibrada patrimonial, financeira e politicamente, se as decisões que definem seu destino forem tomadas no calor das emoções, próprios dos debates de assembléias.

Pode uma Assembléia participar do gerenciamento de suas Juntas? Sim! Entretanto, naquilo que não é atribuição estatutária sua, cabe apenas recomendação e não determinação. Os participantes das assembléias devem ter consciência de que têm pleno poder político de expressão, mas limitado poder legal de determinação.

Se uma Assembléia recomenda algo, cabe à Junta avaliar a recomendação, respeitosamente, e, caso compreenda que é nociva, deve explicar, com fundamentos sólidos, as razões que a levaram a não executar a recomendação.

Se uma assembléia de Convenção quer ser absolutamente soberana sobre seus organismos, administrando-os diretamente, que altere seus estatutos e extinga as Juntas. (E não se esqueça de contratar, antecipadamente, para si mesma, serviços funerários!).

OBS.: Opiniões que contrariam essa tese são bem-vindas, especialmente da parte de profissionais do Direito, uma vez que pouco ou nada tem sido publicado sobre o assunto.

A identidade batista: quatro frágeis liberdades (2005)

A publicação, em português, do livro “The baptist Indentity: four Fragile Freedoms”, de Walter B. Shurden, pelo MLK-B Centro Martin Luther King, foi uma das boas coisas que aconteceu neste Mês da Denominação. Soa como bálsamo saber que os batistas brasileiros poderão ter acesso a um material que nos remete a um dos princípios mais caros de sua história que é o da liberdade.


Escrito de maneira simples e em linguagem acessível a pessoas de formação mediana, o livro tem o mérito de, além das reflexões em si feitas pelo autor, trazer como anexos, oito documentos que apontam para nossa identidade histórica, destacando suas quatro frágeis liberdades.


A primeira seria a liberdade da Bíblia. Partindo do reconhecimento da autoridade dos textos bíblicos, o autor demonstra o gene ecumênico de nossa denominação, destacando que os batistas não foram os primeiros a crerem, por exemplo, na autoridade das Escrituras, na salvação somente pela graça, no sacerdócio dos crentes, na igreja formada pelos que crêem ou mesmo na liberdade religiosa. Essas são crenças foram herdadas de outros segmentos cristãos.


Após isso, caracteriza a liberdade da bíblia: liberdade “sob” (relação com o Senhorio de Jesus), “para” (referente ao “propósito de viver em contínua obediência à Palavra de Deus”), “perante” (a supremacia da Bíblia perante outras autoridades) e “de” (referente a questão da interpretação).


A segunda liberdade seria a individual. Neste aspecto, reafirma a liberdade da escolha individual e oferece suas bases teológicas. Mostra como, na teologia medieval do Catolicismo Romano, a graça estava centrada na igreja e como Lutero disse não a isso, centralizando-a no indivíduo. Trabalha os temas conversão por convicção e batismo para crentes, mostrando, em relação a este, como a preocupação inicial dos batistas não era com o modo do batismo, mas com a pessoa que seria batizada.


A terceira liberdade seria a da Igreja. Aqui, o autor trabalha, primeiro, a liberdade para seguir voluntariamente a Cristo. Num contexto em que o individuo fazia parte da igreja por herança, reafirma que a igreja deve lutar para que sua membrezia seja composta de pessoas que escolheram livremente seguir a Jesus. Depois, trabalha a liberdade da igreja de se autogovernar. Os membros têm a responsabilidade de participar e proteger o direito democrático. Em terceiro lugar, fala da liberdade da igreja para cultuar criativamente, de acordo com sua consciência. Finalmente, expõe a idéia de liberdade para ministrar responsavelmente. Diz o autor que “nenhum pastor tem autoridade oficial ou constituída para ‘governar’ a vida de ninguém numa congregação batista”, uma vez que todos os membros são sacerdotes diante de Deus.


