sexta-feira, 31 de julho de 2009

Sucesso sem vida (2003)

Só há uma alternativa à vida sem fracasso: é o sucesso sem vida” (Paul Tillich)

O professor Merval Rosa, muito digno reitor interino do STBNB (vinte anos depois do desejo dominante na comunidade seminarial), disse certa vez, seriamente, sorrindo, que sabia o caminho do sucesso na denominação, mas preferia não trilhar por ele. Ele não nos revelou o caminho, por isso perguntávamos: que caminho seria esse? Hoje, depois de algumas décadas de participação ativa em todos os níveis de decisão, na estrutura denominacional, penso ter descoberto algumas pistas e passo a “recomendá-las” àqueles que almejam sucesso, em detrimento de preciosos valores do Reino de Deus.


1. Abuse da expressão “é/não é bíblico”. Fale de música bíblica, ainda que não existam partituras delas; fale de culto bíblico, ainda que não existam esboços de liturgia na Bíblia; fale de estrutura eclesiástica bíblica, ainda que a igreja de então, em fase embrionária, era mais um movimento. Sempre que precisar combater pensamentos divergentes, especialmente diante de um público evangélico, diga que o pensamento do outro não é – abracadabra! – bíblico. Exagere! Diante dessa expressão, a razão, o senso crítico, dá lugar ao respeito místico por sua pessoa. Assim, além de dominar facilmente os incautos, você passa a imagem de que é espiritual e seu “Ibope” sobe;


2. Nunca dê sinais de que está em dúvida ou de que não sabe. “O diabo é o pai da dúvida” e você, logicamente, não deve ser identificado como filho dele. Além disso, dúvida é sinal de insegurança, fraqueza e pastores, especialmente, devem sempre fazer de conta que são seguros, fortes e imbatíveis;


3. Nos plenários de Assembléias Convencionais, evite aproximar-se do microfone, exceto para manifestar-se sobre o óbvio, sobre temas que não são polêmicos. Se tiver que usar da palavra, perceba primeiro a tendência da maioria e siga com ela! Se não acredita nessa “dica”, passe a observar a postura de alguns “presidenciáveis” bons de urna;


4. Sempre que surgir oportunidade pública, reafirme posturas tradicionais (oriundas de Deus se manifestando como Jesus). Evite sinais de carismatismo (oriundos de Deus se manifestando como Espírito Santo) ou de liberalismo (oriundos de Deus se manifestando como criador);


5. Descubra o que os líderes estão combatendo ou apoiando e entre na luta... ao lado deles. Descubra o que eles pensam, em que crêem e afine-se a eles ou então, faça exatamente o oposto para destacar-se no outro extremo, na esperança de que, um dia, talvez, o povo se canse da situação e resolva dar uma oportunidade à oposição - como ao Presidente Lula - e você chegará ao topo;


6. Não torne público seus pensamentos. Isso cria oposição. Guarde seus pensamentos para si. Ninguém será contra você enquanto não souber o que você pensa;


7. Não inove, exceto no superficial. O senso de conservadorismo é forte e mudanças sempre geram resistências, conflitos e oposições;


8. Não ande sem paletó e gravata, pois eles representam, também, riqueza e poder; é um significativo diferencial em relação à maioria absoluta da população empobrecida, impotente e carente de referenciais “elevados”, “sagrados”, para seguir e perseguir;


9. Passe a impressão de que você é uma pessoa muito ocupada e requisitada. Não perca oportunidade para falar de como sua agenda é cheia; fale de suas viagens, especialmente ao exterior, afinal, se você é muito convidado, você é muito bom! Acumule muitas funções de destaque e não se esqueça de fundamentar essa política pessoal – abracadabra! - biblicamente: “Quem tem, mais será dado...” (Mt. 25.29);


10. Fale de seus feitos. Aproveite todas as oportunidades, públicas ou privadas, para falar das obras grandiosas de suas mãos, fruto de sua brilhante inteligência, perspicácia e capacidade de articulação e mobilização. Alguns lhe escutarão com ouvidos clínicos, percebendo as doenças de sua alma e as incoerências – abracadabra! – bíblicas de suas posturas, mas não se incomode, serão minoria; a maioria fica tão literalmente encantada que sempre aplaudirá, cega, emocionada;


11. Fortaleça seu nome; ele é sua marca; ela é seu maior patrimônio. Repita-o insistentemente. Publique-o dezenas de vezes no Boletim de sua igreja, em jornais... Refira-se a si mesmo como se fosse outra pessoa em sinal de auto-reverência, como o Edson trata o Pelé. Assim você estará criando e alimentando um mito. Se o povo precisa de mitos, por que não, você?;


12. Mesmo que não seja necessário, mesmo que haja vocabulário suficiente, na língua portuguesa, para explicitar seus pensamentos e sentimentos, abuse do vocabulário de outras línguas. Cite o latim, o grego, o hebraico e, sobretudo, o inglês. Isso causa impressão de riqueza cultural;


13. Esqueça que a avaliação de Deus não é como a do homem; que Ele vê o coração; que a Ele prestaremos contas de tudo. Cauterize sua consciência. O importante é ser visto pelos homens, afinal, são eles que decidem tudo, na maioria das vezes, à revelia de Deus. Deus não existe; é apenas uma criação dos poderosos para dominar o povo. Convença-se de que você é Deus!

J. Reis Pereira ensinava errado? (2003)

“Como professor de História Eclesiástica... e como Diretor d’O Jornal Batista, o Pr. José dos Reis Pereira ministrou a seus alunos, durante quase quatro decênios, a idéia de que o trabalho batista no Brasil começou...em 15 de outubro de 1882. Seguia ele os passos de A R. Crabtree... Fundamentado em tais argumentos... tornou-se o autor da proposta que fez do dia 15 de outubro o Dia Batista do Brasil...Hoje, a proposta teria dificuldade de ser aprovada, num plenário convencional, tal como há 35 anos” (Laudas de nossa história, OJB, 16, de 20.04.03).

Não é meu objetivo envolver-me na polêmica sobre o início do trabalho batista no Brasil, dentre outros, porque história eclesiástica não é minha praia. Muito menos me proponho a fazer um julgamento de J. Reis Pereira, pois seria um desrespeito à sua memória, aos seus familiares e aos batistas brasileiros, pelos destacados serviços por ele prestados. Por que, então, um título tão provocante? Simplesmente para atrair sua atenção para um fato importante ligado à educação teológica, referente ao processo de formação de nossos pensamentos, doutrinas e ministérios.

O que despertou minha atenção, na questão da “Proposta J. Reis Pereira”, foi a informação de que durante anos a história foi ensinada de uma forma, mas “novas informações deram nova visão da obra...” provocando no meio batista a possibilidade de rediscussão do assunto. Isto me levou a pensar o quão importante é sermos humildes e flexiveis para admitir que o mesmo pode ter se dado e continuar se dando em relação a outros aspectos da educação teológica e da formação ministerial. Da mesma forma que J. Reis Pereira, por seguir a cartilha de A. R. Crabtree, provavelmente a melhor e talvez a única existente à epóca, ensinou algo como sendo o certo que, com os olhos de hoje, não seria tão certo assim, também devemos admitir que muito do que construimos doutrinaria e metodologicamente foi resultado de um ou outro livro, de autores norte-americanos, representantes do pensamento de um segmento, de determinada época e região. Havendo hoje, abundância de literatura teológica, de diversas correntes de pensamento, oriundas de diversas regiões do planeta, que possibilita uma reflexão mais profunda sobre diferentes temas, não podemos ser inflexiveis e orgulhosos e rotular, pejorativamente, aqueles que estão abertos a revisar suas formas de perceber um tema, simplesmente por divergir daquilo que nos foi ensinado numa época em que a produção de textos e o acesso a eles eram precários.

A qualidade dos professores dos nossos seminários depende, primeiro, de sua capacidade crítica; segundo, da abertura que a instituição dá para acesso a fontes divergentes; terceiro, de sua disposição para pesquisar o máximo de fontes diferentes sobre um mesmo assunto; quarto, de sua coragem de não se posicionar politicamente apenas para agradar pessoas ou manter o status ou o emprego, em detrimento da verdade. Além disso, precisamos considerar que ainda engatinhamos em termos de pesquisa teológica no Brasil. Se fizermos um levantamento das dissertações de mestrado e teses de doutorado dos nossos mestres e doutores, talvez constatemos que poucos ousaram avançar além das fronteiras do pensamento dominante. É que o limite da verdade é o pensamento estabelecido pelos antepassados, de preferência do mesmo partido denominacional. Essa situação se agrava pela força política daqueles que creem que seminário é espaço para formação de técnicos em ministério, eternos reprodutores de um modo de pensar e enxergar as coisas, e não de ministros com sólida formação teológica.

Não existe nada mais cruel e ultrapassado, do ponto de vista metodológico, do que um professor de história encher a cabeça dos alunos com datas e exigir que, no dia da avaliação, eles comprovem que memorizou-as. Discutir os acontecimentos, destacando que alternativas existiam à época, que interesses estavam envolvidos e porque prevaleceu um ponto de vista e não o outro, por exemplo, é muito mais relevante, se o objetivo é aprender com o passado para construir novos tempos, em vez de fortalecer ideologias e alimentar imagens de “heróis”. O mesmo se pode dizer da teológia sistemática. Cruel é o seminário ou o professor que não possibilita, aos alunos, acesso a pensamentos divergentes, colocando-os honestamente em discussão, para construir, coletivamente, um caminho em direção à verdade. Se não fazemos isso em nome da preservação doutrinária, indicamos com nossa postura que a verdade que defendemos é frágil e não resiste ao menor confronto.