Para terminar, se refere à liberdade religiosa. No contexto americano em que há proeminentes líderes batistas defendendo o estabelecimento de um Estado legal e “fundamentalistamente” cristão, dizendo que “a idéia da separação entre Igreja e Estado foi invenção da cabeça de algum ímpio”, a bandeira da liberdade religiosa precisa voltar a ser hasteada, defende o autor.
Concluindo o texto, afirma que “a identidade batista histórica, portanto, tem se delineado primeiramente a partir da liberdade ao invés do controle; do voluntarismo ao invés da coerção; da individualidade ao invés de uma ‘mentalidade pacote’; da religião pessoal ao invés da religião por procuração e da diversidade ao invés da uniformidade”.


Óbvio que neste espaço só é possível oferecer um aperitivo. Espero que cada batista brasileiro, especialmente os pastores, tenham acesso a este bom material. Interessados devem fazer contato com o Profº Raimundo Barreto, do STBNE (raimundob@yahoo.com) ou Profº Benedito Bezerra do STBNB (beneditobezerra@hotmail.com)

Profissionais e solidários (2005)

“Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao pai de vocês, que está nos céus”. (Mateus 5.16)


Conheci Emerson, oftalmologista, quando pastoreei a Igreja Batista Emanuel em Boa Viagem, no Recife. Ele tornou-se membro da Igreja no período em que reestruturávamos a área de atuação social e criávamos o NASCE - Núcleo de Atuação Social Cristã Emanuel. Antes, porém, de falar sobre como ele nos inspirou, creio ser importante esclarecer a proposta para o NASCE que estava no coração dos que participaram de sua organização.

O NASCE nasceu para ser um espaço de solidariedade. Foi criado com personalidade jurídica autônoma, tendo a Igreja como mantenedora. Foi estruturado pensando na possibilidade de atuar, também, em convênio com organizações governamentais e não governamentais. A idéia central, porém, era possibilitar aos membros da Igreja um espaço no qual pudessem compartilhar seus conhecimentos em favor não somente dos empobrecidos que vivem há anos abaixo da linha de pobreza, mas também, dos empobrecidos por desemprego ou arrocho salarial, como ocorre eventualmente com pessoas de classe média. O NASCE, portanto, foi criado para ajudar necessitados, da igreja ou não.

Diante disso, profissionais de diversas áreas, sensibilizados e solidários, se dispuseram a cooperar. Uns ofereciam serviços médicos, psicológicos, jurídicos, outros ainda em diversas áreas de educação – alfabetização, línguas, culinária, nutrição, música, corte e costura, artes, reparos elétricos e hidráulicos, reflexão sócio-política, etc. - ou simplesmente orientando tecnicamente em questões ligadas, por exemplo, à aposentadoria.

Emerson, porém, não podia dar expediente no projeto, inclusive porque isso exigiria equipamentos indisponíveis. Assim, ofereceu-se para participar abrindo espaço em sua agenda de atendimentos, no consultório, para x consultas semanais a pessoas encaminhadas pelo NASCE. O processo era simples: a pessoa procurava o projeto, comprovava sua necessidade e o dirigente se encarregava de agendar diretamente no consultório. Assim, as pessoas eram atendidas nas mesmas condições de todos os demais clientes seus. Se não bastasse isso, ele realizava x cirurgias mensais sem ônus para o paciente.

Isso serviu de inspiração para diversos outros médicos e profissionais da Igreja que, embora não pudessem ir à sede do projeto, passaram a abrir espaço em seu ambiente profissional para atender necessitados, como manifestação de solidariedade.

Conheço pessoas que são contrárias à mobilização das igrejas para questões sociais. Um dos argumentos usados é que o trabalho social seria função do Estado, cabendo às igrejas somente cuidar da dimensão espiritual da vida. Para elas, a Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37) não significa nada mais do que oferecer uma resposta à questão “quem é o meu próximo?”. Entretanto, a Parábola nos diz muito mais do que isso. Diz, inclusive, que não devemos fugir, diante de alguém com necessidade.

A concentração de renda é a lógica do sistema sócio-econômico vigente e o empobrecimento da imensa maioria, sua conseqüência natural. Exemplo disso é que 1/3 da riqueza mundial está concentrada nos Estados Unidos e 1/3 da riqueza brasileira, em São Paulo. Estudar o sistema em busca de alternativas e lutar politicamente por seu aperfeiçoamento, visando transformá-lo em ferramenta de justiça social, deve ser compromisso e alvo de todos.