J. Reis Pereira ensinava errado? Se considerarmos as informações disponíveis à época, talvez não. Se considerarmos as informações disponíveis hoje, talvez sim. A questão, porém, não é essa. A chave da questão do certo ou errado é o acesso às informações disponíveis e os conhecimentos construídos à partir delas. Se não houver liberdade para veiculação de informações, nem interesse por reflitir crítica e construtivamente em torno delas, nossos ministros não passarão de meros reprodutores, meros copiadores da percepção de terceiros, portanto, extremamente bem preparados para copiar qualquer novidade do mercado religioso, inclusive aquelas que causam empobrecimento bíblico e conflitos desnecessários nas igrejas e denominação.

Nós diante da trindade (2003)

Através do Pr. Edvaldo Shamá*, tive acesso ao livro de Christrian A. Schwars, “Nós Diante da Trindade”, da Editora Evangélica Esperança (www.esperança-editora.com.br) e assisti as palestras que ele fez sobre o tema. Estou convencido de que as igrejas, especialmente seus pastores, deveriam estudar este texto de apenas 31 páginas.

O autor declara, inicialmente, não estar preocupado com abstrações, mas com a influência do assunto na vida prática da igreja. Começa esclarecendo que o que diferencia o cristianismo de todas as demais religiões é a fé num Deus que é pai, filho e Espírito Santo. Uma de suas primeiras teses diz que mais importante do que crer na trindade é crermos de modo trinitário. Isso significa crer num único Deus que se manifesta de três maneiras; que devemos nos relacionar, de maneira equilibrada, com essas três maneiras de Deus se manifestar; que se enfatizarmos uma das três pessoas da trindade (ou das três manifestações de Deus), cometeremos desvios que produzem prejuízos para nós, individualmente e nos relacionamentos interpessoais e institucionais.

Fazendo uso de gráficos coloridos, ele trabalha o mistério da trindade mostrando, respectivamente, Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, da seguinte maneira:
1. Três obras: Criação, Salvação e Santificação;
2. Três maneiras de ser: Deus sobre nós, Deus entre nós e Deus em nós;
3. Três maneiras de se dirigir a nós: Você deve, Você pode e Você consegue;
4. Três campos de realidade: Natureza, História e Existência;
5. Três alianças: Aliança com Noé, Aliança no Sinai e Aliança com a Abraão;
6. Três fontes de reconhecimento: Ciência, Bíblia e Experiência

A partir daí o autor esclarece que “na cristandade global, há três grandes grupos que, a princípio considerado de modo positivo, podem ser entendidos como defensores de uma das maneiras de Deus se revelar: os “liberais” advogam a revelação na criação, os “tradicionais” defendem a revelação da salvação, e os “carismáticos” representam a revelação pessoal”. Segundo o autor, os liberais destacam a dimensão política da fé cristã e são mais familiarizados com temas como sensualidade, arte, liturgia e ciências; os “tradicionais”, destacam a relação pessoal com Jesus e insistem na exigência de sua exclusividade absoluta; os “carismáticos” defendem a revelação pessoal e se importam com a experiência do real poder do Espírito Santo. Quando ocorre o isolamento de um dos três enfoques ou pior, quando um dos enfoques se volta contra outro, surgem problemas entre os grupos.

Quando nos colocamos nos extremos de um desses três grupos – liberais, tradicionais ou carismáticos – produzimos, respectivamente, três tipos comuns de heresia: sincretismo, dogmatismo ou espiritualismo. O primeiro tipo de heresia, do extremo liberal, é o de que não é preciso ser cristão; o segundo, do extremo tradicional, que as doutrinas acerca de Jesus são mais importantes do que a relação com Ele; o terceiro, do extremo carismático, que as experiências espirituais são consideradas mais importantes que a norma da Escritura Sagrada. Neste ponto, fazendo uso brilhante de gráficos, o autor nos convoca a uma avaliação pessoal a fim de que nos situemos em que posição nos encontramos em relação à Trindade.

A partir daí demonstra que “a igreja de Jesus Cristo consiste de dois pólos: instituição (pólo direito) e organismo (pólo esquerdo). Quando eles são separados, surgem heresias à direita e à esquerda”, que não vou citá-las para atiçar sua curiosidade pelo livro. Além disso, o autor apresenta os “efeitos dos diferentes modelos de pensamento sobre questões teológicas centrais” e mostra como, em vez de pensarmos de maneira bipolar – institucionalismo e espiritualismo – canalizamos, erroneamente, nossas energias na luta de uns contra os outros.

Finalmente, o autor apresenta cinco diretrizes para mudança de paradigmas, visando nos ajudar a parar de dividir Deus e começar a experimentá-lo de maneira trinitária, desenvolvendo os seguintes pontos: 1) Jamais tente mudar o modelo de pensamento dos outros; 2) Esforce-se para aprender do adversário; 3) Crie um ambiente em que mudanças ocorrem com mais facilidade; 4) Receba bem os conflitos de paradigmas; 5) Em vez de combater as heresias ativamente, reforce os respectivos pólos contrários.

Creio que o autor atinge seus propósitos de nos ajudar: 1) a determinar qual é a nossa posição espiritual diante da trindade; 2) a compreendermos melhor conflitos; 3) a desenvolver naturalmente a igreja e, 4) a desafiar-nos para mudanças de paradigmas. A leitura fez muito bem para minha vida. Talvez lhe faça bem!

· Pr. Edvaldo Shamá (edvaldo.shama@uol.com.br) é membro de nossa igreja e está apto, didática e teologicamente, para apresentar o assunto, utilizando de maneira adequada o powerpoint como ferramenta.

Meu amor pelo nordeste (2003)

Entrei no Nordeste pela porta de Maceió, em setembro de 1978, antes da passagem dos furacões Collor e PC Farias. A cidade era destaque nacional por suas lindas praias, as mais belas do país. Foi, entretanto, a visão cristã comprometida e inteligente da liderança da Juventude Batista Alagoana que me motivou a voltar àquela cidade, em setembro de 1983, como pastor da Igreja Batista do Pinheiro.

A experiência de pastorear em Maceió foi muito rica. O período era de efervescência política pelo final da ditadura militar. Enquanto parte significativa dos pastores apoiava o então governador Divaldo Suruagy, ex-aluno do Colégio Batista e alinhado aos militares, pelo menos cinco dos principais sindicatos do Estado eram presididos por jovens batistas, com destaque para Joaquim Brito.

Conheci Joaquim em fevereiro de 1978, no Congresso da Juventude Batista Brasileira, em Porto Alegre e ali iniciamos a aproximação. Daí surgiu uma amizade que produziu bons frutos. Entre 1980 e 1982, Joaquim, presidente da JUBAL e eu, Secretário da JUBAPE, atuaríamos juntos trabalhando pelo CON-NORDESTE.

Paralelamente à liderança denominacional, Joaquim se destacou como líder político chegando à presidência da CUT alagoana e, mais recentemente, como Deputado Federal pelo PT e Secretário de Estado em Alagoas. Curiosamente, tendo iniciado sua carreira profissional como estagiário da CEAL (Centrais Elétricas de Alagoas ?) em 1975, hoje é presidente da Empresa. Por isso, qualquer trabalho acadêmico sobre a atuação de batistas brasileiros na política que não considere a ação deste líder e da Juventude Batista Alagoana, precisa ser revisto. (O mesmo deve ser dito em relação à família do Pr. Israel Dourado Guerra, em Pernambuco). Foram pessoas como ele, comprometidas com um evangelho de ação e não somente de contemplação, inclusive as de posição ideológica diferente, que fortaleceram meu amor pelo Nordeste.

No Recife, cheguei em fevereiro de 1979. Depois de mais de dois dias dentro de um ônibus, desci na antiga Rodoviária do Cais de Santa Rita, ansioso por conhecer a Rua do Padre Inglês e o Seminário do Norte onde me graduaria e me especializaria em teologia, seria membro de sua Junta Administrativa e teria uma passagem rápida por seu magistério, devido a outras prioridades. (Além do STBNB, também construí mais alguns conhecimentos estudando na UFPE e ensinando no SEC). Como seminarista, trabalhei com os pastores José Deusarte, na Igreja Batista de Bairro Novo, em Olinda; Eli Fernandes, na Igreja Batista da Rua Imperial; Livingstone Cunha, na então JUNTIVA-PE e Amauri Munguba, na Igreja Batista do Cordeiro. Nas igrejas citadas me senti amado por muita gente, verdadeiros pais, mães, irmãos e amigos. Diga-se de passagem, o papel das famílias das igrejas na vida dos seminaristas deveria receber atenção dos seminários e até ser objeto de estudos.

Ao deixar São Paulo para viver no Nordeste, fiz o caminho inverso da história da migração brasileira. O último empurrão para que isso ocorresse foi dado por Wagner, em outubro de 1978, no então Instituto Bíblico Batista do Estado de São Paulo, em Bauru. Na ocasião, eu presidia o congresso do Departamento de Mocidade da Associação Centro e ele participava na condição de Presidente da Mocidade da Associação Vale do Paraíba. Ele planejava prestar vestibular de medicina no Estado da Paraíba e a idéia era trabalharmos juntos com juventude, no Nordeste. Esses planos não deram certo para ele e nunca mais nos vimos; para mim, entretanto, se concretizaram. Durante quase 25 anos exerci muitas funções denominacionais; cruzei o sertão de diversos Estados; estive em quase duas centenas de igrejas; falei em congressos e acampamentos de adolescentes, jovens, pastores, famílias...; batizei centenas de pessoas, aconselhei, fui aconselhado... e meu amor pelo Nordeste se tornou realidade.

Meu amor pelo Nordeste se tornou realidade porque não foquei a visão na sua propalada condição de relativa pobreza; porque aprendi, a tempo, a não fazer das estruturas denominacionais ou do status e prestígio que elas efemeramente conferem, meu propósito ministerial; porque descobri, a tempo, que as pessoas, os relacionamentos, deveriam ser priorizados, pois as funções exercidas ficam esquecidas nas páginas dos livros de atas ou de relatórios, mas as pessoas que amamos nos carregam consigo, num testemunho vivo, ambulante, daquilo que dá sentido à existência humana, verdadeiro combustível da vida: o amor.

Fundamentação e fundamentalismo (I) (2002)d

A construção de fundamentação teórica para nossas crenças e ações é uma necessidade incontestável. Se assim não fosse, não haveria necessidade, no meio científico, do uso de metodologia científica no desenvolvimento de projetos de pesquisa. O que se busca através da metodologia científica é a construção de fundamentos sólidos para sustentar a tese defendida.

Os fundamentos teóricos são tão importantes na construção do conhecimento que nos cursos de graduação, por exemplo, estuda-se os fundamentos filosóficos, sociológicos, psicológicos etc., da área de estudo em que se pretende graduar. Até mesmo nos estudos da religião, os fundamentos são construídos não somente em bases teológicas mas também à luz das diversas áreas do conhecimento. Exs.: filosofia da religião, psicologia da religião, sociologia da religião...

As doutrinas são a coluna vertebral de uma igreja, por isso, devem ser solidamente fundamentadas. E o fundamento sólido para as igrejas Protestantes são as Escrituras Sagradas. As Escrituras são o crisol em que o que se afirma ou se faz é provado. A autoridade das Escrituras devem Ter supremacia sobre a autoridade dos Concílios, já defendia Lutero. (Diga-se de passagem, Lutero não era contra a autoridade dos Concílios da Igreja Católica; era contra sua pretensa superioridade em relação às Escrituras). O problema é que, se nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação (II Pd 1.20), mesmo se estabelecendo as Escrituras como regra de fé e prática, sempre haverá necessidade de algum tipo de concílio para debater e bater o martelo, definindo qual interpretação de determinado assunto deve ser tida como verdadeira. E se a decisão é da coletividade, o processo de definição do verdadeiro, neste caso, é político, isto é, prevalece a compreensão da maioria. Entretanto, se a maioria nem sempre é detentora da verdade, começa a surgir aí uma primeira luz de diferença entre fundamento e fundamentalismo. É que a maioria vencedora nem sempre é humilde para admitir que a verdade estabelecida por critérios políticos - a vontade ou compreensão da maioria – conquanto mereça ser respeitada em seu grupo, jamais deve ser posta como absoluta para todos. A absolutização da verdade defendida por um grupo e o desrespeito ao direito do outro, mesmo minoria, de pensar diferente é uma postura fundamentalista.

Toda fundamentação parte de um pressuposto teórico e em todo pressuposto teórico há um ato de fé, mesmo que não envolva questões religiosas. “A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem” (Heb. 11.1). Pressupostos são afirmações que servem de ponto de partida para a construção de uma teoria ou fundamentação de uma prática. Se é pressuposto teórico não pode ser lei, portanto, não pode ser absoluto. A afirmação teológica, por exemplo, de que a Bíblia é a Palavra de Deus, é um pressuposto teórico que abraçamos pela fé. Pode ser absoluto para minha vida, por uma razão de fé, mas não posso impor que assim seja para a vida dos outros, especialmente considerando que nem mesmo os textos bíblicos se afirmam explicitamente como tal. Por mais malabarismos que se tenha feito ao longo da história, até aqui não se tem conseguido provar, através de metodologias científicas, a veracidade desse pressuposto. Tanto isso é verdade que entre os que se aprofundam no tema há profundos debates, havendo quem defenda que a Bíblia é a Palavra de Deus, quem defenda que ela contém e os que defendem que ela se torna. E em todas as três correntes encontramos pessoas piedosas, tementes a Deus e comprometidas com seu Reino.
O fato de não haver prova científica desse pressuposto não tira a autoridade espiritual ou normativa da Bíblia para a vida da Igreja; porém, deve ser um motivo a mais para respeitarmos o direito que as pessoas têm de se submeterem ou não à essa autoridade. Crer ou não crer na Bíblia como a Palavra de Deus não é uma questão de Ter mais ou menos fé mas de compreender a história de sua formação por ângulo diferente. Deve, portanto, prevalecer o princípio bíblico defendido pelos batistas, rejeitado pelos fundamentalistas, da liberdade de crença.

O respeito a liberdade de consciência defendida pelos batistas deveria ser profundamente estudado a fim de que compreendêssemos que não é possível ser batista e fundamentalista.

Fundamentação e fundamentalismo (II) (2003)

Na primeira parte deste artigo tentei esclarecer que a boa fundamentação das teses que abraçamos é uma postura exigida em todos os círculos de construção do conhecimento, não devendo ser diferente na formulação de pensamentos ou doutrinas bíblico-cristãs. Defendi que o que diferencia fundamentalismo dos que buscam fundamentação sólida para seus argumentos é a postura frente às proposições conceituais. Fundamentalistas absolutizam – idolatram – a tal ponto suas definições doutrinárias que são incapazes de aceitar a existência de posicionamentos divergentes, sem combater ferozmente, tanto tais conceitos quanto aqueles que os formulam.

De acordo com Rubem Alves, o fundamentalismo protestante teria surgido da necessidade de se contestar a crença de que somente a Igreja Católica seria verdadeira por estar ligada, por uma linha histórica, até as igrejas apostólicas. Segundo ele, a produção de Confissões de Fé foi a forma encontrada para provar que o vínculo das igrejas evangélicas com as igrejas apostólicas seria seus compromissos com a essência da fé descrita nos textos bíblicos. Tal busca pela essência teria virado uma obsessão, surgindo, então, a idéia da reta doutrina e fé (ortodoxia) e da adesão doutrinária como necessária à salvação, fato que, na prática, torna a fé na graça de Deus insuficiente. Daí a necessidade que o mundo fundamentalista tem de ser fixo, estável, dominado por idéias e não por sentimentos. (Dogmatismo e Tolerância, Edições Paulinas)

Enquanto fundamentação é uma expressão de natureza epistemológica, fundamentalismo é um termo de natureza predominantemente política, com significado amplo e profundo, passível de aplicação a todos os campos, cujos adeptos se sentem os únicos portadores da ‘única verdade’ conceitual existente. Podemos encontrar fundamentalistas na religião, nas artes, na literatura, na economia, na política, na educação e assim por diante. Por isso, seria reducionismo classificar alguém como fundamentalista simplesmente porque crê num Deus que se revela como criador ou como salvador, em Jesus ou como consolador, no Espírito Santo; ou porque fundamenta suas doutrinas de fé à partir da Bíblia ou adota posições conservadoras. Arrisco dizer, inclusive, que muitos daqueles que são membros de igrejas cuja razão social inclui o termo fundamentalista, não são, a rigor, fundamentalistas pois o que querem, de fato, é viver em paz com Deus e com seus semelhantes e não agir como políticos da religião ou como fanáticos por disputas doutrinárias. Seria injusto se não arriscasse dizer que alguns que se apresentam como progressistas, liberais ou modernos também podem apresentar traços fundamentalistas.

Fundamentalismo é, acima de tudo, uma postura política permanentemente extremista, radical. Para fazer prevalecer seus pontos-de-vista, seus seguidores são capazes não só de denegrir a imagem dos que pensam diferente, matando-os socialmente (inclusive para a vida denominacional), mas também de caçá-los como bruxas para lançá-los, física e espiritualmente no “mármore do inferno”. Para eles, os que tentam compreender a realidade usando lentes diferentes das suas são a própria encarnação do demônio. Nisso a história comprova que os Protestantes Fundamentalistas conseguiram se igualar aos Católicos Medievais.

Enquanto buscar fundamentação para teses é uma postura desejável e necessária, a postura fundamentalista é nociva pois, como escreveu Paul Tillich, ela “eleva algo finito e transitório a uma validez infinita e eterna. Neste sentido o fundamentalismo tem traços demoníacos. Ele destrói a humilde honestidade da busca pela verdade, divide a consciência de seus seguidores que refletem e os torna fanáticos. Isto porque são forçados a suprimir elementos da verdade dos quais eles estão veladamente conscientes” (Teologia Sistemática, Editora Sinodal). Por isso temos alertado dos perigos que o fundamentalismo representa.

Seria, o fundamentalismo, fruto de insegurança emocional? De necessidade psicológica de poder, de dominação? De infantilidade espiritual? Seria manifestação de orgulho inveterado? De oportunismo político? De ignorância intelectual? A resposta a essas questões exigem aprofundamento e conhecimentos específicos. Por isso, deixo-as no ar.

Fundamentação e fundamentalismo (III) (2002)

Não podemos pensar em fundamentação e fundamentalismo sem pensar no papel dos seminários teológicos. Os seminários são espaços educacionais criados pela denominação principalmente para preparar, com fundamentação consistente, os futuros pastores das igrejas. Este, certamente, não é o papel defendido por todos para os seminários, mas é o papel que tem prevalecido ao longo dos anos. Ainda que hoje já exista, em alguns seminários, espaço para “leigos” que apenas querem maior fundamentação para o exercício ministerial (não pastoral), os seminários continuam sendo vistos, prioritariamente, como espaço de preparação de pastores.