Enquanto, porém, mudanças significativas não se tornam realidade no país, nossa criatividade e recursos individuais e comunitários devem ser usados para minimizar os malefícios da estrutura vigente na vida dos empobrecidos. E Deus se agradará disso! (Amós 5.21-24)

A carência nacional é imensa e há muita gente passando de fininho, como fizeram o sacerdote e o levita da Parábola, não por “coincidência”, exatamente os líderes religiosos de então. Émerson – um médico - resolveu agir diferente, fazendo alguma coisa, como o Bom Samaritano. E o fez não por crer que sua salvação dependeria disso, mas simplesmente, por solidariedade. E nós, o que temos feito, como manifestação de solidariedade, através da nossa profissão?

Paripueira, música e teologia (2005)

Voltar a Paripueira - acampamento dos batistas alagoanos - é algo que se faz com muito prazer. Nada se compara à caminhada ao anoitecer, à beira-mar. De um lado, o som das palhas dos coqueiros; do outro, o ir e vir das ondas do mar e, pra completar, um facho de luz prateada, reflexo da lua, nos acompanhando sobre as águas, como uma trilha entre nós e o infinito.

Emocionei-me em Paripueira. Por vezes, durante as reuniões da Fraternidade Teológica Latino-Americana, arrepiei-me ao cantar melodias regionais que há muito não cantava. Cantar canções de estímulo à ação solidária e não só à contemplação, em ritmos latino-americanos, com letras que nos desafiavam a uma postura diferente da dominante, fez-me muito bem.

Vinte dias antes, meu filho e eu estivemos no Teatro Castro Alves, em Salvador. O ambiente era sofisticado, ar-condicionado, público silencioso... A Orquestra Sinfônica da Bahia se apresentava, sob a regência de Piero Bastianelli, com participação especial da pianista Beatriz Pimentel. Ao ouvir a Sinfonia nº 5, Op. 107, “A Reforma”, de Felix Mendelssohn, emocionei-me profundamente ao som de “Castelo Forte”. Em Paripueira o ambiente do “palhoção” era simples, a brisa do mar nos refrescava e o movimento das folhas dos coqueiros e manguezais nos convidavam a dançar suavemente, pois reinava alegria, paz e liberdade.

Da mesma forma que me emocionei ao ouvir “Castelo Forte”, arrepiei-me ao cantar “Conceitos e Preconceitos”, em ritmo de ciranda (“Ai, os conceitos de vida que aos outros impomos por acharmos tão bons. Ai, preconceitos da gente, jeito, gestos e comida, cores modos e tons. Desce do céu o lençol das mudanças. Grego e Judeu, numa mesma esperança. Cristo rompeu, interrompeu preconceitos que nos separam. Cristo venceu, ele nos deu os conceitos de vida e paz”. (Guilherme Kerr Neto e Jorge Rehder)).

Fiquei pensando em como Deus pode usar o clássico e o contemporâneo e como, cada um em seu contexto, podem nos motivar em nossos compromissos espirituais. Pensei muito na música como veículo de teologia e na necessidade dos músicos compreenderem isso. Pensei, principalmente, em como os teólogos precisam se convencer de que teologia sem arte é letra sem espírito, fé sem ação, piada sem riso, igreja sem devoção, relacionamento sem afeto, família sem comunhão...

As emoções não pararam por aí. Em Paripueira experimentei, novamente, a liberdade de ouvir pensamentos que voavam publicamente. É que o fazer teológico não estava condicionado aos limites dos acordos políticos silenciosos existentes no âmbito dos partidos religiosos. No fazer teológico dos partidos é inevitável a presença de policiais do pensamento, cuja função é constatar se o que se diz se encaixa nas definições dominantes, denunciando os “infratores” aos tribunais da inquisição.