Os pastores, por suas atribuições e pela natureza de sua função, são os descortinadores dos caminhos que as igrejas trilham. Considerando que os seminários preparam os pastores, é natural que o pensamento dominante nos seminários predomine também nas igrejas e denominação, exceto quando pastores negam ou camuflam seus pensamentos por diversos motivos, inclusive por necessidade de sobrevivência econômica. Por isso, para fazer prevalecer sua linha de pensamento - “a única verdadeira” - na vida denominacional, dois caminhos foram percorridos por fundamentalistas em relação aos seminários: tentar colocar, na direção, pessoas alinhadas ou submissas a seus pensamentos, ou criar novos seminários dirigidos por pessoas alinhadas ou submissas ao pensamento de seus criadores.

Especialmente à partir da década de setenta vimos as duas coisas acontecerem. Vimos uma disputa se estabelecer nos bastidores denominacionais pelo domínio das reitorias seminariais com mudança de reitores, boicotes de nomes e derrubada de professores. Vimos também a criação de seminários tanto por convenções estaduais, quanto por associações de igrejas e até mesmo por igrejas isoladamente, boa parte sem bibliotecas ou estruturas físicas adequadas e com professores cuja maior virtude era a lealdade ao pensamento dos criadores de tais seminários.

Nem todos os novos seminários foram criados por esse motivo. Alguns foram criados por questões de visão estratégica, por exemplo, visando evitar que alunos fossem para cidades maiores ou regiões mais desenvolvidas e não voltassem mais para seus campos de origem; outros, como meio de massagear egos de pastores narcisistas ou frustrados por não terem tido espaço no magistério dos seminários existentes. Porém, parcela significativa surgiu com a finalidade de patrulhar e uniformizar o pensamento, prática característica do mundo fundamentalista. Assim, seminários que outrora tinham por objetivo dar fundamentação sólida ao ministério, passaram a ser vistos e usados como instrumento de sustentação do imperialismo fundamentalista.

Não existe educação neutra. (Agentes de instituições educacionais precisam responder com clareza o “para que” , a finalidade, da educação praticada na instituição da qual participam). Porém, podemos escolher o caminho de uma educação democrática, com espaço e orientação para o exercício responsável, criativo e construtivo da liberdade de pensamento ou o de uma educação autoritária, caracterizada pela manipulação, patrulhamento, castração e terrorismo ideológico. Os que escolhem o segundo, são fundamentalistas.

Os seminários da Convenção Batista Brasileira são predominantemente conservadores, porém não são fundamentalistas uma vez que, além de ensinarem aos alunos a interpretarem a Bíblia usando como ferramentas conhecimentos paralelos, não os impedem de acessarem à diversidade de pensamentos teológicos existentes, mesmo àqueles que contrariam nossas crenças. Essa postura, ora possibilita o fortalecimento de crenças estabelecidas, ora a revisão das mesmas. Já os seminários fundamentalistas difamam autores e editoras que não fazem parte de sua denominação, usam da coação psicológica para impedir que seus alunos se interessem por tais livros e, por crerem na inspiração verbal das Escrituras (espécie de psicografia) insistem na interpretação literal de seus textos.

Uma denominação que pretende ser relevante, a serviço de igrejas que pretendem ser contextualizadas, precisa investir em educação teológica de qualidade; precisa estimular a pesquisa teológica, afirmando, com coerência, o que merece ser afirmado ou mudando, com coragem, aquilo que merece ser mudado. Jamais, porém, deve permitir que o obscurantismo, o uso de “viseira”, sirva de paradigma ou, muito menos, que fundamentalismo seja confundido com fundamentação.

Fundamentação e fundamentalismo (Considerações finais) (2003)

Meu objetivo ao tecer comentários sobre o tema em epígrafe foi oferecer argumentos para esclarecer que o fato de não sermos fundamentalistas não significa que não tenhamos fundamento na fé que abraçamos ou nas doutrinas que defendemos. Tentei esclarecer que, por mais bem fundamentadas que sejam nossas doutrinas, devemos ser humildes para reconhecer que não devemos considerar nossas definições absolutas; antes, devemos estar sempre abertos ao diálogo, especialmente com aqueles que não crêem como nós cremos.

Estou convencido de que para construir a paz não precisamos abrir mão de nossas convicções nem impô-las aos outros. Basta admitir que somos diferentes e que o Deus que se revela como Espírito Santo sopra onde quer, não é propriedade particular de uma denominação ou religião, é o principal interessado na salvação humana, trabalha nos corações humanos convencendo-os da verdade , da justiça e do juízo. Portanto, convencimento não se estabelece com legalismo, nem com caça às bruxas, mas com oração e manifestação de amor. O próprio Paulo, outrora fundamentalista a ponto de perseguir cristãos para prendê-los, ensina aos de Éfeso a “seguirem a verdade em amor” (Efésios ), cada um respeitando o outro e tendo firmeza em suas próprias convicções (Rom. 14)

Nem mesmo a tolerância, postura aparentemente democrática, é a mais adequada para quem não deseja ser fundamentalista. Tolerância indica que somos donos da verdade mas, por “bondade”, permitimos a presença de pensamentos divergentes. Não, na verdade pensar diferente não somente é uma direito inalienável de qualquer indivíduo, mas também uma condição natural de qualquer pessoa no processo de construção do conhecimento.

Pessoas em estágios diferentes de construção do conhecimento pensam de maneira diferente. Por isso é natural encontrarmos pessoas que outrora demonstraram fortes traços de fundamentalismo adotarem posturas mais flexiveis em outros momentos da vida. Todos nós, em algum momento da existência, tivemos nossas posturas fundamentalistas. Lembro-me de quando cursava o primeiro ano colegial. A professora de história contou-nos uma versão da história da igreja diante do que, afoito, manifestei meu protesto. Bondosamente ela permitiu que na aula seguinte eu fizesse uma exposição da história do ponto de vista batista. Com muito orgulho apresentei O RASTRO DE SANGUE e dei meu recado. Quando comecei a estudar História do Cristianismo e História dos Batistas descobri que aquela era uma versão sem fundamentos sólidos. Abandonei-a convictamente!!!

Talvez o principal problema do fundamentalismo teológico seja não admitir que a Bíblia deva ser interpretada e não, simplesmente, ser aplicada ao pé da letra. O texto que segue, em que pese certa irreverência ou ironia, ilustra bem o problema do literalismo:

(Texto de aluno de teologia sobre homossexualismo)

O mais grave é que tal critério de interpretação – o literal – não é usado para todos textos. Geralmente é usado para aqueles ligados a moral do corpo. Conhecimentos científicos são usados quando confirmam suas teses; quando as contrariam, são rejeitados como demoníacos.

Acima de tudo devemos analisar não a superfície de nossas crenças e doutrinas, mas os pressupostos que fundamentam tais crenças e doutrinas.

Seria aconselhável participar do carnaval? (2002)

Gostaria de desvincular a participação no carnaval da idéia de certo ou errado e associá-la à idéia de bom ou ruim, de saudável ou doentio. Isso porque pecado, antes de ser a quebra de normas socialmente estabelecidas, é o erro em relação ao propósito de Deus para a vida. Deus nos criou para que vivamos de maneira saudável, agradável, boa. Qualquer ato, atitude ou palavra que prejudica, desvaloriza, desqualifica a vida, pode ser compreendido como pecado.

O carnaval é um evento desaconselhável porque, na prática, é nocivo à vida, ainda que seus organizadores digam o contrário. Por terem interesses políticos e comerciais, jamais mostram o outro lado do evento. Sendo a meta, engordar suas contas bancárias ou aumentar seu eleitorado, os malefícios do evento ficam em segundo plano.

O carnaval é um evento desaconselhável por aquilo que valoriza. O que valorizamos, como pessoas comprometidas com Jesus, não é a mesma coisa que o evento valoriza. Por exemplo: um dos apetrechos mais vendidos no carnaval se chama MORTALHA. O dicionário Aurélio diz que mortalha, "do latim mortualia, ' veste de luto', é uma "vestidura em que se envolve o cadáver que vai ser sepultado". Sua ideologia, portanto, é de morte e não de vida.

Essa ideologia se torna real pelo acentuado uso de álcool, a droga que mais mata no Brasil; pela disseminação de outros tipos de drogas de efeitos nocivos imediatos; pelo conseqüente descontrole das faculdades racionais, produzido por essas drogas que, além de prejudicar seus usuários, coloca em risco a integridade daqueles que estão ao seu redor; pela conseqüente banalização do corpo humano, tratado como simples objeto descartável de prazer, exposto à prostituição.

Desaconselhável, portanto, não é o ajuntamento social em busca do divertimento, do lazer, da descontração e da construção de novos relacionamentos. Desaconselháveis são: a ideologia do evento, as práticas que ali predominam e a falta de escrúpulo dos organizadores, para quem os fins justificam os meios.

Encontramos, no carnaval, pessoas bem intencionadas que não se alcoolizam, não usam drogas, nem se prostituem. Nem isso, porém, faz dele um bom ambiente para pessoas comprometidas com valores espirituais, cujo propósito é a alegria, a amizade e o respeito à vida. Quem não teve uma experiência com Jesus, como Senhor e Salvador, não pode pensar como pensamos porque os valores que regem suas vidas não são os mesmos que regem as nossas.

Por isso, ao escrever esta reflexão, o propósito não é condenar ninguém, nem colocar uma viseira no rosto de quem quer que seja. Somos livres para fazer escolhas e responsáveis por suas conseqüências. O propósito é apresentar referenciais compatíveis com os valores do Reino de Deus, de tal forma que, aqueles que já se decidiram por colocar o Reino de Deus como valor máximo de suas vidas, mas estão em dúvida, se posicionem. No mais, como nos disse Paulo, "seja a paz de Cristo, o árbitro em vossos corações..." (Col. 3.15)

O paletó e o decoro parlamentar (2002)

Durante a realização da Copa do Mundo de Futebol, o Senador Eduardo Suplici tirou seu paletó, enquanto se pronunciava na tribuna do Congresso e estampou, com orgulho, a camisa da Seleção Brasileira. Esse ato foi amplamente divulgado e o curioso é que falou-se na possibilidade de cassação de mandato por falta de decoro parlamentar. Segundo o Aurélio, decoro é "correção moral, compostura, decência, dignidade, nobreza, honradez, brio...". Se decoro é isso, por que o ato do Senador poderia ser considerado falta de decoro? Seria porque o uso do paletó é obrigatório naquela casa e, portanto, tirá-lo significou desobediência?

O paletó, do francês paletot, surgiu no início do século XIX mas foi a partir do início do século XX que ganhou o formato dominante em nosso dias e passou a ser classificado, em nossa cultura, como a vestimenta mais adequada para ocasiões formais. Até aí nenhum problema, pois o uso de vestimentas pelos seres humanos não ocorre somente para proteger nossos frágeis corpos do frio, do calor, do sol, da chuva, do vento, do tempo, enfim. Moisés, por exemplo, em sua narrativa da criação, justifica o uso de roupas por razões morais(Gen. 3.11,21) e, posteriormente, pelas mesmas razões, as utiliza para diferenciar homens de mulheres(DT. 22.5). As roupas, portanto, podem ser usadas, dentre outros, para desestimular ou estimular a sensualidade; para diferenciar gênero, profissão e funções sociais; para compensar baixa auto-estima; para esconder o que não gostamos em nossos corpos; para simbolizar poder e prestígio ou, simplesmente, para possibilitar inserção em determinados grupos ou segmentos sociais. Isso tanto é verdade que o presidenciável Lula, por exemplo, passou a usar paletó para ser aceito pelas elites, enquanto José Serra tirou-o, para conquistar as camadas mais populares. É o paletó sendo usado simbolicamente. A pessoa parece, mas não é!

Curioso, entretanto, é associar o uso do paletó ao decoro. Curioso porque decisões político-econômicas indecorosas que causam profundos prejuízos à maioria das populações são tomadas justamente por homens de paletó. Tais decisões não nos chocam como os seqüestros, os estupros ou assaltos seguidos de morte porque seus efeitos, conquanto danosos, só podem ser mensurados posteriormente, através de estatísticas, sem qualquer influência no "ibope" das empresas de comunicação. Escândalos financeiros que envolvem milhões, são praticados por homens que vivem escondidos dentro de um paletó. Dentro de um paletó parcela significativa dos representantes políticos se agridem verbalmente, se locupletam com a miséria alheia, se beneficiam da máquina, do poder e do dinheiro público e são reverenciados pelo status concedido por nós, através do voto, status reforçado pela aparência de formalidade e integridade de seus decorosos ( ou decorativos? ) paletós.

Se a cultura diz que esse é o traje da respeitabilidade porque não tirar proveito desse equívoco cultural do século passado? Se o essencial na política - o respeito ao cidadão - tem sido invisível aos olhos, nada melhor do que um belo paletó para disfarçar! E, se além disso, ainda se pode rechear o contracheque com um bom e, esse sim, indecoroso "auxílio paletó", melhor ainda! Assim raciocina boa parte dos homens que agora estão correndo atrás do seu e do meu voto.

Estamos em período eleitoral. Prestemos atenção aos paletós, pois dentro deles estarão aqueles que, legalmente, vão decidir os rumos do país nos próximos anos. Tiremos os paletós deles agora para enxergar um pouco melhor suas almas e, quem sabe, melhorar a qualidade dos nossos representantes.

Obs. Um dia, talvez, escreverei o que penso do uso de paletó por nós pastores.

Escolas teológicas e o preparo ministerial (2002)

Foi-se o tempo em que decidir onde preparar-se para o exercício ministerial era tarefa fácil. As opções de graduação eram poucas e, geralmente, a escolha era feita pelo critério geográfico, entre um dos poucos seminários ligados à Convenção Batista Brasileira. Salvo poucas exceções, os candidatos optavam por estudar no seminário mais próximo de suas residências, geralmente por indicação do seu pastor.

Hoje, uma infinidade de escolas teológicas estão competindo, na maioria dos casos com ética, mas cada vez mais agressivamente, tentando seduzir os interessados através das mais variadas estratégias de marketing, passando informações que julgam relevantes para agregar valor à sua marca.

Neste período do ano, as propagandas aumentam, uma vez que muitos estão em processo de decisão quanto à melhor opção para seu preparo ministerial. Decidir aspectos financeiros ou geográficos é fácil. Quantos, porém, estão habilitados a decidir tomando por base a filosofia de ensino adotada, a linha teológica predominante ou a qualidade de ensino da instituição? Quantos sabem o que significa ensino teológico de qualidade? Quantos sabem que qualidade de ensino é influenciada por um conjunto de fatores tais como: formação acadêmica e experiência do quadro docente; estrutura física dos ambientes de estudo; estabilidade política entre os agentes envolvidos; organização administrativa; quantidade e qualidade de livros disponíveis na biblioteca; visão geral e interação que os dirigentes mantém com a sociedade; nível de informação que os alunos trazem consigo para a sala de aula e clareza, da parte dos mestres, do objetivo do conteúdo ministrado e sua correlação com a finalidade do Curso? Poucos se preocupam com isso até porque a maioria dos candidatos é adolescente de nível escolar médio, geralmente imersos numa mistura de crise existencial e um grau significativo de misticismo relacionado à "vontade de Deus". E, nesse caso, a emoção fala mais alto do que a razão pois, mesmo entre adultos, são poucos os que conseguem conciliar razão e "vontade de Deus".

Alguns pastores orientam os candidatos a procurarem um seminário em que se estude mais a Bíblia do que SOBRE a Bíblia. Para se estudar devocionalmente a Bíblia não há necessidade de se matricular num curso superior de teologia. Quem quer se preparar para o ministério precisa conhecer a Bíblia mas, mais do que isso, conhecer muito SOBRE a Bíblia. A ignorância SOBRE a Bíblia, ainda que se domine as línguas originais, se saiba de cor a seqüência de seus livros, nomes de personagens, localização de assuntos e se tenha em memória centenas de seus versículos, tem sido uma das principais causas de baixa qualidade ministerial e, sobretudo, do fundamentalismo sectário (perdoem-me a redundância) presente inclusive em nosso meio. Os defensores de seminários mais devocionais e menos teológicos não percebem que, por essa postura, muitos pastores têm sido facilmente manipulados e arrastados por qualquer brisa doutrinária. Nem mesmo a constatação de que boa parte dos que se aprofundam em teologia se tornam acanhados na manifestação da piedade cristã, justifica tal desvalorização do aprofundamento histórico-teológico da Bíblia.

Fazendo uma avaliação com Dr. David Mein, em 1983, sobre minha passagem pelo seminário, lembro-me de trocarmos idéias sobre o conflito que vivi entre priorizar o estudo no seminário ou o trabalho nas igrejas em que atuei como seminarista. Até hoje não sei se a prioridade adotada foi a melhor. Porém, no exercício pastoral há 19 anos, percebo com clareza a importância de se conhecer melhor, por exemplo, a história do cristianismo, a formação do cânon bíblico ou a hermenêutica bíblica.

Creio que não conseguimos dialogar com certos segmentos da sociedade, nem conviver com diferença de pensamentos em níveis civilizados, porque somos ótimos na citação de textos bíblicos e péssimos no discernimento de seus significados no contexto em que foram escritos. Pela multiplicação de escolas formadoras de técnicos em teologia que não estimulam ou até impedem os alunos de acessarem à diversidade de pensamentos e pensadores, a construção do conhecimento é sufocada pela simples, opressora e escravizante reprodução. Por isso, por despreparo, nos tornamos incapazes de rechaçar o que deve ser rechaçado, de reafirmar o que deve ser reafirmado e prisioneiros daqueles que dominam politicamente as estruturas e o pensamento eclesiásticos.

Não sou professor de seminário, nem exerço função relevante na estrutura denominacional; sou um militante da possibilidade de uma nova vida em Cristo e de valores que creio serem do Reino de Deus, atuando à frente de uma igreja local. Porém, cada vez que alguém manifesta desejo de preparar-se para o ministério, ressalto o privilégio que tive de estudar numa escola teológica cuja maioria de seus professores levavam a sério o princípio batista de liberdade de consciência, possibilitando ou estimulando-nos a conhecer a variedade de pensamentos, garantido-nos o direito inerente de busca da verdade e de construção do próprio conhecimento. Numa escola cujo reitor defendia que "a biblioteca são os pulmões do seminário"

Olhos de jardineiro (2001)

O Dia da Árvore de setembro de 1968 está gravado em minha memória. Nele aconteceu uma cerimônia no Colégio e uma árvore foi plantada. Mais do que uma árvore, naquele evento foi plantado oficialmente, em meu coração, um profundo amor e respeito pela natureza.

Já perdi as contas de quantas árvores ajudei a plantar. As mais antigas da calçada da Emanuel, foram plantadas no meu primeiro período de pastorado, em parceria com um vizinho, o Dr. Luiz de França, um dentista católico; as mais novas e os jardins, neste segundo período. Pelo menos 70% das atuais árvores do Colégio Americano Batista foram plantadas em minha gestão. Comprei pessoalmente parte delas e acompanhei a plantação.