Mesmo entre nós batistas - defensores históricos da liberdade de pensamento – cresce a idéia de que o fazer teológico deve ser aceito somente até os limites do desejo daqueles que insistem em descolorir e uniformizar o mundo. É por isso que, quando um estudioso, interessado em aprofundar verdades divinas e não em agradar políticos da religião, ousa sair desse parâmetro, seus pensamentos são imediatamente denunciados como “poderosa arma do diabo”.

Tendemos a classificar de diabólico, aqueles cujo pensamento se opõem ao nosso, afinal, diabo significa adversário. Porém, vale prestar atenção ao que diz Rubem Alves: “O número de demônios vistos do lado de fora é precisamente igual ao número de demônios que moram dentro daquele que os vê”. (Rubem Alves, “Entre a ciência e a sapiência”).

Ninho vazio (2005)

Educamos nossos filhos discursando que eles não eram nossos, mas da vida. Evitamos, baseados nessa filosofia, super protegê-los. Possibilitamos, através de diálogo e exposição à literatura de diversas correntes, que desenvolvessem senso crítico. Propositalmente os deixamos expostos a situações nas quais pudessem decidir sem nossa interferência, apenas monitorando-os, sutilmente, à distância. Tudo em nome da autonomia pessoal. O tempo passou e, mais cedo do que imaginávamos, eles nos deixaram.

Primeiro foi Mônica. Ainda estávamos na Flórida quando ela voltou ao Brasil para dar seqüência aos estudos de Administração, na Federal de Pernambuco. Quando decidíamos voltar ao Brasil, trancou o curso, começou a repensar se queria prosseguir nele e voltou aos Estados Unidos. Aproveitando o Visto, resolveu permanecer por lá usufruindo ao máximo de tudo que uma experiência internacional proporciona.

Recentemente foi Raphael. Almejando ser lingüista, dias antes de completar 18 anos, nesse julho, “embarcou” para concluir o ensino médio na Dinamarca. Se depender da disposição de hoje e das oportunidades, dificilmente voltará a morar no Brasil, disse ele.

Ao entrarmos em nosso apartamento, na volta do aeroporto, Gláucia e eu nos demos conta de que o ninho esvaziou. Não há mais volume alto de músicas, acordes de piano ou violão e cantorias no banheiro. Linha telefônica e computadores não são mais alvo de “disputa”. Reclamações da comida não existem mais. Acabou-se o “problema” com quartos bagunçados. Encerrou-se o tempo das negociações por horários para voltar pra casa ou permissão para dormir fora. Chegou ao fim o papel de motorista particular para levar e buscar na casa de amigos, shopping, cinema, lanchonete, escola, igreja... Findou-se a necessidade de circular de loja em loja à procura de sapatos, calça, CD, livros, enfim.

Então, começamos a nos pegar olhando álbuns de fotografia e tarefas escolares da infância. As visitas aos seus fotologs (bendita internet!) se tornaram mais intensas e, para diminuir a saudade, até levamos para nossa cama, objetos de estimação deles que, “por acaso”, ficaram em casa.

Nesses dias começamos a descobrir que ninho vazio não é apenas uma experiência físico-ambiental; nem é fruto da saudade provocada pela ausência físico-emocional daqueles com quem trocamos afetos e desafetos durante tantos anos debaixo do mesmo teto. Estamos aprendendo que ninho vazio seria um profundo sentimento de tristeza, que teria como pano de fundo a sensação de inutilidade, experimentada pelos pais quando os filhos deixam a casa.

Ainda que física e emocionalmente o ninho tenha sofrido esvaziamento, nos conscientizamos de que cabe a nós não permitirmos que, existencialmente, ele se torne vazio. Para isso, apostamos, primeiro, no sentido de autonomia e independência vivenciadas durante o período de educação e, segundo, na anulação da tal sensação de inutilidade aproveitando a oportunidade de estarmos “enfim sós”, para redefinirmos projetos individuais e a dois, ocupando, criativamente, as lacunas deixadas em nossas vidas pela saída deles.

Se não podemos impedir que o ninho se esvazie, pelo menos podemos evitar que se torne Ninho Vazio!

Minha velha Bíblia (2005)

Dentre os livros que li no decurso deste ano, dois ocuparam a maior parte do meu tempo: a “Bíblia” (Nova Versão Internacional, Editora Vida) e “A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã – Introdução à história da Bíblia” (Júlio Trebolle Barrera, Petrópolis - RJ, Vozes, 1995).