Da infância, portanto, vem meu amor às plantas. Cultivávamos um jardim no quintal de casa. Era pouco ordenado e muito diversificado. Havia rosas, copos-de-leite, beijos, meios-dias, espirradeiras, margaridas, cravos, lírios, papoulas, sambambaias... Imaginem a "salada"! Não era planejado como a maioria dos que conhecemos nos elegantes edifícios de Boa Viagem. Mais do que pela estética paisagística, o cultivo se dava pelo amor às plantas. Não por acaso, portanto, uma das minhas músicas preferidas é "As Rosas não falam", de Cartola.

Diariamente molhávamos as plantas. E ao molhar, fazíamos pequenas intervenções visando seu desenvolvimento. Isso influenciou a construção da minha filosofia de vida, tanto em relação ao meio ambiente, quanto à maneira como encaro tudo o que faço. Aprendi que o desenvolvimento das coisas obedecem processos as vezes demorados; que precisamos semear, cuidar, proteger; que nem sempre seremos beneficiários diretos do que plantamos; que precisamos ser zelosos, pacientes...

Como pastor, não sonho construir patrimônios luxuosos, nem apresentar resultados estatísticos "evangelásticos". Não sonho com igreja famosa, com prestígio e poder. Sonho com uma igreja que ama o ser humano em todas as suas dimensões e se envolve em projetos que tornam este amor visível. Sonho com uma igreja que compartilha generosa e solidariamente o que é e o que tem. Sonho com uma igreja que não espera alguém fazer o que deve ser feito, mas que toma a frente e faz. Sonho com uma igreja envolvida em atividades espirituais como a arborização de Boa Viagem ou a preservação do meio ambiente pois, por emanar de Deus, a vida toda é espiritual. (Quantos estão conscientes de que estamos a duzentos metros da maior área de mangue urbano do Brasil, que resiste ferozmente aos ataques especulativos das construtoras e dos que querem multiplicar, a qualquer custo, seu capital?).

Tudo o que faço é para aproximar a igreja desses sonhos. Por isso me alegro com pequenos sinais de movimento em direção a eles. Talvez por isso noticio com tanta alegria "acontecimentos insignificantes", como uma porta, uma janela, um aparelho de ar condicionado, um tijolo ou uma pedra de cerâmica que conseguimos colocar a cada semana nas salas em que nossas crianças - as economicamente privilegiadas e as empobrecidas - estão sendo educadas. Não porque me alegre com pouco, mas porque olho com olhos de jardineiro.

As vezes a impaciência invade. É que as condições econômicas que aparentamos - casa, carro, roupas, lugares que freqüentamos - é incompatível com a nossa contribuição financeira para a causa. E quando me impaciento, recordo-me do falecido Pr. Luiz de Assis, meu primeiro conselheiro ministerial. Tínhamos um pacto: sempre que eu fugisse da regra oficial da língua portuguesa, ele me corrigiria. Ele fazia isso através de bilhetes. Um dia, depois de revelar minha impaciência com a lentidão dos resultados, numa pregação que fiz à Igreja Batista do Pinheiro, ele escreveu-me o seguinte: "Edvar, coentro nasce em semanas; carvalho, leva décadas. O que você está plantando?". Ao corrigir "minha língua", seu bilhete trouxe paz ao meu espírito. Devolveu-me olhos de jardineiro.

Sexualidade, a terceira alternativa (2001)

“A liberação não é a única, nem a melhor alternativa à repressão”.
(Examinai tudo, OJB, nº 29 de 16 a 22 de julho de 2001 )


São raras as pessoas que tratam com desenvoltura o tema sexualidade e eu não sou uma delas. Sou de uma geração que pouco ouvia sobre o assunto, exceto para se inculcar como pecado o simples "pensar naquilo". E do pouco que se ouvia, o discurso era que as inclinações da carne - entendidas, para boa parte dos pastores, como sinônimo exclusivo de desejos sexuais - eram pecaminosas.

Mas não podemos tapar o sol com a peneira. Basta olhar para o passado para constatar que a forma como o assunto foi tratado ao longo da história não foi eficaz em seus propósitos. A quantidade de casamentos desfeitos, de casais infelizes e de crentes, inclusive pastores e esposas, com neuroses oriundas da maneira como lidam com a sua sexualidade é incalculável e persistem a despeito dos nossos discursos romanticamente moralistas. Isso sem contar os efeitos nocivos que alguns deslizes sexuais provocam na vida de terceiros e da sociedade. Exemplos? as preocupações mundiais que o batista Bill Clinton, ex-presidente da mais rica potência do planeta, provocou com suas aventuras sexuais na Casablanca ou os prejuízos que as aventuras sexuais do pastor fulano de tal (você certamente tem pelo menos um nome em mente para substituir o “fulano de tal”!) trouxeram à família, à igreja e à denominação que servia com tanta sinceridade e dedicação.

A repressão ao desejo tem sido o caminho mais indicado nas poucas vezes em que o assunto é tratado, sendo a demonização do sexo, sua expressão maior. Para alguns, o desejo sexual deve ser encarado como de origem demoníaca e, por isso, deve ser exorcizado com jejum e oração. Em vez de encararem os sentimentos sexuais como inerentes à constituição bio-psíquica humana para, a partir daí, canalizá-los construtivamente, bloqueia-se o canal do diálogo, mais por insegurança emocional do que cognitiva. O alerta para os perigos do sexo é tão extremista que, mesmo sabendo tratar-se de obra divina, o melhor é ficar bem longe dele. Reprimir sexualmente parece ser o caminho mais curto quando o pregador quer jogar o ouvinte na lama da culpa para depois convocá-lo a uma mudança, geralmente ineficaz, por mais sincero que seja o "Arrependido".

Em posição oposta estão os que defendem a liberação. Existem em minoria e poucos mostram a cara por, digamos, conveniência política. Para estes, a necessidade sexual deve ser encarada da mesma forma como a necessidade de beber água. Se você está a fim, basta encontrar alguém que satisfaça suas necessidades e pronto. É só não esquecer a camisinha. Mas as coisas não são tão simples assim. Sexo não é água, nem corpos, copos descartáveis. Pessoas sentem, pensam, se apegam, se amam, reagem e interagem; têm passado, presente e futuro; têm história; têm família, amigos e colegas; sonham em ser amadas, detestam ser usadas. Além disso, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada causam transtornos e mudam o rumo da vida dos envolvidos e dos que os cercam.

Se a repressão e a liberação são igualmente prejudiciais, qual seria a terceira alternativa? A alternativa é abrir-se ao diálogo franco e conscientizador, começando na própria família. Abrir-se ao diálogo é procurar sentir e entender os dilemas do interlocutor; é admitir, honestamente, que todos estamos sujeitos a enfrentar situações cuja dificuldade de lidar com a sexualidade é real; é não apresentar-se com um anjo que, por ser assexuado, não enfrenta dificuldades na área; é não Ter medo de admitir as próprias fragilidades. Para nós pastores, essa é uma alternativa indecorosa, afinal, não pecamos nem estamos sujeitos a conflitos no campo da sexualidade... Isso é problema de adolescentes, jovens e uma meia dúzia de adultos mal resolvidos...

Esta na hora de revermos nossas posições, de pararmos de ditar normas, como se fôssemos deuses, para dialogar, para ouvir e se deixar ouvir sem um púlpito e uma gravata entre nós e o povo. Está na hora de reavaliarmos algumas questões. Por exemplo: a eficácia da repressão ou da liberação sexual a partir de dados; a função sexual, em termos de reprodução, intercâmbio de afeto e de prazer; a questão cultural e sua influência no trato do assunto; o uso da Bíblia como ponto de partida para uma orientação saudável e não ferramenta de manutenção de costumes sociais oriundos de contextos diferentes ou ponto de chegada fundamentalista; a avaliação crítica do pensamento daqueles que fazem da sexualidade seu nicho de atuação ministerial em face de interesses e motivações questionáveis; o convencimento de que conversar abertamente sobre sentimentos sexuais é tão saudável e necessário para os casais quanto a própria pratica sexual; o interesse dos pais pelo desenvolvimento sexual de seus filhos especialmente quando em fase de namoro, muito mais com ajudadores do que como legisladores ou juizes; o mito de que casar-se é solução para todos os casos de abrasamento sexual e que pessoas casadas estão livres de se sentirem atraídas por terceiros; o mito de que o conhecimento acadêmico do assunto torna a pessoa mais preparada para lidar com a sexualidade, desconsiderando as emoções, a matriz da personalidade e sua história de vida; o papel do afeto nos relacionamentos familiares e na construção de uma sexualidade saudável.

Está na hora de abandonarmos o simplismo, de sermos mais realistas e de dobrarmos mais nossos joelhos em oração, não para fugir do assunto ou mistificá-lo, mas para buscar sabedoria divina e preparo mais adequado aos clamores dos nossos dias.

Refletindo sobre a cooperação batista (2001)

A cooperação batista tem sido objeto de crescente reflexão em nosso meio por dois motivos principais: a infidelidade de algumas igrejas e convenções estaduais, em relação ao Plano Cooperativo e as divergências conceituais ou sentimentais que levam líderes do pensamento (ou do "bolso") dominante a apontarem a exclusão como solução de conflitos. Diante disso, coloco para reflexão o tipo de cooperação que almejamos por representar, provavelmente, o desejo de uma parcela significativa de batistas.

Almejamos uma cooperação que seja fruto de reflexão profunda e serena. Igrejas e Convenções Estaduais cometem equívoco quando reduzem ou suspendem o Plano Cooperativo em momentos de crise. Convenções que, na crise financeira, preferem o caminho da redução do Plano Cooperativo, em vez de aplicarem a austeridade, o enxugamento da máquina ou outro tipo de ação, ensinam suas igrejas, pelo exemplo, a fazerem o mesmo em situação semelhante; da mesma forma, igrejas que retém o Plano Cooperativo, por crise financeira ou porque seu ponto de vista não prevalece na Convenção, ensinam seus membros a fazerem o mesmo com o dízimo. Dízimo e Plano Cooperativo são fruto do mesmo princípio, o da cooperação.

Almejamos uma cooperação que signifique parceria. Ser parceiro é um ato espontâneo e consciente e não resultado de uma imposição. Uma parceria só é bem sucedida quando as partes envolvidas buscam fortalecer o que lhes é comum e a administrar as diferenças através do diálogo, da negociação ética e da transigência. O foco da parceria deve estar nos elementos que unem e não nos que separam. Uma parceria não será bem sucedida se os anseios das minorias não forem tratados com respeito e, muito menos, se alguns sempre quiserem impor seus pontos-de-vista em detrimento dos anseios dos parceiros. Há quem se sinta realizado quando, pela via da articulação política sectarista, consegue fazer prevalecer seus desejos em votações plenárias. Onde prevalece o sentimento de vitorioso e derrotado não há parceiros mas, adversários.

Almejamos uma cooperação em torno de princípios gerais. Os princípios são essenciais para uma convivência cooperativa. São eles que devem nortear a parceria das igrejas numa convenção e servir de parâmetro para a permanência ou não de uma igreja no rol convencional. Segundo Justos, (história de los bautistas...) há certo consenso em torno dos seguintes princípios:............... Leia as atas que registraram a aprovação da última Declaração Doutrinária da CBB e verá que há pontos que foram aprovados pelo voto de "metade mais um" dos presentes. Alguém acredita que a "metade menos um" mudou suas crenças por causa do resultado da votação? É claro que não. Por isso não podemos condicionar fidelidade a conceitos que prevaleceram por uma votação política, num determinado contexto histórico. Se assim fizermos, transformaremos nossas assembléias em tribunal de inquisição quando seu objetivo deve ser o de avaliar e encontrar caminhos mais eficazes em prol do crescimento do Reino.

Almejamos uma cooperação objetiva, austera e transparente. Uma cooperação em que os recursos financeiros sejam usados em projetos que representam as necessidades do povo e não o desejo isolado dos líderes. E, parece, o povo batista está querendo projetos de evangelização voltados não apenas para a perspectiva escatológica da fé, mas também para uma cidadania cristã engajada, baseada numa educação com bases bíblicas sólidas. O que menos se quer é articulações maquiavélicas de bastidores e corredores para fazer prevalecer projetos individualistas, em detrimento dos anseios coletivos.

Almejamos a cooperação por acreditar que é na caminhada solidária que podemos sonhar com o Reino de Deus se tornando visível na vida da humanidade, no ambiente onde ela se desenvolve e nas estruturas por ela criadas.

Pastores e psicólogos (2005)

Tenho falado em muitos cultos de formatura mas um deles, no último mês de agosto, teve um caráter especial. É que entre as formandas estavam Eleni Nalon (minha duplamente irmã) e Roberta Wanderley que, ainda como estudantes, nos ajudaram com outras psicólogas, na organização da Clínica de Psicologia do NASCE - Núcleo de Atuação Social Cristã Emanuel - de nossa Igreja.

Essa Clínica, atualmente com dez profissionais da Igreja atendendo diariamente a preços populares, além de ser um espaço de solidariedade, facilita muito o trabalho pastoral. Daí a minha reflexão em torno do tema em epígrafe.

Pastores e psicólogos tem algo em comum: ajudam pessoas, trabalham com a alma humana. A diferença é o ponto de partida, os pressupostos que norteiam cada prática. Psicólogos agem com base em referenciais teóricos, construídos a partir de estudos científicos (entenda-se “estudos científicos” sem o peso ideológico do absolutismo, de proprietários da verdade, acima de questionamentos...) enquanto pastores se baseiam nas Escrituras Sagradas que, construídas a partir da história de um povo e sua relação com Deus, passaram a ser defendidas como o único parâmetro em questões de doutrina e ética da Igreja, desde a Reforma Luterana.

Pastores e psicólogos podem caminhar juntos. Um exemplo é a experiência da psicóloga e teóloga Hanna Wolff narrada no livro Jesus Psicoterapeuta (Edições Paulinas, 1990). Quando teologia e psicologia são usadas a serviço do ser humano, o casamento pode acontecer. É só agir como o casal de porcos-espinho que, numa manhã fria de inverno procuravam aquecer-se mutuamente mas, não é difícil imaginar, enfrentavam alguns “espinhos”. Porém, na medida em que cada um demonstrava disposição para se ajustar um pouco aqui e ali, a aproximação tornou-se possível até que encontraram uma distância exata em que podiam extrair o máximo de calor, ferindo-se o mínimo, mutuamente.

Pastores não devem desprezar conhecimentos construídos cientificamente, nem psicólogos desprezar as Escrituras Sagradas. Nenhum psicólogo deve deixar de ler o livro mais vendido em todas as épocas. Não me refiro, necessariamente, a uma leitura com as lentes da competição, em busca de argumentação ou contra-argumentação para disputas pelo poder sobre indivíduos ou grupos sociais. Refiro-me à leitura na ótica de quem quer conhecer o livro que melhor retrata a alma humana e que, por isso, mais influência tem exercido sobre a cultura em que vivemos.

Pastores e psicólogos trabalham com indivíduos multidimensionais. Assim como os pastores devem reconhecer que as pessoas que os procuram também são portadoras de uma dimensão emocional, psicólogos devem entender que seus clientes também são portadores de uma dimensão espiritual. A experiência espiritual é tão forte e tão generalizada que não podemos desprezá-la ou minimizá-la e, conquanto seja subjetiva, deve ser encarada como objetiva "...na medida em que mediante um consensus gentium é partilhada por um grupo maior”. (Jung, Psicologia e Religião, Editora Vozes, 1999)

Pastores e psicólogos devem aprofundar sua vida espiritual, inclusive porque quanto mais conhecemos a Deus, melhor conhecemos o ser humano (da mesma forma que quanto mais conhecemos o ser humano, melhor conhecemos o seu "deus"). Se para lidarmos com as questões emocionais dos outros, é fundamental equacionarmos bem nossas questões emocionais, não menos importante é que equacionemos bem nossas questões espirituais para lidarmos com a espiritualidade alheia.

Tenho procurado cuidar da minha vida espiritual e emocional. Tenho me submetido a Jesus, como Senhor e Salvador e também já passei por processos psicoterapêuticos. Sinto-me, portanto, à vontade tanto para desafiar psicólogos a darem mais atenção à sua vida espiritual, quanto para desafiar pastores a investirem no cuidado com sua vida emocional. Assim agindo, fazemos um grande bem para nós mesmos, para a sociedade e, particularmente, para os que conosco convivem ou procuram nossa ajuda.

O corpo vai ao culto (2005)

O corpo vai ao culto. Se não fosse, o evento seria fantasmagórico, pois sem as cordas vocais, sons não seriam emitidos, não haveria pregação, cânticos, beleza ou alegria. Ele não vai nu. A nudez despertaria sentimentos e reações inadequados à ocasião. Já que vai vestido, cada um se veste a seu modo, à luz de crenças e objetivos particulares ou do grupo. Os que vêem Deus como autoridade governamental, se vestem formalmente, como se fossem encontrar um Presidente; os que O vêem como um amigo pessoal, comparecem vestidos informalmente. Uns respeitam essas diferenças de visão; outros, fundamentalistas, são capazes de matar para "uniformizar" a todos.

No culto o corpo se expressa de diversas formas. Por ser na “casa de Deus” e não na dele, em reverência, permanece a maior parte do tempo sentado e não deitado, podendo, no transcorrer da programação, se postar de outras maneiras.

O culto, neste caso, é coletivo por isso, o corpo é estimulado a expressar sua boa vontade para com o outro apertando sua mão. Originalmente essa expressão indicava que duas pessoas estavam literalmente desarmadas, dispostas a viver em paz. Hoje significa espírito desarmado, abertura para aproximação. Esse mesmo sentimento pode ser expresso através de um recíproco movimento dos músculos faciais, conhecido como sorriso.

Em alguns momentos do culto, um respeito maior é solicitado. Nesse caso, o corpo é convidado a expressar esse sentimento colocando-se em pé. Ao longo da vida, aprendeu que ficar em pé diante do outro pode significar respeito. Na escola, quando um adulto adentrava à sala de aulas, ele assim agia. No exército, aprendeu a expressar-se assim diante dos "superiores", batendo continência. Além disso, após longo tempo sentado, ficar em pé pode produzir relaxamento e, consequentemente, melhorar a performance litúrgica.

Em alguns momentos do culto, o corpo ajoelha-se. Isso é símbolo de humildade e reconhecimento da soberania divina. Alguns não gostam dessa postura por preconceito. Alegam que ajoelhar-se é prática de católicos ou pentecostais. Os que não pensam assim, respeitam a dificuldade de idosos ou doentes, os quais permanecem sentados, postura que, nesse caso, não significa desrespeito à divindade.