Em relação ao segundo, um trabalho de 741 páginas, trata-se de material que todo amante da Bíblia deveria ler. O texto, como informa o subtítulo, não é apologético. O autor trabalha, dentre outros, temas como “A Bíblia e o livro na antiguidade”, “Coleções de livros bíblicos. Livros canônicos e livros não canônicos”, “História do texto e das versões do Antigo e do Novo Testamento”, “Crítica textual do Antigo e do Novo Testamento” e “Hermenêutica. Textos e Interpretações”.

Uma razão importante para conhecermos mais sobre a Bíblia é que a grande questão que divide cristãos em nossos dias não é a autoridade da Bíblia, mas a forma de interpretá-la. Nos Estados Unidos, por exemplo, os evangélicos se dividem entre aqueles que acreditam que só há uma maneira correta de interpretar a Bíblia - a deles – e aqueles que acreditam na liberdade que cada um tem de interpretá-la.

Essa polêmica está sendo plantada no coração de muitos pastores brasileiros, especialmente através de congressos realizados na região sudeste. Por isso, conhecer mais sobre a Bíblia é fundamental para bem nos posicionarmos nesta questão.

Outra razão é que conhecer a Bíblia sem conhecimento sobre ela pode levar pessoas extremamente sinceras e bem intencionadas a causarem sérios prejuízos para si mesmas e para os que vivem sob sua influência.

Além disso, a má interpretação dos textos, também cria bloqueios no necessário diálogo que devemos construir com aqueles que estão em busca honesta de respostas para suas vidas, mas são mais exigentes ou críticos em seu modo de pensar ou de enxergar o mundo.

Este livro é leitura obrigatória para pessoas que, além de lerem a Bíblia em busca de alimento para suas necessidades espirituais, também definem conceitos que servem de referenciais para terceiros.

Em relação à Bíblia, decidi fazer uma nova leitura dela, de capa a capa, tanto em forma devocional, quanto destacando alguns temas também pensados e praticados nos tempos bíblicos.

A tentativa de entender a realidade com “os próprios olhos” nos desafia e nos enriquece. Riscos sempre existem, mas nunca serão inferiores aos experimentados por aqueles que nos antecederam nesta tarefa. Uma vez que os que nos antecederam não eram, necessariamente, dotados de possibilidades superiores às nossas, devemos continuar a busca que visa apaziguar nossas mentes e encontrar significado adequado às necessidades deste tempo. Essa é uma tarefa de cada um e não de alguns iluminados.

É difícil não se colocar de forma respeitosa diante da Bíblia. Só mesmo uma profunda ignorância, rebeldia ou orgulho, pode levar alguém a não reconhecer o diferencial que ela representa para a vida humana. Mesmo nos deparando com textos difíceis de serem digeridos à luz da cultura presente, dos avanços científico-tecnológicos e do conhecimento literário, é inegável como as narrativas podem falar profundamente ao nosso coração, fazendo calar a alma, reverentemente, diante do misterioso criador.

Certa vez, uma membro de igreja, bacharel em teologia, abordou-me, comparando-me com seu ex-pastor e declarando sua preferência por ele, em termos de pregação. Justificou-se esclarecendo que o problema das minhas mensagens é que havia muita citação bíblica. Analisei a colocação por todos os ângulos imagináveis mas, confesso, não consegui “progredir” muito. É que não consigo visualizar a construção sólida da fé, fora das Escrituras Sagradas. Sentiria-me nu, no púlpito, se fizesse afirmações cuja fundamentação fosse contrária àquilo que enxergo nas Escrituras.

Por acreditar que não se pode falar de “interpretação verdadeira” das Escrituras, no sentido de haver somente uma, prefiro a expressão “interpretação dominante”. Defendo que a autoridade das Escrituras precisa ser reafirmada, não em termos políticos, fruto de ânsia neurótica pelo poder, daqueles que querem dominar mentes e instituições. Deve ser reafirmada porque uma leitura de coração aberto à voz do Espírito é fonte que produz amor a Deus sobre todas as coisas e às pessoas como a nós mesmos.