As mãos podem ser usadas para expressar alegria, reconhecimento, bênção, legitimação, adoração ou como instrumento acústico. O encontro da palma da mão direita com a da esquerda, produz som. A esse movimento dá-se o nome de bater palmas. Seja por consenso ou por imposição dos que detém o poder, nem sempre a alegria ou o reconhecimento podem ser manifestos através das mãos. A facilidade de se aceitar a expressão corporal de reverência ou humildade é maior do que a de alegria. O contato das mãos com algum instrumento musical produz sons agradáveis aos nossos ouvidos e, por isso, cremos que são também agradáveis aos "ouvidos" de Deus. Há pouca resistência ao uso das mãos ao final do culto ou em ocasiões especiais, quando são levantadas sobre a cabeça, simbolizando bênção ou legitimação. Também já se aceita em alguns cultos, a recomendação paulina para se levantar as mãos em adoração(I Tim. 2.8). Vez por outra se fala de mãos que foram usadas para dar soco ou para apertar o pescoço do outro em "cultos administrativos". Mas isso é outra história...

Balançar-se ou dançar, como expressão rítmica ou de alegria, é difícil para corpos envelhecidos. Por serem eles, geralmente, os que detém o poder de definir as regras do culto, esse tipo de expressão é tido como inadequado, afinal, "o que não é bom pra mim, não é para os todos..." Corpos mais jovens, cheios de saúde e vigor, sentem-se tolhidos, daí os conflitos.

Movimentar-se de forma harmoniosa e sincronizada também é um meio de comunicação de mensagens. Pode não ser tão eficiente como a comunicação oral mas produz efeitos positivos nos apreciadores de arte. Há os que têm problemas com a libido e olham mais para o corpo, do que para o que ele está se propondo, mas isso é outro problema. Se um corpo fica encantado com a beleza de algum(a) corista e não presta atenção à mensagem da música coral, o problema não é do coral. O problema, portanto, não está nos movimentos corporais, mas nos olhos de quem os assiste. Quando os olhos estão doentes, até uma afegã dentro de uma burca ou uma freira em seu hábito provoca encantamento e excitação.

O corpo vai ao culto mas não coloca o rosto em terra como símbolo de temor ou espírito de oração, expressões corporais comuns nos tempos de Jesus. Quando um corpo brasileiro vai ao culto, conquanto essa prática - colocar o rosto em terra - seja bíblica (Mt. 26.39; Mt. 17.6 etc.), ela não é usada. É que, graças ao senso crítico, à capacidade de aprender história, de pensar, de lidar com os símbolos, com a sexualidade, com a cultura ou com a política, nem todos os corpos se dobraram àqueles que impõem interpretações literais da Bíblia, para favorecer esta ou aquela expressão corporal.

Quanto à vontade de Deus, nu Ele enviou o corpo ao mundo e nu o corpo voltará a Ele. Por isso, durante a sua estada neste planeta, os corpos podem aperfeiçoar maneiras saudáveis de cultuarem, com objetivos claros, sempre visando a glória do criador.

Nossas crises (2001)

Crise é uma das palavras mais pronunciadas em nossos dias por representar a situação de uma série de instituições, de sistemas e de parcelas significativas da população. As que mais ouço são: crise espiritual, crise política, crise econômica, crise de emprego, crise energética, crise financeira, crise moral, crise da família, crise conjugal, crise de relacionamentos, crise denominacional, crise de identidade, crise doutrinária, crise existencial e algumas outras...

Falar em crise, na condição de analista é, de certa forma, confortável; vivê-la, porém, é bastante desagradável. Geralmente ela é acompanhada de uma boa dose de ansiedade, sensação de vazio, solidão, amargura, ressentimento, sofrimento enfim, com consequências dolorosas e imprevisíveis.

Uma das tentativas mais comuns de encará-la, segundo profissionais de diversas áreas do conhecimento humano, inclusive pastores, é definindo-a como sendo uma situação de oportunidades. E para criar aquele ar de autoridade e intelectualidade, informa-se que essa compreensão tem raiz numa determinada palavra chinesa. Eu mesmo, confesso, já usei esse argumento sem entender nada de chinês, mesmo tendo um trabalho com chineses funcionando na sede de nossa Igreja! Essa tentativa positiva de enfrentar a crise não deixa de ser interessante e até serve de consolo para quem está mergulhado num mar de incertezas; serve de alento, ajuda o ouvinte a respirar um pouco mais, mas, isoladamente tem pouca utilidade.

Compreender crise como acúmulo de problemas não resolvidos parece-me ser mais eficaz. Essa compreensão é pouco propagada pois, num primeiro momento, aumenta nossa crise, na medida em que exige coragem para parar, analisar nosso histórico, admitir e descobrir problemas colocados sob o tapete e solucioná-los, um a um. Isso implica, muita vez, numa revisão de crenças, valores, paradigmas que nem sempre estamos dispostos a fazer.

Se é verdade que a inexperiência nos torna mais susceptíveis a crises, é verdade também que, em alguns casos, entramos em crise porque somos medrosos, inseguros, conservadores e acomodados diante de problemas. A síndrome de Gabriela - eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim - personagem do recém-falecido Jorge Amado, toma conta de nós e insistimos em manter, sem justificativa plausível, costumes estabelecidos em circunstâncias bastante diferentes das atuais. Nossas conveniências pessoais, movidas em alguns casos pela necessidade de agradar os outros, a falsa crença de que, ainda que o mundo se acabe para outros não seremos atingidos ou o medo de se deixar guiar pela própria percepção e consciência da realidade, faz com que sejamos omissos e resistentes até, a mudanças de posturas diante de problemas. E o acúmulo, repito, de problemas não resolvidos, culminam em crises dolorosas.

Essa mesma compreensão de crise, como sendo um conjunto de problemas não resolvidos, pode ser aplicada a crises psicológicas. Nesse caso, geralmente o indivíduo não tem consciência de uma série de problemas interiorizados ao longo de sua história de vida e, por isso, pode precisar de auxílio de um psicólogo, profissional capacitado para tal. Através do uso de técnicas específicas, ele ajuda na compreensão e superação de sentimentos e comportamentos nocivos. Se uma empresa em crise, procura consultores qualificados para ajudá-la, indivíduos em crise, inclusive pastores, devem vencer preconceitos e procurar profissional de psicologia, em vez de mistificar a situação. Agindo assim, faz um tremendo bem para si, para os seus, para todos enfim que, de alguma forma, fazem parte do seu mundo.

Líderes conservadores ou de esquerda? (2001)

Em artigo publicado recentemente no Diário de Pernambuco, intitulado "Economistas de esquerda", Alexandre Rands Barros defendeu que três fatores básicos distinguem os economistas de esquerda, dos conservadores: "I. preocupação com a melhoria na distribuição de renda; II preocupação com a equidade das oportunidades individuais; III preocupação com a mudança nas relações econômicas e sociais básicas". (O texto completo está disponível aos interessados via e-mail). Sua leitura me levou a pensar em nós líderes, perguntando: somos, socialmente, conservadores ou de esquerda? Estamos preocupados com as questões sociais ou fazemos coro com os que dizem que não devemos nos envolver com essa dimensão da vida?

No meio batista, pelo investimento sério que tem sido feito numa educação teológica fundamentada em hermenêutica bíblica de boa qualidade, há uma crescente consciência do papel social da igreja. O que, entretanto, defendemos ou o que nos distingue, socialmente, como líderes? Qual tem sido, na prática, nosso posicionamento frente aos graves problemas sociais?

Ninguém pode ser classificado exclusivamente como conservador ou de esquerda. Cada pessoa, ainda que se enquadre predominantemente numa dessas tendências, pode adotar posturas conservadoras em algumas questões e de esquerda, noutras. Porém, quando o que está em discussão é a realidade social brasileira, não dá para titubear ou ficar sobre o muro. Ou nos posicionamos com clareza, no discurso e na prática, ou seremos mornos e passaremos para a história como socialmente irrelevantes, mesmo tendo estado em evidência no círculo denominacional.

Nem todos temos consciência de qual vertente predomina em nossos discursos e ações. Alguns por serem meros ativistas, outros por preguiça mental e outros ainda, por fazerem parte da minoria beneficiária do sistema vigente, não priorizam tempo para refletir sobre suas crenças, palavras e ações. Da triste realidade estampada nas manchetes diárias, são meros contempladores dos descaminhos da sociedade ou apenas usuários delas, como argumento de retórica, para fundamentar a desesperança nesta vida e a concentração de energias na espera do futuro, do céu.

De cada um de nós, é requerido que analise o discurso e a prática de Jesus, diante da realidade social do seu tempo, a fim de que sejamos seus imitadores. Foram diversas as realidades nas quais Jesus se envolveu. Ele lidou com questões espirituais, físicas, éticas, emocionais, morais, religiosas, etc.. Equivocadamente, destacamos uma dessas áreas, maximizando-a como se fosse a única. O pior é que, as vezes, enfatizamos exatamente a dimensão oposta, a da exigida na situação em que estamos inseridos. Exemplo: alimentamos a alma quando o corpo esta faminto ou nos preocupamos com o corpo, quando a alma está precisando de alento. Como Jesus, devemos ser sensíveis às necessidades que precisam ser atendidas, em cada contexto, a fim de cumprirmos adequadamente a nossa missão.

Precisamos ter coragem para confrontar nosso status quo. O "não vos conformeis com este mundo", de Paulo, deve servir de alerta permanente. Somos tendentes a acomodação, principalmente quando as circunstâncias nos são favoráveis. Nos esquecemos de que nem sempre a boa realidade, eventualmente vivida por nós, representa a realidade da maioria do povo brasileiro. Por isso, urge que nos posicionemos pela "melhoria na distribuição da renda, pela equidade das oportunidades individuais e pela mudança nas relações econômicas e sociais básicas". Se esta postura for classificada de esquerda...