Diante disso, creio que mais importante do que erigir monumentos à Bíblia em praças é ensinarmos às pessoas a valorizarem e estudarem adequadamente as Escrituras. Isso surte mais efeito em suas vidas do que milhões de monumentos à Bíblia erigidos em cada cidade do país. Portanto, estudemos a Bíblia e sobre ela. Isso só nos faz bem!

Estou só de butuca (2005)

Coloquei meu cavanhaque de molho e, como se dizia no interior, estou só de butuca. Como parte dos brasileiros, estou observando, amolecendo os dados para digeri-los, tentando evitar uma dor de estômago. Talvez aja assim pela dificuldade de admitir que o que está sendo anunciado, de fato esteja acontecendo. É muita informação, contra-informação e desinformação ao mesmo tempo.

Estou de butuca, atento aos desdobramentos das investigações, na esperança de que os nós sejam desatados, o joio seja separado do trigo, inocentes aplaudidos e culpados justamente punidos. Ligado, sobretudo, para não engolir silenciosa e passivamente uma grande pizza, nem ter de continuar convivendo com um sistema político doente que engorda bolsos de poderosos chefões.

Do ponto em que me encontro, arrisco algumas considerações:

A primeira é que, conquanto reconheça na história uma disputa de interesses políticos, beira à ingenuidade querer explicar os acontecimentos como uma disputa entre elite e proletariado. Para mim, usar o pressuposto da luta de classes é uma demonstração da dificuldade político-emocional de admitir-se que, talvez, em certo sentido “Regina Duarte” estivesse com a razão; que em vez da esperança vencer o medo, esteja ocorrendo exatamente o contrário.

É óbvio que faz parte da natureza política tirar proveito da falha adversária para conquistar maiores espaços. Não menos óbvio, porém, é que, se uma “elite” está se deliciando com a crise instalada é porque uma outra elite, liderada por meia dúzia de petistas, produziu munição pesada para ser usada contra si própria.

A segunda é a tentativa de separar-se PT e governo. Não sou filiado ao PT, mas sempre votei em Lula e em correligionários seus para o legislativo. Mesmo não me afinando a todas as teses defendidas pelo partido, não via opções partidárias que representassem melhor alguns dos valores que priorizo, como cristão. Ao votar em Lula, votei no PT. Para mim o PT é o governo e nem mesmo Duda Mendonça, com toda a sua competência, me convenceria do contrário.

A terceira é que não acredito na inocência de Lula. Não digo isso pela denúncia da associação da Telemar à empresa do filho dele. Digo isso, primeiro, porque sendo o PT gerido de forma colegiada, seria impossível um esquema tão grande passar despercebido de seu líder maior. Segundo, porque admitir a inocência de Lula seria admitir que Collor tinha razão ao afirmar que, se eleito, ele comeria nas mãos dos outros. Como Lula nunca me passou a imagem de ingênuo, resta-me acreditar que sabia, sim, de tudo!

Publiquei, antes das últimas eleições, que, pelo fato de já ter administrado empreendimento governado democraticamente, compreendia as dificuldades de mudanças rápidas num possível governo Lula. À época, defendia sua eleição, no mínimo, como necessária para que experimentássemos um governo com origens como a do PT para amadurecermos politicamente. Só não imaginava que, depois de eleito, a indumentária fosse drasticamente trocada, a economia continuasse bem somente para aqueles para os quais sempre foi e, sobretudo, que tamanha sujeira se instalasse na ante-sala do Palácio. Não nego, portanto, que diante de tudo o que pregou em termos de ética e justiça social, alio-me publicamente aos frustrados.

Frustrado, mas não abatido, continuo de butuca, unido àqueles que almejam um final de história feliz para o povo brasileiro e infeliz para os corruptos de plantão! Afinal, nenhuma decepção deve ser tão forte que nos desestimule a continuar lutando pela implementação de estruturas e eleição de indivíduos que possibilitem o florescimento da justiça e da solidariedade em favor da maioria sofrida da população brasileira.